segunda-feira, 19 de junho de 2017

O ITER


Reator termonuclear em desenvolvimento desde 2006 é promessa de solução para o problema energético global.




A previsão é de que as instalações do novo reator estejam prontas em 2025. (foto: © ITER Organization)

Talvez, o leitor nunca tenha ouvido falar sobre o ITER, acrônimo, em inglês, para ‘Reator Experimental Termonuclear Internacional’. Mas esse é um dos projetos mais ambiciosos em andamento, que poderá ser o primeiro passo para resolver o problema energético do mundo.

Usinas nucleares convencionais usam como combustível o urânio 235, isto é, o elemento químico cujo núcleo tem 92 prótons e 143 nêutrons. Ao ser bombardeado com nêutrons, o urânio 235 se parte em núcleos mais leves, que se movem rapidamente. Essa energia de movimento acaba sendo usada para aquecer a água de um reservatório, que, por sua vez, move turbinas, gerando energia elétrica.

Apesar de a energia nuclear já ser responsável por mais de 10% da matriz energética mundial, há o perigo de acidentes graves, e os resíduos radioativos deixados ao final do processo são um problema constante.

Ao contrário de usinas nucleares convencionais, o ITER espera extrair energia da fusão de núcleos leves – mais precisamente, de dois isótopos do hidrogênio: o dêuteron (próton mais nêutron) e o trítio (próton mais dois nêutrons). Ambos são relativamente abundantes na natureza. O dêuteron, por exemplo, pode ser extraído da água do mar.

Quando o dêuteron e o trítio se fundem, são gerados um núcleo de hélio (dois prótons e dois nêutrons) e um nêutron. Nesse processo, por volta de 0,4% das massas do dêuteron e trítio se converte em energia. Pode parecer pouco, mas isso é o triplo do que se obtém em usinas nucleares convencionais, que já são milhões de vezes mais eficientes que termoelétricas, as quais queimam combustíveis fósseis gerando gás carbônico (CO2). Por sua vez, as usinas de fusão liberarão hélio, que é um gás inofensivo.




As partes da máquina estão sendo construídas em diferentes países, incluindo Estados Unidos, Coreia do Sul, Japão, Rússia, Itália e Alemanha. (foto: © ITER Organization)

Em resumo, o ITER seria o primeiro passo rumo a uma fonte de energia limpa e abundante. O grande desafio é que, para que a fusão aconteça, o ITER terá que aquecer os isótopos do hidrogênio a temperaturas de 150 milhões de graus Celsius, ou seja, uns 10% da temperatura no centro do Sol. Esse plasma infernal, formando uma ‘sopa’ quentíssima de partículas, terá que ser mantido longe de tudo, por meio de campos magnéticos megapotentes. Não devemos subestimar os desafios tecnológicos envolvidos na fusão, mas eles podem ser superados.

O ITER é encabeçado pela União Europeia, China, Coreia do Sul, pelos EUA, pela Índia, pelo Japão e pela Rússia desde 2006. À época, o valor estimado para a construção foi de 5 bilhões de euros (hoje, cerca de R$ 18 bilhões), e o tempo para sua conclusão era de 10 anos.

Infelizmente, o projeto está atrasado em uma década. Contudo, as coisas começaram a melhorar desde o fim do ano passado, quando o gerenciamento do projeto passou para as mãos do francês Bernard Bigot. Mesmo assim, Bigot estima que a máquina não estará concluída antes de 2025, e que, depois disso, ainda serão necessários vários anos para que o objetivo original de gerar energia pela fusão de dêuterons e trítios seja alcançado.

A nova estimativa de custo quase que duplicou, passando a ser de 9,6 bilhões de euros (cerca de R$ 35 bilhões), o que levou o Departamento de Energia dos EUA a não garantir seu apoio ao projeto além de 2018 – mas esperemos que essa ajuda continue até o final. Dez bilhões de euros é o que custa um porta­aviões. Se podemos construir vários desses para nos matar, será que não podemos construir um ITER para (ajudar a) nos salvar?

George Matsas
Instituto de Física Teórica
Universidade Estadual Paulista
Revista Ciência Hoje

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Notícias Geografia Hoje


Rupturas nos canais da Transposição

 
“Mais uma vez o canal do Eixo Leste da Transposição do São Francisco se rompeu nesse fim de semana. (...) As orelhas estão em pé. Vamos acompanhando os desdobramentos”. Leia artigo completo de Roberto Malvezzi (Gogó).

(Por Roberto Malvezzi, Gogó* / Foto: Carmelo Fioraso).

Mais uma vez o canal do Eixo Leste da Transposição do São Francisco se rompeu nesse fim de semana. As imagens e vídeos da ruptura estão pela internet.

Diante desses fatos até mesmo o jornalismo paraibano começa questionar a qualidade técnica da obra realizada. Afinal, com os canais expostos há tantos anos ao sol do sertão, sendo remendados várias vezes, sempre restava uma interrogação sobre a funcionalidade desses canais e barragens.

Os responsáveis estão dizendo que a correção será feita rapidamente e que não há maiores problemas. Quem sabe seja verdade e o assunto morra aqui.

Mas, os sucessivos problemas apresentados desde seu curto funcionamento, comprometendo inclusive a chegada da água ao açude do Boqueirão, em Campina Grande, reforçam as dúvidas de quem já sabia das imensas dificuldades operacionais de uma obra desse porte, sobretudo a longo prazo.


Tempos atrás se elogiava muito a engenharia brasileira por realizar uma obra de tamanho porte. Agora há um silêncio e os problemas vão se acumulando. Segundo o hidrólogo João Abner, dos 9 m3/s bombeados do São Francisco, apenas 3 m3/s estão chegando ao açude do Boqueirão, em Campina Grande. Portanto, uma perda hídrica de 70%. Quem recebe essa pouca água fica contente, mas poderia chegar muito mais com uma obra infinitamente mais barata e eficiente.

Nosso receio sempre foi que essa obra fosse inviável também tecnicamente, além de tantos outros problemas de ordem econômica, ambiental, social e até éticos.

As orelhas estão em pé. Vamos acompanhando os desdobramentos. O pior será se essa obra mostrar-se mesmo inviável. Aí teremos que recomeçar tudo do zero, pensando novamente nas adutoras, sem falar na situação do rio São Francisco.

Mas, não há como sair do zero. Já houve muito tempo e muito recurso público perdidos. Pior, muita ilusão vendida para fins que nunca ficaram devidamente claros.

* Atua na Comissão Pastoral da Terra (CPT) e no Conselho Pastoral dos Pescadores na região do São Francisco. Articulista do Portal EcoDebate, e possui formação em Filosofia, Teologia e Estudos Sociais.
 https://www.cptnacional.org.br

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Como o derretimento do gelo do Ártico está elevando os níveis dos oceanos em todo mundo?

Especialistas explicam como o descongelamento de gelo terrestre e a dinâmica de aquecimento da água impactam os mares


Shutterstock


Mudanças climáticas estão aquecendo o Ártico mais de duas vezes mais rápido do que qualquer outro lugar no planeta. Uma das consequências mais sérias é o aumento do nível oceânico, o que ameaça nações desde Bangladesh aos Estados Unidos (EUA). Porém, como exatamente o derretimento de gelo no Ártico contribui para a elevação do nível dos oceanos? A Scientific American perguntou a Eric Rignot, professor de ciência do sistema terrestre na Universidade da Califórnia em Irvine, e Andrea Dutton, professora assistente de geologia na Universidade da Flórida, como mudanças nesta região do norte em particular estão levando os oceanos a alturas perigosas.

Agora, os mares estão se elevando a uma média de 3,2 milímetros por ano globalmente, e prevê-se que eles subam um total entre 0,2 e 2 metros até 2100. Rignot e Dutton dizem que, no Ártico, o lençol de gelo da Groenlândia apresenta o maior risco para os níveis oceânicos porque o derretimento de gelo terrestre é a principal causa para a elevação dos mares - e “a maioria do gelo terrestre do Ártico está presa na Groenlândia”, explica Rignot. São 2,96 milhões de quilômetros cúbicos de gelo cobrindo áreas terrestres agora - e ele está derretendo nos oceanos. Se todo o lençol de gelo da Groenlândia descongelasse, segundo Dutton, ele elevaria em 7 metros, em média, os níveis marinhos. Isso inundaria significantemente megacidades, tais como Mumbai e Hong Kong.

O gelo terrestre da Groenlândia já está descongelando rápido o bastante para elevar os mares de todo mundo em 0,74 milímetros por ano. “O ritmo de derretimento tem aumentado”, em grande parte porque o descongelamento da superfície do lençol de gelo se recuperou à medida que as temperaturas globais ficaram mais quentes, diz Dutton. “Essa aceleração do derretimento da superfície dobrou a contribuição da Groenlândia no aumento do nível marinho” em comparação ao período de 1992 a 2011, acrescenta Dutton.

E o Ártico possui outras áreas terrestres congeladas - geleiras e calotas polares - em lugares como a Islândia, o Ártico canadense e o russo, o Alasca e as Ilhas Svalbard, da Noruega. Eles não chegam perto de guardar tanta água quanto o lençol de gelo da Groenlândia, mas ainda são uma parte significativa na equação do nível do mar. Juntamente com geleiras e calotas de gelo no Hemisfério Sul (excluindo o lençol de gelo da Antártida), sua fusão completa potencialmente poderia elevar os oceanos em quase meio metro, de acordo com o Serviço Geológico dos EUA. Contudo, as áreas do norte têm muito mais estruturas congeladas do que as do sul, observa Rignot. "O derretimento de geleiras e calotas de gelo na Patagônia e nos outros locais do sul não contribuiria tanto quanto o daqueles que estão no Ártico."

Além de simplesmente adicionar água ao oceano, o descongelamento de gelo terrestre do Ártico pode elevar os níveis marinhos ainda mais através de um mecanismo chamado expansão térmica. “Em um clima mais quente, o oceano absorve muito calor extra do sistema climático e, como resultado, ele se torna menos denso”, explica Rignot. À medida que o gelo terrestre do Ártico derrete no mar, há mais água oceânica, no geral - e, assim, mais água para aquecer e expandir enquanto o clima esquenta, o que eleva ainda mais os níveis marinhos. “A quantidade da expansão que ela causa é significativa o bastante para que possamos medi-la”, diz Dutton. De 1993 a 2010, a expansão térmica acrescentou uma média de 1,1 milímetros de elevação do nível do mar por ano, de acordo com o Quinto Relatório de Avaliação do Painel Internacional sobre Mudanças Climáticas.

O Ártico também possui bastante gelo marinho - ao mesmo 6,5 milhões de quilômetros quadrados - e tem cerca de 2 metros de espessura, em média, de acordo com o Centro Nacional de Dados de Neve e Gelo. Dutton e Rignot dizem que embora o gelo marinho esteja diminuindo, ele não altera os níveis de água quando derrete pois já faz parte da massa oceânica. “Você pode congelar e derreter o gelo marinho o quanto quiser - ele não vai mudar o nível do mar”, diz Rignot. “Você está apenas mudando o estado na água”. Dutton fornece uma analogia: “Se você está sentado em um bar com uma bebida que tenha cubos de gelo, seu copo está cheio e os cubos derretem, ele não vai transbordar. O gelo já está boiando na água, então ele deslocou o volume de seu próprio espaço.”

Porém, o descongelamento de gelo marinho ainda desempenha um papel no aumento no nível do mar. “O gelo marinho se comporta como um cobertor em cima do oceano”, protegendo a água da energia solar e do calor atmosférico, segundo Rignot. Quando a cobertura congelada desaparece, sua superfície branca não está mais lá para refletir a luz do Sol de volta para a atmosfera - então o oceano absorve muito mais energia solar. “É como ir de não receber calor algum do Sol a receber todo o calor do Sol”, ele explica. “É uma tremenda diferença”. Esse efeito acelera o aquecimento no geral, o que, por sua vez, derrete mais gelo terrestre e eleva o nível do mar. Então mesmo que todo esse derretimento de gelo marinho não pareça grande coisa por não afetar diretamente os níveis marinhos, Rignot diz que “isso é muito importante - o desaparecimento desse cobertor perturba todo o sistema do Ártico”.
Annie Sneed
Revista Scientific American Brasil

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Demografia e Economia no Brasil e em Santa Catarina


Por: Prof.a Dra. Marianne Zwilling Stampe e Prof.a Dra. Thais Waideman Niquito

A mudança demográfica é um fenômeno que ocorre no mundo e também no Brasil. As quedas das taxas de fecundidade e de mortalidade infantil, junto ao aumento da expectativa de vida da população, tiveram como consequência a diminuição da taxa de crescimento populacional. Com isso, ocorre uma mudança na estrutura etária da população. As regiões que passam por esse fenômeno apresentam uma mudança na estrutura etária, observando, num primeiro momento, a existência de menos jovens e mais pessoas em idade ativa e, posteriormente, mais idosos.

Figura 1 – Pirâmide etária Brasil e SC – 2016



Figura 2 – Pirâmide etária Brasil e SC – 2030





Fonte: IBGE.

Em 2016, a população idosa corresponde a 8% da população brasileira, enquanto em 2030 espera-se que o percentual suba para 15% da população brasileira. Ou seja, em 14 anos a proporção de idosos praticamente será o dobro.

Estudamos na teoria do crescimento econômico clássico que o mesmo (em termos per capita) depende de capital, trabalho e tecnologia, e que este último fator seria exógeno (resíduo de Solow). Contudo, com a evolução da teoria, surgiram os chamados modelos endógenos de crescimento, que buscam explicar o desempenho econômico com base em fatores como educação e inovação. Outra motivação para explicar o crescimento da renda per capita é a mudança demográfica – ou razão de dependência (RD) –, isto é, a quantidade de pessoas dependentes (crianças e jovens – 0 a 14 anos – e idosos –65 anos ou mais) em relação às pessoas potencialmente ativas (15 a 64 anos)¹.

Essa taxa pode ainda ser desmembrada em mudança demográfica infantil e de idosos, o que é bastante útil para a análise econômica. Isso porque um aumento da razão de dependência advinda de grande aumento da população infantil causa impactos bastante diversos daqueles observados quando a causa é o aumento da proporção de idosos na sociedade.

Observamos para o Brasil (cujas estimativas populacionais vão até 2060) que o bônus demográfico – período em que a menor RD total é registrada – se dará em 2022 (43,4%). O desmembramento da RD também mostra que o aumento da mesma se dará exclusivamente por um crescimento da proporção de idosos na população. Em 2060, para cada 100 pessoas potencialmente ativas teremos 66 pessoas dependentes. Em Santa Catarina (cujas estimativas populacionais vão apenas até 2030) o quadro é ainda mais alarmante: já estamos no bônus demográfico. Os anos de 2016 e 2017 são os que registram as menores razões de dependência (39,9%).

Figura 3 – Razão de Dependência BR (%)



Figura 4 – Razão de Dependência SC (%)



Fonte: IBGE

E por que a demografia afeta o crescimento econômico? As razões encontram-se no fato de que os incentivos das pessoas mudam. Por exemplo, jovens e idosos possuem preferências distintas, gerando demandas de consumo distintas. Com isso, mudam os bens que serão produzidos, ou seja, afeta a produção de bens e serviços na economia. Além disso, os gastos do governo com idosos são mais elevados do que com crianças. Se as pessoas têm vida mais longínqua e continuam trabalhando por 30 ou 35 anos (se mulher ou homem, respectivamente) o impacto sobre a previdência deverá ser mais elevado, influenciando também nos gastos do governo. A previdência, já bastante deficitária, sofrerá ainda mais impactos negativos no médio prazo. Em 1991, os gastos do governo federal com INSS representavam 3,4% do PIB, atualmente já representam quase 8%². Teremos cada vez menos pessoas contribuindo e cada vez mais pessoas recebendo aposentadorias. A conta não fecha. Como solucionar essa equação? Mais impostos? Aumento do tempo de contribuição?

A oferta de trabalho também sofre alterações. No período em que a sociedade conta com maior proporção de pessoas potencialmente ativas a mesma deve aumentar, influenciando os salários e, com as políticas públicas certas, a produtividade. Posteriormente, à medida que as pessoas envelhecem, deverá diminuir a oferta de trabalho, pois temos um limite físico que podemos trabalhar. Assim, para que a renda per capita continue crescendo, precisaremos que a sociedade seja cada vez mais produtiva.

À medida que o bônus demográfico se aproxima, esse se torna um dos principais desafios para o Brasil e, como vimos, o mesmo é ainda maior em alguns estados, como Santa Catarina. Agravando este cenário, estamos entre os países mais improdutivos do mundo. Precisamos de 4,2 brasileiros para desenvolver o mesmo trabalho de um americano; 3,5 para um australiano; 3,2 para um alemão; 3,1 para um inglês. Ficamos atrás também de países em desenvolvimento: são necessários 1,7 para obter-se o mesmo produto de um argentino; 1,6 brasileiros para um mexicano ou uruguaio³. Fica claro que os desafios impostos pela demografia são inúmeros para a economia brasileira. Corremos o risco de ficarmos velhos antes de ficarmos ricos.

¹Idades definidas pelo IBGE.

²Dados contidos no texto “O Ajuste Inevitável”, de Mansueto Almeida Jr., Marcos de Barros Lisboa e Samuel Pessôa.

³Fonte: Conference Board.
 http://observatorioeconomicodaesag.esy.es

terça-feira, 30 de maio de 2017

Exploração de petróleo no Ártico da Noruega


A infografia mostra as descobertas de petróleo no mar de Barents.
 
Graphic News
May 5, 2017 -- As autoridades norueguesas esperam que as companhias petrolíferas perfurem 15 poços de exploração no mar de Barents este ano.

Ataques terroristas recentes contra o Ocidente


A infografia mostra os ataques terroristas recentes contra a Europa e Estados Unidos.

05/23/2017
Graphic News
Ataque suicida na segunda-feira à noite num concerto em Manchester, matou pelo menos 22 pessoas e feriu 59 outras no mais recente de uma série de ataques terroristas que visaram o Ocidente.

Disputas no mar do Sul da China

Graphic News
O Tribunal Internacional de Haia anunciou a sua decisão sobre um litígio entre a China e as Filipinas sobre o mar do Sul da China, uma zona rica em recursos onde vários países reclamam soberania e que é também uma importante rota marítima.

Emigração dispara

Graphic News 
 

Investimento da China na Europa



Graphic News 
GN34383 A infografia mostra o investimento direto chinês na Europa entre 2000 e 2015. 

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Descubra quais são as cidades com maior renda no Brasil

Estudo mostra quais cidades têm maior renda no Brasil e aponta o crescimento populacional dos grandes municípios que ficam fora de zonas metropolitanas. Confira!

Texto Redação | Foto Will Rodrigues/Shutterstock



O interior paulista é destaque, quando o assunto é renda familiar. Segundo um levantamento realizado pela Geofusion, empresa especializada em inteligência geográfica de mercado, das dez grandes cidades* do interior do Brasil com maior renda média por família, oito estão neste Estado – Valinhos, Santos, Jundiaí e Campinas ocupam as quatro primeiras colocações. A companhia realizou o estudo “Lado B: o Brasil fora das capitais e zonas metropolitanas” (disponível em http://blog.geofusion.com.br/novo-estudo-da-geofusion-revela-informacoes-sobre-o-interior-do-brasil) com dados comparativos entre as capitais e suas Regiões Metropolitanas (RM) em relação às cidades do interior do Brasil com mais de 100 mil habitantes. Os números ainda mostram que 55% da renda do País está concentrada em 7% dos municípios, que também respondem por 38% da população.

Os dez municípios do interior (mais de 100 mil habitantes fora das Regiões Metropolitanas) com maior renda apresentam ganhos por domicílio 60% acima média brasileira, que é de R$ 3,9 mil. Valinhos tem a maior renda por família das grandes cidades do interior*: R$ 7.651,00. Essas cidades têm mais de R$ 142 milhões por ano disponíveis para gastos em produtos alimentícios: 63,5% com alimentação em casa, 29,6% fora do domicílio e 6,9% com bebidas.

TOP 10 INTERIOR: AS GRANDES CIDADES QUE MAIS CRESCERAM NOS ÚLTIMOS ANOS





O Brasil tem 5.570 cidades, as capitais e suas zonas metropolitanas, respondem por apenas 345 municípios (7% do total). O Centro-Oeste é a região com mais pessoas vivendo fora dessas regiões: 78% da população. Entre 2010 e 2015, é possível observar um forte crescimento populacional nos municípios do interior com mais de 100 mil habitantes. Foram mais de 8,4 milhões de pessoas nos últimos quinze anos – um aumento mais acentuado do que nas capitais e Regiões Metropolitanas. Rio das Ostras (RJ) foi a cidade* que teve um maior incremento populacional, com 26,3 mil pessoas (4,5%).


“A concentração populacional e de renda é conhecida por todos. Contudo, quando apontamos quais são essas regiões com base em dados precisos, as empresas que estão com planos de expansão ou planejamentos comerciais em andamento devem levar em conta essas análises de mercado, garantindo, assim, inteligência competitiva em relação aos concorrentes”, explica a diretora de Inteligência de Mercado da Geofusion, Susana Figoli.

O estudo foi baseado nas Projeções Sociodemográficas 2015 da Geofusion, que estimam dados sobre o perfil da população de todo o Brasil. A metodologia leva em conta diversas pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), como o Censo, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) e Estimativas e Contagens da População. Já os dados de Potencial de Consumo têm como fonte o IPC Marketing e indicam o volume em dinheiro disponível nos domicílios brasileiros para o consumo por ano – no caso, os valores referem-se a 2015.

*Cidades com mais de 100 mil habitantes fora das Regiões Metropolitanas.
Revista Geografia - Conhecimento Prático

Saiba mais sobre a interferência das ondas eletromagnéticas

As ondas eletromagnéticas estão presentes em quase toda parte do nosso dia a dia. Conheça mais detalhes

Texto Edgar Melo | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock


Elas estão espalhadas na atmosfera e ninguém as vê, isso não quer dizer, no entanto, que as ondas eletromagnéticas sejam inofensivas. Emitida por equipamentos elétricos e eletrônicos, esse tipo de energia ocupa o espaço, atravessa qualquer tipo de matéria viva ou inorgânica e produz uma poluição imperceptível, capaz de in fluenciar o comportamento celular do organismo humano. O uso da energia elétrica e eletromagnética tornou-se tão arraigado no cotidiano das grandes cidades, que já não é possível se privar do contato com elas. Além dos telefones celulares, os aparelhos eletrodomésticos e as linhas de alta tensão estão por toda parte. “Vivemos em um micro-ondas gigante”, diz o cientista, pesquisador do Sistema Integrado da Terra, filósofo noosférico e engenheiro de sistemas de teleautomação Boris Petrovic, ao alertar sobre o impacto da presença dos campos e das radiações eletromagnéticas. Petrovic explica que o corpo humano não foi preparado para lidar com as interferências das radiações e dos campos eletromagnéticos. O engenheiro esclarece que tanto os celulares quanto qualquer outro tipo de comunicação sem o como Wifi e bluetooth utilizam ondas de radiofrequência para transmitir dados ou voz. Essas ondas são de comprimento muito baixo e são chamadas de micro-ondas. Essa tecnologia é a mesma dos fornos de micro-ondas, usados para aquecer alimentos por atrito das moléculas de água.
Revista Geografia - Conhecimento Prático

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Notícias Geografia Hoje

 
Minoria yazidi celebra seu Ano Novo marcado pela tristeza no Iraque
Milhares de yazidis celebram nesta quarta-feira(19/04/2017) seu Ano Novo em um templo do norte do Iraque, na maior reunião desta minoria desde que os extremistas a converteu em alvo de seus ataques


19/04/2017


Lalish, Iraque - Milhares de yazidis celebram nesta quarta-feira seu Ano Novo em um templo do norte do Iraque, na maior reunião desta minoria desde que os extremistas a converteu em alvo de seus ataques. Os fiéis começaram as festividades na noite de terça-feira, a 50 km ao norte de Mossul, usando seus trajes tradicionais e levando velas e candeias. O evento comemora a criação do universo pelos anjos e festejam a natureza e a fertilidade.

Mas este ano, o ambiente era sombrio entre os yazidis, já que muitos sofreram a violência praticada pelo grupo Estado Islâmico (EI) a partir de 2014, quando os extremistas se apoderaram de amplas zonas do Iraque, incluindo a região de da qual é originária a maioria dos membros desta pequena comunidade. "No estou feliz. Isso não é como antes porque há pessoas que continuam em mãos do Daesh (acrônimo em árabe do EI)", diz Zoan Msaid, uma moradora de Sinjar que vive agora em um campo de refugiados.

"Não podemos esquecer nossos costumes e tradições, mas só que os reféns voltem para casa, só isso", acrescentou. Os yazidis são uma minoria de idioma curdo que pratica uma religião monoteísta com elementos tomados do cristianismo e do Islã. O Estado Islâmico os consideram hereges e, em meados de 2014, massacrou inúmeros membros da comunidade ao conquistar o monte Sinjar.

Em poucas horas, milhares de pessoas fugiram pelas montanhas áridas, procurando refúgio no Curdistão iraquiano. Outras centenas, talvez milhares, morreram no ataque, ou durante a fuga nas montanhas. Segundo a Anistia Internacional, os jihadistas executaram homens e sequestraram centenas, se não milhares, de mulheres, que foram vendidas como noivas para combatentes ou reduzidas à condição de escrava sexual.

As forças curdo-iraquianas reconquistaram no final de 2015 a cidade de Sinjar, com o apoio aéreo da coalizão antijihadista liderada pelos Estados Unidos. Segundo a ONU, o Estado Islâmico cometeu um "genocídio" contra a minoria yazidi. Calcula-se que cerca de 3.000 membros dessa comunidade continua em poder dos jihadistas. Segundo investigadores da ONU, os ataques do EI contra os yazidis no Iraque podem constituir um "genocídio".

Por isso pediram em 2015 uma ação no Tribunal Penal Internacional (TPI) a respeito. No mundo inteiro, os yazidis somam um milhão e meio, um terço desta comunidade se encontra no Iraque. Outras comunidades estão estabelecidas na Turquia, Geórgia e Armênia, sem contra a diáspora no Ocidente, segundo o site do Vaticano.

Vivendo em cantos remotos das montanhas do Curdistão, os yazidis, comunidade de língua curda, segue uma religião cujas origens remontam ao mazdeísmo, nascido no Irã há quase 4.000 anos, e ao culto a Mitra. Mas com o tempo, eles incorporaram elementos do Islã e do Cristianismo.

Os yazidis oram a Deus em direção ao sol e veneram sete anjos, sendo o mais importante deles Melek Taus ou Anjo-Pavão. Eles pronunciam suas orações em curdo e não têm nenhum livro sagrado. A tradição yazidi proíbe o casamento fora da comunidade e mesmo até em seu próprio sistema de castas. As crenças e práticas dos yazidis - como a proibição de comer alface e vestir a cor azul - são considerados por seus críticos como satânicas.

Os muçulmanos ortodoxos consideram o pavão como uma figura demoníaca e os yazidis foram rotulados como "adoradores do diabo". Como iraquianos não-árabes e não-muçulmanos, têm sido uma das minorias mais vulneráveis do país. Milhares de famílias fugiram do Iraque em razão da perseguição do governo de Saddam Hussein, em particular para a Alemanha.

Em agosto de 2007, enormes caminhões-bomba destruíram quase inteiramente duas aldeias yazidis no norte do Iraque. Mais de 400 pessoas foram mortas nas explosões. Além da minoria yazidi, dezenas de milhares de cristãos iraquianos, a maioria seguidores da Igreja Católica Caldeia, também fugiram em função da ofensiva do EI.
Correio Brasiliense

Concentração de CO2 na atmosfera bate novo recorde

Nível de dióxido de carbono atingiu marca de 412 ppm

A concentração de CO2 na atmosfera bateu um novo recorde histórico e superou pela primeira vez a marca de 410 partes por milhão (ppm).

Esse patamar foi ultrapassado de maneira inédita no último dia 18 de abril, segundo medição feita pelo Observatório de Mauna Loa, no Havaí (EUA), a mais antiga estação de detecção de dióxido de carbono no planeta.

Além disso, em 26 do mês passado, o índice de CO2 na atmosfera atingiu sua marca mais alta até hoje, 412 ppm. Os especialistas da agência meteorológica do Reino Unido (Met Office) haviam previsto que esse recorde só seria alcançado em maio.Concentração de CO2 na atmosfera bate novo recorde

Desde setembro de 2016, a concentração de dióxido de carbono vem superando os 400 ppm de modo permanente. A crescente presença de CO2 na atmosfera é considerada a principal responsável pelo aquecimento global e pelas mudanças climáticas no planeta.

O ano de 2016 já foi o mais quente desde 1880, ou seja, desde quando há dados disponíveis. Com isso, o mundo caminha para ter um aumento médio de 3ºC em sua temperatura, embora o objetivo do Acordo de Paris seja manter o aquecimento abaixo dos 2ºC em relação aos níveis pré-industriais, realizando esforços para tentar chegar a um limite de 1,5ºC. (ANSA)
Jornal do Brasil

segunda-feira, 1 de maio de 2017

A vida entre muros

Condomínios fechados e shopping centers acentuam a separação socioespacial em cidades médias

CARLOS FIORAVANTI



Conjunto do programa Minha Casa Minha Vida para moradores de faixa intermediária de renda próximo ao centro de Presidente Prudente

Presidente Prudente – município com 230 mil habitantes a 558 quilômetros da capital paulista – parece estar se desagregando, à medida que os grupos de moradores com ganhos econômicos mais altos e os com renda mais baixa se fecham em seus espaços. Outras cidades de porte médio de São Paulo – com 100 mil a 600 mil habitantes, que exercem um papel de polo regional, com influência sobre dezenas de municípios próximos – vivem o mesmo fenômeno, de acordo com estudos realizados nos últimos anos por uma equipe de pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Quem sai do centro de Prudente rumo ao norte observa terrenos ocupados por propriedades rurais, como se a cidade estivesse terminando. Mas não. Mais adiante emergem dezenas de fileiras de casas geminadas. É um dos conjuntos habitacionais para moradores de baixa renda do programa Minha Casa Minha Vida, com 2.600 casas e cerca de 8 mil pessoas, inaugurado em 2015. Lançado em 2009, o Minha Casa, como é conhecido, tornou-se o maior programa habitacional do país dos últimos 30 anos, com quase R$ 300 bilhões investidos e 10,5 milhões de pessoas beneficiadas até outubro de 2016.

 
Vistas de perto, as casas exibem diferenças: programas complementares de crédito para a compra de materiais de construção permitem a construção de muros altos e portões que as fecham inteiramente, enquanto outras permanecem abertas. Anúncios de mercados, bares e salões de beleza ocupam as fachadas das casas, mesmo sem permissão legal para abrigarem atividades comerciais. Na paisagem sem árvores destaca-se a torre amarela da escola, cercada por muros e cerca elétrica.

Ao sul, a 9 quilômetros dali, estendem-se os condomínios de luxo, cercados por muros com 4 metros de altura encimados pelos fios das cercas elétricas. “Nas entrevistas que fizemos, os moradores diziam que a maior preocupação era a segurança, mas reconheceram que buscam a distinção social por meio do lugar onde moram, comenta o geógrafo Arthur Whitacker, professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Unesp em Presidente Prudente. Não se veem casas nem pessoas nas ruas, apenas os longos muros. Muros altos com arames farpados fecham também os blocos de prédios dos moradores da categoria intermediária de renda do programa Minha Casa Minha Vida, mais próximos ao centro da cidade.

 
Os condomínios contribuem para o alargamento da área urbana. Em um artigo publicado neste ano na revista Mercator, da Universidade Federal do Ceará (UFC), o geógrafo francês Hervé Théry, professor visitante da Universidade de São Paulo (USP), observou que o Minha Casa induziu a formação de bairros que se tornaram os maiores em cidades como Ponta Porã (MS) e Sobral (CE).

“Os condomínios fechados de faixas de renda distintas estão se configurando como se fossem várias cidades em uma só, já que seus moradores raramente se encontram”, sintetiza a geógrafa Maria Encarnação Sposito, professora da Unesp, coordenadora de uma equipe multidisciplinar que tem pesquisado as transformações das cidades médias. Ela explica que a separação socioespacial – examinada pelo geógrafo Milton Santos (1926-2001) na década de 1980, com base em seus estudos sobre metrópoles – agora se intensifica, em decorrência da escassez de espaços de convivência entre as diferentes classes sociais, como as ruas dos centros das cidades, hoje ocupadas predominantemente pelas pessoas de menor renda.



Escola (torre amarela) e vista geral de casas da população de baixa renda, ao norte de Presidente Prudente

Para mostrar o alcance desse fenômeno, Maria Encarnação abre os mapas das seis cidades estudadas por seu grupo desde 2012: Presidente Prudente, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, Marília e São Carlos, em São Paulo, e Londrina, no Paraná, examinadas por causa de sua proximidade histórica e econômica, já que as seis resultaram da cafeicultura, principalmente no início do século XX. Os mapas elaborados com base no Censo de 2010 e em levantamentos de campo evidenciam a concentração dos condomínios populares e as áreas mais densamente povoadas ao norte e as áreas mais ricas ao sul em cinco cidades: Prudente, Ribeirão Preto, Rio Preto, Marília e Londrina. Em São Carlos ocorre o inverso, os ricos estão ao norte e os pobres ao sul, e a divisão não é tão clara, “mas já se desenha uma setorização, com a construção de novos condomínios de luxo”, diz a geógrafa.

Reforçando essa conclusão, três arquitetos – Bárbara Siqueira, professora da Universidade do Extremo Sul Catarinense, Sandra Silva e Ricardo Silva, professores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) – examinaram a ocupação urbana em São Carlos e São José do Rio Preto de 1970 a 2010 e concluíram que os condomínios fechados reforçam “os processos de fragmentação social e espacial das bordas urbanas, seja pela produção de grandes espaços murados, seja pelo espraiamento horizontal e descontínuo das cidades”, de acordo com um artigo de 2016 publicado na Revista Políticas Públicas & Cidades.



Residências com muros e portões …

Insegurança urbana
Os estudos do grupo da Unesp indicaram uma forte atuação das empresas imobiliárias na definição das áreas a serem ocupadas pelos novos loteamentos. Os moradores, por sua vez, sentem-se protegidos da violência urbana nos condomínios fechados e felizes por terem a possibilidade de comprar a casa própria. “Os moradores de todos os grupos sociais que entrevistamos relataram uma sensação de insegurança difusa, como se a violência urbana estivesse por toda parte e não em áreas ou momentos específicos”, diz a historiadora Eda Góes, professora da Unesp que coordenou as entrevistas. “E a ideia de insegurança urbana sustenta o ideal de morar em condomínios fechados.” Segundo ela, a crescente separação socioespacial representa “uma negação da cidade como espaço comum coletivo, a essência do urbano”.

Maria Encarnação, Eda e os outros pesquisadores do grupo identificam as prováveis consequências da segregação socioespacial: a valorização dos espaços privados e a desvalorização dos espaços públicos, como o centro da cidade e as praças; o esvaziamento das ruas, que se tornam espaços de circulação e não de encontros; o crescimento de estereótipos sociais sobre os grupos mais ricos e os mais pobres; e o fortalecimento de novos mecanismos de produção do espaço urbano. Antes, lembra a coordenadora da equipe, a formação de uma área comercial ou residencial era o resultado da iniciativa conjunta de pequenos empresários, do poder público e dos moradores.



…e comércio: preocupação com a segurança é comum a todas as classes

“Hoje quem produz o espaço urbano e rege a expansão das cidades são essencialmente as empresas imobiliárias, que, com o aval do poder público, definem onde construir os condomínios e os shoppings centers, que rapidamente estabelecem novos centros comerciais”, afirma Maria Encarnação. O economista Everaldo Melazzo, professor da Unesp que analisou a atuação das empresas imobiliárias, acrescenta: “As imobiliárias escolhem as áreas a serem ocupadas e o público que as ocupará de acordo com os preços dos terrenos”. Melazzo alerta sobre os limites desse mecanismo de expansão e ocupação das cidades, que não é mais questionado: “Somente o capital privado não consegue organizar e dar vida social para as cidades. Políticas públicas são fundamentais para organizar e qualificar a produção do espaço urbano”.

Identificação ou desconforto
Em expansão no Brasil a partir da década de 1960, os shopping centers reforçam a separação social ao criar espaços privados de lazer e consumo voltados a públicos específicos. Em um artigo publicado na revista portuguesa Finisterra, Eda Góes argumentou que os shoppings deixam os visitantes mais ou menos à vontade, desse modo, selecionando-os, por meio de propagandas que podem gerar identificação ou desconforto, da quantidade e da prontidão dos vigias e das câmeras de segurança. Eda encontrou 50 câmeras no Prudenshopping e 16 no Parque Shopping, criado em 1989, próximo ao centro da cidade para atingir um público de menor poder aquisitivo. Segundo ela, o sistema de vigilância expressa uma prática de controle social que é até mesmo desejada pelos frequentadores, destacando “uma suposta eficiência do mercado para dar resposta a problemas que o Estado não se tem mostrado capaz, como é o caso da insegurança”.



Vista externa de um dos condomínios de luxo…

De modo geral, os shopping centers transformaram rapidamente o centro das cidades, ao atrair as lojas interessadas em públicos mais endinheirados, ou induzir a adequação dos estabelecimentos de rua a uma clientela de menor poder de compra. “O comércio varejista procura seus próprios nichos de mercado”, conta o geógrafo e professor da Unesp Eliseu Sposito, que estudou as consequências da chegada de grandes redes de lojas de eletrodomésticos nas cidades médias. Ele observou também as mudanças no comércio varejista de Chapecó, em Santa Catarina, uma das 18 cidades estudadas pelos 43 pesquisadores da Rede de Cidades Médias (ReCiMe), formada por 17 universidades do Brasil, duas do Chile e uma da Argentina. Os trabalhos do Grupo de Pesquisa Produção do Espaço e Redefinições Regionais (GAsPERR) da Unesp e de outros da ReCiMe ajudam a entender os processos e ritmos de transformação próprios das cidades médias.

Formado por 18 pesquisadores e mais de 50 estudantes, o grupo da Unesp que estuda as cidades médias entrevistou, entre 2012 e 2016, moradores dos seis municípios para entender as mudanças nos hábitos de consumo e o impacto da chegada das grandes redes de varejo, que criam novos centros comerciais. Em consequência da ação de novas empresas varejistas, “os centros das cidades médias perdem prestígio social e estão cada vez mais populares, mas não morreram”, diz Whitacker. Com várias lojas tocando músicas ao mesmo tempo, as ruas centrais permitem uma expressividade e uma espontaneidade raramente consentidas em shoppings. “As passeatas e os protestos da população ocorrem aqui”, diz Melazzo, caminhando rumo ao camelódromo, autodenominado shopping popular.



…e casas de famílias de alta renda, ambos ao sul de Presidente Prudente

Às seis da tarde, porém, as lojas fecham e as ruas silenciam. Os cinemas de rua, entre eles o Cine Presidente, acabaram na década de 1990. “O centro da cidade é apenas o centro comercial, não mais o centro da vida social dos moradores”, conclui o geógrafo Nécio Turra Neto, professor da Unesp que estudou as transformações do lazer noturno na cidade, constituído pelos bares, boates e danceterias, hoje concentrados nas avenidas próximas ao Prudenshopping.

Projeto
Lógicas econômicas e práticas espaciais contemporâneas: Cidades médias e consumo (nº 11/20155-3); Modalidade Projeto Temático; Pesquisadora responsável Maria Encarnação Beltrão Sposito (Unesp); Investimento R$ 3.646.985,87.

Artigos científicos
GÓES, E. Shopping center: Consumo, simulação e controle social. Finisterra. v. 51, n. 102, p. 65-80. 2016.
SIQUEIRA, B. V. et al. Novas configurações em periferias de cidades médias paulistas: A proliferação dos empreendimentos habitacionais com controle de acesso. Revista Políticas Públicas & Cidades. v. 4, n. 1, p. 69-92. 2016.
THÉRY, H. Novas paisagens urbanas do programa Minha Casa Minha Vida. Mercator. v. 16, e16002, p. 1-14. 2017. 
Revista Fapesp

Zelândia, o novo continente, quase todo submerso, proposto por geólogos


 
Não é Atlântida, ilha lendária que teria afundado, mas Zelândia, um continente real, situado no sudoeste do oceano Pacífico, cujo território de 4,9 milhões de quilômetros quadrados se encontra 94% submerso. Entre os 6% que estão acima do nível do mar, destacam-se as duas ilhas que formam a Nova Zelândia (inspiração para o nome do continente) e o arquipélago da Nova Caledônia. A proposta de considerar esse grande bloco da crosta terrestre como um continente — a exemplo da África, América do Norte, América do Sul, Antártida, Austrália e Eurásia — foi feita por uma equipe coordenada por Nick Mortimer, do GNS Science, nome atual do antigo Instituto de Ciências Geológicas e Nucleares neozelandês (GSA Today, 9 de fevereiro). Segundo os autores do estudo, a Zelândia, embora majoritariamente coberta pelo Pacífico, apresenta as principais características geológicas e geofísicas que definem as áreas da crosta continental em oposição às da crosta oceânica. Sua composição é essencialmente granítica, mais “leve” do que a da crosta oceânica, formada por basalto. Apresenta altitudes mais elevadas (por isso, a maior parte dos outros continentes está acima do nível do mar). Sua espessura é maior, por volta de 35 quilômetros. A da crosta oceânica atinge, em média, 8 quilômetros. A Terra é o único planeta do Sistema Solar cuja crosta é dividida em dois tipos, a continental e a oceânica. Ao movimento das placas tectônicas, os geólogos atribuem o surgimento da crosta granítica, ou seja, dos continentes. Além dessa definição geológica de continente, há também outras, como as geográficas e as geopolíticas. 
Revista Fapesp

Poluição humana atinge as regiões mais profundas do oceano


Anfípodas, que vivem a 10 mil metros de profundidade, apresentam níveis elevados de poluentes

Nem mesmo as profundezas dos oceanos, consideradas as áreas mais intocadas do planeta, estão livres de influência humana. Pesquisadores do Reino Unido identificaram níveis elevados de poluentes orgânicos usados por décadas nas atividades industriais em crustáceos capturados nas regiões mais distantes da superfície. Usando armadilhas submergíveis, eles coletaram amostras de anfípodas, crustáceos semelhantes a camarões, a profundidades que variaram de 7 mil metros (m) a 10 mil m em duas áreas do oceano Pacífico: a fossa de Marianas, ao norte, próximo às Filipinas, e a fossa de Kermadec, no sul, na vizinhança da Nova Zelândia. Essas duas zonas abissais se estendem por centenas de quilômetros e estão entre as mais profundas e menos exploradas da Terra – a de Marianas tem 10.994 m de profundidade e a de Kermadec, 10.047 m. Ao analisar a composição química dos anfípodas, Alan Jamieson, da Universidade de Newcastle, Inglaterra, e seus colaboradores detectaram níveis elevados de dois produtos químicos: os bifenilpoliclorados, compostos bastantes estáveis, tóxicos e pouco inflamáveis, usados por décadas em fluidos de refrigeração; e os éteres difenil-polibromados, empregados como retardador da propagação de chamas em tintas, tecidos e materiais da indústria automobilística e aeronáutica. Anfípodas da fossa de Marianas apresentavam concentrações desses poluentes ambientais mais elevadas do que as dos crustáceos de Kermadec e, em ambos os casos, superiores às de regiões costeiras consideradas limpas (Nature Ecology and Evolution, 13 de fevereiro). Entre os anfípodas de Marianas, o nível de bifenilpoliclorados foi 50 vezes superior ao registrado em caranguejos do rio Liaohe, um dos mais poluídos da China. Os dados, segundo o pesquisador, indicam que as águas profundas e superficiais são altamente conectadas. 
Revista FAPESP

quinta-feira, 27 de abril de 2017

O coração em chamas da África

Por Peter Gwin Fotos de Marcus Bleasdale

A República Centro-Africana é um dos países mais cheios de riquezas naturais do continente. Então, por que faliu?


foto: licumbiphotos.com.br

Um bairro da capital Bangui ainda fumega, em 2014, depois que milícias lideradas por cristãos atacaram rebeldes muçulmanos que depuseram o governo. Antes, as fés coexistiam em paz, mas, nos últimos quatro anos, o caos impera em grande parte do país.

Para chegar à casa do singular artista das borboletas, é preciso vencer um labirinto de casas de tijolo de barro perto do largo e pardacento Rio Oubangui. Quatro anos atrás, grupos rebeldes muçulmanos e milícias cristãs engalfinharam-se nessa área pelo controle de Bangui, a capital da República Centro-Africana. Hoje, o local fervilha com crianças esganiçadas jogando futebol e ambulantes tagarelas vendendo amendoim e ovos, abacate e manga, mel silvestre e pimenta em grão. Mas a violência ainda assola a cidade, e os moradores permanecem alertas para sons de tiros e helicópteros militares.

Philippe Andé vive alheio a isso tudo. Careca e franzino, ele se debruça sobre uma mesa coberta de asas de borboleta – uma constelação de cores eletrizantes, formas espetaculares e padrões exóticos. A República Centro-Africana é lar de 597 espécies identificadas, e não raro um passante se vê em meio a uma nuvem silenciosa dessas criaturas, como se entrasse numa revoada de confetes. Andé, que é agricultor, captura-as nas suas plantações e às vezes contrata meninos para coletá-las nos morros e nas margens do rio.

Com pinça, lâmina de barbear e cola vulcanizante, ele dispõe as asas finas como tecido para formar cenas radiantes da vida centro-africana, cada uma delas um vitral em miniatura. Um homem pesca um peixe verde sarapintado em um rio turquesa. Mulheres de vestidos laranja com bebês adormecidos presos às costas moem mandioca para fazer farinha. Um menino sobe numa árvore para apanhar cocos. E há campos cobertos de algodão, retratos de elefantes, gorilas, papagaios, antílopes, e até mesmo um diamante lapidado, a mais famosa exportação do país.

Essa é a República Centro-Africana que Andé escolhe ver quando fecha os olhos: o tempo anterior a 2013, ano em que a Seleka – uma aliança de grupos de maioria muçulmana – saqueou, estuprou, matou e incendiou, derrubou o governo corrupto dominado por cristãos e deflagrou uma guerra civil brutal, ainda fumegante, que matou milhares de pessoas, desalojou quase 1 milhão e provocou escassez de alimentos.

Para ser franco, as encantadoras imagens de Andé representam algumas das impressões idealizadas que eu também tenho da República Centro-Africana. O país chamou a minha atenção quando o vi realçado em um mapa conservacionista: uma ilha verde, do tamanho da França, contendo parte do que resta da natureza primeva da África. Descobri que vastos trechos das suas florestas permanecem desabitados e são férteis em vida selvagem. Sob essa exuberância, jaz uma profusão de recursos, entre eles diamantes, ouro, urânio e, possivelmente, petróleo. Parece razoável que um país tão esparsamente povoado – apenas 5 milhões de habitantes, em comparação com os 65 milhões da França – viesse a prosperar. Mas está fracassando. Por quê? Essa questão me perseguiu durante os três anos em que fiz várias reportagens sobre o que os moradores chamam de “a Crise”, a sua expressão para designar a guerra e o caos resultante......http://www.nationalgeographicbrasil.com

terça-feira, 28 de março de 2017

Como as raízes do Cerrado levam água a torneiras de todas as regiões do Brasil


João Fellet - @joaofellet

Direito de imagem Nelson Yoneda/ICMBio Image caption 
 
Plantas do cerrado atuam como uma imensa esponja, recarregando aquíferos que abastecem rios e reservatórios

O rio São Francisco está secando, haverá cada vez menos água em Brasília e a cidade de São Paulo terá de aprender a conviver com racionamentos.

O alerta é do arqueólogo e antropólogo baiano Altair Sales Barbosa, que há quase 50 anos estuda o papel do Cerrado na regulação de grandes rios da América do Sul.

Ele diz à BBC Brasil que a rápida destruição do bioma está golpeando um dos pilares do sistema: a gigantesca rede de raízes que atua como uma esponja, ajudando a recarregar os aquíferos que levam água a torneiras de todas as regiões do Brasil.

Formado em antropologia pela Universidade Católica do Chile, doutor em arqueologia pré-histórica pelo Museu de História Natural de Washington e professor aposentado da PUC-Goiás, Barbosa conta que a água que alimenta o São Francisco e as represas de São Paulo e Brasília vem de três grandes depósitos subterrâneos no Cerrado: os aquíferos Guarani, Urucuia e Bambuí.

Os aquíferos são reabastecidos pela chuva, mas dependem da vegetação para que a água chegue lá embaixo.

Barbosa afirma que muitas plantas do Cerrado têm só um terço de sua estrutura acima da superfície e, para sobreviver num ambiente com solo oligotrófico (pobre em nutrientes), desenvolveram raízes profundas e bastante ramificadas.

"Se você arrancar uma dessas plantas, vai contar milhares ou até milhões de raízes, e quando cortar uma raiz e levá-la ao microscópio, verá inúmeras outras minirraízes que se entrelaçam com as de outras plantas, formando uma espécie de esponja."

Esse complexo sistema radicular retém água e alimenta as plantas na estação seca. Graças a ele, as árvores do Cerrado não perdem as folhas mesmo nem mesmo no auge da estiagem - diferentemente do que ocorre entre as espécies do Semiárido, por exemplo.

Barbosa conta que, quando há excesso de água, as raízes agem como esponjas encharcadas, vertendo o líquido não absorvido para lençóis freáticos no fundo. Dos lençóis freáticos a água passa para os

O professor diz que essa dinâmica começou a ser afetada radicalmente nos anos 1970, com a expansão da pecuária e de grandes plantações de grãos e algodão pelo Cerrado.

A nova vegetação tem raízes curtas e não consegue transportar a água para o fundo.

Pior: entre a colheita e o replantio, as terras ficam nuas, fazendo com que a água da chuva evapore antes de penetrar o solo. Em alguns pontos do Cerrado, como no entorno de Brasília, o uso de água subterrânea para a irrigação prejudica ainda mais a recarga dos aquíferos.

Em fevereiro, Brasília começou a racionar água pela primeira vez na história - e meses antes do início da temporada seca.

Migração de nascentes

Conforme os aquíferos deixaram de ser plenamente recarregados, Barbosa diz que se acelerou na região um fenômeno conhecido como migração de nascentes.

Para explicar o processo, ele recorre à imagem de uma caixa d'água com vários furos. Quando diminui o nível da caixa d'água, o líquido deixa de jorrar dos furos superiores.

Com os aquíferos ocorre o mesmo: se o nível de água cai, nascentes em áreas mais elevadas secam. 
 
Direito de imagem ICMBio Image caption
 
Especialista afirma que, quando há excesso de água, as raízes agem como esponjas encharcadas

Ele diz ter presenciado o fenômeno num dos principais afluentes do São Francisco, o rio Grande, cuja nascente teria migrado quase 100 quilômetros a jusante desde 1970.

O mesmo se deu, segundo Barbosa, nos chapadões no oeste da Bahia e de Minas Gerais: com a retirada da cobertura vegetal, vários rios que vertiam água para o São Francisco e o Tocantins sumiram.

O professor diz que a perda de afluentes reduziu o fluxo dos rios e baixou o nível de reservatórios que abastecem cidades do Nordeste, Centro-Oeste e Norte.

Em 2017, segundo a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec), o número de municípios brasileiros em situação de emergência causada por longa estiagem chegou a 872, a maioria no Nordeste.

Já em São Paulo as chuvas de verão aumentaram os níveis das represas e afastaram no curto prazo o risco de racionamento. Mas Barbosa afirma que a maioria dos rios que cruza o Estado é alimentada pelo aquífero Guarani, cujo nível também vem baixando.

O aquífero abastece toda a Bacia do Paraná, que se estende do Mato Grosso ao Rio Grande do Sul, englobando ainda partes da Argentina, Paraguai e Uruguai.
 
Fotografia do passado

Bastaria então replantar o Cerrado para garantir a recarga dos aquíferos?

A solução não é tão simples, diz o professor. Ele conta que o Cerrado é o mais antigo dos biomas atuais do planeta, tendo se originado há pelo menos 40 milhões de anos.

Segundo ele, olhar para o Cerrado é como olhar para uma fotografia do passado. Direito de imagem 
 
Rubens Matsushita, ICMBio Image caption 
 
Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil aponta que 872 cidades ficaram em situação de emergência por causa da estiagem em 2017

"O Cerrado já atingiu seu clímax evolutivo e precisa, para o seu desenvolvimento, de uma série de fatores que já não existem mais."

Ele exemplifica: há plantas do Cerrado que só são polinizadas por um ou outro tipo de abelhas ou vespas nativas, várias das quais foram extintas pelo uso de agrotóxicos nas lavouras. Essas plantas poderão sobreviver, mas não serão mais capazes de se reproduzir.

O Cerrado também é uma espécie de museu porque muitas de suas plantas levam séculos para se desenvolver e desempenhar plenamente suas funções ecológicas. É o caso dos buritis, uma das árvores mais famosas do bioma, que costuma brotar em brejos e cursos d'água.

Barbosa costuma dizer que, quando Cabral chegou ao Brasil, os buritis que vemos hoje estavam nascendo.

Mesmo plantas de pequeno porte costumam crescer bem lentamente. O capim barba-de-bode, por exemplo, leva mais de mil anos para atingir sua maturidade. Barbosa diz ter medido as idades das espécies com processos de datação em laboratório.
Parceria com animais

Sabe-se hoje da existência de cerca de 13 mil tipos de plantas no Cerrado, número que o torna um dos biomas mais ricos do mundo. Dessas espécies, segundo o professor, não mais que 200 podem ser produzidas em viveiros.

Ele conta que a ciência ainda não consegue reproduzir em laboratório as complexas interações entre os elementos do bioma, moldadas desde a era Cenozoica.

Barbosa diz, por exemplo, que muitas plantas do Cerrado têm sementes que são ativadas apenas em situações bem específicas. Algumas delas só têm a dormência quebrada quando engolidas por certos mamíferos e expostas a substâncias presentes em seus intestinos.

Há ainda sementes que precisam do fogo para germinar. Contrariando o senso comum, Barbosa diz que incêndios naturais são essenciais para a sobrevivência do Cerrado e podem ocorrer de duas formas. 
 
Direito de imagem Marcelo Camargo, Agência Brasil Image caption 
 
O Cerrado tem hoje cerca de 13 mil tipos de plantas, número que o torna um dos biomas mais ricos do mundo

Uma delas se dá quando blocos de quartzo hialino, um tipo de cristal, agem como lentes que concentram a luz do sol, superaquecendo a vegetação.

A outra ocorre pela interação entre algumas plantas e animais do Cerrado, entre os quais a raposa, o lobo-guará, o tamanduá-bandeira e o cachorro-do-mato-vinagre.

Segundo Barbosa, esses mamíferos carregam no pelo uma carga eletromagnética que, em contato com gramíneas secas, provoca faíscas.

O professor diz que o fogo é necessário não só para ativar sementes, mas para permitir que gramíneas secas, que não têm qualquer função ecológica, sejam substituídas por plantas novas.

"Se a gramínea seca fica ali, não tem como rebrotar, então é preciso dessa lambida de fogo natural pra limpar aquele tufo."

Os incêndios também são importantes, segundo ele, para que o solo do Cerrado continue pobre - afinal, foi nesse solo que o bioma se desenvolveu.

"O fogo é paradigma para quem pensa na preservação. Se você pensa como agrônomo, o fogo é nocivo, porque acentua o oligotrofismo do solo."
Estancar os danos

Quando deixa de haver incêndios naturais, os animais e insetos nativos desaparecem e as plantas do Cerrado são derrubadas, é quase impossível reverter o estrago, diz Barbosa.

Mesmo assim, ele defende preservar toda a vegetação remanescente para estancar os danos.

Barbosa diz torcer para que, um dia, a ciência encontre formas de recuperar o bioma. 
 
Direito de imagem Sedec/MT Image caption 
 
Especialista diz que incêndios naturais são essenciais para a sobrevivência do Cerrado

"Claro que você não vai reocupar toda a área que está produzindo [alimentos], mas você pode pelo menos tentar amenizar a situação nas áreas de recarga de aquíferos."

Sua preocupação maior é com a fronteira agrícola conhecida como Matopiba, que engloba os últimos trechos de Cerrado no Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Nos últimos anos, a região tem experimentado uma forte expansão na produção de grãos e fibras.

"Se esse projeto continuar avançando, será o fim: aí podemos desacreditar qualquer possibilidade, porque não teremos nem matriz para experiências em laboratório."

Nesse cenário, diz Barbosa, os aquíferos do Cerrado rapidamente se esgotarão.

"Os rios vão desaparecer e, consequentemente, vai desaparecer toda a atividade humana da região, a começar das atividades agropastoris."

"Teremos uma convulsão social", ele prevê.
BBC BRASIL

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