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terça-feira, 26 de julho de 2022

Como os Emirados Árabes dizem fazer chover no deserto

 



Como os Emirados Árabes dizem fazer chover no deserto
Chuva é algo raro nos Emirados Árabes Unidos, mas um programa multimilionário de semeadura de nuvens tenta aumentar no país a precipitação, por exemplo, em áreas agrícolas. Críticos dizem que método é pouco científico.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Vítimas da guerra, 1,5 milhão de crianças passam fome no Iêmen


A guerra no Iêmen está aproximando o país de uma possível epidemia de fome.

No ano passado, o governo do país foi derrubado por rebeldes.

Mais de 3,5 mil pessoas morreram no conflito.

A correspondente Nawal al-Maghafi, do serviço árabe da BBC, foi a uma área onde as grandes organizações de ajuda humanitária não podem operar devido à falta de segurança.

Ali ela encontrou a médica Ashwaq Muharram.

Há 20 anos na profissão, Ashwaq diz não ter presenciado nada parecido na história do país.

"Eu tenho visto a mesma coisa que costumava ver na TV quando a fome tomou conta da Somália", diz ela. "Nunca pensei que um dia fosse ver isso no Iêmen", acrescentou.

Por anos, Ashwaq trabalhou para organizações de ajuda internacional, mas a maioria delas deixou o país quando a guerra começou, em março de 2015 ─ e aquelas que ficaram, reduziram bastante suas atividades.

Agora ela tem distribuído remédios e comida com dinheiro de seu próprio bolso, usando seu carro como uma clínica móvel.

Com o carro carregado de remédios, ela dirigiu com a BBC até Beit al-Faqih, 100km a sudeste de Hudaydah.

Outrora próspera, a vila se sustentava com a venda de bananas e mangas ao exterior, mas as exportações cessaram e a maioria dos trabalhadores perdeu o emprego.

As frutas acabaram se tornando caras demais para qualquer pessoa que vive no Iêmen.

É nesse local que conhecemos uma mãe e seu filho, Adbulrahman. A criança tem intolerância à lactose e a doença vem afetando seu crescimento.

"Quantos anos ele tem?", pergunto. "18 meses", responde ela. "Ele já deveria estar andando e falando agora", lamenta. E, imediatamente, cai em lágrimas.

Abdulrahman precisa de um tipo especial de leite que não está disponível no Iêmen desde a destruição do porto de Hudaydah e o início do boicote.

Ashwaq diz à mãe que irá ajudá-la ─ antes de perceber que essa era uma promessa que talvez nem ela seria capaz de cumprir.

Ela sabe que o menino pode morrer sem o leite, mas também tem consciência de que será um desafio enorme encontrar o produto.
Drama pessoal

"Eu mesma já procurei por esse tipo de leite antes e realmente não há lugar que tenha", diz.

Sua própria família enfrentou problemas similares. Depois que a guerra começou, o marido ficou doente: contraiu uma infecção no coração e precisava urgentemente de remédio.

"Eu corri até o principal hospital cardíaco de Sanaa, mas como médica sabia o que eles estavam prestes a me dizer: que estavam sem estoque de remédio e que não poderiam fazer nada para ajudar", conta.

"Sou médica, meu marido estava morrendo na minha frente e não havia nada que pudesse fazer", acrescenta Ashwaq, em lágrimas.

O marido conseguiu ir embora para a Jordânia, levando os dois filhos do casal para viver em um local mais seguro. Eles já não vão mais para a escola.

"Os ricos agora são a classe média, a classe média é agora parte dos pobres e os pobres agora estão morrendo de fome", explica Ashwaq.
Mortos de fome

Viajando com ela, de uma vila para outra, a reportagem da BBC encontrou diariamente crianças morrendo de fome.

Ao mesmo tempo, está ficando mais difícil para que elas consigam tratamento no país. Boa parte dos hospitais do Iêmen teve de fechar, seja por causa das bombas ou pela falta de medicamentos.

A ala infantil do hospital central de Al Hudaydah está tão lotada que há duas ou três crianças em cada leito.

Ali a BBC conheceu Shuaib, 4 anos. O avô dele tomou emprestado dinheiro de vizinhos para ir ao hospital, em busca de tratamento para a febre e diarreia do menino.

Mas escutou dos médicos que não havia nada que eles pudessem fazer. "Nenhum dos antibióticos que temos aqui tratam o tipo de bactéria que ele tem", disse o administrador do hospital.

O corpo de Shuaib vai ficando mais frio a cada minuto, e seu avô aperta sua mão e chora.

Uma hora depois, Shuaib está morto. Seu avô chorava silenciosamente, cobrindo seu pequeno corpo com seu cachecol e o levando para a mãe do menino.
'Boas notícias'

No dia seguinte, Ashwaq finalmente recebe boas notícias. Um amigo havia conseguido uma forma, a um alto custo, de obter o leite que salvaria a vida de Abdulrahman.

Assistindo a todo esse desespero por duas semanas, é incrível poder ver pelo menos um final feliz. Abdulrahman pega a garrafa de leite e bebe até a última gota ─ enquanto sua mãe, chorando, só sabe agradecer.

"Você trouxe felicidade para a minha casa", diz ela à médica, abraçando-a.

Apesar de Ashwaq ter conseguido salvar a vida de uma criança, outras milhões estão passando fome no Iêmen. Especialistas acreditam que, se algo não for feito agora, o país pode perder uma geração inteira de pessoas.
Estado de sítio

O Iêmen está em estado de sítio. Dois anos atrás, rebeldes houthis e seus aliados ─ uma facção armada leal ao antigo presidente Ali Abdullah Saleh ─ tomaram o controle da maior parte do país, incluindo a capital Sanaa.

O então governo foi forçado a fugir. A Arábia Saudita diz que foi chamada a intervir a pedido da própria liderança local.

Por 18 meses, uma coalizão liderada pelo país, apoiada pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido, luta contra os rebeldes. Uma guerra que não tem previsão para terminar
BBC Brasil

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Cinco pontos para entender o Estado Islâmico, grupo que aterroriza Iraque e Síria

O grupo Estado Islâmico, antes chamado de Estado Islâmico no Iraque e na Síria (Isis), intensificou sua campanha de violência no Norte e Oeste do Iraqueem junho desse ano, quando conseguiu assumir o controle de Mossul, a segunda maior cidade do país. Desde então, os extremistas colecionam algumas conquistas importantes, como a tomada de vastos territórios iraquianos, a obtenção de armamento do Exército, e o controle de infraestruturas estratégicas. Diante disso, a organização é considerada uma ameaça não só ao país, mas também a outras áreas do Oriente Médio.



Surgimento

O Estado Islâmico no Iraque e na Síria (Isis) foi criado em 2013 e cresceu como um braço da organização terrorista al-Qaeda no Iraque. No entanto, no início deste ano, os dois grupos romperam os laços. No final de junho, os extremistas declararam um califado, mudaram de nome para o Estado Islâmico (EI) e anunciaram que iriam impor o monopólio de seu domínio pela força. O EI é hoje um dos principais grupos jihadistas, e analistas o consideram um dos mais perigosos do mundo.


Áreas de atuação

As atividades do EI se concentram no Iraque e na Síria, onde o grupo assumiu um papel dominante e possui forte presença. O recente controle de vastos territórios no Norte e Oeste do Iraque, além das áreas dominadas pelos curdos, ajudaria o grupo islâmico a consolidar seu domínio ao longo da fronteira com a Síria, onde luta contra o regime de Bashar al-Assad.


Liderança

Seu principal líder é Abu Bakr al-Baghdadi, apontado como um comandante de campo e tático e designado "califa de todos os muçulmanos". Aparentemente, ele se juntou à insurgência em 2003, logo após a invasão doIraque, liderada pelos Estados Unidos. Diante dos avanços do Estado Islâmico, ele pode em breve se tornar o jihadistamais influente do mundo.


Combatentes ocidentais

O Estado Islâmico conta com um vasto grupo de extremistas: entre 3 mil e 5 mil milicianos, muitos deles estrangeiros. Vídeos divulgados pelo grupo jihadista mostram britânicos que aderiam à causa islâmica e à luta armada. Os governos ocidentais temem que esses insurgentes possam voltar para seus países representando uma ameaça.


Ações cruéis

Nos conflitos nos quais participou, o grupo foi acusado de diversas atrocidades, como sequestros, assassinato de civis e torturas. A milícia é considerada extremamente agressiva e eficiente em combate. Após a tomada de Mossul, os EUA afirmaram que a queda da segunda maior cidade do Iraquerepresentava uma ameaça para toda a região. O avanço dos jihadistas levou os EUA a bombardearem alvos rebeldes.

Jornal O Globo

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Notícias Geografia Hoje

Mulheres que dirigiram na Arábia Saudita serão julgadas em corte antiterror, dizem ativistas

Foto de vídeo divulgado por Loujain al-Hathloul mostra ela dirigindo dos Emirados Árabes Unidos até a fronteira com a Arábia Saudita

Duas sauditas detidas por infringirem uma proibição para que mulheres dirijam no país serão julgadas em um tribunal antiterrorismo, disseram ativistas.

Loujain al-Hathloul, de 25 anos, e Maysa al-Alamoudi, 33, estão detidas há quase um mês. Os casos teriam sido transferidos devido a comentários que elas fizeram nas redes sociais e não por estarem dirigindo, segundo os ativistas.

Loujain foi presa em 1º de dezembro após ter tentado entrar no país dirigindo, vinda dos Emirados Árabes Unidos, segundo a agência de notícias AFP.

Maysa, uma jornalista saudita baseada nos Emirados Árabes Unidos, também foi presa quando chegou à fronteira para ajudar Loujain, disse a agência.

As duas mulheres têm um grande número de seguidores no Twitter. Loujain escreveu uma mensagem sobre sua longa espera na fronteira saudita ao tentar entrar no país.

A Arábia Saudita é o único país do mundo onde mulheres são impedidas de dirigir. Apesar de não ser tecnicamente ilegal que elas dirijam, apenas homens recebem carteiras de habilitação – e mulheres que dirigem correm o risco de serem multadas e detidas pela polícia.

Sob as leis sauditas, as mulheres devem ficar no banco de passageiros

Sauditas lançaram uma série de campanhas – inclusive nas redes sociais – exigindo um relaxamento das restrições.

Uma ativista e escritora saudita, Hala al-Dosari, disse à BBC que a transferência dos casos das mulheres era vista como "uma continuação dos esforços das autoridades da reprimir a oposição". "Este não é um caso isolado", disse ela.

Na quinta-feira, um tribunal em al-Ahsa, no leste do país, decidiu que as mulheres deveriam ser julgadas em uma corte especializada em Riad, criada para lidar com casos de terrorismo.

Ativistas dizem que advogados das mulheres planejam recorrer da decisão.
BBC Brasil

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Cinco pontos para entender o impasse sobre o programa nuclear do Irã


O Irã diz que seu PROGRAMA é pacífico, para a produção de energia, e rejeita as acusações de que o objetivo é a construção de armas nucleares

O governo americano sugeriu ao Irã que seja estendido o prazo FINAL (esta segunda-feira) para que se chegue a um acordo sobre o polêmico PROGRAMA nuclear de Teerã.

Diplomatas americanos disseram que o secretário de Estado do país, John Kerry, fez essa proposta ao chanceler iraniano, Mohammad Javad Zarif, durante reuniões em Viena, onde ocorrem as negociações com potências ocidentais.

Os ESTADOS UNIDOS negaram uma afirmação feita por diplomatas iranianos de que um acordo parcial estava próximo de ser fechado.

França, Grã-Bretanha, ESTADOS UNIDOS e outras potências pretendem coibir o PROGRAMA nuclear iraniano e, em contrapartida, oferecem a redução das sanções internacionais que recaem sobre o país.

Obama afirmou estar confiante de que se for fechado um acordo sobre a capacidade nuclear do Irã, ele consegue persuadir o Congresso e o público americano a aceitá-lo.

O Irã diz que seu programa é pacífico, para a produção de energia, e rejeita as acusações de que o objetivo é a construção de armas nucleares.

Veja abaixo os pontos principais da crise com o país, que já dura quase 10 anos.

Quais as razões da crise?

O ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad recusou-se a interromper o PROGRAMA nuclear iraniano

As potências mundiais suspeitam que o Irã não tem sido honesto sobre seu PROGRAMA nuclear e trabalha para adquirir a capacidade de construir umabomba nuclear.

O Irã afirma que tem o direito à energia nuclear - e garante que o seu PROGRAMA é apenas para fins pacíficos.

Por que a crise se arrasta há tanto tempo?

Sanções CONTRA o Irã têm afetado duramente a economia do país

O PROGRAMA nuclear do Irã veio a público em 2002, quando um grupo de oposição revelou atividades até então secretas, incluindo a construção de uma usina de enriquecimento de urânio em Natanz e um reator de água pesada em Arak. O urânio enriquecido pode ser usado para fabricar armas nucleares, e o combustível de um reator de água pesada contém plutônio apropriado para uma bomba.

Posteriormente, o governo iraniano concordou em inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão da ONU responsável pela vigilância nuclear.

Mas a agência não conseguiu confirmar as afirmações do Irã de que seu PROGRAMA nuclear é exclusivamente para fins pacíficos e de que não tem COMO objetivo desenvolver armas nucleares.

Isso levou os EUA e seus aliados europeus a pressionarem o Irã a suspender o enriquecimento de urânio - que pode ser usado tanto para fins civis como para construir bombas nucleares.

No entanto, a eleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, em 2005, interrompeu qualquer avanço nas negociações, e a AIEA levou o Irã ao Conselho de Segurança da ONU, por descumprir o Tratado de Não Proliferação Nuclear.

Clima mudou após a eleição de Hassan Rouhani COMO presidente do Irã, em junho de 2013

Desde então, o Conselho de Segurança adotou seis resoluções que exigem que o Irã suspenda o enriquecimento de urânio. Algumas delas impuseram sanções.

Em 2012, os EUA e a União Europeia começaram a impor sanções adicionais às exportações de petróleo e bancos iranianos, um duro golpe à economia LOCAL.

Apesar disso, o Irã continuou a enriquecer urânio. Em 2009, o país revelou a existência de uma nova instalação subterrânea em Fordo.

Houve várias rodadas de negociações entre o Irã e o chamado P5+1, grupo que reúne os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU - EUA, Reino Unido, França, CHINA, Rússia - e a Alemanha.

Por anos não houve avanço. Mas o cinco meses depois, após conversas bilaterais secretas entre EUA e Irã, negociadores acertaram um acordo interino.

Qual foi o acordo?

Estudantes iranianos realizam ato em Teerã a favor do PROGRAMA nuclear do país

Sob o Plano de Ação Conjunta, que entrou em vigor em janeiro de 2014, o Irã efetivamente concordou em congelar sua produção de urânio enriquecido com pureza acima de 5% e comprometeu-se a diluir ou CONVERTER em óxido seu estoque de urânio enriquecido a quase 20%.

O Irã disse que não iria INSTALAR novas centrífugas de urânio ou construir novas instalações de enriquecimento. O país também concordou em não alimentar o reator em Arak e não construir uma instalação para reprocessamento de combustível.

Enquanto a maior PARTE das sanções internacionais - incluindo medidas que atingem os setores de petróleo, bancário e financeiro do Irã - foi mantida, o P5+1 concordou que o Irã repatriasse cerca de US$ 4,2 bilhões em receitas de vendas de petróleo congeladas em contas externas.

As vendas de produtos petroquímicos, negociações em ouro e outros metais preciosos e transações com empresas estrangeiras envolvidas da indústria automotiva iraniana tiveram autorização para serem retomadas. A expectativa era de que essas medidas gerassem receitas de US$ 1,5 bilhão.

O Irã também recebeu acesso a US$ 400 milhões em dinheiro para pagar a mensalidade de iranianos estudando no exterior, COMPRAR peças de reposição para aviões civis e alimentos e remédios de ajuda humanitária.

domingo, 9 de novembro de 2014

Por que as negociações no Oriente Médio sempre falham?

As negociações entre Israel e Palestina não chegaram a nenhum resultado. Os próprios emissários norte-americanos ficaram surpresos com a intransigência de Netanyahu; por ora, isso não coloca em questão o apoio de Washington a Tel-Aviv.
por Alain Gresh

As negociações deveriam ter começado com a decisão de interromper a construção dos assentamentos. Mas achamos que isso não seria possível, por causa da composição do governo israelense, então abrimos mão.” Entrevistada pelo famoso jornalista Nahum Barnea, do jornal israelense Yediot Ahronot, em uma reportagem1 sobre o fracasso das negociações entre israelenses e palestinos, a autoridade norte-americana, que prefere o anonimato, continuou: “Não percebemos que [o primeiro-ministro Benjamin] Netanyahuutilizava as licitações de construção nos assentamentos para garantir a sobrevivência de seu próprio governo. Também não percebemos que o prosseguimento das construções permitia que ministros sabotassem de maneira muito eficaz o sucesso das negociações. [...] Somente agora, com o fracasso das negociações, entendemos que essas construções [14 mil moradias] significavam a expropriação de terras em grande escala”.

Os norte-americanos “não sabiam”

À pergunta “vocês ficaram surpresos quando descobriram que os israelenses não estavam realmente interessados nas negociações?”, o oficial da administração Obama respondeu: “Sim, ficamos surpresos. Quando Moshe Yaalon, seu ministro da Defesa, declarou que a única coisa que [o secretário de Estado norte-americano] John Kerry queria era ganhar o Prêmio Nobel, foi um grande insulto, afinal, estávamos fazendo tudo aquilo por vocês”.

Embora todas as fontes de Barnea sejam anônimas, sabemos que o autor teve acesso a todas as autoridades norte-americanas, inclusive Martin Indyk, encarregado pelo presidente Barack Obama de supervisionar as negociações entre israelenses e palestinos. O argumento principal resume-se a três palavras: “Nós [os norte-americanos] não sabíamos”. Não sabiam o que significavam os assentamentos; não sabiam que o governo israelense não estava interessado nas negociações.

É possível acreditar nisso? Os Estados Unidos, principais aliados de Israel, envolvidos no “processo de paz” há quatro décadas, “não sabiam”? Como acreditar que o secretário de Estado John Kerry atravessou oceanos dezenas de vezes, conduziu centenas de horas de negociações, conversas telefônicas e videoconferências, realizou inúmeros encontroscom a maioria dos líderes da região, em detrimento de outras questões internacionais – em uma palavra, como acreditar que ele dedicou tanta energia à resolução desse conflito para “só agora perceber” que as negociações não interessavam aos israelenses? Já faz mais de uma década que o “processo de Oslo” está morto e enterrado debaixo dos assentamentos. Desde 1993, mais de 350 mil colonos instalaram-se na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. E Washington ainda não entendeu?

O que se passa na cabeça de John Kerry? Por que insistir tanto no fracasso? Ele realmente “não sabia”? Na verdade, Kerry, o presidente Obama e todos os seus antecessores abraçaram com tamanha adesão o ponto de vista de Israel que já não conseguiam enxergar a realidade, não compreendiam o ponto de vista dos palestinos. Saeb Erekat, chefe dos negociadores palestinos, disse aos israelenses: “Vocês não nos veem, somos invisíveis”. Essa observação aplica-se perfeitamente aos Estados Unidos.2Para eles, assim como para os israelenses, vale um velho princípio: “O que é meu é meu; o que é seu, podemos negociar”. As terras conquistadas em 1967 são “territórios em disputa”, e todos os direitos dos palestinos são negociáveis, sejam eles sobre Jerusalém Oriental, os assentamentos, a segurança, os refugiados, a água etc. Todas as concessões devem ser feitas pelos ocupados, não pelos ocupantes. Israel pode bradar aos quatro ventos, quando aceita entregar 40% da Cisjordânia, que isso é uma concessão dolorosa, que coloca em questão a segurança, os direitos do “povo judeu” à Erez Israel (terra de Israel) etc.

Essa posição serve para o governo de Israel acumular obstáculos, reivindicando uma concessão após outra, sem que nenhuma seja suficiente. Se os palestinos reconheceram o Estado de Israel – e a recíproca não é verdadeira –, então é preciso exigir-lhes o reconhecimento de seu caráter judeu, coisa jamais exigida nem do Egito, nem da Jordânia,3 nem dos palestinos na época do primeiro mandato de Netanyahu (1996-1999).

Desta vez, no entanto, uma intransigência tão arrogante suscitou o mau humor das autoridades norte-americanas, que estourou certas vezes. Algumas delas, inclusive o presidente Obama, lembraram o fato de que não há alternativa para esses dois Estados, a não ser um Estado único no território histórico da Palestina. O próprio Kerry alertou contra um sistema de “apartheid” – embora tenha logo se retratado.4

Em um primeiro momento, os Estados Unidos revelaram-se satisfeitos com o andamento das negociações. Iniciadas em julho de 2013, elas deveriam durar nove meses, e a Autoridade Palestina fez várias concessões relativas à legalidade internacional: desmilitarização do futuro Estado palestino; presença militar israelense na Jordânia por cinco anos, substituída então pela dos Estados Unidos; PASSAGEM dos assentamentos de Jerusalém para a soberania israelense; troca de territórios permitindo que 80% dos colonos da Cisjordânia sejam integrados ao Estado de Israel. Por fim, o retorno dos refugiados seria condicionado a um acordo com Israel.5 Nenhum dirigente palestino foi tão longe como Abbas nas concessões, e é pouco provável que, no futuro, outro as aceite.

A todos esses avanços (ou retrocessos, dependendo do ponto de vista), Israel respondeu com um retumbante “não!”. Como relata umas das fontes norte-americanas de Nahum Barnea: “Israel apresentou suas necessidades de segurança na Cisjordânia. Pediu o controle total dos territórios [os norte-americanos nunca dizem ‘ocupados’, apesar da Resolução n. 242 do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), de novembro de 1967]. Isso significou, para os palestinos, [...] que Israel continuaria a controlar a Cisjordânia para sempre”. No entanto, a cooperação de segurança entre Israel e a Autoridade Palestina nunca foi tão estreita, a segurança dos israelenses tão garantida – à custa, é preciso lembrar, da dos palestinos, que estão enjaulados pelo recorte dos territórios, humilhados pelos controles incessantes e regularmente realizados na Cisjordânia e em Gaza. Em 2013, 36 palestinos foram mortos, três vezes mais que no ano anterior, de acordo com a organização de defesa dos direitos humanos B’Tselem.

Retaliação alemã

Algumas semanas antes do prazo de 29 de abril, ficou claro que Netanyahu estava apenas tentando ganhar tempo. Primeiro ele quebrou a promessa de libertar o quarto grupo de prisioneiros palestinos presos desde antes de 1993. A Autoridade Palestina respondeu ratificando uma série de tratados internacionais – especialmente as Convenções de Genebra, que regulamentam as obrigações das potências ocupantes e que o governo israelense alegremente viola desde 1967. Mas absteve-se, por enquanto, de ratificar a convenção do Tribunal Penal Internacional (TPI), que permitiria processar os líderes israelenses por crimes de guerra e contra a humanidade. Para o TPI, a instalação de assentamentos em território ocupado é crime de guerra.

Quando o governo israelense confirmou sua determinação em prolongar o controle da Cisjordânia “para todo o sempre” (Bíblia, Livro de Daniel, 7-18), o presidente Mahmud Abbas, impopular e fortemente contestado dentro do Fatah, decidiu que havia chegado a hora de acabar com a divisão que, desde 2007, enfraquecia a causa palestina. As condições estavam maduras para ambos os lados. O próprio Hamas – enfraquecido pelo bloqueio conjunto de Israel e das novas autoridades egípcias, bem como pela violenta campanha antipalestina orquestrada pelo Egito, e internamente contestado por organizações mais radicais, sobretudo a Jihad Islâmica e grupos que reivindicam lealdade à Al-Qaeda – concordou com a ideia.

No dia 23 de abril, foi assinado um acordo para a criação de um governo de “técnicos”, presidido por Abbas, e para a realização de eleições legislativas e presidenciais em um prazo de seis meses. A Organização para a Libertação da Palestina (OLP) também deveria realizar eleições internas e integrar o Hamas, que nunca foi seu membro. Esse acordo repete aquele assinado no Cairo, em 2011, e confirmado em Doha, em 2012, porém nunca colocado em prática. Embora tal acordo não tenha despertado a indignação dos Estados Unidos e tenha sido saudado pela União Europeia, Israel usou-o como pretexto para romper negociações que, de qualquer forma, já estavam em um impasse. “Abbas deve escolher entre a paz com Israel e a reconciliação com o Hamas”,6 declarou Netanyahu, que, meses antes, questionara a “representatividade” de Abbas por controlar apenas Gaza... O líder respondeu que o futuro governo seria composto por tecnocratas e independentes: “Os israelenses perguntam: esse governo reconhece Israel? Eu respondo: claro que sim. E renuncia ao terrorismo? Claro que sim. E reconhece a legitimidade internacional? Claro que sim”.7

Poderíamos fazer essas mesmas perguntas a Netanyahu e sua coalizão governamental, e aos partidos de caráter fascista que dela participam, como o Lar Judaico, de Naftalli Bennett, com seus doze deputados (de um total de 120).8 Eles reconhecem um Estado palestino independente dentro das fronteiras de 1967? Reconhecem as resoluções da ONU? Claro que não.

No entanto, a interrupção prolongada das negociações aborrece Washington e Tel-Aviv: “Há uma ameaça muito real e imediata para Israel se ele tentar impor sanções econômicas aos palestinos”, explica uma autoridade norte-americana a Nahum Barnea. “Isso pode ter um efeito bumerangue. [...] Pode levar ao desmantelamento da Autoridade Palestina, e os soldados israelenses teriam de administrar a vida de 2,5 milhões de palestinos, para grande desespero de suas mães. Os países doadores deixariam de pagar, e a conta de US$ 3 bilhões teria de ser paga pelo seu ministro das Finanças.”9

Enquanto durar o suposto “processo de paz”, o pedido de sanções contra Israel e o boicote ao país são menos críveis. Não é coincidência que o governo da Alemanha tenha decidido, com a suspensão das negociações, não subsidiar a compra israelense de submarinos nucleares alemães, o que custará centenas de milhões de dólares ao contribuinte israelense.10 E a União Europeia poderá, depois de muito adiamento e complacência em relação a Israel, impor sanções.

Uma coisa não vai mudar: quaisquer que sejam as violações do direito internacional cometidas, os Estados Unidos ficarão firmes ao lado de Israel. Como explicou Indyk recentemente: “As relações entre Israel e Estados Unidos mudaram de maneira fundamental [desde a guerra de outubro de 1973]. Só quem conhece a situação por dentro – como eu tenho o privilégio de conhecer – sabe quão fortes e profundos são os laços que unem nossas duas nações. Quando o presidente Obama fala, com orgulho justificável, em laços ‘inquebráveis’, ele fala sério e sabe do que está falando”.11 E Indyk completa que, ao contrário do que ocorreu após a guerra de outubro de 1973, quando o secretário de Estado Henry Kissinger negociou um acordo entre Israel, de um lado, e Síria e Egito, de outro, Obama jamais suspenderia as relações militares com Tel-Aviv, como fez o presidente Richard Nixon.

Amanhã veremos o Estado palestino, sempre amanhã – assim se pode resumir o discurso norte-americano.12 Devemos aceitar que os Estados Unidos não conseguirão sozinhos e sem pressão a paz no Oriente Médio. Serão necessárias medidas fortes de sanção dos Estados contra Israel e boicote da sociedade civil, para que, enfim, os palestinos possam celebrar “o próximo ano em Jerusalém”. 
Alain Gresh é jornalista, do coletivo de redação de Le Monde Diplomatique (edição francesa).
Ilustração: João Montanaro
1 Nahum Barnea, “Inside the talks’ failure: US officials open up” [Por dentro do fracasso das negociações: autoridades norte-americanas abrem o jogo], 2 maio 2014. Disponível em: .
2 Citado por Martin Indyk, “The pursuit of Middle East peace: a status report” [A busca pela paz no Oriente Médio: relatório de situação], Washington Institute for Near East Policy, Washington, 8 maio 2014.
3 Sylvain Cypel, “L’impossible définition de l’‘État juif’” [A impossível definição do “Estado judeu”], OrientXXI.info, 5 maio 2014.
4 “John Kerry dément d’avoir qualifié Israël d’État d’apartheid” [John Kerry nega ter chamado Israel de Estado de apartheid], Lemonde.fr, 29 abr. 2014.
5 Ler Charles Enderlin, “Les Américains rejettent la responsabilité de l’échec sur Israël” [Norte-americanos rejeitam a responsabilidade pelo fracasso a Israel], Blog Geópolis, 3 maio 2014.
6 Herb Keinon, “Netanyahu: Abbas must choose, peace with Israel or reconciliation with Hamas” [Netanyahu: Abbas deve escolher entre a paz com Israel e a reconciliação com o Hamas], JPost.com, 23 abr. 2014.
7 Entrevista para rede de televisão via satélite palestina, 8 maio 2014, transmitida pela BBC Monitoring, Londres, 10 maio 2014.
8 Ler Yossi Gurvitz, “Israël aussi…” [Israel também...], Manière de Voir, n.134, abr./maio 2014.
9 Citado por Nahum Barnea, op. cit.
10 Barak Ravid, “Germany nixes gunboat subsidy to Israel, citing breakdown of peace talks” [Alemanha nega subsídio para compra de embarcações militares a Israel, citando fracasso das negociações de paz], Haaretz, Tel-Aviv, 15 maio 2014.
11 Martin Indyk, op. cit.
12 Ler “Demain l’État palestinien, toujours demain” [Amanhã veremos o Estado palestino, sempre amanhã], Le Monde Diplomatique, out. 2011.
Le Monde Diplomatique Brasil

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O Iraque desmancha-se


Em Al Kasar, desde o avanço do EIIL, cerca de 1 milhão de civis estão refugiados

A destruição de um Estado 
e as ameaças às fronteiras na região

Edilson Adão Cândido da Silva*
O Oriente Médio atravessou o século XX como o mais importante e instável conjunto geopolítico do globo e adentrou o XXI na mesma condição. Ora de forma mais intensa, ora mais branda, a verdade é que a região não sai do noticiário. O assunto da vez é a crise síria e as reais possibilidades de desconstrução das fronteiras iraquianas.

As capitais Damasco e Bagdá foram sedes de dois dos mais importantes califados, após a morte do profeta Maomé desde o século VII. Do esplendor do passado ao caos do presente, Síria e Iraque são, inegavelmente, países centrais no contexto geopolítico da região. E vêm de lá, no momento, as maiores preocupações.

No caso do Iraque, a crise contemporânea está indissociavelmente ligada às trapalhadas do ex-presidente norte-americano George W. Bush (2001-2009) e seus falcões naquele país desde 2003. Até então, o Iraque vivia sob um governo tirano. Mas daí, destruir um Estado e substituí-lo pelo caos, vai uma longa distância.
Saddam Hussein era um déspota, mas não um terrorista. Ao contrário, enquanto viveu combateu o terrorismo e impediu sua entrada no Iraque. Era inimigo declarado de Bin Laden.

Em artigo publicado na edição de maio de 2013 em Carta na Escola, afirmo que o Iraque tornara-se o pior lugar do mundo para se viver. A suposta “Guerra ao Terror”, implícita na cartilha geopolítica da doutrina Bush, fez do antigo reino da Babilônia um abrigo de terroristas, das mais variadas partes do mundo.

Vejamos o que afirmou George W. Bush, em setembro de 2002, em um documento enviado ao Congresso americano: “Atualmente, os Estados Unidos gozam de uma posição de incomparável força militar e grande influência política e econômica. Coerentes com nossas tradições e nossos princípios, não usamos de força para pressionar em favor de vantagens unilaterais”.

Contudo, o que se viu foi exatamente o contrário. Os EUA usaram a força e atacaram o Iraque com o único propósito de tirar vantagens unilaterais. O argumento das tais armas de destruição em massa foi um engodo. Era improvável que o país as possuísse, pois estava à míngua diante dos embargos desde 1991: não havia a menor possibilidade técnica para se produzirem tais armas. Como se sabe, os estadunidenses atacaram o Iraque sem o aval do Conselho de Segurança da ONU, já que a França antecipara seu veto a uma resolução para esse fim. Muitos analistas entendem ser esse episódio o maior golpe sofrido pela entidade desde sua criação, em 1945.

Contudo, os EUA não conseguiram levar adiante o projeto de transformar o Iraque em um país aliado das empresas petrolíferas do Ocidente. Em 2003, a Halliburton, uma das maiores prestadoras de serviços no setor do mundo e que fora presidida pelo vice de Bush, Dick Cheney, entre 1995 e 2000, ganhou generosos contratos para a reconstrução do Iraque. Mas não teve êxito.

O cenário atual
O Iraque tem um frágil governo constituído, mas que não é reconhecido por todos os grupos que habitam o país. O primeiro-ministro Nouri al-Maliki é aceito pela maioria xiita (perto de 55% da população), mas tem a objeção dos árabes e curdos-sunitas. Nos últimos tempos, Al-Maliki aproximou-se demais de Teerã para desconforto da Casa Branca, que agora cogita distanciar-se de seu ex-pupilo. A instabilidade no Iraque e, posteriormente, na Síria produziu o surgimento do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) que, unilateralmente, anunciou a criação do Estado Islâmico (EI), um Estado fundamentalista que se estenderia de Aleppo, na Síria, a Diyala, no Iraque. O líder desse pretenso novo califado do século XXI é Abu Bakr Baghdadi. Os métodos do grupo lembram em muito a ordem dos assassínios, seita ismaelita do século XI, cuja violência das ações não hesitava em executar friamente os inimigos após inalarem o haxixe, originando, inclusive, a palavra assassino. Ou, numa comparação mais recente, o Grupo Islâmico Armado (GIA) que produziu horrores no interior da Argélia nos anos 1990. O EIIL vem aterrorizando as comunidades do deserto iraquiano e sírio, próximos ao Vale do Eufrates, mas também em Mosul, ao norte, segunda maior cidade do Iraque. Aos olhos do Ocidente, trata-se de ameaça maior que Teerã. Para desconforto dos EUA, quem pode deter o EIIL são exatamente dois regimes hostis aos seus interesses: o de Bashar al-Assad e de Ali Khamenei. A temida conexão Damasco-Teerã, talvez seja agora uma necessidade.

Os fatos recentes na Síria e no Iraque têm origens diversas. Na Síria, a tensão que ora se verifica é fruto das manifestações que varreram o mundo árabe desde dezembro de 2010, enquanto o tenso caldeirão que se tornou o Iraque resulta da intervenção anglo-americana em 2003. Isso, claro, considerando um recorte histórico recente.

A instabilidade e a forte tensão que atualmente vigoram têm uma matriz sectária que, por meio do totalitarismo da era Saddam, estava sob controle. O Iraque era uma espécie de “ditadura plurinacional”, em que os sunitas detinham o poder e a maioria xiita e os curdos eram reprimidos. Os árabes sunitas nunca foram maioria no Iraque, mas sempre estiveram no poder. Hoje, o ódio milenar entre xiitas e sunitas explode em meio à insanidade passional que caracteriza as religiões, quando a não aceitação da outra verdade se sobrepõe. As notícias dão conta de que, desde o avanço do EIIL, mais de mil civis foram executados e algo próximo de 1 milhão tornaram-se refugiados. Mas a violência não começou aí: o extermínio mútuo vem desde a ocupação, quando o Iraque tornou-se um Estado acéfalo; foi nesse contexto, em 2003, que o diplomata brasileiro e representante da ONU, Sérgio Vieira de Melo, morreu em um dos inúmeros atentados que marcaram o país. O Iraque, a partir da ocupação, mergulhou no caos sectário e não se veem perspectivas de melhora a curto prazo.

No entanto, é possível que a ofensiva do EIIL não prossiga, pois, excetuando-se seus seguidores, a ojeriza ao grupo é consensual no mundo árabe e islâmico, e há uma convergência dos mais distintos interesses na região para pôr fim ao avanço do grupo. Contra essa incógnita extremista, Iraque, Irã, Síria, Estados Unidos, Arábia Saudita e, possivelmente, até a Rússia possam dar as mãos, mesmo que circunstancialmente. O EIIL, ao que se parece mais aterrorizador que a própria Al-Qaeda, com quem inclusive rompeu, conseguiria unir numa mesma frente históricos desafetos.

Independentemente do EIIL, a divisão étnico-religiosa do Iraque poderá, sim, num futuro médio, resultar em três Estados, embora os esforços no sentido contrário estejam sendo engendrados por Estados Unidos, Irã e Turquia. Essa possível fragmentação redundaria numa desvantagem inicial aos sunitas: o Iraque possui a terceira maior reserva mundial de petróleo, mas o hidrocarboneto concentra-se no sul xiita e no norte curdo, enquanto a região ocupada pelos sunitas é desprovida de grandes reservas. Esse é um dos fatores da reação extremista sunita.

País desconstruído
O Iraque atual é produto do rearranjamento territorial que a Grã-Bretanha impôs ao Oriente Médio, após a dissolução do Império Turco-Otomano no desfecho da 1ª Guerra Mundial há cem anos. Suas fronteiras preservavam as do antigo Império Babilônico, mas distinguiram-se do que fora no Império Otomano. O Vale do Eufrates não lhe pertencia; Mossul, ao norte, era área de litígio com os turcos e reivindicado pelos mesmos; as constantes desavenças com o Irã sobre o Chat el-Arab, ponto de encontro estuarino entre o Tigre e Eufrates junto à desembocadura do Golfo, são antigas.

A porção sudoeste sempre foi habitada por árabes nômades não muito afeitos a respeitar as fronteiras políticas, e sim suas próprias noções de “fronteira”. Daí a criação de uma zona neutra entre Iraque, Arábia Saudita e Kuwait, onde os beduínos e suas caravanas têm livre trânsito. Até 1920, o que é hoje o Iraque não existia cartograficamente: as três principais macrounidades do Iraque contemporâneo, Mossul, ao norte; Bagdá, ao centro; Basra, ao sul, uniram-se a partir do estabelecimento do mandato britânico. As duas monarquias consentidas que surgiram na ordem do pós-1ª Guerra Mundial, Assabah, no Kuwait, e Fayçal, Iraque, tencionavam constituir uma federação, projeto abortado por Londres. Anos mais tarde, em 1990, Saddam Hussein invadiria o pequeno país, alegando que, histórica e geograficamente, não se justificava a existência do Kuwait: ele seria parte do Iraque.
Revista Carta Escola

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Notícias Geografia Hoje

Entenda como o Estado Islâmico se tornou mais perigoso que a Al-Qaeda

Grupo nasceu após invasão dos EUA no Iraque e tinha ao menos 800 combatentes em junho; hoje o número ultrapassaria 15 mil



Em junho, quando militantes extremistas do Estado Islâmico tomaram Mosul - a segunda cidade mais importante do Iraque -, as potências ocidentais decidiram não intervir. Foi dito na época que o grupo jihadista era um problema sectário e regional.

AFP
Estado Islâmico é hoje mais poderoso que a al-Qaeda

No entanto, o Estado Islâmico - anteriormente conhecido como EIIL - continuou avançando e provocando caos no Iraque. E com uma poderosa campanha na internet anunciou o estabelecimento de um califato em partes do Iraque e da Síria, expulsando muitas comunidades da região.

Na semana passada, enquanto circulavam imagens de dezenas de milhares de iraquianos da minoria étnica curda yazidi presos em uma montanha fugindo do Estado Islâmico, o governo americano decidiu lançar uma operação aérea contra posições chaves do movimento.

Na segunda-feira (11), o Pentágono descreveu o Estado Islâmico como um adversário imponente e de grande qualidade - uma descrição raramente usada por militares ocidentais para se referir a grupos considerados terroristas.

"Estão extraordinariamente bem organizados, bem equipados, sabem coordenar suas operações e até agora tem mostrado capacidade de atacar em múltiplos eixos. E isso não é pouca coisa", disse o comandante William Mayville.

O grupo, que antes era visto como pequeno e fanático, agora virou um exército determinado e perigoso.

"Mais poderoso que a al-Qaeda"

O presidente do governo regional curdo, Massoud Barzani, cujo exército tenta expulsar os jihajistas do norte do país, ecoa essas palavras e também adverte que não se deve subestimar o poder do Estado Islâmico.

"Não estamos combatendo uma organização terrorista. Estamos combatendo um Estado terrorista", disse Barzani no domingo.

No mesmo dia, parlamentares americanos expressaram temores sobre a milícia. "A cada dia que passa, o Isis [sigla em inglês] levanta seu califato e se converte a uma ameaça direta aos Estados Unidos", disse o presidente do subcomitê Antiterrorismo do Congresso americano, o republicano Peter King.

"Agora eles são mais poderosos do que era a al-Qaeda durante o 11 de setembro."
O temor maior do governo americano é que o grupo consiga formar um Estado próprio no coração do Oriente Médio, que serviria de plataforma de lançamentos de ataques contra os Estados Unidos - semelhante ao que foi feito com o Afeganistão pelo Talebã na década passada.
Como se chegou até aqui

O Estado Islâmico surgiu depois da invasão dos Estados Unidos e seus aliados ao Iraque com sobreviventes da Al-Qaeda no país, então liderada por Abu Musab al Zarqawi.

Depois da morte de Al Zarqawi, em um ataque dos Estados Unidos em 2006, membros da Al-Qaeda fundaram o Estado Islâmico do Iraque (ISI, sigla em inglês).

No começo, o grupo era frágil. Mas entre 2011 e 2013, quando começou a rebelião na Síria, o ISI – agora dirigido por Abu Bakr al Baghdadi – começou a ganhar força. Este ano, o grupo tomou várias cidades no norte do Iraque.

Com táticas brutais, o grupo que passou a se chamar ISIS (Estado Islâmico do Iraque e Levante) e depois simplesmente Estado Islâmico. O seu crescimento surpreendeu muitos no Ocidente. Acredita-se que em junho, quando Mosul foi tomada, o grupo possuía 800 combatentes.

Agora, armado com arsenal americano obtido após vitórias sobre o exército iraquiano, o Estado Islâmico estaria com mais de 15 mil combatentes e acesso a recursos de US$ 2 bilhões – oriundos de fontes diversas, entre as quais doações privadas, sequestros e roubos.

Para a jornalista iraquiana Mina al-Orabi, do jornal Ash-Sharq al Awsat, o Estado Islâmico conseguiu avançar graças ao apoio de milícias locais.

"Alguns apoios são firmados com base no medo. Outros com a satisfação temporária de seus interesses", diz ela.
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terça-feira, 15 de julho de 2014

Notícias Geografia Hoje

Milícia sunita expulsa rivais de cidade síria

Ação dos rebeldes aconteceu na cidade síria oriental de Deir al-Zor e reforça controle sobre a província produtora de petróleo


O Estado Islâmico, antes conhecido como Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), expulsou rebeldes rivais da cidade síria oriental de Deir al-Zor nesta segunda-feira (14), reforçando o controle sobre a província produtora de petróleo, além do território que controla no Iraque, de acordo com ativistas.

AP
Povo sírio transporta alimentos enquanto retornam para Moadamiyeh, subúrbio de Damasco controlado pelos rebeldes, na Síria

Combatentes sunitas do Estado Islâmico avançaram contra os rivais na província de Deir al-Zor com a ajuda de armas apreendidas em uma ofensiva relâmpago contra as forças do governo iraquiano na fronteira no mês passado.

A luta tem se concentrado em grande parte em torno do controle dos campos de petróleo e de cidades ao longo do rio Eufrates, causando a morte de centenas de combatentes desde o início do ano.

Nesta segunda, a milícia expulsou dezenas de rebeldes rivais de Deir al-Zor, incluindo A Frente Nusra - ramo sírio da Al-Qaeda - e o Ahrar al-Sham, um grupo islâmico radical, informou o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, baseado no Reino Unido.

"O Estado islâmico está agora no controle da província de Deir al-Zor, com exceção de algumas áreas e do aeroporto militar que o governo controla", explicou o diretor do Observatório, Rami Abdurrahman.

Combatentes de grupos islâmicos rivais fugiram ou prometeram lealdade ao Estado islâmico, disse Abdurrahman, acrescentando que as forças do governo leais ao presidente sírio, Bashar al-Assad, ainda controlam cerca de metade da cidade de Deir al-Zor.

Os militantes também mataram um líder local da Frente Nusra, segundo Abdurrahman. Combatentes publicaram na Internet fotos que seriam do corpo do líder da Frente Nusra, mas as informações não foram confirmadas.

Omar Abu Leila, porta-voz do grupo rebelde Exército Sírio Livre, no leste do país, disse que centenas de combatentes fugiram para a área de Deraa, no sul, e para a região de Qalamoun, próxima ao Líbano desde que o Estado Islâmico declarou um "califado" na área que controla, a qual abrange o leste da Síria e o norte do Iraque.

Ele afirmou que o fluxo de armas vindas do Iraque desequilibrou a balança em favor do Estado Islâmico e ajudou o grupo a assegurar o controle dos campos de petróleo locais. "Não tivemos nenhuma ajuda de fora", disse Abu Leila.
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quarta-feira, 26 de março de 2014

Areia avança sobre Riad


Rolo compressor de areia

Uma gigantesca nuvem de areia avança sobre Riad, a capital da Arábia Saudita. ela foi formada por uma das típicas tempestades de deserto que ocorrem desde o norte da África até a Península Arábica na primavera, podendo facilmente atingir velocidades de até 140 km por hora. elas ressecam ainda mais essa árida região e fazem com que as temperaturas subam até 20ºC em apenas duas horas. os ventos são chamados de "chamsin", o que em árabe significa "cinquenta", porque em geral eles ocorrem 50 dias após o equinócio da primavera - quando o dia e a noite têm a mesma duração. Raramente, porém, são tão violentos como foram no dia 10 de março de 2009, quando esta foto foi tirada.
Revista GEO

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Entenda a negociação entre Irã e Ocidente

Começa a 'parte difícil' de negociações entre Irã e Ocidente

Jonathan Marcus
Analista diplomático da BBC



Em novembro, P5+1 e Teerã chegaram a um acordo provisório

O Irã deu início nesta terça-feira, em Viena (Áustria), aos diálogos com seis potências mundiais, em busca de um acordo definitivo a respeito de seu programa nuclear.

É, agora, que começa a parte difícil.

Em novembro, o grupo P5+1 (China, França, Alemanha, Rússia, Reino Unido e EUA) e o Irã firmaram um acerto provisório, que limitava alguns aspectos do programa nuclear iraniano em troca de alívio às sanções internacionais.

O acerto estava longe do ideal, segundo muitos especialistas nucleares, por não suspender, por exemplo, o enriquecimento de urânio iraniano (antiga exigência do Conselho de Segurança da ONU). Mas o acordo conseguiu aumentar o acesso de inspetores internacionais e conter as atividades nucleares do país persa.

Só isso já é um progresso. No entanto, há pouco otimismo e muita desconfiança dos dois lados da mesa de negociação.

Ainda há incertezas quanto às intenções reais de Teerã. O país está preparado para reduzir seu programa nuclear a um nível mínimo para que todas as sanções sejam extintas, sua economia se levante e seu governo volte a ser um agente "comum" no mundo da política externa?

Ou o Irã quer apenas aliviar as sanções mas sem perder seu status de país nuclear, capaz em algum momento de avançar na busca pela bomba atômica (intenção negada por Teerã)?

Muito tem de ser resolvido para que se chegue a um acordo de longo prazo - desde complexas questões técnicas a fatores políticos e problemas internos. Confira alguns desses empecilhos:
Capacidade de enriquecimento

Muitos acreditam que o Irã tenha os conhecimentos técnicos para construir uma bomba - e nisso não há como voltar atrás.

Sob a ótica do Ocidente, o ideal seria que o Irã interrompesse totalmente o enriquecimento de urânio. É nisso que insistem autoridades israelenses.

Mas poucos dos analistas consultados pela BBC acreditam que essa interrupção vá acontecer.

Para eles, a meta de um acordo de longo prazo é estabelecer um nível de enriquecimento proporcional às necessidades práticas do Irã, sob supervisão internacional capaz de identificar com o máximo de tempo possível qualquer movimento iraniano em direção à bomba.

A meta seria reduzir a escala e escopo da capacidade iraniana de enriquecimento, reduzindo seu número de centrífugas para garantir que esse espaço de tempo seja o maior possível.
O reator de Arak


Reator de Arak está entre os entraves para um acordo entre Irã e potências globais

O reator de Arak, ainda em construção, é outra preocupação.

Quando entrar em operação, ele daria plutônio ao Irã, uma segunda rota possível em direção a uma arma nuclear.

Teerã alega não ter intenção de construir uma usina de reprocessamento para extrair o material necessário para tal, mas Arak permanece despertando desconfiança.

Para o Ocidente, o ideal seria que Arak fosse fechado ou substituído por um reator leve, de menor risco de proliferação nuclear.

O Irã já citou a possibilidade de fazer algumas alterações (não especificadas) no reator. Mas, novamente, seriam necessárias mais inspeções externas para averiguações.
Fatores em jogo

Essa inspeção ficaria a cargo da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que já expressou preocupações quanto a prévias pesquisas nucleares iranianas.

Dada a complexidade desses temas, é improvável que o avanço nas negociações seja rápido.

Existe a possibilidade de o acordo interino ser estendido por mais seis meses (ou mais) se necessário.

É possível chegar a um meio-termo que agrade tanto iranianos (mantendo um programa nuclear pacífico) e a comunidade internacional (assegurando que não haverá uma bomba atômica iraniana).

Mas muito depende de fatores externos: relações comerciais que desafiem as atuais sanções contra o Irã, por exemplo, podem estimular o Congresso americano a aprovar restrições mais duras - na contramão das atuais negociações e causando profundo descontentamento em Teerã.

Além disso, há a resistência interna dos ultraconservadores iranianos, bem como o papel de Teerã na guerra civil síria.

Em contrapartida, o fracasso das negociações poderia trazer novamente à tona insinuações de um ataque militar israelense contra o Irã.

E as consequências disso seriam sérias e imprevisíveis.
BBC Brasil

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Notícias Geografia Hoje


Local do atentado com carro-bomba em Beirute em 27 de dezembro de 2013 (AFP, Gino Raidy)
 
Análise: Conflito sectário leva Líbano a risco de vácuo de poder
 
BBC BRASIL

A cada assassinato no Líbano, a lista dos prováveis culpados normalmente é limitada a duas possibilidades: Síria ou Israel.

É assim que pensa a maioria dos cidadãos libaneses, que já perdeu a conta de quantas vezes presenciou ou viu na TV compatriotas ou figurões da política nacional mortos ou feridos por ataques inesperados nas ruas das principais cidades do país.

Na semana passada, o ex-ministro das Finanças, Muhammad Shattah, engrossou as estatísticas. Vítima de um ataque com carro bomba, ele foi enterrado neste domingo.

Mas a busca pelas reais motivações desses assassinatos é bem mais complicada e envolve normalmente a seguinte a pergunta: qual é o real propósito desses atentados?

Às vezes, a intenção é apenas aterrorizar. Em outras ocasiões, é privar partidos políticos de suas lideranças mais proeminentes.

Com o assassinato de Shattah, parece que os dois objetivos convergiram em um único: aniquilar um líder em potencial durante um período em que o país está profundamente dividido quanto à guerra civil na vizinha Síria.

Sunita, Shattah era um dos principais conselheiros do ex-primeiro-ministro Saad Hariri. Ambos se opunham ao presidente da Síria, Bashar al-Assad, e ao Hezbollah, o grupo radical xiita que, nos últimos meses, vem enviando reforços para o outro lado da fronteira para apoiar o governo sírio.

O atentado revela uma situação peculiar do país. Não há uma resposta conclusiva sobre "quem e o por que" da longa lista de assassinatos não resolvidos no Líbano.

Porém, não há dúvida de que Shattah era um cérebro da oposição sunita, que se preparava para alcançar um papel maior no país, enquanto tentava convencer a comunidade internacional a apoiar a neutralidade do país no conflito armado na Síria.

POLARIZADO

À BBC, duas fontes confirmaram que Shattah era um dos nomes mais cotados para ocupar o cargo de primeiro-ministro do país, vago há nove meses.

A formação de um gabinete requereria o apoio do presidente do país, Michel Suleiman, que é cristão. Suleiman teria dado aval à escolha de um novo premiê, mas ainda não há certeza sobre isso.

Shattah, um político moderado e um ex-ministro da Economia que nunca teve grande destaque na política, parecia, no entanto, um nome pouco provável para o posto.

Por tradição, o primeiro-ministro do Líbano é sempre um sunita.

Mas em um país profundamente polarizado por um conflito sectário, especialmente devido à sua longa história e a seus laços com a Síria, poucos políticos sunitas conquistam o feito de ter tanto o apoio das ruas quanto do Hezbollah e dos correligionários de Assad.

Embora os xiitas rejeitariam o nome de Shattah para premiê, seus apoiadores e os de Suleiman poderiam unir forças em torno de seu nome. Mas até o assassinato dele, não havia qualquer indicativo que isso aconteceria.

De qualquer forma, o atentado contra o ex-ministro das Finanças retira do campo político um estrategista-chave e possivelmente o único político sunita que poderia acabar com a incerteza existente no país.

O assassinato também envia uma mensagem a Hariri e aos opositores de Assad atualmente abrigados no Líbano.

VOZ MODERADA

Especialistas apontam que o Líbano poderia enfrentar um vácuo de poder nos próximos meses. As eleições para o Parlamento têm de ser convocadas até o próximo verão e o mandato do atual presidente se encerra em maio.

Suleiman advoga abertamente pela neutralidade do Líbano no conflito da Síria e vem surpreendendo ao criticar abertamente o Hezbollah. Em uma recente entrevista à BBC, ele pediu ao grupo que retire seus militantes da Síria.

Considerado uma voz moderada, Shattah foi embaixador nos Estados Unidos e ainda tinha boas conexões em Washington. Ele também foi um dos principais braços direitos do pai de Saad Hariri, Rafik Hariri, que morreu em 2005 vítima de um atentado com carro bomba, a poucos metros do local onde o ex-ministro das Finanças foi morto.

Após a confirmação da morte de Shattah, Saad Hariri acusou a Síria e o Hezbollah de estarem por trás do ataque.

"Aqueles que assassinaram Muhammad Shattah são os mesmos que assassinaram meu pai; também são os mesmos que querem assassinar o Líbano", disse ele.

O governo da Síria negou envolvimento no atentado enquanto a liderança do Hezbollah condenou o ataque, classificando-o como um "crime hediondo", mas sem fazer quaisquer acusações. Atipicamente, dessa vez, Israel não foi implicado no episódio.

A tensão política no Líbano vem sendo agravada recentemente pela guerra civil na Síria. Mas todas as crises por quais passa o pequeno país estão ligadas, direta ou indiretamente, ao seu vizinho mais poderoso.

Aliados da Síria no Líbano, como o Hezbollah, reivindicam grande parte das cadeiras no Parlamento, enquanto a Arábia Saudita, que apoia Hariri e se opõe a Assad, critica qualquer proposta de formação de um gabinete que incluiria o Hezbollah, que, por sua vez, apoia o presidente sírio, Bashar al-Assad.

Cerca de meia hora antes de sua morte, Shattah havia tuitado que o "Hezbollah vem pressionando para obter poderes semelhantes tanto em segurança quanto em questões de política externa que a Síria vem exercendo no Líbano nos últimos 15 anos".

Amigo e aliado de Shattah, o parlamentar libanês Bassem el-Shabb acrescentou que o ex-ministro de Finanças vinha trabalhando duro para convencer a comunidade internacional a apoiar a neutralidade do Líbano no conflito sírio.

PAZ NA SÍRIA

Shattah também vinha sendo um principais políticos libaneses a manifestar apoio à realização de um encontro paralelo à conferência de paz sobre a Síria, em janeiro do ano que vem, na Suíça.

Nessa reunião, ele propunha que a comunidade internacional discutisse o futuro do Líbano.

O objetivo do ex-ministro das Finanças seria pressionar o Hezbollah a aceitar um acordo para a retirada de suas tropas da Síria.

Shattah havia escrito uma carta aberta ao presidente do Irã, Hassan Rouhani na qual fazia tal apelo.

Mas o ex-ministro das Finanças morreu antes que pudesse colher assinaturas dos parlamentares do Líbano para levar adiante a proposta.

Fontes ouvidas pela BBC afirmam, entretanto, que Shattah permanecia pouco otimista de que a Arábia Saudita e o Irã, outro aliado do Hezbollah, se sentariam à mesa para discutir a questão.

O Hezbollah, por sua vez, também vem pagando o preço de seu envolvimento na Síria. Nas últimas semanas, o centro nervoso do grupo, nos subúrbios ao sul de Beirute, vêm sendo alvo de atentados suicidas.

Acredita-se que grupos rebeldes sírios, opositores do presidente Bashar al-Assad, estariam por trás desses ataques.

O Líbano ainda é assombrado por uma longa série de assassinatos não resolvidos desde a morte do ex-premiê Rafik Hariri, em 2005. Um tribunal internacional que investiga o ataque indiciou vários membros do Hezbollah e o governo sírio. Os julgamentos devem começar em meados de janeiro do ano que vem, em Haia, na Holanda.

A maioria desses assassinatos ocorreu antes do início do conflito na Síria, em março de 2011.

O assassinato de Shattah parece ser uma continuação dessa tendência e um lembrete violento de que o destino do Líbano está inextricavelmente ligado ao resultado da guerra na Síria. 
Folha de S. Paulo

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Notícias Geografia Hoje


Entenda o passo-a-passo da destruição do arsenal sírio de armas químicas

BBC BRASIL

Uma organização internacional até agora pouco conhecida será responsável, nos próximos meses, pela difícil tarefa de destruir o arsenal de armas químicas da Síria.

A Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPCW, em sua sigla em inglês), com sede na Holanda, recebeu um mandato do Conselho de Segurança das Nações Unidas para estabelecer um comitê especial e realizar o que tem sido descrito como uma "missão incrivelmente difícil".

No domingo, a equipe de cerca de 20 especialistas em desarmamento da OPCW relatou que o trabalho havia começado.

A tarefa inclui a destruição de mais de mil toneladas de gás sarin, gás mostarda e o agente nervoso mais potente que se conhece, o gás VX, que acredita-se também ser produzido pela Síria.

Não foi revelado em qual dos 19 locais nos quais o governo sírio armazena armas químicas foi iniciada a operação.

O que se sabe é que a destruição das armas não vai ser fácil, porque vários desses lugares estão no meio de zonas de combate devastados pela guerra civil.

FORÇA E QUÍMICA

O primeiro passo, que deverá ser completado nas próximas semanas, é a remoção de máquinas e equipamentos utilizados para a produção de armas e para abastecer mísseis e bombas com gases tóxicos.

"Nesta primeira fase, talvez a única coisa necessária seja força bruta", explica o especialista em assuntos diplomáticos da BBC, Jonathan Marcus.

"Os principais componentes das instalações de produção podem ser destruídos ou inutilizados com força. E o mesmo é feito com os lugares onde o enchimento das bombas era feito", acrescenta o correspondente.

Bombas ou projéteis vazios podem ser esmagados com um veículo pesado ou marretas.

O segundo passo é a neutralização das enormes reservas de compostos químicos que são a base para a criação de gases.

Essa tarefa pode ser cumprida através de vários métodos.

Os componentes podem ser incinerados a temperaturas elevadas para destruir a toxicidade dos agentes. Ou, então, neutralizados pela adição de água ou de algum outro produto, como soda cáustica.

Quando às armas químicas já carregados com explosivos, devem ser tomadas precauções adicionais.

Uma solução é efetuar a destruição em unidades móveis, que podem ser levadas para o local onde as armas estão armazenados, evitando assim o risco de se transportar munição carregada por uma zona de guerra.

Nessas unidades móveis, produtos químicos podem ser eliminados com o uso de explosivos dentro de uma câmara blindada.

A explosão destrói tanto as munições como os agentes químicos.

Outro método é a chamada tecnologia de detonação quente, através da qual as munições são colocadas em uma câmara com temperaturas de cerca de 550° C, o suficiente para destruir tanto a arma como seu conteúdo químico.

SEM PRECEDENTES

De acordo com a OPCW, os peritos estão trabalhando em três frentes no momento: a verificação das informações dadas pelo governo sírio, a segurança das equipes de inspeção e os acordos práticos para a implementação do plano de destruição.

E, como dizem os analistas, o maior desafio não será a destruição em si, mas sim ter acesso aos armamentos com garantia de integridade física para as equipes da organização.

Esta é a primeira vez que a OPCW tenta destruir um arsenal químico no meio de uma guerra civil, e o mandato da ONU prevê que a remoção esteja concluída até meados de 2014.

Jonathan Marcus sublinha: "Tudo isso é território inexplorado. É um programa sem precedentes e planejado às pressas para remover o arsenal químico de um país em meio a uma sangrenta guerra civil."

"Não é de admirar que muitos especialistas se mostrem tão céticos. O verdadeiro teste sobre a vontade das autoridades sírias de implementar este acordo está apenas começando", acrescenta.

MÉTODOS

No passado, a tarefa de eliminar as armas químicas era mais simples: os armamentos eram jogados no mar.

De acordo com um relatório do Serviço de Pesquisa do Congresso dos Estados Unidos, publicado em 2007, foi assim que, da Primeira Guerra Mundial até a década de 1970, os Estados Unidos se livraram de milhares de munições químicas.

Em 1964, por exemplo, o Exército americano derramou no Atlântico 1.700 projéteis de 75mm carregados com gás mostarda, até então armazenados no Arsenal de Edgewood, em Maryland.

Em 1970, o Exército se livrou de 12.508 foguetes M55 com gás sarin também descartando-os no mar, a 400 quilômetros do Cabo Kennedy, na Flórida.

Há também o método usado no Iraque, em 1990: explosões controladas em poços profundos, o que também foi descartado no caso da Síria, por conta do risco envolvido para cidades próximas ao local de detonação.

Hoje, a destruição de gás venenoso é muito mais complicada: a Convenção sobre Armas Químicas proíbe que armamentos sejam queimados em valas abertas, enterrados ou descartados no mar.

E no meio de uma guerra civil, muitos acreditam que a tarefa na Síria poderia ser quase impossível.

Como disse à BBC Ake Sellstrom, inspetor-chefe de armas da ONU, "a tarefa é viável, mas vai ser muito estressante". 
Folha de S. Paulo

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Israel - As contradições do Estado "judeu democrático

Lei prevê pena de três anos de prisão, sem direito a julgamento, a todos os imigrantes que entrarem ilegalmente em Israel, sem fazer distinção entre imigrantes ilegais e refugiados. Está cada vez mais claro que o modelo sionista prevê um Estado excludente e colonizador
Luciana Garcia de Oliveira *




"Vivendo sob as trevas do holocausto e esperando ser perdoados por tudo o que fazem em nome do que eles sofreram parece-me ser abusivo. Eles não aprenderam nada com o sofrimento dos seus pais e avós."
José Saramago

Pogroms » Ataque maciço e violento a pessoas, com a destruição simultânea do seu ambiente (casas, negócios, centros religiosos). Historicamente, o termo tem sido usado para denominar atos em massa de violência espontânea ou premeditada contra judeus, protestantes, eslavos e outras minorias étnicas da Europa, porém é aplicável a casos que envolvem países e povos do mundo inteiro.


Sob o prisma do "problema judeu" emergido desde os pogroms e o antijudaísmo na Europa, há que se notar a terrível semelhança no tratamento aos palestinos nos territórios ocupados e, mais atualmente, aos imigrantes africanos em Israel, Estado criado em 1948, oficialmente como refúgio para os judeus, vítimas das perseguições na Europa e na União Soviética e para os sobreviventes do holocausto nazista.

Isso porque, no início de 2012, em mais uma decisão arbitrária do Parlamento israelense, foi aprovada uma lei, denominada Lei contra infiltração, que prevê pena de três anos de prisão, sem direito a julgamento, a todos os imigrantes que entrarem ilegalmente no país, sem fazer distinção entre imigrantes ilegais e refugiados. Cabe ressaltar, no entanto, que o Estado de Israel é membro signatário da Convenção das Nações Unidas sobre o Estatuto dos Refugiados, e por isso teria o dever de conceder asilo político a esses imigrantes, uma vez que o status de refugiado é conferido a todo indivíduo que corre risco de vida ao regressar ao seu país de origem, como é justamente o caso dos imigrantes advindos de países como a Eritreia e o Sudão, com grande incidência de guerras civis, massacres e crimes de genocídio.

Esse dispositivo legal visa especialmente os imigrantes africanos, sobretudo os 157 africanos já reconhecidos pelo Ministério do Interior como refugiados, que entraram no país por terra através da fronteira Israel-Egito, pelo deserto do Sinai. Assim, para conter esse tipo de "infiltração", as autoridades israelenses começaram a construir, desde janeiro, uma cerca ao longo da fronteira com o Egito. Além dessa medida, está prevista a construção de um grande campo de detenção, localizado no sul do país, denominado Saharonim, com capacidade para 10 mil prisioneiros e que deverá abrigar inclusive crianças que entrarem de maneira irregular no país.

Israel é membro signatário da Convenção das Nações Unidas sobre o Estatuto dos Refugiados, e por isso tem o dever de conceder asilo político a imigrantes
A vasta obra de Hannah Arendt reserva um espaço para o retrato fiel da perseguição que os judeus sofreram na Segunda Guerra Mundial, com destaque para a questão dos refugiados, que, segundo ela, são todos aqueles impedidos de voltar às suas casas não pelo que fizeram, mas pelo que são


É estimado, no entanto, que esses imigrantes representem cerca de 10% da população local de Tel Aviv, cujo total populacional gira em torno de 400 mil habitantes. O desagrado da sociedade israelense com relação aos imigrantes do Sudão e da Eritreia tem sido demonstrado muito além das medidas judiciais. Em meados de abril foi registrada a ocorrência de que quatro casas e uma creche de refugiados africanos em Tel Aviv haviam sido alvos de bombas incendiárias, em um ataque atribuído a um grupo de extrema direita, "Comitê contra infiltrados", cuja bandeira é a defesa da qualidade de vida dos moradores e contra a desvalorização dos imóveis quando há incidência da presença de refugiados nos espaços públicos como ruas, parques e praças de determinados bairros da capital de Israel.

Depois, em maio, centenas de manifestantes israelenses atacaram covardemente alguns imigrantes africanos e depredaram muitas lojas e veículos, após um comício organizado por moradores de Tel Aviv contrários à presença dos africanos no país. O evento político contou inclusive com a presença de alguns deputados do partido Likud, de direita, e de outros partidos de coalizão do governo. Segundo a jornalista Guila Flint, foi durante esse evento que a deputada Miri Regev chamou os imigrantes africanos de "câncer em nosso corpo".

Ações violentas
Todas as ações violentas contra esses indivíduos foram atribuídas ao governo de Israel, de acordo com as palavras de Sigal Rozen, diretora da ONG Moked, instituição de defesa dos direitos humanos dos imigrantes africanos. Segundo a ativista, citada no artigo "Imigrantes africanos são perseguidos por multidão e agredidos após comício em Tel Aviv", "os líderes do governo, que chamam os refugiados de 'infiltradores de trabalho' e incitam os moradores contra eles, são os responsáveis pela violência". De acordo com as palavras de Rozen, o primeiro ministro Benjamin Netanyahu teria alegado publicamente que a "inundação" de imigrantes africanos em Israel representa uma "ameaça à segurança e ao caráter judaico e democrático de Israel".

Essas ações violentas geralmente correspondem à opinião de grande parcela dos moradores da cidade, como a de Benny Shlomo, que, na matéria intitulada "Presença crescente de imigrantes africanos gera polêmica em Israel", afirmou que todos os imigrantes em situação irregular, sem exceção, deveriam ser "imediatamente expulsos", em consequência do suposto aumento do índice de criminalidade nos bairros onde há predomínio da presença desses imigrantes. Nesse sentido, segundo o departamento de pesquisa do Parlamento israelense, foi apontado que o índice médio de criminalidade entre o total de imigrantes em situação irregular é de 2,04%, enquanto o índice na população geral é de 4,99%, segundo a mesma matéria.

É demonstrado, por sua vez, que o aumento da violência em Israel está diretamente relacionado ao aumento do número de refugiados no país nos últimos anos. Sobre isso, o comandante de polícia, Yohanan Danino, defende que para conter o aumento da criminalidade entre os imigrantes africanos (ou pelo menos evitar que a situação piore) é necessário que o Estado permita que eles trabalhem para que possam se sustentar. Porém, o governo não lhes concede empregos formais.
O genocídio aos judeus na Europa comoveu a opinião pública internacional. No entanto, a tragédia, o exílio e o totalitarismo do passado continuam bastante presentes na história atual de Israel, quando se analisa o tratamento dispensado aos não judeus daquele País

Irmãos africanos e palestinos
A situação vivida pelos imigrantes africanos é muito semelhante à de milhares de palestinos: em ambos os casos não é concedido status legal dentro de Israel. O que torna tanto os palestinos como os africanos seres invisíveis e à mercê de quem quer explorá-los. A única diferença, apontada no artigo "Today Israel moved one step closer to nazi Germany circa 1938", é que os africanos, particularmente, encontram-se dentro do corpo político de Israel, enquanto os palestinos já foram afastados e excluídos da política sionista.

Entre as muitas causas alegadas para a discriminação dos palestinos e dos demais estrangeiros (não judeus) em Israel atribui-se a "ameaça demográfica", um destaque especial, uma vez que a defesa do caráter judaico-sionista de Israel é consenso entre todos os sionistas. Diante desse modelo de "Estado judeu democrático", é sumariamente defendido que algumas medidas drásticas devem ser tomadas contra os imigrantes, sobretudo os da África, e os palestinos, nativos da região. Do contrário, haverá uma redução considerável da população judaica nas próximas décadas. Esse tipo de ameaça pôde ser comprovada, muito recentemente, em um programa de rádio em Israel, no qual o ministro do Interior, de maneira bastante alarmista, afirmou: "Eu quero que todos sejam capazes de andar pelas ruas sem medo ou receio... Os imigrantes estão prestes a dar à luz a centenas de milhares, e o sonho sionista está morrendo".

O desagrado da sociedade israelense com relação aos imigrantes do Sudão e da Eritreia tem sido demonstrado muito além das medidas judiciais

Durante a onda de violência física e verbal contra os refugiados africanos em Israel, muitos judeus etíopes sofreram com o racismo contra os negros. As manifestações racistas vêm desde o ano passado, quando houve uma grande incidência de atos de rua por parte da comunidade etíope, após algumas escolas se recusarem a matricular alunos etíopes e alguns condomínios proibirem o aluguel de apartamentos aos membros dessa comunidade.

Foi durante as perseguições aos africanos, naquele ano, que um advogado etíope teve a iniciativa de confeccionar algumas camisetas com os seguintes dizeres: "Cuidado, não sou infiltrado africano", com a estrela de Davi estampada em fundo amarelo. O que, por outro lado, desagradou muitos ativistas etíopes, sobretudo os integrantes do grupo Young Ethiopian Students (YES), os quais discordaram veementemente desse gesto, sob a alegação de que o slogan da camiseta passa a mensagem de que os judeus etíopes querem se diferenciar dos demais imigrantes africanos. O que, de certa forma, poderia legitimar todas as agressões cometidas.

"Os líderes do governo, que chamam os refugiados de 'infiltradores de trabalho' e incitam os moradores contra eles, são os responsáveis pela violência"

Passado pra que te quero: os terrores do holocausto

O genocídio cometido contra os judeus na Europa, representado por fotos e imagens das valas comuns nos campos de concentração e dos sobreviventes vagando em muitos países, após a Segunda Guerra Mundial, comoveu a opinião pública internacional. A emergência do "problema judeu" foi analisada por muitos jornalistas, escritores e acadêmicos no mundo todo, mas o retrato mais fiel da perseguição está presente na vasta obra de Hannah Arendt, sobretudo no artigo "We refugees". É nesse trabalho que Arendt destaca a definição de refugiado como sendo a daqueles que, como ela, foram impedidos de voltar a suas casas, não pelo que fizeram, mas justamente pelo que eram. Nesse relato, Arendt revela o sofrimento dos refugiados sob um ponto de vista bastante pessoal, quando publicamente clamou ao mundo:

"Nós perdemos nossas casas, o que significa a familiaridade da vida diária. Perdemos nossos empregos, o que significa a nossa confiança e utilidade no mundo. Nós perdemos a nossa língua, o que significa a espontaneidade, a simplicidade dos gestos, as expressões de sentimentos não afetados. Deixamos nossos familiares nos ghettos poloneses e os nossos melhores amigos foram mortos nos campos de concentração, o que significa a ruptura da nossa vida privada." A extensão do problema gerado pela grande quantidade de refugiados e a vontade de retornar a seus lares levou muitos a acreditar que, assim que Hitler fosse finalmente rendido e a guerra terminasse, todos poderiam voltar a suas casas e a sua rotina. À medida em que percebiam que a solução não seria tão simples, muitos refugiados tornaram-se "lutadores constantes", nas palavras de Arendt, que, no auge do desespero, costumavam "desejar a morte dos nossos amigos e parentes, pois, quando algum refugiado morre, ele está salvo de todos os seus problemas". Muito embora para a religião judaica o suicídio seja bastante condenável, o índice de suicídios entre os judeus em Berlim, Viena, Bucareste, Paris, Nova York, Los Angeles, Buenos Aires e Montevidéu era muito alto.

Quando os refugiados eram, enfim, salvos, sentiam-se humilhados e, quando eram ajudados, sentiam-se degradados. Assim, quando tinham forças, geralmente lutavam pelo retorno às suas próprias existências e pela incessante busca da definição de seus próprios destinos, de maneira individual, na esperança de serem independentes, comprar seus próprios alimentos, andar de metrô, sem nunca ouvirem que são pessoas indesejáveis.

Havia uma grande dificuldade na manutenção e na conservação de sua integridade, pois refugiados judeus tinham seus status social, político e jurídico muito confusos. Justamente por isso, muitos optaram pela mudança radical de identidade e foram obrigados, pelas circunstâncias, a aprender a conviver com toda essa confusão. Tudo isso na busca incansável de deixar o estigma de refugiados. Antes, havia a preocupação de deixar de ser judeu. Para isso, muitos aprenderam a língua inglesa, uma vez que falar em alemão era ameaçador, pois revelava sua identidade. Todo esforço para a assimilação era necessário, para que os judeus se vissem livres da condição de apátridas. Por isso, durante muito tempo, foi extremamente difícil os judeus convencerem os cidadãos acerca da sinceridade de suas transformações.

Hannah Arendt » Filósofa política alemã de origem judaica, uma das mais influentes do século XX. Seu primeiro livro, As Origens do Totalitarismo(1951), consolida seu prestígio como uma das figuras maiores do pensamento político ocidental. Arendt identifica de modo polêmico o nazismo e o socialismo como ideologias totalitárias, que dependem da banalização do terror, da manipulação das massas, do acriticismo diante do poder.


Para conter o aumento da criminalidade entre os imigrantes africanos (ou pelo menos evitar que a situação piore) é necessário que o Estado permita que eles trabalhem para que possam se sustentar

De fato, todas as ações e todos os discursos discriminatórios e racistas são ainda mais assustadores quando advindos por parte daqueles que, como Hannah Arendt, já foram perseguidos no passado. E justamente essa passagem trágica do passado judaico fomentou muitas manifestações em Israel sob o slogans "We are all refugees" ("Somos todos refugiados"), numa clara alusão ao passado e ao reconhecimento sincero do sofrimento dos imigrantes africanos.

A contradição
Ao reafirmar-se como "Estado judeu democrático", Israel torna-se uma contradição. Por um lado, serviu desde antes de sua proclamação como "lar nacional para o povo judeu" (descrito na declaração Balfour); por outro lado, um grupo extremista endossado por muitos cidadãos israelenses exercem contra os palestinos, e mais recentemente contra os refugiados africanos, tudo a que seus familiares foram submetidos no passado. A brutalidade cometida contra os não judeus revela que Israel não pode ser considerado um Estado democrático. Ao contrário, é cada vez mais claro que o modelo sionista prevê um Estado excludente e colonizador, que não respeita os seus vizinhos, muito menos sua própria população - que, cada vez mais, é confundida com a imagem truculenta e negativa de seus governantes e de seu exército.
Para grande parte dos moradores de Tel Aviv, os imigrantes em situação irregular, sem exceção, deveriam ser "imediatamente expulsos". Para eles, a sua presença contribuiria para o aumento da criminalidade


Assim, de acordo com o adágio "Deus nos concedeu a memória, mas também o esquecimento", é possível concluir que, para esquecer, é preciso lembrar. O que torna a tragédia, o exílio e o totalitarismo do passado bastante presente na história de Israel.
* Luciana Garcia de Oliveira é acadêmica, integrante do Grupo de Trabalho sobre o Oriente Médio e Mundo Muçulmano, do Laboratório de Estudos sobre a Ásia da Universidade de São Paulo (LEA-USP).E-mail: luciana.garcia83@gmail.com

Referências 
ABUNIMAH, Ali. Israel will collapse unless africans and palestinians are expelled, fenced, says legal advocate. Disponível em:http://electronicintifada.net/blogs/ali-abunimah/israel-will-collapse-unless-africans-and-palestinians-are-expelled- fenced-says;
ARENDT, Hannah. We refugees. The Menorah Journal, 1943.
CANNING, Paul. "Pogrom" on africans refugees in Tel Aviv. Disponível em: http://www.care2.com/causes/pogrom-on-african- refugees-in-tel-aviv.html.
FLINT, Guila. Imigrantes africanos são perseguidos por multidão e agredidos após comício em Tel Aviv. Disponível em:http://www.bbc.co.uk/portuguese/ultimas_noticias/2012/05/120524_telavivimigrantes_gf.shtml.
______________. Presença crescente de imigrantes africanos gera polêmica em Israel. Disponível em:http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/05/120522_refugiados_gf.shtml.
______________. Casas de refugiados africanos são alvos de bombas incendiárias em Israel. Disponível em:http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/04/120427_israel_ataques_refugiados_gf.shtml.
_______________. Lei aprovada em Israel prevê prisão sem julgamento para imigrantes ilegais. Disponível em:http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/01/120110_africanos_israel_gf.shtml;
Today, Israel moved one step closer to nazi germany circa 1938. Disponível em: http://networkedblogs.com/y1gL8
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