
Vem crescendo nos Estados Unidos, na carona da Inteligência Artificial (IA), a utilização da escala de trabalho conhecida como “996”. Surgida na China no início do século, a prática é hoje proibida no país asiático, mas está em ascensão nas empresas de tecnologia estadunidenses.
Originalmente, o nome dado à escala foi 996 porque representava o trabalho das 9h da manhã às 9h da noite, seis dias por semana. Hoje, porém, serve para nomear jornadas extenuantes, geralmente de cerca de 12 horas, sem finais de semana.
A escala 996 ganhou força na China no contexto do “boom” tecnológico no país, mas foi proibida no país em 2021, após protestos e críticas por conta dos recorrentes problemas de saúde, inclusive com mortes, causados pelo excesso de trabalho. Um dos casos que chamou atenção no país foi o de um jovem de 25 anos que morreu após sofrer uma hemorragia cerebral. Ele atuava em uma startup de tecnologia, que negou que ele estaria sobrecarregado, apesar de estar trabalhando sob a escala 996.
Os empresários entusiastas da escala 996 dizem que ela é necessária para aumentar a produtividade e, no caso das empresas relacionadas ao desenvolvimento de Inteligência Artificial, para que sejam capazes de participar da corrida por inovação. Seu discurso tenta convencer os trabalhadores de que o trabalho por mais horas e com menos dias de descanso é “parte da vida”, necessário para “fazer coisas incríveis”, além de revelar “paixão” pela atividade que desenvolve. Essa lógica acaba convencendo alguns trabalhadores, enquanto outros simplesmente têm de se submeter às jornadas exaustivas para se adequar ao mercado, já que nem todas as legislações são proibitivas e nem sempre a fiscalização é suficiente. A chance de “negociar” com o patrão, ilusória em quase qualquer caso, é ainda mais falsa quando determinados mercados apontam todos para o mesmo caminho.
É o que tem acontecido no Vale do Silício, região dos Estados Unidos onde estão concentradas as grandes empresas de tecnologia. Em entrevista à revista Wired, noticiada pelo portal Uol, Adrian Kinnersley, que administra uma empresa de recrutamento nos Estados Unidos, explicou que “a Califórnia é o epicentro da IA e de onde vem grande parte da cultura do 996 [nos EUA], além de ter as leis trabalhistas mais favoráveis aos funcionários de todos os Estados Unidos. Há quase uma histeria na pressa em criar produtos de IA, e muitas pessoas muito jovens e altamente inteligentes, nesse fervor, estão se esquecendo de todos os riscos que estão criando, de todas as enormes responsabilidades”.
Entre esses riscos e responsabilidades, está o adoecimento. Diversos estudos em diferentes países mostram aumentos consideráveis de casos de problemas cardíacos e AVCs quando a jornada aumenta. Isso vale para os trabalhadores mais visíveis dessas empresas de tecnologia, mas também para os “de fundo”.
Artigo publicado pelo Jornal da USP e assinado pelo professor titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da mesma universidade, Glauco Arbix, explica: “o universo virtual é movido a trabalho humano, que vai muito além dos programadores, engenheiros, estatísticos e cientistas de computação de dados. O glamour em que vive a elite do Silicon Valley nada tem a ver com os chamados ghost workers, trabalhadores mal-remunerados que imigraram para os EUA, que vivem em países africanos, se espalharam pela América Latina, que trabalham no Brasil, na Índia, no Quênia, na África do Sul e que respondem pela gerência invisível da informação, pela rotulação, classificação, mineração e preparação dos bancos de dados. A esse enorme corpo de trabalhadores nem sempre bem qualificados, certamente vai se somar a legião de adeptos do 996, em sua versão californiana ou de outros centros, que se dispõe a enfrentar os riscos e a incerteza de uma jornada extrema em troca de promessas de um bem-estar dourado e de contribuições ao sucesso de seus países na competição geopolítica movida pela IA. A ética desgovernada do sobretrabalho unifica jovens do Oriente e Ocidente que buscam no silício um sentido para seus negócios e suas vidas”.
Com informações da BBC, do Uol, da revista Wired e do Jornal da USPhttps://sintrajufe.org.br/
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