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terça-feira, 21 de junho de 2022

Vazios Cartográficos


OS DESAFIOS DA AUSÊNCIA DE MAPEAMENTO OFICIAL
Os vazios cartográficos, grandes áreas do território que não foram mapeadas oficialmente, podem ter seus dados geográficos conhecidos em detalhes por meio de mapeamentos colaborativos. O uso de programas que permitem a realização desse tipo de mapeamento, feito em rede por agentes públicos ou voluntários, ajuda a promover a participação popular e a inclusão social na gestão pública do território e em outras atividades que utilizam dados geográficos, como monitoramento de áreas de floresta, levantamento de recursos minerais e planejamento de ações de resgate.




Mapas são documentos muito úteis para localização e orientação no espaço geográfico em que estamos inseridos. Aplicativos e outras ferramentas de todo tipo têm utilizado mapas digitais para ajudar as pessoas a encontrar destinos diversos – teatros, escolas, hospitais, praias etc. – ou para guiá-las em seu deslocamento diário.

Mas nem sempre foi assim. Até meados do século passado, os mapas oficiais eram confeccionados apenas por especialistas, a serviço dos governos. Havia uma natural limitação – tecnológica e/ou provocada pelo tamanho da área a ser mapeada – na quantidade de dados e informações que um mapa poderia conter.


ATÉ MEADOS DO SÉCULO PASSADO, OS MAPAS OFICIAIS ERAM CONFECCIONADOS APENAS POR ESPECIALISTAS, A SERVIÇO DOS GOVERNOS



A escala, um elemento obrigatório do mapa, mostra a relação entre o que está desenhado e o que existe no espaço real. Então, se o mapa possui uma escala de 1:250.000, significa que cada 1 cm corresponde a 250.000 cm (2.500 m ou 2,5 km) na realidade.

Portanto, quanto maior a escala do mapa (quanto menor o denominador), mais detalhado ele será, representando mais elementos pela mesma unidade de área, como nomes de ruas, localização de praças, escolas, travessas, vielas.


Mapeamento que empodera

Com o surgimento dos sistemas de informação geográfica (SIG) – programas para processamento de dados geográficos –, muito do trabalho de mapear foi facilitado. Esse avanço também foi favorecido pelo aumento do poder computacional e pelo armazenamento de grandes volumes de dados em nuvem, que podem ser acessados e trabalhados colaborativamente via internet.

Toda essa revolução tem sido acompanhada pelo aumento da participação popular nos mapeamentos. O aporte de dados tornou-se mais diversificado, contando com a visão daqueles que conhecem bem os locais. E esse tipo de informação contribui para o empoderamento das comunidades, que passaram a participar das ações de planejamento, monitoramento e avaliação, levando as questões que lhe são importantes para o mapeamento.

Em regiões que não foram contempladas em mapeamentos oficiais – os chamados vazios cartográficos –, como áreas com aglomerados subnormais (favelas) ou de proteção ambiental, o mapeamento colaborativo pode auxiliar o aporte de dados relacionados a elas.

O uso de programas como o OpenStreetMap (OSM), a maior base cartográfica colaborativa da atualidade, tem permitido a realização de mapeamentos por grupos organizados em torno de um objetivo comum. O OpenStreetMap apresenta-se como ótima solução para suprir dados ausentes nos grandes vazios cartográficos ainda existentes no Brasil, por possuir uma enorme rede de usuários, que colaboram com grande volume de dados e realizam a validação da sua qualidade (ver ‘O mapeamento colaborativo no OpenStreetMap’).


O MAPEAMENTO COLABORATIVO NO OPENSTREETMAP

O OSM é o projeto que disponibiliza uma base cartográfica colaborativa, com dados de diferentes partes do mundo, incluídos e validados por uma comunidade voluntária de mapeadores, de utilização livre (desde que citada a autoria) e que têm como característica comum possuir uma localização na superfície terrestre (dados geoespaciais).

O OSM baseia-se no mapeamento colaborativo do terreno (ou de outros ambientes, como o mar), que atende a diferentes fins, valorizando o conhecimento local de quem contribui.

Criado em 2004 pelo empreendedor britânico Steve Coast, o OSM teve como foco inicial o Reino Unido. Desde 2006, o site e serviços relacionados são geridos pela Fundação OpenStreetMap, abrangendo todo o mundo. Até junho de 2021, existiam mais de sete milhões de usuários cadastrados globalmente, com mais de sete bilhões de elementos já mapeados.

As contribuições podem ser realizadas por qualquer pessoa, bastando um cadastro prévio na página da plataforma. Para inserir os dados geográficos e editar os mapas do OSM, os usuários têm à disposição programas que foram desenvolvidos com a linguagem de programação Java, como o editor iD, disponível na própria página web do OSM, ou programas autônomos como o JOSM.

Essas contribuições são apoiadas em pesquisas próprias, dados de GPS e imagens de satélite ou fotografias aéreas, de domínio público. Os dados podem ser inseridos no OSM como pontos, linhas ou polígonos (representando áreas), desenhados sobre imagens de satélite de fundo, fornecidas pelas empresas BingⓇ, ESRIⓇ, MapboxⓇ, dentre outras. Os elementos inseridos são descritos com detalhes em etiquetas.

O OSM fornece dados geoespaciais para milhares de sites, aplicativos móveis e dispositivos de computador. Esse mapeamento colaborativo é muito útil também para os gestores das pequenas cidades brasileiras, que geralmente não possuem uma base cartográfica própria, devido aos custos de geração dessas informações.
Modo de edição on-line do OSM para uma área do município de São José dos Campos, São Paulo FONTE: CONTRIBUIDORES DO OPENSTREETMAP (2021)



Aliado durante grandes tragédias

O trabalho de mapeamento colaborativo local vem ganhando destaque, em diversas partes do mundo, principalmente a partir de eventos de grande magnitude e impacto na mídia, como o terremoto ocorrido em 2010 no Haiti e que devastou a capital, Porto Príncipe, causando a morte de aproximadamente 300 mil pessoas e deixando mais de um milhão de desabrigados. Em um esforço internacional, a cidade teve todo o seu território mapeado em dias. Esse trabalho foi fundamental no planejamento das ações de resgate e salvamento das vítimas.


O TRABALHO DE MAPEAMENTO COLABORATIVO LOCAL VEM GANHANDO DESTAQUE, EM DIVERSAS PARTES DO MUNDO, PRINCIPALMENTE A PARTIR DE EVENTOS DE GRANDE MAGNITUDE, COMO O TERREMOTO OCORRIDO EM 2010 NO HAITI




No Brasil, situação semelhante aconteceu após o rompimento da barragem de rejeitos da mina Córrego do Feijão, pertencente à mineradora Vale S.A., em janeiro de 2019, no Município de Brumadinho, em Minas Gerais. As principais vias de locomoção na área foram mapeadas em curto espaço de tempo, por colaboradores locais e internacionais, o que contribuiu para que as equipes alcançassem as regiões atingidas com maior rapidez, auxiliando o socorro às vítimas e a busca de desaparecidos.


Referências nacionais

Exemplo relevante de mapeamento colaborativo é o trabalho realizado no Município de Jaraguá do Sul (SC), coordenado pelo engenheiro civil Hélio Cesar Tomio, que utilizou acervo de imagens aéreas e dados de GPS da Secretaria Municipal de Urbanismo. Colaboradores e voluntários realizaram a atualização de toda a base cartográfica municipal.

Já em Laranjal Paulista (SP), o mapeamento foi elaborado de forma independente pelo mapeador voluntário, arquiteto e urbanista Igor Eliezer, utilizando informações do levantamento de campo e de uma pesquisa bibliográfica de dados municipais. Os dados compilados foram disponibilizados no Atlas de Laranjal Paulista, utilizado como fonte de pesquisas sobre o local.

Esses casos são referências nacionais de como o uso das informações detalhadas mapeadas por diversos tipos de colaboradores (agentes públicos ou voluntários) pode se tornar uma base de dados cartográfica confiável e amplamente utilizada. Equipes de planejamento do poder público local e de empresas privadas têm a possibilidade de usá-las para diferentes finalidades, como a definição de linhas de transportes de passageiros, a distribuição de cargas, a localização de uma via de transporte, a construção de escolas ou ciclovias e a construção ou abertura de unidade fabril ou comercial.

Em nível estadual, destacamos o trabalho de mapeamento colaborativo realizado no Espírito Santo, onde o Governo do Estado disponibiliza a sua base de dados geográficos – o Sistema Integrado de Bases Geoespaciais do Estado do Espírito Santo (Geobases). Os mapeadores voluntários locais, coordenados por Luc Freitas, atualizam esses dados diretamente na plataforma do OSM.


Desafiadores vazios brasileiros

Mesmo com o avanço do mapeamento colaborativo e voluntário no Brasil, ainda há grande carência de colaboradores. Nas regiões Norte e Nordeste, onde existem grandes vazios de informações geográficas e cartográficas no OSM, essa situação fica mais nítida.


MESMO COM O AVANÇO DO MAPEAMENTO COLABORATIVO E VOLUNTÁRIO NO BRASIL, AINDA HÁ GRANDE CARÊNCIA DE
COLABORADORES



Entre os poucos colaboradores dessas regiões, estão os mapeadores voluntários Francisco Marques e Miguel Qualhano, que realizam, no extremo sul piauiense, onde se localizam os municípios de Bom Jesus e Corrente, um trabalho muito relevante. Essas localidades vêm se tornando, nos últimos anos, uma nova e importante fronteira agrícola, que integra a região denominada de MATOPIBA, formada pelos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Novos migrantes, principalmente oriundos do Sul do Brasil, estão transformando o Cerrado piauiense em imensas lavouras comerciais de soja, algodão e milho. E a dupla de mapeadores percebeu a necessidade de melhorar a base de dados cartográficos da região.



Mapeamento colaborativo e ações governamentais

O conhecimento mais detalhado das características territoriais é condição essencial para o planejamento, pelos governos, de grandes obras de infraestrutura, como construção de rodovias, ferrovias, usinas hidrelétricas e gasodutos, e também para a implantação de diversos empreendimentos da iniciativa privada.

Outras atividades relevantes, de interesse do poder público, de empresas e da sociedade, como monitoramento de áreas de floresta, levantamento de recursos minerais e demarcação de áreas indígenas, também necessitam dessas informações. E, considerando-se escalas maiores do que 1:10.000, mapeamentos de zoneamentos urbanos, de rede viária, de acessibilidade, de distribuição espacial de equipamentos urbanos e de áreas suscetíveis a movimentos de massa ou a inundações são outros exemplos de demanda de geração de dados geoespaciais cada vez mais detalhados e atualizados.

Em todas essas situações, é fundamental que órgãos públicos – das esferas federal, estadual, distrital e municipal – além de universidades, empresas, organizações não governamentais e mapeadores voluntários possam avançar no levantamento, na geração, na organização e no acesso a dados geoespaciais de qualidade e compatíveis com as escalas de análise e cartográfica do mapa final.

Ações do governo federal, em parceria com os governos estaduais, estão contribuindo para reduzir os vazios cartográficos de áreas que contavam com mapeamentos em pequenas escalas apenas, como as diversas cartas temáticas na escala de 1:1.000.000 produzidas no âmbito do Projeto RadamBrasil, na década de 1970. Até 2010, quase 1,8 milhão de km² da Amazônia Legal (correspondente a 35% dessa área) não possuía informações detalhadas da sua cartografia. Buscando reduzir esse vazio cartográfico, o governo brasileiro, por meio do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), lançou o Projeto Radiografia da Amazônia.


ATÉ 2010, QUASE 1,8 MILHÃO DE KM² DA AMAZÔNIA LEGAL (CORRESPONDENTE A 35% DESSA ÁREA) NÃO POSSUÍA INFORMAÇÕES DETALHADAS DA SUA CARTOGRAFIA




É realmente fundamental o desenvolvimento de novas iniciativas de mapeamento colaborativo para suprir os dados ausentes nos demais vazios cartográficos do Brasil. Diante dos grandes vazios cartográficos ainda existentes no país, fica evidente como os mapeamentos colaborativos são extremamente relevantes e urgentes para a gestão pública e para a iniciativa privada.


Raquel Dezidério Souto
Laboratório de Cartografia,
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Jocilene Dantas de Barros
Laboratório de Análises e Desenvolvimento de Indicadores para a Sustentabilidade,
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais

Marta Foeppel Ribeiro
Departamento de Geografia Física,
Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Miguel Ângelo Lima Qualhano
Departamento de Tributação e Cadastro Imobiliário,
Prefeitura de Jerônimo Monteiro/ES
Revista Ciência Hoje

domingo, 27 de maio de 2018

Veja o significado do nome dos países dos cinco continentes do mundo


Sabia que o nome Brasil vem de 'vermelho como brasa'?

Direito de imagemCREDIT CARE COMPARE

Sabemos os nomes de vários países e falamos sobre eles muitas vezes sem questionar o signifcado dessas nomenclaturas. Alguns são descritivos, outros não deixam margem para dúvidas, e vários têm versões divergentes. De toda maneira, todos eles dizem algo sobre o lugar que denominam - e descobrir isso é um exercício curioso e divertido.

Você sabe de onde vem o nome da Espanha, por exemplo? Ou seria capaz de localizar no mapa a terra dos arianos e a terra dos homens honestos?

Veja o significado do nome dos países dos cinco continentes do mundo.
Direito de imagemCREDIT CARE COMPARE

América

Os nomes dos países da América do Norte e Central contam a história da colonização europeia.

O nome América em si vem do explorador italiano Americo Vespúcio, que foi a primeira pessoa a perceber que o continente era uma massa de terra separada e não na costa leste da Ásia.

Era o "Novo Mundo" e estava destinado a um período trágico de guerras e conflitos por terra.

O México, colonizado pela Espanha, é a tradução simplificada para o espanhol do nome náuatle da capital asteca, chamada "no umbigo da lua".

Os exploradores espanhóis também chegaram a grande parte da América Central e do Caribe, onde encontraram preciosidades como "A terra junto da água" e "O lugar das romãs", conhecidas hoje como Nicarágua e Granada.

A América do Sul possui alguns dos ecossistemas mais diversos do planeta. É também o lar do maior rio do mundo: o Amazonas. Não surpreende, portanto, que muitos dos nomes dos países reflitam essa abundância de água.

A Guiana é derivada de uma língua indígena ameríndia e significa "Terra de muitas águas", enquanto a vizinha Venezuela tem o nome derivado da cidade italiana Veneza: "Pequena Veneza".

Um nome que chama a atenção é "Vermelho como uma brasa". Para quem não sabe, é o nome do Brasil.

Ele se refere à cor vermelha de uma madeira usada para tingir tecidos que os portugueses encontraram no país - o pau-brasil. Sua origem é a palavra celta "barkino" e que em espanhol passou a ser barcino, e depois Brasil.Direito de imagemCREDIT CARD COMPARE

No caso do Uruguai, existem várias versões sobre a origem do seu nome.

Pode vir do Uruguai, que em guarani é uma espécie de caracol e que significa água ou rio. Então significaria "rio de caracóis".

Outra teoria é que se refere ao uru, um pássaro parecido com a codorna; e gua, que significa "de". Junto seria o Rio do Urú. Outros dizem que de maneira geral é Rio dos Pássaros.

O poeta Juan Zorrilla de San Martín, por sua vez, interpretou o nome como "rio de pássaros pintados".Direito de imagemCREDIT CARE COMPARE

Ásia

A Ásia ocupa um terço da área total do mundo e é o continente mais populoso do planeta.

Sua rica diversidade cultural e de história se reflete nos nomes de seus países.

A dinastia Goryeo ou Koryŏ reinou de 935 a 1392, supervisionando um país que estava formando suas próprias tradições culturais. Esse país, agora dividido, é conhecido como Coreia, que pode ser traduzido como "alto e bonito".

Outros nomes falam sobre a geografia da região.

O nome Iraque refere-se à sua localização nas margens dos rios Eufrates e Tigre. Ele vem do árabe "al-'irāq", que se traduz como "ao lado da água".

A terra dos arianos está nesse mesmo continente. O nome é derivado do antigo "aryānam" persa - o plural de arya significa nobre, no sentido de alta linhagem. Então a terra daqueles que descendem de alta linhagem é o Irã.Direito de imagemCREDIT CARE COMPARE

África

A África é conhecida como o berço da civilização, o lugar de onde vem toda a humanidade.

Os nomes de seus países revelam uma história de culturas nativas e de colonização.

O Malaui, por exemplo, significa "Terra das Chamas", que acredita-se reflete o hábito local de queimar o pasto morta para preparar a terra para o cultivo.

Outros lugares falam mais daqueles que chegaram do que daqueles que foram.

O explorador português Fernando Pó percorreu o rio Wouri em 1472 e encontrou uma grande quantidade de camarão em sua viagem. Por essa razão, ele chamou de Rio dos Camarões, ou o Rio de Camarão, por isso o país é conhecido como Camarões.

Um dos nomes mais curiosos é o do Benim, que pode ser derivado dos bini, os habitantes originais do lugar. Também poderia vir de "Ile-ibinu", que na língua iorubá significa "Terra de discussão", uma possível referência à uma época em que as tribos estavam em guerra.Direito de imagemCREDIT CARD COMPARE

Europa

A Europa tem um longo histórico de exploração, e muitos dos nomes dos países refletem as terras e aqueles que as exploraram.

A França leva o nome de uma coalizão de tribos germânicas, os francos. O nome frank vem da antiga palavra alemã franka, que significa "feroz". Ou seja, França significa Terra do Ferozes.

Outros nomes indicam os caminhos que as pessoas usaram para descobrir seu mundo.

A Noruega, por exemplo, significa simplesmente "A estrada para o norte", referindo-se a uma antiga rota viking.

E a Espanha? A teoria mais comum é que esse nome seja derivado da palavra da extinta língua púnica "Ispanihad" que significa "terra de coelhos". Mas também é verdade que a Roma Antiga chamava a Península Ibérica de "Hispania", que viria da palavra Hesperia, cujo significado é "a terra do oeste" ou "a terra do sol poente".

Também na Europa está a terra de pessoas altas, a Macedônia, que vem do grego antigo "mak" (alto) e que devia, provavelmente, descrever aqueles que viveram ali.Direito de imagemCREDIT CARE COMPARE

Oceania

A Oceania pode ser o menor continente, mas suas paisagens diversificadas, desde florestas tropicais até vulcões e pastagens, fascinam as pessoas há séculos.

Foram os gregos que a chamaram de Terra Australis Incognita (Terra Desconhecida do Sul) quando eles sonhavam com as ainda desconhecidas paisagens do Hemisfério Sul.

Samoa significa "centro sagrado" e diz a lenda que foi lá onde o deus samoano Tagaloa dos Céus criou o mundo.

O nome Nova Zelândia tem duas histórias: o explorador holandês Abel Tasman a batizou em 1642 de "A Terra do Estado", porque pensou que ela estivesse de alguma maneira ligada às ilhas no sul da Argentina.

Quando os cartógrafos holandeses perceberam que não era o caso, eles mudaram o nome para Nova Zeelandia - em latim - e depois Nieuw Zeeland -em holandês porque lembrou da província holandesa de Zeeland que significa "terra do mar" .

Mas para os maori o local é Aotearoa, que significa "A terra da longa nuvem branca".

Talvez o nome mais simpático da região seja o da ilha de Nauru, que na língua nauruana significa "Eu vou à praia".

O mapa do mundo com os nomes literais dos países foi encomendado pela firma Credit Card Compare, feito pela NeoMam Studios - que também realizou as traduções para o português para a BBC Brasil.

segunda-feira, 27 de março de 2017

O que é a projeção Gall-Peters, mapa que promete acabar com '4 séculos de visão colonialista' do mundo


Direito de imagem Reprodução Image caption 
 
A projeção de Gall-Peters mostra proporção mais real dos continentes

Por mais de 400 anos, escolas de todo o mundo usaram mapas com distorções ​​nos tamanhos dos continentes.

As representações do mundo usadas ​​atualmente são baseadas na projeção feita em 1569 pelo cartógrafo Gerardo Mercator, destinada aos navegadores da época. Seus gráficos respeitam a forma dos continentes, mas não os tamanhos - neles, a Europa e a América do Norte são vistas maiores do que realmente são e o Alasca ocupa mais espaço que o México, embora seja menor.

Um dos erros mais significativos é que a África parece menor do que realmente é, quando na verdade tem o triplo da extensão da América do Norte e é 14 vezes maior que a Groenlândia.

Mas agora algumas salas de aula de escolas públicas de Boston, no nordeste dos Estados Unidos, começaram a usar o mapa de Gall-Peters, projeção batizada em homenagem a James Gall, escocês aficionado por astronomia que a desenhou pela primeira vez em 1855, e ao historiador alemão Arno Peters, que a difundiu na década de 1970.

Esse mapa mostra o tamanho e a proporção de países, continentes e oceanos com mais precisão. Na semana passada, cerca de 600 escolas públicas da cidade americana receberam cópias dele, noticiou o jornal The Boston Globe.

Uma das principais mudanças é que a Europa aparece muito menor do que se via antes em comparação com a África, que é muito maior.
Continentes distorcidos

Uma das razões para as distorções cartográficas é a dificuldade de se projetar uma esfera como a Terra - de três dimensões - em uma superfície plana, de duas dimensões, como a de um mapa.

Mas, para os geógrafos, atrás dos erros de Mercator há também outra razão.

"A maioria dos primeiros mapas do mundo foi criada por europeus do norte", disse Vernon Domingo, professor de geografia da Universidade Estadual de Bridgewater e membro da Aliança Geográfica de Massachusetts, em declaração ao The Boston Globe.

"Eles tiveram a perspectiva do hemisfério norte - e também uma perspectiva colonialista." Direito de imagem 
 
Reprodução Image caption 
 
No mapa de Mercator, a Groenlândia é quase do tamanho da África
Descolonizar o currículo

A troca de mapas responde ao desejo de Boston de "descolonizar o currículo", disse ao mesmo jornal Colin Rose, superintendente-assistente do Escritório de Oportunidades das Escolas Públicas de Boston.

"Trata-se de mapas, mas, ao mesmo tempo, não se trata de mapas", disse Rose. "Esta é uma mudança de paradigma. Nós tivemos uma visão que era muito eurocêntrica. E como podemos falar de outros pontos de vista? Esse é um excelente ponto de partida."

Para Hayden Frederick-Clarke, diretor de competências culturais das escolas públicas de Boston, o erro mais grave das projeções de Mercator é o tamanho da África.

"Dos nossos alunos, 86% não são brancos e têm pais e avós que são de locais que são mostrados menores nos mapas", disse Frederick-Clarke ao programa The World, da PRI (Public Radio International) e da BBC.

"Queremos que os alunos se vejam de forma adequada e contestem a narrativa de que muitos desses lugares são pequenos e insignificantes no mundo", disse.

"A Groenlândia parece ter o mesmo tamanho da África e dos EUA. Parece de um tamanho comparável, embora sabemos que isso não é uma verdade absoluta. A África é 14 vezes maior do que a Groenlândia. Além disso, no mapa de Mercator, o México é menor que o Alasca, quando na verdade é muito maior", disse o professor.

"Também há problemas com o Brasil. A Europa, mais especificamente a Alemanha, aparecem perto do centro do mapa. E sabemos que isso não é verdade."

"Da minha experiência como instrutor, sei que as pessoas gostam da verdade e que os professores querem apresentar um produto melhor e mais autêntico", disse Frederick-Clarke.

O jornalista da PRI David Leveille diz que os críticos da iniciativa a veem como "mais uma batalha na guerra de culturas" e insistem que "um mapa é apenas um mapa".

Segundo Leveille, eles perguntam: "nenhum mapa é perfeito, então porque se preocupar?".
BBC BRASIL

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Novo mapa revela segredos do fundo dos oceanos

Estudo publicado pela revista Science mostra novo mapa com o dobro de detalhes do fundo dos oceanos. Cientistas encontraram cordilheira e vulcões inativos

NOAA/NASA GOES Project via Getty Images
Oceanos: novo mapeamento descobriu segredo do fundos dos oceanos


São Paulo – Cientistas produziram o mais detalhado mapa do fundo dos oceanos. A superfície daTerra embaixo dos oceanos é pouco explorada e pouco conhecida de forma geral. Cerca de 90% do fundo do mar ainda não é devidamente mapeado.

As consequências práticas disso ficaram claras recentemente. Essa falta de conhecimento atrapalhou muito as buscas pelo avião do voo MH370 da Malaysia Airlines que se supõe que tenha caído no Oceano Índico.

Para esse mapeamento, os cientistas usaram uma nova técnica. Nada de sondas enviadas para o fundo do mar ou submarinos viajando por horas a fio. Eles fizeram o cruzamento de dados captados por satélites orbitando no espaço.

Pode parecer um contrassenso usar satélites para conhecer o fundo dos oceanos. Mas os cientistas usaram as informações de mudanças de gravidade no campo da Terra. Dessa forma, foi possível “mergulhar” no oceano e mapear tudo que houvesse lá no fundo. O resultado é um mapa com o dobro de precisão do que se tinha até agora.

Graças ao mapeamento, os cientistas descobriram alguns segredos surpreendentes. Milhares de vulcões gigantescos foram encontrados. Medindo até mil metros de altura, todos são inativos hoje.

Os cientistas também encontraram milhares de montes com até 2 quilômetros de altura. Outra descoberta inesperada foi de uma coordilheira de 800 km de extensão. Ela se estende pelo sul do oceano Atlântico e já parou de crescer.

As novas informações podem levar a teses sobre a formação do nosso planeta. O mapa foi realizado por pesquisadores do Centro de Oceanografia Scripps, filiado a Universidade da Califórnia em San Diego.

De acordo com um dos cientistas, o mapa já despertou interesse de empresas petrolíferas. Os novos detalhes poderiam auxilia-las a encontrar possíveis locais para extração de petróleo ou gás natural.
Revista EXAME

segunda-feira, 5 de março de 2012

O primeiro mapa-múndi

Planisfério de Cantino, considerado o primeiro mapa-múndi a representar a superfície terrestre em seu conjunto, apresentando os dois hemisférios lado a lado. (foto: reprodução)


Quando e como foi feito o primeiro mapa-múndi?

Amanda Estela Guerra

O primeiro mapa-múndi de que se tem notícia foi feito na Babilônia entre os séculos 7 e 6 a.C. Inscrito em argila cozida, esse mapa associava conhecimentos adquiridos por meio da prática cotidiana dos babilônios, representando parte da baixa Babilônia (atual região do Iraque), com concepções filosóficas acerca do mundo, como as apresentadas por Homero.

Nesse período, a Terra era entendida como um disco plano rodeado por um rio de água salgada que ficava em constante movimento, chamado Oceanus.

O primeiro mapa-múndi de que se tem notícia foi feito na Babilônia entre os séculos 7 e 6 a.C.Atualmente, o conceito de mapa-múndi é o de um mapa que representa a superfície terrestre em seu conjunto, apresentando os dois hemisférios (ocidental e oriental) lado a lado.

O primeiro mapa-múndi feito de acordo com esse conceito é conhecido como Planisfério de Cantino. Elaborado em 1502 a mando de um espião italiano chamado Alberto Cantino, esse mapa foi o primeiro a representar o mundo conhecido de então, após a descoberta do continente americano.

Foram usadas as informações fornecidas pelos navegadores sobre o contorno dos continentes, coletadas com a ajuda de instrumentos como o astrolábio, que servia para determinar a latitude em alto-mar.

Além disso, o cartógrafo incluiu partes da Europa, Ásia e África, que já eram do conhecimento dos europeus na época.

Amanda Estela Guerra
Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
Revista Ciência Hoje

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Muito além dos mapas tradicionais

Geógrafa defende que a cartografia adote novos padrões para confecção de mapas
Eliana Pegorim

O mapa acima traz uma anamorfose que representa uma projeção da população do mundo para o ano 2025, em que o tamanho de cada país é proporcional à população (fonte: Relatório Mundial sobre o Desenvolvimento Humano/1990)

A cartografia pode mostrar outros aspectos do espaço geográfico além das distâncias medidas em metros e quilômetros. É o que propõe a geógrafa Fernanda Padovesi Fonseca. Em sua tese de doutorado, defendida em setembro na Universidade de São Paulo, ela questiona a cartografia tradicional euclidiana como a linguagem ideal para representar a geografia.

"Entre os pesquisadores dessa área, a cartografia está naturalizada como linguagem exclusiva da geografia, mas ela não consegue representar o espaço de modo adequado da forma como é feita hoje", explica Fonseca. "Nos mapas atuais, as distâncias são representadas de modo absoluto e as diferenças sociais são esquecidas. Um condomínio fechado pode estar ao lado de uma favela em um mapa que só verifique a distância em quilômetros, mas as distâncias sociais são enormes", exemplifica.

A renovação da geografia
O movimento de renovação da geografia, iniciado na metade década de 1970, procura tornar a geografia uma ciência social. "O ponto de partida é considerar que o espaço produzido pelas sociedades contribui para o entendimento delas", explica Fonseca.

A idéia de renovar a geografia clássica tem grande força nos países anglo-saxões e na França. No Brasil, o principal defensor do movimento foi o geógrafo Milton Santos (1926-2001). Seus defensores queriam acabar com ambigüidade epistemológica da geografia, situada entre ciências naturais e humanas embora, na prática, tratasse as questões humanas como uma ciência da natureza.

"As ciências da natureza não oferecem elementos para analisarmos o complexo espaço geográfico, construído pelas ações e relações humanas", compara Fonseca. Além disso, os críticos da geografia clássica condenavam o excesso de descrição e a ausência de rigor científico, sobretudo na forma como ela era ensinada nas escolas.

Na opinião de Fonseca, é preciso pensar uma cartografia que represente o novo modo de entender o espaço geográfico defendido pelo movimento de renovação da geografia.

A pesquisadora destaca o exemplo das redes de transportes e comunicações, que mudaram a relação entre as pessoas e espaços. Cidades que linearmente podem ser mais distantes ficaram mais próximas devido à sua posição nessas redes. No entanto, a geografia ensinada na escola ainda se preocupa apenas em investigar e detalhar as paisagens de cada região. Para esse tipo de estudo, a cartografia atual satisfaz.

"Nos mapas-múndi, os oceanos estão em posição de destaque e ocupam muito mais espaço, mas as pessoas vivem nos continentes", diz Fonseca. "Outra base além dos tradicionais metros – da cartografia euclidiana – poderia permitir que, nesse caso, os continentes fossem representados de outra forma que mostrasse a importância relativa de cada um."

Uma nova maneira de representar essas mudanças – ainda pouco explorada no Brasil – é o uso de outros elementos para a confecção dos mapas, como dimensão da população e medidas temporais. Esses procedimentos são conhecidos como anamorfoses.

Embora essa discussão mobilize muitos teóricos da geografia, não se sabe quando ela modificará os mapas usados no dia-a-dia. Segundo Fonseca, ainda há muita resistência a uma nova cartografia entre os próprios geógrafos, o que tem atrasado o desenvolvimento teórico e prático da disciplina. "Além disso, os mapas geométricos estão tão consagrados que a criação de novos mapas concebidos em outras bases terá imensas dificuldades para ganhar espaço e visibilidade", prevê.

Eliana Pegorim
Revista Ciência Hoje

Anamorfose Geográfica


Anamorfose - Distribuição do número de habitantes entre os países

Anamorfose indicando o PIB dos países


Tipo de mapa temático em que as áreas dos países são mostradas proporcionais ao fenômeno representado. Os elementos representados não aparecem em escala cartográfica e não há fidelidade nas formas.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O mapa, esse desconhecido

Ensino da cartografia vive momento de transição, dificultado pela pouca renovação conceitual na formação docente

Rubem Barros


Alunos do Colégio Santo Américo: alfabetização cartográfica

No divertido e erudito livro em que faz a defesa da história como ciência e compara os métodos do historiador aos dos cientistas de outras áreas, o historiador americano John Lewis Gaddis, da Universidade de Yale, evoca o poder de síntese, a combinação "de economia e intensidade com que as imagens visuais podem expressar metáforas".

As imagens a que Gaddis faz referência logo no início de Paisagens da história - Como os historiadores mapeiam o passado (Editora Campus, 2003) permitem que o pesquisador exercite diferentes níveis de análise ao se aproximar ou se afastar de um objeto, tendo dele diferentes perspectivas que ajudam a enxergá-lo de forma mais rica e variada. E essas imagens e as metáforas delas decorrentes corresponderão sempre não à realidade propriamente, mas à sua representação.

Essa multiplicidade de pontos de vista mencionada por Gaddis - como, não por acaso, atesta o título do seu livro - é exatamente aquela traduzida pelos diferentes níveis de leitura pressupostos pela cartografia moderna, como sintetiza Andréa Zacharias, em texto dedicado às questões de "Comunicação cartográfica e representação gráfica das unidades de paisagem". O nível elementar, inventário de questões simples (onde, o quê, como etc.); o nível de conjunto, que corresponde a uma visão global, como uma paisagem vista de cima; e o médio, próprio para a percepção de "agrupamentos intermediários", marcando subdivisões ou regionalizações.

Ou seja, numa era de prevalência da imagem e das abordagens interdisciplinares, a linguagem cartográfica, elemento essencial para representar o espaço, deve ser um instrumento didático recorrente na educação das novas gerações, certo? Ao contrário. A cartografia tem sido subutilizada ou, muitas vezes, utilizada segundo padrões ainda ligados à geografia clássica. No momento em que os geógrafos recorrem cada vez mais a uma cartografia semiológica, parece haver um vácuo entre o que se pratica nas escolas e a metodologia que tem pautado a disciplina em seus estudos e práticas mais avançados.

Para entender o que acontece na escola, muitas redes públicas e colégios particulares têm investido na capacitação de docentes da Educação Básica, na oferta de novos materiais e na reformulação das licenciaturas. Foi o caso, por exemplo, da rede estadual paulista, que adota essa nova visão da cartografia no projeto "São Paulo faz escola", iniciado em 2009, além de ter ofertado cursos de formação aos coordenadores pedagógicos de suas 91 diretorias, depois da constatação de que os docentes da rede tinham dificuldade de trabalhar com mapas.

Segundo Sérgio Damiati, membro da equipe técnica de geografia da Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas (Cenp) da secretaria paulista, a proposta visava introduzir no ensino médio noções de cartografia temática (semiológica) e sistemática (conceitos sobre os princípios de construção do mapa). A secretaria espera aferir no final deste ano, quando o Saresp testará as habilidades dos alunos também em geografia, como anda a capacidade dos alunos para ler as informações cartográficas. Mas Damiati relata que houve bastante dificuldade dos alunos no entendimento de representações cartográficas com anamorfoses, ou seja, distorções da imagem em relação à tradicional ou conhecida, em função normalmente de um tema a ser representado. Quando o tema é a densidade populacional da Ásia, por exemplo, o Japão ganha área bem maior do que quando apenas a área do território é representada.

Métricas
"As anamorfoses só eram utilizadas no ensino superior. O aluno do ensino médio não está habituado à distorção, ela complica sua leitura do mapa, eles não conseguem localizar algumas informações que antes dominavam", diz Damiati sobre o que tem sido percebido no processo. A ênfase nesse tipo de representação é propositada para deixar claro que, qualquer que seja o mapa, ele deriva de escolhas sobre o que representar e como fazê-lo. E que o espaço geográfico comporta métricas diversas. "A métrica é um componente do mapa e não pode ser naturalizada. No discurso geográfico, essas outras dimensões não expressas pela métrica euclidiana são óbvias. Nos mapas, não", resume Fernanda Padovesi Fonseca, do departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

Fernanda é coordenadora do grupo de pesquisa responsável pela análise e avaliação da presença da cartografia nas aulas do ensino médio da rede estadual. Em relatório deste ano sobre o uso dos mapas na implementação do "São Paulo faz escola", chegou-se à conclusão de que a semiologia gráfica está distante da geografia, "tanto no ensino desta linguagem quanto seu uso nos mapas dos materiais didáticos". Apesar de a pesquisa ter pouca abrangência - apenas quatro universitários foram a campo para observar as aulas do ensino médio - dá indícios de que, além da resistência dos professores aos materiais, há limitações derivadas da formação docente. Essas decorrem de uma visão ainda presa aos conceitos da geografia clássica, pois os professores mostram domínio "teórico-metodológico para tratar as questões de escala e projeção", mas patinam quando se trata de outras métricas e semiologia.

O que quer dizer que o mapa ainda resta como recurso de localização, memorização e ilustração para outras fontes de informação, sem que seja visto como um "polo consistente de discurso". "O mapa é um desconhecido de todas as classes sociais. Há um estranhamento grande do trabalho com ele. É preciso mostrar que o mapa pode revelar coisas que as outras linguagens não podem, pois ele tem uma linguagem instantânea, fácil de visualizar", diz Fernanda.



Alfabetização cartográfica

No âmbito escolar, há um movimento não só para superar o dilema "falta de uso/uso apenas para localização/memorização", como também para introduzir o conhecimento do paradigma semiológico. Apesar de as ideias de semiologia gráfica do francês Jacques Bertin terem aportado por aqui desde os anos 80, foi apenas nos últimos anos que ganhou corpo o conceito de alfabetização cartográfica, por meio de autores como Maria Elena Simielli, Sônia Castellari, Rosângela de Almeida e Helena Callai, entre outros que tiveram a preocupação de renovar os livros didáticos para a Educação Básica.

Para a efetivação desse processo, o desenvolvimento de algumas noções e conceitos passa a ser feito já no início do ensino fundamental, para dar ao aluno recursos que permitam que ele aproveite a carta em nova dimensão: "o mapa passa a ser um instrumento de análise das informações geográficas", diz Arno Goettens, supervisor de geografia do Colégio Santo Américo, escola particular de São Paulo.

Nessa perspectiva, o domínio cartográfico está associado principalmente à psicologia cognitiva de Jean Piaget, como sumariza Andréa Zacharias no texto citado, com um deslocamento do "produto da ação", para o "sujeito da ação". Ou seja, aqui a questão comunicacional não se resume, como numa visão funcionalista anterior (ligada à geografia clássica), aos polos transmissor e receptor da informação, mediados por um código. Os conhecimentos prévios do sujeito que busca a leitura do mapa poderão fazê-la maior que a própria mensagem, de acordo com sua capacidade de juntar informações e fazer inferências.

Para o professor Goettens, o perío­do é de transição nesta nova prática, o que demanda cuidados na hora de associar os conteúdos a determinados estágios cognitivos. No colégio em que trabalha, no entanto, as aulas de geografia ganharam nova dimensão há três anos, depois que a disciplina de estudos sociais foi dividida em geo­grafia e história já no fundamental 1. Assim, os alunos passaram a trabalhar com noções de cartografia a partir do 2º ano do fundamental, quando aprendem noções de lateralidade. No ano seguinte, passam a desenvolver a percepção de visão oblíqua, horizontal e vertical, e leitura e representação de paisagens; no 4º ano, ampliam os elementos para a leitura de paisagens e adicionam questões de proporção e escala, conceitos trabalhados nos planos nacional e regional no 5º ano. Esses ensinamentos constituem a base a ser aplicada no fundamental 2 e no ensino médio, com acréscimos tanto nos conteúdos quanto nas habilidades desenvolvidas.

Apesar de a identificação dos alunos menores não ser imediata com a cartografia, pois demanda que eles se instrumentem para fazer uma leitura mais rica dos mapas, os relatos dos professores dão conta de que as aulas de geografia tiveram boa aceitação. Ancorada nos mapas, a disciplina trouxe atividades lúdicas e interativas. "Essas práticas ajudam, inclusive, a identificar e resolver problemas e defasagens em outras disciplinas, como a dificuldade para trabalhar com proporção em matemática, ou com descrições em língua portuguesa", diz Goettens.

Essa dimensão prática trazida pela cartografia no colégio vem ao encontro daquilo que foi detectado como um fator positivo na análise feita pelo grupo de estudos da USP nas escolas públicas de ensino médio: quanto maior a participação direta dos alunos, como no caso dos exercícios de construção de mapas, maior a adesão deles à disciplina. Fato que anima os pesquisadores a propor aos docentes que façam com os estudantes desde a coleta e a sistematização de dados até a elaboração do fundo de mapa (derivado da escolha de métrica, escala e projeção). Ou seja, atividades que mostrem aos alunos a relação entre a experiência do olhar e a interpretação de uma realidade. Afinal, como diz John Lewis Gaddis, "os mapas têm em comum com os historiadores a tarefa de empacotar a experiência alheia".

Para saber mais
Paisagens da história - Como os historiadores mapeiam o passado, de John Lewis Gaddis, Editora Campus, 2003, trad. Marisa Rocha Motta

Cartografia escolar, de Rosângela Doin de Almeida (org.), Contexto, 2007

Cartografia no ensino fundamental e médio, de Carlos Afã (org.), Contexto, 2005

A representação gráfica das unidades de paisagem no zoneamento ambiental, de Andréa Zacharias, Unesp, 2010.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Cientistas fazem 'mapa da gravidade' da Terra


Jonathan Amos
da BBC News, em Bergen

Cientistas criaram um "mapa da gravidade" terrestre, mostrando as diferentes influências desta força física ao redor do planeta.

O modelo, conhecido como geoide, define onde estão os níveis da superfície terrestre, esclarecendo se o sentido é "para cima" ou "para baixo".

Os cientistas afirmam que os dados podem ser usados em inúmeras aplicações, entre elas nos estudos de mudança climática para ajudar a entender como a grande massa de oceanos move calor ao redor da Terra.

O novo mapa foi apresentado em um simpósio sobre observação terrestre em Bergen, na Noruega, onde também estão sendo apresentados dados recolhidos por outras missões da Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês).

Antes do fim da década, cerca de 20 missões da ESA totalizando cerca de 8 bilhões de euros serão lançadas para observar o espaço através de sondas.

Parâmetros

O mapa foi desenhado a partir de medições precisas realizadas pelo satélite europeu Goce, sigla formada a partir das iniciais da sonda exploradora de campo gravitacional e equilíbrio estacionário que circula na órbita terrestre a uma altitude de pouco mais de 250 km da superfície – a órbita mais baixa de um satélite de pesquisa em operação.

A Goce carrega três pares de blocos de platina dentro de seu gradiômetro – o aparelho que mede o campo magnético da Terra – capazes de perceber acelerações leves da gravidade sentida na superficie.

Em dois meses de observação, o satélite mapeou diferenças quase imperceptíveis na força exercida pela massa planetária em diferentes pontos do globo.

O mapa define, em um determinado ponto, a superfície horizontal na qual a força da gravidade ocorre de maneira perpendicular.

Estas inclinações podem ser vistas em cores que marcam como os níveis divergem da forma elíptica da Terra. No Atlântico Norte, perto da Islândia, o nível se situa a cerca de 80 metros sobre a superfície da elipsoide. No Oceano Índico, esse nível está 100 metros abaixo.

Os cientistas dizem que o mapa permitirá aos oceanógrafos definir como seria a forma dos oceanos se não houvesses marés, ventos e correntes marítimas. Subtraindo a forma do modelo, ficam evidentes estas outras influências.

Esta informação é crucial para criar modelos climáticos que levam em conta como os oceanos transferem energia ao redor do planeta.

Usos

Há outros usos para o geoide. O modelo fornece um sistema universal para comparar altitudes em diferentes partes da Terra, à semelhança dos aparelhos de nivelamento que, na construção, revelam aos engenheiros para onde um determinado fluido corre naturalmente dentro de um tubo ou cano.

Cientistas geofísicos também podem usar os dados da sonda para investigar o que ocorre nas entranhas profundas da Terra, especialmente naqueles pontos susceptíveis a terremotos e erupções vulcânicas.

"Os dados da Goce estão mostrando novas informações no Himalaia, na África Central, nos Andes e na Antártida", explica o coordenador da missão da Esa, Rune Floberghagen.

"São lugares bem inacessíveis. Não é fácil medir variações de alta frequência no campo gravitacional da Antártida com um avião, porque há poucos campos aéreos a partir dos quais operar."

A altitude extremamente baixa da Goce deveria limitar a utilização da sonda por no máximo mais dois anos. Entretanto, níveis relativamente baixos de atividade solar produziram condições atmosféricas calmas, fazendo o satélite consumir menos combustível que o estimado.

A equipe crêe que a sonda poderia ser utilizada até 2014, quando a falta de combustível desaceleraria a missão, obrigando-a a sair de órbita.

BBC Brasil

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