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sexta-feira, 17 de abril de 2026

O que é Violência Urbana

 



Resumo da Obra: 

O que é Violência Urbana Autor: Régis de Morais 

O entendimento da violência urbana vai muito além da conceituação de homens bons e homens ruins, até porque não se pode definir quem são os homens bons e quem são os homens ruins. É conseqüência da nossa sociedade e não uma característica dela. Régis de morais, no livro, inicia o seu trabalho focando o medo. O medo que eu tenho de sair às ruas, que você tem e que, por si só, é um fator de geração da violência urbana. Isto acontece porque, quanto mais reprimidos os homens, mais drásticas são as suas atitudes. Explicando, o homem que se mantém reprimido o tempo todo, escondendo-se na sociedade, permite que outros que dominam tomem as rédeas do que será desenvolvida na cidade, gerando um nível de poder extremo, o homem, que ao se ver reprimido reage, vai ao encontro de uma afirmação constante no livro, a de que a brutalidade é a arma dos fracos. Em qualquer das duas hipóteses, o homem é uma marionete. Isto porque, como afirmado no segundo trecho, o espaço é político, e quando se fala em política, se fala em poder. No espaço das cidades, principalmente grandes cidades, que é o alvo principal do estudo, o poder encaminha a população e por conseqüência delimita o seu nível de ação, como acontece em qualquer das organizações, das mais simples as mais evoluídas. Como conseqüência da impotência dos menos poderosos, pra não dizer sem poder, surge à brutalidade dos fracos, tidos por muitos como a raiz da violência urbana, mas ai, nos perguntamos, a raiz representa a base, a base é começo, onde começa tudo isso? Na brutalidade dos fracos ou na opressão de um sistema que difere a todos. Creio eu que todos já sabem essa resposta... Por todas essas situações, o homem perde a sua maior riqueza, a sua identidade, a sua capacidade de enxergar em si a pretensão de ser melhor. Isto gera violência. Como podemos julgar o detento rebelado que fora preso por roubar, mas que, dentro da cadeia, possui seus pertences roubados e não vê ninguém ser punido por isso? Como podemos julgar o homem que pode produzir grandes produtos sem que possa ter o poder de consumi-los? É um mundo que, por mais que o homem tente se livrar dos descaminhos e do barbarismo, ele está sendo constantemente sendo persuadido a viver assim. Um sistema que estimula a violência na medida em que não estimula a inserção social dos oprimidos. E o futuro, sobre o qual nós temos grandes expectativas, representa o mesmo presente que as pessoas tinham grandes expectativas há 30 anos atrás. Nossas crianças, antes açoitadas por um mundo de miséria e repressão, quando hoje, além da miséria, vivem sobre a mira de uma ideologia programática. Se antes havia ao menos a humanidade como atenuante, hoje elas crescem com máquinas no auxilio do desenvolvimento. No livro, ele coloca a seguinte idéia: Sociedade no mundo contemporâneo está resumida á: homem = produção = dinheiro, crianças não produzem, logo, não se encaixam no ideal e, até que possuam aptidão para tal, são apenas mais um problema ou mais uma boca pra se alimentar, como ele relata. Concluindo, a grande contribuição do livro é que, violência urbana vai muito além dos fatos, muito além das causas superficiais. Violência urbana é apenas uma conseqüência do princípio desejo e poder. Se você deseja e pode, está tudo perfeito, se o desejo existe e o poder não vem acompanhando, diferentemente de outras pessoas, surge esta realidade social, afinal, ninguém abre mão do poder e da mesma forma, ninguém abre mão do desejo. 

Bibliografia 

• MORAIS, R. de. O que é violência urbana. São Paulo: Brasiliense, 1981.)

sábado, 14 de fevereiro de 2026

A fronteira do Matopiba: as novas faces da expansão do capital e seus conflitos


 

A fronteira do Matopiba: as novas faces da expansão do capital e seus conflitos, Marta Inez Medeiros Marques, Vicente Eudes Lemos Alves (organizadores), São Paulo: FFLCH, 2024

O livro explora a complexa dinâmica da expansão do capital na região do Matopiba, que abrange as zonas fronteiriças dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, onde está emergindo uma nova fronteira agrícola em larga escala. Destaca os conflitos socioambientais resultantes nessa região dinâmica e contraditória, um laboratório para as transformações do capitalismo semiperiférico.

2O livro inclui mais de vinte artigos e é dedicado à memória de Carlos Walter Porto-Gonçalves, um geógrafo influente.

Figura 1. Localização de Matopiba no bioma Cerrado e no território nacional.

Figura 1. Localização de Matopiba no bioma Cerrado e no território nacional.

3A seção “Perspectivas Teóricas e Históricas” analisa a noção de fronteira a partir de diversas perspectivas teóricas e históricas. Ela é examinada em relação ao desenvolvimento desigual do capital e às tensões ambientais. Marta Inez Medeiros Marques discute a expansão da fronteira agrícola no Brasil e suas implicações, e Vicente Eudes Lemos Alves aborda os impactos do agronegócio sobre as populações locais e o meio ambiente.

4A seção “Propriedade e Mercados de Terras  ” aborda as raízes da concentração fundiária e dos conflitos relacionados à terra no Brasil. O falecido Ariovaldo Umbelino de Oliveira apresenta uma visão geral da propriedade da terra e da grilagem (apropriação ilegal de terras). Fábio Pitta e Teresa Paris analisam os conflitos fundiários no sul do Piauí, exacerbados pela entrada de capital transnacional, e Samuel Frederico e Bruno Spadotto identificam os investidores financeiros no agronegócio entre 2008 e 2016.

Figura 2 Número de conflitos rurais – 1985-2023

Figura 2 Número de conflitos rurais – 1985-2023

5A seção "Questões Sociais e Territórios em Conflito" destaca as lutas das comunidades tradicionais contra a expansão do agronegócio: o movimento Teia, do Povos, luta pelo reconhecimento dos direitos territoriais das comunidades tradicionais; as comunidades quilombolas do sul do Piauí lutam para manter suas terras e sua identidade; e os Akwẽ-Xerente, no Tocantins, enfrentam desafios de sobrevivência e fragmentação social.

6A seção sobre "Impactos Sociais e Ambientais" examina as consequências do agronegócio no meio ambiente e nas comunidades locais. A expansão do agronegócio leva a conflitos relacionados à água e ao desmatamento, como ilustrado pelos protestos pela água em Correntina, em 2017. Os autores enfatizam que as questões da água e da terra estão interligadas e devem ser abordadas em conjunto.

7"Expropriação e Conflitos Sociais em Matopiba" explora a dinâmica da expropriação comunitária em Matopiba, destacando os impactos das políticas ambientais e dos interesses econômicos.

  • As alterações ao Código Florestal em 2012 facilitaram o "cercamento verde", permitindo a apropriação de terras e florestas.

  • Observou-se um aumento nos cadastros ambientais, ligado ao crescimento dos "negócios verdes" por parte de grandes empresas.

  • Os conflitos fundiários no Parque Estadual do Mirador, no Maranhão, foram exacerbados pela expansão da agricultura moderna desde a década de 1980.

  • As comunidades locais sofrem com a violência dos grileiros e com a poluição dos recursos hídricos causada pelas grandes operações agrícolas.

Figura 3 Conflitos de terras em Matopiba (2015-2022)

Figura 3 Conflitos de terras em Matopiba (2015-2022)

8O capítulo "Expansão de Capital e Agroeconomia" analisa a acumulação histórica e o impacto socioambiental da agricultura capitalista no Cerrado.

  • A região de Matopiba tornou-se uma "zona de sacrifício", caracterizada por uma alta concentração de terras e relações de trabalho precárias.

  • O investimento público na agricultura beneficiou principalmente os grandes produtores, exacerbando as desigualdades.

  • A produção de soja aumentou 92% em dez anos, atingindo 35 milhões de toneladas, enquanto a produção de culturas básicas diminuiu.

Figura 4. Cultivo de soja em Matopiba – 2015 e 2022

Figura 4. Cultivo de soja em Matopiba – 2015 e 2022

9A seção "Transformação Econômica e Social em Matopiba" destaca as transformações econômicas e sociais resultantes da expansão do agronegócio na região.

  • Matopiba se caracteriza pela especialização na produção de commodities , principalmente soja, milho e cana-de-açúcar.

  • A população rural está diminuindo, enquanto as cidades crescem rapidamente, atraindo migrantes.

  • A separação entre a propriedade da terra e a atividade agrícola intensificou-se, com o arrendamento de terras a aumentar de 235.000 hectares para mais de 1,8 milhões de hectares entre 1995 e 2017.

10"Finanças e Acumulação na Agricultura" examina o papel das finanças na acumulação de capital e na transformação das relações de propriedade na agricultura.

  • O setor financeiro possibilitou o fortalecimento do capital, com aumento dos ativos financeiros e instabilidade permanente.

  • As grandes empresas agrícolas concentram-se na apropriação do excedente em vez da produção.

  • A atual crise de capitais está ligada à sobreacumulação e à necessidade de encontrar novos mercados para o capital excedente.

11"Conflitos Territoriais e Resistência" destaca as lutas das comunidades tradicionais contra a apropriação de terras e a degradação ambiental.

  • Conflitos territoriais são frequentes entre comunidades locais e grandes empresas agrícolas.

  • As populações tradicionais estão se organizando para defender seus direitos territoriais e recursos naturais.

  • A resistência está se intensificando, com alianças estratégicas em diferentes níveis para combater a apropriação de terras.

12De acordo com "Globalização Financeirizada e seus Impactos", isso representa uma nova fase do capitalismo, marcada pela apropriação da mais-valia e pelo domínio das grandes empresas.

  • O setor financeiro evoluiu rumo à autonomização do capital, distanciando as operações financeiras dos processos de produção de valor.

  • Os mercados financeiros fomentaram uma instabilidade econômica permanente e a especulação sobre ativos muito distantes da produção real.

  • A concentração de capital levou ao domínio oligopolista, onde as grandes empresas exploram os recursos dos mais fracos.

  • A crise de 2008 revelou a necessidade de apoio estatal às instituições financeiras, destacando a ligação entre o Estado e o capital financeiro.

13A seção "A fronteira agrícola e sua evolução" mostra que se trata de um processo de expansão de capital, influenciado por dinâmicas econômicas e sociais complexas.

  • A colonização interna foi marcada pela apropriação de terras e pela integração de novas populações nos mercados.

  • Os movimentos migratórios muitas vezes levam a conflitos com populações tradicionais, como os povos indígenas.

  • A expansão da fronteira agrícola foi acompanhada por projetos de infraestrutura, promovendo a produção agrícola para o mercado interno e para exportação.

  • A especulação imobiliária desempenhou um papel fundamental no aumento dos preços da terra e na industrialização da agricultura.

14As transformações do capital agrícola envolvem mudanças significativas, com crescente integração do capital financeiro e industrial.

Figura 5. Área (em hectares) por Estado controlada pelo capital financeiro, 2008-2016.

Figura 5. Área (em hectares) por Estado controlada pelo capital financeiro, 2008-2016.
  • A modernização da agricultura levou a uma maior dependência da indústria, com mudanças nas relações de trabalho.

  • Grandes empresas do agronegócio dominam o mercado, como por exemplo a JBS e a Raízen, que se beneficiaram de financiamento público.

  • Novas formas de crédito, como títulos de dívida agrícola, superaram o financiamento público.

  • A especulação com terras agrícolas foi facilitada por leis recentes, aumentando o interesse de investidores estrangeiros.

15Os desafios das finanças globais redefiniram as relações econômicas, influenciando a estrutura do capital e a dinâmica do poder.

  • Países emergentes, como o Brasil, compartilham sua gestão econômica com instituições financeiras internacionais.

  • A crise da dívida da década de 1980 abriu caminho para novos agentes financeiros, aumentando o setor financeiro desregulamentado.

  • As grandes corporações transnacionais exercem controle sobre as cadeias de valor, influenciando os mercados e preços agrícolas.

  • A especulação sobre produtos agrícolas levou à inflação de preços, dificultando o acesso aos alimentos.

16As "consequências da expansão da fronteira agrícola" são que

  • A concentração de terras e recursos levou à expropriação de populações locais, incluindo comunidades tradicionais.

  • As práticas agrícolas intensivas contribuíram para o desmatamento e a degradação da biodiversidade.

  • As grandes empresas do agronegócio dominam o mercado, exercendo controle sobre a produção e a distribuição.

  • Os mecanismos de financiamento verde são frequentemente usados ​​para mascarar os impactos ambientais negativos da agricultura industrial.

17De modo geral, o livro explora a reconfiguração da fronteira agrícola no Brasil, com foco na expansão do setor agroindustrial e seus impactos socioambientais. A fronteira agrícola representa um novo espaço de produção capitalista no Brasil, caracterizado pela aceleração da extração e circulação de matérias-primas, e as populações agroextrativistas passam por transformações significativas em seus estilos de vida.


Revista Franco-Brasileira de Geografia

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Geografia da Fome


Josué de Castro e a Geografia da Fome no Brasil

Josué de Castro and The Geography of Hunger in Brazil

Francisco de Assis Guedes de Vasconcelos

Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil 

RESUMO

O objetivo deste artigo é realizar uma releitura do clássico Geografia da Fome, publicado pela primeira vez em 1946. Realiza-se uma síntese dos mapas das cinco áreas alimentares e das principais carências nutricionais existentes no Brasil, de acordo com o delineamento realizado por Josué de Castro. Nos dias atuais, ao perfil epidemiológico nutricional desenhado por Josué de Castro, caracterizado pelas carências nutricionais (desnutrição, hipovitaminoses, bócio endêmico, anemia ferropriva etc.), sobrepuseram-se as doenças crônicas não-transmissíveis (obesidade, diabetes, dislipidemias etc.). Entretanto, a questão da complexa e paradoxal problemática da fome permanece como uma temática recorrente no Brasil. Diante de alguns dilemas da atualidade, tais como aqueles que dizem respeito à sustentabilidade ecológica do planeta e à garantia do direito humano à alimentação, torna-se imperante reacender a luta defendida por Josué de Castro pela adoção de um modelo de desenvolvimento econômico sustentável e uma sociedade sem miséria e sem fome.

Introdução

Josué de Castro nasceu em 5 de setembro de 1908, em Recife, Pernambuco, Brasil. Filho de um agricultor do Sertão Nordestino que em 1877, em função da seca, migrou para a capital, viveu sua infância e adolescência em um bairro pobre, às margens do rio Capibaribe 1,2,3. Em 1929, após concluir o Curso de Medicina da Universidade do Brasil, retornou ao Recife para dar início a uma consagrada trajetória político-intelectual, dedicada, particularmente, à complexa e paradoxal problemática da fome e suas formas de enfrentamento 4. A sua vastíssima produção intelectual, de abrangência internacional, composta por mais de 200 títulos, tem sido objeto de estudo de distintas investigações 3,4,5,6,7,8,9.

O objetivo geral do presente artigo é realizar uma releitura do clássico Geografia da Fome, publicado pela primeira vez em 1946 10. Como objetivos específicos, em um primeiro momento, realiza-se uma síntese do mapa das cinco áreas alimentares do Brasil traçado em Geografia da Fome, procurando identificar as principais características dos seus regimes alimentares. Em um segundo momento, realiza-se uma síntese do mapa das principais carências nutricionais existentes no Brasil, de acordo com o delineamento de Josué de Castro 10.

Em Geografia da Fome, Josué de Castro introduz os conceitos de áreas alimentares, áreas de fome endêmica, áreas de fome epidêmica, áreas de subnutrição, mosaico alimentar brasileiro e, por conseqüência, traça o primeiro mapa da fome no país. Por áreas alimentares, concebe uma determinada região geográfica que dispõe de recursos típicos, dieta habitual baseada em determinados produtos regionais e com seus habitantes refletindo, em suas características biológicas e sócio-culturais, a influência marcante da dieta. Por área de fome endêmica, concebe uma determinada área geográfica em que pelo menos metade da população apresenta nítidas manifestações de carências nutricionais permanentes. Por áreas de fome epidêmica, concebe uma determinada área geográfica em que pelo menos metade da população apresenta nítidas manifestações nutricionais transitórias. Por áreas de subnutrição, concebe uma determinada área geográfica em que os desequilíbrios e as carências alimentares, sejam em suas formas discretas ou manifestas, atingem grupos reduzidos da população. E por mosaico alimentar brasileiro, concebe a diferenciação regional dos tipos de dieta existentes no país, oriundas das variadas categorias de recursos naturais (alimentos) e das distintas etnias que constituíram a nação brasileira 9.

De acordo com Castro 10, o método de investigação que norteou a elaboração da Geografia da Fome foi baseado nos princípios estabelecidos pelos geógrafos alemães Carl Ritter (1779-1859) e Alexander von Humboldt (1769-1859), pelo geógrafo francês Paul Vidal de La Blache (1845-1918), entre outros. Para seu autor, o objetivo básico da Geografia da Fome consiste em "localizar com precisão, delimitar e correlacionar os fenômenos naturais e culturais que ocorrem à superfície da terra" 10 (pp. 34-5). Assim sendo, afirma que o propósito do seu estudo foi realizar uma sondagem de natureza ecológica sobre o fenômeno da fome no Brasil, orientado pelos princípios geográficos da localização, extensão, causalidade, correlação e unidade terrestre 10.

Por outro lado, ao introduzir o uso dos termos fome endêmica e fome epidêmica, em nota explicativa, Castro faz alusão à adoção do conceito de epidemiologia da fome, explicitando a influência que sofreu do conceito de epidemiologia admitido por Wade Hampton Frost (1880-1938) e do conceito de epidemiologia do diabetes e do câncer defendido por Wilson George Smillie (1886-1971). Sendo assim, embora explicitando sua maior identificação com o método geográfico, os aspectos biológicos, médicos e higiênicos do fenômeno da fome também são enfocados em seu ensaio ecológico.

 

O mapa das áreas alimentares do Brasil

A partir de Geografia da Fome, o país seria dividido em cinco diferentes áreas alimentares assim distribuídas: (1) Área Amazônica - à época, abrangia os estados do Amazonas e Pará, parte dos estados do Mato Grosso, Goiás e Maranhão e os territórios do Amapá e Rio Branco; (2) Nordeste Açucareiro ou Zona da Mata Nordestina - à época, correspondia a todo o litoral nordestino, do Estado da Bahia ao Ceará, compreendendo uma faixa territorial com largura média de 80km; (3) Sertão Nordestino - correspondendo, à época, às terras centrais dos estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia; (4) Centro-Oeste - compreendia os estados de Minas Gerais, Goiás e Mato Grasso; e (5) Extremo Sul - que à época abrangia os estados da Guanabara, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

O regime alimentar da Área Amazônica

De acordo com o mapa das áreas alimentares do Brasil (Figura 1), a Área Amazônica apresentava como dieta básica o consumo de farinha de mandioca, associada ao feijão, peixe e rapadura. Em relação aos fatores etno-culturais que influenciavam a constituição da dieta, Castro 10 aponta a predominância da cultura indígena sobre as culturas dos brancos portugueses e negros africanos. O alimento básico da dieta, a farinha de mandioca, era consumido em diferentes preparações sob a forma de farofas, mingaus, beijus e bebidas fermentadas, sendo misturado a outros alimentos, oriundos da flora silvestre (frutos, sementes e ervas), da fauna aquática e terrestre (peixes, crustáceos, tartarugas, tracajás, jabutis, antas, macacos e patos), além da incipiente agricultura regional. Destaca o largo consumo de pimentas e outras ervas na preparação dos pratos regionais como uma importante contribuição da cultura indígena. Em relação aos frutos regionais, é interessante notar que, já àquela época, ele apontava algumas importantes características nutricionais do buriti e açaí (ricos em betacaroteno ou vitamina A) e castanha-do-pará (proteínas completas e ácidos graxos). A conclusão do autor sobre a dieta amazônica foi que se tratava de uma alimentação pouco trabalhada e atraente e que sua análise biológica e química revelava inúmeras deficiências nutritivas 10.

O regime alimentar do Nordeste Açucareiro

No Nordeste Açucareiro a dieta básica era o consumo de farinha de mandioca, associada ao feijão, aipim e charque (Figura 1). De acordo com Castro 10, esse regime alimentar era produto da inter-relação das culturas alimentares dos indígenas da região, dos colonizadores portugueses e dos negros africanos, tendo a cultura alimentar do negro africano uma influência mais expressiva e valorizadora sobre os hábitos alimentares do que as demais.

Ele aponta a existência de distintas subáreas alimentares nessa região nordestina. Inicialmente, faz distinção entre duas subáreas alimentares: a litorânea e a da mata ou da cana-de-açúcar. Ao longo da sua abordagem aparece referência a uma subárea alimentar do sururu no Estado de Alagoas e à especificidade da cozinha baiana. Ao final, também descreve a área alimentar do cacau que, à época, se estendia do Recôncavo para o sul da Bahia até o Espírito Santo 10.

Na descrição da área litorânea destaca a riqueza de proteínas e sais minerais, oriundos dos alimentos marinhos (peixes, moluscos e crustáceos) e a participação de dois produtos vegetais de alto valor nutritivo: o coco e o caju. O coco contribuía com o aporte de gordura, proteínas e sais minerais da dieta, participando de uma infinidade de preparações típicas: feijão de coco, peixe de coco, arroz de coco, vatapá, canjica, pamonha, mungunzá, doce de coco, cocada, entre outras. O caju, por sua vez, era rico em vitaminas (em ácido ascórbico) e em proteínas de alto valor biológico contidas na castanha 10.

Vale destacar a análise apresentada sobre os tabus alimentares da região, sobretudo em relação ao consumo de frutas como manga, jaca, abacaxi, melancia, abacate, laranja, entre outras. Para Castro 10, o grande número de superstições e restrições ao consumo de certos alimentos, sem nenhum fundamento biológico, decorria da sobrevivência cultural das interdições alimentares impostas por questões econômicas pelos senhores de engenho a seus escravos e moradores. Nesse aspecto, vale lembrar que grande parte dos tabus alimentares identificados continua sua reprodução no imaginário alimentar da população brasileira 11,12,13.

O regime alimentar do Sertão Nordestino

O Sertão Nordestino tinha como dieta básica o consumo de milho, associado ao feijão, carne (gado, carneiro e cabra) e rapadura (Figura 1). De acordo com Castro 10, esse regime alimentar tinha predominância da influência cultural colonial (árabe-portuguesa), sendo o mais isento das influências das culturas dos índios e negros.

O milho foi considerado o alimento básico da dieta, sendo consumido quase que pela totalidade da população em quantidades consideradas elevadas. Constituía a base calórica da dieta, sendo usado no preparo de vários pratos típicos: cuscuz, angu, pamonha e canjica. Segundo Castro 10, seu consumo associado ao do leite resultava numa combinação nutricional muito feliz, uma vez que a proteína caseína do leite completava as deficiências em aminoácidos da proteína zeína do milho.

O leite e seus derivados como coalhada fresca ou escorrida, queijo e manteiga eram consumidos em abundância, constituindo alimentos integrantes da dieta do sertanejo nordestino. Para completar o aporte de proteínas de origem animal, observava-se o consumo habitual de carne (boi, carneiro e cabra) em distintas preparações: carne com abóbora e leite; carne-de-sol; charque; paçoca, buchada, panelada etc. 10.

Completava o regime habitual do sertanejo nordestino o consumo de feijão (principalmente do tipo macassar), farinha de mandioca, batata-doce, inhame, rapadura e café. O consumo habitual de frutas e verduras era muito limitado, constituindo falha visível da alimentação do sertanejo. Sendo assim, ele identificava a ingestão limitada de frutas regionais como umbu, piqui, quibá, cajarana e quixaba. Identificava também o consumo limitado de verduras como abóbora, maxixe, e cebolinha e coentro, usados como temperos.

Castro 10 concluiu que o regime alimentar habitual da área do Sertão Nordestino apresentava-se quantitativa e qualitativamente equilibrado, atendendo sem déficits e sem excessos às necessidades nutricionais do sertanejo: "É esta mesma parcimônia calórica, sem margens a luxo, que faz do sertanejo um tipo magro e anguloso, de carnes enxutas, sem arredondamentos de tecidos adiposos e sem nenhuma predisposição ao artritismo, à obesidade e ao diabetes, doenças essas provocadas, muitas vezes, por excesso alimentar" 10 (p. 207).

Entretanto, esse equilíbrio nutricional estava sujeito às rupturas cíclicas dos períodos de seca, quando se desorganizava completamente a economia regional e instalava-se a fome epidêmica. Nesse sentido, Castro 10 relata que nos períodos de seca o sertanejo passava imediatamente para um regime de subalimentação, limitando a quantidade e a variedade de alimentos, reduzindo a sua dieta ao consumo de um pouco de milho, feijão e farinha de mandioca. Quando a seca persistia e esses recursos alimentares se esgotavam, o sertanejo lançava mão de outras estratégias de sobrevivência, passando a consumir as "iguarias bárbaras" do sertão: raízes, sementes, frutos e animais resistentes à seca. Entre as "iguarias bárbaras" ele destaca: farinha de macambira, xique-xique, pereira brava, macaúba e mucunã, palmito de carnaúba, raízes de umbuzeiro, pau-pedra, serrote e maniçoba, sementes de fava-brava, manjerioba, beijus de catolé, gravatá e macambira.

Em relação ao consumo desses alimentos exóticos Castro 10 (p. 220-1) conclui: "Quando o sertanejo lança mão destes alimentos exóticos é que o martírio da seca já vai longe e que sua miséria já atingiu os limites de sua resistência orgânica. É a última etapa de sua permanência na terra desolada, antes de se fazer retirante e descer aos magotes, em busca de outras terras menos castigadas pela inclemência do clima".

O regime alimentar do Centro-Oeste

No Centro-Oeste a dieta básica era o consumo de milho, associado ao feijão, carne e toucinho (Figura 1). O prato típico foi identificado como o "tutu de feijão mineiro", preparado à base de farinha de milho, feijão, gordura, toucinho e lombo de porco. Esse foi considerado por Castro como de "alto valor calórico", mas qualitativamente de valor nutritivo inferior ao do "angu ou do cuscuz de milho com leite" da área do Sertão Nordestino, principalmente por seu teor mais baixo em cálcio e vitaminas. Entretanto, salienta que a dieta básica da região ganhava valor biológico a partir do consumo associado de vegetais verdes, principalmente couve mineira, outras hortaliças e frutas, principalmente laranja, mamão, banana e abacate. Com base na análise química do regime alimentar, afirma que não havia deficiência calórica na região, pelo contrário, deveria haver excesso calórico. Concluiu sua análise de forma um tanto preconceituosa ao afirmar que esse padrão alimentar resultava em "maior incidência da obesidade e do diabete, e na formação do tipo biológico dos mineiros lentos e pesados, conservadores e pachorrentos" 10 (p. 267).

O regime alimentar do Extremo Sul

O Extremo Sul consumia basicamente o arroz, pão, batata e carne (Figura 1). À época, por constituir a área mais rica e de maior desenvolvimento, tanto agrícola como industrial, também foi considerada a região de maior variedade alimentar, de mais alto consumo de verduras e frutas e, portanto, de mais elevado padrão alimentar. Além dos fatores econômicos e geográficos (clima, solo, pluviosidade etc.), Castro 10 ressalta os determinantes etno-culturais que possibilitavam diversificação e melhoria do padrão alimentar da região. Assim, as distintas etnias que migraram para a região, compostas por italianos, japoneses, alemães, poloneses, lituanos, entre outros, em muito contribuíram para a constituição do seu diversificado mosaico alimentar. Ele destaca a presença de distintas subáreas alimentares nessa região: (1) Subárea de influência italiana, caracterizada pelo largo consumo de trigo sob a forma de macarrão, ravioli e spaghetti; (2) Subárea localizada no Rio Grande do Sul, caracterizada pelo complexo alimentar do churrasco e do mate-chimarrão; (3) Subárea de influência japonesa, localizada em torno da capital de São Paulo e outros centros urbanos, caracterizada por abundante consumo de verduras; e (4) Subárea de influência germânica, caracterizada por um consumo mais freqüente de aveia, centeio, lentilhas, hortaliças, frutas, carne de porco (salsichas, bacon, presunto, defumados), pão preto, chucrute e cerveja.

 

O mapa das carências nutricionais do Brasil

As carências nutricionais da Amazônia

A Região Amazônica, considerada uma das áreas de fome endêmica, caracterizava-se pela presença de deficiências protéicas, vitamínicas e de sais minerais (Figura 2). À época, as carências nutricionais endêmicas eram: carências protéicas, de vitamina B2 (arriboflavinose); de ferro (anemias) e de cloreto de sódio. As formas frustas ou subclínicas eram: carências protéicas; de vitaminas A, B1 e niacina (pelagra) e de cálcio (sem manifestação de raquitismo). A carência de vitamina B1 (beribéri) aparecia em forma típica epidêmica. Em relação ao beribéri, vale ressaltar que ele destaca o período de 1870 a 1910, conhecido como ciclo econômico da borracha amazônica, como uma fase epidêmica desta carência nutricional na região. Ressalta-se ainda a interessante análise que ele faz sobre a associação entre a insuficiência alimentar quantitativa, caracterizada por um baixo consumo calórico, a adaptação orgânica forçada a partir desta situação permanente e a apregoada preguiça dos povos dessa região equatorial. Para Castro 10 (p. 76), "a preguiça dos povos equatoriais é um meio de defesa ou sobrevivência, funcionando como um sinal de alarme numa caldeira que diminui a intensidade de suas combustões, quando lhe falta o combustível".

As carências nutricionais do Nordeste Açucareiro

O Nordeste Açucareiro, considerado uma área de fome endêmica, apresentava como manifestações diretas da deficiência do regime alimentar: carências calóricas, protéicas, de vitaminas e minerais. As formas endêmicas das carências nutricionais identificadas foram: carências protéicas, de vitaminas A, B1 e B2 e dos minerais ferro e cloreto de sódio. As manifestações subclínicas identificadas foram: carências protéicas; de vitaminas B1, C (escorbuto) e niacina e do mineral cálcio (Figura 2) 10.

Castro destaca que em conseqüência da deficiência calórica da dieta, decorria a reduzida capacidade de trabalho do nordestino da Zona da Mata, em relação aos trabalhadores mais bem alimentados de outras regiões do país. Chama a atenção para uma possível associação entre a deficiência permanente de proteínas da dieta e os índices de baixa estatura dos habitantes do brejo nordestino, os trabalhadores dos engenhos e usinas de açúcar. Como confronto, também chama a atenção para uma possível associação entre a dieta rica em proteínas e sais minerais e os índices de estatura elevada dos habitantes do litoral, as populações costeiras de pescadores.

Ao descrever o mapa das carências de vitaminas A, B1, B2, C e niacina, relativiza a magnitude e a gravidade do quadro, ressaltando que estas carências não eram tão abundantes como deveria se esperar. Como exceção, destaca a carência de vitamina B2 (arriboflavinose), afirmando ser esta abundante e generalizada entre crianças pobres das áreas rurais e urbanas da região. É interessante notar que ele aponta como explicação a possível influência de fatores protetores ou preventivos presentes na dieta regional, tais como condimentos e ingredientes especiais usados, sobretudo na cozinha baiana: o azeite-de-dendê (fonte de beta-caroteno ou provitamina A) e as variadas espécies de pimenta (fontes de ácido ascórbico) 10.

Em relação às carências minerais, aponta a deficiência de ferro (anemia alimentar) como a manifestação endêmica mais generalizada, a qual seria responsável pelo estereótipo de palidez, apatia e depressão física do habitante do brejo - o Jeca-Tatu Nordestino. Entretanto, apenas um estudo sobre a prevalência de anemia ferropriva é referido, segundo o qual 40% dos escolares da cidade de Salvador (Bahia) apresentavam baixas taxas de hemoglobina 10.

Ressalta-se ainda a importante análise realizada a respeito das conseqüências do consumo alimentar excessivo ou desequilibrado verificado entre os habitantes mais abastados, os senhores de engenhos e suas famílias. De acordo com Castro 10, a dieta com excesso de carboidratos, sobretudo, com excesso de açúcar e falta de frutas, apresentava como conseqüência a grande incidência de diabetes e avitaminoses B em certas famílias de senhores de engenhos. Nesse aspecto, faz uso de uma brilhante metáfora: "O açúcar em excesso de sua dieta desequilibrando as trocas metabólicas, como a cana desequilibrou de maneira tão nociva o metabolismo econômico da região. É como se a terra se vingasse do homem, fazendo-o sofrer de uma doença semelhante à sua - o organismo todo saturado de açúcar" 10 (pp. 155-6).

As carências nutricionais do Sertão Nordestino

De acordo com Castro 10, a área do Sertão do Nordeste caracterizava-se pela atuação de um tipo de fome diferente, aquela que se apresentava em surtos epidêmicos ou agudos nos períodos de seca ou estiagem. Eram epidemias de fome global quantitativa e qualitativa que afetavam de forma bastante violenta e sem discriminação todos os habitantes da região. Apresentava como formas endêmicas: carências protéicas, de vitaminas A, B1, B2, C e niacina e dos minerais cálcio, ferro e cloreto de sódio. A carência de iodo (bócio) apresentava-se em sua forma subclínica (Figura 2).

As carências nutricionais do Centro-Oeste

A área do Centro-Oeste foi considerada como uma "área de subnutrição, de desequilíbrio e de carências parciais, restritas a determinados grupos ou classes sociais" 10 (p. 265). A única forma endêmica descrita foi a carência de iodo (bócio endêmico). As carências de proteínas, de vitamina B1, de ferro e de cloreto de sódio foram identificadas como formas típicas esporádicas. As carências de vitaminas A, B1, B2, C e niacina e de cálcio foram identificadas em suas formas frustas (Figura 2) 10.

Em relação ao bócio endêmico, relata que esta deficiência nutricional grassava no país desde os tempos coloniais, apresentando maior incidência nos estados de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Goiás e Mato Grosso. De acordo com Castro 10, à época, estudos realizados com escolares de Minas Gerais e São Paulo verificaram incidências de 44% e 60% de bócio endêmico, respectivamente.

As carências nutricionais do Extremo Sul

O Extremo Sul também foi considerado uma área de deficiências alimentares discretas e menos generalizadas, apresentando "carências parciais, restritas a determinados grupos ou classes sociais" 10 (p. 265) Era a região que tinha o melhor perfil epidemiológico nutricional. As carências de vitaminas A, B2, C e niacina, de cálcio e de ferro apareciam em suas formas subclínicas. A carência de vitamina D (raquitismo) aparecia sob forma típica esporádica. A carência de iodo manifestava-se de forma endêmica (Figura 2). Entretanto, ao concluir sua análise ele faz um alerta sobre o aumento da incidência da carência de proteínas, que se manifestava em quadros típicos de kwashiorkor, entre crianças das classes pobres e proletárias dos grandes centros urbanos da região, principalmente Rio de Janeiro e São Paulo 10.

 

Considerações finais

A releitura de Geografia da Fome evidencia quão viva, polêmica e sedutora permanece esta obra sexagenária. Nos dias atuais, ao perfil epidemiológico nutricional traçado por Josué de Castro, caracterizado pelas carências nutricionais (desnutrição, hipovitaminoses, bócio endêmico, anemia ferropriva etc.), sobrepuseram-se as doenças crônicas não-transmissíveis (obesidade, diabetes, dislipidemias etc.). Nesse aspecto, tanto o mapa das cinco áreas alimentares como o das principais carências nutricionais existentes no Brasil traçados em Geografia da Fome precisam ser redesenhados em função deste novo perfil epidemiológico nutricional brasileiro. Tarefa imprescindível, mas que ainda está por vir. A questão da complexa e paradoxal problemática da fome, entretanto, permanece como uma temática recorrente no Brasil. Portanto, diante de alguns dilemas da atualidade, tais como aqueles que dizem respeito à sustentabilidade ecológica do planeta e à garantia do direito humano à alimentação, torna-se imperante reacender a luta defendida por Josué de Castro pela adoção de um modelo de desenvolvimento econômico sustentável e uma sociedade sem miséria e sem fome.

 

Referências

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