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quarta-feira, 10 de outubro de 2018

COMO AS ESPÉCIES IRÃO REAGIR ÀS MUDANÇAS CLIMÁTICAS


Em dezembro de 2015, líderes políticos e cientistas de vários países reuniram-se em Paris, na 21a Conferência do Clima (COP-21), para debater as condições climáticas atuais e definir um novo acordo internacional sobre o clima. O Acordo de Paris foi assinado por 195 países, que se comprometeram a investir em tecnologias limpas e reduzir as emissões de gases de efeito estufa para manter o aquecimento global abaixo de 2 °C (ver ‘O ‘clima’ do Acordo de Paris’, em CH 333).

A presença de gases de efeito estufa na atmosfera tem aumentando cada vez mais nas últimas décadas. Desde o início da Revolução Industrial, em 1760, a concentração de CO2 cresceu mais de 30% – de 280 ppm (partes por milhão) para cerca de 400 ppm nos dias atuais. A taxa de aumento também se acelerou desde que começou a ser acompanhada continuamente em 1958, passando de 0,7 ppm ao ano, na época do primeiro registro, para uma média de 2,2 ppm anuais nas últimas décadas. Segundo o Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima (IPCC, na sigla em inglês), até o fim do século 21, a concentração de CO2 pode chegar ao dobro da atual, atingindo cerca de 800 ppm.

As principais causas desse crescimento alarmante estão associadas às emissões de- correntes da queima de combustíveis fósseis e às mudanças no uso do solo, como a transformação de florestas em áreas agrícolas ou urbanas. Uma consequência do aumento da concentração desses gases na atmosfera é a elevação da temperatura em até 5 °C em algumas regiões do planeta até o final do século.

O Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, órgão nacional que avalia informações científicas sobre os aspectos relevantes dessas transformações no Brasil, ressalta que é esperada uma elevação da temperatura de até 6 °C na região amazônica, além da redução em 45% do volume de chuvas, no mesmo período. Essas alterações climáticas podem trazer diversas e catastróficas consequências, como ondas de calor e estiagens ou chuvas concentradas em determinados períodos.

Tais fatores afetarão a biodiversidade, as interações entre espécies, a estrutura dos ecos- sistemas e a prestação de serviços ambientais (benefícios obtidos dos ecossistemas), resultando em grandes – e talvez irreversíveis – impactos à vida na Terra.


Simulação de ambientes 

Buscando entender o que ocorrerá com as espécies ex- postas às mudanças climáticas, diversos grupos de pesquisa no mundo têm voltado seus estudos à simulação de ambientes com as condições previstas para o planeta até 2100. Destacam-se os experimentos em câmaras de topo aberto (CTAs), como mostra a figura 1A, geralmente instaladas em casas de vegetação, e os sistemas de enriquecimento de CO2 ao ar livre (FACE, na sigla em inglês), apresenta- dos na figura 1B.
Figura 1. Em A, estrutura de uma câmara de topo aberto (CTA), com 1,53 m3, para cultivo de plantas sob condições controladas de aumento de CO2 e temperatura. Em B, estrutura de um sistema de enriquecimento de CO2 ao ar livre (FACE), com 30 m de altura e 25 m de diâmetro, em funcionamento em uma floresta nativa de eucaliptos na Austrália. (foto: Leandra Bordignon)

As CTAs são geralmente usadas para experimentos mais controlados. Já os sistemas FACE, de custo bem mais elevado, têm a vantagem de poderem ser instalados em ambientes abertos ou naturais, possibilitando avaliar os efeitos no ecossistema como um todo. Em ambos os casos, as condições climáticas são controladas por sensores que regulam a concentração de CO2 (cujo gás é fornecido por cilindros) e que, em alguns casos, também regulam o aumento da temperatura (mais 3 °C em relação à temperatura ambiente, por exemplo). Um computador interligado a esses sistemas armazena continuamente dados, como concentração de CO2, temperatura e umidade.

Estudos amplos em ambientes naturais ainda esbarram no elevado custo de instalação e manutenção desses sistemas. O único experimento em floresta nativa encontra-se em andamento na Austrália (EUCFACE). Desde 2012, diversos estudos vêm sendo realizados – da atuação dos micro-organismos do solo até a fisiologia dos eucaliptos nativos – na tentativa de desvendar o que irá acontecer naquele ecossistema caso as previsões do IPCC se concretizem.

Felizmente, outros dois grandes projetos de FACE em florestas nativas estão previstos ainda para este ano: um no Reino Unido e outro na Amazônia brasileira (Amazon-FACE). Este último deve propiciar uma série de descobertas importantes, uma vez que as re- ais consequências do aumento da concentração de CO2 para organismos de florestas tropicais são ainda desconhecidas, lembrando que a Amazônia é um dos ambientes mais ricos em espécies e dos mais relevantes na manutenção do clima global.

Todavia, cabe relatar que os efeitos das mudanças climáticas não são lineares, e conhecimentos obtidos nesse ambiente não serão necessariamente os mesmos em outros ambientes tropicais onde as espécies são diferentes e organizadas de maneiras distintas. Por exemplo, embora as espécies de plantas possam apresentar respostas similares ao aumento do CO2 e da temperatura – como altas taxas de crescimento –, as consequências em um dado ecossistema podem ser o domínio de uma espécie com características invasoras, resultando em grandes problemas no funcionamento do ecossistema e até na extinção de espécies e perda da biodiversidade e de serviços ecossistêmicos.
Estudos em diversas partes do globo têm mostrado que os efeitos do aumento do CO2 variam muito entre as espécies de plantas, mas costuma ocorrer um aumento da biomassa

Estudos em diversas partes do globo têm mostrado que os efeitos do aumento do CO2 variam muito entre as espécies de plantas, mas costuma ocorrer um aumento da biomassa – como o número maior de ramos e folhas – geralmente em função do incremento na fotossíntese. Porém, a maior disponibilidade de átomos de carbono (C) faz com que a grande parte das plantas acumule mais carboidratos em suas folhas, reduzindo a proporção de proteínas, pela diluição do nitrogênio (N).

A melhora na eficiência do uso de água é uma resposta comum a praticamente todas as plantas que crescem sob aumento de CO2. A produtividade de algumas também pode aumentar com o incremento deste gás na atmosfera. Mas, se essas plantas sofrerem estresse pela elevação de temperatura – com ou sem déficit hídrico – em determinadas fases do desenvolvimento, o resultado pode ser devastador, comprometendo totalmente as colheitas. Esse é um dos aspectos mais preocupantes, no contexto de mudanças climáticas, por afetar diretamente a disponibilidade de alimentos e a segurança alimentarem da humanidade. Temendo que isso ocorra e gere uma crise mundial, líderes do mundo inteiro – baseados nas pesquisas de cientistas – assinaram o Acordo de Paris.


Efeitos em ecossistemas brasileiros

Pesquisadores de algumas universidades e centros de pesquisa brasileiros vêm realizando experimentos em CTAs e estruturas de MINIFACE (o mesmo princípio de FACE, em configurações menores) a fim de conhecer os efeitos das mudanças climáticas em espécies – nativas, invasoras e cultivadas – de interesse econômico. Entre os aspectos mais importantes a serem compreendidos, estão as alterações no desenvolvimento e na fotossíntese das plantas, e a consequência disso para as espécies que interagem com elas.

Estudos realizados com duas espécies nativas – o jatobá-da-mata (Hymenaea cour-baril), da floresta Amazônica, e uma espécie de bambu (Aulonemia aristulata), da mata atlântica – mostraram que, com o aumento do CO2, ambas apresentam taxas mais altas de fotossíntese e maior crescimento. O bambu também aumentou a tolerância à seca. Com as mudanças climáticas, o estabelecimento dessas espécies pode ser mais rápido em seu ambiente natural, podendo também servir como um mecanismo eficiente de sequestro de carbono pela floresta. Porém, o desenvolvimento rápido do bambu poderia atrapalhar o crescimento de outras árvores que ocorrem na mesmo área, alterando a composição do ecossistema.

Em relação às plantas nativas do cerrado, experimentos com duas espécies da família das margaridas (Viguiera discolor e Vernonia herbacea) mostram que elas crescem mais quando a concentração de CO2 aumenta.
A elevação do CO2 atmosférico aumentou a produção e o armazenamento de frutanos nessas espécies, indicando que elas poderão enfrentar melhor a seca em uma atmosfera com mais presença desse gás

Além disso, essas espécies são conhecidas por acumularem frutanos – compostos químicos naturais de proteção contra a seca e outros tipos de estresse. A elevação do CO2 atmosférico aumentou a produção e o armazenamento de frutanos nessas espécies, indicando que elas poderão enfrentar melhor a seca em uma atmosfera com mais presença desse gás.

Entre as plantas cultivadas, a cana-de-açúcar (Saccharum officinarum) apresentou, ao aumentar o CO2, maior crescimento e maior teor de sacarose (substância usada na fabricação de açúcar e álcool) e menor concentração de lignina (composto que confere resistência e dureza às células das plantas), sugerindo potencial das células para expansão e acumulação de mais açúcares. Tudo isso poderia aumentar a produtividade da cana em um cenário de mudanças climáticas.

Um experimento com o famoso feijão carioca (Phaseolus vulgaris), que avaliou os efeitos do aumento de CO2 e da seca, verificou que esse gás melhorou a eficiência do uso da água. Além disso, as plantas apresentaram maior crescimento, embora não tenha havido aumento na produtividade.

Outro estudo sobre uma doença do feijão-caupi (Vigna unguiculata) conhecida como oídio e causada por fungo (Oidium sp.) mostrou que o CO2 teve efeito positivo, diminuindo a severidade da doença. Nas plantas mantidas em ambiente com mais CO2, o ataque dos fungos foi mais ameno (33%), enquanto naquelas sem o aumento do gás foi mais severo (71%).

Pesquisas como essas feitas em outros países, com várias espécies e suas respectivas doenças, apontam que o CO2 pode ter tanto efeitos positivos quanto negativos e neutros no processo de infecção de plantas.

Figura 2. Alecrim-do-campo (Baccharis dracunculifolia)
na Serra do Cipó (MG). (foto: Leandra Bordignon)

Nossa equipe no Laboratório de Ecologia Evolutiva e Biodiversidade da Universidade Federal de Minas Gerais também vem desenvolvendo pesquisas em CTAs a fim de entender os efeitos das mudanças climáticas sobre as plantas nativas, invasoras e em culturas. Experimentos com uma espécie nativa do cerrado e da mata atlântica – a Baccharis dracun- culifolia, conhecida popularmente como alecrim-do-campo (figura 2) – avaliaram os efeitos da atmosfera enriquecida com CO2 no desenvolvimento das plantas e na diversidade de fungos endofíticos – que vivem no interior das plantas e podem lhe trazer diversos benefícios (ver ‘Fungos: amigos ou inimigos’, em CH 252).

As plantas cultivadas sob elevado CO2 cresceram mais, apresentando maior raiz, altura, número de folhas e biomassa total. Porém, a diversidade de fungos endofíticos diminuiu drasticamente. Como esses organismos desempenham papel importante para a saúde das plantas, o aumento do gás carbônico poderia torná-las mais suscetíveis ao ataque de inimigos naturais e até comprometer sua adaptação ao ambiente.

Outro estudo investigou os efeitos do aumento de CO2 e temperatura previsto para 2100 em duas espécies exóticas de braquiária (Urochloa brizantha e Urochloa decumbens), que já vêm invadindo paisagens naturais no cerrado. A elevação do CO2 e da temperatura resultou em maiores taxas de germinação e chances de estabelecimento no campo. Além disso, uma das espécies se tornou mais tolerante à seca e às ondas de calor. Provavelmente, essas plantas terão um potencial invasor ainda maior frente às futuras alterações climáticas.
Se medidas paliativas não forem tomadas, essa praga poderá ter um efeito ainda mais devastador sobre a cultura no futuro

Também foi avaliado o incremento de CO2 e temperatura na soja (Glycine max), nas suas interações com fungos endofíticos e com uma das suas principais pragas, a lagarta Spodoptera frugiperda. Embora altas temperaturas possam comprometer o desenvolvimento da cultura por afetar o processo de fotossíntese, o aumento do CO2 favoreceu o crescimento das plantas. Entretanto, uma análise nutricional das folhas revelou que o conteúdo de nitrogênio diminuiu, tornando-as menos nutritivas. Isso poderá interferir na alimentação dos insetos (praga) que delas se alimentam. Para verificar essa hipótese, oferecemos às lagartas de Spodoptera discos de folhas cultivadas com e sem aumento de CO2, e verificamos que as lagartas consumiram 45% mais folhas cultivadas com CO2 elevado.

Essas observações experimentais indicam que, se medidas paliativas não forem tomadas, essa praga poderá ter um efeito ainda mais devastador sobre a cultura no futuro. Já o número de espécies de fungos endofíticos diminuiu drasticamente; alteraram-se as espécies presentes em folhas de soja quando as plantas foram cultivadas com mais CO2 e maior temperatura. Novamente, esses dados apontam que algumas espécies de fungos não conseguem sobreviver em plantas expostas a tais condições climáticas, o que também pode ter efeitos drásticos no desempenho das espécies.


Cenário futuro 

Estudos como esses são de grande importância, pois só de plantas o Brasil tem em seu território mais de 55 mil espécies (cerca de 22% da diversidade mundial), além de biomas bastante distintos. Pesquisas sobre os impactos do aumento de CO2 e temperatura realizados apenas em ambientes florestais ou com grupos específicos de espécies não garantirão que o conhecimento obtido possa ser aplicado a outras regiões de importância similar, como os cerrados e campos, os quais vêm sendo destruídos em taxas até maiores do que a dos ambientes florestais.

A preocupação quanto ao futuro do planeta frente às mudanças climáticas aumentou o interesse em pesquisas científicas nessa área, mas ainda há muito a ser feito para que possamos entender como as espécies irão se adaptar (ou não) ao novo cenário climático.

O estado de alerta é mundial e crescente. A COP-21 marcou um momento decisivo na história, já que, pela primeira vez, todos os países envolvidos se comprometeram a combater a mudança do clima na Terra (incluindo os Estados Unidos, que não assinaram os acordos anteriores), mas a simples assinatura de um acordo não garante que as metas sejam atingidas. Assim, a ampliação desses estudos é fundamental e urgente para que possamos eficientemente nos adaptar e investir na mitigação dos impactos das mudanças climáticas.

Sugestões para leitura

OKI, Y., FERNANDES, G. W., CORREA JUNIOR, A. ‘Fungos: amigos ou inimigos?’ In Ciência Hoje, v.42, n. 252, pp. 64-66, 2008.

Na Internet
Base científica das mudanças climáticas. Relatório do Painel brasileiro de Mudanças Climáticas, v.1, cap.9, pp.321-346, 2015.
Impactos, vulnerabilidades e adaptação. Relatório do Painel brasileiro de Mudanças Climáticas, v.2, 419p, 2015.

Leandra Bordignon
Laboratório de Ecoanatomia e Ecologia Vegetal,
Centro Multidisciplinar,
Universidade Federal do Acre (campus Floresta)
Geraldo Wilson Fernandes e
Yumi Oki
Laboratório de Ecologia Evolutiva e Biodiversidade,
Instituto de Ciências Biológicas,
Universidade Federal de Minas Gerais
Ana Paula de Faria
Laboratório de Fisiologia Vegetal,
Instituto de Biologia,
Universidade Federal de Uberlândia.
Revista Ciência Hoje

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Devedores da natureza

O crescimento do déficit ecológico na região do Mar Mediterrâneo evidencia a necessidade premente de mudança no modelo de desenvolvimento econômico.
Por Alessandro Galli e Philippe Pypaert


A ilha de Capri , na fértil costa italiana.

Cálculo da Global Footprint Network contabiliza o impacto do consumo de recursos fl orestais, fontes de energia, pastagens, agricultura, emissão de gases urbanos e pesca.



Praias da Córsega francesa mantêm biocapacidade elevada.

Em cinquenta anos, os moradores da Bacia do Mediterrâneo quase triplicaram sua demanda por recursos naturais e serviços ambientais. Com isso, os 24 países da região se tornaram devedores ecológicos. Essas são as constatações do Mediterranean Ecological Footprint Trends, relatório lançado pela organização canadense Global Footprint Network na conferência “Assegurar a Competitividade para o Mediterrâneo”, realizada com o Escritório Regional da Unesco para Ciência e Cultura na Europa, no fim do ano.

Representantes dos governos e universidades de 15 países mediterrâneos foram a Veneza, na Itália, para debater as implicações das conclusões do relatório, em termos de prosperidade econômica e manutenção da estabilidade política da região.

Diz-se que não se pode gerenciar o que não se pode medir. Precisamente por isso, o conceito de “pegada ecológica” elaborado pela Global Footprint Network visa a ajudar os governos a medir o estado de seus ativos ecológicos e serviços ambientais, a fim de gerenciá-los melhor no longo prazo. Para avaliar o balanço ecológico de um país, compara-se a oferta (biocapacidade) com a demanda (pegada ecológica). Quando esta supera aquela, o país incorre em déficit ecológico.

A Global Footprint Network calcula que, entre 1961 e 2008, a pegada ecológica mundial subiu de 2,4 hectares globais (gha, na sigla em inglês) para apenas 2,7 gha por pessoa. Mesmo assim, a Terra entrou em déficit ecológico, pois sua biocapacidade per capita (determinada pelo conjunto dos ativos de florestas, terras agrícolas, solo urbano, pastagens, etc.) caiu de 3,2 gha, em 1961, para 1,8 gha em 2008, quase 50% a menos.

A situação se deteriorou mais rapidamente no Mediterrâneo do que na média global. Enquanto a pegada ecológica da região subiu de 2,1 gha per capita para 3,1 gha, a biocapacidade caiu de 1,5 gha per capita para 1,3 gha. O pequeno déficit ecológico regional registrado em 1961 tornou-se um enorme déficit de 150% em 2008, e o cenário natural foi transformado.

O que deu errado? Em 1961, 18 dos 24 países do entorno do Mediterrâneo já viviam em déficit ecológico, compensado por importações de produtos cultivados fora da região. Entre 1961 e 2008, a população saltou de 242 milhões para 478 milhões de pessoas, superando os ganhos de produtividade na agricultura. Outro agravante surgiu depois de 1971, quando o mundo entrou em um período de consumo excessivo. Esse aumento de demanda por fontes finitas de commodities empurrou para cima os preços dos mercados internacionais.


De credores a devedores

Seis países mediterrâneos tinham crédito ecológico em 1961: Argélia, Marrocos, Líbia, Síria, Tunísia e Turquia. Todos, entretanto, se tornaram devedores em 2008 (ver mapa), enquanto as demais nações da região viram seu déficit ecológico subir. Em 2008, os déficits mais elevados foram de Itália, Espanha, Grécia e Egito. Três desses países, porém, forneceram quase 50% da biocapacidade da região: França (31%), Turquia (15%) e Itália (11%). O estudo da Unesco concluiu que quanto maior a renda de um país, maior sua demanda por recursos e serviços ambientais.

As nações criam déficit ecológico pela balança negativa entre o comércio e a exploração dos ecossistemas. A pegada ecológica associada ao consumo nacional é calculada somando-se o impacto das importações ao da produção e subtraindo-se as exportações. Isso significa que o uso de recursos e o impacto das emissões de gases derivadas da produção de um carro fabricado na China, mas vendido e usado na Itália, contribuiu para a pegada ecológica do consumo da Itália, e não para a da China.

Entre 1977 e 2008, a pegada ecológica embutida nas importações para o Mediterrâneo dos dez principais parceiros comerciais da região (entre os quais, Alemanha, China, Rússia, Bélgica e Holanda) aumentou quase cinco vezes, de 30 milhões de gha para 142 milhões de gha, especialmente pelas emissões de carbono relacionada ao consumo de energia elétrica e combustíveis fósseis, de commodities consumidoras de energia intensiva e do transporte de mercadorias. Por volta de 2008, a pegada de carbono respondeu por 52% das importações da Bacia do Mediterrâneo, seguida por importações de recursos de ativos como terras agrícolas e pesqueiros (24% cada).

Assim como o impacto na região cresceu pesadamente com as importações, os parceiros comerciais das nações mediterrâneas desenvolveram déficits ecológicos maiores. Entre 1977 e 2008, em alguns casos a parceria comercial também transformou os países detentores de reservas ecológicas (Canadá e Argentina) em países com déficits ecológicos (Alemanha, Bélgica, Holanda e China). Isso expõe a Bacia do Mediterrâneo ao risco de uma crescente dependência de países exportadores que produzem déficits ecológicos cada vez maiores, situação que poderá causar escassez de recursos na região no futuro.

Contudo, a mesma situação também oferece oportunidades. A maioria das exportações de recursos e serviços ambientais da região atualmente dirige-se a países que enfrentam déficits ecológicos. Em uma época de austeridade, os países mediterrâneos que conseguirem melhorar sua eficiência em recursos e manter uma balança comercial ecológica positiva certamente se beneficiarão com preços mais altos de commodities.


Mudar o modelo

A região em torno do Mediterrâneo vive um grave déficit ecológico, que irá piorar a menos que uma gestão eficaz dos recursos naturais se torne central na formulação de políticas. Muitas das medidas tomadas recentemente pela Grécia, Itália e por outros países para restaurar as finanças públicas podem acabar prejudicando a saúde do seu patrimônio ecológico e hipotecar sua segurança a longo prazo.

Por exemplo, em carta enviada ao Fundo Monetário Internacional em 6 de janeiro de 2012, o World Wildlife Fund (WWF) citou oito duras medidas impostas à Grécia por seus credores, em maio de 2010, consideradas pouco mais do que “emplastros”, que, “longe de curar feridas, estão exacerbando-as enquanto acumulam a longo prazo custos crescentes de recuperação ambiental”.

São elas: a demolição do “Fundo Verde” da Grécia, absorvido no orçamento do Estado; o corte de regulações ambientais pelo governo; a ênfase em grandes investimentos com controle ambiental questionável; a legalização de empreendimentos ilegais em áreas protegidas; a venda desordenada de terras públicas; a redução das equipes ambientais empregadas pelas autoridades públicas; o desmantelamento de instituições de governança ambiental; e o apoio questionável a fontes de energia sujas, como o carvão.

“É forte a crença do WWF” – afirma o documento –, “de que o desdobramento da crise na Grécia e nos países da zona do euro, além de ser baseado na má gestão das finanças nacionais, reflete um modelo de desenvolvimento deficiente, construído sobre o consumo excessivo e o aumento constante do déficit ecológico pela superexploração irresponsável dos recursos naturais.”

A Europa não está sozinha na busca de um novo modelo de desenvolvimento. Trata-se de um imperativo global. A Global Footprint Network chegou a calcular, ao longo do ano fiscal de 2012, o dia em que o estoque de recursos renováveis e serviços ecológicos do planeta teria se esgotado na atual voracide de consumo: 22 de agosto. Ou seja; em sete meses do ano a humanidade esgota seu crédito.

Segundo a organização, se continuarmos na rota business-as-usual, em 2030 precisaremos do dobro dos ativos ecológicos anuais da biosfera para atender à demanda, um nível de teto de consumo fisicamente impossível no longo prazo. Temos, então, uma janela de apenas 15 a 20 anos para mudar o modelo de desenvolvimento.

Os países presos na armadilha do consumo intensivo de energia e recursos se tornarão perigosamente frágeis, pois não conseguirão adaptar-se a tempo às crescentes restrições na disponibilidade dos recursos. Por outro lado, os que transitam para economias que trabalham a favor do bom orçamento da natureza – e não contra – poderão garantir uma prosperidade duradoura para seus cidadãos.
Revista Planeta

sexta-feira, 30 de março de 2012

Em 20 anos, despoluição da Baía de Guanabara vira esgoto


Em 20 anos, despoluição da Baía de Guanabara vira esgoto
Manuela Alegria

Anunciado com pompa durante a Rio-92, programa já torrou US$ 1,17 bilhão e a baía continua imunda.
RIO – O Dia Mundial da Água – data criada pela ONU e comemorada amanhã, 22 de março – tinha tudo para transformar este ano a Baía de Guanabara no cenário de uma festa especial. A três meses da Rio+20, a conferência sobre o desenvolvimento sustentável que deve atrair ao Rio de Janeiro mais de 100 chefes de Estado, a Cidade Maravilhosa poderia mostrar ao mundo a recuperação de sua baía, banhada por dezenas de rios, originalmente cercada por manguezais e antigo hábitat de golfinhos e tartarugas marinhas.
Anunciado há 20 anos, durante a Rio-92, o Programa de Despoluição da Baía de Guanabara começou a ser executado em 1995, foi prorrogado oficialmente sete vezes e, após consumir mais de US$ 1 bilhão, continua inacabado. Hoje, apenas 36% de todo o esgoto gerado nos 15 municípios do entorno é tratado. Um dos maiores símbolos da beleza natural do Rio no passado, a baía recebe em média 10 mil litros por segundo de esgoto sem tratamento. Duas décadas depois, o cartão-postal do Rio de Janeiro continua lindo – mas seu odor é fétido.
Nenhuma das quatro estações construídas ao longo do projeto, que ficou conhecido pela sigla PDBG, está operando plenamente. O programa passou por seis governos desde a assinatura do contrato com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em 1994. Inicialmente, a previsão para conclusão da primeira fase de obras era de cinco anos, chegando a 51% de esgoto tratado. Além do fiasco e do atraso, há questionamentos sobre a qualidade do tratamento. Outra crítica comum é de que tenha havido um desvio do conceito original, mais amplo. Na prática, ficou restrito ao saneamento básico, sem um plano ambiental.
Recursos. O PDBG consumiu US$ 1,17 bilhão em recursos do BID, da Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA) e do governo do Estado. O primeiro desembolso ocorreu no fim de 1994, ano de implantação do Plano Real, e o dólar teve grande variação no período de contrato: chegou a valer R$ 4 em 2002.
Até hoje o esgoto não chega à estação de tratamento de São Gonçalo, inaugurada no fim do governo Marcello Alencar (1995-1998) – faltaram as redes. A estação da Pavuna, projetada para tratar 1.500 litros por segundo, recebe menos de 200. Na de Sarapuí, com a mesma capacidade, são tratados de 600 a 900 litros/segundo.
A maior delas, a de Alegria, projetada para 5.000 l/s, opera com metade disso. As estações da Pavuna, de Sarapuí e de Alegria foram inauguradas no governo de Anthony Garotinho (1999-2002), e o atual governador, Sérgio Cabral Filho, reinaugurou as duas últimas, com tratamento secundário.
No contrato, estavam previstos 1.248 km de redes coletoras de esgoto e 178 mil ligações domiciliares. Foram executados apenas 603 km de redes e 54 mil ligações até novembro de 2006, segundo o último relatório do BID. De acordo com a Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae), foram instalados 697 km de redes coletoras desde 2007, início da atual gestão – o número de ligações domiciliares, também solicitado pela reportagem, não foi informado.
Denúncias. “Os principais problemas do PDBG foram a falta de transparência, de articulação com os municípios, de regulação da Cedae e, principalmente, a fraude cavalar de fazer as estações sem a rede”, afirma o secretário de Ambiente do Rio, Carlos Minc. Autor de uma série de denúncias de irregularidades em obras do programa enquanto era deputado estadual pelo PT, Minc conseguiu em novembro de 2011 a aprovação no BID de um novo empréstimo de US$ 452 milhões para melhorar a coleta do esgoto despejado na baía.
O PDBG estava tão queimado que o programa mudou de nome para Saneamento Ambiental dos Municípios do Entorno da Baía de Guanabara (PSAM).
Minc afirma que o volume de esgoto tratado no início do governo Cabral, em 2007, era de 20% e chegará a 40% ainda neste semestre. “A nossa meta é chegar a 2014 com 65% e na Olimpíada (em 2016) com 80%”, diz.
O presidente da Cedae, Wagner Victer, apresenta números um pouco diferentes. “Quando entramos (em 2007), era pouco mais de 15% e hoje estamos em quase 50%. Vamos chegar a 80% da baía em 4 anos.” A meta apresentada pelo BID junto com o novo financiamento foi mais conservadora: 80% até 2018.
Um símbolo dos erros do programa é o que ocorreu com a estação de Paquetá. Fora de uso por muito tempo, ficou deteriorada, e o governo desistiu de colocá-la em funcionamento.
“Chegamos à conclusão de que era mais barato passar os tubos por baixo d’água e levar o esgoto para a estação de São Gonçalo”, diz Minc. Mas a de São Gonçalo precisa ser refeita. “Ela foi inaugurada três ou quatro vezes e não funciona até hoje”, conta a engenheira Dora Negreiros, que participou da concepção do PDBG e preside o Instituto Baía de Guanabara.
Lixo. Minc afirma que estações de tratamento ficaram secas por até 13 anos “porque a grana para essas obras vinha de fora”. “Já a grana para fazer redes, conexões, era do Fecam (fundo estadual), que ia para tudo, menos para saneamento e ambiente. Rede é debaixo da terra, o que dá voto é estação. São elefantes brancos, monumentos à incompetência, ao descaso, à ilusão.”
Para Victer, os maiores problemas hoje são o lixo – um dos alvos (e fracassos) do programa original – e o fato de algumas empresas não quererem se conectar à rede de esgoto. “Vamos acabar com todos os lixões do entorno da baía este ano”, promete Minc.
A recuperação ambiental da baía é um dos compromissos assumidos pelo governo para a realização da Olimpíada de 2016.
Publicado originalmente no Estadao.com
Revista Meio Ambiente

quarta-feira, 14 de março de 2012

Espécies introduzidas acidentalmente ameaçam Antártida

©kkaplin/ Shutterstock

Sementes carregadas em mochilas de turistas e pesquisadores pode alterar ecossistema do continente gelado
Pauline Askin

Sementes e plantas que cientistas e turistas levam à Antártida “por engano” podem introduzir espécies estranhas ao local, o que representa uma ameaça ao frágil equilíbrio do ecossistema e à sobrevivência de plantas nativas.

Essa flora invasiva está entre as ameaças à conservação mais significativas na Antártida, principalmente com a mudança climática que aquece o continente gelado. É o que mostra um artigo publicado terça-feira (06) no Proceedings of the National Academy of Sciences.

Mais de 33 mil turistas e 7 mil cientistas visitam a Antártida todos os anos, chegando em navios ou aeronaves. E uma pesquisa que durou dois meses descobriu que muitas dessas pessoas carregam sementes de plantas coletadas em outros países já visitados.

No estudo, o conteúdo de bolsos, calças, punhos, sapatos e o interior das malas dos visitantes foi aspirado e pinças foram usadas para extrair sementes escondidas acidentalmente. Em média, cada pessoa verificada trazia 9,5 sementes nas roupas e na bagagem.

“As pessoas que estavam mais carregadas levavam uma infinidade de sementes, que constituíam ameaças substanciais”, relata Dana Bergstrom, da Australian Antarctic Division.

“Quando levamos 'caronas', temos espécies que são competitivas. As plantas e animais nativos não são necessariamente competitivos, então existe sério risco de perdermos parte da preciosa biodiversidade do continente antártico”, advertiu Dana à Reuters. Entre as espécies invasoras descobertas, havia a papoula da Islândia, o capim-lanudo e gramíneas anuais de inverno, todas de climas frios e capazes de crescerem na Antártida.

A península antártica, que a maioria dos turistas visita, é um destino em voga no continente gelado e quanto mais aquecido o clima, mas fácil para as sementes se propagarem. “A taxa de aquecimento da península está entre as maiores do planeta”, lamenta Dana.

A pesquisa – primeiro levantamento abrangente do continente de espécies invasivas – envolveu cerca de mil passageiros e foi feita entre 2007 e 2008, o primeiro ano do Ano Internacional Polar, um esforço internacional que visa pesquisar regiões polares. Os resultados foram publicados somente agora porque os cientistas necessitarem de quase três anos para identificar as espécies de sementes e os efeitos no continente gelado.

Dana afirma que uma semente invasora que se aclimatou foi a grama anual de inverno, uma erva daninha disseminada na sub-Antártida e na ilha King George e que quase alcançou a cauda do continente. “É apenas um exemplo de ervas daninhas que encontramos com ocorrência nas duas últimas estações”, continuou ela.

A gramínea anual de inverno cresce muito bem em áreas reviradas, como nas ocupadas por focas e pinguins, e poderia se propagar entre o musgo de crescimento lento, cercando-o. “Caso se instale naquelas áreas da península, teremos grande potencial de devastação das plantas locais”, concluiu Dana.
Scientific American Brasil

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Como combater a invasão das sacolas?

Como combater a invasão das sacolas?

Bilhões de embalagens plásticas ameaçam o meio ambiente

HENRIQUE OSTRONOFF


Arte PB


Ao percorrer os corredores de supermercados, o consumidor se depara com os mais variados artigos expostos nas prateleiras. Quase todos embalados em plástico: frutas, verduras e legumes colocados dentro de saquinhos, carnes e frios acomodados em bandejas de isopor recobertas de filme plástico, produtos de todos os tipos em caixas de papelão plastificadas ou com uma embalagem plástica em seu interior, potes, copos, tubos, bisnagas, recipientes de todos os tamanhos totalmente de plástico. Após pagar a conta, o consumidor acomoda suas compras para transportá-las – também em sacolas plásticas.

O mesmo acontece em padarias, farmácias, videolocadoras, açougues, lojas de roupas e calçados, papelarias, bancas de jornais, lojas de móveis – até cadeiras e sofás se encontram envoltos em plástico, assim como geladeiras, fogões, aparelhos eletrônicos etc. É infindável a lista de produtos embalados dessa maneira e dos estabelecimentos que fornecem sacolas plásticas para o consumidor transportar suas compras.

O uso intensivo de sacolas plásticas, de acordo com a Associação Paulista de Supermercados (Apas), começou nos anos 1970: "Elas foram introduzidas como um serviço adicional e acabaram se tornando um hábito incorporado à rotina do consumidor. Passaram a ser adotadas em grande escala porque são o único material capaz de transportar a mais variada gama de produtos – congelados, resfriados, latas, artigos de limpeza e outros".

Os números referentes às sacolas impressionam – são 16 bilhões produzidas por ano no país, o que significa 89 por pessoa em média, informa o Instituto Socioambiental dos Plásticos (Plastivida), entidade que representa institucionalmente a cadeia produtiva do setor. Já a Apas estima que, nos mais de 1,5 mil supermercados de São Paulo, sejam consumidas mensalmente cerca de 66 milhões de sacolas plásticas. A média é de 1,6 unidade ao mês por habitante do estado.

O plástico, de modo geral, tem chamado a atenção dos ambientalistas, que apontam a presença do material nos depósitos de lixo como um dos grandes vilões da poluição. Além de fabricado a partir de derivados de petróleo, uma fonte não renovável, seu tempo de degradação é contado em séculos: dependendo do tipo, especialistas calculam que leve entre 100 e 500 anos para se decompor nas condições médias do ambiente terrestre.

A solução mais aceita, diante desse problema, consiste em coleta seletiva e reciclagem. Em 2005, o país reciclou 767,5 mil toneladas do material. Em 2006, esse total foi de 19,8% do plástico consumido, segundo dados da Plastivida. É um índice bastante expressivo, se levarmos em consideração um levantamento de 2005 sobre a situação da reciclagem na Europa. Naquele ano, os melhores resultados foram da Alemanha, que registrou 32%, e da Suécia, com 25%. A Holanda e a Itália alcançaram 18%, a Noruega 17% e a Finlândia 10%. Segundo ainda a Plastivida, a indústria de reciclagem de plásticos do Brasil tem capacidade ociosa em torno de 40%, ou seja, seria possível reaproveitar 1,28 milhão de toneladas desse material.

Outra alternativa – ainda que discutível aos olhos dos ambientalistas – é a utilização de plástico biodegradável, que há algum tempo vem sendo desenvolvido pela iniciativa privada e centros de pesquisa acadêmicos. No Brasil, a PHB Industrial, controlada por empresas do setor sucroalcooleiro, fabrica, ainda em escala modesta, numa usina localizada no interior de São Paulo, o Biocycle, plástico biodegradável poliidroxibutirato, a partir do bagaço de cana. Em 2003, o pesquisador Leonard Sebio, do Centro de Pesquisa em Tecnologia de Extrusão da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), anunciou o desenvolvimento de um plástico biodegradável à base de amido de milho. Pesquisadores do Laboratório de Engenharia de Alimentos do Departamento de Engenharia Química da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) criaram um filme plástico produzido com amido de mandioca e açúcares. Projetado para servir de embalagem para alimentos, além de biodegradável é comestível.

Há também opções que vêm de fora. A Iraplast, pequena empresa do setor de transformação do plástico, deve distribuir em breve um material importado da americana Cereplast, o plástico polilactídeo (PLA) derivado do milho e com degradação completa calculada entre 2 meses e 3 anos, dependendo da temperatura do ambiente.

Existe ainda uma tecnologia que permite a produção de plástico suscetível à oxidegradação. O processo se baseia na introdução de uma quantidade muito pequena de aditivo pró-degradante durante a fabricação convencional, resultando em uma mudança de comportamento do plástico, segundo informa a RES Brasil, que representa no país o produtor inglês do aditivo que transforma o plástico comum em oxibiodegradável. De acordo com a empresa, o aditivo reduz a estrutura molecular de modo a permitir o acesso de microorganismos ao carbono e ao hidrogênio, e o plástico é então consumido por bactérias e fungos. Por essa razão, o material, que deixa assim de ser plástico e se torna uma fonte de alimento, pode ser considerado "biodegradável". Tal processo continua até que ele tenha se decomposto em CO2, água e húmus, sem que restem fragmentos de petropolímeros no solo.

Vaivém legal

Por conta da onipresença do plástico, diversas propostas vêm surgindo em câmaras municipais e assembléias legislativas, com vistas a diminuir seus efeitos sobre o meio ambiente. Essa movimentação ganhou impulso com o aumento da preocupação com o aquecimento global verificado após a divulgação, em fevereiro de 2007, do quarto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), reforçada pela concessão do Prêmio Nobel da Paz a essa iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Desde então, é notável o crescimento do interesse, sincero ou não, demonstrado por governos e empresas em ajudar a conter a poluição ambiental, pois segundo o documento é de 90% a probabilidade de a atividade humana ser responsável pelo aumento do efeito estufa, causa das mudanças climáticas verificadas na Terra.

Nem sempre, porém, as iniciativas dos parlamentares têm redundado em mudanças legais, uma vez que ainda não há consenso quanto à melhor forma de diminuir o consumo ou os efeitos do material plástico. Na Assembléia Legislativa de São Paulo, por exemplo, foi aprovado no ano passado um projeto de lei do deputado Samuel Moreira (PSDB) que "estabelece a proibição da comercialização e do uso de sacos de lixo e de sacolas plásticas feitos de polietileno de baixa densidade (PEBD), conhecido como plástico-filme" e autoriza a utilização "de sacolas, sacos de lixo e outros, derivados de tecnologia em plástico oxibiodegradável ou biodegradável". Dentre os argumentos apresentados pelo deputado para justificar sua proposta está o de que "o material orgânico contido nas sacolas comuns, quando usadas para lixo, forma gás metano, que é 21 vezes mais prejudicial ao meio ambiente do que o CO2 desprendido quando se usam sacolas oxibiodegradáveis ou biodegradáveis". Segundo ainda o deputado, "cada família brasileira descarta cerca de 40 quilos de plástico por ano, e 80% de todos os plásticos são usados apenas uma vez e jogados fora". Enviada ao Executivo no segundo semestre de 2007, a lei foi no entanto vetada pelo governador José Serra.

Destino similar teve o projeto do vereador Anselmo Tatto (PT) na Câmara Municipal de São Paulo, que previa tornar obrigatória aos estabelecimentos comerciais localizados no município a utilização, para acondicionamento de produtos e mercadorias, de embalagens plásticas oxibiodegradáveis. Apesar de ter recebido votação favorável no plenário, a lei, enviada ao Executivo em 2007, foi vetada pelo prefeito Gilberto Kassab.

No Paraná, embora as redes de supermercados estejam adotando as embalagens biodegradáveis, com o apoio do governo estadual, a Câmara Municipal de Curitiba manteve o veto do prefeito Beto Richa à lei de autoria do vereador Luizão Stellfeld (PC do B), que previa a substituição das sacolas de plástico comum pelas oxibiodegradáveis.

Desde março de 2003, está em funcionamento no estado – onde são utilizadas mensalmente 80 milhões de sacolas plásticas, o equivalente a 20 toneladas do material – o Programa Desperdício Zero, cujo objetivo é reduzir em 30% a quantidade de resíduos lançada nos aterros sanitários locais. No entanto, segundo o secretário do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, Rasca Rodrigues, a opção por sacolas biodegradáveis ou de outros materiais, como pano, não é tão importante: "O que realmente interessa é a mudança de atitude. Afinal, o que nos preocupa são as toneladas de plástico, um dos maiores problemas ambientais da atualidade, que são colocadas em aterros sanitários ou lançadas no meio ambiente sem qualquer responsabilidade".

Outros dispositivos legais que tratam da questão encontram-se ainda em apreciação. No Rio de Janeiro, por exemplo, a vereadora Cristiane Brasil (PTB) apresentou, em 2007, projeto de lei que proíbe supermercados e mercados do município de usar sacolas de plástico, obrigando-os a fornecer as produzidas em papel. E o governador do estado, Sérgio Cabral, enviou recentemente à Assembléia Legislativa projeto de lei que determina a substituição de sacolas plásticas de estabelecimentos comerciais pelas reutilizáveis, feitas com materiais como papelão ou pano.

Em Pernambuco, o deputado estadual Izaías Régis (PTB) apresentou proposta de lei que determina a obrigatoriedade aos estabelecimentos comerciais localizados em cidades onde haja coleta seletiva de lixo de imprimir nas sacolas plásticas informações sobre a reciclabilidade dos tipos de resíduo.

Já o deputado Dedé Teixeira (PT), do Ceará, propôs à Assembléia Legislativa local projeto semelhante ao paulista – obriga estabelecimentos comerciais que distribuem sacolas plásticas aos clientes a utilizar embalagens produzidas com plástico biodegradável ou oxibiodegradável.

Biodegradável é bom?

Pergunta-se então por que leis que pregam a substituição das sacolas de plástico comum pelas biodegradáveis têm encontrado dificuldade para ser adotadas. A questão é controversa. Os motivos de desacordo dizem respeito a características de degradação de determinados plásticos, em especial o oxibiodegradável.

Um dos pareceres técnicos que deram suporte à decisão do governador de São Paulo de vetar a lei que obrigava à utilização pelo comércio de sacolas produzidas com esse tipo de material foi preparado, em julho de 2007, pelo Centro de Tecnologia de Embalagem (Cetea), vinculado ao Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. De acordo com o relatório, materiais plásticos degradáveis não constituem solução para o problema do resíduo sólido urbano, pois continuariam a ocupar lugar em aterros, uma vez que a taxa de biodegradação não é tão rápida nesses ambientes. Além disso, esse processo produz gases que colaboram para aumentar o efeito estufa, como o dióxido de carbono (CO2) e o metano (CH4). Embora admita a degradação mais rápida do plástico aditivado, o parecer adverte que o resíduo não desaparece, mas se transforma em pequenas partículas que se dispersam no meio ambiente ou que são metabolizadas por microorganismos em CO2. Nessas partículas, continua o texto, estão, entre outros, aditivos e resíduos de tintas e de pigmentos, cujo impacto ambiental ainda está para ser estabelecido.

O parecer do Cetea diz também que é preciso quebrar o paradigma de que na gestão de resíduo sólido "o que é degradável ou biodegradável é bom para o meio ambiente". Dessa forma, afirma, os programas de educação ambiental deveriam divulgar a idéia do consumo sustentável, incluindo a reciclagem de materiais inertes – plástico, alumínio, aço, vidro – e o reaproveitamento do potencial calorífico daqueles que têm poder energético, em vez de pregar que produtos degradáveis podem ser jogados na natureza.

A melhor opção

A decisão do governador José Serra, assim como a do prefeito Gilberto Kassab, de vetar as leis referentes às sacolas plásticas foi apoiada por supermercados e fabricantes de plásticos. Para a Apas, não houve consenso dos pesquisadores sobre os benefícios do plástico oxibiodegradável para o meio ambiente e, assim, "o setor aguarda o surgimento de uma alternativa ambientalmente adequada, que seja chancelada pelo poder público e pelos estudiosos do assunto". Enquanto isso, a associação "tem apoiado movimentos de conscientização da população para o uso de sacolas de compra reaproveitáveis em vez das descartáveis".

Para a Plastivida, com o veto do projeto de lei, o governador Serra "demonstrou prudência ao exigir maior rigor técnico na adoção de medidas que possam pôr em risco o meio ambiente". Segundo seu presidente, Francisco de Assis Esmeraldo, a entidade propõe uma melhora na qualidade das sacolas: "Com o emprego de material mais resistente, a Plastivida calcula que haverá uma redução de pelo menos 30% no consumo atual dessas embalagens". Além disso, aponta a reciclagem como o melhor destino para elas: "Como qualquer outro produto feito com plástico comum, as sacolas são 100% recicláveis".

Na opinião de Merheg Cachum, presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), o problema maior é a educação em relação ao lixo. Segundo ele, está havendo muito "oba-oba" sobre o assunto: "As sacolas plásticas são totalmente recicláveis. O que falta é o governo disciplinar a coleta seletiva e fornecer recursos para que ela possa acontecer".

Já o diretor superintendente da RES Brasil, Eduardo Van Roost, afirma que a atitude do governador de São Paulo "foi uma questão política e não de viabilidade". De acordo com ele, o projeto de lei apresentado na Assembléia "reflete a tendência mundial de banimento das embalagens plásticas e de resolver o problema do plástico como um todo, e não só o das sacolas". Além disso, "o plástico oxibiodegradável é adotado em mais de 50 países e aprovado internacionalmente por laudos que atestam sua eficácia e segurança". Em sua opinião, as críticas ao oxibiodegradável resultam da falta de informação: "Tem muita gente que não se baseia em argumentos técnicos corretos".

O professor Sabetai Calderoni, doutor em ciências pela USP e presidente do Instituto Brasil Ambiente, empresa especializada em consultoria para projetos de licenciamento ambiental e reciclagem, afirma que o uso indiscriminado de sacolas feitas de plástico comum é péssimo para o meio ambiente. No entanto, segundo sua avaliação, o plástico oxibiodegradável é prejudicial da mesma forma, pois, se tem a capacidade de se decompor com maior rapidez, também impregna o solo com materiais poluentes. Calderoni aponta possíveis soluções. Reciclar é uma boa opção, embora não resolva totalmente o problema, na medida em que apenas alguns materiais, como vidro, aço e alumínio, podem ser reaproveitados indefinidamente. O plástico, por sua vez, possui ciclo de vida limitado. O processo continuado causa sua degradação física, tornando-o impróprio para a reciclagem depois de determinada etapa. A partir daí, a melhor alternativa é transformá-lo em combustível para a geração de energia por meio da queima. No entanto, a opção mais correta já é bem conhecida: "A vovó é que tinha razão: usava a mesma sacola várias vezes", afirma ele, referindo-se às reutilizáveis como a solução ideal.

Revista Problemas Brasileiros

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