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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Cresce a escala de trabalho “996” nos Estados Unidos, prática proibida em seu país de origem desde 2021; entenda






Vem crescendo nos Estados Unidos, na carona da Inteligência Artificial (IA), a utilização da escala de trabalho conhecida como “996”. Surgida na China no início do século, a prática é hoje proibida no país asiático, mas está em ascensão nas empresas de tecnologia estadunidenses.


Originalmente, o nome dado à escala foi 996 porque representava o trabalho das 9h da manhã às 9h da noite, seis dias por semana. Hoje, porém, serve para nomear jornadas extenuantes, geralmente de cerca de 12 horas, sem finais de semana.

A escala 996 ganhou força na China no contexto do “boom” tecnológico no país, mas foi proibida no país em 2021, após protestos e críticas por conta dos recorrentes problemas de saúde, inclusive com mortes, causados pelo excesso de trabalho. Um dos casos que chamou atenção no país foi o de um jovem de 25 anos que morreu após sofrer uma hemorragia cerebral. Ele atuava em uma startup de tecnologia, que negou que ele estaria sobrecarregado, apesar de estar trabalhando sob a escala 996.

Os empresários entusiastas da escala 996 dizem que ela é necessária para aumentar a produtividade e, no caso das empresas relacionadas ao desenvolvimento de Inteligência Artificial, para que sejam capazes de participar da corrida por inovação. Seu discurso tenta convencer os trabalhadores de que o trabalho por mais horas e com menos dias de descanso é “parte da vida”, necessário para “fazer coisas incríveis”, além de revelar “paixão” pela atividade que desenvolve. Essa lógica acaba convencendo alguns trabalhadores, enquanto outros simplesmente têm de se submeter às jornadas exaustivas para se adequar ao mercado, já que nem todas as legislações são proibitivas e nem sempre a fiscalização é suficiente. A chance de “negociar” com o patrão, ilusória em quase qualquer caso, é ainda mais falsa quando determinados mercados apontam todos para o mesmo caminho.

É o que tem acontecido no Vale do Silício, região dos Estados Unidos onde estão concentradas as grandes empresas de tecnologia. Em entrevista à revista Wired, noticiada pelo portal Uol, Adrian Kinnersley, que administra uma empresa de recrutamento nos Estados Unidos, explicou que “a Califórnia é o epicentro da IA e de onde vem grande parte da cultura do 996 [nos EUA], além de ter as leis trabalhistas mais favoráveis aos funcionários de todos os Estados Unidos. Há quase uma histeria na pressa em criar produtos de IA, e muitas pessoas muito jovens e altamente inteligentes, nesse fervor, estão se esquecendo de todos os riscos que estão criando, de todas as enormes responsabilidades”.

Entre esses riscos e responsabilidades, está o adoecimento. Diversos estudos em diferentes países mostram aumentos consideráveis de casos de problemas cardíacos e AVCs quando a jornada aumenta. Isso vale para os trabalhadores mais visíveis dessas empresas de tecnologia, mas também para os “de fundo”.

Artigo publicado pelo Jornal da USP e assinado pelo professor titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da mesma universidade, Glauco Arbix, explica: “o universo virtual é movido a trabalho humano, que vai muito além dos programadores, engenheiros, estatísticos e cientistas de computação de dados. O glamour em que vive a elite do Silicon Valley nada tem a ver com os chamados ghost workers, trabalhadores mal-remunerados que imigraram para os EUA, que vivem em países africanos, se espalharam pela América Latina, que trabalham no Brasil, na Índia, no Quênia, na África do Sul e que respondem pela gerência invisível da informação, pela rotulação, classificação, mineração e preparação dos bancos de dados. A esse enorme corpo de trabalhadores nem sempre bem qualificados, certamente vai se somar a legião de adeptos do 996, em sua versão californiana ou de outros centros, que se dispõe a enfrentar os riscos e a incerteza de uma jornada extrema em troca de promessas de um bem-estar dourado e de contribuições ao sucesso de seus países na competição geopolítica movida pela IA. A ética desgovernada do sobretrabalho unifica jovens do Oriente e Ocidente que buscam no silício um sentido para seus negócios e suas vidas”.
Com informações da BBC, do Uol, da revista Wired e do Jornal da USP
https://sintrajufe.org.br/

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

O futuro do emprego


O mercado de trabalho da forma como conhecemos está em plena mutação. Ao mesmo tempo que as novas tecnologias ameaçam muitas vagas, também criam outras; e os próprios profissionais já não querem mais o estilo de vida das gerações anteriores


No ritmo acelerado das tecnologias digitais e móveis, o futuro já começou a reorganizar as estruturas tradicionais de emprego e o mercado de trabalho. O que, por si só, já deixa qualquer um inquieto, somado a crises econômicas gera ainda mais preocupação com desemprego em massa e inadequação aos novos modelos. A isso ainda se acrescenta, no Brasil, a acalorada discussão sobre a proposta de reforma trabalhista do governo. Processos estão sendo automatizados, algoritmos e robôs estão substituindo pessoas e a inteligência artificial ameaça até mesmo atividades intelectuais.

Assim como o mercantilismo, no século 16, e a industrialização, no século 19, a atual revolução digital está alterando os modos de produção, as relações comerciais e de trabalho. O Banco da Inglaterra calcula que, nos próximos 10 a 20 anos, as máquinas poderão ocupar 50% das vagas de emprego do país e dos Estados Unidos, incluindo funções administrativas, de escritório e de produção.

A notícia pode parecer ruim, mas não necessariamente. Enquanto alguns ofícios e profissões tendem a se desmanchar, novas atividades e vagas estão surgindo. A conectividade está transformando onde e como fazemos as coisas e criando a economia colaborativa. Apesar de assustadora, a automação promete liberar as pessoas de trabalhos mecânicos e repetitivos para exercer sua criatividade, raciocínio e habilidades sociais em atividades mais interessantes.

“O pagamento por hora – ‘bunda-cadeira’, como eu chamo – tende a ir se extinguindo e os trabalhadores passarão a ser mais cobrados e remunerados pelos resultados que gerarem no seu dia a dia”, afirma Caroline Batista, especialista em auto­liderança, uma categoria de coaching que nasceu em função da nova era. “As pessoas precisam ­assumir a gestão das suas car­reiras. Essa é a melhor coisa que você pode fazer para não ser pego de surpresa.”
Seu próximo trabalho

Com tantas tendências redefinindo as relações de trabalho (leia infográfico nas páginas seguintes), surgem também conceitos de carreira. Identificada ainda nos anos 1970, a “carreira proteana” derruba as tradicionais barreiras para prestação de serviços, sem limite de lugar físico nem de exclusividade com o cliente. O profissional é remunerado pelo conhecimento transmitido e pelo resultado gerado.

Já a “carreira inteligente” valoriza a forma de atuar de cada indivíduo. Como o conhecimento técnico todo mundo tem, passam a contar mais a experiência de vida de cada um e as competências que desenvolveu em prol da sua carreira. O profissional se torna uma espécie de mentor e é remunerado por isso.

Na “carreira sem fronteiras”, por sua vez, os profissionais são completamente independentes e trabalham para diferentes países; os pagamentos são feitos por cartão­ de crédito. Se a concorrência é globalizada, as oportunidades laborais também são.



Caroline lembra, porém, que a legislação brasileira, ainda muito engessada, não está preparada para esses novos formatos. O que a atual reforma trabalhista propõe aponta nesse sentido, mas ainda deixa questões sem resposta e assusta a concepção mais tradicional de emprego. “Além disso, é preciso pensar em um plano de migração para as pessoas que estão sendo substituídas por robôs”, alerta a coach.

Na Suécia estão ocorrendo experiências de redução da jornada de trabalho para seis horas diárias, por enquanto com bons resultados. E na Suíça a população foi chamada, em junho, para um plebiscito que decidiu se se estabelecia, ou não, uma renda básica universal para os cidadãos de todas as idades – independentemente de estarem empregados. Quase 80% rejeitaram a proposta.


Ocupação x realização

A carreira tradicional – tão focada em salário, nível hierárquico e status – vai perdendo lugar para outros critérios de sucesso. Nessa nova cultura em formação, o contracheque perde importância frente à autorrealização e ao sentido no que se está fazendo. Os profissionais de hoje estão interessados em causar impacto positivo na sociedade com seu trabalho.

Toda essa transformação começou com a geração Y (nascidos entre 1980 e 1995), também conhecida como Millennials, que entrou no mercado de trabalho questionando os modelos anteriores. Diferentemente da geração X (nascidos nos anos 1960 e 1970), que queria ascender rapidamente e chegar aos 30 anos ganhando muito dinheiro, os Y já não queriam mais se matar de trabalhar, preferiam ter tempo para ser felizes. Agora, com a chegada ao mundo laboral da geração Z (nascidos na era digital), as mudanças são ainda mais demandadas e velozes.

“A geração Z quer ser feliz o tempo todo, quer gostar do que faz como trabalho. É uma geração que vai passar por muitas carreiras na vida”, analisa Caroline. Ela mesma, hoje com 32 anos, já viveu na pele a passagem para outra profissão. Depois de dez anos na empresa de marketing que criou com colegas, não sentia mais vontade de continuar nessa área. “Na época já atuava como coach interno lá dentro, me identificava muito com essa atividade e fui me desenvolver nisso no exterior.”


Para a jornalista Claudia Giudice, demitida depois de mais de 20 anos numa mesma empresa (leia reportagem “Reescrevendo a própria carreira” ao final da reportagem), como parte de um enorme corte de funcionários – algo muito frequente nos dias de hoje –, essas mudanças são um ruído e um susto para sua geração e as anteriores. Para ela, a perenidade no trabalho não faz mais sentido. “A gente conseguia controlar os movimentos, agora não consegue mais.”

O lado bom, a seu ver, é realizar diferentes aptidões e desejos numa mesma vida e não precisar mais se prender a velhos modelos. “Não sabemos para que lado vão as profissões. Temos vidas produtivas mais longas e os jovens de hoje não vão mais começar e terminar a vida profissional na mesma carreira.” Mas reconhece que, para quem gosta de estabilidade e segurança, a situação é desafiadora: “está mais para o filme Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu!”

Por isso, ela defende que a melhor forma de lidar com as incertezas de hoje é se manter preparado para as mudanças. “Com o mercado como está, é bom ter à mão uma saída para a situação que se está vivendo.” Mas destaca que empreender não é a única saída. Sua sugestão é que as pessoas apostem no que gostam de fazer, em atividades que sintam prazer em fazer. 

A coach Caroline concorda. O fundamental é afastar as imposições familiares e conhecer a si mesmo para descobrir do que realmente se gosta. “Todos têm múltiplos talentos. Ninguém tem que ter nascido para atuar numa coisa só”, instiga. Hoje é possível fazer um hobby render dinheiro, sem necessariamente ter de empreender. Assim como não é mais necessário fazer uma faculdade. “As universidades, aliás,­ vão ter de evoluir para certificadoras de conhecimento dentro dessa realidade do conhecimento livre e sob demanda, como Harvard e Yale já começaram a fazer.” Para ela, no Brasil, títulos ainda costumam contar mais do que a experiência. “Lá fora é o inverso.”
Choque geracional

Mesmo o empreendedorismo ganha hoje novos contornos. Com 27 anos, Francisco Forbes (leia reportagem “Máquina de empreender” ao final da reportagem) pode falar disso com propriedade. Já pôs de pé três empresas de sucesso e ensina em três universidades. Ainda acha tempo para pilotar helicóptero e estudar saxofone – se declara apaixonado por jazz. “O jazz­ não é o que, é o como. É a forma como se faz. Posso tocar qualquer música jazz.”

O aplicativo Uber e o táxi: maneiras diferentes de fazer a mesma coisa

Para ele, a forma de fazer as coisas é o que marca o novo mercado: o sistema de aluguel de acomodações Airbnb e o de transporte de passageiros Uber, por exemplo, fazem basicamente o mesmo que a rede hoteleira e o taxista já faziam, mas de um jeito diferente.

No caso do empreendedorismo, as grandes diferenças com os negócios abertos pelas gerações anteriores é que as empresas iniciantes (startups) de hoje já não estão pensadas para dar lucro, mas sim para durar menos tempo e serem vendidas. “Além de dependerem de injeção de capital para ter um impulso de crescimento”, lembra.

O ambiente organizacional nas startups – até mais do que em outras empresas – enfrenta o choque geracional: os profissionais mais velhos se sentem incomodados de ser liderados por pessoas da idade dos filhos, e os mais novos vêm criando resistência em trabalhar com quem pensa de forma muito diferente da deles. “Mas precisamos nos entender, não vamos conseguir viver de uma geração só. Precisamos das habilidades que os mais velhos podem trazer.”

Esse atrito entre gerações acontece nas empresas e em casa. “Os pais estão claramente discordando de os filhos fazerem essa migração do conforto e estabilidade do emprego tradicional, para o risco do modelo de startup”, comenta Francisco Jardim, sócio-fundador do fundo de investimento SP Ventures. Isso porque as empresas iniciantes oferecem salários mais baixos e quase nada de benefícios, mas dão aos funcionários participação acionária. “É como trocar conforto e benefício de hoje pelo potencial futuro”, diz.

Se as gerações anteriores buscavam bônus semestral e anual, plano de saúde e de carreira, hoje, segundo Jardim, a garotada está pedindo outras coisas. Principalmente: propósito (uma missão no planeta), autonomia (ninguém está mais disposto a ser microgerenciado, querem liberdade para poder criar e pensar) e espaço para exercer o próprio potencial (oportunidade de crescimento pessoal e profissional conjunto). “Um exemplo disso tudo é o Google que, por exemplo, permite aos funcionários dedicarem 20% do seu tempo ao que quiserem.”

O futuro do emprego promete responder às mudanças do mercado e, em grande parte, ao desejo dos profissionais. A revolução que vivemos não é só digital, mas também comportamental.

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Reescrevendo a própria carreira

Claudia Giudice começou sua carreira de jornalista com 16 anos e ficou por mais de duas décadas na mesma empresa, escalando a hierarquia corporativa. De repórter estagiária chegou à diretora superintendente de marcas femininas da Editora Abril. E planejava se aposentar ali em 2020, para então assumir a Pousada A Capela, em Arembepe (BA), que abriu em sociedade com uma empresária local, Níl Pereira, em 2012. Mas, em 2014, foi demitida em um grande corte. Experiência que inspirou a criação do seu blog Vida sem Crachá, editado em livro no ano passado.

Apesar de Claudia já ter uma carta na manga, a demissão a deixou desorientada por certo tempo. A primeira atitude foi mudar sua forma de consumir. Cada dinheiro economizado era um tempo a mais para decidir o que ia fazer. Trocou o carro pela bicicleta, cancelou a TV por assinatura, mudou para uma casa menor. “Liberdade individual é proporcional à segurança financeira. A gente descobre que pode viver com muito menos e que é uma delícia.” Diferentemente do que se pode imaginar, Claudia não vê o momento como uma crise, mas como uma “transformação” devido à revolução digital. “Estamos dentro do processo histórico e é difícil avaliar o quanto isso significa. Quero viver mais uns 20 anos para poder falar disso como testemunha ocular da história.”
Menos pressão, mais exigência

Enquanto a sócia cuida da parte mais operacional na pousada, Claudia responde pela gestão das reservas, pelo financeiro e pelo marketing, atividades que pode executar a distância. (Durante a semana, ela geralmente está em São Paulo.) Claudia acredita que trabalha mais como empreendedora do que como funcionária. “Não tenho mais a pressão do chefe. Mas sou mais exigente agora do que era como executiva.” Nem por isso parou por aí. A dupla está abrindo uma loja para vender arte popular e móveis (que já atraíam o interesse dos hóspedes da pousada) e administrar reformas e manutenções, para atender as casas de veraneio da vizinhança. —–
Com música e dentes

O confisco da poupança, em 1990, época em que a inflação passava dos 100% ao mês, levou o então dentista Carlos Althier de Souza Lemos Escobar a perder tudo o que tinha, inclusive sua clínica. “O Brasil me fez fechar as portas e dispensar 17 funcionários”, lembra do episódio ocorrido quando tinha 53 anos de idade. Aquela crise só não tirou a música de Guinga, como é conhecido o violonista de renome internacional.

Seu caso com o violão era antigo, mas foi interrompido pelo consultório. Já com 16 anos, Guinga acompanhava artistas como Beth Carvalho, Clara Nunes e Cartola. Como músico mal pago que precisava se sustentar, decidiu viver como doutor quando entrou na faculdade de odontologia, aos 20 anos. “Não me arrependi de ter mudado. Tive muitos anos de estabilidade e pude formar minha família.” De forma alguma a vida foi fácil. Trabalhava de 6h30 às 22h, de segunda a sábado, sem nunca tirar férias. Mesmo assim, nunca deixou de tocar. “Quando a gente quer, sempre arranja tempo. Compunha muito no consultório. Mas minha ideia era voltar para a música só quando tivesse meu cavalo amarrado na sombra.”

Ele reconhece que a situação hoje não está boa. “No Brasil, o mercado sempre foi complicado.” Por isso aprendeu a diversificar. Só no primeiro semestre deste ano foi três vezes à Europa e uma aos Estados Unidos para fazer shows. “Hoje, com 66 anos, tenho nome firmado; não vendo muito, mas sou bem-sucedido e respeitado.” —–
Máquina de empreender

Ainda no ensino fundamental, Francisco Forbes começou a programar e desenvolver sites. O pagamento era feito na forma de permutas com as empresas que atendia. Apesar de ter se formado arquiteto no Brasil e estudado cinema nos Estados Unidos, nunca trabalhou com nada disso. Ligou-se cada vez mais ao mundo digital e se tornou um empreendedor em série.

Depois de trabalhar com marketing digital nos EUA, voltou ao Brasil, em 2007, decidido a abrir sua própria empresa na área. Driblou as dificuldades se tornando o braço digital de grandes agências de propaganda. “Em um ano já tinha 70 funcionários. Aprendi errando de todas as maneiras possíveis. Descobri o que era imposto, tomei processo trabalhista e levei golpe”, conta.

Quando fundos de investimento ao estilo norte-americano vieram para o Brasil, Forbes participou de uma série de startups, como Groupon, Dafiti, Submarino, assim como dos próprios fundos. Logo um desses fundos comprou sua agência e, com outros dois negócios, montou a Infracommerce, da qual Forbes foi vice-presidente por dois anos. Hoje, ela é o maior distribuidor de tecnologia e desenvolvimento para comércio eletrônico da America Latina, com clientes do porte de Danone, Unilever e Ray-Ban.

Forbes saiu de lá em 2014 para montar a Seed, empresa que leva ao varejo físico a mesma inteligência das métricas usadas no e-commerce. Um robozinho instalado na porta da loja e integrado ao caixa conta quantas pessoas entraram, se compraram, o que compraram, se voltaram outro dia, etc. “Com essas informações, varejistas como Ponto Frio, Centauro, Ri Happy, bancos e aeroportos podem tomar decisões sobre promoções, investimentos em marketing, reformas físicas e otimizações.”

Cultura da horizontalidade

Apesar do extenso currículo, Forbes ainda tem 27 anos. “A barreira do tempo acabou. Hoje tenho mais valor – do ponto de vista de geração de dinheiro e de receita – do que muito executivo com 20 anos de empresa”, diz. Ele destaca que sua geração está criando uma nova cultura marcada por horizontalidade, colaboração, transparência e ética. “As notícias correm muito rápido – para o bem e para o mal. Antes era preciso sair nos jornais, hoje basta o Facebook.” 

Recentemente, ele foi convidado a ser sócio de uma cervejaria. Mas alerta que o sucesso não vem fácil: é preciso trabalhar muito. “VIvo uma constante angústia de liquidez, não controlo minha agenda e já fui parar no hospital por estresse.”
Revista Planeta

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Desemprego e precarização vêm à tona

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BRASIL
 Euzébio Jorge Silveira de Souza, Ana Luíza Matos de Oliveira e Barbara Vallejos Vazquez

Imagem por Caio Borges


Os argumentos de “modernização” do trabalho para retirar direitos são os mesmos utilizados no século XIX, que geraram sociedades pauperizadas e violentas

A reforma trabalhista completou em agosto nove meses de vigência e já é evidente seu fracasso na missão de criar mais empregos formais de qualidade e contribuir na retomada do crescimento econômico.

Com o aprofundamento da crise econômica a partir de 2015, o Brasil acompanhou os malabarismos teóricos de economistas ortodoxos para estabelecer uma relação causal entre a superação da crise econômica e a destruição do aparato político e institucional que promovia seguridade ao trabalhador e mitigava a assimetria no mercado de trabalho. A reforma trabalhista, mal debatida e aprovada em tempo recorde pelo Congresso em julho de 2017, foi apresentada como medida imprescindível para a “modernização” das relações de trabalho no país e para a superação da crise econômica. Os mesmos defensores da austeridade1 que transformou uma desaceleração em recessão econômica em 2015 defendiam a reforma trabalhista como saída para a crise.

A reforma, ao flexibilizar as relações de trabalho, reduzir direitos trabalhistas, permitir a livre negociação entre trabalhadores e empresários e deixar que o próprio mercado defina níveis de remunerações e condições de trabalho, contribuiria para a retomada do crescimento econômico, segundo seus defensores. Tal pensamento é baseado na ideia de que o mercado de trabalho brasileiro não era flexível e que o desemprego e a queda da atividade econômica são responsabilidades dos trabalhadores. Em primeiro lugar, o Brasil possui um mercado de trabalho historicamente marcado por informalidade, alta rotatividade, baixos salários e desrespeito à regulação do trabalho. Ademais, a pressuposição de que os trabalhadores são responsáveis pelo desemprego está fundada na ideia de que estes preferem o desemprego a trabalhar por baixos salários – o que justificaria retirar direitos trabalhistas como seguro-desemprego, com o propósito de combater o “corpo mole”. Por outro lado, o nível de emprego depende do volume de gastos e investimentos na economia como um todo: buscar entender o nível de desemprego observando apenas o mercado de trabalho é como tentar apreender o funcionamento do motor de um carro olhando para suas rodas.

Até poucos anos atrás, as estatísticas oficiais acerca do trabalho não haviam sido capazes de incorporar especificidadesbrasileiras e ao mesmo tempo adequar-se a padrões internacionais de medição das situações de emprego e desemprego. No entanto, com a Pnad Contínua (PnadC), houve uma tentativa de medição mais complexa de fenômenos que impactam os mercados de trabalho periféricos como o Brasil (ao contrário da Europa): subemprego, desalento, entre outros, consolidados no indicador “Subutilização da força de trabalho”.


Sobre esse indicador, do segundo trimestre de 2017 para o segundo trimestre de 2018, cresceu de 26,3 milhões para 27,6 milhões a quantidade de pessoas subutilizadas, isto é, os subocupados por insuficiência de horas trabalhadas, os desocupados e a força de trabalho potencial. Para comparação, antes da adoção das políticas de austeridade no Brasil (o que ocorreu a partir de 2015), havia no país 15,3 milhões de subutilizados no segundo trimestre de 2014, quase a metade do número hoje.

A análise desse indicador composto revela que, à dessemelhança do que se observa em mercados estruturados, no Brasil existe uma ampla gama de situações que não podem ser adequadamente mensuradas pelo binômio emprego/desemprego. Aliás, o grande aumento do total de desocupados (+101%) no Brasil desde 2015, início da crise econômica – 6,4 milhões de pessoas em dezembro de 2014 para 12,9 milhões em junho de 2018 –, foi acompanhado pelo aumento do subemprego e do desalento, sintomas dos tempos presentes. O desalento chegou a 4,8 milhões no segundo trimestre de 2018, ponto mais alto da série histórica. De dezembro de 2014 a junho de 2018, o número de trabalhadores em situação de subemprego aumentou 38%, e a força de trabalho potencial, 91%.

Entretanto, a reforma prometia, além de reduzir a desocupação e o desalento, gerar novos postos de trabalho. Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o saldo de emprego formal entre novembro de 2017 e junho de 2018, período de vigência da reforma, é de 3.226 postos. Já o saldo de geração de empregos intermitentes é de 22.901, e de postos em tempo parcial, de 12.507. A PnadC revela também uma degradação do mercado de trabalho, expressa na redução em 10,1% do total do emprego com carteira assinada no Brasil, passando de 36,5 milhões para 32,8 milhões entre outubro, novembro e dezembro de 2014 e abril, maio e junho de 2018, ponto mais baixo da série histórica. Entre o quarto trimestre de 2014 e o segundo trimestre de 2018, houve recuo da ocupação, que passou de 92,9 milhões para 91,2, representando uma queda de 1,8% no período e aumento no total de empregadores (10,1%), dos trabalhadores por conta própria (6,0%), do emprego sem carteira (4,8%) e do trabalho doméstico (4,8%).

E é bom lembrar que os argumentos de “modernização” do trabalho para retirar direitos são os mesmos utilizados no século XIX, que geraram sociedades pauperizadas e violentas. Na mesma linha, a reforma agrava problemas históricos brasileiros, como alto desemprego e informalidade, degradação da qualidade dos postos de trabalho formais, grande peso do desemprego oculto por situações de trabalhos precários ou desalento, que acabam empurrando os desempregados para a inatividade.

A partir da reforma tem ocorrido uma substituição de ocupações mais estáveis, como emprego por tempo indeterminado, por ocupações em tempo parcial e contratos intermitentes, PJs, terceirizados etc. Em suma, o impacto real da reforma trabalhista não se deu sobre o desemprego, que persiste, e sim nos postos de trabalho formais, que estão sendo paulatinamente substituídos por contratos precários.

*Euzébio Jorge Silveira de Souza é mestre em Economia Política pela PUC-SP, doutorando em Desenvolvimento Econômico na Unicamp, presidente do Centro de Estudos e Memória da Juventude (CEMJ) e conselheiro do Conselho Nacional de Juventude (Conjuve); Ana Luíza Matos de Oliveira é professora visitante da Flacso-Brasil e economista pela UFMG, mestra e doutoranda em Desenvolvimento Econômico na Unicamp; e Barbara Vallejos Vazquez é mestre em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp, graduada em Ciências Sociais pela USP, técnica do Dieese e professora da Escola Dieese de Ciências do Trabalho.

1 Essa política de austeridade teve e tem profundos impactos no mercado de trabalho e nos gastos sociais, e é analisada no estudo “Austeridade e retrocesso: impactos sociais da política fiscal no Brasil”, Brasil Debate e Fundação Friedrich Ebert, São Paulo, ago. 2018. Disponível em: .
LE MONDE DIPLOMATIQUE

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O que nos espera no futuro do trabalho?

A pesquisa Future of Work feita pela ADP traz 5 tendências mostradas pela força de trabalho no Brasil e no mundo
Redação



M udanças tecnológicas e culturais sempre nortearam o desenvolvimento dos espaços de trabalho, o que está acontecendo cada vez mais rápido e englobando cada vez mais pessoas. O efeito dominó desses avanços e as mudanças em massa apresentam impactos signi ficativos na forma como as pessoas vivem e trabalham em todo o mundo. A tecnologia, em particular, tem permitido aos funcionários uma maior sensação de liberdade, e ciência e conectividade, sem as limitações tradicionais de tempo e lugar.

A ADP, empresa líder global em soluções de Gestão do Capital Humano, levantou informações para descobrir quais são as maiores mudanças do mundo do trabalho e quais as tendências esperadas para os próximos anos. Nesse estudo, intitulado Future of Work, foram entrevistadas mais de 2 mil pessoas que trabalham em empresas com 250 ou mais empregados, no Brasil e em países como Estados Unidos, Canadá, México, Chile, Reino Unido, França, Alemanha, Holanda, Austrália, China, Índia e Cingapura.

A seguir, estão 5 principais pontos que guiarão o futuro do trabalho, de acordo com o estudo:

1. LIBERDADE
As pessoas querem liberdade para desfrutar de suas vidas. Um índice de 77% dos brasileiros quer ter controle e exibilidade para fazer o seu trabalho quando, onde e como quiser. Essa liberdade de escolha tem sido amplamente concedida, em razão do aumento da capacidade e da facilidade para trabalhar a partir de dispositivos móveis.

2. CONHECIMENTO
Acesso às pessoas, ferramentas e informações necessárias para fazer seu trabalho, além de tempo para aprender novas habilidades enquanto realizam seus deveres. Essa necessidade nasce da demanda dos empregadores em ter funcionários que produzam mais, em menos tempo, e que façam parte de uma força de trabalho multiquali ficada. Um total de 75% dos brasileiros entrevistados acha provável a adoção de tecnologia como o principal instrumento de aprendizado e registro de novos conhecimentos no meio corporativo.

3. AUTOGESTÃO
A tecnologia permitirá ainda mais independência para que as pessoas administrem sua produtividade e seu desempenho e que também recebam feedback e reconhecimento em tempo real. Isto, provavelmente, irá remover as barreiras à colaboração e redefinirá a relação entre funcionários e seus gerentes. No caso do Brasil, a implementação dessas tecnologias é vista como improvável por parte dos funcionários. Apesar de desejarem, apenas 39% dos entrevistados acreditam que as empresas do País irão investir em sistemas de autogestão nos próximos anos.

4. ESTABILIDADE
A possibilidade de buscar talentos ao redor do mundo por meio de recursos tecnológicos e contratar trabalhadores por demanda, ao invés de funcionários de longo prazo, vai se tornar mais atraente para as organizações. Isso pode trazer um nível de incerteza que prejudica a estabilidade da força de trabalho, pois, certamente, a competitividade crescerá e poderá ser mais difícil encontrar um trabalho. Apesar disso, os brasileiros parecem não temer essa tendência: 61% dos entrevistados acreditam que as empresas do País não adotarão essa tendência.

5. SIGNIFICADO

O salário já não é um motivo suficiente para as pessoas irem ao trabalho; elas precisam de algo maior – projetos que tenham um signi ficado importante, que causem impacto na sociedade e que bene ficiem o bem-estar das pessoas. Trabalhar para organizações que tenham metas alinhadas às aspirações pessoais traz mais signi ficado e propósito em sua vida e também demonstra, por parte da empresa, um comprometimento com as pessoas que lhe prestam serviços. Outra tendência mundial que difere na opinião dos brasileiros: somente 36% dos entrevistados consideram fundamental trabalhar em projetos alinhados às suas aspirações pessoais.
Revista Geografia

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Informalidade: a ilegalidade dos pobres e a flexibilização dos ricos

Rosana Pinheiro-Machado
Nós naturalizamos uma lógica insana que trata a informalidade dos pobres como crime e a dos ricos como flexibilização



Rovena Rosa/Agência Brasil/Fotos Públicas 


Manifestantes e trabalhadores informais correm durante dispersão de protesto contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo, em janeiro de 2016

Durante os protestos do domingo 18 em São Paulo, uma ambulante que vendia bebidas em um isopor foi brutalmente reprimida por dois policias militares. Ela foi atirada e imobilizada no chão enquanto gritava para que a deixassem em paz. Eu assisti essa cena na televisão de um mercadinho, quando uma senhora muito simpática soltou um comentário: "bando de marginal".

Tanto a mulher apanhando quanto a mulher assistindo recompõem fragmentos de uma cultura mais ampla. São atos banais e cotidianos. A ambulante sendo violada de seus direitos, nesse sentido, só ganha visibilidade e comoção porque se entrecruza com os protestos “Fora Temer”, a violência policial e o grito pela extinção da Polícia Militar.

Longe das manifestações, a invisibilidade, a naturalização e a institucionalização da violência simbólica e física que os trabalhadores de rua recebem diariamente mantêm-se como um dos maiores males do país.

E isso ocorre por uma razão muito simples: ao tacharmos de “marginais” aqueles que querem trabalhar, estamos colaborando para a sua marginalização. Ou muito pior: estamos legitimando a violência policial daqueles que aprendemos a achar que são mais merecedores de cacetes que nós.


É preciso urgentemente reascender o tema da economia informal no debate público, com menos rancor e mais embasamento. A informalidade urbana não é praticada por “vagabundos e desocupados que incomodam as ruas e ganham dinheiro fácil” – para citar alguns dos clichês.

Ela é antes um problema de todos nós porque nenhuma discussão sobre desenvolvimento pode ser feita sem que mudemos a nossa forma de pensar sobre ela.

Nós naturalizamos uma lógica insana – tremendamente burra e autodestrutiva – que trata a informalidade dos pobres como crime e a dos ricos como flexibilização. Tem algo muito errado em uma sociedade que ignora que uma ambulante apanhe em nome da legalidade, mas também faz vista grossa aos sonegadores que vestiram verde amarelo pelo fim da corrupção.

A legalidade é revestida de diferentes pesos jogados sobre diferentes relações de poder.

Aqueles que precisam de incentivo para crescer e se formalizar são humilhados e criminalizados cotidianamente. Aqueles que, por outro lado, já acumularam diversos capitais para além do econômico – incluindo prestígio e boas relações sociais – são vistos como vítimas de um sistema tributário injusto.

Ou seja, nós temos um aparato social, econômico e cultural que torna o trabalho dependente de uma classe restrita que faz de tudo para reproduzir, por gerações e gerações, a sua fortuna e o seu monopólio.

Aqueles que, por baixo, querem entrar na esfera produtiva são literalmente postos para correr. Enquanto isso, no andar de cima, busca-se mais flexibilização, terceirização e aumento da carga-horária de trabalho.

Ora, está tudo errado nesta lógica de classificar diferentemente a informalidade de acordo com a classe social. A régua da legalidade, que idealmente deveria ser aplicada a todos de forma indiscriminada, na prática só vale para a base da pirâmide. Quando foi que nós vimos gangsteres da política e do mercado nacional sendo chutados como vira-latas pela polícia?

Por outro lado, por que estamos tão acostumados a ver os camelôs correndo da fiscalização – e até achamos graça da cena?

Uma informalidade é considerada limpa, justa e legítima; a outra, suja, injusta e perigosa.

Mas colocando na escala da justiça social, essas duas manifestações de informalidade são iguais? É claro que não. O Brasil é um país construído sobre feridas profundas de desigualdade social e racial e, portanto, uma mulher da periferia que vende de bebidas nas ruas não compete no mercado com os privilégios de quem sonega milhões. Há diferenças em todas as escalas de discussão.

Sim, eu defendo dois pesos e duas medidas aqui. É preciso taxar e fiscalizar as grandes fortunas do Brasil, de um lado. De outro, temos o desafio mais difícil: reconstruir um sistema burocrático, tributário e, principalmente, social e simbólico que seja mais aberto e amigável aos trabalhadores informais urbanos de baixa renda.

No meio disso tudo tem o pequeno empreendedor, que tenta pagar todos os impostos e se sente injustiçado pela competição do ambulante. Quando esse comerciante, dono da padaria ou do mercadinho se queixa, alegando que ele faz um esforço brutal para manter funcionários, ele tem razão. O que nós precisamos, portanto, é mudar o entendimento de onde se situa o injusto.

A criminalização do trabalho informal 
 
 
Camelôs da região do Brás, em São Paulo, protestam contra a morte do trabalhador Carlos Braga por um policial militar, em 2014

Historicamente, desde o século XIX, a sociedade brasileira tende a marginalizar e criminalizar a parte de baixo da sociedade, associando o trabalho de rua à vadiagem, vagabundagem e bandidagem.

Nessa lógica, esse é o país que não deu certo. Mas isso não passa de uma construção histórica, moldada por interesses particulares e, portanto, passível de mudança.

Todo mundo que conhece a realidade da economia informal urbana de perto, sabe que, com raras exceções, ninguém gosta de correr da polícia, não ter regulamentação e apanhar sol, chuva, vendo, calor e frio. É uma questão identitária, de reconhecimento social.

Não é à toa que muitos dos camelôs com quem eu interagia por muitos anos, emolduravam a autorização municipal e exibiam-na em suas bancas. Eles acreditavam no valor de seu trabalho, dos bens que levaram à população mais carente. Colocavam perfume nos produtos e neles próprios: “é para que os clientes entendam que somos limpos” – dizia uma amiga camelô.

Mas, reproduzindo a mesma crítica que eles sofriam dos comerciantes do varejo, eles próprios também criticavam o ambulante irregular, que não precisava pagar aluguel de banca no camelódromo. Em certa medida, todo mundo se acha honesto e acha que o sistema é desleal.

E é.

Portanto, temos um problema de foco de atenção. A crítica deve recair sobre aqueles que, tendo todas as condições e privilégios, ainda sim desviam milhões por meio de sonegações de impostos, retirada de direitos trabalhistas e licitações fraudulentas.

O meu ponto é que nós precisamos valorizar a força produtiva popular, nossa classe trabalhadora. Isso só vai ocorrer se nós pararmos para escutá-la e, assim, retirar diversas camadas que a demonizaram ao longo da história.

De um lado, urge que o sistema burocrático e tributário seja mais flexível com os ambulantes e pequenos comerciantes. São todos empresários à sua moda, fazendo a roda da economia girar.

É bem verdade que eu posso aqui ser facilmente acusada de “liberal”. Mas minha perspectiva é outra: eu concordo com Akhil Gupta (no livro Red Tape) que considera a burocracia uma forma de violência estrutural para com os mais pobres, uma máquina de matar e deixar morrer. É simplesmente uma questão de equação e justiça social.

Da mesma forma, é perfeitamente possível ter uma polícia mais tolerante e preventiva. Uma polícia que informe, dialogue e que não “esculache” – para usar a expressão de Lenin Pires, antropólogo que estuda economia informal.

De outro lado, na busca de um sistema mais equilibrado, precisamos avançar na discussão do que interessa: na taxação dos ricos e na fiscalização de suas fortunas.

Nós vivemos num mundo que – como recentemente analisou Keith Hart, que cunhou o conceito de setor informal nos anos 1970 – a informalidade tomou conta do mundo no século 21 e se legitima sob o guarda chuva da flexibilização do trabalho e do capital.

Mas essa legitimação da informalidade não vale para todos. Só para os ricos.

Eu ainda tenho clara em minha memória a cena do camelô Carlos Braga, que morreu nas ruas de São Paulo em 2014 com um tiro na cabeça de um policial militar. Sangue frio. Não houve confronto. Ele apenas tentava defender o seu colega.

Diversos vídeos mostram claramente que ele morreu gritando “deixem ele trabalhar”. Os policias foram absolvidos e o caso nunca virou notícia de grande repercussão. Afinal, é apenas um marginal morto. Quiçá, um bandido a menos nas nossas costas.

Tudo é mais fácil quando temos um inimigo, uma história pronta na cabeça que nos autorize a acreditar na safadeza alheia. Tudo é mais complicado, mas infinitamente mais recompensador, quando optamos pelo caminho mais difícil, da escuta e da compreensão histórica.

Desenvolvimento só existe quando as pessoas trabalham. Desenvolvimento só será viabilizado por meio do entendimento de que os criminosos não são aqueles que vendem “dez pilha a um real”, mas os que, de terno e gravata, assinam contratos obscuros e fraudam licitações.

Formalizar, incluir, legitimar o trabalho daqueles que querem trabalhar é uma tarefa urgente e necessária, mas que está ainda muito longe de nossos horizontes, de nossa cultura legal e de nosso julgamento de sofá.

Não há desenvolvimento social, e nunca haverá, enquanto tratarmos a nossa classe trabalhadora– aquela mesma que segura o país do colapso durante as crises econômicas – como o nossa principal inimiga. Nossos inimigos são outros. E eles estão no poder.
Revista Carta Capital

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