terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Brexit: 4 perguntas para entender por que a fronteira irlandesa é crucial no acordo entre UE e Reino Unido



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Bem-vindo à Irlanda do Norte', diz placa na fronteira, que hoje é mantida aberta por conta do histórico acordo de entre as Irlandas

"Este é o melhor acordo possível."

A premiê britânica, Theresa May, tem repetido há semanas essa frase na tentativa de convencer o Parlamento de seu país a aprovar o acordo que ela negociou com a União Europeia, estabelecendo os termos do Brexit - o processo de saída do Reino Unido do bloco.

Mas, na segunda-feira, a premiê adiou indefinidamente a votação do acordo no Parlamento, reconhecendo que ele seria rejeitado pela maioria dos parlamentares britânicos. Na quarta-feira, ainda enfrentou um voto de desconfiança de seus pares - ela sobreviveu por 200 votos a seu favor e 117 contra, mas prometeu renunciar à liderança do partido antes das próximas eleições e agora permanece em uma posição enfraquecida para convencê-los a aprovar os termos negociados com a UE.

"Há um amplo apoio a muitos aspectos do tratado. Mas também há oposição", afirmou May, que voltou a se reunir com líderes europeus para transmitir a eles as preocupações dos parlamentares britânicos, em especial aquela ligada ao tema mais espinhoso do acordo: a fronteira entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte.

Saiba, a seguir, por que esse se tornou o ponto mais controverso da saída britânica do bloco europeu:

1. Por que a fronteira é um tema sensível?

O acordo de paz de 1998 que pôs fim a três décadas de sangrentos conflitos entre a República da Irlanda (país independente e membro da UE) e a Irlanda do Norte (parte do Reino Unido) contempla a ausência de barreiras físicas entre os dois lados.

Desde aquele ano, pode-se cruzar a fronteira sem passar por nenhum controle físico. A venda de bens e serviços ocorre com poucas restrições, já que ambos os lados fazem parte do mercado comum europeu e da união aduaneira.

Mas, quando o Brexit se concretizar em 29 de março de 2019 e o Reino Unido deixar de fazer parte da UE, a fronteira entre as duas Irlandas passará a ser, na prática, a fronteira física entre a UE e o Reino Unido.Direito de imagem
PARLAMENTO BRITÂNICO Image caption
Theresa May foi obrigada a adiar votação do Brexit no Parlamento porque não conseguiu obter maioria para aprovar acordo

As duas Irlandas ficarão sob regimes distintos, o que implica que produtos poderiam ser inspecionados na fronteira - algo que os britânicos não querem, justamente por temerem que checagens na divisa tragam à tona antigas tensões entre irlandeses e norte-irlandeses.

O controle tampouco é desejável sob o ponto de vista da UE, mas o bloco vê dificuldades em evitá-lo a partir do momento em que os britânicos abandonarem o mercado comum e a união aduaneira.

No âmbito político, a Comissão Conjunta Norte-Sul da Irlanda advertiu que eventuais controles fronteiriços advindos do Brexit sinalizam que estará sendo rompido o acordo de paz de 1998.
2. E o que diz o acordo Reino Unido-UE a respeito da fronteira irlandesa?

Embora Londres e Bruxelas tenham acordado, desde o princípio, em não fixar uma fronteira "dura" (ou altamente controlada) na divisa irlandesa, o grande obstáculo foi definir os termos para tal.

A opção foi por uma espécie de "escudo", chamado em inglês de "backstop".

O mecanismo prevê que a Irlanda do Norte continue alinhada a algumas regras aduaneiras da UE, para dispensar a necessidade de checagem na fronteira com a Irlanda, mas exigirá que alguns produtos vindos do restante do Reino Unido sejam sujeitados a controles, para averiguar se cumprem com as normas da UE.

O "backstop" também envolverá uma união aduaneira temporária, o que, na prática, mantém a UE e o Reino Unido dentro de um mercado comum - contrariando, para alguns, o princípio básico do Brexit.

Esse mecanismo acabou se convertendo na principal dor de cabeça nas negociações do Brexit, gerando forte oposição ao acordo.

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Cartaz de protesto contra o Brexit e mudanças na fronteira irlandesa; temor é que processo de paz seja colocado em risco

3. Por que o "backstop" gera tanta oposição?

A ideia é de que o "backstop" só entre em vigor em último caso, na hipótese de UE e Reino Unido não conseguirem definir rapidamente como será o controle aduaneiro e a relação comercial bilateral após o Brexit.

O mecanismo prevê, assim, que a Irlanda do Norte siga sob o regimento do mercado único europeu caso nenhuma solução bilateral seja alcançada até dezembro de 2020.

May defende o "backstop" argumentando que ele só será colocado em prática como último recurso. No entanto, críticos afirmam que sua implementação causaria uma fratura na unidade territorial do Reino Unido.

A premiê tem enfrentado dura oposição nesse ponto, sobretudo do Partido Unionista Democrático, o principal aliado de May (que é do Partido Conservador) no governo de coalizão britânico.

Os unionistas rejeitam a ideia de a Irlanda do Norte ficar em um regime diferente do restante do Reino Unido, temendo que isso implique em um distanciamento em relação ao país e um flerte não desejado com uma eventual união entre as duas Irlandas.

Além disso, até mesmo parlamentares do Partido Conservador consideram a proposta do "backstop" inviável, por submeter a Irlanda do Norte a regras europeias (e não britânicas) e pelo temor de que, uma vez que o mecanismo entre em vigor, não possa ser suspenso sem a aprovação da UE.

Sob essa visão, o "backstop" significaria manter o Reino Unido submetido, de alguma forma, à vontade europeia e pode dificultar a assinatura de outros tratados comerciais que pudessem beneficiar o Reino Unido.

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Sinais dados até agora pela UE é de que não há abertura para renegociar acordo do Brexit
4. Há alternativas?

Diante da forte oposição, é grande a possibilidade de a rejeição ao "backstop" implique na não aprovação do acordo do Brexit entre UE e Reino Unido. E o fato é que, caso isso se concretize, não há um "plano B".

Na ausência de um acordo, os parlamentares britânicos terão de decidir entre:
"se divorciar" da UE sem nenhum termo definido, o que pode causar insegurança e fricções em fronteiras, na circulação de bens e pessoas e em acertos comerciais
voltar a negociar com a UE, possibilidade que o bloco descarta no momento
realizar uma votação no Parlamento
voltar a consultar a população, em plebiscito, sobre o tema

Todas as alternativas implicam em dificuldades e, possivelmente, em adiar a implementação do Brexit - o desligamento do Reino Unido do bloco -, prevista para 29 de março de 2019.

Após sobreviver ao voto de desconfiança, May voltou a Bruxelas para buscar mais salvaguardas legais para o "backstop", mas não teve sucesso.

O acordo "não está aberto para renegociação", afirmou nesta sexta-feira Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu.

Mais tarde, ele chamou o "backstop" de uma "apólice de seguros", agregando que a União Europeia se mantém determinada a buscar alternativas que evitem que ele seja implementado.

O premiê da Irlanda, Leo Varadkar, também afirmou que o acordo do Brexit "é o único sobre a mesa" e que "não é possível reabrir um aspecto do acordo sem reabrir todos".

Se a atual proposta em discussão for rejeitada pelo Parlamento, "não haverá um acordo para a saída do Reino Unido nem para um período de transição", destacou o editor de economia e negócios da BBC na Irlanda do Norte, John Campbell.

"Isso significa um Brexit duro, possivelmente caótico", prevê. "Se chegar a esse ponto, a UE e o governo da Irlanda terão de tomar decisões difíceis sobre o que ocorrerá na fronteira."

Ao mesmo tempo, o Tribunal de Justiça da UE acrescentou outra possível cartada ao jogo, ao determinar, na segunda-feira, que o Reino Unido pode revogar o Brexit unilateralmente a qualquer momento, sem acordo unânime com os demais Estados-membros do bloco.

May, por sua vez, afirmou que a data limite para o Parlamento votar a questão é 21 de janeiro de 2019, a depender de como avancem as negociações com a UE.
BBC Brasil

domingo, 16 de dezembro de 2018

Lítio, "ouro branco" e esperança da Bolívia


Nenhum celular nem carro elétrico funciona sem lítio. Num deserto de sal da América do Sul está a maior reserva da cobiçada matéria-prima. Governo Morales tudo faz para não repetir história de exploração colonial.


Brancura preciosa no país andino


O futuro da Bolívia é branco e salgado. Ele jaz sob um lago seco de 10 mil quilômetros quadrados, o Salar de Uyuni. O engenheiro Juan Montenegro bate na crosta de sal e diz: "Aqui começa a época industrial do nosso país."

Ele se refere ao lítio, uma matéria-prima que atualmente interessa a firmas de todo o mundo. O local pode abrigar até 10 milhões de toneladas do metal alcalino, a maior reserva do mundo. Ele é um componente central das baterias de relógio e indispensável para um futuro provavelmente movido a eletricidade.

Sem baterias recarregáveis de íon-lítio, nada de telefone celular, bicicleta elétrica e, naturalmente, nada de carro elétrico. Michael Schmidt, da Agência Alemã de Matérias-Primas, estima que a demanda global alcançará 111 mil toneladas ate 2025, em comparação com apenas 33 mil toneladas em 2015.

Ao governo de esquerda de Evo Morales não escapou o tesouro que jaz sobre o pobre Estado andino. Atualmente, uma tonelada de lítio está cotada em 16 mil dólares, e o preço vem subindo de ano para ano. Investidores da China, Estados Unidos e Rússia fazem fila, mas a Bolívia mantém suas portas fechadas.

"Não queremos uma segunda Potosí", afirma Juan Montenegro, que Morales nomeou chefe da empresa estatal Yacimientos de Litio Bolivianos (YLB). Ele se refere a uma velha cidade mineira, a mais de duas horas de carro do deserto salino.

Ao longo de séculos, os colonizadores espanhóis extraíram ali tanta prata que, diz-se, teria sido possível construir uma ponte da Europa até a América do Sul. Milhões morreram nas atividades de mineração, até hoje crianças procuram restos pelos túneis. No centro de Potosí uma exposição fotográfica junta donativos para que elas possam ir à escola.

Essa história não deve se repetir em Uyuni. Quem queira extrair lítio aqui, deve se ater às condições de La Paz, mantendo no local os empregos e a agregação de valor.

Não se trata apenas de ser fornecedores de matéria-prima, afirma Montenegro: a meta é produzir baterias made in Bolivia. Os pacotes de baterias recarregáveis improvisadamente embalados com fita adesiva, que os cientistas trouxeram de La Paz, são prova de quanto falta até alcançar essa meta.

Jazidas de lítio do Salar de Uyuni já são motivo de orgulho nacional

Joint venture com firmas alemãs

É um dia seco e frio em Uyuni, a YLB comemora seu primeiro aniversário de fundação. A banda militar se apresenta, escolares dançam em trajes andinos, e a prefeita louva as "perspectivas de emprego" graças ao lítio.

E há mesmo o que festejar: está prometido para Uyuni um investimento bilionário vindo da Alemanha. A empresa de energia sustentável ACI Systems, de Baden-Württemberg, e a turíngia K-Utec, de tecnologia de sais, ganharam a concorrência para o megaprojeto.

Dada a partida oficial, nesta quarta-feira (12/12), uma joint venture teuto-boliviana extrairá sulfato de lítio do Salar em escala industrial, calculam-se 25 mil toneladas da preciosa matéria prima por ano. A partir dela se produzirá carbonato de lítio, a alma das baterias recarregáveis.

Até agora só há uma pequena central-piloto no deserto de sal. O caminho até lá passa pelo lugarejo de Colchani. Quando acabam as casas, a pista se perde no branco infinito. Chegando finalmente à pequena fábrica, soldados vigiam a entrada.

Dentro, o operário Jorge Macías afirma que consegue viver bem do lítio: seu salário equivale a 600 euros, o que é relativamente muito na Bolívia. Depois de três semanas trabalhando direto, ele já sente falta da mulher e dos filhos, mas está convencido: "Finalmente, nós mesmos, bolivianos, estamos nos beneficiando das riquezas da terra."

Bolívia espera produzir 25 mil toneladas de lítio por ano. Preço atual é de 16 mil dólares por tonelada

O diretor geral da ACI Systems, Wolfgang Schmutz, vê a situação de forma surpreendentemente semelhante: "A coisa toda é um projeto de igual para igual. Decisiva para o nosso trabalho aqui foi a confiança dos bolivianos, que contam com um desenvolvimento sério e sustentável no Salar."

Agora se busca na Alemanha quem esteja disposto a passar alguns meses na Bolívia, revela Schmutz: justamente no setor de técnica de baterias ainda falta muito know-how aos sul-americanos.

Um outro fator se interpõe no caminho dos bolivianos à era industrial: o país não tem acesso ao mar, as exportações têm que ser transportadas pela cadeia andina até o porto chileno de Antofagasta, para cuja utilização Santiago exige altas taxas. Isso também deverá encarecer as baterias bolivianas. Em outubro o país perdeu uma causa contra o Chile no Tribunal Internacional de Justiça.

Em Uyuni, porém, as esperanças permanecem altas. No momento, os mochileiros são a única fonte de verbas para a desolada região: o deserto de sal é uma cenário apreciado para fotos do Instagram. Mas em geral os turistas só permanecem por poucos dias.

"Para os agricultores da região, a única outra fonte de renda é a criação de lhamas", comenta a prefeita Carmen Gutiérrez. Ela espera que o lítio vá finalmente lhes trazer prosperidade – uma prosperidade que nenhuma potência colonial será capaz de tomar.
 Deutsche Welle

sábado, 15 de dezembro de 2018

O que mudou na Venezuela 20 anos após triunfo de Hugo Chávez


Guillermo D. Olmo (@BBCgolmo)
BBC News 


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Chávez teve muito apoio nas eleições de 1998

No dia 6 de dezembro de 1998, há 20 anos, Hugo Rafael Chávez Frías ganhava as eleições presidenciais na Venezuela pela primeira vez e inaugurava uma nova página na história do país. À época, a Venezuela era castigada por corrupção, pobreza e desigualdade. O novo presidente chegava ao poder com a promessa de uma república refundada, que regeneraria a política e entregaria a tão desejada justiça social.

Mas, 20 anos depois, muitos dos problemas daquela época pioraram. O país vizinho vive a maior recessão de sua história. São 12 trimestres seguidos de retração econômica, segundo anunciou em julho a Assembleia Nacional, o parlamento venezuelano, que atualmente é controlado pela oposição.

A inflação no país está próxima de 1.000.000% ao ano. A fome fez os venezuelanos perderem, em média, 11 quilos no ano passado. A violência esvazia as ruas das grandes cidades quando anoitece.
Como Chávez venceu?

O historiador Agustín Blanco Muñoz, autor de várias obras sobre a história recente da Venezuela e a figura de Chávez, explica o contexto daquela vitória chavista: "O sistema de Ponto Fixo, que acabou com a ditadura de Marcos Pérez Jiménez em 1958, era baseado em dois partidos, Ação Democrática (AD) e o Comitê de Organização Política Eleitoral Independente (Copei), que se alternavam no poder sem conseguir resolver os problemas. Cada presidente que tomava posse culpava o anterior pela herança".Direito de imagemGETTY IMAGESImage caption
Chávez desvinculou sua imagem da velha política

Então, os venezuelanos decidiram confiar em Chávez, um jovem militar que havia ficado famoso como líder de uma tentativa de golpe de Estado em 1992, contra Carlos Andrés Pérez.

Sua mensagem televisiva ao país pouco depois do fracasso da rebelião, quando anunciou que seu movimento bolivariano não tinha alcançado seus objetivos "por ora", foi, na verdade, como escreveu na época Gabriel García Márquez, "o início de sua campanha eleitoral".

Depois de ser perdoado em 1994 pelo presidente Rafael Caldera, Chávez, de gravata e já sem uniforme militar, competiu nas urnas seis anos depois e venceu de lavada.

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Na campanha, Chávez tomou como bandeira a luta contra a corrupção e a pobreza

"A situação em 1998 era de verdadeiro desastre e ele conseguiu se apresentar como um salvador em meio a esse desastre, porque os venezuelanos já não acreditavam nos partidos políticos tradicionais", diz Blanco.
Como estava a economia em 1998?

Apesar de ter feitos declarações contrárias ao Fundo Monetário Internacional (FMI) em seu mandato anterior (1974-79) e na campanha presidencial de 1989, o presidente Carlos Andrés Pérez fez ajustes acordados com o órgão em troca de crédito para que a Venezuela pudesse enfrentar sua enorme dívida externa e melhorar sua economia, afetada pela queda dos preços de petróleo nos mercados internacionais.

Na época, tal como hoje, a Venezuela dependia de suas exportações de petróleo bruto, sem refino (portanto, sem valor agregado).

Na década de 1970, principalmente no primeiro governo de Pérez, a Venezuela havia se beneficiado de um boom de petróleo que permitiu um volumoso gasto social. Foram os anos conhecidos como "Venezuela saudita", caracterizados pelo investimento público e pela criação de infraestrutura no país.

Mas na década de 1980 aquela bonança terminou. Os preços, o desemprego e a dívida pública cresceram.

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Carlos Andrés Pérez com o presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, em 1978

Até que, em 1989, logo depois de ser eleito pela segunda vez, Pérez implementou o programa econômico conhecido popularmente como "pacotão", que incluiu cortes em serviços sociais, aumento de impostos e privatização de empresas estatais.
Como era o clima social à época?

A Venezuela de 1998 ainda vivia sob o trauma do episódio conhecido como "Caracaço". Pouco depois de Pérez iniciar as reformas, uma revolta popular com protestos e saques estourou em Caracas.

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Carlos Andrés Pérez colocou o Exército nas ruas para conter a revolta contra reformas

O historiador Blanco Muñoz diz que o presidente suspendeu várias garantias constitucionais e, "para salvar a si mesmo e ao seu governo, botou o Exército na rua com ordem de matar". Ele chama esse momento de "massacre da Venezuela".

"Ainda estamos contando os mortos", lamenta em conversa com a BBC Mundo Juan Barreto, que acompanhou a candidatura de Chávez desde seus primeiros passos e foi responsável pela comunicação no seu governo.

A onda de violência e a repressão à época deixaram centenas de mortos, mas o número exato ainda é motivo de debate no país.

A indignação contra a resposta do governo aos protestos fortaleceu o apoio a Chávez mais tarde.

Gustavo Márquez, ministro de Chávez em duas ocasiões, afirma que nos anos finais do chamado sistema de alternância entre os dois principais partidos, "a elite política do país tinha se distanciado da população".
Qual é a situação da Venezuela hoje?

Esse contexto político e econômico do final da década de 1990 facilitou a ascensão de Chávez, um militar que propôs romper com a política tradicional.

Mas, a situação de hoje tem alguns paralelos com aquele momento.

Em 2014 e 2017, ocorreram diversas ondas de protesto contra o governo de Nicolás Maduro, sucessor de Chávez, que morreu em 2013. Os enfrentamentos entre forças de segurança e manifestantes também deixaram dezenas de mortos - não há consenso sobre o número exato.

Barreto diz que ultimamente "o governo Maduro vem cerceando liberdades, mas não se pode dizer que seja igual ao que se viu no Caracaço", quando, segundo ele, "obrigaram jovens a atirar contra a população".

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Filas e pequenos protestos são rotina na Venezuela

De acordo com o Observatório Venezuelano de Conflito Social, 2018 será o ano com mais protestos na Venezuela desde 2011, quando a organização começou a coletar os dados. No entanto, parece que eles estão se tornando menos intensos.

Já não acontecem as grandes marchas de oposição como em anos anteriores, mas sim concentrações menores de pensionistas, trabalhadores da área de saúde e outros grupos que protestam contra o governo e sua gestão econômica e contra a falta de acesso a serviços básicos.
E a economia venezuelana?

A economia da Venezuela começou a sofrer uma forte deterioração em 2013, ano em que morreu Chávez.

Segundo estimativa do FMI, o país terá vivido em 2018 seu terceiro ano consecutivo com uma queda superior a 10% do PIB, uma redução dramática de sua riqueza nacional. Entre 2013 e 2017, o PIB venezuelano teve uma queda de 37%. O FMI prevê que, neste ano, caia mais 15%; e descreve a situação como "uma das piores crises econômicas da história".

A isso se soma a hiperinflação, um aumento constante e acelerado dos preços, que o FMI estima totalizar 1.000.000% até o fim deste ano.

Ainda que em 1998 a inflação já fosse um problema, a atual supera todos os precedentes na Venezuela e quase todos no mundo.

A crise atual também teve como causa a queda do preço do petróleo. Para o chavista Barreto, "Chávez não conseguiu romper com o modelo rentista petroleiro".
Acabou a corrupção?

Todos os analistas concordam que a farra de autoridades venezuelanas com esquemas de corrupção foi outro motivo importante que deu a Chávez sucesso nas urnas.

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Já na década de 1970 proliferavam escândalos que vinculavam Carlos Andrés Pérez e figuras de seu entorno com suposto uso indevido de recursos públicos

Já na década de 1970, proliferavam escândalos que vinculavam Carlos Andrés Pérez e figuras de seu entorno a suposto uso indevido de recursos públicos.

Depois do "Caracaço" e de duas tentativas golpistas de Chávez, Pérez foi formalmente acusado de gastar indevidamente milhões de bolívares de um fundo secreto presidencial e destiná-los ao envio de uma missão policial à Nicarágua.

O processo acabou com sua destituição como presidente pelo Congresso e a Suprema Corte o condenou a dois anos e quatro meses de prisão domiciliar.

Em 1998, Pérez foi acusado de novo pelo uso indevido de recursos públicos, que teria ocultado em contas de bancos americanos. Pérez deixou a Venezuela e acabou se instalando em Miami, onde morreu sem ter atendido aos requerimentos dos tribunais venezuelanos.

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A justiça de Andorra investiga o mal uso de recursos públicos da empresa de petróleo venezuelana

O chavismo tampouco se livrou da mancha de corrupção.

Um tribunal da Flórida condenou recentemente Alejandro Andrade, que foi tesoureiro da República e guarda-costas de Chávez, a 10 anos de prisão por ter cobrado propina no valor de US$1 bilhão.

Outras pessoas do círculo de Chávez também estão sendo acusadas em diferentes lugares do mundo. Sua enfermeira, Claudia Patricia Díaz Guillén, espera na Espanha que a Justiça decida sobre sua extradição à Venezuela sob acusação de envolvimento no esquema do tesoureiro chavista.

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Os sobrinhos de Maduro foram condenados nos EUA por narcotráfico

A lista não acaba aí. Em Andorra, se investiga um grupo de diretores da PDVSA, a empresa de petróleo estatal venezuelana, acusados de roubar centenas de milhões de dólares.

O Ministério Público da Venezuela anunciou há poucas semanas que havia descoberto um esquema de apropriação indevida de dinheiro da companhia e disse que tinha prendido os responsáveis.

Além disso, dois sobrinhos da esposa do presidente Maduro foram condenados nos Estados Unidos, em 2017, por tentar levar 800 quilos de cocaína ao Haiti.

A situação se agrava com o acirramento político. Em 2015, o chavismo perdeu o controle do Parlamento e Maduro, que acusa constantemente os oposicionistas de tentarem tirá-lo do poder por meio de um golpe, decidiu convocar uma Assembleia Nacional Constituinte.

Na prática, foi uma estratégia para esvaziar totalmente o poder do Legislativo comandado pelos opositores e criar uma instância paralela de decisão. O chavismo também domina o Tribunal Supremo de Justiça, instância máxima do Judiciário.
BBC Brasil

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Qual é o tamanho atual do buraco na camada de ozônio?


Analía Llorente
BBC News Mundo

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Camada de ozônio sobre o Polo Sul no dia 12 de setembro: em roxo e azul estão as áreas que têm menos ozônio, enquanto em amarelo e vermelho, as que têm mais

Apesar da pouca atenção que tem recebido recentemente, o buraco na camada de ozônio ainda existe, embora a comunidade científica esteja otimista sobre a redução do seu tamanho.

O ozônio é um gás incolor que forma uma fina camada na atmosfera e absorve os componentes nocivos da luz solar, conhecidos como raios "ultravioleta B" ou "UV-B", protegendo os seres humanos dos riscos de desenvolver câncer de pele ou catarata, entre outras doenças.

Mas nos últimos cem anos, a atividade do homem fez com que a camada de ozônio começasse a deteriorar.

É por isso que, em 1985, a descoberta de um buraco em cima no Polo Sul acendeu um alerta global. E o buraco na camada de ozônio passou a ser o maior ícone da luta pela preservação ambiental da época.

Dois anos depois, foi firmado o Protocolo de Montreal, em que os países signatários se comprometeram a reduzir a produção e comercialização de substâncias consideradas responsáveis pelo dano.

Com isso, a camada de ozônio começou a se recuperar. E, nas décadas seguintes, o tema perdeu protagonismo para outras questões ambientais, como o aquecimento global. O que não quer dizer que sua importância tenha diminuído.

Afinal, qual o estado atual da camada de ozônio?
Paciente em recuperação

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O Protocolo de Montreal proibiu o uso de certas substâncias para proteger a camada de ozônio, vital para conter a radiação ultravioleta

De acordo com a última avaliação da Nasa, agência espacial americana, realizada em setembro de 2018, o tamanho do buraco na camada de ozônio é de 23 milhões de km², quase a mesma superfície da América do Norte (24,7 milhões de km²).

Mas, apesar dessa lacuna, a quantidade de moléculas de ozônio na atmosfera ao redor do planeta é "bastante constante, com uma redução de cerca de 2% nos últimos anos", diz Stephen Motzka, pesquisador químico da Administração Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA, na sigla em inglês).

"Embora não haja nenhum indício de uma recuperação completa da camada de ozônio, há certamente uma melhoria na diminuição da concentração dos gases que causam a destruição do ozônio", diz Motzka à BBC.

Em 2017, a Nasa informou que o buraco atingiu o menor tamanho registrado desde 1988. Mas a melhora "excepcional", segundo os cientistas, estaria relacionada a condições climáticas, e não às ações de conservação.

Os especialistas esperam que o buraco seja reduzido para os níveis de 1980 até o ano de 2070.
Por que o buraco está sobre a Antártida?

Em 1986, a pesquisadora americana Susan Solomon mostrou que o ozônio estava sendo destruído pela presença de moléculas que contêm cloro e bromo provenientes dos clorofluorcarbonetos (CFCs).

Esses gases eram encontrados em quase tudo - de sprays para cabelo e desodorantes a geladeiras e aparelhos de ar-condicionado - e foram proibidos em 2006.

Quando tentamos localizar no planeta onde está o dano à camada de ozônio, olhamos para a Antártida.

"Quando falamos sobre o buraco na camada de ozônio, nos referimos à Antártida porque é onde a redução do ozônio é mais flagrante e maior durante uma época específica do ano, quando é a primavera (setembro-novembro)", explica Motzka.

O frio extremo da região e a grande quantidade de luz ajudam a produzir as chamadas nuvens estratosféricas polares.

Nestas nuvens frias, é produzida a reação química de cloro e bromo que destrói o ozônio.
Quais são os países mais afetados pelo buraco?

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As moléculas de clorofluorcarboneto sobem para a atmosfera, onde se dissolvem e atacam a camada de ozônio

Com a destruição da camada de ozônio, os perigosos raios ultravioletas do Sol encontram o caminho livre para atingir a superfície da Terra.

É por isso que alguns países da América Latina são mais afetados que outros pelo aumento dos níveis de radiação.

"Países com altas latitudes no hemisfério sul podem ter uma exposição maior e ser mais afetados pelos danos da camada de ozônio sobre a Antártida", diz Motzka.

Aqueles que estão mais próximos do buraco, como Argentina e Chile, são os mais vulneráveis, segundo o especialista.
Substâncias perigosas

Em maio deste ano, um estudo conduzido por Motzka mostrou que, em algum lugar da Ásia, estão sendo geradas emissões de produtos químicos proibidos nocivos à camada de ozônio.

As substâncias a que ele se refere são os mesmos clorofluorocarbonetos (CFC-11), uma combinação de flúor, carbono e cloro.

Poucos meses depois, a Agência de Pesquisa Ambiental (EIA), com sede no Reino Unido, afirmou que esses gases poderiam ser provenientes de espumas de isolamento térmico de poliuretano, produzidas na China para uso doméstico a um preço reduzido. Mas o caso ainda está sendo investigado.

Agora, ficará nas mãos dos países signatários do Protocolo de Montreal tomar medidas para contornar o problema na próxima reunião, que será em novembro deste ano no Equador.

"Para que a camada de ozônio se recupere, precisamos que os controles do Protocolo de Montreal sejam cumpridos", disse Motzka à BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC.

Mas o especialista não perde a esperança.

"Ainda sou otimista sobre a recuperação da camada de ozônio no futuro", diz ele.
BBC Brasil

Conheça 10 formas de colaborar com o combate ao aquecimento global


Diego Arguedas Ortiz
BBC Future

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Não existe dúvida de que mudança climática é uma realidade, e estamos começando a ver exemplos, como as chuvas torrenciais no Brasil

Os principais especialistas do mundo em clima fizeram seu aviso mais severo até agora: as ações já implementadas não são suficientes para atingir a meta de aquecimento global de 1,5ºC. Segundo relatório divulgado em setembro, a humanidade precisa se esforçar mais.

Não existe dúvida de que a mudança climática é uma realidade, e há diversos exemplos de como isso nos afeta, desde incêndios na Califórnia a chuvas torrenciais no Brasil.

Mas não devemos nos perguntar se o aquecimento global está acontecendo ou se é potencializado pelos seres humanos. A pergunta mais importante é: o que podemos fazer para freá-lo?

Confira aqui nosso guia com as estratégias mais eficazes para ajudar a mitigá-lo, que envolvem transporte, alimentação, vestuário, reprodução entre outros temas.

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Para mitigar as mudanças climáticas, o objetivo número um é substituir os combustíveis fósseis por fontes renováveis ​​de energia
1. Qual é a coisa mais importante que a humanidade deve fazer nos próximos anos - e o que isso significa para mim?

O objetivo número um? Limitar o uso de combustíveis fósseis como petróleo, carvão e gás natural e substituí-los por fontes de energia renováveis e mais limpas, aumentando a eficiência energética.

"Precisamos reduzir as emissões de CO² quase pela metade (45%) até o final da próxima década", diz Kimberly Nicholas, professora associada de Ciência da Sustentabilidade no Centro de Estudos em Sustentabilidade da Universidade de Lund, na Suécia.

O caminho para essa transição inclui decisões diárias ao seu alcance - como dirigir e voar menos, optar (se possível) por um fornecedor de energia "verde" e até mesmo mudar o que você come e compra.

Claro que a mudança climática não será resolvida apenas pelos nossos hábitos de compra ou de transporte, embora muitos especialistas concordem que isso seja importante. Essa postura pode influenciar outras pessoas a mudarem também (leia mais abaixo).

Na prática, são necessárias mudanças que só podem ser feitas em uma escala maior, como reformular nosso sistema de subsídios para as indústrias de energia e alimentos, que continuam a depender de combustíveis fósseis, ou estabelecer novas regras e incentivos para setores como agricultura, desmatamento e gestão de resíduos.

Um bom exemplo da importância disso diz respeito aos refrigeradores. Um grupo formado por pesquisadores, empresários e ONGs chamado Drawdown descobriu que se livrar de HFCs (produtos químicos usados em geladeiras e ar condicionado) era a medida mais eficaz para reduzir as emissões. Isso porque eles causam 9.000 vezes mais aquecimento na atmosfera do que o CO². A boa notícia é que avançamos nisso, e há dois anos 170 países concordaram em começar a eliminar gradualmente os HFCs a partir de 2019.

Isso é importante porque precisamos de "mudanças sem precedentes em todos os aspectos da sociedade para lidar com o aquecimento global", diz o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). "Todos terão que se envolver", diz Debra Robert, co-presidente dessa organização.
2. Mudar como as indústrias são administradas ou subsidiadas não parece algo em que eu possa influenciar...ou eu posso?

Você pode. "Os indivíduos precisam exercer seus direitos tanto como cidadãos quanto como consumidores", dizem Debra Robert, do IPCC, e outros especialistas, "pressionando governos e empresas a fazerem as mudanças necessárias em todo o sistema".

Outra forma, cada vez mais adotada por universidades, grupos religiosos e recentemente até mesmo a nível nacional, é "alienar" recursos de atividades poluidoras - como evitar estoques de combustíveis fósseis ou bancos que investem em indústrias de alta emissão. Ao se livrar de instrumentos financeiros relacionados à indústria de combustíveis fósseis, as organizações podem tomar medidas climáticas e colher benefícios econômicos.

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Abdicar do carro é a ação mais eficaz que uma pessoa pode tomar para combater o aquecimento global

3. Fora isso, qual seria a melhor ação a tomar no meu dia a dia?

Um estudo de 2017, da Universidade de Lund (Suécia), listou 148 ações individuais sobre mudanças climáticas de acordo com seu impacto. Abdicar dos carros era a ação mais eficaz que um indivíduo poderia tomar (exceto não ter filhos - leia mais sobre isso abaixo). Os carros são mais poluentes em comparação com outros meios de transporte, como transporte público, bicicleta e seguir a pé.

Em países industrializados, deixar de usar o carro pode reduzir 2,5 toneladas de CO² - cerca de um quarto das emissões anuais médias (9,2 toneladas) por cada pessoa em países desenvolvidos da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

"Devemos optar por veículos mais eficientes e, sempre que possível, pelos elétricos", diz Maria Virginia Vilarino, uma das especialistas que participaram da elaboração do último relatório do IPCC.
4. Mas a energia renovável não é muito cara?

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Energia solar é hoje a fonte de eletricidade mais barata para muitos lares na América Latina, Ásia e África

Na verdade, as energias renováveis, como a eólica e a solar, estão se tornando cada vez mais baratas em todo o mundo (embora os custos finais dependam de circunstâncias locais). O último relatório da Agência Internacional de Energia Renovável (Irena, na sigla em inglês) descobriu que várias das fontes de energias renováveis mais usadas, como solar, geotérmica, bioenergia, energia hidrelétrica e eólica em terra, vão custar o mesmo ou serão até mais baratas do que os combustíveis fósseis até 2020. Algumas já são mais econômicas.

O custo dos painéis solares caiu 73% desde 2010, por exemplo, tornando a energia solar a fonte de eletricidade mais barata para muitos lares na América Latina, Ásia e África. No Reino Unido, as energias solar e eólica em terra são mais competitivas do que o gás e, até 2025, serão a fonte mais barata de geração de eletricidade.

Alguns críticos argumentam que esses preços desconsideram o valor da integração de energias renováveis no sistema elétrico - mas evidências recentes sugerem que esses custos são "modestos" e gerenciáveis para a rede.

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Se o gado fosse um país, seria o terceiro maior emissor mundial de gases de efeito estufa

5. Eu poderia fazer diferença mudando minha dieta?

Essa é mudança de comportamento muito importante. De fato, depois dos combustíveis fósseis, a indústria de alimentos - e, em particular, o setor de carnes e laticínios - é um dos que mais colaboram para a mudança climática. Se o gado fosse um país, seria o terceiro maior emissor mundial de gases de efeito estufa, depois da China e dos EUA.

A indústria da carne contribui para o aquecimento global de três grandes formas. Em primeiro lugar, o arroto das vacas libera muito metano, um gás de efeito estufa. Em segundo lugar, alimentamos o gado com outras fontes potenciais de alimentos, como milho e soja, o que gera ineficiência de processos. E, finalmente, esse tipo de atividade também exige grandes quantidades de água, fertilizantes que podem liberar gases de efeito estufa e terra - que acaba vindo de florestas desmatadas, outra fonte de emissões de carbono.

Você não precisa se tornar vegetariano ou vegano para fazer a diferença: reduza gradualmente e torne-se um 'flexitariano'. Ao reduzir seu consumo de proteína animal pela metade, você pode reduzir a pegada de carbono da sua dieta em mais de 40%.

6. Quão prejudicial é viajar de avião?

Os aviões funcionam a partir de combustíveis fósseis e ainda não foi descoberta uma alternativa à altura. Embora alguns dos primeiros esforços para usar painéis solares para alimentar aeronaves ao redor do mundo tenham tido êxito, ainda estamos a décadas de distância de voos comerciais movidos a energia solar.

Um voo transatlântico normal de ida e volta transatlântico pode liberar cerca de 1,6 toneladas de CO², de acordo com o estudo de Nicholas - quase tanto quanto as emissões anuais médias de uma pessoa na Índia. Isso também destaca a desigualdade da mudança climática: enquanto todos serão afetados, apenas uma minoria de humanos voará e menos pessoas farão vôos com frequência.

Há aqueles que decidiram desistir de voar ou voar menos. Reuniões virtuais, férias em destinos locais ou usar trens em vez de aviões são maneiras de reduzir seu impacto no aquecimento global.

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Setor de vestuário representa cerca de 3% das emissões mundiais de CO2

7. Eu deveria fazer compras de forma diferente?

Provavelmente. Tudo o que compramos tem uma pegada de carbono, seja na forma como é produzido ou na forma como é transportado.

Por exemplo, o setor de vestuário representa cerca de 3% das emissões globais de CO² da produção mundial, principalmente devido ao uso de energia para produzir roupas. O ritmo frenético da fast fashion contribui para isso, pois as roupas são descartadas ou se desfazem após curtos períodos.

O transporte internacional, incluindo o marítimo e o aéreo, também gera impacto. Os produtos enviados do Chile e da Austrália para a Europa, ou vice-versa, têm mais "milhas alimentares" e geralmente uma pegada de carbono maior do que a produção local. Mas esse nem sempre é o caso, já que alguns países cultivam plantações fora da estação em estufas com uso intensivo de energia - então a melhor coisa a fazer é comer alimentos cultivados localmente e sazonais.

Mesmo assim, tornar-se vegetariano ainda é melhor para o meio ambiente do que comprar alimentos locais.

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Ter menos filhos é a melhor maneira de reduzir sua contribuição às mudanças climáticas

8. Devo pensar em quantos filhos terei (ou não terei)?

O estudo de Nicholas concluiu que ter menos filhos é a melhor maneira de reduzir sua contribuição às mudanças climáticas, com quase 60 toneladas de CO² a menos por ano. Mas esse resultado é polêmico - e leva a outras questões.

Uma delas é se você se torna responsável pelas emissões climáticas dos seus filhos. A outra é onde esses bebês nascem.

Se você é responsável pelas emissões de seus filhos, seus pais seriam responsáveis pelas suas? E se você não for, como deveríamos considerar o fato de que mais pessoas provavelmente vão gerar mais emissões de carbono? Também poderíamos perguntar se ter descendentes é um direito humano indiscutível. E poderíamos questionar se ter filhos é necessariamente uma coisa ruim para resolver a mudança climática: talvez precisaremos de mais pessoas para solucionar os problemas das gerações futuras, e não menos.

Essas são questões filosóficas difíceis - e não vamos tentar respondê-las aqui.

O que sabemos é que cada pessoa gera emissões de CO² diferentes. Embora a média humana seja de 5 toneladas por ano, isso varia de acordo com o país: nações desenvolvidas como os Estados Unidos e a Coreia do Sul têm médias nacionais mais altas (16,5 toneladas e 11,5 toneladas por pessoa, respectivamente) do que países em desenvolvimento, como Paquistão e Filipinas (cerca de 1 tonelada cada). Mesmo dentro de um mesmo país, pessoas mais ricas têm emissões mais altas do que aquelas com menos acesso a bens e serviços. Então, se você decidir levar essa questão em conta, tem que lembrar que não se trata apenas de quantos filhos você tem, mas sim de onde e quem você é.

9. Que diferença comer menos carne ou viajar menos de avião pode realmente fazer para o mundo?

Na verdade, não é só você. Sociólogos descobriram que, quando uma pessoa toma uma decisão rumo à sustentabilidade, outras pessoas também o fazem.

Aqui estão quatro exemplos:
Clientes de um café dos EUA que foram informados de que 30% dos americanos começaram a comer menos carne eram duas vezes mais propensos a pedir um almoço sem carne.
Uma pesquisa on-line mostrou que, dos entrevistados que conhecem alguém que desistiu de voar por causa da mudança climática, metade deles disse que voariam menos também.
Na Califórnia, casas eram mais propensas a instalar painéis solares em bairros que já os possuem.
Líderes comunitários tentando convencer pessoas a instalar painéis solares foram 62% mais bem-sucedidos se suas casas contassem com o equipamento instalado.

Os especialistas dizem acreditar que isso ocorre porque estamos constantemente avaliando o que pessoas do nosso entorno estão fazendo, ajustando nossas crenças e ações de acordo com isso.

Quando as pessoas veem seus vizinhos tomando ações ambientais, como a conservação de energia, inferem que pessoas como elas também valorizam a sustentabilidade e se sentem mais compelidas a agir.
10. E se eu simplesmente não puder evitar viagens de avião ou reduzir minha locomoção por meio de carros?

Se você simplesmente não puder fazer todas as mudanças necessárias, considere a possibilidade de compensar suas emissões a partir de um projeto verde confiável - não um "cheque em branco", mas outro recurso para compensar o inevitável vôo ou viagem de carro.

A Convenção do Clima da ONU mantém um portfólio de dezenas de projetos em todo o mundo para os quais você pode contribuir. Para descobrir quantas emissões você precisa para 'comprar' de volta o que gastou,
Independentemente de onde você viva, já deve ter observado como a mudança climática impacta sua vida. Mas o oposto também é verdade: suas ações influenciarão o planeta nas próximas décadas - para melhor ou para pior.
BBC Brasil

Seres humanos comem plástico sem saber, mostra pesquisa


O estudo foi feito com grupos de participantes de oito países. Cada voluntário manteve um detalhado diário de sua alimentação na semana que precedeu a coleta de amostra de fezes

Agência Estado


O que os cientistas chamam de microplástico são partículas de plástico de menos de cinco milímetros(foto: Pixabay) 

Usado no dia a dia de forma exagerada e descartado sem cuidado, o plástico pode estar literalmente envenenando os seres humanos. Um estudo inédito apresentado no 26º Congresso Europeu de Gastroenterologia, em Viena, revelou que estamos ingerindo regularmente pelo menos nove tipos diferentes de plástico, sem nem nos darmos conta do problema.

Pesquisadores da Universidade de Medicina de Viena e da Agência de Meio Ambiente da Áustria monitoraram um grupo de participantes de oito países diferentes (Finlândia, Itália, Japão, Holanda, Polônia, Rússia, Reino Unido e Áustria). Os cientistas descobriram que todas as amostras de fezes coletadas nos mais variados pontos do planeta continham microplástico.

O que os cientistas chamam de microplástico são partículas de plástico de menos de cinco milímetros. Esses resíduos são criados a partir do descarte e da degradação de pedaços maiores de plástico. Mas também são produzidas industrialmente para o uso em alguns produtos. O microplástico tem impacto na saúde humana, sobretudo no trato gastrointestinal, onde pode interferir na resposta imunológica do organismo.

O estudo foi feito com grupos de participantes de oito países. Cada voluntário manteve um detalhado diário de sua alimentação na semana que precedeu a coleta de amostra de fezes. Os diários alimentares revelaram que todos os participantes são expostos aos plásticos, seja pelo consumo de alimentos embrulhados em plástico ou por beberem líquidos em garrafas de plástico. Muitos também consumiram peixes.

As amostras de fezes foram testadas pela Agência Ambiental da Áustria para a presença de dez diferentes tipos de plástico. Até nove variantes foram detectadas, em tamanhos que variaram de 50 a 500 micrometros (um micrômetro equivale à milésima parte do milímetro). Os tipos de plástico mais frequentemente encontrados foram o polietileno e o PET.

“É o primeiro estudo deste tipo a comprovar o que suspeitamos há tempos: que os plásticos, no fim, acabam atingindo o intestino humano”, afirmou o principal autor do estudo, Philipp Schwabl. “É particularmente preocupante no que tange aos pacientes com doenças gastrointestinais. Em estudos com animais, as maiores concentrações de plástico foram encontradas no intestino, mas também foram encontradas partículas menores capazes de entrar na corrente sanguínea, no sistema linfático, podendo ate alcançar o fígado. Agora que temos os primeiros indícios de microplásticos no organismo humano, precisamos de mais pesquisa para entender o impacto na saúde humana.”

A produção global de plástico vem aumentando substancialmente desde o início dos anos 50. Estima-se que, por conta da poluição de 2% a 5% de todo o plástico produzido no mundo acaba nos oceanos. Lá, eles acabam sendo consumidos por animais marinhos, entrando na cadeia alimentar humana.

Quantidades significativas de microplástico já foram encontradas em atum, lagosta e camarão. Segundo cientistas, é muito provável que haja também contaminação ao longo da cadeia de processamento de alimento e mesmo na embalagem.

As 3 economias da América Latina próximas de se tornarem as maiores decepções de 2018


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A Nicarágua e a Argentina estão entre os países cujas economias devem sofrer em 2018

Enquanto a crise se agrava na Venezuela, país com o pior desempenho econômico na América Latina, três outras economias da região correm o risco de fechar o ano sob fortes quedas.


É o caso da Nicarágua, da Argentina e do Equador, que têm dado sinais de que terminarão 2018 numa situação complicada.

No início do ano, poucos imaginavam que haveria uma revolta popular nicaraguense e que ela provocaria centenas de mortes.

Na Argentina, o bom desempenho econômico no primeiro trimestre não indicava que meses depois haveria uma corrida contra a moeda local, o peso, e que a taxa básica de juros chegaria a 60% (no Brasil, ela é de 6,5%).

Quanto ao Equador, os analistas se preocupam com o alto nível de endividamento público.

Já o Brasil, que nos últimos anos se habituou a figurar nos rankings das economias com pior desempenho do continente, escapou desta vez. Segundo a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), o país deve crescer 1,6% em 2018 - 0,1 ponto percentual acima da média de crescimento de toda a América Latina, segundo a comissão.
Nicarágua: o impacto da crise social e política

A crise social e política na Nicarágua resultou em mais de 300 mortes e quase 2.000 pessoas feridas, segundo o Escritório do Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos.

A organização denunciou execuções extrajudiciais, desaparecimentos forçados e barreiras ao acesso à assistência médica num país que enfrenta protestos massivos contra o presidente Daniel Ortega.

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Manifestantes na Nicarágua, onde a repressão já provocou mais de 300 mortes

Em meio à crise, a Cepal projeta uma busca queda no crescimento econômico, que deve passar de 4,9%, em 2017, para 0,5% neste ano.

O conflito teve um impacto profundo no turismo, no comércio e na agricultura, além de afetar exportações e investimentos.

"Se o baixo crescimento persistir e as tensões sociais não se resolverem, deve-se esperar que os indicadores sociais comecem a deteriorar", disse à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, Daniel Titelman, diretor da Divisão de Desenvolvimento Econômico da Cepal.

Mas há um elemento importante na economia local, que são as remessas de nicaraguenses no exterior - o economista estima que não haverá redução desse volume, ao menos um fator positivo num país tão convulsionado.

A Nicarágua representa 0,3% do PIB da América Latina e registrou no ano passado um PIB per capita de US$ 2.217 (cerca de R$ 8.600). O país tem 6,2 milhões de habitantes.
Argentina em situação de emergência

A Argentina, com 44,5 milhões de habitantes, tem vivido dias sombrios. O presidente Mauricio Macri declarou que o país está em uma "situação de emergência" e anunciou um plano de ajuste que inclui uma redução no número de ministérios a menos da metade e volte a impor impostos sobre as exportações agrícolas.

O peso argentino perdeu 50% de seu valor ante o dólar no último ano, e espera-se que a depreciação acelere ainda mais a inflação, que já superou os 30%.

Além disso, a taxa de juros chegou a 60%, algo difícil de imaginar no primeiro trimestre, quando as coisas caminhavam dentro do previsto.

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Mutirão para alimentar pessoas durante protesto em Buenos Aires

Macri busca diminuir o déficit orçamentário para convencer investidores de que o país pagará sua dívida, uma das condições acordadas como parte de um empréstimo do Fundo Monetário Internacional (FMI) de US$ 50 bilhões (o equivalente a quase R$ 195 bilhões).

O governo esperava atingir um equilíbrio fiscal até 2020 e o adiantou para 2019, impondo-se uma meta difícil de alcançar.

"A Argentina tem problemas de baixo crescimento, alta inflação e baixa credibilidade por parte dos mercados. Não é fácil manejar essa situação", afirma Titelman, da Cepal.

A Cepal projeta que a economia argentina, que cresceu 2,9% em 2017, tenha uma queda de 0,3% neste ano.

Terceira maior economia da região, a Argentina representa 11,7% do PIB regional e registrou no ano passado um PIB per capita de US$ 14.305 (cerca de R$ 56 mil).
O Equador e o ajuste do gasto público

O Equador cresceu 3% em 2017, principalmente graças ao aumento do consumo privado e do gasto público, financiado por meio de endividamentos.

É justamente o tamanho da dívida uma das pressões econômicas que inquietam os analistas estrangeiros.

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O Equador iniciou um plano de austeridade em meio a um forte endividamento

Outro aspecto preocupante é que no ano passado o investimento caiu 0,5%, um dos fatores que fizeram a Cepal projetar um crescimento de 1,5% na economia do país neste ano.

Como essa queda ocorreu em apenas 12 meses? "Os motores que empurravam a economia em 2017 se debilitaram", diz Titelman, da Cepal.

No Equador, o petróleo tem um papel muito importante na economia, e a produção total do óleo teve uma queda de quase 3,4% em 2017.

Isso, somado a outras incertezas, como o ajuste de gastos promovido pelo governo de Lenín Moreno, influenciaram na redução das projeções.

A Cepal estima que haverá queda no consumo em meio a uma política monetária mais restritiva.

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A economia do Equador está dolarizada

O Equador é uma economia dolarizada altamente sujeita aos vaivéns externos. "Quando o dólar se valoriza, isso não convém ao Equador, porque ele perde competitividade", disse Titelman.

E já que os EUA estão subindo as taxas de juros, novas nuvens podem surgir no horizonte. Frente a esses desafios, o governo equatoriano apostou em medidas de austeridade para reduzir o déficit e a dívida pública, com o intuito de aumentar a arrecadação.

O plano foi anunciado em abril deste ano e deixou organismos internacionais e investidores esperançosos. O Equador representa 1,9% da economia latino-americana e registrou no ano passado um PIB per capita de US$ 6.199 (cerca de R$ 24 mil). O país tem 16,8 milhões de pessoas.
BBC Brasil

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

O impacto destruidor do aquecimento global no Alasca


Sara Goudarzi
BBC Future

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À medida que o vilarejo de Kwigillingok descongela, a infraestrutura está desmoronando | Foto: Alamy

Vladimir Romanovsky atravessa a densa floresta de coníferas com facilidade. Não para ou diminui o passo nem sequer para se equilibrar diante do musgo macio que cobre o permafrost - superfície que permanece congelada nas regiões polares.

É um dia quente de julho, e o cientista está procurando uma caixa que ele e sua equipe deixaram no solo. Ela está escondida cerca de 10 quilômetros ao norte do Instituto de Geofísica da Universidade do Alasca, em Fairbanks, onde Romanovsky é professor de geofísica e responsável pelo Laboratório de Permafrost.

O recipiente, coberto por galhos de árvores, contém um coletor de dados conectado a um termômetro, instalado abaixo do solo para medir a temperatura do permafrost em diferentes profundidades.

O permafrost é qualquer material terrestre que permaneça a 0°C ou abaixo dessa temperatura por pelo menos dois anos consecutivos.

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Vladimir Romanovsky coleta registros de temperatura abaixo do solo da floresta | Foto: Anthony Rhoades

Romanovsky conecta então seu laptop ao coletor de dados para transferir os registros de temperatura desta localidade, chamada Goldstream 3, que mais tarde serão adicionados a um banco de dados online, acessível tanto para cientistas quanto para qualquer pessoa interessada.

"O permafrost é definido com base na temperatura. Esse é o parâmetro que caracteriza a sua estabilidade", explica o professor.

Quando a temperatura do permafrost é inferior a 0°C, por exemplo, - 6°C, ele é considerado estável, o que significa que vai demorar muito para mudar ou descongelar. Já se está perto de 0°C, é classificado como vulnerável.

Todo verão, a porção de solo que cobre o permafrost, chamada de camada ativa, derrete - e congela de novo no inverno seguinte.

Em Goldstream 3, naquele dia de julho (verão no hemisfério norte), o derretimento chegava a 50 cm de profundidade.

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Solo escuro indica a presença de carbono orgânico acumulado | Foto: Anthony Rhoades

À medida que a Terra aquece e as temperaturas aumentam no verão, o degelo está se expandindo e ficando mais profundo, fazendo com que o permafrost fique menos estável.

Se o derretimento continuar, haverá consequências profundas para o Alasca e para o mundo. Cerca de 90% do Estado é coberto por permafrost, o que significa que vilarejos inteiros precisarão ser realojados, conforme as fundações dos edifícios e as estradas desmoronarem.

E se o permafrost liberar o carbono acumulado e retido há milênios dentro dele, poderá acelerar o aquecimento do planeta - muito além da nossa capacidade de controlá-lo.
Estado de vulnerabilidade

À medida que o permafrost derrete, casas, estradas, aeroportos e outras infraestruturas construídas sobre o solo congelado podem rachar e até mesmo ruir.

"Estamos vendo mais serviços de manutenção em estradas que passam sobre o permafrost", diz Jeff Currey, engenheiro de materiais do Departamento de Transportes Públicos do Alasca.

"Um dos nossos superintendentes de manutenção contou recentemente que sua equipe está tendo que remendar certos trechos das rodovias com mais frequência do que há 10 ou 20 anos. "

Da mesma forma, as infraestruturas construídas no subsolo - para atender os serviços de utilidade pública, por exemplo - estão sendo afetadas, conforme as temperaturas aumentam.

"Em Point Lay, na costa noroeste do Alasca, por exemplo, eles estão tendo todos os tipos de problema com as redes de água e esgoto no solo de permafrost", afirma William Schnabel, diretor do Centro de Pesquisa de Água e Meio Ambiente da Universidade do Alasca.

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Leituras feitas a partir de sensores no solo indicam mudanças significativas em andamento | Foto: Anthony Rhoades

A preocupação é ainda maior para aqueles que vivem em áreas rurais, que não dispõem de fundos suficientes para combater os efeitos do derretimento do permafrost.

Para esses moradores, não são apenas os edifícios que estão ruindo, o que é comum agora, mas também o abastecimento de água.

Muitas vezes, quando o permafrost derrete ao lado de um lago usado por um vilarejo como fonte de água, há uma fenda e ocorre um dreno lateral.

"Geralmente, é necessária uma infraestrutura bem cara para tirar água de um lago, levar para uma vila e armazená-la. E todos os componentes desta infraestrutura são vulneráveis ao degelo do permafrost", diz Romanovsky.

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Image captionPermafrost é qualquer solo que permaneça congelado a 0°C ou menos por pelo menos dois anos consecutivos | Foto: Alamy

Se um vilarejo depende de um lago afetado para conseguir água, os membros da comunidade têm de levar sua infraestrutura e, às vezes, a vila inteira para outro lago, o que pode custar muito dinheiro.

De acordo com uma análise realizada pelo órgão de pesquisas geológicas americano US Geological Survey, aldeias como Kivalina, no noroeste do Alasca, terão que se mudar nos próximos 10 anos.

"Mas estimativas sugerem que o custo desta mudança seria de cerca de US$ 200 milhões por cada vila de 300 pessoas", explica Romanovsky.

Chegar a uma quantia como essa só seria possível com o financiamento do governo federal - mas não há garantias de que uma nova localização também não seria afetada.

"Acredito que agora existam 70 vilas que realmente precisam ser realojadas em decorrência do derretimento do permafrost", avalia.

"Mas transferir os vilarejos para outra área no permafrost é muito difícil de garantir por uns 30 anos. E o governo federal não quer pagar por algo que precisará pagar novamente."

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Vladimir Romanovsky no Laboratório de Permafrost, da Universidade do Alasca, em Fairbanks | Foto: Anthony Rhoades

Além disso, é possível que a construção de assentamentos no permafrost também possa agravar o problema no Alasca.

"Quando você pensa em água e esgoto, você precisa mantê-los sem congelar. E, no caso do permafrost, você tem que mantê-lo congelado", diz Schnabel.

"Ou seja, vai correr água relativamente quente pelo permafrost e haverá alguma dissipação de calor lá."

Do mesmo jeito, quando uma estrada é construída, parte da vegetação que cobre o permafrost é removida para que a rodovia seja pavimentada com asfalto, o que aumenta a quantidade de radiação solar absorvida.

Por isso, embora os serviços de manutenção tenham aumentado, nem todos os problemas relacionados à infraestrutura podem ser atribuídos à mudança climática.
Freezer cheio de carbono

O Alasca, está, sem dúvida na linha de frente das mudanças climáticas, mas as questões relacionadas ao permafrost vão além da "última fronteira selvagem", como é conhecido. O derretimento do material afetará outros 48 estados americanos, localizados abaixo dele, assim como todo o planeta.

De acordo com Romanovsky, metade do estado e 90% do permafrost do interior do Alasca vão descongelar se houver um aumento médio global de 2°C na temperatura.

Isso é especialmente preocupante porque uma enorme quantidade de carbono orgânico é sequestrada no permafrost e na camada ativa que se sobrepõe a ele.

Uma vez que não há calor suficiente no solo congelado para ajudar os micro-organismos a decompor a vegetação morta, a matéria orgânica foi se acumulando durante milhares de anos no permafrost.

Algumas análises estimam que a quantidade de carbono no permafrost equivale a mais de duas vezes a de dióxido de carbono na atmosfera.

"Se mantivermos o curso atual, é bem provável que até 2100 uma parte significativa do permafrost, nos cinco metros superiores, descongele. E, com ele, toda a matéria orgânica que está atualmente retida ali", diz Kevin Schaefer, pesquisador do National Snow and Ice Data Center da Universidade do Colorado.

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No Parque Nacional Denali, o aumento da temperatura começou a afetar a vida selvagem | Foto: Anthony Rhoades

"Isso significaria uma liberação de dióxido de carbono e metano, que aumentaria o aquecimento devido à queima de combustíveis fósseis."

Em artigo publicado em 2012 na revista científica Nature, Schaefer e seus colegas sugerem que os eventos de aquecimento súbito ocorridos anteriormente foram essencialmente desencadeados pela liberação de dióxido de carbono e metano do permafrost há cerca de 50 milhões de anos na Antártida.

E as projeções não parecem otimistas: "Teoricamente, se esse carbono for liberado para a atmosfera, a quantidade de CO2 será três vezes maior do que a que está lá (na atmosfera) agora", diz Romanovsky.

Desta forma, há uma genuína retroalimentação, uma vez que aquecimento aumenta em decorrência da queima de combustíveis fósseis.

Mas, apesar do fato de o aquecimento estar acelerando, os efeitos da retroalimentação serão graduais, levando tempo para serem sentidos.

"É um feedback muito lento", diz Schaefer.

"Imagine tentar conduzir um navio a vapor com o remo de uma canoa, esse é o tipo de feedback que estamos falando", compara.

Infelizmente, uma vez que o permafrost começa a derreter, é difícil congelá-lo novamente - pelo menos enquanto estivermos vivos. Além disso, a partir do momento que material sai do solo e vai para a atmosfera, não existe uma maneira fácil de enviar esse carbono de volta ao chão.

"A única maneira de fazer isso seria baixar a temperatura global e congelar de novo o permafrost, o que significaria que você estaria removendo o dióxido de carbono da atmosfera", diz Schaefer.

Segundo Romanovsky, os modelos climáticos mostram que os atuais compromissos intergovernamentais para reduzir o aquecimento global - conforme estabelecido no Acordo de Paris - podem não ser suficientes.

Em artigo publicado em 2016 na revista Nature Climate Change, a pesquisadora Sarah Chadburn e seus colegas estimam que, mesmo que o clima fosse estabilizado, conforme acordado pelos 196 países em 2015, "a área de permafrost seria eventualmente reduzida em mais de 40%".

No entanto, após o anúncio do presidente Donald Trump de retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris, em junho do ano passado, é de se esperar uma perda ainda maior de permafrost no horizonte.
O jogo de culpa

O Alasca é um Estado conservador politicamente, então quem está de fora pode supor que seus moradores rejeitam a ideia do aquecimento global. Mas a realidade é mais complexa.

Uma pesquisa realizada no início deste ano pelo Alaska Dispatch News, com um total de 750 participantes, mostrou que mais de 70% da população local está preocupada com os efeitos da mudança climática.

"No Alasca, a quem você perguntar, vai responder 'sim, há aquecimento'", afirma Romanovsky.

"Quanto mais para o norte você for, especialmente no noroeste, mais forte é esse sentimento. Porque está acontecendo, você consegue ver. Claro, a questão sobre de quem é a responsabilidade depende das crenças políticas."

No Parque Nacional Denali, a guarda florestal Anna Moore testemunhou como o aquecimento pode afetar em pouco tempo a vida selvagem.

Ela reparou que a lebre do ártico, que muda a cor da pele de acordo com as estações do ano para se camuflar, parece não estar acompanhando mais as mudanças, como resultado do aumento da temperatura, o que a deixa mais exposta a predadores.

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A lebre do ártico está tendo dificuldade para se camuflar, conforme a neve derrete, diz guarda florestal | Foto: Getty Images

"No inverno, eles ficam brancos", diz Moore.

"À medida que está ficando mais quente, a neve está derretendo mais rápido, mas seus corpos são aclimatados a certas mudanças de temperatura e, portanto, mesmo que a neve já esteja derretendo, eles continuam brancos - e correndo perigo por causa dos predadores."

Moore acrescenta que, apesar de acreditar nas mudanças climáticas e estar observando seus efeitos na fauna e flora do parque, ela considera isso um resultado tanto das atividades humanas quanto de um ciclo natural.

Ashley Tench, sua colega, compartilha o mesmo sentimento:

"Eu concordo com ela (em) como isso é em parte feito pelo homem, mas é também natural."

Por isso, Tench não acredita que a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris faça diferença no clima.

Mas nem todo mundo no Alasca tem essa opinião. Para Bill Beaudoin, mergulhador e educador aposentado, que agora é proprietário de uma pensão em Fairbanks, é óbvio que os humanos são culpados e que devemos trabalhar para reverter os efeitos de nossas ações.

"Acredito que o Acordo de Paris era necessário ", diz ele.

"Na verdade, eu não achava (que era) suficiente. Há um país, a Nicarágua, que não assinou o acordo porque achou que não era forte o suficiente. Eu ficaria provavelmente ao lado da Nicarágua nesta questão", acrescenta.

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O Acordo de Paris era necessário. Na verdade, eu não achava (que era) suficiente’, afirma Bill Beaudoin, morador do Alasca | Foto: Anthony Rhoades

Mas não importa quem seja o culpado pelo aquecimento e o consequente derretimento do permafrost. A população do Alasca está, em sua maioria, preocupada com seu futuro.

"As pessoas estão preocupadas, porque, claro, não existe seguro para derretimento do permafrost", diz Romanovsky.

"Os seguros não estão cobrindo os danos causados pelo permafrost, assim como por terremotos na Califórnia."
Em busca do carbono

De volta a Goldstream 3, Romanovsky observou que a 50 cm de profundidade, a temperatura do solo era de - 0,04°C. Em um metro, chegava a - 0,23 °C.

Na última vez que tinha verificado os dados, em março, a temperatura a um metro do solo era de -1,1°C.

Ele pega sua pá e faz um buraco no chão para observar o solo e checar se há presença de carbono. A superfície mais escura indica carbono orgânico acumulado.

Quanto mais ele cava, mais frio fica o solo. Ele escava tanto até que sua pá toca o permafrost - e aparentemente ele não pode ir além.

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Pesquisadores do Instituto Geofísico da Universidade do Alasca estão monitorando mudanças de temperatura no longo prazo | Foto: Anthony Rhoades

Romanovsky força um pouco mais e consegue desenterrar um pedaço do permafrost - do tamanho de uma pequena moeda. Segundos após segurar o solo congelado entre os dedos, ele derrete como se fosse um cubo de gelo.

Ele devolve a terra removida de volta ao buraco, desconecta seu laptop do coletor de dados, fecha a caixa, cobre novamente com galhos de árvore e se prepara para voltar.

Em uma semana, ele vai se deslocar para o norte do Estado para registrar a temperatura em outras áreas, acrescentando mais informações a uma das bases de dados de permafrost mais abrangentes do mundo.

Enquanto isso, pouco a pouco, o Alasca vai derretendo - e o que vem pela frente não se sabe. O certo é que o grande degelo mudará para sempre a paisagem como é hoje - e provavelmente o planeta e seus habitantes.
BBC Brasil

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