sábado, 14 de fevereiro de 2026

A fronteira do Matopiba: as novas faces da expansão do capital e seus conflitos


 

A fronteira do Matopiba: as novas faces da expansão do capital e seus conflitos, Marta Inez Medeiros Marques, Vicente Eudes Lemos Alves (organizadores), São Paulo: FFLCH, 2024

O livro explora a complexa dinâmica da expansão do capital na região do Matopiba, que abrange as zonas fronteiriças dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, onde está emergindo uma nova fronteira agrícola em larga escala. Destaca os conflitos socioambientais resultantes nessa região dinâmica e contraditória, um laboratório para as transformações do capitalismo semiperiférico.

2O livro inclui mais de vinte artigos e é dedicado à memória de Carlos Walter Porto-Gonçalves, um geógrafo influente.

Figura 1. Localização de Matopiba no bioma Cerrado e no território nacional.

Figura 1. Localização de Matopiba no bioma Cerrado e no território nacional.

3A seção “Perspectivas Teóricas e Históricas” analisa a noção de fronteira a partir de diversas perspectivas teóricas e históricas. Ela é examinada em relação ao desenvolvimento desigual do capital e às tensões ambientais. Marta Inez Medeiros Marques discute a expansão da fronteira agrícola no Brasil e suas implicações, e Vicente Eudes Lemos Alves aborda os impactos do agronegócio sobre as populações locais e o meio ambiente.

4A seção “Propriedade e Mercados de Terras  ” aborda as raízes da concentração fundiária e dos conflitos relacionados à terra no Brasil. O falecido Ariovaldo Umbelino de Oliveira apresenta uma visão geral da propriedade da terra e da grilagem (apropriação ilegal de terras). Fábio Pitta e Teresa Paris analisam os conflitos fundiários no sul do Piauí, exacerbados pela entrada de capital transnacional, e Samuel Frederico e Bruno Spadotto identificam os investidores financeiros no agronegócio entre 2008 e 2016.

Figura 2 Número de conflitos rurais – 1985-2023

Figura 2 Número de conflitos rurais – 1985-2023

5A seção "Questões Sociais e Territórios em Conflito" destaca as lutas das comunidades tradicionais contra a expansão do agronegócio: o movimento Teia, do Povos, luta pelo reconhecimento dos direitos territoriais das comunidades tradicionais; as comunidades quilombolas do sul do Piauí lutam para manter suas terras e sua identidade; e os Akwẽ-Xerente, no Tocantins, enfrentam desafios de sobrevivência e fragmentação social.

6A seção sobre "Impactos Sociais e Ambientais" examina as consequências do agronegócio no meio ambiente e nas comunidades locais. A expansão do agronegócio leva a conflitos relacionados à água e ao desmatamento, como ilustrado pelos protestos pela água em Correntina, em 2017. Os autores enfatizam que as questões da água e da terra estão interligadas e devem ser abordadas em conjunto.

7"Expropriação e Conflitos Sociais em Matopiba" explora a dinâmica da expropriação comunitária em Matopiba, destacando os impactos das políticas ambientais e dos interesses econômicos.

  • As alterações ao Código Florestal em 2012 facilitaram o "cercamento verde", permitindo a apropriação de terras e florestas.

  • Observou-se um aumento nos cadastros ambientais, ligado ao crescimento dos "negócios verdes" por parte de grandes empresas.

  • Os conflitos fundiários no Parque Estadual do Mirador, no Maranhão, foram exacerbados pela expansão da agricultura moderna desde a década de 1980.

  • As comunidades locais sofrem com a violência dos grileiros e com a poluição dos recursos hídricos causada pelas grandes operações agrícolas.

Figura 3 Conflitos de terras em Matopiba (2015-2022)

Figura 3 Conflitos de terras em Matopiba (2015-2022)

8O capítulo "Expansão de Capital e Agroeconomia" analisa a acumulação histórica e o impacto socioambiental da agricultura capitalista no Cerrado.

  • A região de Matopiba tornou-se uma "zona de sacrifício", caracterizada por uma alta concentração de terras e relações de trabalho precárias.

  • O investimento público na agricultura beneficiou principalmente os grandes produtores, exacerbando as desigualdades.

  • A produção de soja aumentou 92% em dez anos, atingindo 35 milhões de toneladas, enquanto a produção de culturas básicas diminuiu.

Figura 4. Cultivo de soja em Matopiba – 2015 e 2022

Figura 4. Cultivo de soja em Matopiba – 2015 e 2022

9A seção "Transformação Econômica e Social em Matopiba" destaca as transformações econômicas e sociais resultantes da expansão do agronegócio na região.

  • Matopiba se caracteriza pela especialização na produção de commodities , principalmente soja, milho e cana-de-açúcar.

  • A população rural está diminuindo, enquanto as cidades crescem rapidamente, atraindo migrantes.

  • A separação entre a propriedade da terra e a atividade agrícola intensificou-se, com o arrendamento de terras a aumentar de 235.000 hectares para mais de 1,8 milhões de hectares entre 1995 e 2017.

10"Finanças e Acumulação na Agricultura" examina o papel das finanças na acumulação de capital e na transformação das relações de propriedade na agricultura.

  • O setor financeiro possibilitou o fortalecimento do capital, com aumento dos ativos financeiros e instabilidade permanente.

  • As grandes empresas agrícolas concentram-se na apropriação do excedente em vez da produção.

  • A atual crise de capitais está ligada à sobreacumulação e à necessidade de encontrar novos mercados para o capital excedente.

11"Conflitos Territoriais e Resistência" destaca as lutas das comunidades tradicionais contra a apropriação de terras e a degradação ambiental.

  • Conflitos territoriais são frequentes entre comunidades locais e grandes empresas agrícolas.

  • As populações tradicionais estão se organizando para defender seus direitos territoriais e recursos naturais.

  • A resistência está se intensificando, com alianças estratégicas em diferentes níveis para combater a apropriação de terras.

12De acordo com "Globalização Financeirizada e seus Impactos", isso representa uma nova fase do capitalismo, marcada pela apropriação da mais-valia e pelo domínio das grandes empresas.

  • O setor financeiro evoluiu rumo à autonomização do capital, distanciando as operações financeiras dos processos de produção de valor.

  • Os mercados financeiros fomentaram uma instabilidade econômica permanente e a especulação sobre ativos muito distantes da produção real.

  • A concentração de capital levou ao domínio oligopolista, onde as grandes empresas exploram os recursos dos mais fracos.

  • A crise de 2008 revelou a necessidade de apoio estatal às instituições financeiras, destacando a ligação entre o Estado e o capital financeiro.

13A seção "A fronteira agrícola e sua evolução" mostra que se trata de um processo de expansão de capital, influenciado por dinâmicas econômicas e sociais complexas.

  • A colonização interna foi marcada pela apropriação de terras e pela integração de novas populações nos mercados.

  • Os movimentos migratórios muitas vezes levam a conflitos com populações tradicionais, como os povos indígenas.

  • A expansão da fronteira agrícola foi acompanhada por projetos de infraestrutura, promovendo a produção agrícola para o mercado interno e para exportação.

  • A especulação imobiliária desempenhou um papel fundamental no aumento dos preços da terra e na industrialização da agricultura.

14As transformações do capital agrícola envolvem mudanças significativas, com crescente integração do capital financeiro e industrial.

Figura 5. Área (em hectares) por Estado controlada pelo capital financeiro, 2008-2016.

Figura 5. Área (em hectares) por Estado controlada pelo capital financeiro, 2008-2016.
  • A modernização da agricultura levou a uma maior dependência da indústria, com mudanças nas relações de trabalho.

  • Grandes empresas do agronegócio dominam o mercado, como por exemplo a JBS e a Raízen, que se beneficiaram de financiamento público.

  • Novas formas de crédito, como títulos de dívida agrícola, superaram o financiamento público.

  • A especulação com terras agrícolas foi facilitada por leis recentes, aumentando o interesse de investidores estrangeiros.

15Os desafios das finanças globais redefiniram as relações econômicas, influenciando a estrutura do capital e a dinâmica do poder.

  • Países emergentes, como o Brasil, compartilham sua gestão econômica com instituições financeiras internacionais.

  • A crise da dívida da década de 1980 abriu caminho para novos agentes financeiros, aumentando o setor financeiro desregulamentado.

  • As grandes corporações transnacionais exercem controle sobre as cadeias de valor, influenciando os mercados e preços agrícolas.

  • A especulação sobre produtos agrícolas levou à inflação de preços, dificultando o acesso aos alimentos.

16As "consequências da expansão da fronteira agrícola" são que

  • A concentração de terras e recursos levou à expropriação de populações locais, incluindo comunidades tradicionais.

  • As práticas agrícolas intensivas contribuíram para o desmatamento e a degradação da biodiversidade.

  • As grandes empresas do agronegócio dominam o mercado, exercendo controle sobre a produção e a distribuição.

  • Os mecanismos de financiamento verde são frequentemente usados ​​para mascarar os impactos ambientais negativos da agricultura industrial.

17De modo geral, o livro explora a reconfiguração da fronteira agrícola no Brasil, com foco na expansão do setor agroindustrial e seus impactos socioambientais. A fronteira agrícola representa um novo espaço de produção capitalista no Brasil, caracterizado pela aceleração da extração e circulação de matérias-primas, e as populações agroextrativistas passam por transformações significativas em seus estilos de vida.


Revista Franco-Brasileira de Geografia

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