Mostrando postagens com marcador Energia Nuclear. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Energia Nuclear. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Situação em usina nuclear de Zaporizhzhia 'segue se deteriorando', diz AIEA


Alerta foi feito pelo diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Grossi
Por AFP




A situação na usina nuclear de Zaporizhzhia, no sul da Ucrânia, “segue se deteriorando”, alertou nesta quarta-feira (21) o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Grossi, enquanto os ucranianos acusavam a Rússia de voltar a realizar bombardeios.

A situação segue se deteriorando e não podemos nos dar ao luxo de esperar que aconteça uma catástrofe, disse Grossi, após uma reunião sobre a representação da França nas Nações Unidas.

O diretor da AIEA afirmou que discutiu o assunto com o ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, com quem se reuniu mais cedo à margem da Assembleia Geral da ONU em sua sede em Nova York.

“Enquanto continuarem os bombardeios, os riscos são enormes”, acrescentou.

As autoridades ucranianas acusaram nesta quarta a Rússia de ter voltado a bombardear as instalações da maior usina nuclear da Europa, mas garantiram que o índice de radiação no local não estava acima do normal.

“Mesmo nas piores condições, a diplomacia nunca pode parar (...) É nossa responsabilidade fazê-lo com propostas pragmáticas e realistas, e isso é o que estamos tentando fazer”, comentou Grossi.

Ao seu lado, a ministra francesa de Relações Exteriores, Catherine Colonna, explicou que o objetivo é “uma desmilitarização da planta no marco da soberania da Ucrânia”.

Ao saber sobre os novos bombardeios, o operador público das usinas nucleares ucranianas, Energoatom, pediu nesta quarta-feira que a AIEA “atue com maior determinação” contra Moscou.

A usina de Zaporizhzhia, ocupada pelas tropas russas desde as primeiras semanas de sua invasão da Ucrânia, iniciada em 24 de fevereiro, tem sido alvo de constantes bombardeios nos últimos meses.

Kiev e Moscou negam a responsabilidade e acusam um ao outro de chantagem nuclear.
https://www.folhape.com.br/

sábado, 17 de setembro de 2022

Estatal nuclear mantém lixo radioativo em local sem licenciamento ambiental


Sem documentação do Ibama, sítio em Itu, interior de SP, armazena 3.500 toneladas de rejeito radioativo
Thales Schmidt


O rejeito nuclear Torta II. - ANTPEN


Sempre com a promessa de encontrar uma destinação ou uso, o Brasil abriga desde a década de 1970 toneladas de rejeitos radioativos. O material é resultado da mineração de monazita pela Nuclemon, antiga estatal nuclear que operou em São Paulo e foi fechada após a contaminação de seus trabalhadores, problemas trabalhistas e a morte de um de seus funcionários. Hoje, o material é administrado pela Indústrias Nucleares do Brasil (INB), companhia que sucedeu a Nuclemon, e parte dele está guardado, ao menos desde 2012, em um local sem licenciamento ambiental, no Sítio São Bento, em Itu (SP). O local fica em uma área de proteção ambiental do município paulista.

Batizado de Torta II, o material é resultado do processamento químico da monazita para a extração de terras raras — elementos químicos de alto valor e interesse industrial. Esse processo era realizado na unidade da Nuclemón no bairro do Brooklin, na capital paulista, durante a ditadura militar.

Quando moradores de Itu questionaram a presença do elemento radioativo no município na década de 1980, o então presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Rex Nazaré Alvez, afirmou ao Estadão que a Torta II era um elemento de "alto valor comercial".

Ainda assim, o depósito permanece intocado desde então e gerando custos de manutenção e segurança. Uma possível negociação surgiu em 2013, quando a venda da Torta II para a China foi cogitada. A empresa Global Green Energy Science compraria o material para reprocessá-lo e aproveitar as quantidades restantes de tório e urânio. Todavia, o negócio não prosperou porque as autoridades de Pequim não forneceram a licença ambiental de importação do material.

O frustrado negócio da China não impediu a CNEN de repetir o argumento de que a Torta II não seria um rejeito e teria, na verdade, um uso no futuro. Em audiência pública na Câmara de Vereadores de Caldas, em Minas Gerais, outro município que também abriga os rejeitos, a CNEN voltou a defender uma hipotética destinação futura do material.

“Ela é um material radioativo, uma vez que a definição de rejeito radioativo é quando o material não tem previsão futura de aproveitamento e a Torta II pode ser aproveitada para recuperação de urânio contido nela e terras raras”, afirmou Antonio Luiz Quinelato.

O hipotético uso futuro de rejeitos da mineração de elementos radioativos é, também, um dos argumentos do governo de Jair Bolsonaro (sem partido) para expandir as usinas nucleares no país. Elaborado pelo Ministério de Minas e Energia, o Plano Nacional de Energia 2050 (PNE) estabelece diretrizes de longo prazo para o setor energético do país e afirma que a “opção brasileira” é não considerar o armazenamento do combustível nuclear usado (urânio) “como rejeito”.

“Isso porque há esforços mundiais no desenvolvimento de tecnologias de reaproveitamento desse combustível, que apresenta ainda teor energético”, diz o PNE 2050. “De tal forma que o país adotou a política de estocar o seu combustível usado no sítio das usinas no aguardo do desenvolvimento dessas novas tecnologias de reprocessamento e aproveitamento.”

Origem radioativa

A Torta II foi levada para Itu entre 1975 e 1981. Em 1987, relatório da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) apontou que os trabalhadores que faziam a segurança do local estavam expostos a níveis acima do recomendado de radiação “causando riscos profissionais de exposição”, noticiou o jornal Estadão.

Em novembro de 1987, os rejeitos nucleares em Itu foram notícia / Reprodução Estadão

"Se há perigo para os funcionários, existe também para a população, pois um dos mananciais que abastecem a cidade está a apenas 600 metros do depósito", afirmou o prefeito de Itu na época, Lázaro José Piunti, à publicação.

A INB afirma em seu site que “não se sabe ao certo o motivo que levou os administradores da Nuclemon a levar a Torta II" para Itu e que não havia à época “legislação ambiental contrária à instalação do depósito no local”.

Em documento interno, de 2016, a INB reconhece que outra quantidade de Torta II armazenada na Unidade de Tratamentos de Minérios em Caldas (MG), "apresenta riscos de vazamentos devidos à deterioração em função do tempo dos tambores de metal, das bombonas plásticas e dos paletes de madeira que dão sustentação às pilhas".

Sede da primeira mina de urânio do país, a mineira Caldas hospeda a maior parte dos rejeitos de Torta II do país, com 12,5 mil toneladas.

Cidades de interesse da atividade nuclear brasileira / Infográfico: Brasil de Fato

A posse do material segue um assunto controverso, com os atuais prefeitos de Caldas e Itu afirmando na imprensa não terem interesse em hospedar a Torta II.

Em nota enviada ao Brasil de Fato, a INB afirma que o licenciamento ambiental do seu depósito de lixo nuclear em Itu está "em andamento" e que fez a solicitação da documentação em 2012 e 2015 para o Ibama e que "o material está devidamente acondicionado na Unidade".


“É importante ressaltar que, independente da licença, a INB desenvolve um Programa de Monitoração Radiológica Ambiental no Sítio São Bento, Botuxim/SP, e todos os anos encaminha relatório das monitorações para o Ibama e a Comissão Nacional de Energia Nuclear - CNEN. No histórico não foi identificado nenhum aumento de concentrações radiológicas, o que demonstra que o material está devidamente acondicionado na Unidade”, afirma a INB em nota.

O Ibama não respondeu aos questionamentos da reportagem.

Contaminação e morte

Em 1987, com a morte de um dos trabalhadores da Nuclemon por contaminação por sílica e o acidente com césio-137 em Goiânia, as atividades da Nuclemón passaram a ser alvo de maior atenção. E uma série de problemas foi detectada.

A Câmara Municipal de São Paulo instaurou uma CPI para investigar a empresa em 1991. O relatório final da comissão cita um laudo de Fiscalização do Instituto de Radioproteção e Dosimetria que encontrou elementos radioativos acima do limite em toda a unidade da estatal. Em alguns locais, o índice de radiação era até 100 vezes superior ao limite.

A CPI também indicou que a Nuclemon utilizava jornadas extraordinárias e que os trabalhadores não tinham os equipamentos necessários para sua prática profissional.

Com problemas de saúde causados pelo Nuclemon, trabalhadores da antiga estatal hoje processam a INB e pedem planos de saúde vitalícios e indenizações por danos morais, existenciais e materiais.



Esses antigos profissionais criaram a Associação Nacional dos Trabalhadores da Produção de Energia Nuclear (ANTPEN) e passaram a coletar informações sobre as enfermidades gestadas pela Nuclemon: leucemia, câncer gástrico, câncer de próstata, câncer de bexiga, hipertensão, diabetes, retite, silicose e pneumoconioses.

Enquanto a incidência de câncer de próstata brasileira está em torno de 2% da população, essa enfermidade é quatro vezes mais comum entre os ex-trabalhadores da Nuclemon, aponta laudo do processo da ANTPEN.

“A Torta II parece uma massa, um barro, um barro mole e marrom”, afirma José Venâncio, trabalhador da Nuclemon entre 1970 e 1993 e presidente da Antpen.

Venâncio afirma que uma parte considerável dos trabalhadores da Nuclemon era formada por retirantes nordestinos, que aceitavam o trabalho braçal e as longas horas de turno. Sem saber da radiação, ele diz que a convivência com os rejeitos nucleares era comum e parte dos trabalhadores chegou a manusear o material com as próprias mãos.

Sobre a falta de licenciamento ambiental da Torta II em Itu, o ex-trabalhador da Nuclemon afirma: “a ditadura acabou, mas eles continuam fazendo a mesma coisa”.

Edição: Rodrigo Durão Coelho
BRASIL DE FATO

sábado, 4 de maio de 2019

Fauna de Chernobyl 33 anos após o acidente nuclear



Usina Nuclear de Chernobyl (Ucrânia), com o edifício de contenção instalado no número do reator 4. maio de 2017. Germán Orizaola , Autor desde

Em 26 de abril de 1986, o reator número 4 da usina nuclear de Chernobyl (Ucrânia) sofreu uma explosão durante os testes técnicos. Como resultado do acidente, cerca de 400 vezes mais radiação foi emitida do que aquela liberada pela bomba nuclear lançada sobre Hiroshima (Japão) em 1945. Este é, até o momento, o maior acidente nuclear da história.


O trabalho de descontaminação começou imediatamente. Em torno da usina nuclear, foi criada uma zona de exclusão, da qual cerca de 350 mil pessoas foram evacuadas. Os evacuados nunca voltaram para suas casas e hoje a área permanece sob controle do ser humano.

O acidente teve um grande impacto na população humana. Embora não existam números claros, as consequências físicas (perda da vida humana) e as conseqüências psicológicas devido à evacuação foram graves.

O impacto inicial na natureza também foi importante. Uma das partes mais afetadas foi o pinhal agora conhecido como "floresta vermelha". Esta área recebeu as maiores doses de radiação, então os pinheiros morreram instantaneamente e todas as folhas ficaram vermelhas. Poucos animais sobreviveram às doses radioativas mais altas.

Portanto, após o acidente, assumiu-se que a zona de exclusão se tornaria um deserto para a vida. Dado o longo tempo de decomposição de alguns compostos radioativos, assumiu-se que a área seria desabitada durante séculos.
A natureza de Chernobyl hoje

Hoje, 33 anos após o acidente, em Chernobyl vivem ursos, bisontes, lobos, linces, cavalos Przewalski e cerca de 200 espécies de aves, entre outros animais.

Entre 4 e 6 de março de 2019, reunimos em Portsmouth (Inglaterra) os principais grupos de pesquisa que trabalham com a natureza de Chernobyl. Cerca de trinta pesquisadores da Ucrânia, França, Bélgica, Noruega, Espanha, Irlanda e Reino Unido apresentam os últimos resultados de nossas análises. Estes incluem estudos em grandes mamíferos, nidificação de aves, anfíbios, peixes, abelhas, vermes, bactérias e decomposição de folhas.

Os trabalhos apresentados mostraram que, atualmente, a zona de exclusão abriga uma grande biodiversidade. Além disso, confirmaram a ausência geral de efeitos negativos da radiação sobre as populações de animais e plantas de Chernobyl. Todos os grupos estudados mantêm populações abundantes e perfeitamente funcionais na área.

Um exemplo claro da diversidade da fauna em Chernobyl é dado pelo projeto TREE (do inglês Transfer, Exposure and Effects). Como parte deste projeto, armadilhas fotográficas foram instaladas por vários anos em toda a zona de exclusão. As fotos revelam a presença de fauna abundante em todos os níveis de radiação. Estas câmeras detectaram a presença pela primeira vez de ursos marrons e bisontes europeus na área ucraniana, bem como a expansão das populações de lobos e cavalos de Przewalski.
bisonte europeu ( Bison bonasus ), o lince ( Lynx lynx ), alces ( alces do Alces ) e urso pardo ( Ursus arctos ) fotografado pelas câmeras do projeto ÁRVORE dentro da zona de exclusão de Chernobyl (Ucrânia). Projeto TREE / Sergey Gaschack

Nosso trabalho com os anfíbios de Chernobyl também detectou populações abundantes de todas as espécies, mesmo nas áreas de maior contaminação radioativa. Também encontramos algumas indicações de respostas adaptativas à radiação, como mudanças na coloração das rãs. Os sapos na zona de exclusão são mais escuros, o que poderia protegê-los da radiação.Adulto de Rã de San Antón oriental ( Hyla orientalis ), Chernobyl (Ucrânia). Maio de 2018. Germán Orizaola

Sim, alguns efeitos negativos da radiação foram detectados no nível individual. Alguns insetos, por exemplo, parecem viver menos e serem mais afetados por parasitas em áreas de alta radiação. Algumas aves também apresentam danos ao sistema imunológico, aumento de albinismo e alterações genéticas. De qualquer forma, essas alterações não parecem afetar a manutenção das populações.

A ausência geral de efeitos negativos da radiação sobre a fauna de Chernobyl pode ser devida a vários fatores. Por um lado, os organismos vivos poderiam ser muito mais resistentes à radiação do que o previsto. Outra alternativa é que as espécies poderiam estar começando a mostrar respostas adaptativas que lhes permitiriam viver em áreas contaminadas sem sofrer efeitos negativos. Além disso, a ausência de seres humanos na área poderia estar favorecendo muitas espécies, especialmente os grandes mamíferos.

Esta última alternativa indicaria que a pressão das atividades humanas seria mais negativa a médio prazo para a fauna do que um acidente nuclear. Uma visão bastante reveladora do impacto humano no ambiente natural.
O futuro de Chernobyl

Em 2016, a parte ucraniana da zona de exclusão foi declarada Reserva Radiológica da Biosfera pelo Governo da Ucrânia. Contra as previsões iniciais, a área serve agora como refúgio para muitas espécies ameaçadas a nível europeu ou nacional. Estes incluem o urso pardo, o bisão europeu, o cavalo Przewaslki, a cegonha preta e a águia pomeraniana.Floresta campestre e ribeirinha dentro da zona de exclusão de Chernobyl (Ucrânia). Maio de 2016. Germán Orizaola

Ao longo dos anos, Chernobyl também se tornou um excelente laboratório natural para o estudo da evolução em ambientes extremos.

Atualmente, vários projetos estão tentando retomar a atividade humana na área. O turismo de catástrofes se tornou popular, com mais de 70.000 visitantes em 2018. Há planos para construir usinas solares para produção de energia. Mesmo no outono passado, um festival de música eletrônica foi organizado na cidade abandonada de Prípiat.

Em 33 anos, Chernobyl deixou de ser considerada um deserto para a vida para ser uma área de interesse para a conservação da fauna. Paradoxalmente, agora é necessário manter a integridade da zona de exclusão como reserva, se quisermos que permaneça um refúgio para os seres vivos no futuro.


Germán Orizaola , pesquisador do Programa Ramón y Cajal, Universidade de Oviedo

Este artigo foi originalmente publicado no The Conversation . Leia o original .

segunda-feira, 19 de junho de 2017

O ITER


Reator termonuclear em desenvolvimento desde 2006 é promessa de solução para o problema energético global.




A previsão é de que as instalações do novo reator estejam prontas em 2025. (foto: © ITER Organization)

Talvez, o leitor nunca tenha ouvido falar sobre o ITER, acrônimo, em inglês, para ‘Reator Experimental Termonuclear Internacional’. Mas esse é um dos projetos mais ambiciosos em andamento, que poderá ser o primeiro passo para resolver o problema energético do mundo.

Usinas nucleares convencionais usam como combustível o urânio 235, isto é, o elemento químico cujo núcleo tem 92 prótons e 143 nêutrons. Ao ser bombardeado com nêutrons, o urânio 235 se parte em núcleos mais leves, que se movem rapidamente. Essa energia de movimento acaba sendo usada para aquecer a água de um reservatório, que, por sua vez, move turbinas, gerando energia elétrica.

Apesar de a energia nuclear já ser responsável por mais de 10% da matriz energética mundial, há o perigo de acidentes graves, e os resíduos radioativos deixados ao final do processo são um problema constante.

Ao contrário de usinas nucleares convencionais, o ITER espera extrair energia da fusão de núcleos leves – mais precisamente, de dois isótopos do hidrogênio: o dêuteron (próton mais nêutron) e o trítio (próton mais dois nêutrons). Ambos são relativamente abundantes na natureza. O dêuteron, por exemplo, pode ser extraído da água do mar.

Quando o dêuteron e o trítio se fundem, são gerados um núcleo de hélio (dois prótons e dois nêutrons) e um nêutron. Nesse processo, por volta de 0,4% das massas do dêuteron e trítio se converte em energia. Pode parecer pouco, mas isso é o triplo do que se obtém em usinas nucleares convencionais, que já são milhões de vezes mais eficientes que termoelétricas, as quais queimam combustíveis fósseis gerando gás carbônico (CO2). Por sua vez, as usinas de fusão liberarão hélio, que é um gás inofensivo.




As partes da máquina estão sendo construídas em diferentes países, incluindo Estados Unidos, Coreia do Sul, Japão, Rússia, Itália e Alemanha. (foto: © ITER Organization)

Em resumo, o ITER seria o primeiro passo rumo a uma fonte de energia limpa e abundante. O grande desafio é que, para que a fusão aconteça, o ITER terá que aquecer os isótopos do hidrogênio a temperaturas de 150 milhões de graus Celsius, ou seja, uns 10% da temperatura no centro do Sol. Esse plasma infernal, formando uma ‘sopa’ quentíssima de partículas, terá que ser mantido longe de tudo, por meio de campos magnéticos megapotentes. Não devemos subestimar os desafios tecnológicos envolvidos na fusão, mas eles podem ser superados.

O ITER é encabeçado pela União Europeia, China, Coreia do Sul, pelos EUA, pela Índia, pelo Japão e pela Rússia desde 2006. À época, o valor estimado para a construção foi de 5 bilhões de euros (hoje, cerca de R$ 18 bilhões), e o tempo para sua conclusão era de 10 anos.

Infelizmente, o projeto está atrasado em uma década. Contudo, as coisas começaram a melhorar desde o fim do ano passado, quando o gerenciamento do projeto passou para as mãos do francês Bernard Bigot. Mesmo assim, Bigot estima que a máquina não estará concluída antes de 2025, e que, depois disso, ainda serão necessários vários anos para que o objetivo original de gerar energia pela fusão de dêuterons e trítios seja alcançado.

A nova estimativa de custo quase que duplicou, passando a ser de 9,6 bilhões de euros (cerca de R$ 35 bilhões), o que levou o Departamento de Energia dos EUA a não garantir seu apoio ao projeto além de 2018 – mas esperemos que essa ajuda continue até o final. Dez bilhões de euros é o que custa um porta­aviões. Se podemos construir vários desses para nos matar, será que não podemos construir um ITER para (ajudar a) nos salvar?

George Matsas
Instituto de Física Teórica
Universidade Estadual Paulista
Revista Ciência Hoje

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Notícias Geografia Hoje


Japão atrasa por tempo indeterminado armazenamento de resíduos de Fukushima

Atraso se deve a nenhum depósito seguro ter sido construído; materiais radioativos retirados até agora estão atualmente depositados em vários terrenos próximos de central nuclear


O governo japonês atrasou, por tempo indeterminado, o armazenamento de resíduos radioativos recolhidos nos trabalhos de descontaminação perto da Central Nuclear de Fukushima, por não ter sido construído nenhum depósito seguro, segundo fontes oficiais citadas hoje (22) pela imprensa.

As autoridades tinham previsto começar a transferir os resíduos para depósitos nucleares em janeiro próximo, data que foi adiada de forma indefinida dadas as dificuldades em encontrar uma localização para as instalações, segundo a Agência Kyodo.

O governo central e os governos locais entraram em acordo para construir depósitos temporários destinados a abrigar os materiais radioativos nas localidades costeiras de Futaba e Okuma, as mais próximas da central nuclear, mas não chegaram a acordo com os proprietários dos terrenos escolhidos, informaram fontes governamentais à Kyodo.

Os materiais radioativos deveriam permanecer nessas instalações durante um prazo de 30 anos e depois seriam transferidos para depósitos permanentes de alta segurança, cuja localização ainda não foi definida.

Segundo o plano do governo, as instalações de armazenamento temporário vão ocupar 16 quilômetros quadrados em volta da central e vão ter capacidade para armazenar cerca de 30 milhões de toneladas de terra e resíduos recolhidos durante os trabalhos de descontaminação.

Os materiais radioativos retirados até agora estão atualmente depositados em vários terrenos próximos da central.

O terremoto e tsunami de março de 2011 geraram grandes quantidades desses materiais que se dispersaram em volta da central.

As emissões levaram à retirada de 46 mil pessoas que vivam perto de Fukushima e afetaram gravemente a agricultura, a pecuária e a pesca.
http://ultimosegundo.ig.com.br

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Cinco pontos para entender o impasse sobre o programa nuclear do Irã


O Irã diz que seu PROGRAMA é pacífico, para a produção de energia, e rejeita as acusações de que o objetivo é a construção de armas nucleares

O governo americano sugeriu ao Irã que seja estendido o prazo FINAL (esta segunda-feira) para que se chegue a um acordo sobre o polêmico PROGRAMA nuclear de Teerã.

Diplomatas americanos disseram que o secretário de Estado do país, John Kerry, fez essa proposta ao chanceler iraniano, Mohammad Javad Zarif, durante reuniões em Viena, onde ocorrem as negociações com potências ocidentais.

Os ESTADOS UNIDOS negaram uma afirmação feita por diplomatas iranianos de que um acordo parcial estava próximo de ser fechado.

França, Grã-Bretanha, ESTADOS UNIDOS e outras potências pretendem coibir o PROGRAMA nuclear iraniano e, em contrapartida, oferecem a redução das sanções internacionais que recaem sobre o país.

Obama afirmou estar confiante de que se for fechado um acordo sobre a capacidade nuclear do Irã, ele consegue persuadir o Congresso e o público americano a aceitá-lo.

O Irã diz que seu programa é pacífico, para a produção de energia, e rejeita as acusações de que o objetivo é a construção de armas nucleares.

Veja abaixo os pontos principais da crise com o país, que já dura quase 10 anos.

Quais as razões da crise?

O ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad recusou-se a interromper o PROGRAMA nuclear iraniano

As potências mundiais suspeitam que o Irã não tem sido honesto sobre seu PROGRAMA nuclear e trabalha para adquirir a capacidade de construir umabomba nuclear.

O Irã afirma que tem o direito à energia nuclear - e garante que o seu PROGRAMA é apenas para fins pacíficos.

Por que a crise se arrasta há tanto tempo?

Sanções CONTRA o Irã têm afetado duramente a economia do país

O PROGRAMA nuclear do Irã veio a público em 2002, quando um grupo de oposição revelou atividades até então secretas, incluindo a construção de uma usina de enriquecimento de urânio em Natanz e um reator de água pesada em Arak. O urânio enriquecido pode ser usado para fabricar armas nucleares, e o combustível de um reator de água pesada contém plutônio apropriado para uma bomba.

Posteriormente, o governo iraniano concordou em inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão da ONU responsável pela vigilância nuclear.

Mas a agência não conseguiu confirmar as afirmações do Irã de que seu PROGRAMA nuclear é exclusivamente para fins pacíficos e de que não tem COMO objetivo desenvolver armas nucleares.

Isso levou os EUA e seus aliados europeus a pressionarem o Irã a suspender o enriquecimento de urânio - que pode ser usado tanto para fins civis como para construir bombas nucleares.

No entanto, a eleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, em 2005, interrompeu qualquer avanço nas negociações, e a AIEA levou o Irã ao Conselho de Segurança da ONU, por descumprir o Tratado de Não Proliferação Nuclear.

Clima mudou após a eleição de Hassan Rouhani COMO presidente do Irã, em junho de 2013

Desde então, o Conselho de Segurança adotou seis resoluções que exigem que o Irã suspenda o enriquecimento de urânio. Algumas delas impuseram sanções.

Em 2012, os EUA e a União Europeia começaram a impor sanções adicionais às exportações de petróleo e bancos iranianos, um duro golpe à economia LOCAL.

Apesar disso, o Irã continuou a enriquecer urânio. Em 2009, o país revelou a existência de uma nova instalação subterrânea em Fordo.

Houve várias rodadas de negociações entre o Irã e o chamado P5+1, grupo que reúne os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU - EUA, Reino Unido, França, CHINA, Rússia - e a Alemanha.

Por anos não houve avanço. Mas o cinco meses depois, após conversas bilaterais secretas entre EUA e Irã, negociadores acertaram um acordo interino.

Qual foi o acordo?

Estudantes iranianos realizam ato em Teerã a favor do PROGRAMA nuclear do país

Sob o Plano de Ação Conjunta, que entrou em vigor em janeiro de 2014, o Irã efetivamente concordou em congelar sua produção de urânio enriquecido com pureza acima de 5% e comprometeu-se a diluir ou CONVERTER em óxido seu estoque de urânio enriquecido a quase 20%.

O Irã disse que não iria INSTALAR novas centrífugas de urânio ou construir novas instalações de enriquecimento. O país também concordou em não alimentar o reator em Arak e não construir uma instalação para reprocessamento de combustível.

Enquanto a maior PARTE das sanções internacionais - incluindo medidas que atingem os setores de petróleo, bancário e financeiro do Irã - foi mantida, o P5+1 concordou que o Irã repatriasse cerca de US$ 4,2 bilhões em receitas de vendas de petróleo congeladas em contas externas.

As vendas de produtos petroquímicos, negociações em ouro e outros metais preciosos e transações com empresas estrangeiras envolvidas da indústria automotiva iraniana tiveram autorização para serem retomadas. A expectativa era de que essas medidas gerassem receitas de US$ 1,5 bilhão.

O Irã também recebeu acesso a US$ 400 milhões em dinheiro para pagar a mensalidade de iranianos estudando no exterior, COMPRAR peças de reposição para aviões civis e alimentos e remédios de ajuda humanitária.

sábado, 8 de março de 2014

Notícias Geografia Hoje


Projeto de energia nuclear da Georgia recebe ajuda federal
Garantias de empréstimos encaram esperanças cada vez menores de um renascimento da indústria

NRC/Wikimedia Commons
LEGENDA: Duas novas usinas nucleares estão sendo construídas no projeto Vogtle, na Georgia.
Créditos: Georgia Power Company

Lauren Morello e revista Nature

Em 19 de fevereiro, o Departamento de Energia dos Estados Unidos declarou ter aprovado US$6,5 bilhões em garantias de empréstimos para o projeto nuclear Vogtle, de US$14 bilhões, nas proximidades de Waynesboro, Georgia. Os dois reatores receberam aprovação regulamentar em 2012 – os primeiros novos reatores dos Estados Unidos em aproximadamente 30 anos.

O anúncio veio enquanto o secretário de energia, Ernest Moniz, reiterava o apoio da administração Obama à energia nuclear como parte de sua estratégia energética de usar todas as opções possíveis para reduzir a dependência do petróleo estrangeiro, e como forma de ajudar a reduzir as emissões de gases estufa dos Estados Unidos. “O presidente quer deixar claro que ele vê a energia nuclear como parte de seu portifólio livre de carbono”, declarou Moniz.

Esses são tempos difíceis para a indústria nuclear dos Estados Unidos, que enfrenta forte competição por parte do gás natural e da energia renovável em algumas regiões. Pressões de mercado levaram ao fechamento de usinas nucleares em Vermont e Wisconsin no ano passado, e preocupações com segurança e confiabilidade fizeram com que usinas na Califórnia e na Flórida fossem desativadas. Além dos dois reatores em construção no local do Vogtle, apenas outros dois foram aprovados no país, na Carolina do Sul. Projeções da Administração de Informações Energéticas dos Estados Unidos publicadas em dezembro sugerem que a geração de energia nuclear para eletricidade crescerá 5% de 2012 a 2040, mesmo que sua fatia do mercado elétrico deva cair de 19% para 16%.

“Empresas de utilidade pública estão se comportando de maneira muito conservadora no momento”, observa Doug Vine, membro sênior do Centro de Soluções Climáticas e Energéticas em Arlington, na Virginia. Mas ele também aponta que esse comportamento não é tão pronunciado em estados com mercados energéticos regulados, como a Georgia e a Carolina do Sul, onde é possível estabelecer taxas que permitem a operadoras energéticas recuperar os altos custos de capital de usinas nucleares direto dos consumidores.

Em outras partes do país, o trabalho do Departamento de Energia para acelerar um renascimento nuclear parece ter fracassado. Apenas alguns projetos nucleares se inscreveram no programa de garantias de empréstimos do Departamento de Energia, que começou em 2005, quando apoiadores anteciparam uma explosão na demanda por energia nuclear. O programa permite até US$17,5 bilhões em garantias em que o governo assume a dívida se o devedor não pagar. “Isso provavelmente encerrará a história que começou em 2005”, prevê Edwin Lyman, cientista sênior da Union of Concerned Scientists (União de Cientistas Preocupados), em Washington capital. “Isso é mais ou menos o fim, não o início”.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature.

O artigo foi publicado pela primeira vez em 20 de fevereiro de 2014.
Scientific American Brasil

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Entenda a negociação entre Irã e Ocidente

Começa a 'parte difícil' de negociações entre Irã e Ocidente

Jonathan Marcus
Analista diplomático da BBC



Em novembro, P5+1 e Teerã chegaram a um acordo provisório

O Irã deu início nesta terça-feira, em Viena (Áustria), aos diálogos com seis potências mundiais, em busca de um acordo definitivo a respeito de seu programa nuclear.

É, agora, que começa a parte difícil.

Em novembro, o grupo P5+1 (China, França, Alemanha, Rússia, Reino Unido e EUA) e o Irã firmaram um acerto provisório, que limitava alguns aspectos do programa nuclear iraniano em troca de alívio às sanções internacionais.

O acerto estava longe do ideal, segundo muitos especialistas nucleares, por não suspender, por exemplo, o enriquecimento de urânio iraniano (antiga exigência do Conselho de Segurança da ONU). Mas o acordo conseguiu aumentar o acesso de inspetores internacionais e conter as atividades nucleares do país persa.

Só isso já é um progresso. No entanto, há pouco otimismo e muita desconfiança dos dois lados da mesa de negociação.

Ainda há incertezas quanto às intenções reais de Teerã. O país está preparado para reduzir seu programa nuclear a um nível mínimo para que todas as sanções sejam extintas, sua economia se levante e seu governo volte a ser um agente "comum" no mundo da política externa?

Ou o Irã quer apenas aliviar as sanções mas sem perder seu status de país nuclear, capaz em algum momento de avançar na busca pela bomba atômica (intenção negada por Teerã)?

Muito tem de ser resolvido para que se chegue a um acordo de longo prazo - desde complexas questões técnicas a fatores políticos e problemas internos. Confira alguns desses empecilhos:
Capacidade de enriquecimento

Muitos acreditam que o Irã tenha os conhecimentos técnicos para construir uma bomba - e nisso não há como voltar atrás.

Sob a ótica do Ocidente, o ideal seria que o Irã interrompesse totalmente o enriquecimento de urânio. É nisso que insistem autoridades israelenses.

Mas poucos dos analistas consultados pela BBC acreditam que essa interrupção vá acontecer.

Para eles, a meta de um acordo de longo prazo é estabelecer um nível de enriquecimento proporcional às necessidades práticas do Irã, sob supervisão internacional capaz de identificar com o máximo de tempo possível qualquer movimento iraniano em direção à bomba.

A meta seria reduzir a escala e escopo da capacidade iraniana de enriquecimento, reduzindo seu número de centrífugas para garantir que esse espaço de tempo seja o maior possível.
O reator de Arak


Reator de Arak está entre os entraves para um acordo entre Irã e potências globais

O reator de Arak, ainda em construção, é outra preocupação.

Quando entrar em operação, ele daria plutônio ao Irã, uma segunda rota possível em direção a uma arma nuclear.

Teerã alega não ter intenção de construir uma usina de reprocessamento para extrair o material necessário para tal, mas Arak permanece despertando desconfiança.

Para o Ocidente, o ideal seria que Arak fosse fechado ou substituído por um reator leve, de menor risco de proliferação nuclear.

O Irã já citou a possibilidade de fazer algumas alterações (não especificadas) no reator. Mas, novamente, seriam necessárias mais inspeções externas para averiguações.
Fatores em jogo

Essa inspeção ficaria a cargo da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que já expressou preocupações quanto a prévias pesquisas nucleares iranianas.

Dada a complexidade desses temas, é improvável que o avanço nas negociações seja rápido.

Existe a possibilidade de o acordo interino ser estendido por mais seis meses (ou mais) se necessário.

É possível chegar a um meio-termo que agrade tanto iranianos (mantendo um programa nuclear pacífico) e a comunidade internacional (assegurando que não haverá uma bomba atômica iraniana).

Mas muito depende de fatores externos: relações comerciais que desafiem as atuais sanções contra o Irã, por exemplo, podem estimular o Congresso americano a aprovar restrições mais duras - na contramão das atuais negociações e causando profundo descontentamento em Teerã.

Além disso, há a resistência interna dos ultraconservadores iranianos, bem como o papel de Teerã na guerra civil síria.

Em contrapartida, o fracasso das negociações poderia trazer novamente à tona insinuações de um ataque militar israelense contra o Irã.

E as consequências disso seriam sérias e imprevisíveis.
BBC Brasil

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Notícias Geografia Hoje

Interesses econômicos e a energia nuclear no Brasil

Corporação estatal russa que engloba mais de 250 empresas e instituições científicas realizou, em junho de 2013, seminário sobre a sua experiência global no desenvolvimento e aplicação de tecnologias nucleares

 Heitor Scalambrini Costa, em Ecodebate
Planta nuclear da Rosatom na Rússia
Foto: WikiCommons

Em artigo na seção Debates do Jornal Folha de S.Paulo (14/01/2014), com o sugestivo título “Uma saída para o aquecimento”, o diretor do Instituto de Segurança Nuclear da Academia Russa de Ciências, Leonid Bolshov, aconselha o Brasil a construir usinas nucleares em seu território, para atender à crescente demanda por energia elétrica, devido ao crescimento econômico.

O Dr. Bolshov partiu de uma premissa polêmica, controversa e, para alguns, falsa: a ideia de que usinas nucleares não produzem gases de efeito estufa e, portanto, contribuem para refrear o aquecimento global. Ele comete um “deslize” técnico ao não considerar que uma usina nuclear, para funcionar, precisa do elemento combustível. E, para se chegar a esse elemento combustível, o minério de urânio passa por um conjunto processos industriais, do momento em que é encontrado em estado natural até a sua utilização em uma usina. É nesse ciclo do combustível nuclear que ocorre a emissão de gases de efeito estufa, em particular de CO2 (gás carbônico). Estudos internacionais mostram que é elevada a emissão desses gases por kWh produzido em uma usina nuclear.

O que nos chama mais a atenção nesse artigo de opinião do Dr. Bolshov é a “coincidência” desse “aconselhamento técnico” acontecer poucos meses após a visita ao Brasil, em junho de 2013, de representantes da Rosatom – a corporação estatal do setor nuclear russo.

A Rosatom engloba mais de 250 empresas e instituições científicas, incluindo todas as empresas civis nucleares da Rússia, as instalações do complexo de armas nucleares, organizações de pesquisa e a única frota de propulsão nuclear do mundo. E ocupa posição de liderança no mercado mundial de tecnologias nucleares.

No Brasil, em junho de 2013, a Rosatom, realizou um seminário sobre a sua experiência global no desenvolvimento e aplicação de tecnologias nucleares, que contou com a presença de executivos da Rosatom e de grandes empresas brasileiras, de autoridades da área nuclear, de representantes dos Ministérios das Minas e Energia e da Ciência e Tecnologia do Brasil, entre outros.

A mensagem da empresa foi clara: caso haja interesse por parte do governo brasileiro, a Rosatom está disposta a construir, operar e financiar investimentos em usinas atômicas no país, através de acordos do tipo BOO (sigla do inglês “construa, seja o dono e opere”, cuja pronúncia é “búu” – seria um alerta?). Por esses acordos, a empresa russa receberia ações da companhia dona das usinas, proveria expertise técnica e a maior parte do financiamento, construiria as unidades e operaria as instalações. Claro, desde que haja mudanças na Constituição Federal de 1988, pois os art. 21, inciso XXIII, e 177 garantem o monopólio da União para toda a cadeia do urânio – da mineração à geração de energia elétrica.

A cooperação russo-brasileira na esfera nuclear é regulada pelo Acordo Bilateral, assinado em 1994, entre o Governo da Federação da Rússia e o Governo da República Federativa do Brasil, o qual prevê uma parceria para usos pacíficos da energia nuclear. Em julho de 2009, os dois países concluíram um memorando de entendimentos para cooperação nuclear. E, em dezembro de 2011, a Rosatom Overseas, subsidiária da Rosatom, aderiu à Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (Abdan).

Bem, está se falando aqui de negócios bilionários, pois cada usina de 1.000 MW custa a bagatela de cinco bilhões de dólares (e o Plano Nacional de Energia 2030 prevê a construção de quatro dessas usinas). Cabe perguntar: será apenas coincidência a proximidade do artigo do Dr. Bolshov e a visita de negócios da Rosatom ao Brasil? Ou, mais uma vez, a “ciência” se subordina a interesses econômicos (e políticos)?

* Heitor Scalambrini Costa é professor Associado da Universidade Federal de Pernambuco. Graduado em Física pela UNICAMP. Doutor em Energética na Univ. de Marselha/Comissariado de Energia Atômica-França
Revista Fórum

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Notícias Geografia Hoje

Sem usinas nucleares, Japão corta meta de redução de emissões
Desastre de Fukushima provoca paralisação de todos os reatores e leva a aumento do uso de combustíveis fósseis



O Japão anunciou nesta sexta-feira (15) que vai cortar significativamente suas metas de redução de emissão de gases do efeito estufa como consequência do desastre nuclear de Fukushima, há dois anos e meio.

AP
Foto aérea mostra a usina nuclear de Fukushima Daiichi em Okuma, norte do Japão (31/8)

O país havia se comprometido a cortar suas emissões em 25% sobre os níveis de 1990 até 2020, mas promete agora uma redução de 3,8% sobre os níveis de 2005. A nova meta representa na prática uma elevação de 3% nas emissões em relação aos níveis de 1990.

O Japão mantém atualmente todas as suas usinas nucleares paralisadas, o que vem forçando o país a aumentar o uso de combustíveis fósseis. Ao contrário da queima de combustíveis fósseis, a produção de energia nuclear não produz gases do efeito estufa, apesar de gerar resíduos radioativos.

Ao anunciar a mudança de meta, o chefe de gabinete do governo japonês, Yoshihide Suga, afirmou que a meta inicial, estabelecida em 2009 pelo governo liderado pelo Partido Democrático, hoje na oposição, era "totalmente sem fundamento".

"Nosso governo tem dito que uma meta de redução de 25% era totalmente sem fundamento e não era factível", disse ele em Tóquio.

Nível de ambição

Em um discurso na conferência da ONU sobre mudanças climáticas em Varsóvia, na Polônia, o negociador-chefe do Japão afirmou que a mudança foi baseada em novas circunstâncias. "A nova meta é baseada em zero de energia nuclear no futuro. Temos que reduzir nosso nível de ambição", afirmou Hiroshi Minami.

Ele admitiu que a mudança deve ser alvo de críticas, mas disse que a meta será ajustada se a situação das usinas nucleares do país mudar.

Até o terremoto e o tsunami de 2011, que provocaram vazamento na usina de Fukushima, o Japão gerava mais de um quarto de sua energia em usinas nucleares.

Mas desde o desastre, seus 50 reatores foram paralisados para verificações de segurança ou manutenção programada, em meio a uma onda de rejeição popular da energia nuclear.

O último reator em operação, em Ohi, foi desligado em setembro. As companhias de energia já pediram autorização para religar cerca de uma dezena de reatores, mas isso poderia levar tempo por conta das exigências de segurança e das barreiras legais.

O primeiro-ministro Shinzo Abe deseja ver os reatores novamente em operação, já que são uma parte vital de seu plano para reativar a economia.

Desde o desastre em Fukushima, o Japão se viu forçado a importar grandes quantidades de carvão mineral, gás natural e outros combustíveis.
 http://ultimosegundo.ig.com.br

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Notícias Geografia Hoje



Japão 
Nova fuga de água radioactiva na central de Fukushima
Uma nova fuga de água radioactiva foi descoberta no Japão, na central nuclear de Fukushima, disse hoje o operador, de acordo com agências de notícias japonesas.

A Tokyo Eletric Power (TEPCO) informou que uma grande fuga de água radioativa foi registada no setor 1, num tanque diferente daquele em que já se tinha verificado uma situação semelhante em agosto, noticiaram as agências noticiosas Joji e Kyodo.

Não é conhecida a quantidade de água libertada do tanque de 450 toneladas.

A TEPCO disse que tinha constatado água contaminada acumulada à volta do tanque que pode ter trespassado as barreiras.

As barreiras foram instaladas para bloquear a água e impedir que se espalhasse quando ocorre uma fuga na central, que ficou gravemente danificada por um tremor de terra, seguido de tsunami, em março de 2011.

Em agosto, descobriu-se uma fuga de cerca de 300 toneladas de água tóxica de outro tanque, parte da qual se crê ter fluído para o oceano Pacífico.
http://www.noticiasaominuto.com

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Mar de Fukushima pode estar contaminado

Operadora da usina nuclear de Fukushima reconhece a possibilidade de fluxo de água contaminada para o oceano


A operadora da usina nuclear de Fukushima admite pela primeira vez a possibilidade da água subterrânea contaminada estar chegando ao oceano

TÓQUIO (Reuters) – A operadora da usina nuclear de Fukushima declarou na segunda-feira, [dia 21 de julho], que água contaminada do solo provavelmente está indo para o mar, reconhecendo esse vazamento pela primeira vez.

A Tokyo Electric Power Co., ou Tepco, fez o anúncio um dia após o Partido Liberal Democrático – que é pró-nuclear – do Primeiro Ministro Shinzo Abe e seu parceiro da coalizão júnior conseguirem uma vitória decisiva nas eleições para a Alta Câmara, garantindo sua permanência no poder. 

O chefe da Autoridade de Regulação Nuclear do Japão, criada desde que o terremoto e o tsunami de 2011 destruíram Fukushima, declarou neste mês acreditar que a contaminação do mar vem ocorrendo desde o acidente.

Mas a Tepco já tinha fracassado anteriormente em confirmar o vazamento de água do solo mais de dois anos após o pior acidente nuclear da história desde Chernobyl, em 1986.

“Nós gostaríamos de oferecer um profundo pedido de desculpas por preocupar muitas pessoas gravemente, especialmente em Fukushima”, declarou Masayuki Ono, administrador geral da Tepco, a uma conferência de imprensa durante uma transmissão na rede pública de televisão NHK.

De acordo com a Tepco, com base nos testes de amostras de água, qualquer impacto do vazamento pareceu ser contido por cercas de silte erguidas perto dos reatores devastados.

A empresa já está injetando silicato de sódio em parte da parede marítima que separa o oceano da usina para evitar que a água do solo passe por ela. A Tepco declarou que pretende solidificar uma parte maior da parede marítima com o químico.

O terremoto e o tsunami de março de 2011 desligaram sistemas de refrigeração da usina de Fukushima, provocando derretimentos e o vazamentos radioativos, contaminação alimentar e evacuações em massa.

Neste mês a Tepco reconheceu que os níveis de radiação na água do solo dispararam, sugerindo que materiais altamente tóxicos da usina estão se aproximando do Pacífico.

(Reportagem por Kiyoshi Takenaka; Edição por Ron Popeski)
 Scientific American Brasil

domingo, 21 de abril de 2013

Notícias Geografia Hoje

Em busca do milagre energético


A Lockheed Martin tem um plano para transformar o sistema energético mundial: um tipo viável de fusão nuclear. Bill Gates e outro veterano da Microsoft, Nathan Myhrvold, já despejaram milhões de dólares em um reator de fissão que poderia funcionar à base de resíduos nucleares. A China aproveitou uma pesquisa descartada nos EUA para tentar desenvolver um reator mais seguro, baseado num elemento abundante chamado tório.

Muita gente inteligente está chegando à conclusão de que o problema energético será o maior desafio do século 21. Temos de fornecer energia e transporte a uma população que chegará a 10 bilhões de indivíduos, mas também precisamos limitar as emissões de dióxido de carbono (CO2) que ameaçam nosso futuro.

Muitos ambientalistas creem que as energias eólica e solar poderão ser ampliadas para atender à crescente demanda. Mas diversos analistas afirmam que as energias renováveis não poderão nos levar nem até a metade desse caminho.

Jovens brilhantes estão trabalhando para melhorar o armazenamento de eletricidade. Também já começaram a ser desenvolvidas tecnologias futuristas que possam retirar o CO2 da atmosfera de forma barata.

Mas, diante da premente necessidade de milhares de usinas geradoras de energia que funcionem noite e dia sem emitir CO2, muitos tecnólogos continuam revisitando as possibilidades de aperfeiçoamento da energia nuclear.

"Precisamos de milagres energéticos", declarou Gates três anos atrás, ao lançar sua iniciativa. Gates e Myhrvold planejam construir o chamado "reator de onda viajante". Em princípio, ele poderia operar de forma segura por meio século (ou mais) sem ser reabastecido e seria alimentado com resíduos perigosos das atuais usinas.

Esse método, como os dos reatores existentes, baseia-se na fissão, ou seja, na quebra de átomos pesados, usando a energia resultante para acionar turbinas elétricas.

A abordagem da Lockheed Martin envolve a fusão de variantes do hidrogênio em elementos mais pesados, uma reação semelhante àquela que mantém o Sol "aceso".

Em discurso neste ano, um dos líderes desse programa, Charles Chase, sugeriu que a meta é desenvolver reatores de fusão pequenos e modulares que possam ser montados em fábricas.

Entre as novas abordagens nucleares, os reatores de fissão à base de tório oferecem vantagens em termos de segurança. Os conceitos básicos foram provados em pesquisas da década de 1960 nos EUA, mas a ideia acabou abandonada.

Um engenheiro do Alabama, Kirk Sorensen, ajudou a resgatar esse trabalho e fundou uma empresa, a Flibe Energy, para levar isso adiante. Mas a China está à frente dos EUA nesse campo, com centenas de engenheiros desenvolvendo reatores de tório.

"Eles estão dando voltas na pista, e nós nem decidimos se vamos amarrar nosso tênis", afirmou Sorensen.

No entanto, mesmo que essas tecnologias funcionem, é possível que elas só sejam amplamente instaladas nas décadas de 2030 e 2040. Os climatologistas nos dizem que seria tolice esperar tanto tempo para começar a confrontar o problema das emissões.

As duas abordagens para a questão -gastar dinheiro na tecnologia atual ou investir em avanços futuros- são às vezes apresentadas como conflitantes. Mas os especialistas mais inteligentes dizem que temos de perseguir ambas, agressivamente.

Uma política climática ambiciosa por parte dos EUA, ancorada por um preço elevado sobre as emissões de CO2, atenderia simultaneamente aos dois objetivos, acelerando a tendência de substituição das usinas termoelétricas a carvão por usinas a gás natural e direcionando investimentos para as atuais tecnologias de baixa emissão de carbono, como a eólica e a solar.

Também haveria maior recompensa econômica para o desenvolvimento de novas tecnologias -reatores nucleares de nova geração, células solares melhoradas ou alguma coisa inteiramente imprevista.

Na prática, a política dos EUA é esperar por milagres energéticos, sem muito esforço para que eles aconteçam. Mas, certamente, nos sentiríamos bem melhor em relação ao futuro se o pleno poder criativo do capitalismo americano fosse liberado para o problema climático.
Folha de S. Paulo

sábado, 28 de julho de 2012

Chernobyl: o desastre soviético e a contaminação radioativa



Depois de um terremoto de intensidade jamais vista e de um tsunami de poder destrutivo avassalador, o Japão encara mais um pesadelo: o risco de uma catástrofe nuclear. A região atingida pelos tremores, no nordeste do território japonês, tem diversas usinas de energia atômica, e o abalo provocou rachaduras, vazamentos e explosões. De acordo com o governo, a situação ainda está sob controle, mas ninguém descarta a chance de novo acidente nas usinas. A situação trouxe de volta à lembrança das pessoas a tragédia mais famosa da história da energia nuclear: a explosão ocorrida há 25 anos em Chernobyl, na antiga União Soviética, atual Ucrânia. O desastre foi tema de uma reportagem de capa de VEJA em 1986.
O governo soviético admitiu: ocorreu um acidente num dos cinquenta reatores em operação no país – o da usina de Chernobyl, nas vizinhanças de Kiev, a terceira maior cidade da URSS. A partir daí a Europa começava a viver dias de medo ao mesmo tempo em que o mundo se dava conta, aos poucos, dos detalhes do maior acidente nuclear de todos os tempos. Em poucos dias, a nuvem radioativa estendeu-se por toda a Europa Central, atingindo a Suíça, o norte da Itália e batendo, na sexta-feira, sobre uma parte da Inglaterra. Carregada de iodo, césio e estrôncio radioativos, ela cobriu uma distância de 3.100 quilômetros, atingindo doze países, numa área equivalente à que vai de São Paulo ao Ceará. Enquanto isso, o governo soviético reconhecia o desastre em pílulas. Lacônico até mesmo diante das perguntas da Agência Internacional de Energia Atômica, à qual está filiado, ele só admitiu na noite de segunda-feira um desastre que ocorrera três dias antes. Desde o momento em que admitiram o desastre, fixou-se na versão de que o problema fora controlado, com a perda de duas vidas e a existência de 197 feridos. A estimativa dos serviços de espionagem americanos gira em tomo de 2.000 mortos, mas o governo soviético classifica todos esses cálculos como simples “boatos”. Era difícil saber o que sucedera em Chernobyl na noite de 25 de abril.
O que aconteceu depois
Quando as circunstâncias da tragédia ficaram claras, soube-se que trinta pessoas morreram imediatamente em razão do acidente e que a causa foi um experimento não autorizado que fugiu ao controle dos cientistas. Nos anos seguintes, mais de 5.000 mortes foram atribuídas à contaminação e pelo menos 5 milhões de pessoas sofreram problemas físicos ou psicológicos em razão da exposição à nuvem de poeira radioativa. Ainda hoje, pesquisadores avaliam o aumento dos casos de câncer e outras doenças em razão da tragédia em Chernobyl. O colapso da União Soviética e a miséria que imperou nas ex-repúblicas na década de 1990 ajudaram a piorar o cenário. A Ucrânia, onde está a usina, interrompeu ou passou a atrasar o pagamento de compensações e ajudas às vítimas e famílias das vítimas. Em meados dos anos 90, o presidente da vizinha Bielo-Rússia, Alexander Lukashenko, permitiu que moradores pobres voltassem a morar na região contaminada, numa medida que gerou muitos protestos. Os demais reatores de Chernobyl funcionaram até 2000, quando as autoridades cederam à pressão internacional e desativaram toda a usina.
Em abril de 2003, 17º aniversário da tragédia de Chernobyl, autoridades russas fizeram alertas sobre a possibilidade de colapso do escudo de concreto erguido, pouco após o acidente, ao redor do reator problemático, para minimizar o vazamento de material radioativo. “O sarcófago foi construído para durar cinco anos, mas já está instalado lá há dezessete. E ninguém investiga a sério as reações que acontecem dentro dele”, disse o ministro da Energia Atômica da Rússia, Alexander Rumyantsev. “Há buracos nele e o teto pode cair. Precisamos de um novo escudo ao redor do antigo”, acrescentou. O governo da Ucrânia negou a possibilidade de um novo acidente e garantiu que as medidas necessárias estão em execução e serão finalizadas a tempo se houver ajuda financeira do Ocidente. Técnicos da usina reconheceram os problemas e divulgaram um plano para estabilizar as condições do escudo antigo rapidamente e erguer um novo caixão de concreto em volta do atual. Em setembro de 2005, um relatório preparado pelo Fórum Chernobyl, que inclui oito agências da ONU, apresentou mais detalhes da tragédia. A investigação foi realizada por centenas de cientistas, economistas e médicos. Em abril de 2006, no vigésimo aniversário do acidente, a data foi marcada por protestos contra a criação de novas usinas nucleares pelo mundo.
Revista Veja

Energia nuclear: riscos – e vantagens – das usinas atômicas




A energia nuclear é responsável por 16% da eletricidade consumida no mundo — e também por alguns dos piores pesadelos da humanidade. A concretização de um deles, o acidente na usina de Chernobyl, na Ucrânia, colocou o mundo em choque em 1986. Agora, o planeta novamente assiste com apreensão aos vazamentos nucleares no Japão, que tiveram início após o devastador terremoto que atingiu o país na última sexta-feira. As usinas nucleares são consideradas uma fonte de energia limpa porque emitem pouco carbono e, por isso, não contribuem para o aquecimento global – mas é impossível ignorar os riscos que elas representam aos países que as abrigam.
O acidente de Chernobyl, que se tornaria o maior desastre nuclear da história, ocorreu na madrugada do dia 26 de abril de 1986, durante um teste de rotina do reator número 4 da usina. Por um erro dos técnicos, o processo de reação nuclear em cadeia se descontrolou, aquecendo a água que deveria resfriar o reator. Seguiram-se uma explosão e um incêndio que durou dez dias, espalhando toneladas de material radioativo por uma área de 150.000 quilômetros quadrados.
O debate sobre a energia atômica é tão antigo quanto sua utilização. Em 1971, reportagem de VEJA relatava o debate sobre o tema nos Estados Unidos, país que recebeu sua primeira usina nuclear em 1957. O uso da tecnologia atômica em território americano ficava a cargo da Comissão de Energia Atômica (AEC), abolida em 1974. “Para os mais acesos de seus críticos, a AEC, que hoje planta instalações para gerar a energia, amanhã colherá crianças geneticamente doentes, cânceres e terra envenenada”, dizia o texto de VEJA. “Mas os defensores da energia nuclear veem os átomos por um lado diferente. ‘A chave para uma civilização avançada é um avançado padrão de vida’, diz Glenn F. Seaborg, presidente da AEC. ‘E a chave para isso é a energia’.”
As usinas nucleares chegaram ao Brasil na década de 70. A usina de Angra 1 fora comprada praticamente pronta, em 1969, da americana Westinghouse. O objetivo era que iniciasse o fornecimento comercial de energia elétrica em 1977, com um custo total de construção de 300 milhões de dólares. Porém, Angra 1 só entrou em funcionamento seis anos mais tarde, após ter consumido 1,8 bilhão de dólares. Em 2000, foi inaugurada a Angra 2, que levou mais de 20 anos para ser construída. Já a construção da usina nuclear Angra 3 sofre, há mais de trinta anos, de paralisia crônica. O Brasil perdeu muito dinheiro em Angra dos Reis. Com o capital gasto no projeto nuclear até aqui, seria possível construir cinco usinas nucleares, não apenas três.
A história recente do país evidencia o grau de amadorismo e fragilidade com que o Brasil trata um assunto tão delicado. Em 2004, uma fábrica de urânio em Resende, interior do Rio, vazou, atingiu quatro operadores – e tudo ficou na surdina. Mas o pior acidente nuclear em território brasileiro ocorreu em 1987, em Goiânia. Uma unidade de radioterapia abandonada nas ruínas do Instituto de Radioterapia, contendo uma cápsula de Césio, um poderoso elemento radioativo, foi destruída por catadores de papel. Quatro pessoas morreram vítimas da contaminação. E as autoridades brasileiras tentaram encobrir por todos os meios suas responsabilidades pela tragédia.
Como se nota na reação da comunidade internacional em relação à crise nuclear japonesa, acidentes em usinas fazem os países repensar o uso de energia atômica. Nos anos que se seguiram à tragédia de Chernobyl, a maior parte dos países desistiu ou abandonou seus projetos nucleares, principalmente em razão dos custos cada vez mais altos de construção ou da pressão dos ecologistas. Os Estados Unidos já haviam interrompido a construção de novos reatores desde 1979, quando ocorreu um superaquecimento do reator de Three Mile Island.
A tragédia no Japão ocorre justamente num momento de retomada dos investimentos em energia nuclear. Reportagem de VEJA de 2008 já mostrava como uma tecnologia vista até bem pouco tempo como sinistra passou a ser encarado, em muitos países, como uma esperança de energia limpa e barata. O renascimento da energia nuclear é explicado por uma conjunção de fatores. O primeiro é econômico. A disparada do preço do petróleo e do gás natural, que juntos respondem por 25% da eletricidade produzida no planeta, torna cada vez mais cara a energia obtida desses combustíveis fósseis. O segundo fator que impulsiona o renascimento da energia nuclear é o combate ao aquecimento global, uma causa que mobiliza governos e opinião pública.
A rigor, o único problema das usinas nucleares é o que fazer com o lixo atômico que produzem. Até agora não se tem uma solução prática para os rejeitos radioativos que não seja o armazenamento, o que ainda deixa boa parte da opinião pública desconfiada com a nova escalada na construção de reatores. Há esperança de que, no futuro, se descubra uma forma mais eficiente de descartar esse material ou reutilizá-lo. Novamente, porém, o futuro dos investimentos em energia nuclear volta a ficar incerto em boa parte do planeta.

Geografia e a Arte

Geografia e a Arte
Currais Novos