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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

O gás do antigo mar do sertão


Metano liberado por lago de água salgada pode ter favorecido a elevação da temperatura e a diversificação de formas de vida no planeta

Geólogos da USP coletam amostras de rochas calcárias na região de Januária, em Minas Gerais

Juan Camillo Gómez-Gutierrez

Paredões de 50 metros de altura cercam uma vasta planície no interior dos estados de Minas Gerais, Bahia e Goiás. Há cerca de 550 milhões de anos, quando a América do Sul, a África e a Antártida ainda estavam ligadas entre si, ali havia um mar interno, sem conexões com um oceano. Sua área de cerca de 350 mil quilômetros quadrados era similar à do mar Cáspio, igualmente fechado, entre a Rússia, o Azerbaijão e o Irã.

A bacia sedimentar do São Francisco, onde ficava o chamado mar de Bambuí, tinha uma peculiaridade: a água salgada liberava gás metano, um dos responsáveis pela elevação da temperatura global, de acordo com estudos de geólogos das universidades de São Paulo (USP) e Federal de Minas Gerais (UFMG). Os pesquisadores cogitam que o metano, ao chegar à atmosfera, possa ter contribuído para amenizar o clima do planeta, reduzir a intensidade das glaciações e favorecer a diversificação de formas de vida entre 540 milhões e 520 milhões de anos atrás, com o surgimento de moluscos, esponjas, equinodermas e artrópodes. Eles, no entanto, ainda não estimaram o volume de gás liberado nem o quanto teria sido necessário para modificar o clima terrestre, informações importantes para fortalecer essa hipótese.

O geólogo Sergio Caetano-Filho, do Instituto de Geociências (IGc) da USP, chegou a essa hipótese após examinar 520 amostras de rochas calcárias e 198 de material orgânico extraídas em outubro de 2017 de pedreiras de Januária, norte de Minas, e Santa Maria da Vitória, sul da Bahia, às quais se somaram informações de materiais similares extraídos de um poço de petróleo e de um furo de sondagem na região do município mineiro de Arcos. Esse trabalho é parte de seu doutorado, defendido no início de novembro deste ano. Concluídas em 2019, as análises registraram um predomínio da forma mais pesada do carbono, o isótopo 13 (13C), em comparação com o isótopo 12 (12C), em uma proporção até 15 vezes maior que a encontrada em rochas como as do grupo Corumbá, na região do Pantanal.

Segundo Caetano-Filho, o excesso de 13C pode resultar da atividade de um grupo de microrganismos primitivos, as Archaeas, que transformam matéria orgânica em gás carbônico (CO2) e metano (CH4). Em consequência, pode ter se formado um ambiente hostil para outros seres vivos, pobre em oxigênio e rico em enxofre, na forma de gás sulfídrico, muito tóxico para os seres vivos. Segundo ele, as rochas das bordas do antigo mar de Bambuí ainda exalam um odor de ovo podre, característico do gás sulfídrico. Essa composição explicaria a escassez de fósseis marinhos incrustados nas rochas do mar de Bambuí – nas rochas similares do grupo Corumbá, diferentemente, os fósseis marinhos são comuns. Ele e outros colegas da USP e de universidades de Minas Gerais e de Paris detalharam os resultados em um artigo publicado em abril na revista científica Geoscience Frontiers.

“O fato de o mar de Bambuí provavelmente ser um ambiente tóxico para os seres vivos explica a extrema escassez de fósseis na região”, diz Marly Babinski, do IGc-USP e orientadora do doutorado de Caetano-Filho. Ela identificou o predomínio das formas mais pesadas de carbono em seu próprio doutorado, há 30 anos, atribuindo-o inicialmente ao acúmulo de matéria orgânica, uma hipótese que não se sustentou.

Geólogos da USP coletam amostras de rochas calcárias em Santa Maria da Vitória, na BahiaKamilla Amorim

“O mar de Bambuí não deve ter sido um caso isolado”, sugere Caetano-Filho, “porque existem outros mares fechados com a mesma idade geológica e sinais geoquímicos muito semelhantes”. Seria o caso, segundo ele, da bacia do Irecê, na Bahia, que integra a mesma unidade geológica, o cráton São Francisco, e da formação Hüttenberg, na Namíbia, sul da África, que poderiam reforçar a liberação de metano para a atmosfera.

Se a hipótese se mostrar correta, talvez esses mares fechados tenham sido a fonte de metano que ajudou a elevar a temperatura e a reduzir o impacto das glaciações. Além da maior oferta de oxigênio e nutrientes, a temperatura mais alta que nas épocas frias dos períodos geológicos anteriores pode ter contribuído para a gradual diversificação de formas de vida.

“Não existem análogos modernos ao mar de Bambuí, o que dificulta muito as análises”, diz o geólogo Gabriel Uhlein, da UFMG. Em estudo publicado em setembro na revista Precambrian Research, Uhlein argumenta que a erosão dos terrenos elevados nas margens do mar de Bambuí pode ter contribuído para o excesso de 13C nas águas; além disso, sedimentos de rios extintos poderiam ter alimentado o mar com carbonato, que pode formar metano ao se decompor. A seu ver, a liberação de metano deve ter tido um efeito local.

“Como Bambuí é uma bacia pequena, em comparação com as dimensões da Terra, ainda é incerto se poderia ter liberado metano em volume suficiente para interferir no clima global”, diz ele. Caetano-Filho contra-argumenta: “O mar de Bambuí provavelmente foi maior, antes de ser empurrado por montanhas e se isolar. E, se outras bacias também passaram por uma fase de produção intensa de metano, o impacto sobre a atmosfera pode ter sido considerável”.

Desde 2019, Uhlein e sua equipe têm coletado rochas orgânicas, calcários formados por cianobactérias, cristais de sal e outros sinais de variação de maré nos paredões rochosos de Januária e de Ubaí, no norte de Minas Gerais. Os achados levantam outras dúvidas: “Ou havia conexões do mar de Bambuí com o oceano que ainda não descobrimos ou a relação gravitacional entre a Terra e a Lua, que causa as marés, era diferente há 550 milhões de anos, resultando em marés mais altas que as atuais dos grandes mares continentais, como o Cáspio”.

“A distância entre a Lua e a Terra varia constantemente e era diferente meio bilhão de anos atrás”, comenta o geofísico Eder Molina, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP. “Atualmente”, ele acrescenta, “a Lua se afasta da Terra a 3,8 cm por ano, aproximadamente.” Há 400 milhões de anos, a Lua girava mais rápido e estaria a uma distância da Terra 40% menor que a atual. Nesse caso, a maré subiria mais do que hoje e o mês – definido como o tempo necessário para a Lua realizar uma volta completa em torno da Terra – teria apenas nove dias.

Projetos
1. O Sistema Terra e a evolução da vida durante o Neoproterozoico (nº 16/06114-6); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Ricardo Ivan Ferreira da Trindade (USP); Investimento R$ 2.106.971,07.
2. Ciclos biogeoquímicos de enxofre e carbono no Ediacarano e seu registro em sucessões sedimentares brasileiras (nº 16/11496-5); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisador responsável Marly Babinski (USP); Bolsista Sergio Caetano Filho; Investimento R$ 281.739,72

Artigos Científicos
CAETANO-FILHO, S. et al. A large epeiric methanogenic Bambuí sea in the core of Gondwana supercontinent? Geoscience Frontiers (no prelo).
CUI, H. et al. Global or regional? Constraining the origins of the middle Bambuí carbon cycle anomaly in Brazil. Precambrian Research. v. 348, 105861. 15 set. 2020.
Revista FAPESP

domingo, 24 de maio de 2020

A indústria do carvão conhece os efeitos das mudanças climáticas há mais de 50 anos (mas não fez nada)





Uma revista redescoberta da década de 1960 revela que a indústria do carvão conhece os perigos das mudanças climáticas provocadas pelo homem há mais de 50 anos, o que pode ser a evidência mais antiga para essas informações proféticas.

Recentemente, ficou claro como a gigante petrolífera Exxon estava ciente das causas e conseqüências das mudanças climáticas pelo menos desde a década de 1970, mas optou por enganar deliberadamente o público por décadas. Novas evidências mostram agora que, em 1966, os executivos do carvão entendiam igualmente a ciência do aquecimento global catastrófico.
Um problema dos velhos tempos



Em um artigo de pesquisa na edição de agosto de 1966 do Mining Congress Journal , James Garvey, então presidente da Bituminous Coal Research Inc. , que desenvolveu equipes de controle de poluição, discutiu o status de contaminantes e sua regulamentação na indústria do carvão na época.

Embora grande parte do documento se refira ao enxofre no carvão, uma pequena seção no início do artigo se refere à liberação de dióxido de carbono (CO2) e revela que, na realidade, “os aspectos poderosos do problema de poluição do ar ”já eram muito valorizadas na década de 1960. Garvey escreveu :


Há evidências de que a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera da Terra está aumentando rapidamente como resultado da queima de combustíveis fósseis.

Se a taxa futura de aumento continuar como antes, prevê-se que, como a camada de CO2 reduz a radiação, a temperatura da atmosfera da Terra suba e grandes mudanças ocorram nos climas do planeta.

Tais mudanças de temperatura causarão o derretimento das calotas polares, o que, por sua vez, levará à inundação de muitas cidades costeiras, incluindo Nova York e Londres.
Ciência ... sem consciência?

De acordo com o jornal HuffPost , a existência do artigo foi descoberta em agosto de 2019 pelo engenheiro Chris Cherry da Universidade do Tennessee, Knoxville (EUA), que o encontrou em uma pilha de revistas antigas prestes a ser descartadas.

Cherry ficou impressionada com as observações de Garvey e o que elas implicavam na extensão da consciência científica histórica das mudanças climáticas, mesmo na década de 1960, antes da negação das mudanças climáticas provocadas pelo homem. Isso foi apontado no jornal americano:


Garvey descreveu uma versão do que conhecemos hoje como mudança climática muito bem. Aumentos na temperatura média do ar, derretimento das calotas polares, aumento do nível do mar. Está tudo lá.

Vale ressaltar que o artigo de Garvey não é a única voz que reconhece os perigos da poluição do carvão na edição de agosto de 1966.

Em um post de discussão após o trabalho de Garvey, o engenheiro de combustão James Jones da Peabody Coal (hoje Peabody Energy , a maior empresa privada de carvão do mundo), não aborda o problema do aquecimento global, mas admite que os padrões de A poluição do ar para proteger a saúde tem um lugar. Isto é o que Jones escreveu naquela época:


A situação é urgente. Somos a favor da limpeza do ar. Na verdade, estamos "comprando tempo". Mas devemos usar esse tempo produtivamente para encontrar respostas para os muitos problemas não resolvidos.
O silêncio da indústria do carvão


Nos anos e décadas que se seguiram, Peabody se tornaria um importante ator industrial na negação organizada das mudanças climáticas, ganhando talvez muito mais tempo do que Jones havia previsto.

É claro que, embora a redescoberta da revista de 1966 seja importante, pois revela que a indústria do carvão conhece há muito tempo as implicações da queima de combustíveis fósseis no clima do planeta, a verdade é que, nessa No momento, esses perigos não eram segredo.

Um ano antes, em 1965 , um Comitê Consultivo Científico dos Estados Unidos informou o Presidente Lyndon Johnson sobre os processos contínuos de aquecimento global devido à queima de combustíveis fósseis. Isso foi avisado pelo relatório:


O homem está involuntariamente conduzindo um vasto experimento geofísico. Em poucas gerações, está queimando os combustíveis fósseis que se acumularam lentamente na terra nos últimos 500 milhões de anos.

As mudanças climáticas que o aumento no conteúdo de CO2 pode produzir podem ser prejudiciais do ponto de vista humano.

De fato, até então, essa era uma notícia antiga. Os perigos das mudanças climáticas apareceram literalmente nas primeiras páginas dos jornais desde 1912 , há mais de 100 anos, e foram escritos até na imprensa popular desde meados do século XIX .

Embora nossa compreensão científica de muitos dos processos envolvidos nas mudanças climáticas tenha, sem dúvida, evoluído enormemente nos últimos 150 anos, é claro que a queima de carvão é conhecida por produzir CO2 que retém o calor na atmosfera. atmosfera e aquece o planeta. A indústria do carvão sabia disso, mas não fez nada.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Os "erros de muitos cientistas" na velocidade das mudanças climáticas






Um artigo de Eugene Linden aparece no New York Times em 11 de novembro, denunciando os erros de "muitos cientistas" sobre a velocidade com que as mudanças climáticas ocorrem, uma vez que estimavam uma velocidade muito mais lenta e mais lenta , dos quais estamos observando os últimos anos.

Em primeiro lugar, muitos dos cientistas que trabalharam no Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (IPCC) se retiraram após uma única etapa, dizendo que não podem aceitar pressão política. que são recebidas ao publicar o parecer final entre 4 e 8 anos.

É mais um caso de estupidez humana por parte desses políticos. Reconhecer a realidade da mudança climática é difícil, pois requer mudança de comportamento. Também leva a um mundo muito mais rico, com melhor riqueza distribuída, pois implica eliminar fontes concentradas de riqueza e estabelecer outras fontes distribuídas.


Envolve políticos dizendo a verdade, pela primeira vez, e enfrentando a fúria de parte da população, por exemplo, pela eliminação de problemas de diesel e combustíveis fósseis, transporte de mercadorias e pensões. .

A cirurgia é melhor quando o câncer está em seus estágios iniciais. As operações quando metastatizadas são muito piores e, além disso, inúteis.

Desde 1998, escrevo artigos e dou mais de cem palestras para alertar que o sistema climático não é linear e está se acelerando. Que cada metro quadrado de tundras canadense e siberiana que derrete em um verão significa quatro metros quadrados de gelo no verão seguinte. Esse aquecimento do Ártico implica uma mudança na circulação oceânica que aumenta a velocidade do aquecimento global.
O que podemos fazer sobre essa realidade?

A temperatura média global do planeta pode até subir um, dois e três graus Celsius. Cada um deles implica conseqüências cada vez mais desastrosas e, além disso, não lineares. Não estamos acostumados a situações não lineares. Por 400 anos, a física concentrou-se em sistemas lineares, onde dobrar a causa implica apenas dobrar o efeito.

Mas a realidade do mundo são sistemas não lineares.

Um aumento de 2 ° C tem efeitos quatro vezes mais intensos do que um aumento de 1 ° C. A 3 ⁰C, efeitos nove vezes mais intensos.

É extremamente urgente parar uma escalada que já é inevitável. Para isso, é necessário, já, alterar o esquema de energia, apesar dos IPOs das grandes empresas de petróleo.

Parte do dano já foi feito: as costas serão inundadas e as fundações serão deixadas nas casas da linha de frente. Para isso, devemos adicionar a destruição de estradas e parques costeiros.

Para cidades litorâneas e planas, como, por exemplo, Santander, San Sebastián, Corunha e, posteriormente, Valência e o restante, é necessário começar a projetar os diques de proteção à maneira das costas holandesas.

Precisamos, em todas as áreas propensas a inundações de chuvas, como as dos últimos meses, construir canais de drenagem do tipo capilar, eliminar radicalmente os funis, os leitos dos rios que caem em outras margens do rio.

Devemos reconhecer que as secas na Espanha aumentarão em duração e redesenharão as políticas de água.

Boa parte do território está ameaçada pelo aumento da desertificação . Devemos elaborar uma política rápida para aumentar sua vegetação e reflorestar sempre que necessário.


Enquanto isso, a política se concentra, como vimos nas últimas eleições, em problemas de algum impacto pessoal, mas sem impacto no futuro imediato e mais distante.

Dada a realidade que está chegando, podemos continuar tocando "Sou mais bonito que você" ou "me dê uma parte da riqueza porque é minha", enquanto essa riqueza apenas diminui.

Ou todos podemos começar a colaborar para consertar, juntos, o quase presente e o futuro próximo e distante.

O que escolhemos?


Antonio Ruiz de Elvira Serra , Professor de Física Aplicada, Universidade de Alcalá

Este artigo foi publicado originalmente na The Conversation . 

sábado, 15 de outubro de 2016

Países chegam a acordo para limitar gases do efeito estufa


Quase 200 países chegaram a um acordo para limitar o uso de hidrofluorcarbonetos (HFCs), gases que estão entre os principais causadores do efeito estufa. As informações sobre o acerto firmado hoje (15) são da agência Ansa.

O pacto foi assinado em Kigali, capital de Ruanda, e representa o primeiro sinal da comunidade internacional de que tentará cumprir os objetivos do Acordo de Paris. Segundo o que foi acertado, será definido um teto para as emissões de HFCs, que serão reduzidas gradualmente pelos países desenvolvidos, incluindo os Estados Unidos, a partir de 2019.

Já as nações em desenvolvimento, como a China, maior poluidora do planeta, começarão a diminuir suas emissões a partir de 2024. Além disso, um pequeno grupo de países, entre eles Índia e Paquistão, pressionou para iniciar as reduções em 2028, alegando que suas economias precisam de mais tempo para crescer.

Os hidrofluorcarbonetos são gases usados em aparelhos de ar condicionado e refrigeradores e presentes em aerossóis.
Agência Brasil

Embrapa cria gibi para explicar a relação entre consumo de carne e o efeito estufa



A ideia do material interativo é esclarecer dúvidas e apontar o que, de fato, são verdades sobre a produção e consumo de carne bovina 10 de outubro de 2016



Material é destinado principalmente ao público que varia entre oito e 14 anos.

Não é novidade para ninguém que a educação é a chave para o futuro da sociedade. Através dela, é possível conscientizar jovens e crianças sobre ideais importantes para si mesmos e, principalmente, para o planeta. Com isso, os conceitos sustentáveis adquirem cada vez mais um papel fundamental na fase adolescente da vida, uma das responsáveis por transformar o homem e sua relação com o meio ambiente.

A Embrapa Gado de Corte, em parceria com a APNSP (Associação Sul-Mato-Grossense dos Produtos de Novilho Precoce), lançou recentemente um gibi para jovens e crianças que aborda temas importantes e polêmicos. Na primeira edição, o gibi da série “Mitos e Verdades Sobre a Carne” fala da importância do consumo de carne, explorando tabus sobre o assunto de um jeito interativo para seus leitores.

Em entrevista para o programa de rádio Brasil Rural, a pesquisadora da Embrapa Gado de Corte, Fabiana Alves, falou sobre a importância da novidade lançada para o setor pecuário, que, hoje, é um dos principais alvos de crítica a respeito de seu desempenho quanto à emissão de gases de efeito estufa.

De acordo com a especialista, o relacionamento entre o consumo de carne bovina e as questões ambientais é potencializada por pessoas, muitas vezes, sem conhecimento da causa correta sobre o assunto. Fabiana enfatiza que diversas atividades presentes no cotidiano das pessoas contribuem de uma forma muito mais agressiva para a emissão de gases e, mesmo assim, não recebem a mesma atenção como a produção de carne vermelha.

O objetivo da iniciativa é esclarecer dúvidas e derrubar mitos existente sobre o setor, direcionando um conteúdo informativo para adolescentes e crianças entre oito e 14 anos e que aborda, com base cientificamente comprovada, fatos e mentiras sustentadas sobre o consumo de carne bovina.

“Hoje a gente pode falar que já existem sistema de produção, como por exemplo, sistema de produção e Integração LPF (lavoura pecuária e floresta), no qual nós temos um saldo de carbono positivo. Ou seja, as árvores e uma boa pastagem conseguem mitigar e até sobrar carbono no sistema. E isso quer dizer que nós podemos produzir bois e carnes, e, mesmo assim, preservar o meio ambiente”, garante Fabiana.

A pesquisadora cita o exemplo da utilização de carros e não reciclagem como situações em que as pessoas não se “incomodam” tanto quanto o alimento. Nas próximas edições da série, Fabiana conta que outros temas responsáveis por intensos debates serão focados no gibi, como a importância do consumo de carne e a importância do consumo da água.
Pensamento  Verde

sábado, 26 de março de 2016

O maior desafio climático é deixar o carbono no solo

A ciência mostra que para garantir um clima sustentável teremos de manter combustíveis fósseis enterrados


SHUTTERSTOCK

Bill McKibben

Temos algumas vantagens quando se trata de lidar com mudanças climáticas. A primeira é que os parâmetros do problema são notavelmente claros: podemos literalmente ver o derretimento do Ártico, a acidificação oceânica e o mercúrio dos termômetros em constante ascensão. Além disso, secas e inundações reforçam diariamente nossa compreensão da difícil situação em que nos encontramos.

E mais: pesquisadores tornaram relativamente simples entender o que podemos e não podemos fazer daqui para frente. Se realmente quisermos limitar o aumento da temperatura do planeta a 2ºC — e quase todas as nações do mundo concordaram com essa meta em 2009, nas negociações internacionais em Copenhague, na Dinamarca —, então simplesmente temos que deixar a maior parte do carbono de jazidas conhecidas enterrada no subsolo ou no fundo do mar: ele não pode ser queimado.

De fato, um contundente artigo publicado em Nature em janeiro passado listou todos os depósitos de carbono que teriam de permanecer intocados: lugares como as areias betuminosas do Canadá ou os reservatórios de petróleo e gás sob o Ártico. (A Scientific American integra o Nature Publishing Group).

Então: pode ser fácil, ou não. O presidente Barack Obama, por exemplo, viajou ao Alasca no início de setembro para chamar atenção para as mudanças climáticas. Ele visitou aldeias nativas, deu uma olhada em geleiras que estão derretendo, e fez todos os comentários politicamente corretos. Mas na semana anterior ele havia dado a permissão final para a Shell Oil perfurar e prospectar no Ártico — exatamente o tipo da coisa que, de acordo com cientistas, agravará o aquecimento global.

Ao fazer isso, Obama exemplificou nosso dilema. Ele simplesmente não conseguiu fazer frente às forças que querem desenterrar até o último naco de carvão, extrair até a última gota de petróleo.

Para políticos, essa falta de controle tem uma origem bem simples: o poder da indústria de combustíveis fósseis. Ela é o setor mais rico do planeta, e historicamente acabou ganhando absolutamente tudo o que queria. O fato de Obama ter rejeitado o controverso oleoduto Keystone XL é uma mostra singular de coragem; e foi literalmente a primeira vez que um líder mundial disse: “Este é um projeto que não podemos construir devido aos seus efeitos sobre o clima”. Mas normalmente o chamado “Big Oil” (os megaprojetos petrolíferos) é simplesmente grande e poderoso demais.

Duas coisas, porém, talvez mudem essa equação.

Uma delas é o surgimento de um movimento climático real. Ele também está ficando grande e poderoso: no outono boreal passado 400 mil manifestantes marcharam pelas ruas de Nova York, no que foi a maior manifestação sobre qualquer coisa nos EUA há muito, muito tempo. Cada vez mais esse esforço globalestá persuadindo bancos a parar de financiar a próxima rodada de extração. No meio do verão passado, por exemplo, a empresa que planejava construir a maior mina de carvão do mundo no deserto australiano cancelou tudo porque suas linhas de crédito haviam sido cortadas graças a um persistente ativismo.

Mas há ainda um outro fator. Nos últimos seis anos, o preço de painéis solares despencou 75%. Isso torna a energia renovável a alternativa mais barata em grande parte do mundo. Se nos comprometêssemos com essa opção, como demonstrou o professor de engenharia ambiental Mark Jacobson, da Universidade Stanford, e sua equipe, todos os estados da União (e todos os países do planeta) poderiam suprir suas necessidades com eletricidade limpa e confiável a um preço acessível até 2030.

Pesquisas mostram que a maioria das pessoas gostaria dessa mudança. Os que se opõem a ela são as pessoas que são proprietárias de minas de carvão e poços de petróleo — gente que exerce uma boa dose de influência política. Os dois irmãos Koch [Charles e David] juntos, por exemplo, formam o “homem mais rico da Terra”. Eles são barões de petróleo e gás; de fato, eles são os maiores arrendatários daquelas areias betuminosas canadenses que, de acordo com cientistas, compõem uma das jazidas que precisamos deixar em grande parte intocadas, inexploradas. E eles anunciaram que gastarão US$ 900 milhões nas eleições presidenciais americanas no outono de 2016 — isso é mais dinheiro do que os partidos Democrata e Republicano gastaram da última vez.

Essa batalha épica está se desenrolando em tempo real. Podemos facilmente medir a quantidade de dióxido de carbono (CO2) que está sendo lançada na atmosfera. Nesta primavera boreal, pela primeira vez na história da humanidade, os níveis de CO2 passaram de 400 partes por milhão (ppm). O tempo é curto: se não começarmos a exercer contenção muito em breve, então as negociações climáticas em Paris, agora, neste mês, não terão grande importância, porque as mudanças que desencadeamos se autoalimentarão, ou se fortalecerão por si mesmas.

Há dias em que, ao ler o que há de mais novo na ciência, é difícil não ser pessimista. Mas então também há dias, como aquele, neste outono boreal, em que a Shell cancelou seus planos para continuar perfurando o Ártico e, logo em seguida, o governo Obama tomou uma série de decisões dificultando que outros fizessem o mesmo. Talvez isso seja um prenúncio. Humanos são muito espertos para fazer coisas. A pergunta é: eles conseguem não fazer coisas?

Bill McKibben é fundador da campanha climática global 350.org e autor do livro original dirigido ao público em geral (leigo) sobre mudança climática “O fim da Natureza” (Editora Nova Fronteira), que foi publicado originalmente nos Estados Unidos em 1989.
Revista Scientific American Brasil

Dois graus Celsius de liberdade

SHUTTERSTOCK
Ilustração de Andrew J. Nilsen


O mundo ainda pode evitar o perigoso aquecimento global se agir rapidamente


Michael Mann

O mundo tem um árduo caminho pela frente se quiser evitar que o aquecimento da superfície da Terra supere 2 graus Celsius, o limite a partir do qual causaremos graves danos ao planeta. Esse número serve de guia para os compromissos que muitos países vão assumir em Paris, na 21ª Conferência das Partes (COP-21) da Convenção-Quadro das Nações Unidas dobre Mudança do Clima, a fim de reduzir suas emissões de gases causadores do efeito estufa.



Mas alguns críticos declararam que a meta de não ultrapassar o aumento médio de 2oC é impossível de ser alcançada, alegando que não poderíamos empregar em tempo as tecnologias necessárias para descarbonizar a economia. Sim, nós podemos. O obstáculo não é físico. Ele depende de vontade política e social.

Ninguém disse que será fácil. Mais de 70 especialistas em clima que atuaram como conselheiros para a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima ressaltaram que limitar o aquecimento global a 2oC “exigirá uma transição radical... não um mero ajuste fino das tendências atuais”.

Nós podemos emitir apenas 300 bilhões de toneladas a mais (270 bilhões de toneladas métricas) de carbono na atmosfera e manter o aquecimento abaixo de 2oC. Com a atual taxa de emissões de mais de 10 bilhões de toneladas por ano, esgotaremos esse “orçamento de carbono” em apenas três décadas. De acordo com uma análise recente, ficar abaixo dos 2oC exigirá que um terço de todas as reservas comprovadas de petróleo, metade de todo o gás natural e 80% do carvão continuem sob a terra.

Isso é pedir bastante. Significa que teremos de começar a suprimir progressivamente o carvão agora e abandonar a maior parte ou toda a areia asfáltica canadense (adeus oleoduto Keystone XL). Também significa que não poderemos queimar cada vez mais gás natural como uma “ponte” para um futuro clima mais limpo dominado por fontes de energia renovável.

A marca de 2oC é com frequência equiparada com manter a concentração atmosférica de dióxido de carbono abaixo de 450 partes por milhão (ppm). O desafio se torna mais difícil à medida que usamos menos carvão. Quando queima, o carvão libera partículas de aerossóis de sulfato na atmosfera que refletem de volta para o espaço parte da energia recebida do Sol. Para o artigo “Uma Falsa Esperança”, publicado em 2014 pela Scientific American, eu calculei que, para compensar a redução a zero das emissões de enxofre até o fim do século, precisamos cumprir a meta de CO2 de cerca de 405 ppm – apenas levemente acima do nível atual.

Podemos fazer isso? O cientista do clima James E. Hansen fez uma convincente defesa de que podemos tirar 100 bilhões de toneladas de carbono do ar com um reflorestamento em massa – limitando o uso da terra o suficiente para permitir que as florestas recuperem a extensão que tinham antes do desmatamento humano. Isso, juntamente com a redução das emissões de carbono em vários pontos porcentuais por ano, o que é difícil, mas exequível, pode levar à meta de estabilização de 2oC.

A história está repleta de declarações precipitadas de inviabilidade que se provaram equivocadas. Como Joe Romm, do Centro para o Progresso Americano, respondeu a críticos de questões climáticas: “Felizmente esses especialistas não estavam por perto quando tivemos de fazer algo realmente difícil, como sofrer milhões de baixas e refazer toda nossa economia quase da noite para o dia para vencer a Segunda Guerra Mundial.” Um acordo inspirado na conferência climática COP-21, que acontece agora em Paris, pode dar início a um ambicioso, mas totalmente viável esforço.

O fator-chave é que há inovações tecnológicas e economias de escala que surgem apenas quando de fato se faz algo. O preço dos painéis solares, por exemplo, caiu mais de 50% no mundo nos últimos anos enquanto a China acelerava sua produção. Os que dizem “não, não podemos” se dedicam a profecias autorrealizáveis. Os EUA nunca foram um país de pessoas que se acham incapazes.

Mesmo com inovação e aprimoramentos, podemos em algum momento ter de empregar tecnologia de “captura direta do ar”, que retira o dióxido de carbono da atmosfera. Isso seria dispendioso, mas Klaus Lackner, professor de engenharia da Universidade do Estado do Arizona, acredita que o custo pode ser reduzido a US$ 30 por tonelada com o volume de produção.

O custo da ação é apenas metade do da inação. Essa conclusão não vem do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC). Vem da ExxonMobil, que estimou o verdadeiro preço do carbono para a sociedade em US$ 60 por tonelada. Outros projetam um valor ainda mais alto. Temos condições de estabilizar o aquecimento planetário abaixo de dois graus Celsius? Não temos condições de não fazê-lo.

Michael E. Mann é professor emérito de Meteorologia da Universidade do Estado da Pensilvânia. Seu mais recente livro, com Lee R. Kump, é Dire Predictions: Understanding Climate Change (2ª edição, Pearson/DK Publishing, 2015).

Revista Scientific American Brasil

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

2014 pode ter sido o ano mais quente registrado


A Organização Meteorológica Mundial acredita que esse ano atingirá um novo recorde de temperatura para o planeta

Nasa
Os oceanos conduziram o aumento de temperatura em 2014 – o Pacífico, o Atlântico Norte polar e subtropical, o Oceano Índico e partes do Atlântico Sul tiveram as maiores temperaturas já registradas. A série de vídeos mostra mudanças nos padrões de anomalias das temperatura na superfície da Terra de 1880 a 2012.

Gayathri Vaidyanathan e ClimateWire

De acordo com um novo relatório da Organização Meteorológica Mundial (WMO), este ano provavelmente será o mais quente já registrado no planeta, com temperaturas globais 0,57 grau Celsius mais altas que a média de 1961 a 1990. 

Isso tornaria 2014 o 38º ano consecutivo com uma temperatura global anormalmente elevada.

A estimativa vem do compêndio da WMO sobre “Estado do Clima Global”. O relatório deste ano foi divulgado durante a reunião sobre o clima em Lima, no Peru, onde diplomatas estão negociando um novo acordo climático que deverá ser assinado no ano que vem, em Paris.

O relatório usa dados da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional, da Nasa e do Escritório de Meteorologia do Reino Unido. Para posicionar as descobertas em um contexto histórico, cientistas normalmente comparam temperaturas medidas com valores “normais” obtidos em uma média de 30 anos, geralmente de 1961 a 1990.

Os oceanos conduziram o aumento de temperatura em 2014 – o Pacífico, o Atlântico Norte polar e subtropical, o Oceano Índico e partes do Atlântico Sul tiveram as maiores temperaturas já registradas. Temperaturas marítimas globais ficaram 0,45ºC acima dá média normal de 1961-1990.

Em terra, as temperaturas ficaram 0,86ºC acima do normal.

Um ano de extremos

Cientistas não sabem o que está acontecendo com os oceanos este ano. Em geral, oceanos absorvem a maior parte do calor do aquecimento global, mas cientistas não têm uma boa compreensão do fenômeno. Pesquisadores estão começando a estudar esse parâmetro nos oceanos profundos, e dados de 2014 estão disponíveis para uma profundidade de dois mil metros. Cientistas descobriram que o conteúdo de calor oceânico em 2014 foi semelhante ao de 2013, que estabeleceu um recorde de calor desde que as medidas começaram em 1955.

Conforme os oceanos absorvem calor, as moléculas de água se expandem e o nível do mar sobe. No início de 2014, níveis marítimos chegaram a uma altura recorde. A elevação média do nível do mar nas últimas duas décadas foi de 3,2 milímetros por ano.

Em 2014, o Ártico viu a sexta menor camada de gelo em setembro, cobrindo 1,24 milhão de quilômetros quadrados a menos que o normal de 1981 a 2010. 

Enquanto isso, a Antártica estabeleceu um nível recorde de cobertura de gelo, com 560 mil quilômetros quadrados a mais que o recorde anterior, estabelecido em 2013. Cientistas estão estudando a Antártica para entender porquê a extensão de seu gelo marítimo vem crescendo desde 1979.

Ondas notáveis de calor foram registradas na África do Sul e na Tunísia. Temperaturas altas foram registradas em regiões árticas da Rússia, particularmente na primavera boreal.

“Em abril, a quebra de gelo começou duas semanas mais cedo que o normal no Rio Ob, na Sibéria, a primeira vez que isso ocorreu nos últimos 100 anos”, afirma o relatório.

Temperaturas acima da média foram registradas em partes da América do Sul, da Ásia, da Europa e da Austrália. De fato, os Estados Unidos foram o único lugar fresco em um mundo sufocante.

Secas foram registradas em partes da África do Sul, China e Brasil. Já nos Estados Unidos, Califórnia, Nevada e Texas passaram por uma seca excepcional, recebendo apenas 40% da chuva normalmente esperada.

A Índia recebeu 12% menos chuva que a média durante sua temporada de monções. Déficits de chuva também foram registrados na Nova Zelândia e na Europa Ocidental.

Inundações aumentam, tempestades tropicais diminuem

Inundações afetaram partes da África do Sul em março e tiveram impacto sobre mais de quatro mil famílias. No Quênia, inundações repentinas devidas à chuva mataram 10 pessoas em fevereiro. Inundações foram registradas no norte do Paquistão e da Índia em setembro, matando 250 pessoas e desalojando 100 mil.

Chuvas extremamente pesadas foram registradas em partes da Rússia, Japão, Estados Unidos, Argentina, Sérvia e França.

Cerca de 72 tempestades tropicais já ocorreram em 2014 até o momento, um número menor que a média de 1981-2010.

Níveis de CO2 na atmosfera subiram para 396 partes por milhão em 2013, o último ano com dados disponíveis. Esse número é 142% maior que os níveis atmosféricos de gás carbônico no início da Revolução Industrial no século 19.

Cerca de 45% do CO2 emitido por humanos desde 2003 foi para a atmosfera; o resto foi absorvido pelos oceanos e pela terra.

Republicado de Climatewire com permissão de Environment & Energy Publishing, LLC. www.eenews.net, 202-628-6500
Scientific American Brasil

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Refugiados climáticos

Os fijianos não estão entusiasmados com o negócio


Estados insulares são extremamente vulneráveis às mudanças climáticas.

A ameaça de elevação do mar derivada do aquecimento global levou o governo de Kiribati, nação insular da Oceania, a tomar uma decisão: comprar um terreno de 24,5 km2 em Viti Levu, a principal ilha do arquipélago de Fiji, 2.250 km ao sul, para acomodar 103 mil kiribatianos. A maioria dos 32 atóis de Kiribati está quase ao nível do mar, e em alguns pontos a água salgada já contaminou os lençóis de água subterrânea. Os fi jianos não estão entusiasmados com o negócio.




Vento dinamarquês

O plano de redução de emissões de carbono, divulgado em março pela Dinamarca, projeta gerar em turbinaseólicas metade da demanda de eletricidade em 2020. No mesmo ano, o governo pretende suprir 35% de suas necessidades energéticas com fontes renováveis, que incluem usinas de biogás e geotérmicas. Em 2050, a meta do país é produzir de forma renovável 100% da energia consumida internamente.



Dera Allahyar, 2010: pior enchente do Paquistão.

Era de extremos

Baseados em análises estatísticas e em simulações de computador sobre a última década, o Instituto Potsdam de Pesquisa Climática (Alemanha) concluiu que a ocorrência de eventos climáticos extremos aumentou de modo incomum e "muito provavelmente" está ligada ao aquecimento global causado pelo homem. O estudo, publicado na Nature Climate Change, lembra que esses eventos afetaram praticamente todo o mundo e sublinha casos como o verão russo (o mais quente desde o ano 1500) e a pior enchente do Paquistão (ambos em 2010), além do número recorde de furacões e tempestades tropicais no Oceano Atlântico (2005).

3% de economia

A prefeitura de Nova York está recebendo propostas de empresas para reciclar 1 milhão de vasos sanitários, nos próximos seis anos. Enquanto as peças antigas consomem 18,9 litros por descarga, as novas usam 4,8 litros. O Departamento de Proteção Ambiental vai re-embolsar em US$ 125 os moradores de apartamentos que trocarem os vasos. Trituradas, as peças antigas poderão ser usadas nas fundações de edifícios. Com a mudança, a cidade diminuirá em 3% o seu consumo de água.



O Paraíba do Sul em Resende.

Rios reprovados

A análise de 49 rios de 11 Estados brasileiros (Ceará, Piauí, Bahia, Mato Grosso do Sul e todos das regiões Sul e Sudeste) feita pela SOS Mata Atlântica, em março, sugere atenção: a situação está regular em 75,5% dos cursos visitados e ruim em 24,5%. Nenhum está em boas condições. Segundo Malu Ribeiro, coordenadora da Rede de Águas, a contaminação advém sobretudo dos defensivos usados na agricultura irrigada que voltam aos cursos d'água e da falta de saneamento básico. O Paraíba do Sul, em Resende (RJ), foi um dos que obtiveram as melhores notas, mas seu nível é regular. Um sopro de esperança: o Rio Tietê, em Itu (SP), passou de ruim para regular.

Lixo da discórdia

A lei que cria o primeiro depósito de lixo nuclear da Austrália, aprovada no Senado, enfrenta resistência de ambientalistas e grupos aborígines. Antes estocados em mais de 100 "locais temporários", como universidades e laboratórios, esses resíduos seriam levados para Muckaty Station, uma comunidade aborígine no árido Território do Norte. Além de a região ser sujeita a sismos e inundações, estudos indicam que o transporte de lixo nuclear por longas distâncias pode pôr em risco a saúde pública.



O Grupo Marfrig começou em março a mapear o uso da água nos processos produtivos (pegada hídrica) pela metodologia Water Footprint Network. É a primeira indústria do setor de proteínas animais a executar um projeto de gestão de recursos hídricos com alto grau de detalhamento.



Até 2015, a Ford pretende consumir menos de 4 metros cúbicos de água por veículo produzido nos países onde está instalada, Brasil incluído. Para tanto, foram adotadas medidas e novas tecnologias para reduzir consumo. O sistema a seco foi incorporado à lavagem dos carros da frota na fábrica de São Bernardo do Campo (SP) e também na usinagem em Taubaté (SP).

A rede de ensino de idiomas Wizard aderiu ao programa Franchising Baixo Carbono, da Associação Franquia Sustentável. A empresa deseja que 100% de suas escolas se comprometam, até 2014, a reduzir e compensar o carbono emitido.

A Divisão Especialidades Químicas da AkzoNobel investiu R$ 80 mil para recuperar a Cooperativa de Recicladores de Itupeva (SP), incentivando a coleta seletiva entre os cooperados. A cooperativa já tem 26 colaboradores, com renda mensal 73% maior do que no início do projeto.
Revista Planeta

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Águas profundas dos oceanos pararam de esquentar, diz NASA

Os cientistas da NASA analisaram a temperatura dos oceanos entre 2005 e 2013, com base em medições realizadas com satélites e diretamente em águas oceânicas

NASA/AFP
Calor irradiado do Pacífico: temperatura das águas superficiais nos oceanos continua aumentando


A temperatura média das águas frias dos oceanos parou de aumentar desde 2005, o que traz novos questionamentos aos cientistas sobre por que o aquecimento global parece ter diminuído nos últimos anos, apesar do aumento das emissões de gases causadores de efeito estufa.

Uma das principais hipóteses apresentadas até agora para explicar este paradoxo é que o calor acumulado pelos oceanos desceu a grandes profundidades.

Os cientistas da NASA, do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) em Pasadena (Califórnia, oeste), analisaram a temperatura dos oceanos entre 2005 e 2013, com base em medições realizadas com satélites e diretamente em águas oceânicas, com 3.000 boias distribuídas por todo o mundo.

"Descobriram que sob os 1.995 metros praticamente não houve mudanças de temperatura durante este período", destacaram no trabalho publicado na revista britânica Nature.

Apesar disso, "o nível dos oceanos continuou subindo", principalmente devido ao degelo no Polo Norte e na Groenlândia, destacou Josh Willis, da missão JPL e co-autor da pesquisa.

No entanto, o especialista considera o fenômeno inexplicável e não põe em dúvida a realidade do aquecimento global. "Estamos apenas tentando entender este mecanismo", acrescentou.

No século XXI, os gases de efeito estufa, entre eles o dióxido de carbono (CO2) produzido pela queima de combustíveis fósseis, continuaram se acumulando na atmosfera, como aconteceu no século anterior.

A temperatura das águas superficiais nos oceanos (até 700 metros de profundidade) continua aumentando, mas não muito rapidamente.

Um estudo publicado em 21 de agosto na revista Science já tinha mencionado essa tese, destacando que uma corrente cíclica que se desloca lentamente no Atlântico e transporta o calor entre os polos, ganhou intensidade no começo do século XXI, fazendo com que o calor seja absorvido pelas águas a 1.500 metros de profundidade.
Revista EXAME

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Notícias Geografia Hoje

Degelo na Groenlândia e Antártida dobra em cinco anos, indica estudo

Redução do gelo nessas regiões, que contêm as duas principais capas geladas do planeta, dobrou desde 2009, segundo a IAW



A redução da área de gelo da Groenlândia e Antártida, as duas principais capas de gelo do planeta, dobrou desde 2009, de acordo com um estudo que analisou imagens de um satélite europeu.

Reprodução/BBC
Os mapas mostram os resultados dos modelos de elevação gerados pela equipe alemã

O exame dos dados gerados pelo CryoSat indicam que só a Groenlândia vem perdendo cerca de 375 km cúbicos de gelo por ano.

Somado, o volume de gelo despejado todo ano pelas duas maiores capas chega a 500 km cúbicos, disse à BBC a pesquisadora Angelika Humbert, do Instituto Alfred Wegener (IAW), na Alemanha.

"A contribuição das duas capas de gelo à elevação do nível dos oceanos dobrou desde 2009", afirmou Humbert. "Para nós, é um número inacreditável."

O estudo do instituto, publicado na revista científica The Cryosphere, não calculou quanto o degelo colabora para a elevação do nível dos mares. Mas se todo o volume despejado nos oceanos for considerado como gelo (uma porção pequena seria de neve), a contribuição poderia ficar na ordem de pouco mais de um milímetro por ano.

Comparações

O satélite CryoSat foi lançado pela Agência Espacial Europeia em 2010 com um sofisticado instrumento de radar projetado para medir o formato das camadas de gelo polares.

O grupo do IAW, coordenado pelo cientista Veit Helm, estudou pouco mais de dois anos de dados para criar um modelo de elevação digital (MED) da Groenlândia e da Antártida e avaliar a sua evolução.

O modelo incorpora 14 milhões de medidas de altura referentes à Groenlândia e outros 200 milhões referentes à Antártida.

Quando comparadas com bases de dados semelhantes produzidas pela missão IceSat, da agência espacial americana (Nasa) produzidas entre 2003 e 2009, as medições permitem calcular mudanças no volume de gelo mais abrangentes que o período observado pelo CryoSat.

Tendências negativas são resultado de degelo, enquanto tendências positivas são consequência de precipitação ou nevascas.

A Groenlândia vem atravessando o seu momento de maior redução na elevação, perdendo 375 km cúbicos de gelo por ano, a maior parte nas costas oeste e sudeste da ilha. Há um derretimento significativo também na Corrente de Gelo Nordeste da Groenlândia.

"Esta região é formada por três glaciares. Um deles, o Zachariae Isstrom, recuou um bocado e já houve registros de perda de volume. Mas agora vemos que essa perda de volume está se alastrando para áreas superiores, muito mais para o interior da capa de gelo do que se via antes", disse a professora Humbert.

Antártida

Já na Antártida, a perda de volume anual foi calculada em cerca de 128 km cúbicos por ano.

Como outros estudos já haviam indicado, a maior parte do degelo se concentra no lado oeste do continente, na área conhecida como Baía do Mar de Amundsen.

Grandes glaciares da região estão recuando e perdendo espessura a um ritmo acelerado.

Por outro lado, há ganhos de espessura na camada de gelo de algumas áreas, como em Dronning Maud Land, onde foram registradas nevascas colossais. No entanto, o acúmulo nessas áreas não compensa as perdas nas outras.

Um grupo científico britânico recentemente produziu o seu próprio MED a partir de um algoritmo diferente aplicado sobre a base de dados do CryoSat.

O resultado é parecido com o do IAW, e os alemães aplicaram o mesmo método para a Groenlândia, de maneira que pudessem comparar as duas capas de gelo.

Quando comparadas, as reduções indicam as mesmas conclusões da missão americana Grace, que monitora as mudanças nas regiões polares a partir de dados gerados por um outro tipo de satélite, que observa o volume de gelo despejado no mar.
http://ultimosegundo.ig.com.br/

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Emissão de gás carbônico no mundo tem maior salto desde 1984



Emissões de CO2 deram um novo salto entre 2012 e 2013

A concentração de gases do efeito estufa na atmosfera atingiu níveis recordes em 2013, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

Entre 2012 e o ano passado, a taxa de acúmulo de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera teve o crescimento mais rápido em um ano desde 1984.

A OMM afirmou que o relatório ressalta a importância de um acordo mundial para limitar a emissões de gases do efeito estufa.

Em 2009, líderes de todo o mundo concordaram em fechar um tratado para manter um aumento na temperatura global de no máximo 2ºC até 2020.

O Boletim anual de Gases do Efeito Estufa não mede a produção de emissões, mas registra a quantidade de gases que permanecem na atmosfera depois das interações com terra, ar e oceanos.

Cerca de metade das emissões acaba absorvida por mares, florestas e seres vivos.

Mesmo assim, a concentração de CO2 na atmosfera bateu 396 partes por milhão (ppm) em 2013, um aumento de quase 3ppm em comparação com o ano anterior.
Crescimento recorde

"O boletim mostra que, bem longe de estar caindo, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera de fato subiu no último ano na taxa mais rápida em quase 30 anos", disse o secretário-geral da OMM, Michel Jarraud.

A concentração de CO2 atual é de 142% dos níveis de 1750, ou seja, antes do início da Revolução Industrial.

O acúmulo de outro potente gás de efeito estufa, o metano, foi de 253%.

O estudo também indica que o crescimento recorde do CO2 em 2013 não se deve apenas a mais emissões, mas a uma redução na capacidade de absorção de carbono pela biosfera.

A descoberta intrigou cientistas da OMM. A última vez que se constatou uma redução no nível de absorção da biosfera foi em 1998, quando houve um pico de queima de biomassa, aliado a um intenso El Niño.

"Já em 2013 não houve impactos óbvios na biosfera, portanto, é ainda mais preocupante", disse o chefe da divisão de Pesquisa Atmosféria da OMM, Oksana Tarasova.

"Não entendemos se isso é uma coisa temporária ou permanente, e isso é preocupante."

Tarasova afirma que a descoberta pode indicar que a biosfera atingiu o seu limite, mas destaca que é impossível confirmá-lo no momento.

Os dados compilados pela OMM cobrem os anos de 1990 a 2013 e mostram que gases como CO2, metano e óxido nitroso (N20), que sobrevivem na atmosfera por muitos anos, contribuíram para um aumento de 34% no aquecimento global.

No entanto, a temperatura global média não subiu paralelamente à elevação da concentração de CO2, o que levou muitos a afirmarem que o aquecimento global havia parado.

"O sistema climático não é linear, não é simples. Não há necessariamente um reflexo da temperatura na atmosfera, mas se analisarmos o perfil de temperatura dos oceanos, vê-se que o calor está indo para os mares", disse Oksana Tarasova.

O relatório também inclui pela primeira vez dados sobre a acidificação do mar provocada pelo dióxido de carbono.

A OMM diz que diariamente os oceanos absorvem cerca de 4kg de CO2 por pessoa. Os pesquisadores acreditam que a atual taxa de acidificação seja a maior dos últimos 300 milhões de anos.

Diante das evidências, a OMM urge líderes mundiais a tomarem decisões contundentes sobre a política climática.

Em 23 de setembro será realizado em Nova York um encontro extraordinário sobre o clima, convocado pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

No fim do ano, a ONU promove a sua reunião anual sobre mudanças climáticas, desta vez em Lima, no Peru.

A expectativa é que os dois encontros cheguem ao consenso necessário para um novo acordo climático mundial na reunião anual da ONU de 2015, em Paris.

No entanto, até o momento não se tem qualquer previsão de como transformar o acordo em algo legalmente vinculante, para que seja, de fato, efetivo.
BBC Brasil

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Buracos na Sibéria associados a mudanças climáticas

Derretimento do permafrost pode ter provocado aumento de pressão nas camadas sob a superfície do solo
Screengrab Newslook Video
Um buraco siberiano apareceu misteriosamente e foi relatado em julho de 2014.


Tanya Lewis e LiveScience 

Um trio de misteriosos buracos no norte da Sibéria deu origem a muitas teorias, mas cientistas sugerem algumas explicações concretas.

De acordo com o jornal Siberian Times, em meados de julho pastores de renas encontraram uma cratera com aproximadamente 80 metros de largura, na Península de Yamal, cujo nome significa “fim do mundo”. Desde então, dois outros fenômenos – uma cratera de 15 metros no distrito de Taz e uma de 60 a 100 metros na Península de Taymyr – também foram relatados.

Nem alienígenas nem meteoritos provocaram essas estranhas cavidades, como alguns especulavam, mas a verdadeira explicação poderia ser igualmente empolgante. Cientistas russos investigaçam para descobrir mais.

Imagens aéreas do primeiro buraco mostram o local cercado por montes de terra solta que parecem ter sido removidos do buraco.

“Em minha opinião pessoal, isso é um tipo de sumidouro”, declarou Vladimir Romanovsky, geofísico que estuda o permafrost na University of Alaska Fairbanks. Sumidouros são buracos formados no chão quando a água não consegue ser drenada.

A água provavelmente veio do derretimento do permafrost ou de gelo, observa Romanovsky, que já falou com os cientistas russos que investigam o local. Mas enquanto a maioria dos sumidouros suga o material colapsado, “esse acabou entrando em erupção”, contou ele à LiveScience. “Isso sequer existe na literatura científica. Estamos lidando com algo completamente novo”, adicionou ele.

A princípio, o cientista polar Chris Fogwill da University of New South Wales, na Austrália, sugeriu que o primeiro buraco tivesse sido criado pelo colapso de um “pingo”, um grande aglomerado de gelo coberto por terra que normalmente se forma em regiões árticas e subárticas.

“Grandes buracos começaram a aparecer na Sibéria, e cientistas acreditam que o clima é a causa: http://t.co/4mExye7BR9 pic.twitter.com/bix07TBEka” – Sean Breslin (@Sean_Breslin), 29 de Julho de 2014

Kenji Yoshikawa, cientista ambiental da University of Alaska Fairbanks, também declarou acreditar que uma poça drenada e colapsada de “pingo” seja a explicação mais provável para a cratera da Península de Yamal. No Alaska existem “pingos” semelhantes no norte da Península Seward, e perto da cidade de Nuiqsut.

Mas Romanovksy declarou que o buraco não parece um “pingo” típico colapsado; esses fenômenos normalmente se formam a partir de montes maiores que colapsam após décadas, com todo o material caindo para dentro.

A partir da foto da cratera de Yamal, “é óbvio que parte do material foi ejetado pelo buraco”, aponta Romanovsky. Seus colegas russos que visitaram o local lhe disseram que a pilha de areia tinha mais de um metro de altura ao longo das bordas do buraco.

A formação da cratera provavelmente começou de maneira semelhante à de um sumidouro, onde a água (nesse caso, gelo ou permafrost derretido) se acumula em uma cavidade subterrânea, explicou Romanovsky. Mas em vez de o teto da cavidade colapsar, algo diferente ocorreu. A pressão aumentou, possivelmente oriunda do gás natural (metano), e acabou lançando lama para todos os lados quando o chão afundou. Anna Kurchatova, cientista do Centro de Pesquisa Científica Subártico da Rússia, fez uma observação semelhante ao Siberian Times.

A foto da borda da cratera mostra uma vegetação que não parece recente, o que sugere que o buraco talvez tenha vários anos de idade, observa Yoshikawa. Romanovsky acredita que a cratera possa ser mais recente, mas pesquisadores precisarão examinar imagens de alta resolução obtidas por satélites para descobrir exatamente quando a cratera apareceu.

E ainda restam muitas outras perguntas: se um sumidouro lançou material para fora, porque sua borda é tão redonda e regular? Será que havia gás suficiente para provocar uma erupção? E de onde veio esse gás?

De acordo com Romanovsky, essa parte da Sibéria contém campos profundos de gás, além de vários lagos pequenos que se formaram entre quatro e 10 mil atrás atrás, quando o clima era mais quente. Talvez esses estranhos buracos tenham se desenvolvido da mesma maneira que os sumidouros, expandindo-se mais tarde.

Domos de gás natural também existem nos Estados Unidos, localizados a leste do Rio Sagavanirktok, no norte do Alaska.

O desenvolvimento de sumidouros de permafrost poderia ser uma indicação do aquecimento global, alerta Romanovsky. “Se esse for o caso, provavelmente veremos isso acontecer com mais frequência”.
Scientific American Brasil

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Notícias Geografia Hoje

Economia americana já sente efeitos de mudanças climáticas
Prejuízos causados pelo clima nos Estados Unidos podem atingir US$35 bilhões

Shutterstock
A elevação dos níveis dos mares, maiores danos de ondas de tempestades e ondas mais frequentes de calor extremo terão “impactos específicos, mensuráveis, sobre os atuais bens de nossa nação e sua atual atividade econômica”.


Catástrofes induzidas por mudanças climáticas, inclusive o aumento do nível do mar, ondas de calor extremo e quebras de safras custarão ao país bilhões de dólares por ano nas próximas décadas.

Essa é a previsão de um relatório divulgado em 24 de junho, que foi patrocinado pelo investidor bilionário e ativista ambiental Tom Steyer, pelo ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg (I) e pelo ex-secretário do Tesouro, Henry Paulson.

“Risky Business: The Economic Risks of Climate Change to the United States” (“Negócio Arriscado: Os riscos econômicos das alterações climáticas para os Estados Unidos”), uma análise que se estendeu por mais de um ano, projeta perdas por setores e regiões do país. Seu objetivo é fornecer o que chama a primeira “avaliação abrangente já feita dos riscos econômicos que nossa nação enfrenta em decorrência das mudanças climáticas”.

De acordo com o documento, haverá perda de produtividade devido ao calor extremo. Mais usinas de energia terão de ser construídas para fornecer energia elétrica para aparelhos de ar condicionado. E, enquanto isso, a elevação do nível do mar ameaça a infra-estrutura, particularmente ao longo da costa leste e da região do Golfo.

“Se permanecermos em nossa atual rota climática, algumas residências e propriedades comerciais com hipotecas de 30 anos, em lugares como a Virgínia, Carolina do Norte, Nova Jersey, Alabama, Flórida, Louisiana e outros estados poderiam literalmente estar embaixo da água antes que as dívidas estejam quitadas”, adverte o relatório.

Existe uma chance em 20 “de que até o final desse século mais de US$ 701 bilhões em propriedades costeiras existentes estarão abaixo do nível médio do mar; além de mais de US$ 730 bilhões em propriedades em risco durante a maré alta maré”, prevê a análise.

O documento, de 56 páginas (pdf, em inglês), que tem como alvo o público empresarial, foi divulgado formalmente na manhã de 24 de junho em Nova York e publicado on-line em riskybusiness.org. O site de ClimateWire obteve uma cópia antecipada do relatório.

Além de Steyer, Paulson e Bloomberg participaram do evento em Nova York vários membros do comitê consultivo de “Risky Business”, entre eles: Henry Cisneros, ex-secretário de Habitação e Desenvolvimento Urbano, Robert Rubin, ex-secretário do Tesouro e Donna Shalala, ex-secretária de Saúde e Serviços Humanos — todos do governo Bill Clinton; além de Alfred Sommer, da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health e Gregory Page, ex-CEO e atual presidente do conselho da Cargill Inc.

Impactos de curto e longo prazos

A economia americana já está começando a sentir os efeitos das mudanças climáticas, afirma o relatório e “esses impactos provavelmente aumentarão substancialmente nos próximos 5 a 25 anos, afetando o desempenho futuro dos negócios e as decisões de investimento de hoje”.

A elevação dos mares, o aumento de danos decorrentes de ondas gigantes de tempestades e ondas mais frequentes de calor extremo terão “impactos específicos, mensuráveis, nos atuais bens de nossa nação e sua atual atividade econômica”, alerta o documento.

A análise se concentra em três importantes áreas em que há riscos resultantes de “mudanças climáticas induzidas pelo homem”: propriedades costeiras e infraestrutura, agricultura e energia.

É provável que ocorram mais tempestades extremas, como a supertempestade Sandy, de 2012, prevê a avaliação.

“Nos próximos 15 anos, os níveis mais elevados dos mares, combinados com ondas de tempestades, provavelmente aumentarão o custo médio anual de tempestades ao longo da costa leste e do golfo do México em entre US$ 2 bilhões e US$ 3,5 bilhões”, estima diz o relatório. Somando-se isso às potenciais mudanças na atividade de furacões, “o provável aumento em perdas médias anuais subirá para algo em torno de US$ 7,3 bilhões, elevando o custo anual total de furacões e outras tempestades costeiras para US$ 35 bilhões”.

O aumento da temperatura ao longo dos próximos cinco a 25 anos também deverá resultar em uma demanda maior de energia, uma quantidade igual à gerada por aproximadamente 200 usinas médias movidas a carvão ou a gás natural. Isso custará aos contribuintes residenciais e comerciais até US$ 12 bilhões por ano, de acordo com a análise.

Em longo prazo, haverá muito mais dias com temperaturas desconfortáveis e perigosas, prossegue o documento. Esse calor extremo, especialmente no sudoeste, sudeste e centro-oeste superior, ameaça “a produtividade do trabalhador, a saúde humana, e os sistemas de energia”.

“Em meados desse século, o americano médio provavelmente verá de 27 a 50 dias com mais de 35ºC por ano — de duas a mais de três vezes o número médio de dias com 35ºC que experimentamos durante os últimos 30 anos”, prevê o relatório, e prossegue: “até o fim do século, esse número provavelmente chegará, em média, a entre 45 e 96 dias com 35ºC por ano”.

Temperaturas mais altas trarão sérios desafios para a agroindústria, especialmente em certas regiões.

Sem adaptação, alguns municípios do centro-oeste e do sul poderiam ver sua produtividade cair mais de 10% nos próximos cinco a 25 anos se eles continuarem a semear milho, trigo, soja e algodão, diz o relatório. Há uma chance em 20 de que as perdas de rendimento dessas culturas cheguem a mais de 20%. A análise não coloca um valor em dólares nesses prejuízos potenciais, porque seria impossível projetar preços futuros, explicou Matt Lewis, diretor de comunicações do relatório “Risky Business”.

O documento baseou suas conclusões em dados de relatórios da Avaliação Nacional do Clima (NCA, na sigla em inglês) e do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), além de em material revisado por pares sobre impactos climáticos extremos em culturas, produtividade do trabalhador e desempenho do sistema de energia. Ele também utilizou modelos proprietários sobre o impacto de ondas de tempestade costeiras da Risk Management Solutions (RMS), que modela catástrofes para o setor de seguros e instituições financeiras.

“Evitando explicitamente” prescrições de políticas

A análise Risky Business foi ansiosamente aguardada por alguns grupos ambientalistas, empresas e ativistas democratas devido à poderosa equipe por trás do documento. Além disso, Steyer tem estado politicamente ativo, usando sua fortuna pessoal para apoiar candidatos que, em sua opinião, apóiam suas metas climáticas, e para atingir outros com pontos de vista contrários.

Mas o documento não defende quaisquer ações para enfrentar as mudanças climáticas. Lewis enfatizou que Steyer é apenas uma de 10 pessoas envolvidas, depois de contar os sete membros do Comitê de Risco.

“Não estamos construindo uma lista de empresas que estão participando do conselho para forçar a adoção de políticas. Esse não é o objetivo de “Risky Business”, argumentou Lewis. “Estamos evitando explicitamente uma discussão sobre política em todo o projeto”.

Membros do Comitê de Risco do grupo não concordam sobre a melhor política para lidar com o aquecimento, acrescentou.

“Sobre o que eles estão plenamente de acordo é que as mudanças climáticas representam muitos riscos para muitos setores da economia americana, e que não deveríamos, em sã consciência, deixar de discuti-los”, salientou Lewis.

O principal objetivo da análise é ajudar empresas a entender esses riscos, acrescentou. Isso poderia ajudá-las a tomar decisões informadas.

“Você poderia mudar a forma como fluxos de capital funcionam para o setor imobiliário, se elas (as seguradoras) começarem a entender que há propriedades nas quais estão investindo agora, mas que, daqui a 20 anos, poderiam ser inaseguráveis”, sugeriu Lewis. Poderia haver investimentos diferentes na agricultura “para lidar com os padrões de crescimento mutantes que esperamos”, exemplificou.

Empresas poderiam estar envolvidas na moldagem de ações governamentais, mas elas terão que decidir por conta própria se isso é no seu melhor interesse, salientou, acrescentando: “A comunidade empresarial americana tem um papel fundamental a desempenhar, tanto em se preparar para mudanças climáticas, como para informar a resposta política”, disse Lewis

Alguns prevêem pressões para regulamentos

Críticos do projeto Risky Business, no entanto, admitiram estar preocupados com a possibilidade de ele ser usado para defender medidas corretivas caras.

O relatório provavelmente “soará alarmes”, argumentou Chris Neefus, porta-voz da Americans for Prosperity, um grupo de defesa conservador ligado aos barões da energia Charles e David Koch.

“Em geral constatamos que na esteira de algo desse tipo as pessoas procuram meios de aumentar os impostos”, seja diretamente, através de um imposto sobre o carbono, ou através de mudanças de normas que aumentam os preços da energia, observou.

Tom Pyle, presidente da American Energy Alliance, uma organização sem fins lucrativos focada em defesa do livre mercado e parcialmente financiada por empresas de energia, criticou que restrições de emissões de carbono seriam caras e não muito eficientes.

Reduzir a poluição de gases de efeito estufa a zero até 2100 resultaria em uma queda de temperatura de 0,17ºC, observou ele, e acrescentou que estava citando informações de relatórios preparados para análise do IPCC.

“Desperdiçar a enorme quantidade de recursos para fazer qualquer coisa além do que o mercado já está fazendo não faz muito sentido para mim”, resumiu Pyle.

Lewis observou que uma das principais conclusões do relatório “Risky Business” é que os aumentos de temperatura variarão por regiões. Segundo ele, a queda da temperatura média global citada por Pyle, ou o fato de que foi evitado que ela aumentasse, não é muito útil.

“Embora seja fácil apontar médias de temperatura; para lugares como o Alasca ou como o sudeste, que verão mudanças extremas, isso não ajuda”, criticou Lewis.

Médias mascaram a variabilidade e não exprimem o verdadeiro impacto, salientou. E existe o mesmo problema com as médias de aumento do nível do mar e das inundações, disse ele.

“Em média, os Estados Unidos não submergirão”, ironizou Lewis, “mas não contem isso para o povo de Miami”.

Um estrategista democrata manifestou esperança de que fatos do relatório serão usados como defesa política, em anúncios de TV e outros tipos de publicidade voltada para o público eleitor antes da eleição.

“O estudo pode ser potencialmente uma peça do quebra-cabeça para reverter a estrutura básica dessa questão”, observou Mark Longabaugh, um sócio da empresa de consultoria de mídia democrata Devine Mulvey Longabaugh. “Ele (o relatório) ajuda o público a aceitar a ideia de que a mudança climática afetará drasticamente nossa economia”.

Interesses petrolíferos e carvoeiros promoveram a ideia de que reduzir as emissões de carbono é caro, mas o dano em longo prazo do aquecimento “é muito maior”, salientou.

“Uma vez que isso seja revertido, acredito que as pessoas que se opõem a uma legislação climática séria estarão em apuros”, concluiu Longabaugh.

Questionado sobre se Steyer planeja qualquer ativismo climático usando o relatório, Lewis repassou as perguntas à NextGen Climate, o braço de defesa político de Steyer. Uma porta-voz da organização não respondeu imediatamente às indagações.
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