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terça-feira, 19 de maio de 2026

Mais da metade de Santa Catarina bebe água contaminada por agrotóxicos proibidos







Uma descoberta alarmante coloca em xeque a qualidade da água que chega às torneiras catarinenses. O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) revelou que 155 municípios – mais da metade do estado – têm águas potáveis contaminadas por agrotóxicos. Entre os 42 tipos identificados, cinco são substâncias banidas no Brasil.


O veneno que chegou às torneiras


A investigação do MPSC, realizada através do Centro de Apoio Operacional do Consumidor, expõe uma realidade preocupante: o uso indiscriminado de agrotóxicos contaminou não apenas os recursos hídricos, mas também o solo e o ar catarinense.


Entre as substâncias encontradas estão cinco agrotóxicos banidos pela Anvisa: benomil, carbofurano, haloxifobe metílico, metolacloro e molinato. A presença desses produtos proibidos na água potável revela falhas graves no controle e fiscalização do uso de pesticidas no estado.


Mapa da contaminação


O levantamento, baseado em análises de águas tratadas em laboratórios credenciados entre 2018 e 2023, mostra que a contaminação se espalha por todas as regiões de Santa Catarina, com intensidades diferentes:
Sul: 35 de 46 municípios (76,1%)
Grande Florianópolis: 12 de 21 municípios (57,1%)
Oeste: 63 de 118 municípios (53,5%)
Vale do Itajaí: 24 de 54 municípios (44,4%)
Norte: 11 de 26 municípios (42,3%)
Serra: 10 de 30 municípios (33,3%)


Vale do Itajaí: a região mais crítica


O Vale do Itajaí emergiu como uma das regiões mais preocupantes. Em Imbuia, foram encontrados 17 pesticidas diferentes entre 2022 e 2023, incluindo dois ativos proibidos desde 2019. Um fungicida foi detectado em concentração considerada elevada pelos especialistas.
Agroquímicos


Ituporanga apresentou um cenário igualmente grave: dos 23 ingredientes ativos encontrados, nove estavam acima de 1 micrograma por litro (µg/L), limite que pode indicar concentrações acima do permitido, dependendo da substância.


Enquanto outras localidades identificaram entre um e três tipos de resíduos, esses municípios do Vale do Itajaí revelam uma contaminação múltipla e complexa, indicando uso intensivo e descontrolado de agrotóxicos na região.

Além da água: contaminação total


O estudo revela que a poluição por agrotóxicos não se limita aos recursos hídricos. Solo e ar também foram afetados, criando um ciclo de contaminação que permeia todo o ambiente. Essa contaminação sistêmica significa que os agrotóxicos estão presentes em múltiplos compartimentos ambientais, aumentando a exposição humana e dos ecossistemas.


Os riscos para a saúde pública


A presença de agrotóxicos na água potável representa uma ameaça silenciosa à saúde pública. Essas substâncias podem causar diversos problemas de saúde, desde irritações agudas até doenças crônicas como câncer, problemas neurológicos, distúrbios hormonais e reprodutivos.
Geologia




A situação é ainda mais grave quando consideramos que cinco das substâncias encontradas são banidas no Brasil justamente por seus riscos elevados à saúde humana e ambiental. Sua presença na água potável indica não apenas contaminação ambiental, mas também possível uso ilegal desses produtos.


A resposta institucional


Diante dos resultados alarmantes, o MPSC, em parceria com a Diretoria de Vigilância Sanitária de Santa Catarina e a Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos, planeja criar grupos de trabalho intersetoriais.


Esses grupos contarão com equipes de saúde, assistência social, agricultura e proteção ao consumidor, focando na conscientização sobre o uso adequado de agrotóxicos pela população. É um primeiro passo importante, mas que precisa ser acompanhado de medidas mais rigorosas de controle e fiscalização.


Um problema que exige ação urgente


Os dados revelados pelo MPSC expõem uma crise de saúde pública e ambiental que demanda ação imediata. A contaminação da água potável por agrotóxicos, especialmente substâncias banidas, não pode ser tratada como um problema menor ou de longo prazo
Abastecimento e tratamento de águas


É necessário:
Intensificar a fiscalização do uso de agrotóxicos
Implementar programas de monitoramento contínuo da qualidade da água
Investir em tecnologias de tratamento mais eficazes
Promover práticas agrícolas sustentáveis
Responsabilizar quem usa produtos banidos


O direito à água limpa


Ter acesso à água potável livre de contaminantes é um direito básico. Quando mais da metade de um estado bebe água contaminada por agrotóxicos – incluindo substâncias banidas – estamos diante de uma violação sistemática desse direito fundamental.


A situação de Santa Catarina serve como alerta para todo o país. É urgente repensar nosso modelo agrícola e implementar medidas efetivas para proteger nossos recursos hídricos e, consequentemente, nossa saúde.


Cada gole de água contaminada representa não apenas um risco individual, mas um sintoma de um sistema que priorizou a produtividade agrícola em detrimento da segurança ambiental e da saúde pública. É hora de mudar essa equação.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Como população dos Andes ingere arsênio sem se intoxicar


Para comunidades andinas, que bebem água com arsênio acima do limite há milênios, a evolução parece ter seguido um caminho diferente





Em qualquer outro contexto, consumir água com uma concentração de arsênio muito acima dos níveis recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) representaria um sério risco à saúde. Mas em San Antonio de los Cobres, no altiplano do noroeste argentino, a mais de 3,7 mil metros de altitude, essa tem sido, durante séculos – e provavelmente milênios –, uma condição cotidiana de vida.


Antes da instalação de um sistema de filtragem em 2012, a água da localidade continha cerca de 200 microgramas de arsênio por litro. Detalhe: o limite recomendado pela OMS é de apenas 10. Ainda assim, trata-se de uma região ocupada por seres humanos há pelo menos 7 mil anos, talvez até 11 mil. A pergunta inevitável é: como isso é possível?

O arsênio não é exatamente um veneno de risco desprezível. A exposição crônica está associada a câncer, lesões cutâneas, malformações congênitas e morte prematura. Uma vez no organismo, ele é processado por enzimas que o transformam em diferentes compostos químicos.


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Mas nem todos têm o mesmo efeito. O composto monometilado, ou MMA, é particularmente tóxico, enquanto o dimetilado, conhecido como DMA, é mais facilmente eliminado pela urina. O problema é que, na maioria das pessoas, o metabolismo do arsênio gera proporções relativamente altas desse composto intermediário mais nocivo antes de transformá-lo na forma que o organismo consegue excretar com mais facilidade.
Um gene-chave na resistência ao arsênio

Em meados da década de 1990, um estudo identificou na população feminina dessa região um processamento incomum do arsênio: o organismo acumulava menos do derivado mais tóxico e avançava com maior eficiência para a forma eliminável pela urina. Em outras palavras, o metabolismo do arsênio era excepcionalmente eficiente entre as mulheres estudadas.


Durante anos, o fenômeno permaneceu como uma curiosidade bioquímica. Mas, em 2015, uma equipe liderada pelas biólogas evolutivas Carina Schlebusch e Lucie Gattepaille, da Universidade de Uppsala, publicou na revista especializada Molecular Biology and Evolution uma possível explicação genética.

Para investigar, os cientistas analisaram o DNA de 124 mulheres de San Antonio de los Cobres e compararam os dados com os de populações do Peru e da Colômbia. O que encontraram foi revelador.


Os cientistas concentraram uma parte central da explicação em torno do AS3MT, um gene essencial no metabolismo do arsênio. Em seu entorno, detectaram variantes cuja presença se relacionava a um processamento biológico mais eficiente do metaloide. Essas variantes apareciam com muito mais frequência nos habitantes de San Antonio de los Cobres do que em populações geneticamente semelhantes do Peru e da Colômbia, regiões onde os níveis ambientais de arsênio são muito menores, segundo o estudo.

A análise revelou ainda sinais claros do que os geneticistas chamam de “varredura seletiva”, a marca deixada pela seleção natural quando um traço é rapidamente favorecido em uma população. Em termos simples, esse padrão sugere que as variantes protetoras do gene AS3MT podem ter conferido uma vantagem em ambientes com altos níveis de arsênio. Com o passar das gerações, essa vantagem teria feito com que tais variantes se tornassem cada vez mais frequentes na população.

“A adaptação para tolerar o arsênio como fator de estresse ambiental provavelmente impulsionou um aumento na frequência de variantes protetoras de AS3MT”, escreveu a equipe em seu estudo, que classificou o achado como “a primeira evidência de adaptação humana a uma substância química tóxica”.
Adaptação ao arsênio em outras populações andinas

Trata-se de um caso isolado? Os dados sugerem que não. Um estudo posterior, publicado na Chemosphere em 2022, examinou populações indígenas dos Andes bolivianos – grupos aimará-quéchua e uru – e encontrou sinais igualmente fortes de seleção positiva perto do mesmo gene. De fato, os bolivianos apresentavam a maior frequência já registrada de alelos associados a um metabolismo eficiente do arsênio, e o sinal de seleção estava entre os 0,5% mais intensos de todo o genoma.


Tudo isso aponta para o fato de que a adaptação ao arsênio não é um fenômeno local nem pontual, mas um processo evolutivo que pode ter ocorrido em paralelo em diferentes comunidades andinas expostas durante gerações ao mesmo veneno natural. Quando a pressão ambiental persiste por séculos, a evolução pode favorecer adaptações semelhantes em populações submetidas a pressões ambientais comparáveis.
A epigenética – muito além do DNA

A evolução humana, no entanto, nem sempre implica mudanças diretas no DNA. Além das mutações hereditárias, existem os chamados mecanismos epigenéticos, que modificam a forma como os genes são ativados ou silenciados em resposta ao ambiente. Essas alterações não mudam a sequência genética e podem ser mais flexíveis, já que nem sempre são transmitidas de forma estável entre gerações.


Alguns geneticistas passaram a olhar justamente nessa direção, enquanto outros buscavam respostas no código do genoma. Mais recentemente, por exemplo, pesquisadores da Universidade de Emory se perguntaram se a adaptação andina à altitude – um enigma em si, já que os povos andinos não possuem o mesmo “gene da altitude” identificado nos tibetanos – poderia estar escrita não tanto no DNA, mas na forma como ele se expressa.

Para explorar essa hipótese, eles examinaram as marcas epigenéticas distribuídas ao longo do DNA em 39 participantes de dois ambientes muito diferentes: os Andes equatorianos, representados pelos kichwa, e a bacia amazônica, representada pelos ashaninca.


O estudo, publicado na revista Environmental Epigenetics, detectou mudanças epigenéticas em genes relacionados ao funcionamento do sistema vascular e do músculo cardíaco, além de sinais na via PI3K/AKT, um circuito biológico envolvido em processos como o crescimento muscular e a formação de novos vasos sanguíneos.

Segundo os pesquisadores, essas diferenças epigenéticas poderiam ajudar a explicar alguns traços fisiológicos característicos das populações andinas de grande altitude, como o espessamento das paredes arteriais e o aumento da viscosidade do sangue. Ambos poderiam estar relacionados à adaptação fisiológica à hipóxia – a escassez de oxigênio típica da altitude –, embora também tenham sido associados a um risco maior de hipertensão pulmonar.

“Os achados são particularmente interessantes porque não estamos vendo esses sinais fortes no genoma, mas quando observamos o metiloma, essas mudanças aparecem”, explica John Lindo, professor de antropologia da Emory e autor principal do estudo, em um comunicado da instituição.

Além do caso específico, as mudanças epigenéticas podem constituir uma resposta mais flexível ao ambiente e nem sempre são transmitidas de forma estável entre gerações. O fato de essas modificações aparecerem em populações cuja presença nas terras altas andinas remonta a quase 10 mil anos levanta uma questão importante: até que ponto a epigenética desempenha um papel constante na adaptação humana a ambientes extremos?

Modelo tibetano: outra solução evolutiva

Para compreender melhor como os seres humanos se adaptam à vida em grandes altitudes, vale observar outro laboratório natural da evolução: o planalto tibetano. Ali, a evolução parece ter seguido um caminho diferente.

Um estudo publicado recentemente na revista PNAS, liderado pela antropóloga Cynthia Beall, da Universidade Case Western Reserve, analisou 417 mulheres tibetanas entre 46 e 86 anos, vivendo a altitudes entre 3 mil e 4 milmetros no Alto Mustang, no Nepal. O objetivo era identificar quais características fisiológicas se associavam a maior sucesso reprodutivo, um dos indicadores mais diretos de adaptação evolutiva.


O resultado não foi o que muitos esperavam. As mulheres com mais filhos – algumas chegaram a ter 14 – não apresentavam níveis excepcionalmente altos de hemoglobina. Pelo contrário, mantinham níveis próximos da média, mas com maior saturação de oxigênio no sangue.

Essa combinação está associada a uma maior eficiência no transporte de oxigênio sem engrossar o sangue, evitando assim a sobrecarga do coração. Além disso, as mulheres mais fecundas apresentavam maior fluxo sanguíneo para os pulmões e ventrículos cardíacos mais largos, características que melhoram a eficiência do sistema circulatório em condições de hipóxia.


Parte dessa adaptação tem uma origem inesperada. Uma variante do gene EPAS1, que regula a concentração de hemoglobina e é característica das populações tibetanas, parece ter sido herdada dos denisovanos, uma espécie humana extinta que viveu na Sibéria há cerca de 50 mil anos. Seus descendentes a teriam disseminado ao migrar para o planalto tibetano.
“A adaptação à hipóxia em grande altitude é fascinante porque o estresse é grave, todos o experimentam da mesma forma em uma determinada altitude e ele é quantificável”, explicou Beall à publicação Science Alert. “É um belo exemplo de como e por que nossa espécie apresenta tanta variação biológica.”


Considerados em conjunto, esses estudos traçam um panorama que desafia a ideia de que a evolução humana seja um processo encerrado. Pelo contrário, sugerem que nossa espécie continua a se adaptar aos ambientes em que vive.

Nos Andes, populações expostas durante milhares de anos a toxinas naturais e à escassez de oxigênio desenvolveram respostas genéticas, epigenéticas e 

fisiológicas distintas. No Tibete, diante do mesmo desafio da hipóxia, a evolução seguiu uma via genética diferente. A biologia humana, ao que tudo indica, continua negociando com o ambiente.

REVISTA METROPOLES

sábado, 11 de abril de 2026

Experimentos indicam que agrotóxicos e fertilizantes desequilibram ecossistemas aquáticos


Contaminantes provocaram desaparecimento de predadores e interferiram em papeis ecológicos de organismos aquáticos

Texto: Ivanir Ferreira
Arte: Leonor T. Shiroma




Pesquisadores enchendo os tanques experimentais (mesocosmos) instalados a céu aberto próximo a áreas agrícolas para análise da água e monitoramento dos macroinvertebrados como larvas, insetos, moluscos e minhocas – Foto: Allan Pretti Ogura


Em meio à expansão do setor sucroenergético brasileiro que demanda uso intensivo de defensivos agrícolas, pesquisa da USP alerta para os impactos desses contaminantes na base da cadeia alimentar aquática, com efeitos indiretos sobre peixes e outros predadores. O estudo mostra que os macroinvertebrados bentônicos — como larvas de insetos, moluscos e minhocas — estão entre os organismos mais sensíveis às substâncias. A aplicação isolada ou combinada do inseticida fipronil e do herbicida 2,4-D (herbicida), além da vinhaça — resíduo líquido da produção de etanol a partir da cana-de-açúcar —, levou ao desaparecimento de predadores e a desequilíbrios ecossistêmicos. A contaminação comprometeu funções essenciais desempenhadas por esses organismos, como a decomposição da matéria orgânica, a ciclagem de nutrientes e o controle populacional de espécies.

A coleta e a análise das amostras de água, assim como o monitoramento dos macroinvertebrados, foram realizados em tanques experimentais (mesocosmos) instalados a céu aberto, próximos a áreas agrícolas no município de Itirapina (SP), onde a cana-de-açúcar é a principal atividade econômica. As observações ocorreram 7, 14, 28, 75 e 150 dias após a exposição aos contaminantes.

Os resultados foram publicados no artigo científico Impacts of pesticides and vinasse on the composition and functional diversity of aquatic macroinvertebrates exposed in a mesocosm system, assinado, entre outros autores, pela professora Raquel Aparecida Moreira, da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, e pelo pesquisador Thandy Junio da Silva Pinto, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).




Macroinvertebrados – Larvas, insetos, moluscos e minhocas afetados pelos poluentes – Foto: Allan Pretti Ogura

Vinhaça
Raquel Aparecida Moreira, FZEA/ USP - Foto: Arquivo pessoal


A professora Raquel destaca que os resultados confirmaram a toxicidade da vinhaça e seu elevado potencial de impacto ambiental, especialmente quando aplicada em conjunto com agrotóxicos, prática comum na agricultura brasileira. Segundo a pesquisadora, a vinhaça é um resíduo líquido da produção de etanol a partir da cana-de-açúcar e é utilizada como fertilizante, por [td1.1]fertirrigação. O produto apresenta altas concentrações de nutrientes, como potássio, magnésio, fósforo e nitrogênio.

“É justamente a elevada carga de nutrientes e de matéria orgânica que compromete o ecossistema aquático”, relata. A vinhaça analisada apresentou Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO) de 46.500 miligramas por litro e Demanda Química de Oxigênio (DQO) de 107.000 miligramas por litro — indicadores de grande quantidade de matéria orgânica e alto consumo de oxigênio na água.


“A redução do oxigênio pode ter consequências graves. Se os níveis caem muito, peixes e outros organismos aquáticos podem morrer por asfixia. Por isso, a DBO é um dos principais parâmetros para medir a qualidade da água e o grau de poluição de rios e lagoas”, explica Raquel.




Visão geral dos mesocosmos instalados próximos a áreas agrícolas – Foto: Allan Pretti Ogura

Contaminação por fertilizantes e agrotóxicos potencializa efeitos


Thandy da Silva Pinto- afirma que, nas amostras em que a vinhaça foi aplicada junto aos agrotóxicos, houve prolongamento da permanência do fipronil na água e aceleração da degradação do 2,4-D em subprodutos (metabólitos) que, segundo o pesquisador podem ser tão ou mais tóxicos que a molécula original.

De acordo com o pesquisador, essas alterações químicas tiveram impacto direto sobre a fauna aquática. “Na prática, o ecossistema deixa de funcionar de forma equilibrada, mesmo que nem todas as espécies desapareçam”, diz. Nos tanques contaminados com 2,4-D, foi registrado aumento de organismos conhecidos como coletores-catadores — que se alimentam de partículas orgânicas — e redução acentuada de raspadores, grupo essencial no controle de algas, sobretudo na amostragem realizada aos 75 dias.
Thandy Junio da Silva Pinto, Unicamp - Foto: Arquivo pessoal


O fipronil foi o contaminante mais tóxico. Nas amostras contaminadas com inseticida, os pesquisadores observaram ausência total de predadores após a exposição. O mesmo ocorreu quando os dois agrotóxicos foram aplicados em conjunto.


Já nos ambientes com aplicação exclusiva de vinhaça, houve predominância de predadores e redução de coletores-catadores. Quando a vinhaça e os agrotóxicoss foram utilizados simultaneamente, os coletores-catadores permaneceram até o sétimo dia, mas posteriormente foram registradas mudanças significativas na composição dos grupos funcionais, evidenciando o efeito combinado dos poluentes.

Os pesquisadores destacam que os resultados reforçam a necessidade de monitoramento contínuo e de critérios mais rigorosos para o uso combinado de agrotóxicos e fertilizantes em áreas próximas a corpos d’água. Segundo eles, a adoção de práticas agrícolas mais sustentáveis é fundamental para reduzir os riscos de contaminação e evitar impactos duradouros sobre a biodiversidade e o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos.

Mais informações: Raquel Aparecida Moreira, raquelmoreira@usp.br e Thandy Junio da Silva Pinto, thandyjuniosilva@gmail.com
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