segunda-feira, 16 de julho de 2018

Agrotóxico está quebrando a safra de fios do bicho da seda, indica pesquisa

Os pesquisadores brasileiros verificaram que a aplicação do fungicida piraclostrobina na monocultura pode ser o responsável pela quebra da safra de fios do bicho da seda, realizada principalmente por pequenos produtores rurais.

Quando usado nas amoreiras, o agrotóxico beneficia a planta, mas chega a triplicar a mortalidade das lagartas e reduz sensivelmente o tamanho dos casulos que são tecidos pelas lagartas que sobrevivem, causando quebra na produção de seda.

No Brasil, a grande maioria dos sericicultores (criadores do bicho da seda) está concentrada no norte do Paraná, mas também há produtores no oeste do Estado de São Paulo e no Mato Grosso do Sul. São pequenas propriedades isoladas em meio a monoculturas de cana-de-açúcar, soja ou milho, por exemplo, onde o uso de agrotóxicos é intensivo.

Quando aplicado sobre as monoculturas o agrotóxico, seja ele um inseticida, herbicida ou fungicida, pode acabar sendo carregado pelo vento na direção das propriedades vizinhas ao campo de cultivo, onde podem existir plantações de amoreira. “Essa é uma das possíveis causas das quebras de safra dos sericicultores”, disse Daniel Nicodemo, professor na Faculdade de Ciências Agrárias e Tecnológicas (FCAT) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Dracena.

A descoberta aconteceu por acaso e de forma inversa ao esperado. Os pesquisadores, na realidade, estavam testando o piraclostrobina como o objetivo de aumentar a produção da seda. As folhas dadas para as lagartas atingem o maior valor nutricional por volta dos 60 dias da poda. Já aos 90 dias, o volume de folhas é bem maior, porém sua qualidade nutricional é menor. O uso da piraclostrobina serviria justamente para fazer com que, após 90 dias e na hora da poda, as amoreiras estivessem com quantidade máxima de folhas e elevado valor nutricional.

Isso seria importante, pois é justamente dos nutrientes das folhas ingeridas que as lagartas irão extrair os nutrientes necessários para produzir casulos. Quanto mais folhas com maior teor proteico, melhor será o desenvolvimento das lagartas e, consequentemente, melhor a qualidade e o peso dos casulos.

“A piraclostrobina é um fungicida utilizado para controlar fungos e ainda retarda a senescência vegetal, conferindo maior resistência ao estresse oxidativo em muitas culturas. Tais efeitos poderiam contribuir para a obtenção de folhas de amoreira de melhor qualidade e, sendo assim, os sericicultores maximizariam a produção qualitativa dessas folhas na hora da poda. O objetivo de nossa pesquisa foi verificar se o tratamento das folhas de amoreira com piraclostrobina contribuiria para melhorar a produção de casulos. Os resultados obtidos foram opostos ao esperado”, disse Nicodemo.

Há diversos fungicidas comerciais com piraclostrobina em sua fórmula, em associação ou não com outros agrotóxicos. Um fungicida comercial unicamente à base de piraclostrobina foi o eleito para o experimento em campo.

Esse não é o primeiro caso de queda da produção causada por agrotóxicos. “O crescente uso de agrotóxicos no mundo tem causado problemas ambientais, como a redução da população de organismos não alvo. Devido aos seus efeitos econômicos, a face mais notória desta história é a mortandade mundial de abelhas utilizadas comercialmente para a produção de mel e serviços de polinização”, disse Nicodemo

Nos últimos anos, sericicultores brasileiros têm relatado a redução na produção de casulos tecidos pelas lagartas, a matéria-prima para a extração do fio da seda e esse fator provavelmente está relacionado com o uso do agrotóxico.

Sericultura

A sericicultura, como é conhecido o processo de criação do bicho-da-seda, é realizada por pequenos agricultores que cultivam amoreiras para alimentar as lagartas com suas folhas, o único alimento desses insetos. O modelo de negócio inicia na indústria têxtil, onde as mariposas da espécie Bombyx mori cruzam produzindo ovos. Após a eclosão, as lagartas começam a ser alimentadas com folhas de amoreira, sendo criadas pelos sericicultores a partir da terceira idade.

“Nas propriedades rurais, as lagartas passam cerca de 20 dias sendo alimentadas com ramos de amoreira trazidos do campo. Ao fim do período, param de comer e começam a tecer os casulos, processo que dura três dias. Elas secretam uma substância gelatinosa que em contato com o ar se solidifica, transformando-se em fio de seda. Cada casulo é composto por um único fio, que costuma ter até 1.500 metros de comprimento,” disse Nicodemo.

Três dias após o encasulamento, as lagartas estão prontas para sofrer a metamorfose que as transformará em crisálidas e, em seguida, em mariposas. É nesse momento que os casulos são coletados pelos sericicultores e entregues à indústria, onde as crisálidas são mortas por exposição a altas temperaturas antes do rompimento dos casulos pelas mariposas, para evitar danos irremediáveis no fio. Em seguida, durante o cozimento dos casulos, a proteína que cola o fio do casulo é dissolvida na água, soltando o fio que então é enrolado em carretéis, junto de outros fios de outros casulos.

O artigo Pyraclostrobin Impairs Energetic Mitochondrial Metabolism and Productive Performance of Silkworm (Lepidoptera: Bombycidae) Caterpillars(doi: https://doi.org/10.1093/jee/toy060) é assinado por Daniel Nicodemo, Fábio Ermínio Mingatto, Amanda de Carvalho, Paulo Francisco Veiga Bizerra, Marco Aurélio Tavares, Kamila Vilas Boas Balieira e William Cesar Bellini. (Carta Campinas com informações de divulgação)
http://cartacampinas.com.br

Notícias Geografia Hoje


Nunca teremos cidade sustentável com desigualdade social, alerta professor da USP



O professor João Sette Whitaker Ferreira, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) e coordenador do grupo de estudos Políticas Públicas para a Metrópole, do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, acredita que a urbanização é uma tendência irreversível e por isso ela não é em si um problema.

Mas a falta de planejamento urbano é prejudicial. O surgimento das favelas é o grande exemplo desse fenômeno.

Para Whitaker Ferreira, para uma cidade ser sustentável, ela precisa ser inevitavelmente igualitária, o que faz com que políticas públicas sejam imprescindivelmente homogêneas. Ele ressalta que a desigualdade social vinculada ao aumento populacional não impactará apenas as classes mais baixas, mas a sociedade inteira sofrerá com suas consequências. (Com informações de divulgação)


http://cartacampinas.com.br

Pesquisadora da USP monta mapa da contaminação por agrotóxico no Brasil



Os mapas produzidos por Larissa Mies Bombardi são chocantes. Quando você acha que já chegou ao fundo do poço, a professora de Geografia Agrária da USP passa para o mapa seguinte. E, acredite, o que era ruim fica pior. Mortes por intoxicação, mortes por suicídio, outras intoxicações causadas pelos agrotóxicos no Brasil. A pesquisadora reuniu os dados sobre os venenos agrícolas em uma sequência cartográfica que dá dimensão complexa a um problema pouco debatido no país.

Ver os mapas, porém, não é enxergar o todo: o Brasil tem um antigo problema de subnotificação de intoxicação por agrotóxicos. Muitas pessoas não chegam a procurar o Sistema Único de Saúde (SUS); muitos profissionais ignoram os sintomas provocados pelos venenos, que muitas vezes se confundem com doenças corriqueiras. Nos cálculos de quem atua na área, se tivemos 25 mil pessoas atingidas entre 2007 e 2014, multiplica-se o número por 50 e chega-se mais próximo da realidade: 1,25 milhão de casos em sete anos.

Além disso, Larissa leva em conta os registros do Ministério da Saúde para enfermidades agudas, ou seja, aquelas direta e imediatamente conectadas aos agrotóxicos. As doenças crônicas, aquelas provocadas por anos e anos de exposição aos venenos, entre as quais o câncer, ficam de fora dos cálculos. “Esses dados mostram apenas a ponta do iceberg”, diz ela.

Ainda assim, são chocantes. O Brasil é campeão mundial no uso de agrotóxicos, posto roubado dos Estados Unidos na década passada e ao qual seguimos aferrados com unhas e dentes. A cada brasileiro cabe uma média de 5,2 litros de venenos por ano, o equivalente a duas garrafas e meia de refrigerante, ou a 14 latas de cerveja.

Em breve, todo o material reunido por Larissa será público. O livro Geografia sobre o uso de agrotóxicos no Brasil é uma espécie de atlas sobre o tema, com previsão de lançamento para o segundo semestre. Será um desenvolvimento do Pequeno Ensaio Cartográfico Sobre o Uso de Agrotóxicos no Brasil, já lançado este ano, com dados atualizados e mais detalhados. No período abrangido pela pesquisa, 2007-2014, foram 1.186 mortes diretamente relacionadas aos venenos. Ou uma a cada dois dias e meio:
“Isso é inaceitável. Num pacto de civilidade, que já era hora de termos, como a gente fala com tanta tranquilidade em avanço de agronegócio, de permitir pulverização aérea, se é diante desse quadro que a gente está vivendo?”, indaga a professora ao programa De Olho nos Ruralistas.

O papel do agronegócio
Larissa fala de agronegócio porque é exatamente esse modelo o principal responsável pelas pulverizações. Os mapas mostram que a concentração dos casos de intoxicação coincide com as regiões onde estão as principais culturas do agronegócio no Brasil, como a soja, o milho e a cana de açúcar no Centro-Oeste, Sul e Sudeste. No Nordeste, por exemplo, a fruticultura. A divisão por Unidades da Federação e até por municípios comprovam com exatidão essa conexão.
A pesquisadora compara a relação dos brasileiros com agrotóxicos à maneira como os moradores dos Estados Unidos lidam com as armas: aceitamos correr um risco enorme. Quando se olha para um dos mapas, salta à vista a proporção entre suicídio e agrotóxicos. Em parte, explica Larissa, isso se deve ao fato de que estes casos são inescapavelmente registrados pelos órgãos públicos, ao passo que outros tipos de ocorrências escapam com mais facilidade. Mas, ainda assim, não é possível desconsiderar a maneira como distúrbios neurológicos são criados pelo uso intensivo dos chamados “defensivos agrícolas”, termo que a indústria utiliza para tentar atenuar os efeitos negativos das substâncias.
Soja, milho e cana, nesta ordem, comandam as aplicações.

Uma relação exposta no mapa, que mostra um grande cinturão de intoxicações no centro-sul do país. São Paulo e Paraná aparecem em destaque em qualquer dos mapas, mas a professora adverte que não se pode desconsiderar a subnotificação no Mato Grosso, celeiro do agronegócio no século 21.


O veneno está na cidade
A conversa com o De Olho nos Ruralistas – durante gravação do piloto de um programa de TV pela internet – se deu em meio a algumas circunstâncias pouco alvissareiras para quem atua na área. Há alguns dias, a Rede Globo tem veiculado em um de seus espaços mais nobres, o intervalo do Jornal Nacional, uma campanha em favor do “agro”. Os vídeos institucionais têm um tom raríssimo na emissora da família Marinho, com defesa rasgada dos produtores rurais de grande porte.
“Querem substituir a ideia do latifúndio como atraso”, resume Larissa. Ela recorda que, além do tema dos agrotóxicos, o agronegócio é o responsável por trabalho escravo e desmatamento. E questiona a transformação do setor agroexportador em modelo de nação. “A alternativa que almejaríamos seria a construção de uma outra sociedade em que esse tipo de insumo não fosse utilizado. Almejamos uma agricultura agroecológica com base em uma ampla reforma agrária que revolucione essa forma de estar na sociedade.”
No mesmo dia da entrevista, o Diário Oficial da União trouxe a sanção, pelo presidente provisório, Michel Temer, da Lei 13.301. Em meio a uma série de iniciativas de combate à dengue e à zika, a legislação traz a autorização para que se realize pulverização aérea de venenos em cidades, sob o pretexto de combate ao mosquito Aedes aegypti. A medida recebeu parecer contrário do Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador do Ministério da Saúde, posição que foi ignorada por Temer.
Larissa considera que a medida representa um grande retrocesso e demonstra preocupação pelo fato de a realidade exposta em seus mapas ser elevada a potências ainda desconhecidas quando se transfere um problema rural para as cidades. “O agrotóxico se dispersa pelo ar, vai contaminar o solo, vai contaminar a água. O agrotóxico não desaparece. Ao contrário, ele permanece.” Em outras palavras: o veneno voa e mergulha. Alastra-se. E tem longa duração. (Por João Peres/ Do De Olho nos Ruralistas)
http://cartacampinas.com.br

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Como o rio poluído pela mineração há 20 anos voltou a ser o lar de peixes e patos


Jim Robbins
Em Montana (EUA)


Janie Osborne / The New York Times

Foram necessárias duas décadas para limpar a maior parte do Silver Bow Creek, o rio poluído durante um século de mineração

Os primeiros indícios de ouro foram encontrados aqui, em 1864, em um riacho que ganhou o nome de Silver Bow. A descoberta se transformou em uma corrida de ouro desenfreada e, na década de 1860, inúmeros mineiros vieram para o córrego minúsculo em busca de suas riquezas.

Mas Butte nasceu do "útero de cobre", como escreveu um poeta, um veio muito mais rico. Depois que milhares de quilômetros de túneis foram dinamitados e perfurados, uma mina gigante foi escavada perto da cabeceira do riacho.


(Biblioteca Pública Butte-Silver Bow/The New York Times

Foto da Mina de Cobre Anaconda em Butte, Montana, em 1900Ao longo dos anos, o córrego acabou ficando extremamente poluído: os resíduos da mineração foram despejados por fábricas poluentes que trabalhavam o minério, e o riacho teve seu curso alterado, além de ser aproveitado para satisfazer as demandas industriais; uma grande inundação, em 1908, levou toneladas de detritos por toda a extensão do córrego; o esgoto não tratado foi nele despejado até a década de 1960. A maior parta da vida que existia no córrego e ao longo de suas margens foi dizimada. Ao lado do Silver Bow, ossos do gado adquiriram uma tonalidade quase azul-esverdeada por causa dos altos níveis de cobre na água.

"Minha vida toda ouvi as pessoas avisarem para a gente não chegar perto do Silver Bow", contou Ellen Crain, diretora do Arquivo Público do Silver Bow em Butte, que narra a história da mineração local.

Porém, nas últimas duas décadas, grande parte do córrego foi meticulosamente reconstruída e restaurada, com a remoção de mais de um milhão de metros cúbicos de solo e rocha contaminados, a um custo de cerca de US$ 150 milhões (cerca de R$ 587 milhões).

Agora só pouco mais de três quilômetros do riacho não estão recuperados, incluindo um trecho que atravessa bairros desta cidade. No final de maio, depois de oito anos de sigilo em torno da limpeza, determinado pelo tribunal, muitos segredos foram revelados, e a Agência de Proteção Ambiental (EPA) divulgou seu plano para terminar a empreitada.

Uma parcela será desviada, desta vez com metas ecológicas, mas não há planos para restaurar o último quilômetro do Silver Bow, que corre por alguns bairros, o que gerou mais preocupação nesta cidade de 34 mil habitantes.

"Quero ver um Silver Bow limpo e restaurado serpenteando pela cidade. Não só queremos e precisamos de um córrego limpo, mas temos direito a ele", disse Fritz Daily, ex-deputado estadual que já trabalhou nas minas e que agora é chefe da Coalizão Nascente do Riacho Silver Bow.

A prospecção de minérios da chamada "colina mais rica da Terra" durou mais de um século. O cobre retirado daqui eletrificou a nação e forneceu material para a guerra, transformando a Anaconda Copper Co. em uma empresa poderosa de Montana, que fazia o que bem entendia.

Com o declínio da mineração, a companhia foi comprada pela Atlantic Richfield Co, que logo fechou a mina e se envolveu com o maior fundo de restauração ecológica dos Estados Unidos para lidar com as áreas tóxicas espalhadas pelo oeste de Montana. Entre elas está a mina de cobre gigante da Anaconda, o solo contaminado em torno da cidade de Butte, o cavernoso Fosso Berkeley, o rio Clark Fork de quase 200 quilômetros e a Represa Milltown, já removida, e o Silver Bow, um afluente desse rio.


Janie Osborne / The New York Times
O poço de Berkeley, onde o cobre era minerado e que atualmente contém 50 bilhões de galões de água contaminada. Espera-se que a água, uma vez tratada, possa ser a "cabeceira" para parte do rio Silver Bow CreekEsse último já teve cerca de 40 quilômetros de extensão, cruzando a Divisão Continental, onde um pequeno fio de água se juntava aos riachos Yankee Doodle e Dixie, ambos sendo prospectados por mineiros de lados opostos na guerra civil. Cerca de 38 quilômetros do riacho ao sul de Butte, chegando até o ponto em que encontra o rio Clark Fork e o rio Columbia, foram restaurados.



Ele está muito mais limpo, mas nunca voltará a ser o que já foi. Nos melhores trechos, há cerca de 200 peixes pescáveis a cada 1,6 km, enquanto que em córregos semelhantes existem mil.

Porém, Butte ama seu Silver Bow recuperado. Em uma recente manhã cinzenta, os patos nadavam em uma área do córrego e os peixes pequenos eram visíveis. Os visitantes contam com trilhas para caminhadas e mesas de piquenique convidativas.

"Se há 20 anos alguém tivesse me dito que eu estaria pescando truta aqui, eu teria aceitado a aposta", disse Matt Vincent, ex-executivo do governo local e hoje consultor que trabalha na limpeza por duas décadas.


Janie Osborne / The New York Times
Água retirada do rio Silver Bow Creek, que se tornou azul brilhante devido à contaminação por cobreO plano anunciado recentemente visa a porção do Silver Bow que corre através do Cânion Slag, cujas paredes são feitas de resíduos de mineração, e que será desviado para um novo canal longe dos solos tóxicos. O plano também exige a limpeza de centenas de milhares de metros cúbicos de resíduos enterrados ao longo do curso do riacho.

Isso é um alívio para muitos que temiam que as negociações confidenciais entre o estado, a EPA e autoridades da Atlantic Richfield fossem deixar grandes quantidades de resíduos, ou de minério, no chão onde foram despejados pelas empresas. Muitos simplesmente não confiam na ciência que descobriu que deixá-los no lugar é uma alternativa segura. Na verdade, alguns resquícios enterrados liberavam uma água contaminada azulada no riacho recuperado. Eles serão desenterrados e levados nos próximos meses para uma propriedade de uma empresa mineradora daqui.

Mas ainda há a preocupação com o fato de que não existe um plano para recuperar o trecho final do córrego. Em um estado famoso por rios límpidos de trutas e pelo filme "Nada é Para Sempre", aqueles que defendem a limpeza do último pedaço a veem como uma forma de transformar Butte de um dos maiores locais do fundo de recuperação ecológica do país em algo mais lisonjeiro.

O trecho superior do Silver Bow, a leste do centro de Butte, tem um longo caminho a percorrer. Ele é uma sombra do que costumava ser, parecendo pouco mais que uma vala indistinta. Até dois anos atrás, era oficialmente chamado de "Metro Storm Drain" (ralo de tempestades da cidade), até que Daily e outros venceram uma batalha jurídica de quatro anos para que fosse renomeado Silver Bow, fazendo com que o estado fosse obrigado a restaurá-lo.

Qual seria o valor de um novo riacho? O preço para a limpeza está agora em torno de US$ 5 milhões (cerca de R$ 19 milhões) para cada quilômetro do córrego.

Segundo Daily, um regato limpo e a remoção de rejeitos ajudaria Butte a reduzir seu estigma tóxico, e poderia simbolizar um novo começo. "Em eventos esportivos, os times da cidade são insultados com gritos de 'água suja', e é difícil recrutar profissionais de saúde para o maior complexo de recuperação ecológica do país. Ainda há muito a ser feito", afirmou.

Jon Sesso, coordenador do projeto Butte Silver Bow, disse que, embora não haja nenhum plano para um novo riacho, ele espera que isso ocorra em alguns anos, assim que os resíduos nas proximidades forem removidos. "É complicado. Não há nascente, não há água com que você possa contar. É tudo plano feito uma panqueca de leste a oeste pelo corredor, e não dá para mudar a topografia", por isso o riacho não pode fluir, e não há nascentes porque elas foram isoladas.

Mas existe uma fonte de água que talvez possa ser garantida: o Fosso Berkeley, orifício de quase dois quilômetros de diâmetro ao lado de Butte, de onde o cobre era extraído.

Desde que a Atlantic Richfield desligou as bombas que mantinham o fosso gigante seco para a mineração, em 1982, ele está sendo preenchido com uma mistura de águas subterrâneas. Em 2016, o poço chegou às manchetes quando milhares de gansos migratórios exaustos pousaram nele e morreram ao beber sua água ácida.

Quando uma nova usina do tratamento for concluída, aproximadamente 30 milhões de litros de água potável serão bombeados dos 230 bilhões de litros do poço. Espera-se que essa se torne a nova "nascente" da última milha do Silver Bow.

Pode dar certo. A água tóxica no fosso contaminará o lençol freático se continuar a enchê-lo, por isso deve ser retirada e tratada perpetuamente para evitar que chegue a esse ponto. A Atlantic Richfield criou um fundo para manter a usina de tratamento para sempre.

Daily disse que ele e outros vão continuar lutando para que o riacho passe através de Butte. "Estamos em uma encruzilhada. Se não houver a limpeza do córrego, dos resíduos e da água no fosso, esta comunidade vai fracassar econômica, ambiental e socialmente."
The New York Times

terça-feira, 3 de julho de 2018

Pesquisa encontra 'rios perdidos' e malha hidrográfica do planeta deve ser 44% maior


Edison Veiga

Divulgação/Science

Mapa mostra método que chegou ao mês ideal do ano para medir cada um dos rios

Um estudo publicado na revista 'Science' nesta quinta-feira conseguiu mostrar, graças a novas tecnologias, que a área coberta por rios no mundo é, no mínimo, 44% maior do que se acreditava.

No total, a superfície de rios e riachos - dos caudalosos aos mais ínfimos, excetuando-se apenas aqueles congelados - é de 773 mil quilômetros quadrados, segundo pesquisa realizada pelo Departamento de Pesquisas Geológicas da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos.

"As superfícies turbulentas dos rios e riachos são pontos naturais de intercâmbio biogeoquímico com a atmosfera. Em escala global, o fluxo de gases entre rios e atmosfera, gases como o dióxido de carbono, depende diretamente da proporção da superfície coberta pelos rios", contextualiza o geógrafo George Allen, da Universidade Texas A&M.

"Para chegar aos resultados, utilizamos um banco de dados global de hidromorfologia e uma abordagem estatística. Mostramos que a área global da superfície dos rios é de 773 mil quilômetros quadrados, até 44% maior do que estimativas espaciais anteriores", explica o geógrafo Tamlin Pavelsky, professor de hidrologia global da Universidade da Carolina do Norte.

Mais do que descobrir água doce de forma mais abundante, a importância científica da descoberta é outra: o estudo mostra que a rede fluvial desempenha um papel maior no controle ambiental da Terra, justamente por serem essas superfícies pontos primordiais nas trocas de carbono com a atmosfera.

Por conta de reações denominadas "de equilíbrio", a água que corre pelos rios interage com o ar em uma série de processos biogeoquímicos. São trocas de massa e energia. Para se ter uma ideia, a liberação de gases pelos rios na atmosfera equivalem a um quinto do total das emissões combinadas da queima de combustíveis fósseis e da produção de cimento do globo.

Os rios, portanto, têm um notório papel controlador do calor terrestre.
Conta-gotas


Divulgação/Science
Imagem mostra como o software da pesquisa trabalha; esta imagem é o mapeamento de trecho do Rio AmazonasUm parâmetro muito utilizado para determinar a importância dos rios é o volume de água que eles despejam nos oceanos. Antes, apenas dois estudos tentaram estimar a superfície total da malha fluvial na Terra.


Em 2012, o professor de Ecologia da Universidade de Iowa John Downing e sua equipe publicaram uma levantamento que chegou a duas estimativas. A mais conservadora afirmava serem 485 mil quilômetros quadrados de superfície. Na outra, o número foi de 682 mil quilômetros quadrados.

Downing realizou cálculos a partir de uma situação hipotética em que todos os rios do mundo pertenceriam a uma única rede fluvial de ramificação. Então, um software de computador pôde fazer as contas a partir de uma escala entre largura e comprimento desse suposto rio gigante. Como modelo, a pesquisa utilizou o tronco principal do Rio Amazonas.

No ano seguinte, a equipe do químico ambiental Peter Raymond, professor de Ecossistemas Ecológicos da Universidade de Yale, publicou o único estudo a estimar a variabilidade espacial da superfície dos rios. Sua estimativa foi de uma área de 536 mil quilômetros quadrados.

"Ambos os estudos anteriores são limitados pela falta de observações diretas da superfície total dos rios, pelas incertezas estatísticas dos métodos aplicados e por conta da variabilidade regional da geometria hidráulica", aponta Allen.

No estudo publicado nesta quinta, por outro lado, foram utilizados dados de observação por satélite dos rios, com uma abordagem estatística capaz de produzir uma estimativa mais precisa da cobertura dos mesmos na superfície terrestre.

"Construímos um banco de dados chamado Global River Widths from Landsat (GRWL), que é a primeira compilação global da geometria planificada do rio a uma descarga de frequência constante", diz Pavelsky. Para tanto, foi utilizado um banco de dados de 3.693 estações que medem variações de volumes de rios pelo mundo.

Com isto, os pesquisadores excluíram os meses com maior variabilidade positiva ou negativa do nível desses rios, principalmente no caso dos mais sujeitos à sazonalidade - e o estudo se deteve nas vazões médias.

"Adquirimos 7.376 imagens de satélite, capturadas durante esses meses da média. Aplicamos técnicas de processamento de imagens para classificar os rios e medir a localização e a largura", explica o pesquisador.

No total, o banco de dados acumulou mais de 58 milhões de medições, sendo 2,1 milhões de quilômetros lineares de rios com pelo menos 30 metros de largura em sua vazão média anual. Na conta também entraram 7,6 milhões de lagos, reservatório ou canais conectados à rede fluvial.

Para ter certeza da viabilidade do método, os pesquisadores validaram os dados do sistema realizando algumas medições in loco em rios americanos e canadenses.

"Como descobrimos que os dados são mais precisos quanto maior a largura dos rios, na criação do modelo estatístico do software consideramos apenas os dados colhidos em rios de largura superior a 90 metros, o que significa cerca de 3 pixels das imagens de satélite", afirma Pavelsky.
Sede

Ao compilarem os dados, os pesquisadores chegaram a uma conclusão alarmente: regiões mais desenvolvidas do globo, como os Estados Unidos e a Europa, são as que apresentam menor superfície fluvial disponível. "Isso pode ser em decorrência da retirada dessa água para uso, além de sua canalização", observa o cientista.

O efeito pode já ser grande no descontrole ambiental, justamente pela redução das possibilidades de trocas gasosas. Mas tais hipóteses ainda precisam ser validadas em estudos subsequentes.

Com a valorização de questões ambientais e uma maior consciência ecológica, a descoberta de novos rios deve aumentar pelo mundo. E, espera-se, a população pode forçar o poder público a promover o renascimento de muitos deles.

Em São Paulo, por exemplo, o Mapa Hidrográfico do Município mostra que existem, oficialmente reconhecidos pela Prefeitura, 287 cursos d'água. Mas estimativas do geógrafo Luiz de Campos Júnior e do urbanista José Bueno, que com o projeto Rios e Ruas fazem expedições a nascentes desde 2010, são de que essa malha hidrográfica seja pelo menos o dobro.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Cientistas estudam como matar supercorais para poder salvá-los


O objetivo é entender o impacto das atividades humanas em recifes nas profundezas do oceano

Joanna Klein
FILADÉLFIA


Em um laboratório cientistas estão estudando como matar um "supercoral". O objetivo é conseguir entender o impacto das atividades humanas em misteriosos recifes nas profundezas do oceano.

Em uma sala fria da Universidade Temple, na Filadélfia, pequenos fragmentos —do tamanho de dedos— de coral estão submersas em quatro reduzidos tanques com água do mar.
Braço robótico coleta amostra do supercoral Lophelia pertusa "‚ 
ECOGIG/Oceaneering/The New York Times - NYT

Até então, eles tinham sido mantidos, por quase um ano, em um tanque com condições iguais às do habitat de onde foram tirados.

Isso inclui água a 8°C, acidificada —a níveis que muitas outras espécies marinhas não suportariam— com auxílio de bombeamento de dióxido de carbono. Para evitar estresse, os corais eram alimentados à mão.
"Nos dedicamos muito a eles", diz Alexis Weinnig, estudante de graduação que lida com os corais. "E depois os matamos."

Os seres humanos são muito bons em matar corais. Nos últimos 30 anos, a pesca predatória, poluição e mudança climática vitimaram cerca de metade dos recifes em águas rasas.

Mas sabe-se muito menos a respeito do impacto humano em recifes do mar profundo. Contudo, adicione à equação perfurações em alto mar e os corais de águas profundas podem estar tão ameaçados quanto.

Os organismos estudados no laboratório são Lophelia pertusa, supercorais abundantes nas águas frias de todo o mundo. A espécie constrói imensos recifes e suportam tanta biodiversidade quanto os recifes de áreas tropicais, servindo de lar para polvos, peixes, crustáceos e tubarões.

Erik Cordes, especialista em ecologia que lidera a equipe no laboratório de Temple, descobriu que a L.pertusa consegue suportar estressores industriais e climáticos. 

Cordes e Weinnig querem saber quanto a L.pertusa consegue suportar. Os resultados da pesquisa ajudarão nos esforços futuros de conservação de vastas áreas das profundezas do oceano. 

Cordes afirma que, após entenderem como a espécie responde às mudanças climáticas, eles buscarão saber como ela se comporta perante vazamentos de óleo e aquecimento global.
Folha de São Paulo

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Para combater aquecimento global, Suíça vai aspirar CO2 do ar (e reaproveitá-lo como adubo na produção de hortaliças)



Na corrida contra o tempo para combater o aquecimento global e frear o aumento da temperatura em até 2ºC até o fim deste século, como recomendado pela ONU, começam a pipocar mundo afora diferentes alternativas para reduzir e mitigar as emissões de CO2.

Na Suíça, uma opção pra lá de inusitada está causando reboliço: a empresa Climeworks vai inaugurar uma planta comercial capaz de sugar do ar o dióxido de carbono emitido por carros, aviões e trens.

Mais do que isso: a companhia vai revender o material capturado para uma fabricante de legumes e verduras, que usará o gás como fertilizante vegetal, aumentando em até 20% sua produção.

Sim, você não entendeu errado: vão adubar os alimentos com CO2! Polêmico, não?

A Climeworks garante que o processo é seguro para a saúde e que o CO2 capturado pode ser usado ainda para outras finalidades, como combustível e gaseificador de bebidas. Segundo eles, a planta suíça tem capacidade para sugar até 900 toneladas métricas de dióxido de carbono do ar – o equivalente à emissão de 200 carros populares no ano.

A unidade na Suíça é só o começo. Até o ano de 2025, os fundadores da Climeworks assumiram a ousada meta de capturar do ar o equivalente a 1% das emissões globais. Para tanto, vão precisar implementar mais 750 mil plantas como a da Suíça mundo afora. Será que a moda vai pegar?
http://thegreenestpost.com

Brasil permite consumo de 14 agrotóxicos proibidos mundialmente



O Brasil é o maior importador deagrotóxicos do planeta e permite o consumo de pelo menos 14 tipos de substâncias que já são proibidas no mundo, por oferecerem comprovados riscos à saúde humana. Só em 2013 foram consumidos um bilhão de litros deveneno pela população, o que representa um mercado ascendente de R$ 8 bilhões.

Na lista de “proibidos no exterior e ainda em uso no Brasil” estão Tricolfon, Cihexatina, Abamectina, Acefato, Carbofuran, Forato, Fosmete, Lactofen, Parationa Metílica e Thiram. Sem contar as substâncias que já foram proibidas por Lei – por estarem ligadas ao desenvolvimento de câncer e outras doenças de fundo neurológico, hepático, respiratório, renal ou genético -, mas que continuam em uso nas fazendas brasileiras por falta de fiscalização. 

“São lixos tóxicos na União Europeia e nos Estados Unidos. O Brasil lamentavelmente os aceita”, disse a toxicologista Márcia Sarpa de Campos Mello, da Unidade técnica de Exposição Ocupacional e Ambiental do Instituto Nacional do Câncer, em entrevista ao portal de notícias IG.

Ela explica que o perigo de contaminação está na ingestão desses alimentos, mas também no ar, na água e na terra, o que torna o problema ainda mais grave. Produtos primários e secundários que fazem parte de nossa cadeia alimentar representam grande risco de contaminação.

Pesquisadores da Universidade Federal do Mato Grosso analisaram 62 amostras de leite materno e encontraram, em 44% delas, vestígios de um agrotóxico já banido, chamado Endosulfan, conhecido por prejudicar os sistemas reprodutivo e endócrino. Além disso, também foram identificados outros venenos, ainda não banidos — é o caso do DDE, versão modificada do potente DDT, presente em 100% dos casos.

Nesta mesma pesquisa, conduzida pelo professor Wanderlei Pignati, concluiu-se que em um espaço de dez anos os casos de câncer por 10 mil habitantes saltaram de 3 para 40. Além disso, os problemas de malformação por mil recém nascidos saltaram de 5 para 20. Assustador, para dizer o mínimo! 

Foto: Flávio Costa/Creative Commons
http://thegreenestpost.com

domingo, 3 de junho de 2018

Estudos mostram que 42% das espécies na Europa diminuíram na última década


Lusa

Tendência registada na Europa deve-se ao aumento da intensidade da agricultura e da silvicultura, "com consequências diretas no declínio da biodiversidade".

Um conjunto de estudos sobre a biodiversidade, realizados a nível mundial e no quais trabalhou também uma investigadora do Porto, indicam que 42% das espécies animais e vegetais na Europa diminuíram as suas populações na última década.

Os resultados destes estudos mostram "a continuação do declínio da biodiversidade e dos serviços dos ecossistemas a nível mundial, nas várias regiões analisadas, causando a degradação das condições de vida de muitas pessoas", disse à Lusa a investigadora do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Porto (CIIMAR), Isabel Sousa Pinto.


Estes estudos foram realizados pela Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços dos Ecossistemas (IPBES), uma entidade científica da Organização das Nações Unidas (ONU) para a área da biodiversidade, equivalente ao Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC).

As conclusões, apresentadas na 6.ª Assembleia Geral do IPBES, em Medellin (Colômbia), indicam que a tendência registada na Europa deve-se ao aumento da intensidade da agricultura e da silvicultura, "com consequências directas no declínio da biodiversidade", referiu a investigadora.

"O mar mostrou-se uma das áreas com menos conhecimento mas com situação mais preocupante, com 27% das espécies e 66% dos habitats marinhos avaliados com estado de conservação desfavorável", indicou a professora da Universidade do Porto, que co-liderou um dos seis capítulos desta avaliação, orientado para as regiões da Europa e Ásia Central.

Segundo Isabel Sousa Pinto, embora a maioria da exploração pesqueira nesta região mostre ainda uma "tendência insustentável", existem "alguns casos de recuperação de stocks, resultantes da aplicação de medidas adequadas de gestão, que indicam o caminho a seguir no futuro".

Entre essas medidas, destacou, encontram-se a redução das pescas, da desflorestação e da poluição, o aumento da promoção de áreas protegidas, a redução da caça e do tráfico de animais e a conservação de aves.

"A Europa não é das zonas com menos problemas. Apesar de termos políticas avançadas em termos de controlo da poluição e de conservação, comparativamente a outras regiões do mundo, também temos uma utilização intensiva dos recursos, que levam a que a biodiversidade seja bastante ameaçada", salientou.

Na sua opinião, a biodiversidade não pode ser uma preocupação só do Ministério do Ambiente, devendo envolver outras esferas políticas, como é o caso "das pescas, da agricultura, da floresta, dos transportes, do planeamento urbanístico, da zona costeira e da zona marítima e do planeamento energético".

A professora apontou a agricultura biológica, uma melhor gestão de áreas protegidas, a criação de passagens subterrâneas ou aéreas para a fauna (evitando o seu atropelamento) e a verificação dos locais onde se instalam as torres de energia eólica (para reduzir a mortalidade de aves), como algumas das medidas que podem ser tomadas para controlar o declínio da biodiversidade.

Encomendados pelos governos de diferentes países, estes estudos tiveram a duração de três anos e contaram com a participação de mais de 550 especialistas - entre os quais cinco portugueses -, de cerca de 100 países.

Os investigadores recorreram a trabalhos já publicados sobre a relação entre a biodiversidade com o bem-estar das pessoas e a tendência dos serviços de ecossistema, ao conhecimento indígena e aos depoimentos de pessoas que trabalham nas áreas protegidas e de trabalhadores locais, como agricultores, pescadores e pastores.

Durante a assembleia, Isabel Sousa Pinto foi eleita para integrar o MEP (Multidisciplinary Expert Panel), órgão responsável por assegurar a qualidade científica dos trabalhos desenvolvidos pela IPBES, seleccionar os autores para os novos estudos, bem como formular o novo programa de trabalhos a partir das sugestões e pedidos dos governos. 

A IPBES está a elaborar uma avaliação global da biodiversidade e serviços dos ecossistemas, incluindo a avaliação dos oceanos e do uso sustentável de espécies selvagens, os efeitos das espécies invasoras e os métodos de avaliação e de valorização da biodiversidade e dos serviços dos ecossistemas.
http://www.sabado.pt

90% da população mundial respira ar poluído

Lusa

Todos os anos morrem sete milhões de pessoas por causas relacionadas com a poluição e os níveis de contaminação assegura a Organização Mundial de Saúde.

Foto: Jeff Swensen/Getty Images

Na população mundial, nove em cada dez pessoas respiram ar poluído e contaminado, revelou na terça-feira a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Segundo a organização, todos os anos morrem sete milhões de pessoas por causas directamente relacionadas com a poluição e os níveis de contaminação permanecem "perigosamente elevados" em várias regiões do globo, refere um relatório da OMS. 

"O mais dramático é que os valores estabilizaram. Apesar das melhorias alcançadas e dos esforços postos em prática, a imensa maioria da população mundial, 92 por cento, respira ar contaminado em níveis muito perigosos para a saúde", afirmou a diretora de Saúde Pública e Meio Ambiente, María Neira, citada pela agência Efe. 

Segundo os investigadores deste estudo da OMS, os níveis de contaminação do ar têm-se mantido estáveis ao longo dos últimos seis anos, com ligeiras melhorias na Europa e no continente americano. 

Em causa está a poluição com partículas minúsculas que entram profundamente nos pulmões e no sistema cardiovascular, causando doenças potencialmente mortíferas como derrames cerebrais, ataques de coração, obstruções pulmonares e infecções respiratórias.

Segundo a OMS, em 2016 o ar poluído no exterior causou a morte a 4,2 milhões de pessoas. A poluição de interiores, relacionadas, por exemplo, com o uso de tecnologia ou de fontes de energia poluentes na cozinha terá causado 3,8 milhões de mortes.

Os países mais pobres, na Ásia, África e Médio Oriente, são os que registam a maior percentagem de mortalidade causada pela poluição, que apresenta níveis cinco vezes superiores ao estabelecido pela OMS.

No esforço de alterar o panorama, a directora de Saúde Pública e Meio Ambiente da OMS deu como exemplo a China, que politicamente se propôs a reduzir os "níveis de contaminação altíssimos".

"A poluição ambiental é o maior desafio para a saúde pública mundial", sublinhou
http://www.sabado.pt

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Cumprir metas do Acordo de Paris evitaria milhões de casos de dengue na América Latina


Cientistas mostram em novo estudo que limitar o aquecimento global a 2°C poderia evitar 2,8 milhões de casos da doença a cada ano até 2100 no continente; se a temperatura não subir mais que 1,5°C , redução de casos seria de 3,3 milhões por ano até o fim do século

Fábio de Castro

Limitar o aquecimento global a 2°C poderia evitar 2,8 milhões de casos de dengue por ano até o fim do século na América Latina, de acordo com um novo estudo internacional feito com participação brasileira. Segundo a pesquisa, um limite de aquecimento de 1.5°C representaria uma redução 3,3 milhões de casos anuais até 2100 no continente, sendo 1,4 milhão só no Brasil.

O estudo, que teve seus resultados apresentados nesta segunda-feira, 28, em artigo publicado na revista científica PNAS, também revela que limitar o aquecimento do planeta impediria que a dengue se intensificasse em áreas onde a incidência é atualmente baixa, ou que se espalhasse por áreas do continente onde ainda não há casos.

Para fazer as projeções, os pesquisadores estudaram registros clínicos e laboratoriais de casos de dengue confirmados na América Latina e elaboraram um novo modelo computacional capaz de quantificar as variações na transmissão de dengue na América Latina diante de diferentes cenários de aquecimento global. Segundo os cientistas, a dengue infecta anualmente 390 milhões de pessoas no mundo, sendo 54 milhões na América Latina.


Os dois mapas mostram as mudanças que ocorrerão até 2100 na duração da temporada de transmissão da dengue, que resultam em maior número de casos da doença na América Latina; o mapa da esquerda indica a situação caso o aquecimento global seja limitado a 1,5 ◦C e o mapa da direita mostra a intensificação e alastramento da doença caso o aquecimento chegue a 3,7◦C. Foto: PNAS

As reduções no número de casos de dengue em cenários com aquecimento limitado a 2°C e 1.5°C - as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris - foram calculadas em comparação ao número de casos estimados para 2100 se as temperaturas médias subirem a 3,7°C, que é a elevação esperada caso as emissões de carbono continuem nas taxas atuais, sem nenhuma medida para deter o aquecimento global.

O Acordo de Paris, estabelecido em 2015, determina que os 195 países signatários se esforcem para conter o aquecimento global a menos de 2°C até o final do século, com tentativas de atingir uma meta mais ambiciosa de limitar o aquecimento a 1,5°C, em comparação aos níveis pré-industriais.

De acordo com o novo estudo, limitar o aquecimento a 2°C representaria uma redução de 800 mil casos por ano até 2050 e de 2,8 milhões de casos por ano até 2100. Limitar o aquecimento a 1,5°C produziria uma redução de 1,1 milhão de casos anuais até 2050 e de 3,3 milhões de casos por ano até 2100.

O Brasil, segundo os pesquisadores, seria um dos países mais beneficiados com a limitação da temperatura média global às metas mais ambiciosas do Acordo de Paris. Com uma limitação do aquecimento a 1,5°C, o País evitaria 500 mil casos por ano até 2050 e .1,4 milhão de casos anuais até 2100.

De acordo com o primeiro autor do estudo, o pesquisador mexicano Felipe Colón-González, da Escola de Ciências Ambientais da Universidade East Anglia (Reino Unido), a pesquisa demonstra que limitar o aquecimento global a 2°C ou 1.5°C poderia trazer importantes benefícios à saúde humana.

"Existe uma preocupação crescente sobre os potenciais impactos das mudanças climáticas sobre a saúde humana. Embora já se reconhecesse que limitar o aquecimento a 1.5°C traria benefícios à saúde humana, a magnitude desses benefícios ainda não havia sido quantificada", disse Colón-González.

O cientista brasileiro Carlos Peres, também da Universidade East Anglia, coautor do estudo e orientador do pós-doutorado de Colón-González, chama a atenção para os impactos econômicos de um aumento continental dos casos de dengue.

"Muitas vezes se pensa que o custo para combater as mudanças climáticas é muito alto. Mas o estudo mostra que, se não houver uma limitação do aquecimento global, teremos uma intensificação dos casos de dengue nos lugares onde eles já ocorrem e, principalmente, haverá uma expansão geográfica da incidência da doença. Essa expansão terá um impacto substancial nos sistemas de saúde, com um custo muito maior que o do combate às mudanças climáticas", disse Peres ao Estado.

Os impactos econômicos negativos gerais do aquecimento global - incluindo saúde pública, agricultura e custos ligados a eventos extremos - já haviam sido quantificados por outro estudo, publicado na revista Nature no dia 23 de março: manter o aquecimento no limite de 1.5°C até 2100, em vez de 2°C, representaria uma economia de US$ 20 trilhões.

Expansão geográfica. Segundo os autores do novo estudo, a costa do Brasil, o sul do México, o Caribe, o norte do Equador, a Colômbia e a Venezuela seriam os locais mais afetados pelo aumento dos casos de dengue provocado pelas mudanças climáticas. 

Como o mosquito transmissor da doença, Aedes aegypti, vive em locais quentes e úmidos, o aquecimento global também aumentaria os limites geográficos da doença, incluindo locais onde a incidência é atualmente muito baixa, como o Paraguai e o norte da Argentina.

De acordo com outro dos autores do estudo, Iain Lake, também da Universidade East Anglia, entender e quantificar os impactos do aquecimento na saúde humana é crucial para que os sistemas de saúde pública se preparem e possam responder às epidemias. 

"O aquecimento já chegou a 1°C acima dos níveis pré-industriais e, na atual trajetória, se os países cumprirem suas propostas de redução do CO2, chegaremos a 3°C. Portanto, fica evidente que há muito a ser feito para reduzir o CO2 rapidamente, se quisermos evitar esses impactos", disse Lake.

Além de Peres, Colón-González, e Lake, também participaram do estudo Ian Harris, Timothy Osborn, Paul Hunter - todos da Universidade East Anglia - e Christine Steiner São Bernardo, da Universidade Federal do Mato Grosso.
Jornal O Estado de S.Paulo

domingo, 27 de maio de 2018

Veja o significado do nome dos países dos cinco continentes do mundo


Sabia que o nome Brasil vem de 'vermelho como brasa'?

Direito de imagemCREDIT CARE COMPARE

Sabemos os nomes de vários países e falamos sobre eles muitas vezes sem questionar o signifcado dessas nomenclaturas. Alguns são descritivos, outros não deixam margem para dúvidas, e vários têm versões divergentes. De toda maneira, todos eles dizem algo sobre o lugar que denominam - e descobrir isso é um exercício curioso e divertido.

Você sabe de onde vem o nome da Espanha, por exemplo? Ou seria capaz de localizar no mapa a terra dos arianos e a terra dos homens honestos?

Veja o significado do nome dos países dos cinco continentes do mundo.
Direito de imagemCREDIT CARE COMPARE

América

Os nomes dos países da América do Norte e Central contam a história da colonização europeia.

O nome América em si vem do explorador italiano Americo Vespúcio, que foi a primeira pessoa a perceber que o continente era uma massa de terra separada e não na costa leste da Ásia.

Era o "Novo Mundo" e estava destinado a um período trágico de guerras e conflitos por terra.

O México, colonizado pela Espanha, é a tradução simplificada para o espanhol do nome náuatle da capital asteca, chamada "no umbigo da lua".

Os exploradores espanhóis também chegaram a grande parte da América Central e do Caribe, onde encontraram preciosidades como "A terra junto da água" e "O lugar das romãs", conhecidas hoje como Nicarágua e Granada.

A América do Sul possui alguns dos ecossistemas mais diversos do planeta. É também o lar do maior rio do mundo: o Amazonas. Não surpreende, portanto, que muitos dos nomes dos países reflitam essa abundância de água.

A Guiana é derivada de uma língua indígena ameríndia e significa "Terra de muitas águas", enquanto a vizinha Venezuela tem o nome derivado da cidade italiana Veneza: "Pequena Veneza".

Um nome que chama a atenção é "Vermelho como uma brasa". Para quem não sabe, é o nome do Brasil.

Ele se refere à cor vermelha de uma madeira usada para tingir tecidos que os portugueses encontraram no país - o pau-brasil. Sua origem é a palavra celta "barkino" e que em espanhol passou a ser barcino, e depois Brasil.Direito de imagemCREDIT CARD COMPARE

No caso do Uruguai, existem várias versões sobre a origem do seu nome.

Pode vir do Uruguai, que em guarani é uma espécie de caracol e que significa água ou rio. Então significaria "rio de caracóis".

Outra teoria é que se refere ao uru, um pássaro parecido com a codorna; e gua, que significa "de". Junto seria o Rio do Urú. Outros dizem que de maneira geral é Rio dos Pássaros.

O poeta Juan Zorrilla de San Martín, por sua vez, interpretou o nome como "rio de pássaros pintados".Direito de imagemCREDIT CARE COMPARE

Ásia

A Ásia ocupa um terço da área total do mundo e é o continente mais populoso do planeta.

Sua rica diversidade cultural e de história se reflete nos nomes de seus países.

A dinastia Goryeo ou Koryŏ reinou de 935 a 1392, supervisionando um país que estava formando suas próprias tradições culturais. Esse país, agora dividido, é conhecido como Coreia, que pode ser traduzido como "alto e bonito".

Outros nomes falam sobre a geografia da região.

O nome Iraque refere-se à sua localização nas margens dos rios Eufrates e Tigre. Ele vem do árabe "al-'irāq", que se traduz como "ao lado da água".

A terra dos arianos está nesse mesmo continente. O nome é derivado do antigo "aryānam" persa - o plural de arya significa nobre, no sentido de alta linhagem. Então a terra daqueles que descendem de alta linhagem é o Irã.Direito de imagemCREDIT CARE COMPARE

África

A África é conhecida como o berço da civilização, o lugar de onde vem toda a humanidade.

Os nomes de seus países revelam uma história de culturas nativas e de colonização.

O Malaui, por exemplo, significa "Terra das Chamas", que acredita-se reflete o hábito local de queimar o pasto morta para preparar a terra para o cultivo.

Outros lugares falam mais daqueles que chegaram do que daqueles que foram.

O explorador português Fernando Pó percorreu o rio Wouri em 1472 e encontrou uma grande quantidade de camarão em sua viagem. Por essa razão, ele chamou de Rio dos Camarões, ou o Rio de Camarão, por isso o país é conhecido como Camarões.

Um dos nomes mais curiosos é o do Benim, que pode ser derivado dos bini, os habitantes originais do lugar. Também poderia vir de "Ile-ibinu", que na língua iorubá significa "Terra de discussão", uma possível referência à uma época em que as tribos estavam em guerra.Direito de imagemCREDIT CARD COMPARE

Europa

A Europa tem um longo histórico de exploração, e muitos dos nomes dos países refletem as terras e aqueles que as exploraram.

A França leva o nome de uma coalizão de tribos germânicas, os francos. O nome frank vem da antiga palavra alemã franka, que significa "feroz". Ou seja, França significa Terra do Ferozes.

Outros nomes indicam os caminhos que as pessoas usaram para descobrir seu mundo.

A Noruega, por exemplo, significa simplesmente "A estrada para o norte", referindo-se a uma antiga rota viking.

E a Espanha? A teoria mais comum é que esse nome seja derivado da palavra da extinta língua púnica "Ispanihad" que significa "terra de coelhos". Mas também é verdade que a Roma Antiga chamava a Península Ibérica de "Hispania", que viria da palavra Hesperia, cujo significado é "a terra do oeste" ou "a terra do sol poente".

Também na Europa está a terra de pessoas altas, a Macedônia, que vem do grego antigo "mak" (alto) e que devia, provavelmente, descrever aqueles que viveram ali.Direito de imagemCREDIT CARE COMPARE

Oceania

A Oceania pode ser o menor continente, mas suas paisagens diversificadas, desde florestas tropicais até vulcões e pastagens, fascinam as pessoas há séculos.

Foram os gregos que a chamaram de Terra Australis Incognita (Terra Desconhecida do Sul) quando eles sonhavam com as ainda desconhecidas paisagens do Hemisfério Sul.

Samoa significa "centro sagrado" e diz a lenda que foi lá onde o deus samoano Tagaloa dos Céus criou o mundo.

O nome Nova Zelândia tem duas histórias: o explorador holandês Abel Tasman a batizou em 1642 de "A Terra do Estado", porque pensou que ela estivesse de alguma maneira ligada às ilhas no sul da Argentina.

Quando os cartógrafos holandeses perceberam que não era o caso, eles mudaram o nome para Nova Zeelandia - em latim - e depois Nieuw Zeeland -em holandês porque lembrou da província holandesa de Zeeland que significa "terra do mar" .

Mas para os maori o local é Aotearoa, que significa "A terra da longa nuvem branca".

Talvez o nome mais simpático da região seja o da ilha de Nauru, que na língua nauruana significa "Eu vou à praia".

O mapa do mundo com os nomes literais dos países foi encomendado pela firma Credit Card Compare, feito pela NeoMam Studios - que também realizou as traduções para o português para a BBC Brasil.

Poluição luminosa de grandes cidades faz estrelas 'desaparecerem' do céu e pesquisas minguarem


Evanildo da Silveira
BBC Brasil

Direito de imagem
CLEBER GONÇALVES
Image caption
A forma como a iluminação das cidades é projetada tem dificultado a observação dos astros em Itajubá, em Minas Gerais

Quem olhasse para o céu na noite de 25 de janeiro de 1554, data da missa dos jesuítas José de Anchieta e Manoel da Nóbrega pela fundação da cidade de São Paulo, poderia avistar mais de 4 mil estrelas - caso não houvesse nuvens nem lua.

Hoje, não veria mais do que uma dúzia. A culpada pelo "desaparecimento" dos astros é a iluminação artificial da metrópole, com seus milhões de lâmpadas nas ruas, residências e lojas, além dos faróis de carros. A chamada poluição luminosa não apenas reduziu a beleza do céu noturno, como também causa problemas práticos. Ela prejudica as observações astronômicos e, consequentemente, a realização de pesquisas científicas que ampliam o conhecimento sobre o universo.

Segundo uma cartilha elaborada pelo Laboratório Nacional de Astronomia (LNA), localizado em Itajubá, em Minas Gerais, há três categorias de poluição luminosa. A primeira é o brilho do céu (sky glow), que é aquele aspecto alaranjado, causado pelas luzes, principalmente de lâmpadas de vapor de sódio, indevidamente direcionadas para o alto e para os lados. É pior em áreas com alta concentração de poluentes atmosféricos.

A segunda é o ofuscamento (glare), luz excessiva e direta nos olhos, causando cegueira momentânea. Um exemplo é o carro que trafega com faróis altos na direção contrária a de outro veículo. Por fim, a terceira categoria de poluição luminosa é a chamada luz intrusa (trespass), que é a iluminação de um ambiente que invade o domínio de outro, como, por exemplo, aquela que vem da rua e não permite que o quarto fique totalmente escuro durante a noite.

Embora os problemas que a poluição luminosa causa às observações astronômica tenham se intensificado nos últimos anos, eles não são de hoje. Segundo o pesquisador Vladímir Jearim Peña Suárez, do Projeto Olhai pro Céu Carioca, do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, quando o campus do Observatório Nacional do Rio de Janeiro foi transferido para o Morro de São Januário, em São Cristóvão, em 1922, a região era considerada suburbana, com uma densidade de população pequena e isolada.

Com o passar dos anos, o conjunto de lunetas da instituição foi ficando limitado tecnologicamente, prejudicado de forma crescente pelo crescimento da população, com o consequente o aumento da iluminação externa artificial. "Isso fez com que o interesse de usar estes instrumentos profissionalmente fosse diminuindo", conta Suárez. "As últimas observações profissionais com a luneta de 46 centímetros, a maior do Brasil, datam de 1977."
Direito de imagemCLEBER GONÇALVESImage caption
A iluminação artificial tem atrapalhado a eficácia Laboratório Nacional de Astronomia (LNA), localizado em Itajubá, em Minas Gerais

O diretor do LNA, Bruno Vaz Castilho de Souza, lembra que algo semelhante aconteceu com o Observatório de Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), localizado no centro do Rio. "Ele já perdeu sua capacidade de fazer pesquisa há muitas décadas", lamenta. "Mas o problema se agravou mais nos últimos 15 anos, com o barateamento dos sistemas de iluminação e a política de eletrificação rural, que afeta agora os observatórios de montanha, mesmo longe dos grandes centros. É importante notar que o problema não é iluminar, é iluminar incorretamente."

Um exemplo mais recente vem do Observatório Astronômico do Sertão de Itaparica (OASI), que começou a operar em março de 2011, no município de Itacuruba, no sertão pernambucano. A escolha do local para instalação do telescópio, o segundo maior do Brasil, com espelho principal de 1,0 metro de diâmetro, obedeceu a critérios técnicos e logísticos. "Ainda que não seja pródigo em montanhas, o semiárido brasileiro tem baixo índice pluviométrico, com noites abertas e secas", diz Teresinha Rodrigues, da Coordenação de Astronomia e Astrofísica, do Observatório Nacional.

Outra característica da região é que as cidades ainda são pequenas e afastadas umas das outras, contribuindo pouco para a poluição luminosa. "Apesar disso, a iluminação urbana recentemente instalada na cidade de Rodelas (BA), próximo a Itacuruba, tornou-se altamente invasiva, com um fulgor amarelo que se destaca na noite da Caatinga num raio de dezenas de quilômetros", conta Rodrigues. "No que diz respeito à interferência nas observações astronômicas, já podemos considerar que 15% do céu da região, na direção Sudoeste, estão perdidos para o trabalho de pesquisa."

A principal instituição de observação astronômica do Brasil também está às voltas com a poluição luminosa. O Observatório do Pico dos Dias (OPD), instalado em 1980, a 1.864 metros de altitude, entre as cidades mineiras de Brazópolis e Piranguçu, possui quatro telescópios, inclusive o maior no Brasil, com um espelho de 1,6 metros de diâmetro. Dois telescópios com espelhos de 0.6 m e um de 0.4 m completam o conjunto.

Segundo Souza, o OPD contribuiu decisivamente para o crescimento da astronomia brasileira, tendo aberto caminho para a participação nacional em projetos internacionais de grande porte, como os telescópios Gemini e SOAR. "O OPD tem também papel fundamental na formação de novos profissionais para a astronomia", acrescenta.
Economia na conta de luz

Tudo isso está em risco, no entanto. A vida útil do OPD como laboratório científico está sendo comprometida pelo aumento descontrolado da iluminação artificial nos seus arredores. "Considerando o número de habitantes e a distância em linha reta ao observatório, as cinco cidades que mais o afetam são Brazópolis, Itajubá, Piranguçu, Campos do Jordão e Piranguinho", informa Souza. "É preciso conscientizar a população e os governos municipais para a existência do problema e promover ações concretas visando impedir o avanço da poluição luminosa e, até mesmo, revertê-la."

Há várias iniciativas nesse sentido, tanto no Brasil como no exterior. "Os projetos em outros países com tradição astronômica estão bem mais avançadas", diz Souza. "Não faltam exemplos de casos bem-sucedidos, como nas cidades de La Serena e Monte Pátria, no norte do Chile, e a ilha de La Palma, nas Ilhas Canárias (Espanha), que reduziram drasticamente a poluição luminosa e agora economizam na conta de luz."

De acordo ele, isso pode ser conseguido com cuidados simples. Os sistemas de iluminação devem ser corretamente orientados, de modo a evitar que a luz artificial seja desviada na direção do céu. Nas ruas, estacionamentos e empresas o vidro refrator das lâmpadas deve ser plano, para que a luz seja dispersada para baixo.

Em praças, áreas de lazer, jardins e parte externa de residências deve-se evitar luminárias esféricas (globos), muito comuns no Brasil. "A regra de ouro é iluminar apenas o que for preciso e durante o tempo que for necessário", ensina Souza.
Direito de imagemSAULOImage caption
A iluminação deixaria de atrapalhar observatórios caso as lâmpadas propagassem a luz para baixo

Além das iniciativas de observatórios e cidades, há também campanhas como a Semana Internacional dos Céus Escuros 2018 (International Dark Sky Week, IDSW2018), e associações, como a The International Dark-Sky Association (Associação Internacional do Céu Escuro), que se dedicam ao tema.

"Em 2007, cientistas e formuladores de políticas de cerca de 50 países se reuniram em La Palma para a primeira Conferência Internacional em Defesa da Qualidade do Céu Noturno, produzindo uma declaração sobre 'proteger o céu como um direito básico para toda a humanidade'", conta.

Souza diz que no Brasil ainda há poucas iniciativas concretas, mas com o crescimento das cidades do interior próximas aos observatórios, como o Pico dos Dias (Brazópolis e Piranguçu) e o Observatório Municipal Jean Nicolini (Campinas), as ações são mais que nunca necessárias. "O Observatório de Campinas tem trabalhado junto à prefeitura para criar uma legislação municipal", informa.

O LNA, além de fazer campanhas com o público da região e produzir material informativo, tem feito esforços junto às prefeituras locais para a troca da iluminação incorreta. "Itajubá, por exemplo, está trabalhando para a criação de Parceria Público-Privada (PPP) para fazer isso e Brazópolis e o LNA pretendem submeter projeto para o mesmo fim em breve", informa Souza.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Geografia e a Arte

Geografia e a Arte
Currais Novos