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sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Cinco novas ilhas foram descobertas na Rússia – e isso não é um bom sinal


Entre 2015 e 2018, 30 novas ilhas, cabos e baías surgiram entre as regiões de Nova Zembla e Terra de Francisco José.
Rafael Battaglia



(Ansgar Walk/Wikimedia Commons)

500 anos já se passaram desde as Grandes Navegações, período no qual os europeus foram ao mar e chegaram em terras antes desconhecidas por eles – a América, por exemplo. Mas acredite: mesmo com toda a tecnologia existente em pleno 2019, ainda há lugares inéditos na Terra sendo descobertos ou, no caso que contamos abaixo, aparecendo “do nada”.

Na última semana, a Rússia confirmou a existência de cinco novas ilhas em Novaya Zemlya (ou Nova Zembla), um arquipélago no mar de Kara, na região norte do país, próxima ao Oceano Ártico.

Elas foram identificadas pela primeira vez em 2016 pela estudante Marina Migunova. Isso aconteceu durante uma expedição do curso de uma academia naval em São Petersburgo do qual Marina fazia parte. Contudo, de acordo com o Ministério da Defesa russo, para que os locais fossem adicionados aos mapas, foi preciso que especialistas visitassem o local o comprovassem a descoberta.
(Google Maps / Andy Faria/Montagem sobre reprodução)

As ilhas estão localizadas na baía de Vize e têm tamanhos diferentes: variam de 900 a 54,5 mil metros quadrados. O arquipélago em que elas estão, Novaya Zemlya, era usado para testes nucleares durante a Guerra Fria. Foi lá que, em 1961, a União Soviética testou a Tsar Bomba, a arma nuclear mais potente da história.


Pela descoberta, Marina recebeu um diploma honorário da Sociedade Hidrográfica Russa. Hoje, ela trabalha como engenheira naval nas frotas da Marinha no norte do país.

Mas antes de bancar o Cristóvão Colombo e sair por aí como um explorador, saiba que o surgimento dessas novas ilhas não é um bom sinal. Pelo contrário: o fenômeno ilustra os efeitos do aquecimento global. Tudo indica que elas apareceram como consequência do derretimento acelerado de geleiras.


Russia confirms discovery of 5 new Arctic islands which emerged as climate change accelerates glacial meltinghttps://www.themoscowtimes.com/2019/08/28/russia-discovers-5-arctic-islands-as-glaciers-melt-a67051 …



As porções de terra que agora formam as ilhas estavam escondidas sob a geleira Nansen, também conhecida como Vylka, que cobre boa parte de Nova Zembla e que integra a maior calota de gelo da Europa. Com o aumento das temperaturas na região do Ártico, o gelo derreteu – e elas apareceram.

Não foi um caso isolado. Entre 2015 e 2018, 30 novas ilhas, cabos e baías surgiram entre as regiões de Nova Zembla e Terra de Francisco José (Franz Josef Land), outro arquipélago dali. O monitoramento é feito via satélite pelo serviço hidrográfico da Rússia, e espera-se que mais locais assim sejam encontrados.
Revista Superinteressante

terça-feira, 13 de agosto de 2019

O ambicioso plano da Rússia para combater o encolhimento da população


Mar Pichel
BBC News Mundo

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Segundo estimativas da ONU, população da Rússia vai diminuir 8% até 2050

É uma das principais ameaças às aspirações geopolíticas da Rússia.

O país enfrenta uma crise demográfica sem precedentes que atingiu um novo patamar em 2018 quando, pela primeira vez em uma década, a população russa caiu em termos absolutos.

Segundo a Rosstat, o IBGE russo, o país tem agora 148,8 milhões de habitantes, 93,5 mil a menos do que no ano anterior.

E as estimativas não são promissoras. Segundo estimativas da ONU, a Rússia perderá cerca de 8% de sua população até 2050.

Consciente disso, o governo do presidente Vladimir Putin desenvolveu um plano ambicioso para atrair entre 5 e 10 milhões de imigrantes entre 2019 e 2025.

"O declínio demográfico tem sido um problema para a Rússia há décadas", diz Gregory Feifer, analista do Centro Davis para Estudos Russos e Eurasianos da Universidade de Harvard (EUA), à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

"O alto escalão do governo, incluindo o presidente Putin e o primeiro-ministro Medvedev, falou publicamente sobre isso".

"Mas as políticas que vêm sendo tomadas são inadequadas para enfrentar o declínio da população. O que o governo está fazendo é desestimular a imigração e incentivar a emigração", acrescenta Feifer.

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Imigrantes da Ásia Central aprendem russo
Fuga de cérebros

Como muitos outros países do mundo, a Rússia também enfrenta baixas taxas de natalidade.

Em sua campanha eleitoral de 2018, o presidente Putin prometeu gastar mais de US$ 8 bilhões (R$ 32 bilhões) nos próximos três anos em programas para ajudar as famílias a ter filhos.

Mas o declínio da população russa em termos absolutos se deve, principalmente, à migração.

Em 2017, o último ano com dados disponíveis, 377 mil deixaram a Rússia, segundo a Rosstat.

"Muitas pessoas estão deixando a Rússia, jovens profissionais altamente qualificados são maioria", diz Feifer. "E isso é um problema para a Rússia, porque é o tipo de pessoas que o país precisará para manter sua influência no mundo e em sua economia."

A opinião de Feifer é comprovada pelos números da Rosstat. Segundo o órgão, em 2017, 22% das pessoas que deixaram a Rússia tinham formação superior, 5% a mais que em 2012.

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Rússia tem grandes extensões de terra completamente despovoadas
Atrair imigrantes

Tradicionalmente, a Rússia era um país receptor de imigrantes, e a perda de população causada pelo declínio natural (baixas taxas de natalidade) costumava ser mitigada pelos recém-chegados ao país, principalmente de países do Cáucaso e da Ásia Central.

Por outro lado, esse número vem registrando quedas consecutivas. No ano passado, chegou ao valor mais baixo desde 2005: 124.900, segundo a Academia Russa de Economia e Administração Pública (Ranepa).

A dificuldade na obtenção de vistos de residência e a obrigatoriedade de que o candidato à cidadania russa renuncie a sua nacionalidade de origem representam barreiras à imigração, explicou Yulia Florinskaya, especialista em migração da Ranepa, ao site de notícias Eusarianet.

Estima-se que a Rússia precise de até 300 mil pessoas a mais por ano para mitigar os efeitos da perda natural da população e permanecer em um crescimento líquido zero.

Neste contexto, o governo de Putin deu prioridade à política imigratória e aprovou em outubro do ano passado um novo plano para os próximos seis anos, com o qual espera atrair entre 5 e 10 milhões de migrantes.

Pelo plano, os procedimentos para obtenção de autorizações de trabalho e acesso à cidadania russa são simplificados.

O objetivo é atrair principalmente a população de língua russa de países vizinhos, incluindo a Ucrânia, o Cazaquistão, o Uzbequistão, a Moldávia e outras repúblicas ex-soviéticas. Mas também tem como alvo os estrangeiros que querem "integrar-se à sociedade russa".

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Maioria dos imigrantes da Rússia vêm das ex-repúblicas soviéticas
O despovoado leste

A desigualdade na ocupação do território é outro problema para as autoridades russas.

Segundo um documento do Conselho Russo de Assuntos Internacionais, "a Rússia entende que tem uma crise demográfica em curso, especialmente nas regiões da Sibéria e do Extremo Oriente".

E é por isso que esse plano de imigração visa a "atrair estrangeiros e imigrantes para repovoar essas áreas com baixa população".

Isso não é algo novo. De acordo com o serviço russo da BBC, desde o colapso da União Soviética, houve numerosos programas para receber imigrantes "etnicamente russos" das antigas repúblicas soviéticas.

O objetivo desses programas, por meio dos quais os imigrantes podiam obter a nacionalidade russa, era repovoar essas áreas remotas. As famílias que se mudaram para a Rússia receberam terras e uma quantia em dinheiro (aproximadamente US$ 6,5 mil).

"Não se podia escolher o local onde você ia morar; era o governo que escolhia, e geralmente se tratava de lugares remotos, sem serviços sociais, sem escolas ...", explica Anastasia Uspenskaya, repórter do serviço russo da BBC.

Como resultado, menos de 1 mil pessoas se candidataram a esses programas.

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Governo de Putin lançou política para atrair imigrantes

Segundo uma análise do centro de estudos Stratfor, a Rússia enfrenta o risco de tensões étnicas com a chegada de imigrantes do Cáucaso e da Ásia Central.

"A Rússia não é tradicionalmente propensa à imigração; é uma sociedade fechada", diz Anastasia Uspenskaya.

Para Gregory Feifer, a Rússia "é um lugar muito difícil para os imigrantes viverem e trabalharem".

"Em teoria, a Rússia seria o destino ideal para imigrantes de países fronteiriços da Europa Oriental e da Ásia Central, como o Tajiquistão, onde o salário médio mensal é de US$ 15 por mês. Mas a sociedade é muito racista", diz o analista.

"Especialmente os imigrantes de pele escura enfrentam discriminação e violência", acrescenta.

Em Yakutsk, na Sibéria, fortes protestos contra a imigração foram realizados em março passado, após o estupro de uma mulher por imigrantes da Ásia Central.

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Rússia busca trabalhadores no setor de construção civil
O plano de Putin está funcionando?

Após uma trajetória descendente durante vários anos, os números da Rosstat mostram um aumento significativo no número de imigrantes nos primeiros meses de 2019.

Entre janeiro e abril deste ano, houve uma "imigração estranhamente alta na Rússia".

As estatísticas oficiais mostram que nesse período a população migrante cresceu em 98 mil pessoas, em comparação com as 57,1 mil registradas no mesmo período de 2018.

No entanto, nenhum dos planos anteriores do governo russo foi bem-sucedido.

Além disso, ainda é muito cedo para vincular esse aumento à nova política de imigração do governo e estabelecer uma tendência.

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Extremistas nacionalistas protestatam contra imigrantes

Em qualquer caso, de acordo com uma análise da Stratfor, embora a Rússia consiga atrair um número significativo de migrantes para mitigar o declínio de sua população, isso terá um impacto pequeno nas previsões demográficas.

"Mesmo que a Rússia consiga aumentar substancialmente a imigração, isso não vai garantir números suficientes para compensar o declínio em sua população", diz Feifer.

"As autoridades russas perceberam que suas estratégias anteriores para aumentar as taxas de natalidade não funcionavam, e agora eles estão falando sobre o incentivo à imigração, mas é tudo da boca para fora. Não acho que isso vai resolver os problemas", conclui.

sábado, 22 de dezembro de 2018

Por que os Estados Unidos estão perdendo superioridade militar frente à Rússia e à China


Jonathan Marcus
Correspondente para assuntos de Segurança e Defesa da BBC

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Segundo relatório, margem de superioridade das Forças Armadas americanas está se deteriorando em várias áreas

Um grupo de especialistas independentes publicou uma análise sóbria e implacável da estratégia de defesa nacional do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

"O papel global que os Estados Unidos têm desempenhado por muitas gerações é baseado em um poder militar inigualável (...) Hoje, no entanto, nossa margem de superioridade tem sido minada em áreas importantes", diz o relatório.

"Há desafios urgentes que devem ser enfrentados caso os Estados Unidos queiram evitar danos permanentes à sua segurança nacional", afirma o documento.

O duro diagnóstico é resultado de uma solicitação do Congresso à sua Comissão de Estratégia Nacional de Defesa, um painel concebido para conduzir estudos independentes sobre a segurança do país - desta vez, foi pedida uma avaliação da estratégia de defesa do governo Trump.

O relatório foi presidido por Eric Edelman, ex-funcionário do Pentágono durante o mandato de George W. Bush, e Gary Roughead, ex-chefe de operações navais. Ambos são conhecedores do orçamento da defesa e do que acontece nos corredores do Pentágono.

"A segurança e o bem-estar dos Estados Unidos enfrentam seus maiores riscos em décadas", afirma o documento. "A superioridade militar dos Estados Unidos diminuiu para um nível perigoso".
A ameaça da China e da Rússia

A chegada de Trump à Casa Branca coincide com uma mudança nas prioridades militares do país: longe de operações contra insurgências e da chamada "guerra ao terror", indo em direção ao preparo para um potencial conflito contra seus principais concorrentes, como a China e a Rússia.

Mesmo aqueles concorrentes não tão diretos, como o Irã ou a Coreia do Norte, apresentam novos e perigosos desafios.

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O porta-aviões americano USS Carl Vinson; os avanços da China e Rússia impõem novos desafios para os EUA

As implicações são enormes para os militares dos EUA.

Algumas características de lugares como Iraque ou Afeganistão, às quais os EUA já estão mais adaptados, não se repetem em um eventual conflito com a Rússia ou a China. O país tem operado, por exemplo, em ambientes sem qualquer ameaça aérea ou sem grandes desafios para suas comunicações, como o uso de GPS.

Enquanto isso, os dois potenciais adversários vêm estudando as Forças Armadas americanas e continuam a modernizar as suas, reforçando suas vantagens tradicionais enquanto exploram novos caminhos para contrabalançar as vantagens dos EUA.

A intervenção da Rússia na Ucrânia demonstrou o extraordinário poder destrutivo da artilharia russa - tributário em parte de sua sofisticada capacidade de combate por meios eletrônicos, que possibilitou encontrar e destruir armas ucranianas e ao mesmo tempo esconder a localização dos equipamentos russos.

Em muitas dessas áreas, os Estados Unidos têm muito a fazer para se colocar no mesmo nível.

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Relatório recomenda esfoço conjunto de órgãos nacionais em questões militares

Isso exige ajustar e reequipar certas áreas, mas muito mais do que isso. Requer um esforço massivo para impulsionar a inovação em inteligência artificial, acesso à banda larga etc.

O relatório soa como um alerta. A partir do documento, se fosse preciso dar uma nota aos planos do Pentágono, diria que ela seria uma avaliação de aprovação - mas não muito mais que isso. O diagnóstico resumido é que as forças militares americanas têm muitas boas intenções e alguma prospecção dos grandes desafios, mas abordagens duvidosas para enfrentá-los e, basicamente, recursos insuficientes para isso.

O documento traz mais de 30 recomendações detalhadas. Aqui apresento alguns dos mais importantes, resumidos e selecionados:
Concentrar os gastos das ações dos EUA e de aliados contra a China e a Rússia;
Reduzir o risco da perigosa dependência de itens importados, como por exemplo aqueles provenientes da China;
Manter a presença militar dos EUA no Oriente Médio, inclusive depois da planejada derrota do Estado Islâmico;
Ampliar as forças para que se possa lutar duas guerras, já que atualmente só são capazes de enfrentar uma;
Aumentar o número de tanques, mísseis de longo alcance e artilharia;
Criar mais unidades de engenharia e de defesa aérea;
Expandir a frota submarina da Marinha e ampliar a capacidade de transporte marítimo;
Aumentar os provimentos à força aérea no que for necessário: em resumo, mais de tudo;
Manter, e não diminuir, o pessoal da Marinha.

O relatório freia a grandiloquência com a qual o presidente Trump apresentou sua estratégia para a defesa. Mas o relatório não tem nada de revolucionário, pois compartilha a visão estratégica que define o pensamento do Pentágono.

Ele destaca os pontos em que os planos oficiais são mal fundamentados ou inconsistentes. É um apelo por maiores gastos, mas também por gastos mais coerentes.

Entrar no ramo de armamentos de alta tecnologia será caro. Habilidades tradicionais terão que ser reaprendidas. Os novos desafios, analisados e redirecionados.

Mas o documento reitera que os EUA continuarão sendo um grande ator militar em todo o mundo.
Diplomacia

Alguns dos problemas fundamentais para as forças armadas estão fora de seu escopo: na indústria e na diplomacia. Na Guerra Fria, por exemplo, o longo domínio dos EUA foi baseado em um extraordinário lastro científico e industrial com o qual ninguém podia rivalizar.

Avanços na pesquisa aeroespacial e outras tecnologias relacionadas ao setor militar se fundiram lentamente na vida civil.

Hoje as coisas são diferentes. É a pesquisa civil - como em computação e inteligência artificial - que está impulsionando o progresso tecnológico. E os Estados Unidos, embora sejam um jogador poderoso, não estão sozinhos nesta corrida.

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Xi Jinping comandou uma renovação nas forças armadas chinesas

A China, em particular, está investindo enormemente em tecnologias que podem, um dia, dar-lhe vantagem em batalhas do século 21. A globalização interligou as economias chinesa e americana de maneiras que podem ser prejudiciais à segurança dos EUA.

Segundo as recomendações do Comissão de Estratégia Nacional de Defesa, os programas de aquisição de armas precisam ser mais rápidos e eficientes. Os gastos dos EUA excedem os de seus principais rivais militares, mas o país ainda não consegue obter frutos proporcionais aos investimentos.

Há também o aspecto diplomático.

Os Estados Unidos não treinam para lutar sozinhos, mas com aliados. Trump tem se concentrado apenas em um aspecto desta relação: a partilha de responsabilidades, como a necessidade de países da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), em especial, gastarem mais na defesa coletiva.

Mas Trump já ofendeu os aliados de maneira ímpar.

A própria Aliança Atlântica enfraqueceu politicamente, mesmo que mais forças dos EUA tenham sido mobilizadas na Europa para reforçar a defesa contra a Rússia.
Uma nova mentalidade?

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Homens verdes' que atuam na Crimeia exemplificam novos desafios na segurança

Talvez o grande desafio apresentado por este relatório seja seu apelo para que os Estados Unidos adotem uma abordagem que envolva todo o governo

Tanto a Rússia quanto a China, destaca o documento, possuem estratégias que integram todas as peças do poder nacional. Os EUA precisam fazer o mesmo.

Não vivemos mais em um mundo onde existe uma clara distinção entre a paz e a guerra. O espaço entre esses pólos é preenchido por uma variedade de desafios e armadilhas: ataques cibernéticos, assassinatos políticos e atividades de forças cuja identidade só se torna clara ao longo do tempo (pense nas tropas russas que operam como os chamados "homens verdes", que lutam sem identificação, na Crimeia).

Enfrentar essa nova realidade requer também novas estratégias, orientações e ferramentas. Por último, e não menos importante, exige uma nova mentalidade do governo - talvez a coisa mais difícil de ser alcançada.
BBC Brasil

domingo, 22 de julho de 2018

Rússia afirma que pode aumentar produção de petróleo


Exploração de petróleo em em Otrada, na Rússia. Foto: Andrey Rudakov/ Bloomberg.

Objetivo é enfrentar possível déficit no mercado. Outros países da Opep têm o mesmo planejamento.

A Rússia planeja elevar ainda mais a produção de petróleo, caso problemas de suprimento atinjam o mercado global. De acordo com informações da agência de notícias Reuters, o ministro de Energia da Rússia, Alexander Novak, afirma que o país e outros grandes produtores de petróleo estão com a mesma ideia.

Nas últimas semanas, os preços do petróleo alcançaram as máximas atingidas em 2014, em meio à queda esperada nas exportações da commodity do Irã em 2018 devido à retomada das sanções dos EUA sobre o país, além da queda na produção da Venezuela e problemas na oferta da Líbia, Canadá e Mar do Norte.

A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e outros países produtores, incluindo a Rússia, responderam aos problemas do mercado com um afrouxamento no acordo de corte de oferta em junho. Na prática, o acordo eleva a produção de petróleo combinada em 1 milhão de barris por dia (bpd).

“Se nós precisarmos de mais que 1 milhão de bpd, não descarto que nós possamos rapidamente discutir isso e tomar uma decisão rápida”, disse Novak a jornalistas. Só a Rússia elevaria em 200 mil bpd, mas, segundo Novak, o país poderia aumentar para além desse nível.

Só na Rússia, o ministro acredita que os preços elevados do petróleo devem gerar 2,5 trilhões de rublos aos cofres públicos russos em 2018, o equivalente a US$ 40,14 bilhões.

Na quinta-feira (12), a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) afirmou que já há sinais “muito bem vindos” de que a produção dos principais produtores tem sido elevada e pode alcançar um recorde.

Com informações da Reuters.
https://revistamineracao.com.br

O que há por trás dos campos de concentração de gays na Chechênia



Kadyrov (à direita): o aliado de Putin que pode ser uma ameaça ao presidente russo.


Parecia uma piada de mau gosto de dia da mentira. No dia primeiro de abril, a imprensa internacional começou a propagar uma notícia que dizia que autoridades da Chechênia estavam enviando homens entre 16 e 50 anos a campos de concentração. O crime: eles são homossexuais. Segundo o jornal russo Novaya Gazeta, mais de 100 pessoas foram espancadas e eletrocutadas, e pelo menos quatro morreram nesses centros de detenção. 

Essa tortura seria a institucionalização de uma prática antiga na região do Cáucaso, o crime de honra, medida que serviria para “lavar a vergonha” de uma família. Mas, para o governo checheno, tudo não passa de conspiração. Um porta-voz declarou que “mesmo que existissem gays na Chechênia, a polícia não teria problema com isso, pois as próprias famílias deles se comprometeriam a enviá-los a um lugar de onde não seria possível retornar.”

Isso mesmo. Não só a república foi acusada de um crime humanitário grotesco como seu porta-voz fez pouco caso e ainda disse que famílias chechenas matam seus filhos gays. Acontece que não são as famílias, mas é o próprio governo da Chechênia que está liderando essa caçada, segundo grupos de direitos humanos como o Humans Rights Watch e a Anistia Internacional.

Esses homens estariam sendo capturados para serem eliminados até o dia 26 de maio, quando começa o ramadã, mês sagrado do islamismo. Não que o Islã, por si só, tenha algo a ver com a morte em massa de pessoas, é preciso frisar. Trata-se de mais um caso em que religião é usada para fins políticos malignos. O cristianismo também sofre com isso. Em Uganda, país muito influenciado pelo fundamentalismo evangélico americano, o governo determinou que ser gay pode render prisão perpétua (fora que Rússia e Brasil são dois dos países mais perigosos do mundo para homossexuais, e ambos são majoritariamente cristãos). 

A possível iminente matança foi condenada por nações importantes, como Reino Unido e Austrália. Os Estados Unidos se limitaram a declarar, por meio de seu embaixador na ONU, que, “se for verdade, tal violação aos direitos humanos não pode ser ignorada, e as autoridades chechenas precisam investigar imediatamente o ocorrido e tomar as medidas necessárias para prevenir abusos futuros.” Um blablablá mais em cima do muro do que gato insone, ainda mais que são as próprias “autoridades chechenas” que estão sendo acusadas. A posição da Rússia foi além. Ela deu respaldo ao governo local, limitando-se a dizer que não foram encontradas evidências a respeito dos tais campos. 

Bem, a Chechênia é um lugar isolado, montanhoso e com um cenário político que desfavorece o trabalho de ONGs e da imprensa livre. Podemos acreditar na posição oficial do governo e fim de papo. Ou levar em conta as acusações – ainda mais quando há alguns fatos na mesa, como o de que o presidente checheno tem costas quentes.

Mas, primeiro, como isso foi acontecer na Chechênia? – lugar que ocupou o noticiário nos anos 90 a ponto de ganhar piadas óbvias por causa de seu nome (às vezes acompanhada de outro figurão da época, o Kosovo).
Divisão política da Rússia, com a Chechênia destacada




CHECHÊNIA QUEM?

A Chechênia é uma das menores e mais barulhentas das 22 repúblicas que integram a Rússia (aliás, aos nerds de geografia: este vídeo explica a composição do país, que ainda tem oblasts, krais, cidades federais…). Um pedaço de terra de 17 mil km quadrados (menor que Sergipe), sem saída para nenhum dos dois mares que banham o Cáucaso, o Negro e o Cáspio. Até o século 15, ela ficou no fogo cruzado entre árabes e mongóis, quando Ivan (aquele mesmo, o Terrível), iniciou a expansão do czarismo. Persas e russos e, depois, turcos e russos guerrearam pelo domínio dessa região estratégica. Diversas religiões conviviam em relativa harmonia, sem predomínio claro de uma sobre as outras, mas a opressão da cristã Rússia ao longo dos séculos ajudou o islamismo a ser mais popular que outras fés – uma forma de resistência cultural dos povos da região .

A área enfim foi conquistada no século 19, mas a Revolução Russa, em 1917, abriu uma brecha para a Chechênia e outras repúblicas vizinhas, Inguchétia e Daguestão, declararem independência e formarem a República Montanhosa do Norte do Cáucaso. O país teve vida curta, e em 1920 foi engolido pela fúria soviética. Em seu governo (1924-53), Stálin deportou milhares de chechenos e deu suas casas e propriedades a russos. Quando os chechenos voltaram, criou-se um problema visível até hoje (algo semelhante aconteceu na Crimeia, também na conta de Stálin).

Em 1991, a União Soviética implodiu. O Cáucaso voltou a uma nova fase de bagunça. A Chechênia declarou independência, mas em 1994 os russos invadiram o território em uma guerra de 100 mil mortos. Em 1999, a Segunda Guerra da Chechênia estourou. Os russos tomaram a capital, Grozny, e diversos atentados terroristas ocorreram nos anos seguintes.

O conflito beneficiou politicamente o novo e desconhecido chefe de governo russo, Vladimir Putin. No último dia daquele ano, o presidente Boris Iéltsin, enfraquecido por um cenário de incerteza econômica, instabilidade política e denúncias de corrupção (tudo embalado em uma saúde debilitada por litros de vodca), renunciou. Putin assumiu interinamente, reprimiu os chechenos e recuperou a economia com a ajuda do aumento do preço do petróleo (sempre ele). A popularidade lhe rendeu a vitória nas eleições de 2000. E desde então o homem está aí.

Em 2007, Putin indicou Ramzan Kadyrov para a presidência da Chechênia. A república rebelde passou a ser uma ilha de estabilidade nas montanhas do Cáucaso. Grozny foi reconstruída com investimentos vultosos de Moscou. Mas o preço foi pago em direitos humanos.

Kadyrov é um sujeito afável. Ele é acusado de chefiar uma milícia que sequestra, tortura e mata separatistas chechenos. Ao mesmo tempo, quer impor preceitos da sharia, a lei islâmica, na região. Putin tolera isso, segundo analistas internacionais, para evitar mais dor de cabeça na Chechênia, afinal ele tem um suposto aliado no comando, em vez de um político separatista. Além disso, manter um governante que segue as leis religiosas mais tradicionais seria uma forma útil de cooptar terroristas, um problema recorrente na região.
 
Grozny, a capital: reconstruída depois de duas guerras.


Mas essa parceria acabou se tornando uma ameaça a Putin, porque Kadyrov está cada vez mais poderoso. Cerca de 80% do orçamento da república vem do Kremlin, e muito acaba no bolso de seu presidente: Kadyrov tem um zoológico particular e um Lamborghini de 1 milhão de euros (a joia de uma frota de 50 carros de luxo). Até aí, corrupção é um assunto em que é difícil se destacar na Rússia, então ele nem chamaria muita atenção. Mas Kadyrov é um cão que se livrou da coleira. Em 2015, Boris Nemtsov, um político oposicionista, foi assassinado em Moscou, literalmente ao lado do Kremlin, por um homem ligado a Kadyrov. O episódio pegou muito mal para Putin, porque ele já estava sofrendo sanções devido à guerra com a Ucrânia (e a morte de um líder da oposição não era lá um sinal de uma democracia pujante, digamos assim). Fora que o atentado aconteceu sem que Moscou autorizasse, ou sequer soubesse, do plano. Mas o presidente russo não repreendeu seu parceiro. Quando um político siberiano disse que Kadyrov era uma desgraça para a Rússia, seus homens bateram na porta do homem e disseram que se ele não se retratasse, poderia ter o mesmo fim que Nemtsov. Coisa fina.

O presidente checheno já disse que qualquer autoridade que se aventurar a entrar em seus domínios sem permissão será assassinada. Ele matou todos que se opuseram ao seu governo. Assumiu o controle da empresa petroquímica estatal da Chechênia. Encheu os próprios cofres com dinheiro de Moscou. E agora quer, aparentemente, exterminar os gays da república que comanda. Ao agir à revelia do Kremlin, Kadyrov mostra, segundo uma análise do site Vox, que é possível peitar Putin e se dar bem – algo do qual o líder russo pode se arrepender no futuro se não controlar seu pequeno ditador.

Enquanto isso, grupos se mobilizam na internet para denunciar os crimes (você pode assinar a petição do Avaaz aqui e ver a campanha do Humans Rights Watch aqui). No Instagram, a campanha #kiss4LGBTQrights pede que as pessoas postem fotos se beijando e marquem o Kremlin como localização (o beijaço virtual foi uma zoeira politizada e moralizadora, diga-se de passagem).

Putin disse na sexta (5) que irá ordenar uma investigação sobre os “rumores sobre o que está acontecendo com as pessoas de orientação não-tradicional no norte do Cáucaso”. Ao usar termos assim, já se pode esperar o que virá da tal investigação.

Mas Kadyrov segue não ligando a mínima, aparentemente. Ele insiste que não há “pessoas de orientação não-tradicional” na Chechênia e investe em sua carreira midiática. Seu perfil no Instagram (@kadyrov_95) tem 2,7 milhões de seguidores (quase o dobro da população da república). No ano passado, ele estrelou um reality show cujo vencedor seria seu novo assistente. Os candidatos tiveram que enfrentar provas como vender sorvete nas ruas de Grozny e ajudar a realizar uma cirurgia cardíaca, além de enfrentar atividades físicas como arco e flecha, hipismo, corrida e boxe com o próprio Kadyrov. O programa tinha a clara intenção de suavizar a imagem do líder e expandi-la para além do Cáucaso, tornando-o um nome de alcance nacional. No programa, ele declarou: “As pessoas acreditam na imagem que os liberais fizeram de mim, que sou assustador, que mato quem fala qualquer coisa de mim, que vou prendê-los em calabouços e esfaqueá-los. Isso foi inventado por inimigos do povo”.

O homem pode fazer campos de concentração para gays, algo que não se via na Europa desde Hitler. Mas ao mesmo tempo entra para o clube dos políticos/astros de reality show, fenômeno que vimos acontecer em 2016 em Washington (e em São Paulo).

A realidade no Cáucaso, não tão distante assim, não precisa ser ignorada. O que está acontecendo na Chechênia, tão cruel assim, não pode ser ignorado.
Revista Superinteressante

domingo, 8 de janeiro de 2017

Notícias Geografia Hoje

 
Exército dos EUA promete intensificar treinamentos na Europa para deter Rússia




BREMERHAVEN (Reuters) - O Exército norte-americano prometeu neste domingo aumentar o alcance e a complexidade de suas atividades de treinamento na Europa para deter agressões por parte da Rússia.

"Deixe-me ser claro: Esta é uma parte de nossos esforços para deter a agressão russa, garantir a integridade territorial de nossos aliados e manter uma Europa que é unida, livre, próspera e em paz", disse o tenente-general das Forças Aéreas dos EUA Tim Ray, vice-comandante do Comando Europeu dos EUA, em comentário.

Ray sublinhou o "sólido comprometimento dos Estados Unidos com a Europa" no porto alemão de Bremerhaven, na Alemanha, onde chegaram nos últimos dias cerca de 2.800 peças de equipamento militar que serão usadas por cerca de 4 mil tropas operando em Estados membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) próximos à Rússia.

A concentração dos EUA e da Otan no leste europeu ocorre dias após agências de inteligência norte-americanas acusarem o presidente russo Vladimir Putin de ordenar um esforço para aumentar as chances eleitorais do republicado Donald Trump ao descreditar a democrata Hillary Clinton na campanha presidencial de 2016.

Ray afirmou que os cerca de 70 mil soldados norte-americanos baseados na Europa se adaptam para lidar com os atuais desafios estratégicos, incluindo as operações militares da Rússia na Ucrânia, a chegada de refugiados da Síria e o radicalismo islâmico.

O exército dos EUA e a Otan se esforçam para melhorar sua capacidade de responder rapidamente às ameaças, posicionando antecipadamente suprimentos e equipamentos em toda a Europa, enquanto aprimoram aeródromos e outras infraestruturas após anos de negligência.

"Nós também aumentaremos o alcance e a complexidade de muitos exercícios, focando na interoperabilidade, defesa de mísseis e operações de resposta à crise", disse Ray.

Os exércitos norte-americano e polonês estão se preparando para um grande exercício "coletivo" ao fim de janeiro.

Autoridades dos EUA disseram que os exercícios militares deste ano vão focar em uma melhor integração de componentes e domínios militares díspares, ao invés de se concentrarem em áreas de preocupação únicas, como a superioridade aérea, como fizeram no passado.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Guerra no espaço pode estar mais perto que nunca


Embora neguem, China, Rússia e Estados Unidos estão desenvolvendo e testando novas e controvertidas tecnologias para travar guerras espaciais

Lee Billings

U.S. NAVY
Testes de mísseis antissatélites como este realizado pela Marinha dos Estados Unidos em fevereiro de 2008, fazem parte de uma preocupante marcha rumo a conflitos militares no espaço exterior.

O ponto crítico militar mais volátil e preocupante do mundo não está, indiscutivelmente, no Estreito de Taiwan, na Península da Coreia, no Irã, em Israel, na Caxemira ou na Ucrânia.

De fato, ele não pode ser localizado em qualquer mapa da Terra, embora seja muito fácil de encontrar.

Para vê-lo, basta olhar para cima, para um céu claro, para a “terra de ninguém” que é a órbita terrestre, onde está se desenrolando um conflito que é uma corrida armamentista em tudo, menos no nome.

Talvez a vastidão do espaço exterior seja o último lugar em que se esperaria ver militares competindo por território disputado, exceto pelo fato de que o espaço exterior já não está mais tão vazio.

Cerca de 1.300 satélites ativos circundam o globo em um congestionado traçado de órbitas, fornecendo meios de comunicação, navegação por GPS, previsão meteorológica e vigilância planetária.

Para forças armadas que dependem de alguns desses satélites em guerras modernas, o espaço tornou-se a quintessência do “terreno elevado”, com os EUA como o rei indiscutível “no topo da colina”.

Agora, à medida que China e Rússia procuram agressivamente desafiar a superioridade americana no espaço com ambiciosos programas espaciais militares próprios, a luta pelo poder corre o risco de precipitar um conflito que poderia prejudicar seriamente, se não paralisar, toda a infraestrutura espacial do planeta.

E embora possa começar no espaço, uma confrontação desse tipo poderia deflagrar facilmente uma guerra total na Terra.

As tensões que vinham fervilhando há muito tempo agora estão se aproximando de um ponto de ebulição devido a vários acontecimentos, inclusive recentes e contínuos testes russos e chineses de possíveis armas antissatélites, assim como o fracasso, em julho, das conversações sob os auspícios das Nações Unidas para aliviar as tensões.

Em depoimento perante o Congresso no início do ano, James Clapper, diretor de Inteligência Nacional, ecoou as preocupações de muitas altas autoridades do governo sobre a crescente ameaça a satélites americanos, ao afirmar que tanto a China como a Rússia estão “desenvolvendo capacidades para negar acesso em um conflito”, como os que podem eclodir por causa das atividades militares de Pequim, no Mar da China meridional, ou de Moscou, na Ucrânia.

A China, em particular, ressaltou Clapper, demonstrou “a necessidade de interferir com, danificar e destruir” satélites americanos, referindo-se a uma série de testes de mísseis antissatélites, que começaram em 2007.

Há muitas maneiras de desativar ou destruir satélites além de explodi-los provocativamente com mísseis.

Uma nave espacial poderia simplesmente se aproximar de um satélite e lançar (borrifar) tinta em seus dispositivos ópticos, ou quebrar manualmente suas antenas de comunicação, ou ainda desestabilizar sua órbita.

Lasers podem ser usados para desativar temporariamente ou danificar de forma permanente os componentes de um satélite, particularmente seus delicados sensores, e ondas de rádio ou micro-ondas podem bloquear ou sequestrar transmissões para ou de controladores em terra.

Em resposta a essas possíveis ameaças, a administração Obama programou um orçamento de pelo menos US$ 5 bilhões a serem gastos nos próximos cinco anos para melhorar as capacidades defensivas e ofensivas do programa espacial militar do país.

Os EUA também estão tentando resolver o problema por meio da diplomacia, embora com sucesso irrisório; no final de julho, na ONU, discussões há muito esperadas sobre um código de conduta para nações que exploram o espaço, redigido tentativamente pela União Europeia, empacaram devido à oposição da Rússia, China e de vários outros países, inclusive Brasil, Índia, África do Sul e Irã.

O fracasso colocou soluções diplomáticas para a crescente ameaça em um limbo, conduzindo, provavelmente, a muitos anos mais de debates no âmbito da Assembleia Geral da ONU.

“O xis da questão é que os Estados Unidos não querem conflitos no espaço exterior”, resumiu Frank Rose, secretário-assistente de Estado para controle de armamentos, verificação e cumprimento das leis, que liderou os esforços diplomáticos americanos para impedir uma corrida armamentista espacial.

Os Estados Unidos, declarou Rose, estão dispostos a trabalhar com a Rússia e a China para manter o espaço seguro. “Mas quero deixar muito claro: nós defenderemos nossos bens espaciais se formos atacados”.



Teste

A perspectiva de guerra no espaço não é nova.

Temendo armas nucleares soviéticas lançadas da órbita terrestre, os EUA começaram a testar armamentos antissatélites no final da década de 50.

Os americanos chegaram até a testar bombas nucleares no espaço antes que armas orbitais de destruição em massa foram proibidas através do Tratado do Espaço Exterior da ONU, em 1967.

Após a proibição, a vigilância baseada no espaço tornou-se um componente crucial da Guerra Fria, com satélites servindo como uma parte importante de elaborados sistemas de alerta antecipado de prontidão para detectar o posicionamento ou lançamento de armas nucleares baseadas em terra.

Durante a maior parte da Guerra Fria, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) desenvolveu e testou “minas espaciais”, naves espaciais autodetonantes que podiam procurar e destruir satélites espiões dos EUA ao bombardeá-los com estilhaços.

Na década de 80, a militarização espacial culminou com a multibilionária Iniciativa de Defesa Estratégica do governo de Ronald Reagan, apelidada “Guerra nas Estrelas”, para desenvolver medidas retaliatórias orbitais contra mísseis balísticos intercontinentais soviéticos.

E, em 1985, a Força Aérea dos Estados Unidos fez uma clara demonstração de suas formidáveis capacidades, quando um caça F-15 lançou um míssil que destruiu um satélite falho americano na baixa órbita da Terra.

Durante tudo isso, não ocorreu uma corrida armamentista desenfreada e total, nem foram deflagrados conflitos diretos.

De acordo com Michael Krepon, perito em controle de armas e cofundador do think tank Centro Stimson, na capital Washington, isso se deveu ao fato de que tanto os EUA com a URSS perceberam o quanto seus satélites eram vulneráveis, especialmente os que encontravam em órbitas geossincrônicas (ou geoestacionárias), de aproximadamente 35 mil quilômetros ou mais.

Esses satélites efetivamente pairam acima de um ponto no planeta, tornando-os alvos muito fáceis.

Mas como qualquer ação hostil contra esses satélites poderia escalar facilmente para uma troca nuclear aberta na Terra, as duas superpotências recuaram.

“Nenhum de nós assinou um tratado sobre isso”, observa Krepon. “Simplesmente chegamos independentemente à conclusão de que nossa segurança estaria mais ameaçada se fossemos atrás desses satélites, porque se um de nós fizesse isso, então o outro também faria”.

Hoje, a situação é muito mais complicada.

Órbitas terrestres baixas e altas tornaram-se incubadoras de atividade científica e comercial, repletas de centenas e centenas de satélites de cerca de 60 nações diferentes.

Apesar de seus propósitos majoritariamente pacíficos, todos os satélites, sem exceção, estão em risco, em parte porque nem todos os membros do crescente clube de potências militares espaciais estão dispostos a agir de acordo com as mesmas regras, e nem precisam fazer isso, porque até agora elas ainda não foram escritas.



Lixo espacial

Satélites se deslocam pelo espaço a velocidades muito altas; portanto, o jeito mais rápido e sujo de “matar” um deles é simplesmente lançar alguma coisa ao espaço para obstruir seu caminho.

Até o impacto de um objeto tão pequeno e rudimentar quanto uma bolinha de gude pode desativar ou destruir inteiramente um satélite de um bilhão de dólares.

E se uma nação empregar um método “cinético” desses para destruir o satélite de um adversário, ela pode facilmente criar detritos ainda mais perigosos, potencialmente originando uma reação em cadeia que transformará a órbita terrestre em palco de uma absurda corrida de demolição.

Em 2007, os riscos de detritos aumentaram drasticamente quando a China lançou um míssil que destruiu um de seus próprios satélites meteorológicos na baixa órbita terrestre.

Aquele teste gerou um “enxame” de estilhaços de longa vida que constitui quase um sexto de todos os detritos rastreáveis por radar em órbita.

Os EUA responderam na mesma moeda em 2008, ao redirecionarem um míssil antibalístico lançado de um navio para abater um satélite militar avariado pouco antes de ele cair na atmosfera.

Essa medida também produziu lixo perigoso, embora em quantidades menores, e os detritos tiveram vida mais curta porque foram gerados a uma altitude muito mais baixa.

Mais recentemente, a China lançou o que muitos especialistas dizem ser testes adicionais de armas cinéticas antissatélites baseadas em terra.

Nenhum desses novos lançamentos destruiu satélites, mas Krepon e outros peritos afirmam que isso é porque os chineses agora só estão testando para errar o alvo, em vez de atingi-lo, com a mesma capacidade hostil como resultado final.

O último desses episódios aconteceu em 23 de julho do ano passado.

As autoridades chinesas insistem que a única finalidade dos ensaios é defesa antimíssil pacífica e experimentação científica.

Mas um teste, realizado em maio de 2013, lançou um projétil desses a uma altitude de 30 mil km acima da Terra, aproximando-se do “santuário” de satélites geossincrônicos estratégicos.

Aquilo foi um chamado de alerta, admite Brian Weeden, analista de segurança e ex-oficial da Força Aérea que estudou e ajudou a divulgar o teste chinês.

“Os Estados Unidos aceitaram há décadas o fato de que seus satélites de baixa órbita poderiam ser abatidos facilmente”, diz ele. “Mas quase atingir [a órbita geossincrôncica] fez as pessoas entenderem que, nossa!, alguém realmente poderia tentar ir atrás das coisas que temos lá em cima”.

Não foi coincidência que pouco depois de maio de 2013, os EUA liberaram a divulgação de detalhes de seu programa ultrassecreto Consciência Situacional do Espaço Geossincrônico (GSSAP), um planejado conjunto de quatro satélites capaz de monitorar as altas órbitas da Terra e até se encontrar com outros satélites para inspecioná-los de perto.

Os dois primeiros GSSAPs foram lançados à órbita em julho de 2014.

“Este costumava ser um [chamado] ‘programa preto’, algo que oficialmente nem existia”, explica Weeden. “Ele basicamente foi oficializado (liberado para divulgação) para enviar uma mensagem dizendo: ‘Ei, se você estiver fazendo algo suspeito dentro e ao redor do cinturão geossincrônico, nós veremos’”.

Um intruso na órbita geossincrônica não precisa ser um míssil com uma ogiva (ponta) cheia de explosivos para ser um risco de segurança, mesmo aproximar-se ou se encostar em satélites estratégicos de um adversário é considerado uma ameaça.

Esta é uma das razões por que potenciais adversários dos Estados Unidos podem estar alarmados com as capacidades de rendezvous (encontros) dos satélites GSSAP e dos aviões espaciais robóticos altamente manobráveis X-37B da Força Aérea americana.

A Rússia também está desenvolvendo sua própria capacidade de abordar, inspecionar e potencialmente sabotar ou destruir satélites em órbita.

Nos últimos dois anos, o país incluiu três misteriosas cargas em lançamentos de outra forma rotineiros de satélites comerciais, sendo que o último ocorreu em março deste ano.

Observações de radar feitas pela Força Aérea americana e por entusiastas amadores revelaram que depois que cada um desses satélites foi posicionado, um pequeno objeto adicional voava para bem longe do foguete arremessado, só para depois dar meia volta e voltar.

Os objetos, apelidados Kosmos-2491, K-2499 e K-2504, podem ser apenas parte de um programa inofensivo para o desenvolvimento de técnicas para fazer a manutenção e reabastecer satélites velhos, argumenta Weeden, embora também possam ser destinados a propósitos mais sinistros.



Tratados oferecem poucas garantias

Autoridades chinesas sustentam que suas atividades militares no espaço são simplesmente experimentos científicos pacíficos, enquanto as autoridades russas em geral têm se mantido em silêncio na maior parte do tempo.

As duas nações poderiam ser vistas como simplesmente respondendo ao que elas entendem como o desenvolvimento clandestino, pelos EUA, de potenciais armas espaciais.

De fato, os sistemas americanos de defesa de mísseis balísticos, seus aviões espaciais X-37B e até suas naves espaciais GSSAP, embora todos ostensivamente destinados a manter a paz, poderiam ser facilmente convertidos em armas de guerra espacial.

Durante anos, a Rússia e a China vêm pressionando para a ratificação de um tratado legalmente vinculativo das Nações Unidas para banir armas espaciais; um tratado que autoridades americanas e especialistas externos têm rejeitado repetidamente como uma inviabilidade cínica.

“O esboço do tratado sino-russo visa proibir justamente as coisas que eles mesmos estão procurando desenvolver tão ativamente”, reclama Krepon. “Ele serve perfeitamente aos seus interesses. Eles querem liberdade de ação, e estão encobrindo isso com essa proposta para proibir armas espaciais”.

Mesmo se o tratado estivesse sendo proposto de boa fé “ele estaria morto ao chegar” ao Congresso e não teria a menor chance de ser ratificado, salienta Krepon.

Afinal, os EUA também querem liberdade de ação no espaço, e no espaço nenhum outro país tem mais capacidade e, portanto, mais a perder.

De acordo com Rose, existem três problemas fundamentais com o tratado.

“Um, ele não é efetivamente verificável, o que os russos e chineses admitem”, argumenta. “Você não consegue detectar trapaça. Dois, ele é totalmente silencioso (omisso) sobre a questão das armas terrestres antissatélites, como as que a China testou em 2007 e novamente em julho de 2014. E, terceiro, ele não define o que é uma arma no espaço exterior”.

Como alternativa, os EUA apoiam uma iniciativa liderada pela Europa para estabelecer “normas” para uma conduta adequada através da criação de um Código Internacional de Conduta para o Espaço Exterior, voluntário.

Este seria um primeiro passo, a ser seguido por um acordo vinculativo.

Um esboço dessa proposta, que Rússia e China impediram de ser adotada nas discussões de julho na ONU, exige maior transparência e “construção de confiança” entre nações com capacidade espacial como um meio de promover a “exploração e o uso pacífico do espaço exterior”.

Espera-se que isso possa impedir a geração de mais detritos e o contínuo desenvolvimento de armas espaciais.

No entanto, como o tratado russo-chinês, esse código também não define exatamente o que constitui uma “arma espacial”.

Essa imprecisão representa problemas para altas autoridades da defesa, como o general John Hyten, chefe do Comando Espacial da Força Aérea dos EUA.

“Nosso sistema de vigilância baseado no espaço, que olha para os céus e monitora tudo na órbita geossincrônica, é um sistema de armas?”, pergunta ele. “Creio que todos no mundo olhariam para isso e diriam não. Mas ele é manobrável, viaja a mais de 27.350 km por hora, e tem um sensor a bordo. Não é uma arma, certo? Mas a linguagem [de um tratado] proibiria a nossa capacidade de realizar uma vigilância baseada no espaço? Eu espero que não!”



Guerra no espaço é inevitável?

Enquanto isso, mudanças na política dos EUA estão dando à China e à Rússia mais razões para novas suspeitas.

O Congresso tem pressionado a comunidade de segurança nacional dos EUA a voltar suas atenções para o papel das capacidades ofensivas, em vez das defensivas, chegando até a impor que a maior parte do financiamento do ano fiscal de 2015 para o Programa Segurança e Defesa Espacial, do Pentágono, seja destinada ao “desenvolvimento de estratégias e capacidades ofensivas de controle e defesa ativa do espaço”.

“Controle espacial ofensivo” é uma clara referência a armas.

“Defesa ativa” é uma expressão muito mais nebulosa e se refere a medidas indefinidas de retaliação ofensiva que poderiam ser tomadas contra um atacante, ampliando ainda mais os caminhos através dos quais o espaço pode se tornar um ambiente equipado com armas.

Se uma ameaça iminente for percebida, um satélite ou seus operadores poderiam desfechar um ataque por meios de lasers ofuscantes, micro-ondas de interferência, bombardeio cinético, ou diversos outros métodos possíveis.

“Espero nunca travar uma guerra no espaço”, diz Hyten. “Isso é ruim para o mundo. A cinética [armamentos antissatélites] é horrível para o mundo”, devido aos riscos existenciais que os detritos representam para todos os satélites.

“Mas se a guerra se estender ao espaço”, argumenta ele, “precisamos ter capacidades ofensivas e defensivas com que responder, e o Congresso nos pediu que explorássemos que capacidades seriam estas. E, para mim, o único fator limitante é ‘nada de detritos’. Não importa o que faça, não crie detritos”.

Uma tecnologia para bloquear ou interferir em transmissões, por exemplo, parece sustentar o Counter Communications System (CCS), o sistema de interferência ofensiva em comunicações da Força Aérea, a única capacidade ofensiva americana reconhecida contra satélites no espaço.

“Basicamente o CCS é uma grande antena sobre um trailer, e ninguém sabe como ele realmente funciona, o que de fato faz”, informa Weeden, salientando que, como a maior parte das atividades (trabalhos) espaciais, os detalhes do sistema são ultrassecretos.

“Tudo o que sabemos essencialmente é que eles poderiam usá-lo de para interferir ou bloquear de alguma forma satélites de um adversário ou talvez até enganar ou hackear os instrumentos”.

Para Krepon, os debates sobre as definições de armas espaciais e a agressiva exibição de poder militar entre Rússia China e Estados Unidos estão atrapalhando e eclipsando a questão mais premente dos detritos espaciais.

“Todo mundo está falando sobre objetos intencionais, feitos pelo homem, destinados a travar guerras no espaço, e é como se estivéssemos de volta na Guerra Fria”, compara.

“Enquanto isso, já há cerca de 20 mil armas lá em cima em forma de detritos. Eles não têm nenhum propósito, e não são guiados. Eles não estão procurando detectar satélites inimigos. Eles só estão zanzando por lá, fazendo o que fazem”.

O ambiente espacial, salienta, precisa ser protegido como um bem comum global, como os oceanos e a atmosfera da Terra.

Lixo espacial é muito fácil de ser produzido e muito difícil de ser eliminado; por essa razão, os esforços internacionais deveriam se concentrar na prevenção de sua criação.

Além da ameaça de destruição deliberada, o risco de colisões acidentais e impactos de detritos continuará aumentando à medida que mais nações lançam e operam mais satélites sem uma rigorosa responsabilização e supervisão internacional.

E, à medida que a chance de acidentes aumenta, o mesmo acontece com a possibilidade de eles serem mal interpretados como ações deliberadas e hostis na tensa intriga melodramática dessa intensa competição militar no espaço.

“Estamos no processo de sujar e estragar o espaço, e a maioria das pessoas não se dá conta disso porque não podemos vê-lo como vemos o abate de peixes marinhos, florações enormes de algas, ou os efeitos da chuva ácida”, adverte ele.

“Para evitar poluir e destruir a órbita terrestre, precisamos de um senso de urgência que atualmente ninguém tem. Talvez possamos senti-lo quando não conseguirmos usar nossa televisão por satélite ou nossas telecomunicações, ou acessar noticiários sobre o clima global e previsões de furacões. Quando formos catapultados de volta às condições da década de 50, talvez possamos adquiri-lo. Mas então será tarde demais”.

Sabrina Imbler contribuiu para a reportagem. 

Scientific American Brasil

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Notícias Geografia Hoje

Análise: Como um tuíte virou uma guerra com milhares de mortos na Ucrânia

O protesto foi convocado pelo Twitter em novembro de 2013 e ficou fora de controle nos meses seguintes

O Parlamento da Ucrânia aprovou na terça-feira uma resolução para renunciar ao status de país que não participa de alianças militares. Isto inicia o processo para que o país se converta em um membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, disse que esta decisão é contraproducente e que poderia gerar tensões no futuro.

A tensão entre a Ucrânia e a Rússia, com conflitos em áreas de fronteira e a anexação da Crimeia pelos russos, foi uma das notícias mais importantes de 2014. E o jornalista ucraniano Olexiy Solohubenko, editor de notícias do Serviço Mundial da BBC, analisa o que aconteceu no país durante o ano.

"Imagine que, no México, os moradores do Estado de Yucatán resolvam que não querem ter mais nada a ver com o governo mexicano. Que são diferentes, que falam com um sotaque diferente e têm suas próprias tradições e história.

Além disso, eles convocam um referendo e o governador do Estado de Yucatán se transforma no presidente da República Popular de Yucatán.

E mais: grupos armados estabelecem postos de controle e barricadas. Pessoas morrem. E tudo isso ocorre diante do olhar impassível do resto do continente americano.

Isto pode ser uma fantasia, mas foi exatamente o que aconteceu em 2014 na Ucrânia.

E, um elemento adicional aprofunda a diferença entre o caso real e o que estamos imaginando: a presença de uma força externa.
Pelo menos cem pessoas morreram apenas em Kiev durante os primeiros dias de protestos

É difícil conceber a possibilidade de que um agente externo possa intervir em uma disputa no México.

Mas, no caso da Ucrânia, isto é real: há um país e um presidente que apoia movimentos separatistas em uma área importante do território. A área a que me refiro é a Crimeia e o presidente é Vladimir Putin, da Rússia.
Terreno fértil

Tudo começou, acredite ou não, com um tuíte de Mustafa Nayem, um jornalista ucraniano famoso, filho de imigrantes afegãos, descontente com o que o então presidente Victor Yanukovich decidiu fazer de última hora: não assinar um acordo de associação com a União Europeia.

A Rússia não queria este acordo e sentia que havia uma possibilidade de a Ucrânia se afastar para sempre da influência do governo de Moscou. E, para evitar tal acordo, os russo injetaram uma quantidade enorme de dinheiro e prometeram ainda mais fundos, algo que Yanukovich aceitou.

Em novembro de 2013, Nayem pediu que seus seguidores no Twitter protestassem na Praça da Independência, conhecida como Maidan. Primeiro, vieram centenas, logo eram milhares... depois eram dezenas de milhares.

Não era o primeiro protesto dos ucranianos.
Os confrontos resultaram na derrubada do presidente Victor Yanukovich e a eleição de um novo líder

A tecnologia pode ter mudado, agora existem smartphones, mas o desejo, o espírito era o mesmo de dez anos atrás, na chamada Revolução Laranja.

O protesto tinha como base a não aceitação da manipulação, da intenção de "comprar" o país, fazê-lo voltar para os padrões soviéticos em uma espécie de união com a Rússia.

É importante entender que boa parte dos manifestantes de Maidan pertencem a esta primeira geração que nasceu, cresceu e se educou depois da independência do país. Queriam um novo pacto social que mudasse os conceitos do que é bom e do que é ruim.

Foi neste terreno fértil que caiu o tuíte de Nayem.

A polícia tentou dispersar os manifestantes de forma violenta: mais de cem pessoas morreram em Kiev, no centro de uma capital do continente europeu.

A partir de então começaram as tentativas de acordo, que não conseguiram resultados.

O presidente foi derrotado em algo que a Rússia descreveu como um golpe e os ucranianos chamaram que revolução popular. Foram convocadas eleições, foi eleito um novo presidente, Petro Poroshenko, e um novo Parlamento. E, infelizmente, ocorreu uma nova guerra.

E, para isto, o país não estava preparado.

História

O que aconteceu na Ucrânia em 2014 ilustra o fato de que, na Europa, a história nunca desaparece.
Em 1994, os presidentes dos EUA, Bill Clinton, da Rússia, Boris Yeltsin (centro) e da Ucrânia, Leonid Kravchuk, firmaram um acordo para o desarmamento da Ucrânia

Há pouco mais de 20 anos, no dia 5 de dezembro de 1994, as três potências nucleares da época, Rússia, Estados Unidos e Ucrânia, junto com a Grã-Bretanha, assinaram um memorando em Budapeste no qual o governo ucraniano aceitava renunciar à sua condição nuclear.

Em troca, a Ucrânia recebia garantias de manter sua integridade territorial, a inviolabilidade de suas fronteiras e o respeito à sua política interna. Nada disso se concretizou.

E, para piorar a questão da integridade territorial, a Rússia anexou a Crimeia em março.

A Crimeia, no sul da Ucrânia, sempre foi um ponto sensível para a Federação Russa. É o lugar de onde o Império Russo travou suas muitas guerras contra o Império Otomano.

Alguns analistas afirmam que, se prestarmos atenção ao presidente Putin, é possível notar que ele não quer reescrever a história, mas fazê-la voltar para as fronteiras que marcam o passado imperial russo. A instabilidade na Ucrânia foi uma oportunidade que o presidente russo não perdeu.
A maioria dos moradores da Crimeia votou a favor da anexação pela Rússia, mas a validade do referendo foi questionada

Para a Ucrânia foi muito difícil reagir: havia vendido a maior parte de seu arsenal bélico e reduzido seu enorme exército de 400 mil soldados nos anos 1990 para cerca de 130 mil em 2013.

O governo russo aproveitou para atacar, para tomar um território que também era um local estratégico do ponto de vista militar. E fez exatamente isso alegando apoio popular.

Logo vieram os movimentos separatistas no leste do país. Algumas regiões seguiram o exemplo da Crimeia e convocaram referendos, o que levou à proclamação de novas repúblicas, não necessariamente reconhecidas, mas, segundo muitos, financiadas e apoiadas pela Rússia.

A Rússia negou que estivesse envolvida militarmente, mas muitos cidadãos russos estão lutando ao lado dos rebeldes.
Vítimas
A Rússia não admite que seus soldados tenham participado dos confrontos na Ucrânia

A área que estas "repúblicas" controlam é muito pequena, mas o número de vítimas é alto.

Até o começo de dezembro, mais de 5 mil pessoas haviam morrido.

As baixas ocorrem entre civis, soldados ucranianos, forças rebeldes e efetivos russos.

A tragédia também teve repercussão internacional. A mais palpável foi a morte dos estrangeiros inocentes que estavam no voo MH17 da Malaysian Airlines e que foi derrubado na Ucrânia no dia 17 de julho, em circunstâncias que ainda não foram totalmente esclarecidas.

As sanções econômicas também fizeram a Rússia buscar apoio de países que não estão necessariamente aliados com os Estados Unidos, incluindo Argentina, Venezuela, Cuba e Turquia, além de países que fazem parte da União Europeia, como Hungria e Itália. Com este dois, a Rússia tenta desequilibrar a postura adotada pela União Europeia em relação às sanções aplicadas aos russos.

Enquanto isso, dentro da Rússia, o sentimento contra o Ocidente como resultado do apoio dos Estados Unidos ao governo ucraniano é inédito.
As 298 pessoas que estavam no voo MH17 morreram no incidente ocorrido na Ucrânia em julho

Muitos também afirmam que aquilo que era apenas uma possibilidade teórica há uns três ou quatro anos, uma nova Guerra Fria, agora já está ocorrendo.
Estagnação

Hoje, a situação é de estagnação e é difícil ver como resolver isto sem recorrer à força militar.

Economicamente, ninguém saiu ganhando. Do lado humanitário, todos são perdedores. Do lado político, alguns observadores acreditam que, se a Rússia realmente quisesse, o conflito acabaria em breve.
O apoio dos EUA à Ucrânia alimentou a oposição ao ocidente na Rússia; na foto, o secretário de Estado John Kerry visita manifestantes em Kiev

Mas, neste momento, parece não haver nenhuma vontade política para isto.

O acordo com a União Europeia, que deu início aos protestos, foi firmado e já entrou em vigência.

É possível que o movimento iniciado por aquela geração da praça Maidan tenha sido "sequestrado" pela intervenção russa, que o transformou em um conflito armado pelo controle do território? Não acredito nisto.

Os manifestantes conseguiram entre 50% e 60% do que reivindicavam. O inesperado foi a guerra, as vidas perdidas, parte do território ucraniano perdido, todos os custos que ninguém poderia prever. Estes foram os outros 40%.

Mas a história frequentemente não se mede por pontos percentuais. Ela simplesmente acontece."
BBC Brasil

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Notícias Geografia Hoje

Sanções à Rússia afetam fornecimento de alimentos a Estação Espacial

Envio de alimentos para a Estação Espacial Internacional pode ser afetado

O fornecimento de alimentos para astronautas da Estação Espacial Internacional pode aparentemente ser afetado pelas sanções aplicadas à Rússia por causa da crise na Ucrânia.

Citando autoridades da Agência Espacial Europeia, o jornal The Moscow Timesdiz que o envio de alguns suprimentos aos astronautas - normalmente feito por meio da estação de lançamento no Cazaquistão controlada pelos russos - será impactado pelas sanções.

Como a importação de alimentos da Europa pela Rússia foi proibida, alguns itens extras enviados pelas famílias dos astronautas, como doces e frutas secas, não podem mais entrar em território russo.

A proibição foi imposta pela União Europeia em retaliação ao comportamento da Rússia na crise no leste da Ucrânia - incluindo a anexação da península da Crimeia pela Federação Russa.

Atualmente, a tripulação da estação é composta por um alemão, dois americanos e dois russos.

No entanto, nem tudo está perdido para estes astronautas. Os suprimentos podem ser enviados a partir dos Estados Unidos, por meio das cápsulas Dragon e Cygnus.
BBC Brasil

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