quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A convivência de dois mundos - Hong Kong

Devolvida à China, Hong Kong ainda é um encontro entre Ocidente e Oriente

Texto: Peter Milko

O canal que separa a Ilha de Hong Kong de Kowloon concentra nas suas margens o centro econômico e financeiro do território
Dezenas de arranha-céus de dar inveja ao arquiteto mais ousado do planeta. Suas luzes coloridas se confundem ao anoitecer com as dos outdoors das marcas de eletroeletrônicos globalizados. Eles apontam para o céu, espetando a neblina baixa, que remete ao típico fog londrino. Só que estamos no maior centro financeiro da Ásia, criado pelos ingleses mas parte da China desde 1997, dono de um PIB de US$ 200 bilhões, espremido numa ilha minúscula, de 1.078 km2, que caberia com folga no bairro do Morumbi, em São Paulo. No outro lado da ilha, fica Repulse Bay, onde, para se chegar à praia, é preciso entrar em um templo budista com esculturas de dragões, deuses coloridos e incensos fumegantes espalhados à beira das águas do Mar da China. Dois mundos que se encontram e, aparentemente, se dão bem.

O “Porto dos Aromas”, como se traduz o nome Hong Kong do cantonês, é um caldeirão de contrastes e aparentes contradições, tão saborosas como sua culinária, que permite experimentar uma sopa de cobras ao estilo oriental ao lado de uma paella espanhola bem ocidentalizada. Passados nove anos, desde que a Inglaterra devolveu o protetorado à China, parece que estamos numa Londres de olhos puxados. Os carros têm a direção do lado esquerdo, ao contrário da China continental, onde, aliás, para entrar, é preciso passaporte; os ônibus são de dois andares, a moeda corrente é o dólar de Hong Kong, impresso pelo Hong Kong Shangai Bank Corporation e por outros bancos locais.


Nas ruas do bairro de Monk Kok, as iguarias chinesas são expostas para o pedestre fazer seu lanche

Com a famosa frase dos dirigentes chineses – “um país, dois sistemas” – Hong Kong mantém seu status de Meca do capitalismo, autonomia administrativa, sistema legal, moeda e alfândega, com direito de negociação de tratados (como tráfego aéreo e permissão de aterrissagem de aviões) e leis de imigração próprias. Mas é parte da China, cujo governo central, com seu regime fechado de partido único, é responsável pela defesa nacional e relações diplomáticas. A ilha – ao lado de Macau (a possessão portuguesa devolvida aos chineses em 1999) – usufrui da condição de Região Administrativa Especial, após 156 anos de domínio britânico. Na prática, Hong Kong está longe de ser parte da China, como pude atestar nas semanas em que percorri o sul do país.

História conturbada

Para começar, Hong Kong é mais do que uma ilha. Consiste em um arquipélago de quase 250 ilhotas e um pedaço do continente. Sua origem remonta à presença britânica no Império Chinês e seu interesse em obter a exclusividade de comércio no porto de Cantão, que levou às duas Guerras do Ópio. Vitoriosos na primeira guerra, em 1842, os ingleses garantiram o monopólio do lucrativo comércio da droga, a abertura de cinco portos chineses ao Ocidente e a posse de Hong Kong, então um remoto vilarejo de pescadores.Mas perceberam que a ilha não tinha água suficiente para a população, o que foi um dos motivos para nova guerra, em 1860, que resultou na anexação de uma área do continente, a Península de Kowloon (Sete Dragões, no dialeto cantonês), com a qual passaram a ter acesso às águas do rio Tong Kong. Não foi suficiente. Em 1898, os ingleses ocuparam outra área do continente, rebatizada de Novos Territórios, no qual foram incluídas as 235 ilhas que compõem a porção leste do delta do rio das Pérolas. Ficou combinado que toda a área permaneceria como protetorado britânico por um período de 99 anos.

No alto da colina na ilha de Lantau, reina o Buda de 202 toneladas

O mesmo rio das Pérolas transformou-se no século 21 em um problema ambiental que incomoda cada vez mais os “honkies”, como gostam de ser chamados os nativos de Hong Kong. O rio atravessa a província de Shenzen, onde o milagre econômico chinês mantém um número incrível de fábricas que abastecem o mundo de brinquedos, eletroeletrônicos e tudo o que se possa imaginar como “made in China”. A poluição dessas indústrias é jogada rio abaixo e corre para Hong Kong, onde vivem os donos de boa parte das fábricas, empresários e grupos financeiros. Sem falar do ar poluído que, segundo os “honkies”, vem do continente, como se chama agora, de forma polida, a "outra" China. A realidade é que a população de 7 milhões de pessoas, com seus carros e trânsito congestionado, não colabora muito para a questão ambiental.

Contrastes locais

Como pode um prédio residencial médio ter “apenas” 46 andares? Os edifícios de Hong Kong são tão altos que cobrem metade das colinas que emolduram a paisagem. No meio dos espigões de concreto, nota-se um andar vazado. Adivinha para quê? Dar saída para os ventos aterradores da média anual de seis tufões que costumam aparecer entre junho e setembro. Segundo me contam, os apartamentos desses megaprédios não medem mais do que 60 metros quadrados e muitas vezes abrigam famílias numerosas. Um dos moradores, que mora no 41º andar, conta que, em 2005, viu a sua casa ser invadida por 20 centímetros de água e o ar-condicionado cuspido para fora porque a vedação das janelas não funcionou.

Na ilha de Lantau, que abriga um dos aeroportos mais movimentados do mundo, além de uma recém-inaugurada Disneylândia, os mesmos prédios se espalham na planície que serve de entrada para as montanhas desabitadas da ilha, e ao Monastério de Po Lin, onde fica a maior estátua do Buda da Ásia, de 202 toneladas de cobre, com vista imperdível para o Mar da China. Sua silhueta é visível a quilômetros, sentado na posição característica de lótus, com as pernas cruzadas e mão direita espalmada, representando o momento de meditação.

Enquanto na China continental praticamente todos os templos foram varridos do mapa, em Hong Kong eles permaneceram. E não apenas os budistas. Na Hollywood Road, atrás do Banco da China, que lembra uma faca envidraçada apontando para o céu, bem no centro da ilha, o templo taoista mais antigo da cidade recebe uma escola atrás da outra. Tento respirar no ar carregado pelos incensos. O misticismo está em toda parte, mas bem disfarçado pelo ar ocidental gelado, em pleno verão escaldante, devido ao exagero de refrigeração em todos os locais – até mesmo no metrô.

No coração do centro financeiro da ilha de Hong Kong sobrevive o monastério taoista

Em toda parte se nota o desenvolvimento da medicina chinesa, baseada em produtos derivados de ervas, cada vez mais aceita no mundo todo. Em Hong Kong, a medicina chinesa foi identificada como uma promissora área de desenvolvimento industrial para fomentar o crescimento econômico local e deixou de ser uma especialidade de farmácias pequenas para se tornar um negócio com a participação de pesquisas nas grandes universidades.

Da mesma forma, o Feng Shui, a arte chinesa de organizar a vida de acordo com as forças da natureza, faz sucesso em Hong Kong, onde a posição de tudo é infuenciada pelos bons fluidos para o ambiente. Só isso pode explicar porque os andares do luxuoso Hotel Intercontinental pulam do 12 para o 15. “Deixamos fora o 13 porque é o símbolo do azar no Ocidente, e o 14 porque significa morte em breve para os chineses”, explica Sue Gam, gerente nascida em Cingapura. O que não falta em Hong Kong são estrangeiros.

Medo dos tubarões

Unindo ocidentais e chineses em Hong Kong está o chá, muito popular nos dois mundos. Perambulando pelas ruas de Kowloon, é possível ver as lojas especializadas em sua venda por toda parte. “Agora, a moda é o chá preto, que exige bule de cerâmica, pois precisa temperatura mais baixa”, diz Stella Wong, gerente de uma dessas lojas, enquanto prepara uma mistura da mesa de madeira finamente trabalhada para seus clientes. Ela só temeu pelo negócio em 2003, quando os casos de Sars (síndrome respiratória aguda grave) explodiram na cidade, fazendo turistas e homens de negócio evitarem a região por uns tempos. Mas, desde 2005, tudo voltou ao normal com uma vantagem: o medo da doença fez aumentar a limpeza da cidade, como se pode ver nas ruas de Mong Kok e Ladies Market, os bairros onde se compra tudo por muito pouco, sem garantia de procedência.

Nas encostas de Victoria Hill concentram-se as mansões dos empresários milionários e artistas famosos da Ásia, como o ator Jackie Chan, especialista em artes marciais. A maior parte dos negócios da China passa por Hong Kong, motivado pelo sistema financeiro e jurídico montado pelos ingleses, impostos baixos e pouca burocracia. Os honkies relaxam nas praias de areia branca, banhadas pela água morna do Mar da China. Afinal, estamos na mesma latitude do Rio de Janeiro, só que no Hemisfério Norte. Curiosamente, ninguém toma sol. Não é pelo medo de câncer, mas pelo preconceito. Pele escura lembra as mulheres filipinas, que são mais de 300 mil no território, trabalhando como domésticas e outras atividades menos nobres.

No formigueiro humano da península de Kowloon, não há espaço para carros; compra-se de tudo por preços mínimos
Tentei um banho para me refrescar do calor escaldante, mas ouvi um aviso: "banhar-se só nas praias com cerca submersa". Medo dos tubarões que já fizeram vítimas bem no estilo do nosso Nordeste, preferindo os surfistas. Os mesmos temidos tubarões são umas das iguarias do restaurante flutuante Jumbo, que acomoda até 2 mil pessoas por vez. Na baía de Aberdeen, ilha de Hong Kong, ele é passagem para conhecer a vila flutuante dos pescadores da etnia tankan. Nada muito limpo, pois é para água que vão direto todos os dejetos, mas já existem planos de despoluir a baía com recursos do governo.

Febre de tai chi chuan

Centenas de pessoas praticam a arte todos os dias pela manhã

Em meio às discussões comerciais e financeiras, os moradores de Hong Kong encontram tempo para praticar o tai chi chuan, uma variação do kung-fu que mistura ginástica, meditação e terapia. Praticado pelos chineses há milhares de anos, o tai chi tornou-se popular em várias partes do mundo. Em Hong Kong, é normal encontrar diariamente, ao amanhecer, centenas de pessoas em praças públicas fazendo exercícios. A palavra chave nesse caso é a harmonia, ou seja, o equilíbrio entre corpo, mente e espírito. No tai chi chuan, as pessoas imitam com gestos suaves e circulares os movimentos dos animais, do vento, das nuvens e das águas. De quebra, elas alongam os músculos, estimulam a circulação sanguínea e ganham energia para continuar suas atividades diárias.

A vida no "mundo à parte"

Mas se a questão é culinária, os botecos do bairro de Lan Kwai Fong dão de goleada, pelo menos para quem trabalha ao lado, no centro financeiro. E quem diria, bancária virou dona de botequim, com muito orgulho. “Para que vou ficar enfurnada o dia inteiro nesses prédios de vidro, se posso ajudar minha mãe e receber os clientes com quem trabalhava?”, comenta Gigi Wing, formada em economia, que deixou o Citibank há quatro anos para se dedicar ao restaurante da família depois que o pai morreu. Primogênita de seis irmãs, ela se mostra feliz da vida atrás do balcão, conferindo as contas das doze mesas do Ser Wong Fun, que lotam sempre na hora do almoço.

Além de ser rigorosamente “do outro lado do mundo”, Hong Kong é um mundo à parte. Pelo acordo político, até 2047 a cidade-estado vai gozar dessa relativa independência, liberdade de imprensa, democracia também relativa e autonomia financeira. O medo de uma invasão da China continental já passou, mas ninguém sabe como vai ser o futuro. Por enquanto, se trata de um maravilhoso caldeirão que mistura a Ásia com a Europa, e que não tem igual no planeta.

O autor viajou a convite da South African Airways, Intercontinental Hotéis e Hong Kong Tourism Board ( www.discoverhongkong.com.hk)

Revista Horizonte Geográfico

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