terça-feira, 10 de novembro de 2009

Mundo árvore

Mundo árvore
Confira todo o ecossistema que pode viver em uma árvore.
por Texto Yuri Vanconcelos
Uma única árvore pode abrigar um ecossistema complexo - das dezenas de seres vivos que habitam a água acumulada nas bromélias aos tucanos que fazem do caule seu ninho de amor. Abaixo, selecionamos como morada uma espécie fictícia da mata Atlântica e apresentamos os animais e as plantas que dependem dela para sobreviver.

MOSCA ANASTREPHA FRATERCULUS
As larvas começam a vida nos frutos. Quando crescem, não mudam de bairro: voam sempre ao redor das árvores da vizinhança.

ABELHA-CACHORRO
Não morde ninguém: é desprovida de ferrão. Constrói na copa das árvores ninhos de barro e cera parecidos com cupinzeiros e se alimenta da seiva das plantas.

FORMIGA CAÇAREMA
Milhares de espécies de formigas vivem em árvores. A caçarema se alimenta de gotículas de néctar eliminadas pelos ramos. Em troca, protege a planta de pragas como pulgões e cochonilhas.

GATO-MARACAJÁ
O mais arborícola dos felinos gasta as manhãs dormindo nos galhos. À noite, vai tocar a vida: come passarinhos, roedores e acasala. Mas a vida pode trazer surpresas: há sempre o risco de um ataque dos temíveis sagüis.

CUÍCA
Parente do gamba, esse pequeno marsupial costuma ser encontrado na copa das árvores, onde caça os insetos que gosta de comer. Raramente desce ao chão.

SABIÁ-CICA
Costuma ser visto na parte superior da copa. Mas, na hora de fazer o ninho, prefere buracos no tronco. Lá encontra suas comidas prediletas: sementes, insetos e larvas

MORCEGO-DE-FRUTAS
A vida passa pelo intestino do morcego: ele come frutas, voa e defeca as sementes. Das fezes, nascerá uma nova árvore.

VESPA
Também chamada de marimbondo, poliniza as fl ores das orquídeas e usa os galhos para pendurar seu ninho.

PERERECA MARSUPIAL
A fêmea carrega os ovos nas costas até que os girinos estejam prestes a nascer. Então ela os transfere para a água nas bromélias. E fi ca por lá para comer: o lugar é ótimo para caçar insetos.

ARANHA ARANEUS

Faz belíssimas teias geométricas na folhagem. E se aproveita da diversidade que habita as árvores para capturar suas presas.

IGUANA-VERDE

Quando fi lhote, ela tira dos galhos os insetos que come. Adulta, torna-se vegetariana: passa a se alimentar apenas de folhas.

RÃ-BUGIO

Esta perereca esverdeada usa os galhos para acasalar. A fêmea coloca os ovos nas folhas, que depois são dobradas em forma de tubo para proteger os futuros fi lhotes.

BICHO-PREGUIÇADE-COLEIRA

As folhas alimentam e protegem: quando não estão na boca, ajudam a preguiça a se camufl ar de predadores como a harpia e o gavião.

COBRA-DE-VEADO

Também conhecida como suaçubóia, vive enrolada em galhos. Lagartos, aves e roedores que aparecem quando bate a fome são mortos por constrição.

TUCANO-DEPAPO-AMARELO

Os tucanos fazem do tronco seu ninho de amor. É lá que eles se encontram. Ali o macho oferece um fruto. Se a corte é aceita, eles realizam a cópula. Tudo dura alguns segundos.

SAGÜI-DA-SERRA

Na hora das refeições, raspa o tronco com os dentes para se alimentar da seiva. Costuma viver em grupos de 5 a 15 animais.

MICO-LEÃO-DECARA-DOURADA

Vive trepado nas árvores e se alimenta de insetos e frutos. À noite, para se manter protegido de seus predadores, procura abrigo em buracos dos troncos.

PICA-PAU-REI

Considerado o maior picapau do Brasil, com 36 cm e 200 g, faz seu ninho em ocos nos troncos. Na hora das refeições, martela o tronco com força, perfura a casca e captura insetos com a língua pegajosa de ponta afi ada.

MONO-CARVOEIRO

Também chamado de muriqui, é encontrado somente na mata Atlântica. Chega a 15 kg – é o maior primata do continente americano.

BESOURO

Com cerca de 6 cm, vive na mata e sobe nas árvores para se alimentar. Come a resina que escorre de cortes no tronco ou frutas em decomposição.

CIPÓS

Crescem no solo e se agarram às árvores ainda pequenas. Quando elas crescem, os cipós pegam carona. Lá do alto, ajudam animais a se locomover entre as copas.

ARANHACARANGUEJEIRA

As caranguejeiras do gênero Lasiodora são as mais comuns na mata Atlântica. Fazem seus ninhos no pé das árvores, sob folhas secas.

LACRAIA

Dá expediente na casca do tronco, onde caça pequenos insetos. Chega a medir 7 cm.

CUPINS

Suas colônias abrigam milhares de indivíduos de paladar duvidoso: comem tanto a árvore viva quanto troncos mortos sobre o solo.

BORBOLETA

Tem asas tão verdes que se confundem com as folhas da mata. Frutas fermentadas servem como fonte de néctar que ela utiliza como alimento.

CIGARRAS

Quando as ninfas nascem, fi cam enterradas no solo e se alimentam da seiva da raiz. Adultas, sobem na vida: costumam ser vistas na copa.

BROMÉLIA

É a comunidade hippie da árvore: na água entre as folhas se reúnem insetos, larvas e qualquer um que queira compartir a bebida.

MACACOPREGO-DE-PEITOAMARELO

Faz o tipo caseiro: raramente sai das árvores. Ele come, reproduz e descansa nos galhos. Só vai ao chão para beber.

MINHOCA

Seu deslocamento cria galerias que ajudam a drenagem do solo. Assim, a água penetra na terra e alimenta a raiz.

MUSGO

Um centro de gosmas: o tapete verde sobre o tronco serve de alimento e abrigo para sapos, lesmas e caracóis. Mas pelo menos o efeito visual é bonito.

Fontes: Adriano Paglia, Afrânio Augusto Guimarães, Carlos Brisola Marcondes, Carlos Campaner, Carlos Einicker Lamas, Dante Pavan, Eduardo Wienskoski , Eliana Marques Cancello, Felipe Toledo, Flávio Gandara, Helenice Mercier, Jaime Aparecido Bertolucci, Luís Fábio Silveira, Odair Correa Bueno, Osmar Malaspina , Raquel Lima da Silveira, Rogélio Dosouto, Rosângela Branchini, Sandra Regina Visnadi, Tasso Leo Krugner.

Revista Superinteressante

Ocidente made in China


Ocidente made in China
Clonar os países mais ricos do mundo em seu território. É a mais nova receita chinesa para construir cidades ao gosto das empresas estrangeiras e, mais ainda, dos próprios chineses
por Texto Maurício Horta
Sinos badalam na torre de uma igreja gótica. Mas não são sinos. A melodia vem de alto-falantes instalados lá em cima, com um timbre de secretária eletrônica. Sigo em frente até a curva da viela, onde as únicas pessoas à vista são estátuas de bronze e guardas de segurança vestidos de vermelho. Lá, um prédio de estilo georgiano, do século 18, surge em frente a um outro, vitoriano, do século 19. Dentro deles, nada, apesar das placas “Record Shop – classical jass (sic)”, ou “Public House – open all day – excllent (sic) hot and cold food”. Bate-se nas paredes e, no lugar do som seco do mármore ou do concreto, um ruído oco, redondo, falso. Made in China.

Thames Town fica em Songjiang New City, um município feito para abrigar 300 mil habitantes, construído 30 quilômetros a sudeste do centro de Xangai. Até 2020, 400 novas cidades deverão surgir na China para abrigar 300 milhões de pessoas que deixarão o campo para embarcar na China moderna. Mas Songjiang New City não é para elas. Seguindo a onda de países mais desenvolvidos, as grandes cidades da China estão ganhando cada vez mais subúrbios, para que os novos-ricos locais e os homens de negócio estrangeiros gastem nas calmas periferias as fortunas que ganham no centro.

Nesse país-canteiro-de-obras, onde a indústria da construção civil responde por 7% do PIB, condomínios fechados não bastam – são necessárias novas cidades inteiras. Em 2001, o governo de Xangai lançou o programa One City, Nine Towns (“Uma Cidade, 9 Municípios”) com o objetivo de aliviar a pressão populacional do centro. Nove centros urbanos, com capacidade total de 500 mil habitantes, estão sendo construídos num raio de 40 quilômetros da metrópole à beira do rio Yang Tsé. Agora começam a sair os primeiros. E a China, que já era parque de diversões de arquitetos internacionais, está virando o SimCity dos urbanistas.

SimCity? Ele mesmo: o game em que o jogador planeja e governa cidades. O pessoal envolvido com o projeto trabalha como se estivesse jogando SimCity. Nesse jogo você pode instalar construções famosas, como o Big Ben, a Casa Branca e a Torre Eiffel, nas cidades que constrói. E o projeto One City, Nine Towns segue exatamente essa linha: Songjiang é uma cidade inglesa; Anting, alemã; Luodian, sueca. E assim por diante (veja aqui no quadro).

“Como assim?”, diria quem lembra que a China é um país comunista recheado de nacionalismo. O governo tirou de suas mãos e colocou nas de escritórios estrangeiros de arquitetura a responsabilidade de planejar as cidades da novíssima China. E, para chamar a atenção dos estrangeiros que vivem lá e dos chineses abonados, decidiu que cada um desses escritórios deveria fazer uma cidade com o estilo de seu país de origem.

Uma justificativa diplomática é a de que o país sabe que não tem mais tempo para aprender à base de tentativa-e-erro. Quer respostas prontas que já provaram dar certo e acredita que o Ocidente, depois de muito errar, encontrou as melhores. Outra justificativa é que, entre seriados americanos, cirurgias no frênulo da língua para melhorar a pronúncia dos erres estrangeiros e aulas de etiqueta em que aprendem a segurar o garfo com a mão esquerda e não escarrar no chão, os novos-ricos chineses não querem apenas ganhar dinheiro como os ocidentais. Querem viver como eles.

No centro de Xangai, a Nanjing Road, bulevar principal da cidade, é tomada por outdoors oferecendo uma vida européia em condomínios neoclássicos. Enquanto o metrô da cidade é tomado por propagandas de relógios Tag Heuer com o golfista americano Tiger Woods, os subúrbios são terraplenados por pelo menos 30 campos de golfe. Apelo, então, não falta ao One City, Nine Towns. O projeto tem tudo a ver com a nova China. Mas isso não tem sido o suficiente para a coisa dar certo.

Na alemã Anting, por exemplo, já foram vendidos 60% das casas da 1a fase de construção; ainda assim, na simpática área comercial da cidade, o único negócio aberto é uma lojinha de conveniências sem clientes. Na britânica Songjiang New City, com as suas placas em inglês chop suey, de aberto só existe uma imobiliária. Ou seja, mesmo com o crescimento monstro da China, as novas cidades não engrenam. Vamos ver por quê.



Pé na estrada

“Wo bu zhi dao”, disse o recepcionista do hotel, encolhendo os ombros. Não sabia onde ficava Songjiang New City, nem Anting, nem nenhuma outra das “simcities” de Xangai. Telefonou para a gerente: pelo menos duas horas de ônibus, saindo do estádio municipal. “Songjiang? Não adianta, você vai ter que pegar um táxi ou contratar um motorista particular”, disse ao telefone Janete Bruengger, brasileira que mora em Xangai há 8 anos. “Mas não aconselho ir lá; é uma tristeza o que estão fazendo com as cidades na China, por mais que entenda que queiram esquecer sua história recente.”

Abrindo o mapa de Xangai, dá para ver que Songjiang fica a sudeste da periferia, a pelo menos 30 quilômetros da última estação de metrô. Do hotel, duas bal- deações de metrô para chegar à área onde estão levantando a cidade.

Lá, não-chineses ainda são novidades que despertam o dedo indicador das crianças – “Laowai!” (“Estrangeiro!”). Na estação, um velho carregava uma sacola de onde saíam duas cabeças de galinha. Fora da estação, um deserto de fábricas – Siemens, Saint-Gobain e indústrias de pneus. E para chegar a Songjiang ainda faltariam 30 quilômetros! “Songjiang ma? Yuan jile!”, resmungou o taxista, infeliz de entender que levaria o cliente até Songjiang. “Longe demais”, ele disse. Na hora de cobrar, na falta de um taxímetro, apontou chorão para o medidor de combustível. Sessenta iuanes (R$ 14).

Chegando à antiga Songjiang, ainda seria necessário encontrar alguém que soubesse onde ficava a nova Songjiang e, no meio da chuva, num vilarejo atrasado, conseguir um segundo táxi.

É nesses fins de mundo ligados a Xangai por rodovias que as cidades-países estão nascendo. Pelo jeito, a opinião dos novos-ricos chineses sobre elas bate com a do taxista. “Longe demais.”

Mesmo assim, ao longo do trajeto do centro até o mais distante subúrbio, tudo o que se vê são conjuntos residenciais em construção, todos voltados à classe média. É nesse ponto, aliás, que o olho treinado no Brasil se pergunta: cadê as favelas?

Aos pobres, as tábuas

Pois é. Onde moram os milhões de pobres que povoam as ciclovias da cidade? E os pedreiros que constroem tantos condomínios? Cadê os donos das minúsculas biroscas quem vendem refrigerantes no calor abafado de Xangai?

O caminho de volta ao hotel dá algumas respostas. Entre tapumes, dá para ver o alojamento temporário desses sujeitos. Assim que terminar a obra, será desmontado, e os trabalhadores voltarão ao campo. Ao passar já à meia-noite na frente da birosca aberta ao lado do hotel, vê-se o dono espreguiçando-se na calçada, de cueca, molhado do banho que acaba de tomar. Em seguida, ele escala uma estante que sustenta garrafas de refrigerante e uma televisão de 14 polegadas. É então que surge o lugar onde vive com a mulher e o filho: uma tábua instalada a menos de 1 metro do teto. Por enquanto, não haverá para ele uma “simcity”.



Uma metrópole, 9 países
Europa Ocidental, Austrália e América do Norte. Tudo aqui, na periferia de Xangai
1. Songjiang

País: Inglaterra

Área aproximada: 60 km2

População prevista: 300 mil

Lembra-se daquela novela de 1997, A Indomada? Então. Lá, o prefeito da nordestina Greenville queria transformar sua cidade numa pequena Londres. Embora não tenha a pretensão de converter o trânsito para a mão-inglesa, Songjiang tem a mesma anglofilia. Rodeada por uma zona industrial e uma cidade universitária, tem sua arquitetura inspirada em Bristol e Birminghan. E os incorporadores estão tentando trazer à cidade lojas britânicas como Tesco e Sainsbury. Mas, até o momento, pouco há aberto além da imobiliária e um salão de beleza – as madames chinesas não podem deixar de fazer uma escova antes do chá das 5... Seja como for, a idéia de morar no reino de Elizabeth 2ª não parece tão apetitosa quanto o governo imaginava: as corretoras só conseguiram vender 30% das casas desde o início das vendas, em 2003.

2. Anting

País: Alemanha

Área aproximada: 60 km2

População prevista: 50 mil

Quando se aproxima da antiga Anting, os caminhões cegonhas e os Santanas ainda sem placa já dão idéia dos planos para a nova cidade: transformar o local num dos maiores centros automobilísticos da China. Lá, já funcionam o autódromo do GP da China de F-1 e a fábrica da joint venture Shanghai-Volkswagen, maior produtora de carros do país. O lugar a ser copiado não poderia ser outro – a Alemanha. Menos óbvio, no entanto, foi o urbanista escolhido: Albert Speer “júnior”, filho do arquiteto número 1 de Hitler. O Albert Speer original era conhecido pelas construções monumentais. Mas filho de peixe nem sempre peixinho é. Apesar do gosto dos chineses pela grandiosidade, o trabalho de Speer segue o caminho oposto. Tanto que ele fez um simpático vilarejo, com prediozinhos baixos e coloridos.

3. Luodian

País: Suécia

Área aproximada: 6,8 km2

População prevista: 50 mil

Luodian abriga instalações da fabricante sueca de carros Volvo. Então, com a criatividade disneylândica que lhe é peculiar, o governo de Xangai decidiu transformá-la numa cidade escandinava, com direito a esculturas de barco viking e gente com chapéus com cornos e tranças. Pois é. O escritório de urbanismo Sweco não poupou forças na cidade temática – no centro, planejou a Scandinavian Cultural Street, uma reprodução da cidade histórica de Sigtuna, ao norte de Estocolmo. Comparado aos preços no centro de Xangai, as casas de Luodian são atrativas – dá para começar com R$ 140 mil. “É que não tem transporte para cá”, explicou a corretora imobiliária. Para atrair milionários e fazendeiros locais, então, construíram lá o maior campo de golfe de Xangai e uma réplica do lago Mälaren, cartão-postal da Suécia.

4. Gaoqiao

País: Holanda

Área aproximada: 9,2 km2

População prevista: 20 mil

Ao norte da cidade de Pudong, onde arranha-céus crescem como cogumelos em madeira podre, e às margens do rio Yang Tsé, Gaoqiao é uma das mais bem localizadas entre as novas cidades de Xangai. Além disso é rica em canais, como Amsterdã. O escritório holandês Kuiper Compagnons, então, projetou para a área uma versão menor da cidade européia, com moinhos e prédios imitando a arquitetura do século 17.

5. Buzhen

País: Austrália

Área aproximada: n/d

População prevista: n/d

Xangai decidiu que a ilha de Chongming, ao norte da cidade, abrigará Dongtan, a primeira cidade auto-sustentável do mundo (veja na Super de agosto de 2007). E resolveu pôr mais uma ecocidade lá, desta vez com jeitão australiano. Mas o projeto ainda não começou.

6. Fengcheng

País: Espanha (Catalunha)

Área: 2 km2

População prevista: n/d

A histórica Fengcheng, fundada em 1386, quer virar um centro de turismo. Então chamaram uma arquiteta catalã, Marcia Codinachs, para levar um pouco do sucesso turístico de Barcelona para lá. Ela vai recriar a La Rambla, maior ponto de encontro da cidade catalã. Se fica a dúvida se a Rambla de Fengcheng terá o charme da original, ao menos o projeto tem um mérito – procura ser ecologicamente sustentável.

7. Zhoupu

País: EUA

Área aproximada: n/d

População prevista: n/d

Pergunte a um chinês que país gostaria de conhecer. A resposta provavelmente será EUA. A idéia de Zhoupu é que o gramado verde na frente do sobrado branco pré-fabricado saia da TV e que o chinês possa ter a vida suburbana de Desperate Housewives.

8. Pujiang

País: Itália

Área aproximada: 15 km2

População prevista: 100 mil

Bem-vindo à Veneza da China. Hoje a densa rede de canais da área rural ao longo do rio Huangpu irriga plantações. Já quando a cidade italiana projetada pelo escritório milanês Gregotti Associati estiver pronta, servirá para os moradores brincarem de gondoleiros. O eixo central da cidade, que concentrará as atividades urbanas, terá um Palazzo Italia com uma praça aquática, jardins e uma universidade.

9. Fenjing

País: Canadá

Área aproximada: 8 km2

População prevista: 75 mil

Essa não está dando certo. A arquiteta Lisa Bate tinha projetado algo à altura das melhores cidades canadenses, que parecem ter mais parques do que ruas. Mas bastou a coisa sair do papel para os incorporadores mudarem tudo. Uma ponte com árvores e ciclovia, por exemplo, virou um monstro de concreto com colunas romanas, estilo Las Vegas. Do projeto original, ficou um bosque de plátanos, árvore-símbolo do Canadá.


Para saber mais
China’s Urban Transition

John Friedman, University Of Minnesota Press, EUA, 2005.

The New Chinese City

John R. Logan, Blackwell, EUA, 2001.

Revista Superinteressante

Leite brasileiro em busca de sucesso

Arte PB


Leite brasileiro em busca de sucesso

País tenta corrigir problemas para se firmar como maior fornecedor mundial

MIGUEL NÍTOLO


Foi uma verdadeira revolução no campo, no exato sentido da palavra, e ela pegou muita gente de surpresa, especialmente no estrangeiro, onde a visão de Brasil, até recentemente, se restringia a um país imenso e sem competência para extrair do solo fértil a fartura que poderia mudar seu status no cenário agrícola mundial. Acontece que, enquanto o mundo lá fora pensava assim, a lavoura aqui se modernizou, num trabalho de fôlego que consumiu muitos anos, investimentos e pesquisas – mais ou menos como aconteceu com o setor industrial, hoje respeitado e cada vez mais presente no exterior. Foi então que, de patinho feio na arte de cultivar a terra, a nação do “samba, futebol e carnaval” se transformou num importante representante da agricultura superior, projetando-se nos quatro cantos como uma potência incontestável do agribusiness.

Se os brasileiros já eram imbatíveis com o açúcar e o café, agora vão se tornando invencíveis, também, com a carne (de boi e de frango), o suco de laranja e, em breve, a soja e muitos outros grãos. O terceiro maior produtor agrícola e o primeiro entre os países emergentes, dizem os estudos, caminha rapidamente para, já nas próximas duas ou três décadas, se converter num efetivo celeiro do planeta, conforme profetizaram nossos antepassados. Todavia, existe um contraponto nessa feliz escalada, que diz respeito a um produto que, garantem os otimistas, reúne todos os ingredientes para alcançar o topo no médio prazo, mas que, conforme rebatem os realistas, terá, antes, de percorrer uma longa e pedregosa estrada: o leite.

O Brasil é um importante membro do clube de países que mais contribuem na oferta do produto, mas se encontra a uma distância razoável dos primeiros no ranking em escala global. É sabido que a Índia, com mais de 1 bilhão de habitantes, é o maior produtor do setor, tendo registrado no ano passado um volume de 102 bilhões de litros (computados tanto o leite de vaca quanto o de búfala), seguida pelos Estados Unidos, com 84 bilhões, e pela China, com 36 bilhões. O Brasil ocupou, no período, o sexto lugar, com 27 bilhões de litros, 7 bilhões a mais que em 2000, e expectativa de atingir 27,7 bilhões em 2009. Ou seja, com relação ao leite estamos na mesma situação experimentada décadas atrás pelo setor de carne, num tempo em que o rebanho era menor e o produtor carecia de tecnologia e padrões de qualidade. Essas desvantagens acabaram sendo superadas e, sem passes de mágica, foram-se abrindo as portas do mercado internacional. Os resultados apareceram no espaço de muitos anos, do que se depreende que, apesar de já se ter dito que o Brasil dispõe de meios para ascender rapidamente ao primeiro posto do setor leiteiro, o bom senso manda admitir que a tarefa aqui é simplesmente colossal.

Vários nós

“De 1990 para cá, crescemos a uma taxa de 4,2% ao ano, que é alta para os padrões mundiais, mas, logicamente, insuficiente para nos transformarmos, em pouco tempo, na maior potência leiteira”, pontifica Marcelo Pereira de Carvalho, especialista do mercado de lácteos. Diretor executivo da AgriPoint Consultoria e coordenador do portal MilkPoint, dedicado à cadeia do leite, Carvalho diz que, embora tecnicamente o Brasil possa se tornar o número 1 por ter área e recursos naturais como a água, “por ora essa vantagem tem um peso limitado”. Se, nos próximos anos, como é até provável que aconteça, o Brasil deixar para trás tradicionais nações produtoras, como Alemanha e Rússia, isso já representará um fenomenal avanço, afirma o economista Almir José Meireles, ex-executivo da área de planejamento estratégico da Cooperativa Central de Laticínios do Estado de São Paulo e do Grupo Vigor.

Afinal, onde está o nó górdio, que retarda a marcha triunfal do setor? Segundo os entendidos, não se trata de um, mas de vários nós. “São os mesmos obstáculos que inibem o deslanchar de uma série de outras atividades econômicas”, garante Meireles, autor dos livros Leite Paulista – História da Formação de um Sistema Cooperativista no Brasil, A DesRazão Laticinista e Planejamento, Qualidade e Globalização na Indústria de Laticínios, 1997-2000. Consultor em planejamento estratégico e organização empresarial da BrainStock Consultoria Empresarial, ele cita como entraves o baixo nível educacional da mão de obra e a deficiência da infraestrutura – faltam estradas que permitam o escoamento da produção o ano inteiro. Ele também aponta “a inexistência de normas claras e estáveis, situação que resulta em interpretações pessoais em decorrência, por exemplo, das diferenças de comportamento e de costumes de cada região”.

As características da produção leiteira no Brasil também estão entre os principais empecilhos. “A maior parte dos produtores é de pequeno e médio porte, com coleta diária de 50 a 100 litros”, esclarece Patrícia Blumer Zacarchenco, engenheira de alimentos e pesquisadora da TecnoLat-Ital (Instituto de Tecnologia de Alimentos), instituição de pesquisa, desenvolvimento e assistência tecnológica da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do estado de São Paulo. Ela sugere que esse perfil tem a desvantagem de carrear reduzidos investimentos para a atividade, circunstância essa que acaba por gerar problemas em toda a cadeia produtiva, tais como “baixa tecnologia, falta de controle sanitário dos animais e, quase sempre, a presença de situações higiênicas inadequadas nas operações de ordenha, conservação e transporte”.

Rosângela Zoccal, supervisora do Núcleo de Transferência, Treinamento e Capacitação em Pecuária de Leite da Embrapa Gado de Leite, tem outras informações esclarecedoras. Ela explica que no Brasil há um total de 1,3 milhão de produtores de leite e que 90% deles participam com menos de 50 litros por dia, contribuindo com somente 20% da oferta nacional. “Sabe-se também que a faixa que vai de 51 a 200 litros diários é ocupada por apenas 9% dos produtores, que respondem por outros 20%”. Assim, somente 1% dos produtores dá conta, diariamente, de mais de 200 litros, o que corresponde a 60% do leite brasileiro. Ressalte-se que a informalidade ainda é elevada, sobretudo no norte e nordeste, e tanto a comercialização de leite “porta a porta” como o mercado clandestino de queijos ainda vicejam no país. A formalização da produção, dizem os especialistas, tornaria mais fácil o desenvolvimento da cadeia produtiva e a formulação de políticas para o setor.

A verdade é que, para empurrar de vez para o alto os números da produção nacional de leite, será preciso vencer, também, uma série de outros desafios. “É essencial promover o fortalecimento do sistema de extensão rural e de treinamento específico para a atividade leiteira”, observa Glauco Carvalho, economista e pesquisador da Embrapa Gado de Leite. Ele cobra dos órgãos públicos e privados envolvidos maior disposição para adotar políticas de atuação enfáticas, com a definição de metas qualitativas e quantitativas a ser cumpridas tanto no curto quanto no longo prazo. Glauco observa que muitos produtores não conhecem sequer seu custo de produção, uma coisa que não se pode conceber, já que em qualquer atividade só se consegue alcançar o pleno sucesso quando ela é administrada como negócio.

O pesquisador da Embrapa também defende o aperfeiçoamento do processo produtivo mediante o emprego, pelo setor primário, de tecnologias capazes de reduzir custos, aumentar a produção e proceder à melhoria da qualidade do produto. “Já no tocante ao segmento de transformação, a indústria de laticínios deve investir na qualidade da matéria-prima e dos produtos processados, na escala de produção, na promoção comercial e na abertura de mercados.” Glauco destaca que é de suma importância que as empresas atuem em parceria na solução de grandes temas. “Precisamos dar atenção à representação do setor e à promoção do consumo”, conclui.

Valor nutritivo

O fortalecimento da imagem do leite é, de fato, determinante para o incremento da demanda. “Um dos fatores que contribuem para o baixo consumo é o desconhecimento de seus benefícios para a saúde”, destaca Márcia Aparecida de Paiva e Silva, assessora técnica da Superintendência de Política e Economia Agrícola da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais. Ela afirma que, além de explorar as alternativas de divulgação, valorizando o leite como produto indispensável para a alimentação humana, as estratégias de marketing deveriam envolver todos os elos da cadeia. Carvalho, da AgriPoint, pensa da mesma forma, mas salienta que nem sempre as informações passadas ao consumidor estão corretas, completas ou são imparciais. “O setor deve lançar mão de um trabalho de base, com a participação de médicos, nutrólogos, professores e pais, liberando informações científicas que motivem as pessoas a adotar dietas equilibradas, com a ingestão de lácteos”.

Campanhas com essa finalidade vêm sendo realizadas em todos os lugares. “A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) criou, em 2001, o Dia Mundial do Leite, celebrado em 1º de junho”, informa a mineira Márcia. “A ideia surgiu com o propósito de impulsionar o consumo do leite e de seus derivados, principalmente em países pobres e emergentes.” Ela diz que a iniciativa é primordial, dada a demanda insuficiente pela bebida e sua substituição por outros alimentos de valor nutritivo quase sempre inferior. Vem daí a reclamação feita pelos produtores de que os brasileiros bebem mais café, cerveja e refrigerante do que leite. A engenheira Patrícia, do Ital, comenta que o consumo brasileiro per capita de leite é de, aproximadamente, 130 litros por ano, 45 a menos que o volume recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). “Países vizinhos como a Argentina e o Uruguai têm demanda por pessoa de 215 litros por ano”, relata.

Nos Estados Unidos, esse consumo é de 255 litros, na Europa supera os 300 em várias nações e, no caso dos últimos países que ingressaram na União Europeia, vai de 150 a 300 litros. Em 2007, de acordo com a FAO, o consumo anual na Holanda foi de 626 litros por pessoa, na Irlanda de 575, na Dinamarca de 543 e na Suíça de 463. Especula-se que a disparidade do Brasil em relação ao resto do mundo se deva a fatores culturais, como os hábitos alimentares. Estaria, assim, respondida a seguinte pergunta que muitos produtores se fazem: “Se o Brasil consome algumas bebidas como um país de Primeiro Mundo, como pode tomar leite como um país pobre?”

É certo que a ausência do uso agressivo de marketing não é o único entrave à expansão do consumo. Há ainda a questão do poder aquisitivo. Sem o crescimento da renda fica difícil motivar o aumento da demanda por leite. “E mesmo que o brasileiro ganhasse um pouco mais, isso não seria o suficiente para dar ânimo ao consumo”, acredita Carvalho, do portal MilkPoint. Ele explica que o consumidor tem cada vez mais produtos com apelo à saúde à disposição no mercado, e que essas novidades sempre acabam tomando terreno dos lácteos. O economista Meireles observa, porém, que é preciso fazer justiça a Brasília, “que isentou os principais produtos lácteos dos tributos federais de maior monta (PIS/Cofins), medida que teve a capacidade de mudar a face do setor a partir de 2004 e de conferir ao Brasil meios para, enfim, alcançar a perseguida autossuficiência na oferta de leite”.

Técnicas de manejo

Tudo poderia ser bem diferente se a produtividade da pecuária leiteira nacional fosse maior. Rosângela Zoccal, da Embrapa, diz que no Brasil a média diária por vaca ordenhada é de 3,3 litros (ou 4,6 litros, segundo algumas estatísticas) e a de produção por estabelecimento é da ordem de 54 litros por dia, muito pouco diante do que se vê lá fora. Os campeões são os Estados Unidos e a Europa (25 e 30 litros diários por animal, respectivamente), mas, segundo entendimento de Meireles, esses dois mercados não servem de parâmetro para o Brasil por causa dos elevados subsídios concedidos neles às propriedades leiteiras. “A melhor comparação, ainda que desvantajosa para nós, deve ser feita com países como a Argentina (12,2 litros) e a Nova Zelândia (10,3), por exemplo”, opina ele.

É aqui que a assistência técnica ao produtor ganha relevância, porque tem o dom de permitir a transferência de conhecimentos capazes de aumentar a produtividade. “A aplicação de técnicas de inseminação para melhorar as características genéticas do rebanho e o ajustamento da quantidade e do balanceamento da alimentação são fatores que podem fazer a diferença, assim como a observância da vacinação e a aplicação de outros medicamentos”, destaca a engenheira Patrícia. O emprego correto dessas e de outras técnicas de manejo leva, invariavelmente, ao incremento da produtividade, ela diz, citando como exemplo prático desse trabalho de campo a assistência proporcionada pela Universidade Federal de Viçosa às propriedades leiteiras estabelecidas em seu entorno. “Ao longo dos anos, a produtividade ali aumentou”, completa.

A produção de leite vai além da imagem estereotipada associada ao setor até recentemente: um sujeito sentado num banquinho tosco ordenhando uma vaca. Não que ela seja totalmente descolada da realidade, já que muitos criadores continuam tirando leite dos animais daquele jeito, mas a modernização que se assenhoreou desse segmento, nos últimos tempos, teve o mérito de criar novos hábitos e métodos de trabalho, sofisticar a ordenha, fazer surgir uma leva de empresários de larga visão e, ainda por cima, ajudar a profissionalizar um destacado ramo da economia onde labutam milhões de brasileiros (a indústria de laticínios, dizem, gera mais empregos que a construção civil). Hoje, ao contrário de ontem, é possível acessar toda sorte de trabalhos e pesquisas voltados, especificamente, ao aperfeiçoamento e expansão do setor. Em 2007, por exemplo, a veterinária Georgiana Sávia Brito Aires mostrou ao mercado os resultados de uma pesquisa que conduziu com o objetivo de detectar os pontos negativos do leite produzido no Brasil. Naquela oportunidade, ela catalogou 21 defeitos relativos ao sabor, uma coisa que pode passar despercebida ao paladar do consumidor porque a maior parte das pessoas não cultiva o hábito de beber o produto puro, mas misturado ao café e ao chocolate, principalmente.

Doutora pela Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Georgiana conta que foram dois os principais defeitos de sabor detectados nas amostras analisadas: produto aguado e oxidado pela luz. Mas havia também aqueles que eram rançosos ou lipolisados, frutados, adstringentes, cozidos, sujos, ácidos e de sabor estranho, entre outros. Georgiana, que é também consultora de empresas, prega a ideia de que a indústria de laticínios brasileira deveria utilizar os dotes de especialistas em sabor, como fazem as de café, cerveja e vinho. Ela ressalta que, com a qualificação sensorial do leite, será possível trabalhar a causa do problema e resolvê-la ainda na fonte de produção ou até mesmo na indústria. “Em outubro de 2007, logo depois que a imprensa revelou o teor da pesquisa, veio à tona a fraude do leite levada a efeito por algumas indústrias e tornada pública pela ação da Polícia Federal”, destaca. Em sua opinião, há muito a ser feito quanto à qualidade do leite, mas já se percebe uma tendência à tomada de decisões que acabarão por colocar as coisas em seus devidos lugares.

Georgiana lembra que, desde 2002, está em vigor a instrução normativa nº 51, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que estabeleceu novos parâmetros de qualidade físico-química e microbiológica para o leite, além de regulamentar a coleta, refrigeração e transporte a granel. “Com certeza, tais medidas foram uma grande contribuição, mas é sabido que numerosos produtores ainda não conseguiram atender às exigências da legislação”, observa. O economista Meireles, que também é autor do recém-lançado A Integração Inacabada, um estudo sobre empresas cooperativas, diz que a instrução normativa nº 51 não chega a ser um texto moderno, mas que “gerou uma grande discussão no meio produtivo e, por conta disso, melhorou a qualidade do leite”.

O setor permite-se arroubos de otimismo, garantindo que, a exemplo do que aconteceu com outras commodities, o Brasil acabará, um dia, se ombreando aos grandes produtores mundiais de leite. E, assim, poderá confirmar as palavras do presidente da Nestlé no Brasil, Ivan Zurita, que, em depoimento à revista “Exame”, declarou que, enquanto outros países estão no limite, o país reúne condições para ser o grande fornecedor mundial do produto. “Estamos condenados a ter sucesso”, ele acentuou.

Revista Problemas Brasileiros

O que fazer com remédios vencidos?


O que fazer com remédios vencidos?

País não sabe que destinação dar aos medicamentos descartados

ELISA ALMEIDA FRANÇA

Ilustradora de jornais e livros infantis, Andréia Vieira, moradora de Carapicuíba (SP), joga seus remédios vencidos no lixo comum, depois de retirá-los do blister – embalagem de plástico e alumínio – para enviá-lo para reciclagem. Já a professora de inglês Leila Caldas, preocupada com o risco de que um medicamento caia nas mãos das crianças que passam por sua casa em Campinas (SP), dilui em água aqueles que atingem o prazo de validade para então jogá-los no vaso sanitário. Há também quem vá guardando os produtos, indefinidamente, apenas por não saber o que fazer com eles. Afinal, sempre acabam sobrando umas pílulas aqui e uns comprimidos ali, após o término de um tratamento. As razões podem ser diversas – uma prescrição de apenas 12 unidades, quando só é possível comprar embalagens com 10 ou 20; um tratamento que não deu certo e precisou ser trocado etc.

Os medicamentos, vencidos ou não, podem ser perigosos. Todo mundo sabe que deve seguir a receita médica e a bula do remédio, pois do contrário, dependendo do fármaco, pode haver reações indesejadas, ineficácia do tratamento, potencialização do princípio ativo e até intoxicação. As sobras, além de possibilitar a automedicação, podem causar prejuízos ao meio ambiente e à saúde pública. Porém, embora seja preciso tomar cuidado na hora de se desfazer delas, o difícil é descobrir a melhor maneira de conseguir isso.

Quem telefona para o Disque Saúde, número que o Ministério da Saúde disponibiliza para dar orientações à população, descobre que o órgão não tem nenhuma recomendação a fornecer sobre o descarte de remédios. Não existe legislação que trate do assunto, no que tange ao consumidor doméstico. As exigências de normas como a resolução de diretoria colegiada (RDC) 306/04 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ou a RDC 358/05 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) somente se destinam aos grandes geradores de resíduos, como a indústria, os hospitais, as farmácias e drogarias e afins, que são responsáveis por sua correta destinação final.

“Ligue para o Centro de Vigilância Sanitária (CVS) de seu estado”, diz a voz do outro lado da linha. Em São Paulo, ao discar para o CVS, a orientação obtida é que os produtos sejam levados a uma farmácia ou drogaria. “Normalmente eles recebem”, afirma a atendente. Com efeito, a RDC 44/09 da Anvisa, publicada em agosto, faculta às farmácias e drogarias coletar medicamentos vencidos, desde que observados os cuidados com a saúde pública e o meio ambiente. Porém, quando a reportagem de Problemas Brasileiros visitou quatro drogarias da capital paulista, apenas uma se dispôs a aceitar os fármacos.

De acordo com Pedro Zidoi, presidente da Associação Brasileira do Comércio Farmacêutico (Abcfarma), os custos das farmácias e drogarias com o descarte de resíduos de medicamentos (remédios vencidos ou com a embalagem avariada, por exemplo) variam entre 0,2% e 0,5% de seu faturamento. Embora não pareça muito, a entidade protesta contra o fato de suas afiliadas arcarem com esse gasto. “Os fabricantes e os distribuidores não aceitam a devolução dos produtos, e o prejuízo sempre fica com as farmácias e drogarias”, diz. Em 2008, segundo a entidade, foi comercializado no país o equivalente a R$ 34,3 bilhões em medicamentos. Assim, é possível estimar que os custos do varejo com o descarte de resíduos de fármacos, no ano passado, ficaram entre R$ 68 milhões e R$ 171 milhões. Diante disso, Pedro Zidoi afirma que é difícil para os estabelecimentos assumir a responsabilidade adicional de dar destinação a medicamentos devolvidos pela população.

Em alguns municípios, é a vigilância sanitária local que se incumbe de fazer a coleta nas drogarias e farmácias. Os custos para os estabelecimentos, nesse caso, se resumiriam ao correto gerenciamento e armazenamento dos produtos. Em Campinas, segundo o Sindicato do Comércio Varejista de Produtos Farmacêuticos no Estado de São Paulo (Sincofarma), o recolhimento e a destinação são feitos por uma empresa terceirizada pela prefeitura, serviço pelo qual as farmácias e drogarias pagam R$ 1.104 ao ano.

Em Curitiba, desde 1998 existem pontos móveis de coleta de lixo tóxico, que inclui, além de medicamentos, pilhas, baterias, lâmpadas fluorescentes, tintas e óleo de cozinha. A localização dos recipientes para o recebimento do material muda periodicamente, alternando sempre entre terminais de ônibus da cidade. Depois de recolhido, o lixo é encaminhado a um aterro industrial classe 1, destinado a receber resíduos perigosos.

Perigo no lixo ou na água

Uma pesquisa feita pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas e Bioquímicas Oswaldo Cruz em 2005 com 1009 usuários de medicamentos em São Paulo revelou que 75% deles lançavam esses produtos no lixo doméstico. Entre outros problemas, quando um remédio é descartado dessa forma, fica acessível a crianças ou animais de estimação. Não por mera coincidência, os fármacos são a maior causa de intoxicação no Brasil, ano após ano, desde 1994. De acordo com o Sistema Nacional de Informações Toxicofarmacológicas (Sinitox), que compila os dados enviados pelos Centros de Assistência Toxicológica (Ceatox) dos estados, em 2007 houve oficialmente 34 mil casos de intoxicação por fármacos – 30% do total de ocorrências.

Rosany Bochner, coordenadora do Sinitox, não aprova a prática da doação de fármacos a comunidades ou igrejas, mesmo que ainda estejam no prazo de validade, uma vez que não se sabe se os produtos foram armazenados adequadamente – em local seco, fresco e abrigado da luz. Além disso, há o risco de promover uma “automedicação coletiva, algo perigosíssimo”, explica.

A opção de diluir cápsulas e pílulas antes de jogá-las no vaso sanitário ou usar o ralo da pia para descartar xaropes e outros líquidos, por sua vez, também é condenável. “Antigamente, era isso o que se recomendava à população”, afirma a especialista. A ideia, então, era evitar que os medicamentos caíssem nas mãos de outras pessoas ou que chegassem aos lixões, onde poderiam ainda ser ingeridos por animais ou poluir o ar, o solo ou o lençol freático. “Só que aí nos deparamos com outro problema: a contaminação da água.”

O fato é que, tanto em rios quanto em redes de abastecimento público, desde os anos 1970 têm sido encontrados resíduos de medicamentos, como revelam pesquisas feitas em vários países. No Brasil, onde os estudos sobre o assunto são mais recentes, um trabalho realizado em 1997 no Rio de Janeiro detectou anti-inflamatórios e antilipêmicos – fármacos destinados a reduzir os níveis de colesterol – no esgoto bruto, em efluentes de estação de tratamento e até em águas de rio, em concentrações distintas. Segundo o levantamento, a remoção das substâncias pesquisadas por meio de sistema de tratamento variou entre 12% e 90%.

Os resíduos farmacoquímicos estão entre os chamados “contaminantes emergentes”, poluentes que se estudam há pouco tempo. Eles são classificados lado a lado com produtos de higiene pessoal e resíduos industriais de efeitos ainda não muito conhecidos. Já se sabe, no entanto, que muitos deles podem atuar como interferentes endócrinos, isto é, substâncias com capacidade de provocar distúrbios hormonais, tanto em seres humanos quanto em animais – dependendo da substância, isso pode ocorrer mesmo em baixas concentrações. Assim, eles afetam não só o sistema reprodutivo, mas também o próprio equilíbrio das células de um organismo.

Também foram detectados em diversas pesquisas traços de anticoncepcionais e antibióticos, o que suscita preocupação. Os hormônios sintéticos, por exemplo, podem causar alterações no sistema reprodutivo de peixes e provocar problemas endócrinos nos seres humanos, além de estar relacionados a alguns tipos de câncer. O risco apresentado pelos antibióticos está no surgimento de bactérias super-resistentes, cada vez mais difíceis de combater.

Acredita-se que a maior parte dessas substâncias seja excretada por quem consome os remédios, pois se sabe que o organismo não absorve completamente os medicamentos. A estimativa mais citada pelos pesquisadores é de que entre 50% e 90% dos princípios ativos sejam eliminados e terminem nas estações de tratamento ou nos cursos de água. Os pesquisadores lembram, porém, que uma parte desses resíduos deve ter como origem o descarte.

Remédios na torneira

Algo que tem causado preocupação é o fato de essa contaminação, muitas vezes, já estar chegando às casas da população. Em 2006, após coletar material durante cinco anos, a química Gislaine Ghiselli, orientada pelo professor Wilson Jardim, do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), revelou que havia constatado a presença de princípios ativos de diversos medicamentos não só na água de rios da região como também na das torneiras. Entre as substâncias encontradas, havia anti-inflamatórios, como diclofenaco e ibuprofeno, e analgésicos, como dipirona e paracetamol, além de hormônios e outros compostos. Nos Estados Unidos, um levantamento da agência de notícias Associated Press divulgado no ano passado revelou que em 24 regiões metropolitanas americanas a água chega às residências com traços de antibióticos, psicotrópicos e hormônios sexuais, entre outras substâncias.

Imagine, então, a situação no Brasil, país em que grande parte do esgoto gerado não é nem coletada. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2000, a última realizada, apenas 33,5% dos domicílios do país são atendidos, ainda que parcialmente, pela rede de esgoto. De tudo o que é coletado, 80% vai parar nos cursos de água sem passar por nenhum tratamento. “Temos uma política muito tímida em saneamento”, afirma o professor Jardim, da Unicamp. Diante dessa carência, segundo o pesquisador, as concentrações de poluentes encontradas nos mananciais brasileiros são mais elevadas do que em outros países.

Os estudiosos do assunto afirmam que o tratamento de esgoto feito no país se destina a degradar apenas os resíduos orgânicos, uma vez que utiliza tecnologias muito antigas, e, por essa razão, necessita de mudanças. “O sistema existente hoje foi feito para filtrar o material suspenso”, afirma o engenheiro sanitário Ivanildo Hespanhol, diretor do Centro Internacional de Referência em Reúso de Água (Cirra) da Universidade de São Paulo (USP). Segundo a química Raquel Pupo Nogueira, pesquisadora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Araraquara (SP), o modelo atual não foi concebido para tratar compostos mais complexos. “O tratamento é biológico, baseado em microrganismos, e serve para substâncias que são biodegradáveis.” Jardim observa, no entanto, que o sistema deveria remover, se não todos, pelo menos grande parte dos contaminantes.

De acordo com a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), porém, ainda não há motivo para investir em modelos mais novos de tratamento. “Hoje não há evidências muito fortes e concretas de que as substâncias possam causar problemas sérios à saúde”, afirma Américo Sampaio, gerente do Departamento de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação da maior companhia de abastecimento da América Latina, situada na maior e mais rica cidade do país. “Nenhuma empresa vai fazer investimentos antes que estejam definidas as concentrações máximas permitidas.” Esses limites, ao que parece, por enquanto não foram fixados em nenhum lugar do mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem, de sua parte, um grupo de estudo cujo objetivo é determinar diretrizes para que os países estabeleçam padrões para os resíduos químicos encontrados na água.

Soluções?

Os resíduos de produtos farmacêuticos enquadram-se no “grupo B”, definido pela RDC 306/04 da Anvisa como aqueles que podem apresentar riscos à saúde pública ou ao meio ambiente. Segundo Regina Barcellos, coordenadora de Infraestrutura em Serviços de Saúde do órgão, entre as soluções para a destinação final de resíduos de medicamentos estão a “inertização”, a incineração e a disposição em aterros classe 1, também chamados de especiais. No primeiro caso, utiliza-se uma substância química que “anula” o risco de um produto específico. Na opinião da coordenadora, no entanto, esse processo é complicado e não muito seguro. “Ao inertizar, pode-se criar outro risco.” Em outras palavras, existe a possibilidade de gerar resíduos mais tóxicos ainda. Já para proceder à incineração, é preciso que a máquina atinja temperaturas acima dos 1.000º C. “Além disso, o equipamento tem de ter uma licença específica.” Quando o destino é o aterro, o resíduo deve ser encapsulado em bombonas com identificação de conteúdo, armazenadas em espécies de prateleiras.

Obviamente, porém, não há incineradores adequados e aterros especiais distribuídos em todas as regiões do país. A farmacêutica industrial Elda Falqueto, mestre em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que adotou como exemplo o diazepam (um ansiolítico) e pesquisou a gestão de resíduos de medicamentos em São Mateus, no interior do Espírito Santo, verificou que lá eles eram mandados para um incinerador. Só que o equipamento, localizado em um município vizinho, nem possuía a licença apropriada. “O gerenciamento de resíduos ainda apresenta grandes deficiências nos aspectos de tratamento e disposição final”, diz o estudo realizado por Elda. Em sua opinião, o país provavelmente tem inúmeras outras localidades com infraestrutura deficiente como a de São Mateus.

Segundo a OMS, a incineração ainda é a melhor destinação, no caso de produtos farmacêuticos. Apesar de admitir as qualidades do sistema – em suas palavras, o equipamento responsável pela queima funciona como um computador, e trava se não atinge a temperatura programada –, a professora Wanda Gunther, docente do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da USP, ressalta que essa tecnologia apresenta riscos. Na presença de cloro e de matéria orgânica, as emissões gasosas resultantes do processo podem vir a incluir, por exemplo, dioxinas e furanos, substâncias consideradas muito tóxicas e com potencial cancerígeno. “A norma em São Paulo estabelece um teor máximo de cloro para que o resíduo possa ser queimado”, afirma. Assim, para atendê-la, é preciso conhecer muito bem a composição química das substâncias descartadas, algo que nem sempre acontece. O cloro está presente em produtos como o PVC e outros plásticos. Na opinião de Wanda Gunther, se os resíduos farmacoquímicos pudessem ser tratados de outra maneira, seria melhor. “Embora existam controles, não se sabe ao certo o que resultará da mistura dos medicamentos, que estão cada vez mais complexos. É possível que estejamos gerando algo que não conhecemos.”

Luzes no fim do túnel

Um ponto sobre o qual não há divergência entre os especialistas consultados é o fracionamento de medicamentos. A medida permitiria ao cidadão adquirir apenas a quantidade de pílulas ou comprimidos prescrita pelo médico. “Não vejo outro caminho para o consumidor não ter problema com as sobras”, diz Regina Barcellos, da Anvisa. Segundo Elda Falqueto, o fracionamento trataria uma parte do problema na fonte, já que reduziria o volume de resíduos.

As medidas legais que tratam do tema, porém, estão, cada uma à sua maneira, emperradas. Em maio de 2005, a RDC 135/05 da Anvisa (substituída mais tarde pela RDC 80/06) regulamentou a prática, definindo regras de acordo com as quais as farmácias e drogarias deveriam colocá-la em ação. O maior problema, no entanto, é que a RDC não torna a medida obrigatória. Com esse objetivo, o Executivo enviou ao Congresso há três anos o projeto de lei 7.029/06, que tramita desde então. Na opinião de entidades como o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e a Associação Pro Teste, sem a obrigatoriedade, é difícil acreditar que o fracionamento venha a ser implementado.

Atualmente, um grupo de trabalho da Anvisa que reúne também representantes do setor farmacêutico discute o gerenciamento de resíduos químicos para encontrar respostas para alguns entraves. Uma das propostas é a inclusão de dados, no momento do registro dos produtos pela indústria, a respeito dos riscos que apresentam, indicando em que condições devem ser descartados. “Na Europa e nos EUA, isso já acontece”, afirma Regina Barcellos. “Os europeus fazem inclusive a avaliação de risco ambiental do medicamento.”

Esse dispositivo da União Europeia é o primeiro no mundo a considerar que há a possibilidade de certos fármacos, mesmo em baixíssimas concentrações, apresentarem algum risco para o meio ambiente (e subsequentemente para a saúde pública). A partir de informações fornecidas pelos fabricantes, exigidas pelo bloco desde 2006, a Suécia foi além. Uma base de dados online, que teve início em Estocolmo e depois se estendeu ao restante do país, permite aos médicos consultar a classificação ambiental dos fármacos. O objetivo é possibilitar o uso de opções de tratamento que, eventualmente, ofereçam menos riscos. Será que um dia chegaremos lá?

Revista Problemas Brasileiros

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Desenvolvimento agrícola: o trunfo possível para a África


Desenvolvimento agrícola: o trunfo possível para a África
A agricultura deve ser o motor do desenvolvimento africano, onde dos 53 países, 43 sofrem com baixa renda e déficit alimentar. Não somente não produzem o bastante para alimentar sua população como não têm recursos suficientes para importar alimentos
Jacques Diouf

A eliminação da fome não é só um imperativo de ordem moral e ética, é também uma necessidade econômica
O filósofo grego Xenofonte dizia que " a agricultura é a mãe de todas as artes: quando é bem conduzida, todas as outras artes prosperam; mas quando é negligenciada, todas as outras artes declinam, na terra como no mar ". Por tê-la negligenciado, o mundo se depara com 852 milhões de sub-alimentados, dos quais uns duzentos milhões na África. O problema da fome persiste, não em razão de uma falta de alimento – produz-se o suficiente para alimentar todos os habitantes do planeta – mas porque os que mais precisam são privados dos recursos para produzir ou comprar os víveres que lhes permitiriam alimentar-se e preservar sua dignidade.

Em 1966, em Roma, chefes de Estado e de governo do planeta comprometeram-se a reduzir à metade, antes de 2015, o número de pessoas que passam fome. Muitos países em desenvolvimento respeitaram esse compromisso lançando grandes programas nacionais. Outros, infelizmente, não avançaram e em alguns casos, a situação alimentar chegou até a piorar.

Com freqüência batemos contra um muro de indiferença quando lembramos os benefícios econômicos de uma erradicação da fome. No entanto, sua eliminação não é só um imperativo de ordem moral e ética, é também uma necessidade econômica. A sub-alimentação enfraquece as capacidades físicas e cognitivas, favorece a progressão de inúmeras doenças e provoca uma forte queda na produtividade. Segundo um estudo da FAO abrangendo 110 países entre 1960 e 1990, o produto interno bruto (PIB) anual por habitante na África sub-saariana se não houvesse a má-nutrição, poderia ter atingido entre 1 000 e 3000 dólares em 1990, enquanto que não passou de 800 dólares. Todo ser dotado de razão deveria compreender sem dificuldade a enorme vantagem, para os produtores de bens e serviços, da transformação de 200 milhões de famintos em consumidores com poder de compra efetiivo.

Déficit alimentar
A África é o único continente onde a produção agrícola por habitante baixou ao longo dos últimos vinte e cinco anos. É também o continente onde a agricultura sofreu enormemente com políticas errôneas ou inadaptadas, tanto no período colonial quanto em um passado mais recente. A prioridade da industrialização e da monocultura de renda desequilibrou e fragilizou a agricultura. Mal direcionada, a ajuda externa não produziu os efeitos esperados. Por outro lado, em relação à população, baixou, passando de 43 a 30 dólares por habitante no fim dos anos 1990.

A prioridade da industrialização e da monocultura de renda desequilibrou e fragilizou a agricultura na África
Dos 53 países africanos, 43 sofrem com baixa renda e déficit alimentar. Não somente não produzem o bastante para alimentar sua população como não têm recursos suficientes para importar os alimentos que supririam a falta.

A África, onde os menores de 15 anos representam cerca de 45% da população, deveria alimentar uma população que passará de 832 milhões em 2002 e mais de um bilhão e oitocentos milhões em 2050. Para enfrentar esse desafio, precisará aumentar ao mesmo tempo a produção e a produtividade agrícolas. Atualmente, a agricultura emprega 57% da população, garante 17% do PIB e fornece 11% das receitas de exportação. Poderia tornar-se o motor do desenvolvimento econômico e social se uma parte maior das alocações orçamentárias lhe fosse destinada. A esse respeito, o compromisso assumido pelos chefes de Estado e governo da União Africana, por ocasião da cúpula de Maputo, em Moçambique, em julho de 2003, de dobrar, em cinco anos a porção dos orçamentos nacionais consagrados à agricultura e alcançar 10% é muito animadora. Esta melhoria possibilitaria criar o valor agregado necessário ao crescimento do PIB, com os importantes efeitos induzidos sobre os setores secundário e terciário.

Controle da água
Para isso, o controle da água revela-se essencial. De fato, os rendimentos da agricultura irrigada são três vezes mais elevados do que os da agricultura pluvial. Ora, a África só utiliza 4% de suas reservas de água disponível com uma irrigação sobre apenas 7% das terras aráveis. Esta porcentagem cai para 1,6% na África subsaariana. Em comparação, alcança 7% na Ásia, permitindo irrigar 40% das terras aráveis.

O que mostra a urgência de encorajar a construção de poços, de pequenos canais de irrigação e drenagem bem como barragens simples nas aldeias. O objetivo da FAO é dobrar rapidamente e a custos razoáveis, especialmente pela mobilização da mão-de-obra rural, a porcentagem das terras irrigadas, que passaria de 7% a 14%. Deste modo, evitar-se-ia as freqüentes fomes devidas à seca.

O controle da água é essencial para gerar renda e empregos estáveis durante o ano todo. Por isso é uma componente importante do Programa especial para a segurança Alimentar(PSSA) da FAO, agora operacional em 101 países, 42 dos quais na África. Em 1o de novembro de 2004, o montante total dos financiamentos atingia 766 milhões de dólares, dos quais cerca de 67% fornecidos pelos orçamentos nacionais dos países em vias de desenvolvimento. Este programa permite, além disso, intensificar as culturas de cereais, hortícolas e de frutas pela introdução de variedades de alto rendimento e permite desenvolver a pequena produção animal (avícola, ovina, caprina, porcina), como também a pesca artesanal e a aquacultura.

Ataque a predadores
Para alimentar mais de 1 bilhão e 800 milhões de pessoas em 2050, a África precisará aumentar ao mesmo tempo a produção e a produtividade agrícolas
Por outro lado, ninguém pode ignorar os ataques de predadores e doenças que dizimam plantas e gado. A FAO lançou, então, em 1994, em escala mundial, o que se chama Sistema de Prevenção e de Resposta Rápida contra Pragas e Doenças Transfronteiriças dos Animais e Plantas (EMPRES). O objetivo é facilitar a detecção, o alerta precoce e a resposta rápida bem como o reforço das capacidades nacionais e a organização de redes de pesquisa para dispor de métodos de luta mais eficazes e menos nefastos ao ambiente. No campo da "proteção das plantas", a prioridade foi dada à luta contra o grilo.

Incontestavelmente, este programa, operacional desde 1997, mostrou-se eficiente na região central da área de incidência do grilo (em torno do Mar Vermelho), graças ao financiamento contínuo dos provedores de recursos. Mas nunca pôde ser aplicado totalmente na região ocidental por falta de recursos suficientes. A crise acridiana na África do Oeste e do Noroeste tomou proporções dramáticas apesar dos alertas emitidos pela FAO desde outubro de 2003. As chuvas, que constituem o fator primordial na bio-ecologia do grilo, foram abundantes, criando assim condições favoráveis a uma boa reprodução em zonas muito vastas. A situação piorou particularmente em julho-agosto de 2004, devido a reações tardias de fornecedores de recursos e de organismos de ajuda multilateral. Com efeito, a luta contra o grilo apóia-se na responsabilidade coletiva dos países envolvidos e da comunidade internacional.

Necessidade de infra-estruturas
É preciso também notar que os períodos de fome no continente resultam principalmente das secas e dos conflitos
Se a prioridade continua sendo permitir aos países africanos atingir a auto-suficiência alimentar e capacitá-los a erradicar a fome, estes países não podem ficar de fora do comércio mundial. Devem então adaptar-se às normas de qualidade e segurança sanitária dos alimentos para ter acesso aos mercados internacionais. E a assistência da FAO refere-se notadamente aos aspectos legislativos e regulamentares, o reforço das instituições, a formação e o equipamento científico.

Finalmente, e este não é o desafio menor, infra-estruturas rurais (estradas, recursos de armazenamento e acondicionamento, mercados, etc) devem ser construídas para permitir aos agricultores disporem de matérias primas modernas e comercializar seus produtos a custos competitivos. O Plano Marshall contribuiu para reconstituir as infra-estruturas, na Europa e os auxílios regionais da União Européia têm oficialmente por objetivo recuperar o atraso dos novos membros nesse setor. Por que os países africanos têm de desenvolver-se sem portos, aeroportos, estradas, ferrovias e energia elétrica?

É preciso também notar que os períodos de fome resultam principalmente das secas e dos conflitos. As confusões armadas que assolaram os países da África subsaariana entre 1970 e 1997 (data do último estudo), provocaram perdas de produção agrícolada ordem de 52 bilhões de dólares, o equivalente de 75% do total da ajuda oficial para o desenvolvimento recebida durante o mesmo período.

Recursos naturais e mercado interno
O quinhão no comércio mundial da África não ultrapassa 2% devido às dificuldades de acesso dos produtos agrícolas africanos aos mercados dos países desenvolvidos
É claro que a África sofre de muitas desvantagens: seu quinhão no comércio mundial não ultrapassa 2%particularmente devido às dificuldades de acesso dos produtos agrícolas africanos aos mercados dos países desenvolvidos; seu crescimento demográfico é mais rápido do que o seu crescimento econômico; o peso do endividamento público externo fica pesado demais; os problemas de saúde são imensos, com o impaludismo, as doenças diarréicas e a epidemia de HIV/AIDS em particular. Todavia, a África dispões de imensos trunfos, entre os quais seus recursos naturais e um mercado interno que vai chegar a dois bilhões de pessoas.

A Europa e os Estados Unidos, na primeira metade do século passado estiveram envolvidas em duas guerras mundiais devastadoras. Em seguida, os conflitos foram transpostos para a Ásia com a Coréia, a Indochina, a Indonésia especialmente. Depois as guerras civis provocaram estragos terríveis nas fileiras das populações da América Central e do Sul. Atualmente, mal chegando a 50 anos de soberania internacional, a África atravessa as crises de juventude ligadas à construção dos Estados e à consolidação de nações submetidas às forças centrífugas das diferença étnicas e dos apetites financeiros internacionais. Do mesmo modo, não se pode ignorar sua juventude ávida de saber e de educação, seus camponeses e operários laboriosos e seus emigrados que trabalham com afinco para melhorar as condições de vida de suas famílias que ficaram em seu país. É esta África o fundamento de nosso otimismo e de nossa esperança.

(Trad.: Betty Almeida)

Le Monde Diplomatique

Para acabar com a fome


Para acabar com a fome
O mundo pode alimentar os 9 bilhões de seres humanos anunciados para daqui a 25 anos? Não se sabe. Mas esse desafio deve ser enfrentado assegurando mediações entre as dinâmicas científica e do mercado, bem como com a fragilidade das sociedades e do ambiente
Edgard Pisani


É preciso pensar ao mesmo tempo de um ponto de vista mundial, europeu e nacional; nos agricultores e na sociedade global; na produção, empresas agrícolas, território e ambiente
Pode-se tratar a agricultura como os outros setores econômicos? Deve-se reclamar a “exceção agrícola?” Qual é o objeto das políticas agrícolas? A Organização Mundial do Comércio (OMC) deve aplicar à agricultura a regra geral ou elaborar um modo de intervenção especial? Um observador que procure responder a estas perguntas encontra poucos interlocutores preocupados em falar da realidade: os especialistas se dedicam ao ajustamento das regras existentes e muito pouco à invenção de novas regras. Profissionais, pesquisadores, peritos e políticos são prisioneiros de um torno cujas tenazes são os direitos adquiridos e um certo pensamento dominante. Como agir de outro modo, senão a partir de necessidades a satisfazer. Mas de que necessidades se trata, e por onde começar?

É preciso pensar ao mesmo tempo de um ponto de vista mundial, europeu e nacional ; nos agricultores e na sociedade global ; na produção, empresas agrícolas, território e ambiente. Levar em conta ao mesmo tempo a unidade do mundo e a diversidade de seus componentes, presente e duração, políticas e Política. Partir da realidade, tomar consciência dos problemas que a sociedade apresenta aos agricultores e que estes devem resolver como resposta, pois se trata de prever um quase-contrato social.

Não sacrificar o futuro pelo presente
Tomemos três necessidades: a segurança alimentar e nesta perspectiva, o fim da fome; o respeito à natureza e o exame crítico dos efeitos humanos e ambientais, presentes e futuros das práticas e produtos novos; a salvaguarda das comunidades agrícolas, cujas migrações podem abalar os equilíbrios demográficos. As dinâmicas da ciência e do mercado podem levar ao crescimento da produção agrícola e permitir aos agricultores viver de seus investimentos e de seu trabalho. Estas dinâmicas não podem, por si sós, garantir a segurança alimentar dos povos, o presente e o futuro das comunidades e da natureza, é preciso instaurar as regras necessárias. Legítimas, as dispensas das regras da concorrência devem ser justificadas, o ônus da prova incumbindo aos intervencionistas, mas de tal modo que o “juiz” seja objetivo.

As dinâmicas da ciência e do mercado não podem, por si sós, garantir a segurança alimentar dos povos, o presente e o futuro das comunidades e da natureza
Uma vez identificadas as necessidades, cabe ao político elaborar uma visão – prospectiva e levando em conta todas as necessidades – que, escolhida como hipótese e submetida a exame, conduza a uma dialógica entre um presente conhecido e um futuro escolhido. Nunca sacrificar o segundo pelo primeiro. Diz-se que as políticas agrícolas têm por objetivo seduzir os eleitores do campo. Na verdade, são inspiradas por interesses e estratégias de conjunto. Foi assim que as decisões da Comunidade Européia foram impostas por seus déficits alimentares do pós-guerra imediato e em seguida pela vontade de não deixar aos Estados Unidos o monopólio do « poder verde ». Foi para compensar seus pontos fracos na indústria que a França exigiu que o Tratado de Roma (1957) fundamentasse a política agrícola comum européia (PAC). A modernização que se seguiu provocou um êxodo rural favorável ao desenvolvimento industrial. Os Estados Unidos, de seu lado, favoreceram a pesquisa e os investimentos agrícolas. Aqui como lá, o setor agroalimentar industrial e comercial foi, bem mais do que a agricultura, o grande beneficiário desta política.

Alimento para 9 bilhões de pessoas
É porque se beneficiam hoje em dia de vantagens comparativas (sociais, fundiárias, climáticas) que lhes permitiriam logo controlar comércio e preços mundiais que os países do grupo dito de Cairns lutam contra as ajudas dos Estados Unidos e da União Européia1. Em resumo, estes auxílios e garantias diminuíram a velocidade de desaparecimento de agriculturas úteis e contribuíram para o equilíbrio tanto das balanças das contas como ao dos territórios. Esses auxílios e garantias tratam os agricultores como fatores de produção, a terra como uma jazida a explorar, o ambiente como um bem inesgotável, a segurança alimentar como um privilégio natural. É preciso remediar isso elucidando algumas alternativas essenciais. Sem pretender defini-las, tracemos as mediações a que elas remetem.

O mundo pode alimentar os nove bilhões de seres humanos anunciados? Não se sabe. Alguns fatores de produção podem crescer: há boas terras incultas a valorizar, avanços técnicos e científicos a divulgar, pesquisas a continuar, uma formação técnica a favorecer. Mas certos fatores de produção se reduzem: das melhores terras, algumas estão ameaçadas pela subida do nível dos oceanos, a urbanização e as grandes obras, a superexploração, a poluição, o desaparecimento de florestas que são reguladores climáticos. O deserto devora espaços ainda ontem férteis. A água, um bem raro, torna-se um elemento de conflito entre a irrigação e as necessidades “urbanas”. Os capitais a investir em favor do desenvolvimento não são inesgotáveis e a agricultura exige muito desses capitais.

Mediações difíceis
As decisões da Comunidade Européia foram impostas por seus déficits alimentares do pós-guerra imediato e pela vontade de não deixar aos EUA o monopólio do “poder verde”
Ser-nos-ia permitido, apesar de tudo isso, de fazer a aposta da auto-suficiência de todos se o mundo tivesse a capacidade política de assegurar mediações difíceis: entre o direito dos povos de se alimentarem eles próprios e o dos comerciantes de abolirem as fronteiras; entre um planeta explorado por 300 000 mega-fazendas industriais e um bilhão de empresas agrícolas familiares; entre a ideologia mercantil, para a qual tudo é simples e uma apreensão sutil de um mundo natural, social e político que é complexo. A segurança internacional depende de fato de um desenvolvimento equilibrado em que a natureza seria ajardinada; onde imensas aglomerações e grandes conglomerados não se comunicariam por vias expressas que atravessam espaços desolados; onde, escapando da miséria, os povos menos aquinhoados conheceriam pelo menos uma pobreza benfazeja.

O pior não está excluído, pois passamos da mundialização do comércio à globalização de um modelo ao qual a maior parte do planeta e a grande maioria dos humanos não conseguiria se adaptar. Numa unidade forçada, somos ameaçados por uma uniformização que menospreza nossa diversidade. Ora, se as civilizações são múltiplas, é que a natureza as fez assim. Uniformizar é fazer desaparecerem capacidades de produção. É levar ao desespero – que é mau conselheiro – quatro a cinco bilhões de camponeses e agricultores.

Desafios da agricultura
Uniformizar é fazer desaparecerem capacidades de produção. É levar ao desespero – que é mau conselheiro – quatro a cinco bilhões de camponeses e agricultores
O mundo lança à agricultura o desafio de alimentar nove bilhões de seres salvaguardando natureza e comunidades rurais. Aceitando essas responsabilidades, a agricultura lança à sociedade global o desafio de dar-lhe recursos; lança à União Européia ampliada o desafio de existir como potência autônoma, capaz de definir e de negociar uma política agrícola, alimentar, rural e ambiental européia garantindo sua segurança e contribuindo para os equilíbrios mundiais; desafia a OMC a definir regras que levem em conta suas características específicas e sua infinita diversidade; desafia a modernidade a inscrever o presente no tempo. Não é impossível enfrentar esse desafio. Esbocemos então os princípios de uma governança mundial e de uma política européia.

Sendo nossa ambição, nosso dever, acabar com a fome, em 25 anos, as necessidades alimentares do mundo serão três vezes maiores do que hoje. As sociedades rurais representam quatro bilhões de seres, o aumento da produção agrícola não pode ser buscado esquecendo os enormes problemas que um êxodo rural maciço representaria, enquanto que as cidades, a indústria e os serviços não lhes abrem os braços.

Objetivos de uma governança mundial
O desenvolvimento da produção agrícola é favorecido pelo progresso, mas é ameaçado pela diminuição de certos fatores de produção. Esse desenvolvimento não poderá ser promovido, em lugar algum do mundo, pela aplicação precipitada de novidades e pela persistência de práticas que ameaçam o ambiente. Sendo a segurança alimentar reconhecida como um direito humano e político fundamental, devem ser então sacramentados tanto o direito dos povos de se alimentar como a proibição de qualquer incentivo à exportação. Devem ser asseguradas mediações entre as dinâmicas científica e do mercado e a fragilidade das sociedades, assim como do ambiente; entre a diversidade natural e cultural das regiões e a unidade a ser inventada de um mundo pacificado.

Tais devem ser os objetivos de uma governança mundial e de uma política agrícola, alimentar, rural e ambiental européia. Estão para serem inventadas, tanto uma quanto a outra. Desafiam a OMC, cuja única vocação é estimular o comércio, e uma União Européia que deve construir-se como potência mundial de um novo tipo. Se estas exigências responderem a necessidades e ameaças constatadas, seria moralmente inaceitável, objetivamente absurdo e politicamente perigoso não enfrentá-las.

(Trad.: Betty de Almeida)

1 - O Grupo de Cairns se compõe de 17 países: África do Sul, Argentina, Austrália, Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Indonésia, Malásia, Nova Zelândia, Paraguai, Filipinas, Tailândia, Uruguai.

Le Monde Diplomatique

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O país em ritmo de envelhecimento


O país em ritmo de envelhecimento

Até a metade do século, a população de idosos será de quase 50 milhões

HERBERT CARVALHO

O Brasil está envelhecendo a uma rapidez vertiginosa. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) dão conta de que o país já chegou a uma taxa de fecundidade de 1,8 filho por mulher, patamar que, segundo se estimava, só seria atingido em 2043. Ao mesmo tempo, a expectativa de vida do brasileiro, de 41 anos em 1960, atingiu 72,7 anos em 2007. Dessa forma, as projeções do IBGE, segundo as quais a população brasileira passará dos atuais 190 milhões de habitantes para 220 milhões em 2040, quando então começará a declinar até atingir 215 milhões em 2050, indicam também que a parcela dos que têm mais de 65 anos aumentará dos atuais 12,4 milhões para 48,9 milhões de pessoas até a metade do atual século. Nessas mesmas quatro décadas, o número de crianças cairá dos atuais 50,2 milhões para 28,3 milhões.

De acordo com outro estudo, este da Organização das Nações Unidas (ONU), a idade mediana da população (aquela abaixo da qual o número de indivíduos é igual ao dos acima dela) nos países ricos passou de 29 anos em 1950 para 37 anos em 2000 e está projetada para ser de 46 anos em 2050. Nas projeções do IBGE, essa mesma idade mediana, que no Brasil era de 20 anos em 1980, chegará a 40 anos em 2030 e deve atingir, em 2050, os mesmos 46 anos estimados pela ONU para o mundo desenvolvido.

Porém, ao contrário dos países ricos e apesar dos avanços recentes que o colocam à frente dos demais Brics (Rússia, Índia e China) com relação à esperança de vida ao nascer, o Brasil ainda caminha a passos lentos na remoção dos obstáculos que conspiram contra o envelhecimento ativo e saudável.

A grande maioria dos idosos, que vive nas cidades sustentando-se com benefícios que não chegam a dois salários mínimos, enfrenta a violência urbana e familiar, é vítima de maus-tratos de cuidadores despreparados em casa ou em asilos, pena para atravessar ruas e avenidas ou para entrar em edifícios públicos desprovidos de rampas e corrimões. Sofre, também, no âmbito do transporte público – quase como uma vingança pela conquista do direito a não pagar a passagem –, o desrespeito de motoristas de ônibus impacientes diante de sua mobilidade restrita ou a ocupação, por outros passageiros, dos assentos especiais reservados aos mais velhos. Em outras palavras, os direitos garantidos na Constituição e no Estatuto do Idoso não são respeitados como deveriam. Assim, além de exigir medidas para evitar a implosão futura da Previdência Social, a nova realidade demográfica requer uma revisão das políticas públicas destinadas a garantir que os idosos do século 21 possam não apenas viver mais, como também melhor.

Pacto civilizatório

De acordo com Vicente de Paula Faleiros, assistente social e professor de mestrado em gerontologia da Universidade Católica de Brasília, a longevidade tornou-se uma conquista social. "É fundamental fazer a desconstrução da velhice como categoria homogênea para valorizar a heterogeneidade e a diversidade social, cultural, biológica e psicológica de cada idoso".

No plano das políticas públicas, Faleiros aponta como urgentes a formação de cuidadores, a vacinação e o fornecimento gratuito de medicamentos – em especial os de combate a doenças como Parkinson e Alzheimer – além da assistência médica prestada por meio do Programa Saúde da Família. Ele considera, também, que os desafios para um envelhecimento ativo e saudável fazem parte de um processo de ampliação e efetivação da cidadania, que vai além dos governos: "Implica um pacto civilizatório de toda a sociedade para reduzir as desigualdades por meio de serviços, recursos, acessibilidade, respeito, tolerância e convivência. Estado, família e sociedade devem interagir nessa construção, como, aliás, está previsto na própria Constituição Federal".

Segundo Maria Eliane Catunda de Siqueira, também assistente social, mestre em gerontologia e doutoranda em educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ser ativo e participante após os 60 anos não deve ser um privilégio conquistado pelo indivíduo, mas um direito garantido pelo Estado: "A sociedade tem o dever de promover um ambiente no qual os idosos possam desfrutar direitos e oportunidades, após uma vida dedicada à construção dessa sociedade". Ela convoca arquitetos e urbanistas a dar sua contribuição: "A presença do idoso nas diferentes cenas da vida cotidiana depende da eliminação de bloqueios arquitetônicos no meio urbano. A cidade é um espaço de vida e de encontro, e por isso deve ser pensada para pessoas de todas as idades".

No tema educação, ressaltando que a população idosa é menos escolarizada que as gerações mais jovens, Eliane afirma que isso limita o usufruto de bens e produtos culturais e a defesa dos próprios direitos, constituindo-se num dos principais fatores de exclusão social. "Deve-se oferecer aos mais velhos a oportunidade de superação do analfabetismo. É importante que se garanta o acesso à educação ao longo de toda a velhice, inclusive o domínio de novas tecnologias e a participação, juntamente com as demais gerações, na produção e difusão de bens culturais."

Violência

Os maus-tratos contra idosos começaram a ser noticiados em 1975 pela imprensa inglesa, sob o título de "espancamento de avós". Em 1982 a Organização Mundial da Saúde (OMS) constituiu a Rede Internacional para a Prevenção de Maus-Tratos contra o Idoso, que considera violência qualquer ato (único ou repetido) ou omissão que possa causar danos ou aflição a pessoas desse grupo social e que se produza em qualquer relação na qual exista expectativa de confiança. Esse conceito abrange os abusos físicos, psicológicos e sexuais; o abandono e a negligência, pela sociedade ou por familiares; o abuso financeiro e econômico, caracterizado pelo uso não autorizado pelo idoso de seus recursos financeiros e patrimoniais, e a autonegligência, quando a pessoa idosa recusa cuidados ou coloca a si própria em situação de risco.

No Brasil, a promulgação do Estatuto do Idoso colocou o tema como pauta das políticas sociais. Em 2005 foi oficializado um plano intersetorial de enfrentamento da violência contra esse segmento, que inclui ações de promoção, de prevenção de agravos, de atendimento às várias formas de violência e de normalização das casas e clínicas de longa permanência.

"Os tipos de violência que a população idosa sofre coincidem com a que a sociedade brasileira vivencia e produz nas suas relações e introjeta na sua cultura", diz a socióloga Maria Cecília de Souza Minayo, autora do livro Violência e Saúde (Editora Fiocruz, 2006).

Dados do Sistema de Informação de Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, mostram que a violência e os acidentes figuram como o sexto motivo de morte entre os idosos. Os acidentes de trânsito e as quedas são as principais causas de óbito das pessoas desse grupo etário.

"No trânsito, o idoso passa por uma combinação de desvantagens próprias da idade às quais se somam a falta de respeito por parte dos motoristas e a negligência do poder público. Torna-se objeto de humilhação na travessia de ruas e avenidas e no interior dos transportes públicos, em especial dos ônibus municipais", explica Cecília Minayo.

Enquanto os homicídios respondem por 10% do total das mortes violentas de idosos, as taxas de suicídio são muito mais significativas do que a média para a população brasileira. Elas oscilam entre 3,5 e 4 para cada 100 mil nas demais faixas etárias mas crescem para 7,5 a cada 100 mil entre os idosos. De acordo com Cecília Minayo as causas são o isolamento social, a desistência da vida após a morte do cônjuge e enfermidades como o câncer, que alguns preferem não enfrentar. Os homens idosos se suicidam mais (o dobro) do que as mulheres.

As informações sobre doenças, lesões e traumas provocados por violências contra idosos ainda são pouco consistentes, tanto no Brasil como no mundo (a subnotificação chega a 70%). Apesar disso, o Sistema de Informações Hospitalares (SIH) do Sistema Único de Saúde (SUS) mostra 108 mil internações de idosos por causas violentas e acidentes em 2004, registrando os seguintes índices: quedas: 55,58%; acidentes de trânsito, sobretudo atropelamentos: 9,91%; agressões: 2,86%, e lesões autoprovocadas: 0,65%. A mortalidade dos idosos internados em consequência de acidentes e violências é o dobro da que se verifica na população em geral. Nas quedas, de cada quatro, uma é fatal. Um terço dos idosos que moram em casa e metade dos que vivem em instituições sofrem pelo menos uma queda anual. A fratura de colo de fêmur é a principal causa de hospitalização e metade dos idosos que sofrem esse tipo de lesão morre um ano depois. Grande parte dos sobreviventes fica totalmente dependente de cuidados de outras pessoas, o que representa altos custos financeiros e sociais. A elevada relação entre mortes e lesões é resultado também de maus-tratos, omissões e negligência por parte de familiares, cuidadores e instituições de abrigo.

Eutanásia íntima

As violências contra idosos são muito mais intensas, disseminadas e presentes na sociedade brasileira que os dados conseguem revelar. Suas formas estrutural, institucional e familiar ocorrem simultaneamente em razão de os idosos serem, a exemplo das crianças e dos adolescentes, um grupo mais vulnerável, sobretudo nos casos de múltiplas dependências e incapacidades. A maior parte das queixas registradas pela Delegacia Especializada de Proteção ao Idoso de São Paulo se refere aos abusos econômicos cometidos pelos familiares na disputa pela posse de bens: são tentativas de forçar procurações, vendas de imóveis sem consentimento, expulsão do idoso do espaço físico e social do lar ou seu confinamento em aposentos mínimos.

A violência familiar é resultante de conflitos entre gerações, problemas financeiros e de espaço físico, somados a um imaginário social que considera a velhice decadência e os idosos descartáveis.

No Brasil, mais de 95% das pessoas idosas moram com parentes ou em sua própria casa. A maioria dos autores de agressões físicas e emocionais contra essa faixa etária costuma usar álcool ou outras drogas.

Os idosos mais vulneráveis são os que apresentam problemas de esquecimento, confusão mental, alterações no sono, incontinência e dificuldade de locomoção, necessitando de cuidados intensivos e diários.

Os abusos também ocorrem na relação com o Estado, que frustra expectativas de direitos e se omite no que tange a garanti-los. Isso acontece nos trâmites para aposentadoria e pensão, por meio da demora na concessão ou correção dos benefícios devidos – o que é realidade mesmo depois de 1994, quando a lei 8.842 lhes garantiu prioridade de atendimento em órgãos públicos e privados.

Na opinião de Cecília Minayo, a violência estrutural contra idosos é fruto da desigualdade social. "No Brasil apenas 25% dos aposentados vivem com três salários mínimos ou mais. A maioria dos idosos é pobre e encontra-se no seio de famílias também pobres ou miseráveis. A violência institucional se verifica no âmbito das unidades públicas de saúde, assistência e previdência social, campeãs de queixas e reclamações. Para a maioria dos idosos, ser aposentado significa ser maltratado pelo sistema social de assistência pública. As longas filas, a comunicação confusa e impessoal, a falta de uma relação compreensiva constituem expressões dessa violência", relata a socióloga.

Em grande parte das clínicas e asilos a violência institucional é frequente e se expressa de forma cruel pela destituição do poder e da vontade, despersonalizando o idoso. Nessas clínicas se conjugam o abandono familiar, a negligência do Estado e os abusos de funcionários e donos. O caso emblemático foi o da Clínica Santa Genoveva, no Rio de Janeiro, onde morreram 156 pacientes idosos em 1996. A situação que resultou nessa mortalidade coletiva se repetia há mais de dez anos.

A representante do Conselho Federal de Psicologia no Conselho Nacional dos Direitos do Idoso (CNDI), Maria Christina Barbosa Veras, conta que, ao inspecionar alguns asilos, se deparou com o despreparo dos responsáveis pelas instituições. "Eles nos apresentavam os idosos e diziam: ‘Olha aqui as minhas criancinhas’. São seres humanos com uma história de vida, não podem ser reduzidos a uma condição infantilizada."

Como resultado dos abusos e maus-tratos, muitos idosos passam a sentir depressão, alienação, desordem pós-traumática, sentimentos de culpa e negação das ocorrências que os vitimam. Segundo a psicóloga Christina Veras, a desesperança resultante acaba conduzindo ao que ela chama de "eutanásia íntima": "São pessoas que se desligam de si próprias", resume.

Moradia digna

A par de todos esses problemas e dificuldades, existem também pessoas cuja determinação e solidariedade servem de exemplo. É o caso de Olga Luisa Leon de Quiroga, uma chilena de 72 anos, 48 dos quais vividos no Brasil. Ela é uma das principais lideranças dos idosos na cidade de São Paulo, segmento que representa no Conselho Municipal de Saúde. Coordenadora do Grupo de Articulação para a Conquista da Moradia para o Idoso na Capital (Garmic) desde 2002, ela trabalha de maneira incansável visitando albergues e cortiços, amparando e mobilizando os idosos solitários e abandonados para que consigam um local digno para morar. As histórias que conta são de arrepiar: "Mesmo quando o idoso tem renda, ninguém quer alugar nada para ele. Dizem que a pessoa está muito velha, pode morrer e ainda terão de pagar o enterro. Quando concordam, exploram demais. Fazem divisórias nos quartos e cobram até R$ 280 mensais por um espaço que mal dá para dormir. Há cortiços com 20 moradores e um só banheiro".

Na sede do Garmic, em um prédio no Largo de São Francisco, na região central, desfilam diariamente dezenas de idosos de São Paulo e de municípios vizinhos. Ao chegar um senhor de 92 anos, amparando-se numa bengala, Olga se levanta para dar-lhe o lugar, abraçando-o com alegria. E revela: "Ele agora mora em uma quitinete na Vila dos Idosos, no bairro do Pari, onde conseguimos do governo municipal 145 apartamentos para 90 idosos solteiros e 55 casais. É um projeto de locação social, pelo qual a pessoa paga apenas 10% do que ganha, mais água, luz, gás e condomínio. Antes ele gastava muito mais e dormia num beliche apertado de uma pensão precária."

Olga enumera habitação, saúde e assistência social como as principais políticas públicas de que os idosos carentes necessitam e atribui os maus-tratos que muitos sofrem, inclusive da família, a uma questão cultural: "O brasileiro ainda não tem consciência de que deve respeito à pessoa idosa". Getúlio Veloso, de 73 anos, também coordenador do Garmic, acrescenta: "Temos entre nós muitos analfabetos e semianalfabetos, que não conhecem seus direitos e não sabem sequer da existência do Estatuto do Idoso".

Vôlei adaptado

Não vale cortada. A bola é segura com ambas as mãos e dessa forma repassada a um companheiro que a despacha para o outro lado da rede. A equipe que fizer 15 pontos primeiro (e não 25) fecha o set. À exceção dessas diferenças, o vôlei adaptado para a terceira idade é igual ao dos campeonatos oficiais. E faz parte, junto com o atletismo e a natação, dos Jogos Regionais do Idoso, que apenas na capital paulista reúnem 68 equipes.

Quarta-feira, dia 13 de maio de 2009, 13 horas. Na quadra do ginásio do Conjunto Desportivo Baby Barioni, na Água Branca (zona oeste de São Paulo), as equipes da casa, categoria feminina e masculina, recebem os visitantes do bairro do Butantã para dois jogos amistosos.

José Carlos da Silva, aposentado de 62 anos, é o primeiro a chegar. Mostra com orgulho a sala de troféus individuais e coletivos conquistados pelos idosos do Baby Barioni. "Quando comecei a participar, há dois anos, os homens predominavam. Porém, o número de mulheres aumenta mais e hoje elas já são clara maioria nas atividades físicas, à exceção do jogo de bocha, que permanece um reduto masculino", explica ele.

Para esses idosos de classe média, a prioridade é manter a saúde física e mental, cultivando amizades ao mesmo tempo. Ricardo Martins, de 63 anos, sobrevivente de quatro enfartes, resume a importância da atividade: "É a diferença entre uma pressão de 16 por 10, que eu tinha, e de 11 por 7, que tenho agora". Massayoshi Tokikawa, de 82 anos, chamado de "caçula" pelos companheiros, acrescenta: "Não se pode ficar parado".

Com as equipes presentes e uniformizadas na quadra, todos se dão as mãos e formam uma grande roda para rezar um pai-nosso e uma ave-maria, invocando proteção para que ninguém se machuque. Na primeira partida, jogam as "meninas". Depois será a vez dos "meninos" e, ao final, na hora dos comes e bebes que todos trouxeram, celebrarão a alegria da vida, dando razão ao escritor colombiano Gabriel García Márquez, segundo o qual "a idade não é a que se tem, mas a que se sente".

Trabalho exemplar

"O Sesc [Serviço Social do Comércio] é um oásis dentro da cidade de São Paulo para nós." Essa frase, de um idoso frequentador dos programas para a terceira idade promovidos pela entidade, resume a importância e a essência de um trabalho pioneiro no hemisfério sul e na América Latina, iniciado em 1963, quando o assistente social Carlos Malatesta reuniu no Centro Sociocultural da Rua do Carmo – região central da capital paulista – alguns comerciários aposentados para formar um grupo de convivência, semelhante aos que então existiam nos Estados Unidos e na Europa.

A iniciativa representou o despertar da sociedade brasileira para um drama até então restrito ao recesso familiar ou aos asilos, onde os velhos de ambos os sexos levavam uma existência confinada à espera da morte, pois a rua, os meios de transporte, as atividades e os espaços públicos eram – em larga medida ainda são – hostis às pessoas curvadas ao peso da idade.

Ao longo desses 46 anos de ações esportivas e de condicionamento físico, socioculturais, como teatro, coral e viagens em grupo, de atualização e reciclagem de conhecimentos, por meio das Escolas Abertas da Terceira Idade, e de promoção da cidadania através dos Encontros Nacionais de Idosos, realizados desde 1982, o Sesc tornou-se referência para as demais organizações nacionais e internacionais dedicadas ao trabalho com o segmento. Um exemplo é o programa Universidade Aberta à Terceira Idade, adotado pela Universidade de São Paulo (USP).

A trajetória que levou o Sesc a ser escolhido como um dos representantes da sociedade civil no CNDI não foi, porém, isenta de dificuldades. Por seu número relativamente reduzido – apenas 5% da população brasileira tinha mais de 60 anos na década de 1960 – e por seu isolamento, os idosos eram vítimas de preconceitos de uma sociedade que não oferecia alternativas de convivência e participação para os mais velhos, objeto apenas de poucas e mal estruturadas ações de natureza assistencialista.

Não havia, igualmente, no meio acadêmico ou fora dele, técnicos habilitados na tarefa de promover a qualidade de vida dos idosos nos níveis físico, mental/psíquico e sociocultural. De maneira empírica, o Sesc ajudou a plantar a semente da gerontologia social brasileira, partindo apenas da necessidade dos idosos de estabelecer vínculos de amizade e de compartilhar preocupações, angústias, sonhos e desejos com seus semelhantes.

Esse conhecimento foi se acumulando, gerou teses acadêmicas em áreas como direito, medicina, educação, sociologia, psicologia e serviço social, até se consolidar com a publicação de vários livros, além da revista A Terceira Idade – Estudos sobre Envelhecimento, do próprio Sesc SP, editada desde 1988.

Hoje, a instituição atende, em suas 30 unidades da capital e do interior, a cerca de 30 mil idosos anualmente, aplicando um modelo que influenciou prefeituras, órgãos estaduais e instituições particulares em todo o país.

Sobre o trabalho do Sesc, não apenas em São Paulo mas em todo o Brasil, a psicóloga Christina Veras lamenta apenas que ainda seja "uma gota de água" em relação ao conjunto da população brasileira.

Cláudio Alarcon, gerente de Estudos e Programas da Terceira Idade do Sesc SP, avalia a experiência acumulada e as perspectivas para o desenvolvimento de sua área: "O programa Trabalho Social com Idosos, do Sesc, deve ser visto de dois ângulos. Para o próprio idoso o que objetivamos e temos conseguido alcançar é sua socialização, a atualização de conhecimentos e o desenvolvimento de habilidades, a manutenção da saúde, a reflexão sobre o próprio processo de envelhecimento e a elaboração de novos projetos de vida. Essa ação se traduz em palestras, oficinas, conversas, contato direto com a arte e passeios culturais. Em relação à sociedade os avanços são as mudanças de imagem e a redução do preconceito, a conquista da cidadania e a participação do idoso em movimentos comunitários e atividades sociais e voluntárias".

O Sesc SP foi um dos pioneiros na introdução da atividade física para idosos e mantém cursos regulares em praticamente todos os seus centros culturais e desportivos. Um exemplo é a presença de 38 idosos, com idade superior a 80 anos (alguns com mais de 90 anos) matriculados com essa finalidade no Sesc Avenida Paulista.

Alarcon afirma que, resguardando a esse público idoso um espaço de identificação com sua própria faixa etária, outro movimento significativo que vem ganhando corpo no Sesc é o de contemplar ações intergeracionais, que estimulem a convivência com pessoas de outras idades, como forma de combater o preconceito e a departamentalização etária da sociedade. "Nosso objetivo é levar os participantes a ampliar sua visão de mundo, na perspectiva da educação recíproca entre as gerações. Os jovens podem ensinar aos mais velhos novas tecnologias e o abrandamento de um padrão moral excessivamente rígido e aprender com estes como viver e como envelhecer bem."

Direitos (ainda) no papel

Até o início do século 20 a velhice foi tratada no Brasil como uma questão privada, de responsabilidade da família ou de entidades filantrópicas e religiosas. A Constituição de 1934 foi pioneira em reconhecer a especificidade da pessoa idosa, sob a forma de direitos trabalhistas e previdenciários para o indivíduo que se tornasse improdutivo no trabalho industrial. O trabalhador rural, por sua vez, não teve reconhecido qualquer direito à aposentadoria até a Constituição de 1988, primeira a estabelecer um sistema de proteção integral ao idoso, garantindo, inclusive, o pagamento de um salário mínimo a qualquer brasileiro com mais de 65 anos que não tenha outra fonte de renda – o benefício de prestação continuada.

Com direito assegurado já na década de 1980 ao transporte gratuito em ônibus municipais (e mais recentemente nos interestaduais), os idosos conquistam, em 2002, a primeira Delegacia de Proteção ao Idoso (instalada na Praça da República, em São Paulo), prevista desde a formulação da Política Nacional do Idoso, de 1996.

Em outubro de 2003, após sete anos de tramitação no Congresso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sanciona o Estatuto do Idoso, que reconhece ao segmento todos os direitos fundamentais, cabendo ao Estado garantir-lhe a proteção à vida e à saúde, além do acesso à assistência social, educação, habitação, cultura, esportes e lazer.

No ano seguinte é instalado o Conselho Nacional dos Direitos do Idoso (CNDI), no âmbito da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da presidência da República, composto por representantes do governo federal e de entidades da sociedade civil – conselhos municipais, como os de São Paulo, já existiam desde 1992, embora até hoje praticamente restritos às capitais.

Em 2006 realiza-se a I Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, na qual ocorre a construção da Rede Nacional de Proteção e Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa (Renadi), que prevê uma ação articulada de União, estados e municípios com a sociedade civil para promover a implementação e o controle democrático dos programas destinados aos idosos.

Na abertura da II Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, em março deste ano, o presidente Lula assinou um decreto formalizando o Pacto pelo Envelhecimento Saudável – resultado da articulação de dez ministérios em torno da meta de promover a emancipação dos idosos no processo de efetivação de seus direitos. Entretanto, pesquisas como a realizada em 2006 pela Fundação Perseu Abramo em parceria com o Serviço Social do Comércio (Sesc) revelam que se mantém um hiato entre leis e propostas do setor público e sua concretização efetiva.

Revista Problemas Brasileiros

Sobrevivência em regime de bode solto

Sobrevivência em regime de bode solto

Rebanhos resistem ao clima adverso da caatinga e garantem sustento da população

ANDRÉ CAMPOS

Caprino: adaptado às condições locais
Foto: André Campos

No semiárido nordestino, cresce a popularização das cisternas, uma solução simples e barata para captar a água da chuva que cai no telhado das casas. O sanfoneiro, por sua vez, divide hoje espaço com as guitarras do estilo conhecido como "forró eletrônico" – ou "forró de plástico", na definição dos mais puristas. Já o jegue, durante séculos o meio de transporte oficial do sertanejo, cada vez mais é substituído pelas motos. Frequentemente, animais abandonados perambulam pelas estradas, ao deus-dará.

Muita coisa mudou no sertão. Mas há, também, o que luta para permanecer o mesmo. Em meio ao clima seco, que impõe dificuldades à agricultura, o pastoreio tornou-se a base da subsistência de muitos grupos. Assim, comunidades unidas por laços de compadrio e parentesco usam para esse fim áreas não cercadas, consideradas de todos. São terras localizadas atrás das roças das famílias, ao fundo de suas casas: os chamados "fundos de pasto".

Lá os animais se alimentam da própria vegetação nativa. São alguns bovinos, mas também ovelhas e, principalmente, cabras e bodes – preferidos por sua alta resistência às estiagens e boa adaptação ao consumo daquilo que a caatinga provê. Cotidianamente, os animais são soltos pela manhã e recolhidos ao curral no fim do dia, quando um sino amarrado no pescoço de alguns deles – cuja tonalidade específica cada dono sabe reconhecer – ajuda na tarefa de localizar o rebanho. Cortes ou marcações a ferro quente nas orelhas também diferenciam os bichos de cada um. "Dizemos sempre que não somos nós que criamos o bode, mas que é o bode que cria a gente", brinca Maria Izete Lopes, moradora da comunidade de fundo de pasto de Boa Vista, em Campo Alegre de Lourdes (BA). "Fazemos tão pouco por ele, e ele nos dá tanto de volta..."

Comunidades que se organizam em torno dos fundos de pasto estão presentes num amplo espectro de áreas do nordeste – que perpassam, por exemplo, Pernambuco e Piauí. É na Bahia, porém, onde tais grupos têm maior visibilidade. Atualmente, lá existem 487 fundos de pasto identificados pelo governo estadual, espalhados por dezenas de municípios. Usufruem deles cerca de 16 mil famílias, para as quais a garantia de um futuro digno envolve uma questão fundamental: que esses territórios permaneçam como estão, ou seja, considerados terras de ninguém – mas essenciais à perpetuação do modo de vida dessas pessoas.

Arranjo frágil

Em muitos casos, os atuais grupos de fundo de pasto são formados por descendentes de vaqueiros da chamada Civilização do Couro – período que remete aos primórdios da colonização do semiárido, quando se criava gado para fornecer animais de trabalho aos engenhos de açúcar. Por seus serviços, recebiam filhotes como pagamento, arranjo que perdurou até tempos recentes no trato entre trabalhadores de poucas posses e proprietários de rebanhos maiores. "Aqui sempre sobrevivemos assim, tomando conta da criação de um e de outro. De cada quatro bezerros nascidos, a gente ficava com um", lembra Joaquim da Rocha, um dos mais velhos moradores da comunidade de fundo de pasto de Riacho Grande, em Casa Nova (BA).

Os vaqueiros mantinham, além dos bois, cabras, carneiros, porcos e roças de subsistência nas terras dos grandes sesmeiros – que, via de regra, moravam em centros urbanos distantes. Vivendo nesse relativo isolamento e com certa autonomia, seus descendentes formaram comunidades fechadas, onde o pastoreio solto em áreas utilizadas por todos se explica, em grande medida, pela necessidade de socializar a pouca água do sertão. Livres, os animais vão em busca das folhagens verdes e dos açudes naturais formados onde mais choveu.

Além dos vaqueiros, outras populações de origem branca, indígena ou mesmo quilombola geraram povoados do gênero. Essa diversidade étnica, de acordo com Luiz Antonio Ferraro Júnior, pesquisador da Universidade Estadual de Feira de Santana, reflete a realidade atual dos fundos de pasto. "Há tanto comunidades predominantemente negras quanto brancas", atesta ele em sua tese de doutorado, que ressalta ainda a prevalência da mestiçagem na maioria delas.

No século 19, a decadência dos engenhos levou ao esvaziamento do ciclo do gado no sertão. Desmembradas as enormes sesmarias, e paralelamente à apropriação de grandes áreas pelos "coronéis", parte das terras devolvidas ao Estado permaneceu habitada informalmente por comunidades pastoris. Esse frágil arranjo fundiário sofreria fortes abalos no século seguinte, quando fazendeiros aceleraram o cercamento de territórios até então utilizados na criação em regime de "bode solto".

A década de 1980 marca um agravamento dessa disputa, impulsionada pelas chamadas "leis dos quatro fios" ou "leis do pé alto" – regulamentos municipais que obrigavam à criação de caprinos e ovinos apenas em áreas cercadas, a fim de evitar prejuízos em propriedades alheias. Na prática, inviabilizavam o modo de vida de muitos grupos, fato que deu origem à mobilização em torno da bandeira dos fundos de pasto. "Não havia denominação comum, identidade ou organização política dessas comunidades pastoris previamente aos conflitos", explica Ferraro Júnior.

Como resultado dessa pressão, a Constituição da Bahia de 1989 abriu uma inédita possibilidade de titulação dessas terras públicas utilizadas no pastoreio coletivo. No entanto, dos quase 500 fundos de pasto reconhecidos hoje pelo estado, só cerca de 110 estão regularizados. Desde 2007, aliás, nenhum novo título de terra foi entregue às comunidades. Um parecer da Procuradoria Geral do Estado considerou que tal regularização deve ocorrer por meio da concessão do uso das terras, que continuariam a pertencer à União – antes, documentos de posse eram emitidos em nome de associações constituídas pelas famílias. A mudança, segundo Luís Anselmo Pereira de Souza, coordenador executivo da Coordenação de Desenvolvimento Agrário (CDA) – órgão estadual à frente das ações de ordenamento fundiário –, gerou novas burocracias que atrasam o processo. "Em minha opinião, é importante modificar a lei para possibilitar a transferência do domínio às comunidades", afirma.

Enquanto se discutem as leis, permanecem os conflitos por terra. Atualmente, um dos mais emblemáticos remete à região de Areia Grande, no município de Casa Nova, habitada por quatro comunidades de fundo de pasto, que totalizam cerca de 360 famílias. Em março de 2008, policiais entraram no local para cumprir decisão da Justiça que determinava a retirada de alguns de seus moradores. A ação resultou de um processo movido por dois empresários que reivindicam a posse de cerca de 25 mil hectares na região.

O território em questão é palco de celeuma antiga, relacionada ao episódio nacionalmente conhecido como "escândalo da mandioca". Há cerca de 30 anos, instalou-se em Areia Grande a Agroindustrial Camaragibe, empreendimento que obteve incentivos públicos para produzir álcool a partir do plantio de mandioca. Mais tarde, denúncias o apontariam como parte de um esquema para apropriação de empréstimos estatais e seguros agrícolas, com base na alegação de que a seca destruía as plantações.

Já naquela época, questionava-se a autenticidade dos títulos de propriedade da empresa – sobrepostos, segundo as famílias, a áreas de pastoreio. Com o abandono do empreendimento, em meados da década de 1980, as terras foram ocupadas no sistema de fundo de pasto. Os conflitos ressurgiram quando, em 2006, os citados empresários adquiriram, do Banco do Brasil, os direitos sobre a dívida deixada pela Agroindustrial Camaragibe – posteriormente, em acordo estabelecido com os representantes da companhia, obtiveram os títulos das terras como pagamento.

Após idas e vindas, o despejo dos moradores foi suspenso no final de 2008. Na ocasião, um laudo da CDA sobre os registros fundiários em Areia Grande concluiu serem tais títulos fruto de grilagem. Pouco tempo depois, em fevereiro de 2009, José Campos Braga, uma das principais lideranças locais, foi encontrado morto a tiros em sua casa, crime ainda sob investigação policial. Segundo a Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais no Estado da Bahia, há fortes suspeitas de ação de pistolagem. "Existem muitas queixas de ameaças anteriores ao assassinato, e elas continuam após o ocorrido", atesta Emília Teixeira, advogada da entidade.

Procurado pela reportagem, o ex-diretor do Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Juazeiro (BA), Alberto Martins Pires Matos – um dos empresários postulantes à área –, qualificou como "infeliz" a tese de que aquelas são, na verdade, terras públicas. "É um título com mais de 50 anos. Inclusive, quando vistoriamos a fazenda, à época da aquisição, não existia ninguém morando na região. Houve uma invasão", argumenta.

Novas ameaças

Marina Braga, agente da Comissão Pastoral da Terra na Bahia (CPT-BA), relata a existência de diversas outras ameaças aos territórios de fundo de pasto. Projetos de mineração, de produção de agrocombustíveis, de construção de barragens e até mesmo de parques eólicos são, segundo ela, iniciativas em andamento sobre as quais pairam muitas dúvidas. "Existem muitos empreendimentos pensados para áreas dessas comunidades, a respeito dos quais há poucas informações", diz.

Atualmente, um dos casos mais polêmicos é a criação do Parque Nacional do Boqueirão da Onça, encampada pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA). Perfazendo 862 mil hectares, a proposta, ainda em estudo, atinge parte considerável de cinco municípios – incluindo áreas de fundo de pasto – e prevê a desapropriação dos imóveis dentro de seu perímetro. "Sempre que possível, evitou-se a inclusão de áreas com potencial agrícola, assim como aquelas ocupadas por comunidades rurais", justifica o órgão. "Entretanto, alguns povoamentos situados no centro da área não puderam ser excluídos."

No passado, as próprias pessoas de Areia Grande já foram afetadas por um grande projeto – a Usina Hidrelétrica de Sobradinho, cuja barragem inundou parte das áreas ocupadas e obrigou diversos moradores a se mudar para agrovilas construídas em Serra do Ramalho (BA). Ironicamente, passados mais de 30 anos, as comunidades locais permanecem sem acesso à eletricidade, a poucos quilômetros do reservatório da usina. Sobre suas casas passam os cabos que levam a energia de Sobradinho ao Piauí.

No relato de membros das comunidades de fundo de pasto, a falta de eletricidade não é a única lacuna de infraestrutura e atuação do poder público. Burocracia para acessar recursos e programas governamentais e a ausência de políticas de crédito condizentes com o modelo de produção desses grupos são outros entraves citados. E mesmo quando o Estado chega, há reclamações – relacionadas, por exemplo, à introdução de raças para o melhoramento genético do rebanho não adaptadas ao pastoreio solto na caatinga.

Além da criação de animais e das roças de subsistência, a produção de mel e o extrativismo de frutas típicas são outros dois exemplos de atividades eventualmente realizadas nos fundos de pasto. Contudo, segundo José Edmilson dos Santos, membro da Articulação Estadual de Fundos de Pasto, quando o assunto são as ações governamentais de fortalecimento produtivo, falta capacitação às famílias para a continuidade dos projetos. "Existem hoje muitas casas de farinha, fábricas de costura e padarias quebradas ou fechadas nas comunidades", ressalta. Em geral, diz ele, sempre é preciso recorrer ao poder público para, por exemplo, consertos e reposição de peças. "As coisas são feitas de forma que a comunidade fique eternamente dependente."

Cenário semelhante remete à delicada questão do acesso à água. Apesar de avanços nas últimas décadas, há ainda, segundo Santos, um déficit de políticas consistentes em benefício do sertanejo. Como exemplo, ele cita casos que envolvem a construção de cisternas de baixa durabilidade. "Muitas vezes não são programas que visam acabar com o problema, mas sim propagandear estatísticas."

No semiárido nordestino, armazenar água é estratégia crucial para a sobrevivência das famílias e de seus rebanhos. Historicamente, poços perfurados em locais de água muito salgada ou mesmo açudes públicos construídos com grande perímetro e pouca profundidade – facilitando, assim, a evaporação – são exemplos de obras inadequadas. Além disso, há também uso político das condições climáticas, que inclui o voto de cabresto sustentado em ações emergenciais para os flagelados. "É comum as pessoas se sentirem em dívida com aquele político que lhes mandou um carro-pipa na hora do aperto", conta Moisés das Neves, técnico em agropecuária do Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais (Sasop) – ONG que executa ações voltadas a agricultores familiares do semiárido.

O histórico de coronelismo é, ainda hoje, um entrave ao desenvolvimento dos fundos de pasto, na opinião de Egnaldo Xavier, gerente da Cooperativa de Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (Coopercuc) – entidade que reúne 16 grupos do gênero na produção de geleias, doces, sucos e outros alimentos feitos com frutos da caatinga. "Tivemos aqui a Guerra de Canudos, uma experiência de organização coletiva que foi destruída", lembra. Tudo isso, de acordo com ele, dificulta a percepção do associativismo como uma ideia boa.

"Nós, nordestinos, somos muito solidários. Se você precisa de mim eu o ajudo, se adoece eu levo um chazinho e tudo mais. Agora, na hora de desenvolver ações produtivas, é assim: você cuida do seu e eu cuido do meu", ilustra. A Coopercuc conta atualmente com 141 cooperados e vende seus produtos nos mercados interno e externo. "Acreditamos que o trabalho representa hoje um acréscimo de 20% a 30% na renda das famílias participantes", estima Xavier.

Estigma do atraso

Apesar da luta para valorizar os fundos de pasto, é certo que, em muitos corações e mentes, adjetivos como "arcaico" e "obsoleto" permanecem associados a essas populações. No entanto, pesquisa apresentada em 2006 por Fabiano Toni, da Universidade de Brasília, atesta que o uso coletivo das terras pode ser considerado uma estratégia vantajosa ante as peculiaridades do sertão.

Toni entrevistou 549 agricultores em 12 municípios do semiárido baiano, divididos entre pequenos proprietários e criadores de animais em fundos de pasto. Apesar de os primeiros tenderem a um uso ligeiramente maior de tecnologias intensivas, isso não lhes proporcionou uma renda melhor. Segundo o estudo, os membros das comunidades tradicionais desfrutavam de maior segurança alimentar, consumindo mais carne que os pequenos proprietários e seus dependentes.

De acordo com Toni, a explicação é simples: como os agricultores que utilizam terras coletivas investem mais em pequenos animais, eles possuem rebanhos maiores, o que permite abater um ou outro bicho com mais frequência. "Uma cabra ou um carneiro podem ser comidos em alguns dias por uma família, partilhados com os vizinhos ou salgados", explica. "As vacas, por outro lado, precisam ser vendidas no mercado, pois uma família não pode estocar ou consumir toda a carne, mesmo quando possui geladeira."

Apesar dessa vantagem comparativa, no entanto, há uma ameaça cada vez mais urgente na rota da sustentabilidade dos fundos de pasto: a degradação da caatinga. "Os rebanhos aumentaram e muitas terras já foram cercadas. Isso provoca pastoreio excessivo", diz Santos. A despeito das preocupações – visto que a mata nativa é a base da alimentação dos rebanhos –, são ainda embrionárias ações de recomposição florestal que envolvam essas comunidades.

Em 2007, nos municípios baianos de Uauá e Andorinha, a divisão de caprinos e ovinos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) implementou, em fundos de pasto, dois projetos pioneiros de sistema agrossilvipastoril – método que inclui árvores, plantio e pastagens numa mesma área, manejados de forma integrada e racional. Para a pesquisadora Mônica Campanha, da instituição, trata-se de um modelo que pode ser incorporado às políticas de apoio destinadas a essas famílias. "Ele apresenta um elevado custo de implantação, mas é enorme o ganho ambiental", afirma ela.

Revista Problemas Brasileiros

Esta floresta tem dono

Esta floresta tem dono

Mais de 80% dos fragmentos que ainda restam da mata atlântica estão nas mãos de particulares. Depende deles a conservação desse bioma, um dos mais ameaçados do planeta.

Texto: Dimas Marques

Micos-leões-dourados em Poço das Antas: sobrevivência do animal depende da área de floresta disponível

Quilômetro 214 da BR-101. Estamos em Silva Jardim, município fluminense com 21 mil habitantes que começa a se destacar pela mobilização de sua comunidade para conservar as florestas. Ao lado da rodovia, junto à base de fiscalização da Reserva Biológica de Poço das Antas, fica a sede da Associação Mico-Leão-Dourado, entidade reconhecida internacionalmente por seus esforços para salvar da extinção o pequeno primata símbolo da Mata Atlântica. Silva Jardim é o campeão nacional em número de reservas particulares do patrimônio natural (RPPNs). São 16 propriedades com flora e fauna preservadas, destinadas a integrar o sistema de unidades de conservação do país.
O título de campeão das RPPNs não é por acaso. Justamente pelo fato de tantas pesquisas terem sido desenvolvidas nos últimos 20 anos para evitar o desaparecimento do mico-leão-dourado é que agora a associação investe em incentivos à criação dessas propriedades. “A passagem do estudo do animal para um trabalho de mobilização social visando a manutenção e ampliação do seu hábitat se deu naturalmente”, explica a secretária-geral da ONG, Denise Rambaldi. Atualmente, ela dedica boa parte do seu tempo a convencer os proprietários de terras da região a conectar os fragmentos de florestas destinados aos micos.

O papel dos proprietários

De acordo com a Fundação SOS Mata Atlântica, 80,5% das áreas remanescentes do bioma estão fora de unidades de conservação geridas pelo poder público – ou seja, dependem de particulares. A entidade ambientalista foi uma das primeiras a reconhecer que não é preciso esperar apenas do poder público ações para conservar os 15 milhões de hectares que restaram da mata – 10,5% da área original, se forem considerados também os pequenos fragmentos de menos de 100 hectares. “Se a sociedade quiser realmente conservar a floresta, um dos cinco hotspots mais ameaçados do mundo, deve convencer os proprietários a não destruir o que resta dela em suas terras”, afirma Érika Guimarães, coordenadora do Programa de Incentivos às RPPNs da Aliança para a Conservação da Mata Atlântica. Chamam-se hotspots as 25 áreas ricas em vida vegetal e animal que correm maior risco de desaparecer.
É isso que pessoas como Denise Rambaldi estão fazendo. A partir da identificação das áreas prioritárias para serem conservadas e conectadas entre si no entorno da reserva de Poço das Antas, os profissionais da associação passaram a sair a campo para conseguir que os donos desses fragmentos de floresta concordem em transformar suas propriedades em RPPNs. Ou que, pelo menos, mantenham os 20% de reserva legal (trecho que, por lei, deve ser mantido com vegetação nativa) e as áreas de preservação permanente ou APPs (nascentes, matas ciliares, encostas com mais de 45% de declividade e topos de morros) obrigatórias em suas terras.
Foi assim a aproximação com o gestor em planejamento ambiental Luiz Nelson Faia Cardoso, proprietário da reserva particular Bom Retiro. Acompanhamos a visita que a bióloga Ana Maria de Godoy Teixeira e o engenheiro florestal Carlos Alvarenga Pereira Júnior, da associação, fizeram à fazenda, a 30 minutos da reserva, passando por estradas de terra que cruzam várias propriedades e pequenos rios em que o gado sacia a sede.
Cardoso conta que se interessou logo em preservar suas terras, mas teve de convencer a família a aceitar a ideia de ceder parte da propriedade para a implantação de uma reserva perpétua. “Eles tinham medo de que o governo viesse depois e fizesse uma desapropriação”, afirma. Pelo visto foi convincente: 91% da fazenda de seu pai foi transformada em reserva particular (494 hectares) e, mesmo enfrentando dificuldades para manter a área, tomou gosto pela causa e já ajudou a convencer seis proprietários rurais a conectar fragmentos de floresta de suas propriedades com a área de Poço das Antas, o que totaliza 1.300 hectares de mata conservada.
Mas o entusiasmo do fazendeiro não é regra comum, até porque a criação de reservas é difícil e as restrições de uso são rigorosas (veja box abaixo). As exigências feitas pelo Ministério do Meio Ambiente são muitas e a que mais causa dor de cabeça é a regularização fundiária das propriedades. “Muitas fazendas constam em cartório com uma área e, quando é feita a medição, aparece alguma diferença”, explica Ana Maria, que coordena o Programa de Conservação em Terras Privadas da associação. Todo o processo burocrático chega a durar, em alguns casos, dois anos.
José Luciano de Souza, do Programa de RPPNs do Instituto Chico Mendes, órgão do Ministério do Meio Ambiente responsável pelas reservas, confirma este rigor na análise dos documentos. Segundo explica, ele é necessário porque há muitos casos de interessados que, na verdade, estão tentando garantir a titularidade do terreno com a criação da reserva. “Quando não há problemas com a documentação o prazo médio é de quatro meses”, afirma.

Dificuldades de implantação

Segundo o presidente da Confederação Nacional de RPPNs, Rodrigo Castro, o maior desafio das ONGs que fornecem apoio técnico e financeiro para a criação das reservas particulares, como a Associação Mico-Leão-Dourado, é identificar os proprietários que tenham espírito de conservação. ”É muito mais fácil você trabalhar com quem já se predispõe a se envolver com a causa ambiental do que sair tentando convencer todo mundo”, explica. Para ele, o poder público não divulga adequadamente essa alternativa, por isso os donos de terras são muito desconfiados quando se fala em reservas particulares – problema que José Luciano admite ocorrer com frequência.
O Brasil conta com 885 RPPNs, que protegem uma área de 634,3 mil hectares (um pouco maior que o Distrito Federal). Desse total, 589 reservas estão em área de Mata Atlântica. Apesar de o bioma contar com o maior número de RPPNs do país (66,6%), representa apenas 19% da extensão protegida por esse tipo de unidade de conservação. Essa aparente contradição ocorre porque essas reservas de floresta são muito pequenas, tanto que a menor do país é uma RPPN de Alterosa, sul de Minas Gerais, com apenas 0,5 hectare.
A manutenção de uma reserva particular também é difícil. Após cinco anos da averbação em cartório, é necessário que os proprietários tenham um “plano de manejo” para a reserva e que, pela dificuldade técnica, acaba requerendo também o apoio das ONGs. “O governo tem de dar incentivos fiscais de verdade para manter a floresta de pé. Se transformo parte do terreno em reserva, não poderei mexer mais nela e vou ter uma isenção de imposto (Imposto Territorial Rural) que não ajuda muito por ser barato”, afirma o pecuarista Antonio da Costa Freire, proprietário de um trecho de 113 hectares de mata, considerado fundamental para ligar dois fragmentos de floresta próxima da reserva dos micos-leões. Freire acabou vendendo o terreno para a associação. Ele será doado ao Instituto Chico Mendes para ser integrado à Reserva Biológica União, unidade localizada em Casimiro de Abreu, município vizinho a Silva Jardim.
A forma jurídica encontrada pelos proprietários para conservar o que resta de Mata Atlântica em suas terras não tem tanta importância para os ambientalistas. O importante é o efeito. No caso de Silva Jardim e região, segundo a bióloga Ana Maria, o objetivo é chegar em 2025 com 2 mil micos habitando 25 mil hectares de fragmentos de floresta protegidos e conectados – atualmente 1.500 indivíduos vivem livres na natureza, número que já foi 200 no fim da década de 1960.
Para atingir esse objetivo a ONG também atua com assentamentos de reforma agrária. Dos três grupos de assentados pelo Incra na região, Cambucaes e Aldeia Velha já recebem visitas constantes dos profissionais da associação, que apostam na implantação de um sistema agroflorestal capaz de manter espécies de Mata Atlântica com o cultivo de culturas que garantam segurança alimentar e renda às famílias.
Os assentados são orientados a plantar árvores nativas, como aroeira, angico e ipês, frutíferas e palmeiras (pupunha e açaí), além de hortaliças. Parte da produção é voltada para o consumo familiar e o excedente acaba comercializado. “O pequeno agricultor também pode ajudar a recuperar a floresta. Ele só precisa saber como fazer de uma forma que garanta o seu sustento”, afirma o diretor da Associação de Pequenos Produtores de Cambucaes, Elsemiro Silva Dias.

Incentivo fiscal para preservar

No Paraná, o governo do estado apostou, em 1991, no ICMS Ecológico. Tradicionalmente, 80% do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços recolhido fica com os estados e o restante é repassado aos municípios. No caso paranaense, 25% são destinados às prefeituras que, avaliadas por técnicos do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), podem receber pelos seus investimentos em áreas protegidas e mananciais.
Coordenador do Programa Estadual do ICMS Ecológico do IAP, Wilson Loureiro explica que os proprietários rurais podem ter acesso ao dinheiro do ICMS por meio de convênios com as prefeituras. “Eles têm de criar associações ou ONGs para que o capital saia do poder público. É uma forma de incentivar os proprietários rurais, por exemplo, a manterem a floresta de pé ou partirem para a recuperação ambiental”, explica. Além do Paraná, outros 12 estados possuem o ICMS Ecológico.
Alternativas como essa também necessitam de um certo grau de organização para garantir a chegada dos recursos cobrado em impostos até os projetos em áreas privadas. “Todas essas medidas contribuem para a preservação, mas ainda dependemos muito da boa vontade e do espírito ambientalista dos proprietários”, reconhece Érika Guimarães, da SOS Mata Atlântica. “Deveria haver mais facilidades quando se almeja a conservação da floresta.”

Revista Horizonte Geográfico

As montanhas sagradas

As montanhas sagradas

A vida nos vales e picos nevados dos Andes peruanos é quase a mesma do tempo dos incas. Mas tudo pode mudar com o aquecimento global

Texto: Maria Emília Coelho

Passo lento e respiração profunda. Em meio ao ar rarefeito e à cegueira branca de uma nevasca, surge Nicolasa. A menina caminha firme atrás da vaca desgarrada do rebanho. Acredita que os apus, ou os espíritos das montanhas, encontram-se a seu lado e vão ajudá-la a recuperar o animal perdido. Estamos a 5 mil metros de altitude, a caminho de Ausangate, um dos picos nevados da Cordilheira Vilcanota, uma das zonas mais inóspitas dos andes peruanos. Justamente por isso, é um lugar onde as comunidades rurais experimentam poucas mudanças nos costumes ancestrais. As formações gigantes, imponentes e disformes, respeitosamente chamadas de apus, ocupam o topo do panteão das divindades incas. Aqui, são as montanhas que mandam, logo descubro, enquanto o ar penosamente enche meus pulmões.
Nossa caminhada por esse solo sagrado começou na tarde anterior. Depois de três horas de ônibus a partir de Cuzco (a antiga capital inca), colocamos o pé no chão quando alcançamos o vale de Pitumarca. A partir desse ponto, são cinco dias sem energia elétrica, banho quente e comunicação com o resto do planeta. Nosso objetivo é percorrer uma rota ainda pouco conhecida de 52 quilômetros de subidas e descidas, entre comunidades indígenas e picos nevados, até o topo, pela face sudeste do apu.
Além de ostentar o título de maior montanha do sul do Peru, com 6.384 metros, Ausangate é sagrada para os descendentes dos incas. Trata-se de uma espécie de chefe dos apus, uma autoridade suprema entre todas as montanhas. Não é pouca coisa. Na comunidade de Chillca, a 4.300 metros de altitude, os nativos contam que o apu todo-poderoso chegou a decidir batalhas para os incas diante dos invasores espanhóis. Certa vez, teria lançado uma tempestade de granizo vermelho e de relâmpagos sobre os soldados, enquanto o povo se escondia da fúria de suas armas. “Graças ao apu, nossos cultivos e animais estão bonitos e saudáveis”, declara o músico Orlando Garcia, líder da comunidade.

Berço de lhamas e alpacas

Ao longo do caminho, enquanto avançamos pela planície alta do vale de Pampa Uyuni, bando de lhamas e alpacas aparecem para compor o cenário. Diz a lenda que as lagoas da região são o berço sagrado desses animais, símbolos maiores dos andes. Os pastores de Ausangate estão entre os pioneiros na domesticação dos camelídeos. A atividade, que rende lã e carne, é a principal fonte de renda da população local. No entanto, está sendo abandonada pelos jovens. Ao pararmos para conversar com uma família isolada nas alturas, o patriarca explica que os mais novos preferem arriscar a vida em cidades como Cuzco e Lima em busca de trabalho e de uma vida com mais “comodidades”.
A vida nessas alturas é de fato difícil. À medida que subimos, o clima fica mais frio e o ar mais rarefeito. A respiração parece falhar na óbvia tarefa de levar ar aos pulmões. As nuvens ganham espaço e o azul do céu pouco a pouco vira cinza. É possível sentir grau a grau a temperatura cair até o tempo fechar de vez. Os vapores de água da atmosfera se congelam e a neve vem abaixo. O frio vence as roupas, a pele, a carne e chega aos ossos. O fôlego some a cada passo, mas a beleza do lugar faz esquecer o cansaço. Tudo para chegar a Machucaray, a 4.800 metros de altura, ao pé do poderoso nevado.
A paisagem branca do Quelccaya, o nevado de 5.470 metros que avistamos, me faz lembrar do documentário Uma Verdade Inconveniente, do ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore, vencedor do Oscar. A montanha, considerada o maior glaciar tropical do mundo, é um exemplo dos estragos decorrentes do processo de aquecimento global, provocado pela crescente emissão de gases de efeito estufa na atmosfera. Segundo os cientistas, o ritmo de derretimento do Quelccaya aumentou dez vezes nos últimos 15 anos. Estudos do geólogo americano Lonney Thompson, que investiga o fenômeno no Peru desde 1974, apontam que, a longo prazo, o degelo afetará o clima e o abastecimento de água para 70% da população do país.

A ameaça ao gelo das montanhas

Para os nativos da região, no entanto, os efeitos das mudanças climáticas provocadas pelo homem já batem à porta. “Estamos preocupados”, conta Orlando, diante de uma pequena lagoa formada há poucos anos pelo derretimento do gelo. “Antigamente havia mais picos nevados. Em algumas montanhas, as neves eternas estão desaparecendo.”
Parece não restar dúvida de que os apus terão muito trabalho para manter geladas as montanhas peruanas. Pensando nisso, acompanho a oferenda à Mãe Terra (Pachamama) protagonizada pelos moradores da montanha. O ritual típico do universo religioso andino consiste em presentear a natureza com vinhos, sementes e folhas de coca, enquanto o xamã ora em quíchua. Nas primeiras horas da manhã, as montanhas se colorem de tons ocres – do amarelo ao vermelho, com pitadas de cinza e verde, refletindo o relevo policromático das for mações geológicas de 250 milhões de anos. Avistamos as vicunhas, espécie não domesticada de camelídeo andino – uma manada de 21 indivíduos, entre adultos e jovens, dá uma amostra da vida silvestre. A pelagem fina do animal tem alto valor comercial. Por décadas, esteve à beira da extinção por culpa de caçadores ilegais em busca de lã. Uma iniciativa do governo peruano em parceria com as populações indígenas mudou este cenário e a população de vicunhas cresce, em média, 8% ao ano.

O espírito dos valentes

Quando os lhamas aparecem, as vicunhas fogem, assustadas. Nossos olhos então são atraídos por uma formação sedimentária em tons vermelhos, amarelos e cinzas. São pedras gigantes nas quais é possível imaginar, sem muita alucinação, rostos humanos esculpidos. Conta a mitologia inca que o deus sol converteu essas montanhas em soldados, chamados de pururaucas, para defender Cuzco durante a invasão do reino Chanca, antes da chegada dos espanhóis. Segundo a lenda, os guerreiros de pedra representam o espírito dos valentes.
Nosso destino é ainda mais além: a comunidade de Osefina, a 4.600 metros. Ali, as mulheres usam técnicas imemoriais para produzir tecidos de lã de alpaca. Vivem, praticamente, sem contato com o modo de vida moderno e falam apenas o quíchua. “Gosto quando gente de fora vem conhecer nossa arte”, conta Eulogia Antaccasa, coordenadora da Associação das Tecelãs de Huayna Anta. A ideia do grupo é capacitar suas artesãs para que tecidos tingidos com plantas locais sejam comercializados mundo afora.
Na caminhada de volta ao vale de Pitumarca, seguimos o curso das águas presenteadas pelos apus. Elas cortam os andes e formam o rio Vilcanota, que mais adiante se transforma em Urubamba para se encontrar com o Apurimac e formar o Ucayalli. Este flui no sentido norte até se juntar ao Marañon e dar origem ao nosso rio Amazonas, nas proximidades de Iquitos. O destino das águas – das alturas andinas até as terras baixas da Amazônia – é motivo suficiente para saudarmos o Ausangate. Mas a última saudação vem à tona quando fico sabendo que, para os descendentes dos incas, essas águas retornam todas as noites aos andes pela Via Láctea, conhecida ali como rio das Estrelas.

Revista Horizonte Geográfico

FOTOS:

FOTO: MJF/ A magia dos Andes...

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Geografia e a Arte

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salinas - RN - Canindé Soares

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