terça-feira, 21 de março de 2017

Tráfico de órgãos humanos na China levanta polêmica


RTP

Cartaz de protesto do grupo Falun Gong, contra o transplante forçado de órgãos de prisioneiros | Jameson Wu, Reuters
 
Convidar a raposa para o galinheiro: isso está a fazer, segundo os críticos, o Vaticano, ao acolher um antigo vice-ministro chinês da Saúde numa conferência sobre tráfico de órgãos.


Ao contrário dos vários países em que o tráfico de órgãos humanos é levado a cabo por mafias mais ou menos proscritas, na China esse tráfico é feito legalmente pelo Estado. O seu banco de órgãos é o corredor da morte das prisões.

O número de execuções capitais é um segredo, também ele de Estado. Calcula-se que oscile entre as 3.000 e as 7.000. Uma coisa é certa: a família da pessoa executada não tem direito ao corpo, não pode enterrá-lo e não pode vê-lo.

Os motivos do secretismo tornam-se mais transparentes, se se der crédito a Nicholas Bequelin, director regional da Amnistia Internacional para a Ásia oriental, citado no diário britânico The Guardian. Segundo Bequelin, a grande maioria dos órgãos transplantados na China provém de prisioneiros condenados à morte.

O facilitismo que o sistema de saúde chinês desenvolveu ao apoiar-se nesse "banco de órgãos" poderá mesmo afrouxar a pressão para que se crie um programa nacional de dadores voluntários. O facto é que o programa não existe e a sua criação vai sendo adiada.

Segundo o mesmo Bequelin é também por esse motivo que a China não adere às recomendações da Organização Mundial de Saúde sobre critérios para determinar quando alguém pode considerar-se morto: para algumas transplantações, retira-se o órgão de um prisioneiro que, segundo os critérios da OMS, ainda seria classificado como vivo.

Além disso, o ritmo e o calendário das execuções está subordinado, segundo aquele responsável da Amnistia, à intensidade da procura: "O timing da execução depende por vezes, segundo pensamos, da necessidade de uma determinada operação de transplantação. Executa-se esta pessoa a tal hora em tal dia, porque é nessa altura que o paciente tem de estar pronto".

A conferência sobre tráfico de órgãos vem na linha de anteriores declarações vaticanas, manifestando preocupação com o alastramento desse flagelo. Especialmente relevante tinha sido uma mensagem do papa Francisco no ano passado, considerando o tráfico de órgãos humanos como "uma nova forma de escravatura".

A conferência organizada pela Academia Pontifícia de Ciências irá realizar-se a partir de amanhã, terça feira, e durará dois dias. Ao convidar o antigo vice-ministro chinês da Saúde, Huang Jiefu, o Vaticano pretende melhorar as suas relações com o Governo de Pequim e espera que isso lhe permita exercer alguma influência no que diz respeito à observância de direitos humanos e de liberdade religiosa.

As vozes mais críticas põem, no entanto, em dúvida que o convite sirva esses propósitos. Segundo Wendy Rogers, um perito em deontologia médica da Universidade australiana de Macquarie, o convite a Huang e a sua visita, já agendada, ao papa Francisco arrisca-se a dar "um ar de legitimidade" à política chinesa de transplantações.

Segundo Rogers, "a Academia Pontifícia de Ciências devia saber como a caução, mesmo indirecta, de prestigiadas entidades estrangeiras é usada pelo aparelho de propaganda da China para polir a reputação do seu sistema de transplantação antiético". E apela à conferência para "que considere o apelo dos prisioneiros encarcerados na China, que são tratados como bancos de órgãos descartáveis".

A Academia respondeu, pela pena do bispo argentino Marcelo Sánchez Sorondo que a conferência apenas pretende ser "um exercício académico e não um debate sobre tese políticas contrapostas".

Huang notabilizara-se no seu cargo por ter prometido, em 2015, que a China iria deixar de usar órgãos de condenados à morte nas transplantações. A declaração de intenções continua ainda hoje a valer-lhe o aplauso de Francis Delmonico, um professor de cirurgia ao serviço da Academia Pontifícia.

Delmonico afirmou que "a sensibilidade do dr. Huang para a objecção mundial àquela prática impulsionou o seu incansável trabalho pela mudança na China, culminando na proibição, em Janeiro de 2015, do uso de órgãos dos prisioneiros executados".

Mas o mesmo Delmonico, ao prestar depoimento no ano passado perante uma comissão do Congresso dos EUA reconhecera que era impossível dizer se essa prática tinha sido efectivamente eliminada.

Transplantes de órgãos na China



A China tem um dos maiores programas de transplante de órgãos do mundo, com mais de 13 mil transplantes realizados por volta do ano de 2004, e um máximo de 20 mil em 2006. No entanto, por uma questão de cultura e de costume, o país tem taxas extremamente baixas de doação voluntária de órgãos. Entre 2003 e 2009, por exemplo, apenas 130 pessoas se ofereceram para ser doadores de órgãos. Em 2010 a Cruz Vermelha chinesa lançou uma iniciativa de âmbito nacional para atrair doadores voluntários de órgãos, mas apenas 37 pessoas se inscreveram.  Devido ao baixo nível de doação voluntária de órgãos, a maioria dos órgãos utilizados em transplantes veio de prisioneiros. Em 1984, o governo chinês aprovou um regulamento que permitiu a remoção de órgãos de criminosos executados, desde que eles deem consentimento prévio ou se ninguém reclamar o corpo.

Apesar da ausência de um sistema estruturado de doação de órgãos, os tempos de espera para a obtenção de órgãos vitais na China estão entre os mais curtos do mundo — frequentemente, apenas algumas semanas para órgãos como rins, fígados e corações. Esse fato fez da China um destino internacional para turismo de transplante e um importante local para testes de medicamentos anti-rejeição de órgãos. O comércio de órgãos humanos tem sido também uma fonte lucrativa de receita para estabelecimentos médicos, militares e de segurança pública na China. Por existir nenhum sistema nacional eficaz de doação de órgãos, os hospitais obtém os órgãos de locais tais como centros de detenção e prisões.

Na China, a identidade dos doadores de órgãos e a evidência de seu consentimento por escrito, em geral, não é revelada ou informada aos receptores de transplantes. Em alguns casos, nem mesmo a identidade da equipe médica e dos cirurgiões é informada aos pacientes. Esse problema de transparência é agravado pela falta de diretrizes éticas para os profissionais do transplante e de um órgão disciplinar para os médicos que violam padrões éticos.
Na década de 1990, a crescente preocupação com possíveis abusos da obtenção forçada de consentimento do doador e da corrupção levou as organizações médicas e grupos de direitos humanos a começar a condenar o uso de órgãos de prisioneiros da China. Essa preocupação ressurgiu em 2001, quando um médico militar chinês testemunhou perante o Congresso dos EUA que ele havia participado de operações voltadas a extrair órgãos de prisioneiros executados, mas que no entanto, alguns deles, ainda não estavam mortos. Em dezembro de 2005, o vice-ministro de saúde da China, Huang Jiefu, informou que mais de 95 % de transplantes de órgãos provinham de prisioneiros executados e prometeu medidas para evitar abusos. Huang reiterou essa informação em 2008 e 2010 e afirmou que mais de 90 % dos transplantes de órgãos de doadores falecidos são provenientes de prisioneiros executados. Em 2006, a Associação Médica Mundial exigiu que a China pare de extrair órgãos de prisioneiros, os quais não se considera serem capazes de dar o seu consentimento livremente. Em 2014, Huang Jiefu disse que a dependência chinesa de órgãos extraídos de prisioneiros no corredor da morte estava em declínio e, ao mesmo tempo, defendeu a prática do uso de órgãos de prisioneiros no sistema de transplante.

Além da fonte de órgãos de prisioneiros no corredor da morte, observadores internacionais e pesquisadores têm também expressado a preocupação de que os prisioneiros de consciência - nomeadamente praticantes do Falun Gong, mas também potencialmente tibetanos, uigures e membros de práticas cristãs minoritárias - estão sendo mortos para suprir de órgãos a indústria de transplante. Estes indivíduos não foram condenados por crimes capitais e, em muitos casos, foram presos extrajudicialmente devido às suas crenças políticas ou religiosas.
 Wikipédia

Extração de órgãos de praticantes do Falun Gong na China


Wikipédia

Relatórios sobre a extração de órgãos de praticantes do Falun Gong e de prisioneiros políticos na China têm levantado uma preocupação crescente na comunidade internacional nos últimos anos. De acordo com os relatórios, os prisioneiros na China, principalmente praticantes do Falun Gong, são executados "sob demanda" com o propósito de fornecer órgãos para receptores de transplante. É dito que o tráfico de órgãos é decorrência da perseguição ao Falun Gong pelo partido comunista chinês e dos ganhos financeiros obtidos por instituições e indivíduos envolvidos no comércio de órgãos.

Relatórios sobre a extração sistemática de órgãos de prisioneiros do Falun Gong surgiram em 2006. Acredita-se que tal prática tenha começado seis anos antes. Vários pesquisadores do assunto — mais notavelmente o advogado canadense de direitos humanos David Matas, o ex-parlamentar David Kilgour e o jornalista investigativo Ethan Gutmann — estimam que dezenas de milhares de prisioneiros de consciência do Falun Gong foram mortos para alimentar um lucrativo comércio envolvendo órgãos e cadáveres humanos e que possivelmente esses abusos ainda estejam ocorrendo. Tais afirmações são baseadas em levantamentos estatísticos; entrevistas com ex-prisioneiros, autoridades médicas e agentes de segurança pública; e provas circunstanciais, tal como o grande número de praticantes do Falun Gong detidos extrajudicialmente na China e os lucros obtidos com a venda de órgãos. O governo chinês tem persistentemente negado tais alegações. No entanto, o fracasso das autoridades chinesas em efetivamente responder ou refutar as acusações tem chamado a atenção e a condenação pública de governos, organizações internacionais e sociedades médicas. Os parlamentos do Canadá e da União Europeia e da Subcomissão de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, aprovaram resoluções condenando a extração de órgãos de prisioneiros de consciência do Falun Gong. Relatores especiais das Nações Unidas têm chamado o governo chinês para dar explicações sobre a origem dos órgão usados nos transplantes na China e a Associação Médica Mundial, a Sociedade Americana de Transplantes e a Sociedade de Transplantação pediram que sejam aplicadas sanções contra as autoridades médicas chinesas. Vários países consideram ou tomaram medidas para dissuadir os seus cidadãos de viajar para a China para obterem órgãos. Um documentário sobre o tráfico de órgãos de praticantes do Falun Gong, Human Harvest (Colheita Humana), recebeu em 2014 o Prêmio Peabody por sua excelência em jornalismo.

quarta-feira, 8 de março de 2017

O que muda na nova ordem executiva de Trump sobre os imigrantes


O que muda na nova ordem executiva de Trump sobre os imigrantes

Presidente dos EUA anuncia novo decreto, mais moderado na forma, mas praticamente igual no conteúdo

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, retomou nesta segunda-feira 6 sua ofensiva contra os imigrantes muçulmanos e assinou uma nova ordem executiva para substituir a publicada no mês passado, que provocou uma onda de protestos e de ações judiciais contra a Casa Branca.

Trump diminuiu a fanfarra em torno das novas regras e assinou o documento no Salão Oval, longe das câmeras, ao contrário do que havia feito em fevereiro, e enviou seus secretários para fazerem uma manifestação pública.

"Este decreto se insere nos nossos esforços para limitar as vulnerabilidades exploradas pelos terroristas islâmicos radicais para fins destrutivos", afirmou o secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, durante uma declaração à imprensa com seus colegas da Justiça e da Segurança interna.

Na prática, a nova ordem de Trump muda muito pouco a decisão anterior, mas retira de suas disposições medidas que provocaram decisões judicais contrárias. A intenção do governo é aplicar as novas regras mais duras sem enfrentar uma nova onda de clamor popular contra suas medidas.

Quem será afetado pela ordem executiva?

Na ordem anterior, cidadãos de sete países tinham sido temporariamente banidos de entrar nos Estados Unidos. Agora são cidadãos de seis países que continuam visados: Irã, Líbia, Somália, Sudão, Síria, Iêmen. Os pedidos de entradas de pessoas dessas nações será barrados por 90 dias, pendendo uma revisão dos procedimentos de verificação de segurança.

O Iraque não faz mais parte da lista, após o governo de Bagdá aceitar fornecer informações suplementares sobre seus cidadãos requerentes de visas, segundo Washington. Em fevereiro, os casos de ex-intérpretes iraquianos do exército americano detidos nos aeroportos chocaram até mesmo o campo político do presidente.

Quem tem green card será afetado?

Desta vez, as pessoas que possuem o chamado green card, o visto de residência permanente nos EUA, não serão afetadas pela medida. Em fevereiro, a Casa Branca determinou que até mesmo os portadores dessa autorização especial estariam sob os efeitos da ordem executiva, uma medida potencialmente inconstitucional. Desta vez, os detentores de green cards e vistos estão explicitamente protegidos.

Quando o decreto entra em vigor?

O decreto entra em vigor em 16 de março, segundo documentos publicados nesta segunda-feira pelo departamento de Segurança interna. Essa também é uma diretriz que foi posta em prática por conta do caos gerado no mês passado, quando as novas regras tiveram efeito imediato.

Curiosamente, naquela ocasião Donald Trump defendeu a pronta aplicação do banimento alegando que "pessoas más" se aproveitariam de um prazo estipulado caso esse fosse divulgado.

E como ficam os refugiados?

A suspensão da entrada de refugiados por 120 dias permanece na ordem executiva. Essa regra também passará a valer em 16 de março, mas aqueles com viagem aos Estados Unidos já programada poderão entrar no país.

E os refugiados sírios?

Na primeira ordem executiva de Trump, os refugiados sírios tinham um tratamento diferenciado: a entrada deles estava banida indefinidamente e não por 120 dias. Agora, os sírios não serão tratados de forma diferente de outros refugiados.
Revista Carta Capital

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

As principais doenças causadas pelo ar


 Provocadas pela proliferação de fungos no ar, essas doenças têm se agravado devido à poluição.

Foto: Depositphotos

As doenças respiratórias podem atingir as pessoas através da poeira, pelos de animais, fumaça, odores e perfumes que atuam como agentes alérgicos. Além disso, a poluição do ar também contribui para a causa dessas doenças, ao passo que prolifera partículas e fungos tóxicos. Dentre as doenças respiratórias algumas delas são:

Sarampo – Provocado pelo vírus Morbili virus, o seu contágio é por meio de saliva ou secreções respiratórias das pessoas. Os sintomas são manchas avermelhadas pelo corpo, febre, tosse, mal estar, conjuntivite, perda de apetite e coriza. Para recuperação, é necessário repouso, alimentação leve e muito líquido.

Bronquite Asmática – Também chamada de Bronquite Alérgica, é dada por conta da inflamação dos brônquios, ramificações do pulmão onde o ar passa. Causada por alergias, pode ser curada quando o agente alérgico for identificado e o medicamento agir no pulmão para desinflamar a região acometida, facilitando a passagem do ar. Seus sintomas são: dificuldade para respirar, tosse com catarro, boca e ponta dos dedos arroxeados.

Asma – Causa inchaço e estreitamento das vias do pulmão havendo dificuldade respiratória, falta de ar, aperto no peito e tosse. Para as pessoas que têm asma, a poluição é um agravante; e para quem não tem, a exposição excessiva às áreas poluídas pode desencadear a doença.
Foto: Depositphotos

Câncer de pulmão – Pessoas que cresceram em áreas de grande poluição estão mais propensas a desenvolver esse tipo de doença. O acúmulo de partículas pode dar origem a um broto canceroso, o início da doença no corpo do paciente. É comprovado que a poluição aumenta e risco de câncer, tanto quanto o fumo passível.

Em todos os casos é fundamental a procura de um médico para um diagnóstico correto. Além disso, a automedicação é arriscada, visto que para cada doença existe uma medicação específica e controlada por receita médica.
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Conheça o rio Amarelo na China


Saiba mais sobre este rio que, além de ser o sexto maior rio do planeta em extensão, viu nascer e prosperar em suas margens a civilização chinesa 16 de janeiro de 2014


Importantes civilizações humanas surgiram e se desenvolveram pelas margens de grandes rios. O rio Amarelo (Huang Ho, em chinês), localizado no norte da China, faz parte deste seleto grupo. Considerado o berço da civilização chinesa, o Amarelo viu prosperar em suas margens férteis um povo que se desenvolveria e sobreviveria ao longo de milênios.

Medindo aproximados 5.500 quilômetros, o rio Amarelo é o segundo mais longo da China e o sexto mais extenso do mundo. Sua bacia hidrográfica conta com um total de 72 mil km². Além das terras, tão importantes para a manutenção dos primeiros habitantes da região, o rio Amarelo também deu vida a áreas de pastos e ofereceu importantes jazidas minerais aos desbravadores locais.

O nome deste rio mítico para os chineses não vem de uma simples licença poética. Sua composição geológica é rica em uma série de minérios, sobretudo o iodo, que efetivamente produz uma água de aspecto amarelado e extremamente lamacento

Uma das principais características do Amarelo é a forma como tem seu curso modificado ao longo do tempo, inundando planícies inteiras. Não por acaso, um dos apelidos dados ao rio é Caprichoso, já que suas águas parecem simplesmente mudar de vontade repentinamente. Por conta deste movimento, um dos mais importantes desafios ao longo de mais de 5 mil anos de ocupação humana às margens do Amarelo foi, justamente, a construção de barragens capazes de conter as tempestuosas atividades do rio.

Atualmente a preocupação em relação ao rio Amarelo é distinta, mas não deixa de ser negativa. Estima-se que pelo menos 4 mil indústrias, sobretudo petroquímicas, lancem seus dejetos no rio, tornando-o um dos mais poluídos da China. Enchentes e secas severas também têm marcado pontos específicos do Amarelo. Apesar de tantos flagelos este continua sendo, para os chineses, o mais querido e emblemático dos rios.

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O declínio dos lençóis freáticos na China poderá elevar os preços dos alimentos no mundo



Análise de um texto de Lester Brown (World Watch Institute): http://www.wwiuma.org.br/

“O declínio dos lençóis freáticos na China poderá elevar os preços dos alimentos no mundo”.


Hidrologicamente, existem duas Chinas, a úmida no Sul (700 milhões de habitantes) e a seca no Norte (550 milhões de habitantes). O Sul possui um terço da área agrícola e quatro quintos de sua água. O norte possui dois terços da área agrícola e um quinto da água. A água por hectare de terra agrícola no norte é um oitavo da água do sul.

A região norte está secando pois nela a demanda hídrica ultrapassa a oferta. Os lençóis caem, os poços ficam secos, os cursos d'água se exaurem e os rios e os lagos desaparecem. Na região que se estende do norte de Xangai até o norte de Beijing e que produz 40 % dos grãos, o lençol freático cai 1,5 m/ano (em Beijing está a –59 metros!).

Os agricultores do norte enfrentam perdas de água de irrigação tanto pela exaustão dos aqüíferos quanto pelo desvio da água para cidades e indústrias. De hoje a 2010, a população da China crescerá em 126 milhões que demandarão 30 bilhões de metros cúbicos. A demanda industrial, entretanto, está projetada para tomar 127 bilhões de metros cúbicos dessa água!.

Tudo que acontece com a água de irrigação afeta diretamente as perspectivas agrícolas da China. Enquanto menos de 15% da produção americana de grãos provém de terras irrigadas, na China isto chega a 62 %. Na região norte, essa demanda poderia ser atendida desviando 70% da água. Na disputa pela água entre cidades, indústrias e agricultura, a análise econômica não favorece a agricultura. Na China, mil toneladas de água produzem uma tonelada de trigo, que vale US$ 200. A mesma quantidade de água usada na indústria gera produtos com valor de US$ 14.000 (70 vezes mais). Num país que busca desesperadamente o crescimento econômico, o ganho no desvio da água da agricultura para a indústria é óbvio. Restará a agricultura usar apenas a água da chuva produzindo menos biomassa por hectare anualmente.

O Rio Amarelo após fluir ininterruptamente por milhares de anos, em 1972 deixou de chegar ao mar por 15 dias. Desde 1997, ele chega de forma interrupta à Província de Shandong, a última que atravessa no seu percurso rumo ao mar e que é a mais importante região agrícola do país. Ela produz um quinto do milho e um sétimo do trigo chinês. Metade da água de irrigação vinha do Rio Amarelo, e metade de um aqüífero (fóssil) que cai 1,5 metro por ano!

Enquanto mais é desviada a montante, menos resta a jusante. Beijing está permitindo que as províncias assoladas pela pobreza rio acima desviem água para seu desenvolvimento em detrimento da agricultura nas partes baixas da bacia. Entre centenas de projetos para desviar água do Rio Amarelo, há na cabeceira um canal que leva água para Hohhot, a capital da Mongólia Central, a desde 2003 para atender às necessidades urbanas crescentes e a importante indústria da lã, suprida pelo imenso rebanho ovino da região. Outro canal desviará água para Taiyuan, capital da província de Xangai, uma cidade de 4 milhões de habitantes que hoje é forçada a racionar água.




A pressão crescente sobre o Rio Amarelo significa que um dia ele não mais chegará à Shandong privando-a de metade da sua água de irrigação.

A perspectiva de uma importação maciça de grãos e uma crescente dependência do grão norte-americano, causa grande inquietação aos líderes políticos. Porém trata-se apenas de uma de suas preocupações, pois a economia do país se expande a uma taxa anual de 7%, a população cresce 12 milhões de pessoas por ano e a população se acostumou a comer carne e ovos de animais alimentados com rações, o consumo de grãos tende a crescer. A queda na produção de grãos nas regiões produtoras devido a escassez de água, transformará a China no principal importador mundial de grãos, ultrapassando o Japão.

Poderia promover-se um uso mais racional por meio da elevação do preço da água. Esta opção é considerada de grande risco político pois a reação pública contraria seria enorme. Situação atual: (a) o país abandonou sua política de auto-suficiência em grãos; os líderes políticos deixaram cair o preço dos grãos aos níveis do mercado internacional; (b) o governo anunciou que na competição pela água, as cidades e as indústrias têm prioridade.

A escassez da água leva a vários países a importar grãos (Índia, Paquistão, Irã, Egito, México, etc), porém, apenas a China (1,3 bilhões de habitantes), com uma economia em crescimento e um superávit comercial de US$ 40 bilhões com os Estados Unidos, tem o potencial de perturbar os mercados mundiais de grãos.

Em resumo, a queda dos lençóis freáticos na China poderá significar, entre outras coisas, no curto prazo, a elevação mundial dos preços dos alimentos. 
 http://www.unicamp.br/fea/ortega/ecologia/desafio-15.htm
 Unicamp

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Suécia só se trabalha 6 horas por dia e mesmo assim se produz mais


É verdade que na Suécia só se trabalha 6 horas por dia e mesmo assim se produz mais?

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Jornada de 6 horas institucionalizada? Não é bem assim...

"A Suécia vai introduzir oficialmente a jornada de trabalho de seis horas."

Foi o que afirmou um vídeo visto recentemente pelo correspondente da BBC em Estocolmo, Keith Moore.

O material já foi visto cerca de 40 milhões de vezes no Facebook e explica ainda que os trabalhadores do país vão continuar recebendo o mesmo salário, uma vez que os especialistas descobriram que as pessoas produzem em seis horas o mesmo que produziriam em oito.

A notícia foi divulgada em vários países e, como Moore mora na Suécia, ficou entusiasmado. Mas também se surpreendeu com o fato de que não tinha sido avisado da diminuição de sua jornada de trabalho.

"Vou morar na Suécia!!", comentou Sandra Andersson no Facebook. "Mas, espera... eu já moro na Suécia. Não há jornada de trabalho de seis horas no meu emprego, mas de nove e dez horas na maior parte do tempo. Mas me dão café grátis para que eu não durma depois de trabalhar seis horas", acrescentou.

"Ou é uma piada ou meu chefe é um comediante, pois sou sueco e definitivamente não estou trabalhando nem vou trabalhar apenas seis horas por dia", afirmou Eric Bergman.

Ou seja: a verdade é a coisa não é bem assim na vida real.
Desilusão e experiência

O correspondente da BBC entrevistou Kerstin Ahlberg, do Departamento de Direito do Trabalho da Universidade de Estocolmo, para o programa "More or Less", da BBC. 
 
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 Não, nem na Suécia os trabalhadores, em geral, têm o direito de voltar para casa mais ceco.

"Há experiências, mas não há uma tendência geral para a jornada de trabalho de seis horas", explicou a especialista.

"O que a lei diz na Suécia é que o tempo de trabalho não deve ultrapassar 40 horas semanais, a não ser que sejam necessárias horas extras e, neste caso, o limite é de 48 horas semanais", acrescentou.

Uma das experiências citadas por Ahlberg está acontecendo em um lar para idosos na cidade de Gotemburgo, onde os patrões estão observando se há uma melhora no cuidado com os moradores e nas condições de trabalho para os funcionários.

Os administradores reduziram as horas de 80 enfermeiras assistentes - desde fevereiro elas trabalham seis horas por dia recebendo o mesmo salário.

O grupo de controle, para comparação, é formado por enfermeiras de outro lar para idosos que fazem os turnos normais.

Os resultados preliminares da experiência mostram que parece existir uma diferença a favor das enfermeiras que trabalham menos horas.

As que trabalharam menos horas passaram mais tempo com os idosos, levando-os para caminhadas, jogando com eles, lendo para eles com mais frequência do que as enfermeiras do outro asilo.

Além disso, as enfermeiras que trabalham seis horas afirmaram que se sentem mais saudáveis, mais atentas e calmas.

Esses dados são bons, mas não muito precisos. Para uma comparação mais clara, há a média de número de faltas por problemas de saúde: 15 dias entre as trabalham menos, e 31 dias entre as que tinham jornadas de oito horas diárias. 
 
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Experiência em um lar para idosos deu certo Gastos

A julgar por essa experiência, a diminuição da jornada de trabalho foi boa tanto para as enfermeiras como para os idosos.

O resultado é que todos estão mais felizes e mais bem cuidados durante seis horas. Mas o que acontece depois? As enfermeiras não podem simplesmente ir embora e deixar os idosos sozinhos.

A resposta é contratar mais enfermeiras. E isso resulta em mais gastos seja para o dono, no caso de um negócio particular, ou para o governo, caso seja um serviço público.

O aumento nos gastos foi a razão de a experiência quase ter sido encerrada. Outra iniciativa parecida em Kiruna, no norte do país, foi cancelada depois de 17 anos.

Mas apesar das desistências, há empresas que já implementam a jornada de seis horas, como foi o caso de algumas no setor de tecnologia e até um centro de serviço da Toyota em Gotemburgo, onde isso teve início há 13 anos.

Ao observar que os clientes estavam insatisfeitos com as longas esperas e que os mecânicos estavam estressados e cometendo erros, o diretor-geral na época, Martin Banck, mudou o turno de 7h às 16h para duas jornadas - das 6h às 12h e das 12h às 18h -, com o mesmo salário e menos tempo de descanso. 
 
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 Vários estudos mostraram que trabalhar menos não reduz a produtividade

Mas existe um detalhe crucial: e os lugares que precisam de pessoas trabalhando 24 horas por dia?

Todos ficaram felizes, os lucros aumentaram em 25% e a mudança foi implementada de forma permanente.
Experiências

E a ideia da jornada mais curta não é nova.

"Aconteceram várias experiências no século 19 com um número diferente de horas de jornada de trabalho, e depois os efeitos foram examinados", contou John Pencavel, professor emérito de Economia da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos.

"Houve um exemplo famoso na década de 1890, quando o dono de uma fundição de ferro em Manchester e o sindicato local fizeram um acordo para reduzir as horas de trabalho de 54 horas por semana para 48 horas. O efeito na produção foi pouco e, depois de tentar durante um ano, os dois lados concordaram que a mudança deveria ser permanente."

Esse sucesso convenceu o governo daquela época a reduzir as horas de outra fábrica, desta vez em Londres. E na Alemanha fizeram o mesmo em uma das grandes indústrias óticas do país.

Mas muitos patrões continuaram com a jornada mais longa, por medo de uma queda na produção.

O resultado foi que, no fim do século 19, muitos trabalhadores ainda estavam cumprindo a jornada de 54 horas semanais.
 
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Algumas empresas já praticam a jornada mais curta
O efeito guerra

A grande mudança chegou com a Primeira Guerra Mundial, com pesquisas feitas em fábricas de munições.

"A maioria dos trabalhadores era mulher e algumas tinham que encher as bombas com explosivos. O explosivo afetava o fígado das trabalhadoras, que ficavam com as mãos e o cabelo amarelados. Em alguns casos, esse trabalho levava à morte", explicou Pencavel.

"Desde o começo da guerra, a semana de trabalho tinha sido estendida a 70, 80 e 90 horas por semana. E havia alguns que se perguntavam se isso era realmente conveniente."

O governo britânico estava tão preocupado que formou uma comissão de médicos e acadêmicos para investigar. Parte do estudo se concentrou nas horas de trabalho e no nível de produção e, diferente do estudo do século 19, essas pesquisas eram feitas com o rigor científico necessário.

O pesquisador principal era Horace Vernon, acadêmico da Universidade de Oxford que havia trabalhado em uma fábrica de munições. 
 
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Trabalho das mulheres nas fábricas de munições não era apenas longo, mas também perigoso

"Ele descobriu que a produção não era maior durante as semanas mais longas. Por isso concluiu que reduzir as horas tinha pouco ou até nenhum efeito negativo na produção", lembrou o economista.

Depois da Segunda Guerra Mundial, a tendência era a redução nas horas de trabalho. Assim, as pesquisas sobre a relação entre o tamanho das jornadas e a produção caíram no esquecimento.
Saúde

Mais recentemente, os estudos deixaram de lado a quantidade produzida e se concentraram mais na relação entre horas de trabalho e saúde.

"Trabalhar por muitas horas já foi associado com declínio cognitivo e doenças cardiovasculares", lembra Pencavel.

No entanto, esses estudos se concentraram em pessoas que trabalham cerca de 50 horas por semana. 
 
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Relação entre horas de trabalho e saúde é mais importante hoje

Com isso, a pergunta também passa a ser: reduzir a semana de trabalho para 30 horas não seria demais?

"Me surpreenderia encontrar alguma organização que não se beneficie com a jornada de trabalho de seis horas, mas imagino que para algumas não seria apropriado. Cada uma deve tentar o que é melhor para ela", opinou o economista.
BBC Brasil

Notícias Geografia Hoje,


A estratégia do século 18 que Porto Rico quer adotar para se tornar o 51º Estado dos EUA


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Novo governador de Porto Rico, Ricardo Rosselló prometeu levar adiante plano de transformar território em 51º Estado americano

O paradisíaco arquipélago de Porto Rico, no Caribe, é um território dos EUA desde 1898, mas nunca foi integrado ao país.

Mas agora o novo governador porto-riquenho, Ricardo Rosselló, quer mudar essa realidade: seu objetivo é transformar Porto Rico no 51º Estado americano.

Ele acredita que o caminho para fazer o plano dar certo é seguir o chamado Plano Tennessee - uma estratégia de pressão empregada pelo Estado de mesmo nome no fim do século 18 para conseguir ser incorporado aos EUA, em meio à desconfiança de Washington.

A tática inclui nomear representantes que vão defender no Congresso americano a aspiração de Porto Rico de integrar-se definitivamente ao país.

Além disso, eventualmente passa pela realização de um plebiscito no qual os porto-riquenhos decidiriam de uma vez por todas se querem se tornar parte da superpotência mundial.

Em 2012, o território realizou consulta semelhante. Naquele ano, 54% dos eleitores afirmaram não concordar com o atual status de Porto Rico.

Após o resultado das urnas, a Assembleia Legislativa do território promulgou uma resolução solicitando ao presidente e ao Congresso dos Estados Unidos a incorporação integral ao país.

Mas a iniciativa não obteve êxito.
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Rosselló quer seguir o chamado Plano Tennessee, adotado pelo Estado de mesmo nome no fim do século 18
Status atual

Porto Rico é um território americano, mas não usufrui das vantagens e do status que os 50 Estados do país têm.

Em seu discurso de posse na capital San Juan, Rosselló descreveu o atual status de Porto Rico como "colonial" e "descabido".


Alguns inclusive acreditam que situação legal do território explica sua crise econômica, a pior em décadas.

Isso porque Porto Rico não tem acesso à ajuda federal disponibilizada aos demais Estados.

Muitos acreditam, assim, que a solução para contornar a crise seria integrar o território plenamente aos EUA. 
 
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Porto Rico está enfrentando grave crise econômica

Mas não parece existir um consenso em Washington a respeito do tema.

Há fatores políticos por trás disso: integrantes do Partido Republicano acreditam que incorporar Porto Rico aos EUA beneficiaria o rival, o Partido Democrata.

Hoje, os porto-riquenhos que vivem na ilha não podem votar - mas aqueles domiciliados nos Estados americanos costumam votar em candidatos democratas.

Caso se tornasse um Estado, o território automaticamente teria direito a dois senadores, o que poderia provocar um desequilíbrio de forças políticas.
Plano Tennessee

Em sua campanha, Rosselló prometeu que implementaria o Plano Tennessee no início de seu mandato.

O novo governador porto-riquenho, cujo Partido Novo Progressista (PNP) defende a incorporação do território como um Estado com direitos plenos, assegura que essa ideia é apoiada pela maioria da população.

"Mas caberá ao Congresso americano decidir se um novo Estado deverá ser admitido à Federação", diz à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, Carlos Colón de Armas, professor da Universidade de Porto Rico.

Colón de Armas fez parte da chamada "Comissão Estadista", um painel de especialistas que assessorou, durante a campanha, o então candidato Rosselló na elaboração de um plano sobre a eventual incorporação.

Sobre o plebiscito de 2012, o especialista diz que, embora a maioria dos eleitores tenha expressado desacordo com o status atual do arquipélago, um número significativo deixou de responder à segunda pergunta da consulta, sobre querer que Porto Rico se tornasse um Estado americano ou ganhasse independência. 
 
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Governo porto-riquenho busca união federativa com Washington

A alta quantidade de votos em branco e outros fatores lançaram dúvidas sobre a incorporação do território pelos Estados Unidos.

O Congresso americano ainda não se manifestou sobre o resultado do plebiscito.

Por isso, segundo Colón de Armas, a expectativa é de que o novo governo do arquipélago anuncie nos próximos dias um mecanismo pelo qual serão designados representantes para pressionar as autoridades federais em Washington.

Foi o que fez o Tennessee no século 18, quando escolheu seus representantes no Congresso antes de ser incorporado oficialmente como um Estado.

O professor garante que a atual representante oficial de Porto Rico no Congresso americano, que tem voz mas não tem voto na casa, também apresentará um projeto de lei pedindo o fim do status "colonial" da ilha.

Tudo isso deveria eventualmente se refletir, acrescenta o especialista, em uma "lei de admissão", mediante a qual o Congresso expressaria em detalhes quais seriam as condições exatas pelas quais Porto Rico entraria na Federação, além de apresentar aos eleitores do arquipélago a oportunidade de aceitá-las ou rejeitá-las em um plebiscito definitivo.
Sem consenso

Mas nem todos em Porto Rico estão de acordo com a validade ou viabilidade dessa estratégia.

Durante a campanha pelo governo do território, Ángel Rosa, outro parlamentar porto-riquenho, classificou o plano Tennessee de "engodo".

Em entrevista à imprensa local, ele previu que o Congresso americano se esquivaria à pressão de Porto Rico.

Rosa também negou existir um apoio majoritário no arquipélago para torná-lo o 51º Estado americano. 
 
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Em plebiscito de 2012, porto-riquenhos expressaram reprovação a status atual de arquipélago

"O resultado do plebiscito de 2012 não é uma vitória clara rumo à incorporação de Porto Rico pelos Estados Unidos... os números podem confundir", ressalvou Phillip Escoriaza, advogado e especialista em política porto-riquenha, à BBC Mundo.

Escoriaza acredita, no entanto, que a maioria dos porto-riquenhos não está satisfeita com o arranjo atual entre Washington e San Juan.

Para ele, há um impulso crescente pela transformação do território em Estado. Mas ainda que esse apoio ganhasse força em Porto Rico, continua, o processo de incorporação poderia levar muitos anos - isso se seguir o exemplo de casos semelhantes no passado.
Temor

Cólon de Armas, da Universidade de Porto Rico, acrescenta que, se o Plano Tennessee não funcionar, outra possibilidade é de que o território convoque, por iniciativa própria, um novo plebiscito por meio do qual a população decidiria seu status legal.

Em consultas passadas, uma pequena parcela dos eleitores, inferior a 10%, defendeu a independência.

A discussão principal está focada, assim, entre manter o status atual de Porto Rico ou transformá-lo no 51º Estado americano.

O especialista acredita que as surpresas traumáticas dos vários plebiscitos passados e as eleições de 2016 possam alimentar o temor de uma nova consulta em Porto Rico, especialmente se os eleitores decidirem, em última análise, pela separação total dos Estados Unidos.

"Mas para mim o maior temor é permanecer como estamos, isso é uma violação dos direitos dos porto-riquenhos", conclui Colón de Armas.
BBC Brasil

Notícias Geografia Hoje


Iceberg gigante ameaça se desprender da Antártida e gera preocupação
Matt McGrath BBC


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 Bloco de gelo possui 5 mil km², área equivalente à do Distrito Federal

Um gigantesco iceberg - que seria um dos dez maiores do mundo - pode se desprender a qualquer momento da Antártida, dizem cientistas.

Uma imensa rachadura na plataforma de gelo Larsen C cresceu de tal forma em dezembro que agora apenas 20 km de gelo impedem o imenso bloco de 5 mil km² (o equivalente a 500 mil campos de futebol ou à área do Distrito Federal) de se soltar.

A Larsen C é a maior plataforma de gelo no norte da Antártida. As plataformas de gelo são as porções da Antártida onde a camada de gelo está sobre o oceano e não sobre a terra.

Cientistas do País de Gales afirmam que o desprendimento do iceberg pode deixar toda a plataforma Larsen C vulnerável a uma ruptura futura.

A plataforma tem espessura de 350 m e está localizada na ponta do oeste da Antártida, impedindo a dissipação do gelo.

Os pesquisadores vêm acompanhando a rachadura na Larsen C por muitos anos. Recentemente, porém, eles passaram a observá-la mais atentamente por causa de colapsos das plataformas de gelo Larsen A, em 1995, e Larsen B, em 2002.

No ano passado, cientistas britânicos afirmaram que a rachadura na Larsen C estava aumentando rapidamente.

Mas, em dezembro, o ritmo avançou a patamares nunca antes vistos, avançando 18 km em duas semanas. 
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Colapso de plataforma de gelo Larson B aconteceu de forma semelhante em 2002 U

Dessa forma, segundo os pesquisadores, o que se tornará um gigantesco iceberg está por um triz de se soltar - apenas 20 km o prendem à plataforma.

"Se o iceberg não se desprender nos próximos meses, ficarei espantado", diz à BBC Adrian Luckman, da Universidade de Swansea, no País de Gales, responsável pela pesquisa.

"As imagens não são completamente visíveis, mas conseguimos usar um sistema para verificar a extensão do problema. O iceberg está a tal ponto de se soltar que considero que isso seja inevitável", acrescenta ele.

Luckman afirma que a área que deve se romper possui 5 mil km², o que resultaria num dos dez maiores icebergs já registrados no mundo.

Aquecimento global

Os cientistas dizem, no entanto, que o fenômeno é geográfico e não climático. A rachadura existe por décadas, mas cresceu durante um período específico.

Eles acreditam que o aquecimento global tenha antecipado a provável ruptura do iceberg, mas não têm evidências suficientes para embasar essa teoria.

No entanto, permanecem preocupados sobre o impacto do desprendimento desse iceberg do restante da plataforma de gelo, já que a ruptura da Larsen B em 2002 aconteceu de forma muito semelhante.

"Estamos convencidos, ao contrário de outros, de que o restante da plataforma de gelo ficará menos estável do que a atual", diz Luckman.
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 Imagens registradas em novembro mostram extensão de rachadura

"Esperamos que nos próximos meses e anos aconteçam novas rupturas, e talvez um eventual colapso, mas isso é uma coisa muito difícil de prever".

"Nossos modelos indicam que a plataforma ficará menos estável, mas não que desmoronará imediatamente ou qualquer coisa do tipo", acrescenta.

Como vai flutuar no mar, o iceberg não vai aumentar o nível dos mares.

Mas novas rupturas na plataforma podem acabar dando origem a geleiras que se desprenderiam em direção ao oceano. Uma vez que esse gelo não seria flutuante, o nível dos mares seria afetado.

Segundo estimativas, se todo o gelo da Larsen C derreter, o nível dos mares aumentaria cerca de 10 cm.

Há poucas certezas absolutas, contudo, sobre uma mudança iminente no contorno da Antártida.

"As prováveis consequências podem ser o colapso da plataforma nos próximos anos ou décadas", prevê Luckman.

"Ainda que o impacto imediato não atinja os mares, trata-se de um grande evento geográfico que mudará a paisagem do continente gelado", acrescenta.
BBC Brasil

domingo, 8 de janeiro de 2017

Notícias Geografia Hoje

 
Exército dos EUA promete intensificar treinamentos na Europa para deter Rússia




BREMERHAVEN (Reuters) - O Exército norte-americano prometeu neste domingo aumentar o alcance e a complexidade de suas atividades de treinamento na Europa para deter agressões por parte da Rússia.

"Deixe-me ser claro: Esta é uma parte de nossos esforços para deter a agressão russa, garantir a integridade territorial de nossos aliados e manter uma Europa que é unida, livre, próspera e em paz", disse o tenente-general das Forças Aéreas dos EUA Tim Ray, vice-comandante do Comando Europeu dos EUA, em comentário.

Ray sublinhou o "sólido comprometimento dos Estados Unidos com a Europa" no porto alemão de Bremerhaven, na Alemanha, onde chegaram nos últimos dias cerca de 2.800 peças de equipamento militar que serão usadas por cerca de 4 mil tropas operando em Estados membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) próximos à Rússia.

A concentração dos EUA e da Otan no leste europeu ocorre dias após agências de inteligência norte-americanas acusarem o presidente russo Vladimir Putin de ordenar um esforço para aumentar as chances eleitorais do republicado Donald Trump ao descreditar a democrata Hillary Clinton na campanha presidencial de 2016.

Ray afirmou que os cerca de 70 mil soldados norte-americanos baseados na Europa se adaptam para lidar com os atuais desafios estratégicos, incluindo as operações militares da Rússia na Ucrânia, a chegada de refugiados da Síria e o radicalismo islâmico.

O exército dos EUA e a Otan se esforçam para melhorar sua capacidade de responder rapidamente às ameaças, posicionando antecipadamente suprimentos e equipamentos em toda a Europa, enquanto aprimoram aeródromos e outras infraestruturas após anos de negligência.

"Nós também aumentaremos o alcance e a complexidade de muitos exercícios, focando na interoperabilidade, defesa de mísseis e operações de resposta à crise", disse Ray.

Os exércitos norte-americano e polonês estão se preparando para um grande exercício "coletivo" ao fim de janeiro.

Autoridades dos EUA disseram que os exercícios militares deste ano vão focar em uma melhor integração de componentes e domínios militares díspares, ao invés de se concentrarem em áreas de preocupação únicas, como a superioridade aérea, como fizeram no passado.

Cientistas encontram estrela morta que “engole” corpos celestes


Telescópios ajudaram pesquisadores a detectarem um sistema estrelar no qual uma anã branca, em sua última fase de vida, “engole” restos de pelo menos um planeta rochoso
 
Foto: Warwick / Divulgação

Imagens do telescópio espacial Kepler e outros observatórios terrestres ajudaram pesquisadores da Universidade de Warwick, no Reino Unido, a detectarem um sistema estrelar no qual uma anã branca, em sua última fase de vida, “engole” restos de pelo menos um planeta rochoso com composição química parecida com a da Terra e outros corpos celestes, que ainda orbitam ao seu redor, devido à alta radiação e a força da gravidade.

A movimentação dos objetos já bloqueia 40% da luz emitida pela anã branca que, por sua vez, apresenta um disco de partículas de elementos pesados como magnésio, alumínio, cálcio, ferro e níquel. Os cientistas dizem que esse pó foi gerado no último milhão de anos por choques entre corpos rochosos de pequeno tamanho, em um cenário semelhante ao que ocorrerá com o sistema solar em um futuro distante, quando esgotar todo o combustível do nosso Sol (na imagem, concepção artística da estrela WD 1145-017, “engolindo” os corpos que a orbitam).

Revista Leituras da História

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

As entranhas expostas da Terra - A origem inusitada do arquipélago de São Pedro e São Paulo


Mapeamento submarino ajuda a recontar a origem inusitada do arquipélago de São Pedro e São Paulo

IGOR ZOLNERKEVIC




© MARINHA DO BRASIL

Imagem aérea de São Pedro e São Paulo: ilhas formadas por rochas que se originaram a mais de 10 km de profundidade

Thomas Campos conhece o arquipélago de São Pedro e São Paulo como a palma de sua mão. O geólogo recifense, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), já visitou 17 vezes as cinco pequenas ilhas rochosas, cuja área total não cobre um campo de futebol. Suas viagens a esse arquipélago no meio do oceano Atlântico equatorial, distante cerca de mil quilômetros (km) de Natal, na costa brasileira, começaram em 1999, como parte do projeto Proarquipélago, da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (CIRM). Desde 1998, o programa da CIRM mantém os inóspitos rochedos sempre habitados por duas a quatro pessoas – em geral geólogos, biólogos, oceanógrafos ou meteorologistas – que conduzem pesquisas em meio aos outros únicos habitantes das ilhas, as aves viuvinhas e atobás. A atividade científica serve a um objetivo estratégico: pelas leis internacionais, só a presença permanente de cidadãos brasileiros nessas ilhas garante ao país o direito de explorar uma área de 200 milhas náuticas em torno delas – é a chamada zona econômica exclusiva ou ZEE –, em uma região do Atlântico rica em cardumes de albacora, atum e outros peixes de alto valor comercial.

Durante a visita deste ano, Campos mostrou as rochas do arquipélago ao colega italiano Daniele Brunelli, da Universidade de Módena e Régio Emília, na Itália, especialista na geologia do fundo do Atlântico. “You kill me!”, exclamou Brunelli, diante de rochedos de peridotito, uma rocha típica da parte superior do manto, região do interior da Terra situada a 6 km abaixo do assoalho oceânico – as rochas do manto raramente afloram à superfície do planeta. Brunelli já vira esse tipo de rocha antes no Atlântico, mas da janela de submarinos, explorando fendas a mais de 4 km de profundidade no mar. De todas as ilhas oceânicas do mundo, só as de São Pedro e São Paulo são feitas de rochas que vieram do manto superior para a superfície – e continuam conectadas ao manto.

Entre janeiro e fevereiro de 2013, Campos e Brunelli participaram do Cruzeiro Colmeia, uma expedição a bordo do navio francês L’Atalante, integrando uma equipe de pesquisadores europeus e brasileiros coordenada por Márcia Maia, geofísica ligada ao Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), da França. A missão da viagem, concebida por Márcia e pela oceanógrafa Susanna Sichel, da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, foi mapear centenas de quilômetros do relevo submarino em torno do arquipélago usando sonares de alta precisão e outros equipamentos geofísicos. A partir dos dados coletados na viagem, Márcia e sua equipe imaginam ter elucidado o mistério de como essas ilhas começaram a se erguer do fundo do mar há 11 milhões de anos.

As conclusões desse estudo, apresentadas em julho na revista Nature Geo-science, resolvem um enigma geológico de quase 200 anos. Em 1832, o naturalista inglês Charles Darwin foi um dos primeiros exploradores a notar que as rochas desse arquipélago não eram de origem vulcânica, como as de Fernando de Noronha. Assim como a maioria das ilhas oceânicas do planeta e a base rochosa dos oceanos (crosta oceânica), Fernando de Noronha é formada por camadas de rochas originadas da atividade vulcânica, como o basalto e o gabro. “Ao longo do século XX ficou claro que as rochas de São Pedro e São Paulo eram diferentes e vinham diretamente do manto terrestre”, explica Márcia. “Mas ninguém entendia como elas haviam se elevado quase 10 km e despontado acima do nível do mar”, conta a geofísica brasileira.

 
Após se graduar na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) em 1983, Márcia fez sua carreira científica na França, estudando ilhas e regiões submarinas do Pacífico, do Índico e do Atlântico. Ela explica que, enquanto trechos da litosfera dos continentes podem guardar histórias de até 4,5 bilhões de anos atrás, a litosfera dos oceanos é renovada continuamente e permite conhecer o que ocorreu apenas nos últimos 200 milhões de anos.

O Atlântico, por exemplo, começou a se formar 170 milhões de anos atrás. No interior da Terra, quando as rochas do manto superior atingem a temperatura de 1.300 ºC, por volta de 100 a 200 km abaixo da superfície, elas se comportam como um fluido viscoso que se movimenta lentamente ao longo de milhões de anos. Mudanças nas correntezas desse fluido ocorridas por volta de 170 milhões de anos atrás começaram a fraturar o interior do supercontinente Pangea, que se partiria nos pedaços que originaram os continentes atuais. Essa quebra abriu enormes vales no interior de Pangea. Ao subirem em direção à superfície, as rochas do manto sofrem descompressão e fundem parcialmente, originando o magma expelido por vulcões no centro desses vales. À medida que o movimento das placas tectônicas alargava os vales, o assoalho deles era preenchido pelas rochas resultantes da solidificação desse magma. Com o tempo, os vales aumentaram de tamanho e acabaram inundados, gerando um oceano.

Esse processo de abertura do Atlântico continua, com novos pedaços de crosta oceânica sendo formados até hoje. A atividade vulcânica se concentra na Dorsal Mesoatlântica, uma cordilheira de vulcões e falhas tectônicas que se estende de norte a sul do oceano e o divide mais ou menos ao meio. É a crosta oceânica formada ali que faz a costa brasileira se afastar da africana à taxa média de 3,4 centímetros por ano.

A produção de crosta oceânica não é uniforme, entretanto. De norte a sul, a Dorsal Mesoatlântica é recortada por falhas chamadas transformantes, que deslocam o eixo norte-sul da cordilheira ora mais para leste, ora mais para oeste. As maiores falhas transformantes estão no Atlântico Central, onde o eixo norte-sul da dorsal apresenta o seu maior deslocamento. O chamado Sistema São Paulo é um conjunto de quatro falhas que deslocam a Dorsal Mesoatlântica 630 quilômetros para oeste. As cinco ilhas de São Pedro e São Paulo são os picos de uma cadeia de montanhas submarinas com 3,5 km de altura, por 30 km de largura e 200 km de comprimento, localizada na falha mais a oeste do Sistema São Paulo. A serra foi batizada de elevação Atobá, em homenagem às aves locais.

Os sonares do Cruzeiro Colmeia definiram os contornos da elevação Atobá e da falha em que se encontra, complementando um trabalho iniciado em 1998 pela primeira expedição franco-brasileira. Naquela ocasião os pesquisadores usaram o submarino francês Nautile, o mesmo que identificou em 1987 os destroços do Titanic, para explorar o fundo do oceano naquela região. “Foram necessários treze mergulhos para produzir um pequeno perfil da elevação Atobá e coletar amostras das rochas”, lembra Susanna.

Expedições submarinas realizadas nos anos 1980 já haviam observado uma quantidade anormalmente elevada de peridotito no assoalho do Atlântico Central, no lugar das rochas vulcânicas que se esperava encontrar. De modo geral, o fundo dos oceanos é formado por rochas originárias de regiões quentes do manto, que, por causa das altas temperaturas e da redução de pressão, como a que ocorre ao longo da Dorsal Mesoatlântica, liquefazem-se, sofrem transformações e são expelidas pelas fendas e vulcões submersos. A pequena quantidade de rochas vulcânicas encontrada nessa região do Atlântico levou os pesquisadores a supor que, ali, o manto deveria ser mais frio do que em outros pontos do planeta. Parcialmente mantidas em estado sólido por causa das temperaturas mais amenas, essas rochas do manto teriam sido expostas diretamente, quando as forças tectônicas abriram falhas na crosta oceânica da região.

Mais denso que as rochas vulcânicas, o peridotito do manto diminui de densidade ao entrar em contato com a água do mar e reagir quimicamente com ela. A diminuição de densidade, porém, jamais teria força para erguer a elevação Atobá, contam os pesquisadores.


© THOMAS CAMPOS / UFRN

Trincas visíveis a olho nu em peridotito coletado no arquipélago: sinais da compressão a que a rocha foi submetida

Perfis das profundezas
Outros dados obtidos na expedição mais recente, os chamados perfis sísmicos, ajudaram a desfazer o mistério. Esses perfis são medidas que indicam como ondas vibratórias atravessam as rochas do interior do planeta e permitem ter uma ideia de como são constituídas. Perfis sísmicos realizados na região do arquipélago revelaram que a elevação Atobá é constituída por peridotitos deformados. Ali, as rochas do manto estão comprimidas entre dois blocos de crosta oceânica – um ao sul e outro ao norte – que estão colidindo frontalmente ao mesmo tempo que um desliza em relação ao outro. Variações no campo magnético terrestre registradas na região indicam também que o coração da elevação Atobá é formado por rochas do manto pouco alteradas pela água do mar – esse núcleo permanece conectado a rochas mais profundas.

Juntos, os perfis sísmicos e a análise da morfologia das falhas permitiram reconstituir a história da elevação Atobá. Márcia e seus colaboradores defendem que a falha mais a oeste do Sistema São Paulo já existia há 38 milhões de anos e que, por volta de 11 milhões de anos atrás, mudanças nas forças tectônicas a teriam expandido, expondo o peridotito do manto. Quase 1 milhão de anos depois, essas forças tectônicas mudaram de direção e passaram a comprimir o peridotito exposto, como manteiga espremida entre duas fatias de pão. “As falhas que vemos nos perfis sísmicos mostram que a rocha está sendo empurrada para cima”, conta Márcia. “A origem da elevação é tectônica.”

Ela defende que o motor da compressão que formou a elevação Atobá é a influência de um ponto quente do manto, situado a 300 quilômetros ao norte do Sistema São Paulo, entre a dorsal e a costa leste da África. Esse ponto quente está associado a uma região de alta temperatura do manto, que teria aumentado a produção de crosta oceânica ao norte da elevação Atobá e garantido a compressão contínua sobre o maciço de peridotito nos últimos 10 milhões de anos. “A ironia da situação é que a elevação do manto que forma o arquipélago de São Pedro e São Paulo não é causada pela temperatura fria do manto na região, mas pela proximidade de uma zona quente.”

Essa explicação é consistente com as fraturas e a estrutura dos grãos de rochas que Thomas Campos observa a olho nu e ao microscópico nos peridotitos do arquipélago. Também combina com as datações que Campos e colaboradores fizeram de fósseis marinhos encontrados por lá. Segundo essas datações, publicadas em 2010 na Marine Geology, os rochedos do arquipélago vêm se elevando 1,5 milímetro por ano nos últimos milhares de anos.
Revista FAPESP

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O que nos espera no futuro do trabalho?

A pesquisa Future of Work feita pela ADP traz 5 tendências mostradas pela força de trabalho no Brasil e no mundo
Redação



M udanças tecnológicas e culturais sempre nortearam o desenvolvimento dos espaços de trabalho, o que está acontecendo cada vez mais rápido e englobando cada vez mais pessoas. O efeito dominó desses avanços e as mudanças em massa apresentam impactos signi ficativos na forma como as pessoas vivem e trabalham em todo o mundo. A tecnologia, em particular, tem permitido aos funcionários uma maior sensação de liberdade, e ciência e conectividade, sem as limitações tradicionais de tempo e lugar.

A ADP, empresa líder global em soluções de Gestão do Capital Humano, levantou informações para descobrir quais são as maiores mudanças do mundo do trabalho e quais as tendências esperadas para os próximos anos. Nesse estudo, intitulado Future of Work, foram entrevistadas mais de 2 mil pessoas que trabalham em empresas com 250 ou mais empregados, no Brasil e em países como Estados Unidos, Canadá, México, Chile, Reino Unido, França, Alemanha, Holanda, Austrália, China, Índia e Cingapura.

A seguir, estão 5 principais pontos que guiarão o futuro do trabalho, de acordo com o estudo:

1. LIBERDADE
As pessoas querem liberdade para desfrutar de suas vidas. Um índice de 77% dos brasileiros quer ter controle e exibilidade para fazer o seu trabalho quando, onde e como quiser. Essa liberdade de escolha tem sido amplamente concedida, em razão do aumento da capacidade e da facilidade para trabalhar a partir de dispositivos móveis.

2. CONHECIMENTO
Acesso às pessoas, ferramentas e informações necessárias para fazer seu trabalho, além de tempo para aprender novas habilidades enquanto realizam seus deveres. Essa necessidade nasce da demanda dos empregadores em ter funcionários que produzam mais, em menos tempo, e que façam parte de uma força de trabalho multiquali ficada. Um total de 75% dos brasileiros entrevistados acha provável a adoção de tecnologia como o principal instrumento de aprendizado e registro de novos conhecimentos no meio corporativo.

3. AUTOGESTÃO
A tecnologia permitirá ainda mais independência para que as pessoas administrem sua produtividade e seu desempenho e que também recebam feedback e reconhecimento em tempo real. Isto, provavelmente, irá remover as barreiras à colaboração e redefinirá a relação entre funcionários e seus gerentes. No caso do Brasil, a implementação dessas tecnologias é vista como improvável por parte dos funcionários. Apesar de desejarem, apenas 39% dos entrevistados acreditam que as empresas do País irão investir em sistemas de autogestão nos próximos anos.

4. ESTABILIDADE
A possibilidade de buscar talentos ao redor do mundo por meio de recursos tecnológicos e contratar trabalhadores por demanda, ao invés de funcionários de longo prazo, vai se tornar mais atraente para as organizações. Isso pode trazer um nível de incerteza que prejudica a estabilidade da força de trabalho, pois, certamente, a competitividade crescerá e poderá ser mais difícil encontrar um trabalho. Apesar disso, os brasileiros parecem não temer essa tendência: 61% dos entrevistados acreditam que as empresas do País não adotarão essa tendência.

5. SIGNIFICADO

O salário já não é um motivo suficiente para as pessoas irem ao trabalho; elas precisam de algo maior – projetos que tenham um signi ficado importante, que causem impacto na sociedade e que bene ficiem o bem-estar das pessoas. Trabalhar para organizações que tenham metas alinhadas às aspirações pessoais traz mais signi ficado e propósito em sua vida e também demonstra, por parte da empresa, um comprometimento com as pessoas que lhe prestam serviços. Outra tendência mundial que difere na opinião dos brasileiros: somente 36% dos entrevistados consideram fundamental trabalhar em projetos alinhados às suas aspirações pessoais.
Revista Geografia

Novos rumos da África e os interesses do Brasil


NELSON BACIC OLIC*



O s países da África entraram no século 21 sem resolver muitos de seus imensos problemas sociais - entre os quais, a pobreza endêmica, o rápido processo de urbanização, a integração nacional, a desigualdade de gêneros, a desnutrição, os conflitos internos e a violência política. Essa situação é o resultado de uma combinação de fatores externos e internos. A pesada herança colonial deixou marcas profundas nas sociedades africanas, que, até hoje, se manifestam. Governos ditatoriais e elites corruptas retardam o desenvolvimento econômico. As consequências abrangem a supressão das liberdades, a violação dos direitos humanos e a pilhagem dos recursos humanos naturais e intelectuais do continente.

Se, atualmente, a África tem 54 Estados soberanos, antes de 1960, esse número não chegava a 10. A maioria dos países africanos tem pouco mais de 50 anos de vida independente.

Todavia, a África do início da década de 2010 exibe uma paisagem diferente daquela do início dos anos 1960, quando se libertava do jugo colonial. Os desafios de hoje não são os mesmos, ou, em diversos casos, apresentam dimensões diferentes no contexto atual. Foram feitos grandes progressos em matéria de educação e saúde, e alguns países conseguiram construir, com algum sucesso, sistemas democráticos de governança. A dissolução do Apartheid na África do Sul, em 1994, a queda de vários regimes autoritários na última década e, mais recentemente, as profundas mudanças geradas pela "primavera árabe" no norte do continente abriram novas perspectivas de democratização e de desenvolvimento.

Nos últimos dez anos, bem diferente do que vinha ocorrendo na década de 1990, os países africanos têm apresentado, de modo geral, expressivo crescimento econômico. A expansão média anual do PIB girou em torno de 5% ao ano, com exceção de 2009, por conta dos efeitos da crise econômica mundial. Contudo, o crescimento recente teve como ponto de partida uma base muito baixa. Ainda hoje, o PIB conjunto dos 54 países africanos é inferior ao do Brasil.

A expansão econômica dos países africanos não foi uniforme. Nos últimos anos, as economias da África do Norte cresceram abaixo da média, principalmente em decorrência das turbulências provocadas pela "Primavera Árabe". Na África Subsaariana, em contraste, o crescimento, tendeu a superar a média do continente. Os destaques foram os exportadores de petróleo.

DISPUTA
Desde o início do século 21, os preços internacionais das matérias-primas minerais, energéticas e agrícolas, abundantes na África, experimentaram forte crescimento. A demanda chinesa provocou uma disputa acirrada pelas commodities, beneficiando todos os exportadores. A dimensão da presença chinesa no continente pode ser mais bem avaliada quando se sabe que, nos últimos dez anos, a potência asiática saltou da nona para a segunda posição no quadro dos parceiros comerciais dos países africanos. Hoje, nesse quadro, a China figura à frente das antigas potências coloniais europeias, superada apenas pelos Estados Unidos.

O Brasil quadruplicou seus fluxos de comércio com a África na última década. Apesar disso, esse valor representa apenas cerca 5% do fluxo total do comércio exterior brasileiro. Dos 50 maiores parceiros comerciais do Brasil, apenas seis - Nigéria, Argélia, Egito, África do Sul, Angola e Marrocos - são africanos. Eles representam cerca de 80% do total do comércio do Brasil com a África, e com todos, à exceção do Egito, a balança comercial é negativa. O déficit deriva das importações brasileiras de petróleo e gás. O saldo negativo com a Nigéria está entre os maiores dentre todos os intercâmbios bilaterais do Brasil. Quase a totalidade dos produtos importados da Nigéria correspondem a combustíveis, algo que se repete nos casos da Argélia e de Angola. Os destaques das exportações brasileiras para a África ficam para o açúcar, as aves e as carnes. O mercado africano consumidor de manufaturados é dominado pela China, pelos Estados Unidos e pela União Europeia. O avanço das relações comerciais entre o Brasil e os países africanos é explicado por uma combinação de fatores, com ênfase na diminuição dos números de conflitos internos na África e numa ação diplomática mais agressiva do Brasil. A paz faz uma enorme diferença. Apesar da persistência de cenários caóticos em países como a Somália e a República Democrática do Congo, e de tensões internas significativas na região do Golfo da Guiné (Nigéria e Costa do Marfim, por exemplo) e na faixa do Sahel (Mali, Níger e Chade), a situação geral é mais estável do que aquela que se verificava na década de 1990.

"A maioria dos países africanos tem pouco mais de 50 anos de vida independente."

A diplomacia também tem seu peso. Atualmente, o Brasil conta com 38 embaixadas na África, e Brasília é a capital latino-americana com o maior número dessas representações diplomáticas de países africanos. Para além da diplomacia clássica, o Brasil investe especialmente na troca de conhecimentos nas áreas de agricultura, saúde e formação profissional. O governo brasileiro perdoou ou reestruturou as dívidas de 12 países africanos, numa iniciativa que causou polêmica. A "estratégia africana" do Brasil tem a meta de obter apoio dos países do continente à pretensão de Brasília a uma cadeira de membro permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Ao mesmo tempo, empresas brasileiras estão cada vez mais presentes na África. A ação política do governo está atrás do fenômeno: o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) lançou diversas medidas destinadas a facilitar o acesso a empréstimos e a créditos especiais a empresas brasileiras em países africanos. A Petrobras, estatal, a mineradora Vale do Rio Doce e as grandes construtoras Queiroz Galvão, Odebrecht, Andrade Gutierrez e Camargo Correia estão presentes ou têm projetos em mais de 20 países da África.

O "capitalismo de Estado", no entanto, privilegia as grandes corporações: a presença de médias e pequenas empresas brasileiras na África é insignificante.

*NELSON BACIC OLIC é bacharel e licenciado em Geografia pela USP, um dos editores do jornal Mundo - Geografia e Política Internacional (Editora Pangea), professor e autor de livros didáticos e paradidáticos, além de professor convidado junto à Universidade da Maturidade (PUC-SP).
Revista Geografia

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