quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Por que o número de furacões está aumentando com o aquecimento global?


Em 2017, o número de grandes tempestades no Atlântico foi o dobro da média anual - e a causa podem ser as mudanças climáticas
Rafael Battaglia

(Elen11/Getty Images)

Harvey, Irma, Maria, Florence…Você já teve a impressão que o número de furacões aumentou nos últimos tempos? Se a resposta for sim, saiba que está correto: um estudo publicado na revista Science mostrou que 2017 foi um ano acima da média para esse tipo de fenômeno – e o culpado pode ser o aquecimento global.

De acordo com a pesquisa, o Oceano Atlântico foi palco de seis grandes furacões (com ventos acima de 178 km/h) no ano passado, o dobro da média de três tempestades do gênero, número que vinha se mantendo desde 2000. Antes disso, a incidência era ainda menor: dois grandes furacões por ano.

O estudo simulou vários cenários climáticos em computador. Cruzando os dados obtidos, ele relacionou o aumento da temperatura de uma faixa específica no Atlântico (entre o sul da Flórida e o norte da América do Sul, indo até o oeste da África) tanto com causas naturais quanto as provocadas por humanos, como a queima de carvão, petróleo e gás.
2017 foi o ano com o maior número de grandes eventos meteorológicos na América do Norte. Fonte: NatCat Service


Águas quentes funcionam como combustível para furacões. Eles se formam quando a temperatura está acima de 27oC e, quanto mais quente o oceano estiver, maiores são as chances da tempestade se formar – e menores são de ela perder a intensidade com o passar do tempo.


“Vamos ter temporadas de furacões mais ativas, como a de 2017, no futuro”, disse Hiro Murakami, cientista climático do NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA) e principal autor do estudo, em entrevista a agência Associated Press. A pesquisa traçou um cenário preocupante: até 2100, a média de grandes furacões no Atlântico irá aumentar ainda mais, para oito por ano.

A pesquisa recebeu algumas críticas de cientistas da área, que afirmaram que a relação entre fenômenos climáticos extremos e o aquecimento global não é tão simples assim. No entanto, uma coisa é fato: o oceano Atlântico está ficando cada vez mais quente, e num ritmo maior do que os outros.
Revista Superinteressante

O impacto financeiro do aquecimento global em 2018


Relatório de organização internacional mostra que pelo menos dez desastres climáticos geraram despesas na casa de US$ 1 bilhão
Guilherme Eler

(Westend61/Getty Images)

Tão certo quanto o especial de Natal do Roberto Carlos na TV, o aumento anual das emissões de CO2 segue implacável desde a Revolução Industrial. Em 2018, mais uma vez, a humanidade bateu seu recorde: mesmo com os esforços internacionais – leia-se Acordo de Paris – pressionando os países a diminuir a poluição do ar, fechamos o ano com um saldo de 37 bilhões de toneladas. Um total 2,7% maior em relação ao ano anterior.

É normal que as temperaturas da Terra oscilem de tempos em tempos. Muito antes de existir Homo sapiens para contar história, a Terra já havia passado por várias glaciações. Mas sabe-se hoje que a ação humana desregulou esses ciclos, e acelerou a chegada de um período de calor mais intenso.

O principal resultado disso é a maior incidência de desastres ambientais. Pode ser que você não se lembre, mas 2018 registrou vários casos do tipo em todo o mundo – entre enchentes, incêndios de grandes proporções, furacões, secas e muito, muito calor. A tendência é que tudo seja cada vez mais comum.

Além de fazer crescer o número de mortes, desabrigados e engrossar o total de perdas materiais, problemas causados por alterações drásticas do clima acabam fazendo estrago também no bolso dos países. É o que mostrou um relatórioelaborado pela organização cristã de ajuda humanitária Christian Aid, que tem sede no Reino Unido.

Segundo o levantamento “Contando os custos”, elaborado pela entidade, os 10 eventos mais devastadores de 2018 ligados ao aumento das temperaturas tiveram danos econômicos que ultrapassaram US$ 1 bilhão.

Quatro destes, ainda, superaram a marca dos US$ 7 bilhões. Integram o grupo os furacões Florence e Michael, que arrasaram o sul dos Estados Unidos entre setembro e outubro deste ano. Contando somente o prejuízo financeiro, estima-se que os fenômenos tenham tido impacto de US$ 17 milhões e US$ 15 milhões, respectivamente. Segundo pesquisas, as chuvas do período tiveram intensidade até 50% maior graças à interferência humana no clima.

Ainda nos EUA, os incêndios que atingiram a Califórnia em novembro e deixaram dezenas de mortos somam impacto de US$ 7,5 bilhões. O mesmo montante vale também para a onda de secas da Europa, que teve início ainda em maio de 2018 – como destacou a BBC, mudanças climáticas causadas pelo homem dobram a chance de eventos do tipo. Completam a lista as enchentes entre junho e julho no Japão, que tiraram 250 vidas e oneraram o país em pelo menos US$ 7 bilhões.

O top 10 de desastres com mais impacto financeiro conta, ainda, com ondas de enchentes na China (US$ 3,9 bilhões) e Índia (US$ 3,7 bilhões), e secas na Argentina (US$ 6 bilhões), África do Sul (US$ 1,2 bilhão) e Austrália (US$ 5,8 bilhões). Nas Filipinas e na China, os custos relativos à passagem do tufão Mangkhut podem ter chegado aos US$ 2 bilhões.

E a tendência é que, para os próximos anos, o cenário seja parecido. “Apesar do impacto que alterações climáticas extremas tiveram no mundo, o ano de 2018 não deve ser exceção. Na verdade, é provável que seja um ano qualquer”, diz o relatório da Christian Aid. “Projeta-se para 2019 a ocorrência do fenômeno El Niño, que causa um aumento natural nas temperaturas, fazendo com que o ano que vem seja, ao que tudo indica, ainda mais quente”.

De acordo com Organização Mundial de Meteorologia, 2018 foi o quarto ano mais quente da história, com médias de temperatura globais até 1ºC mais elevadas do que costumavam ser na era pré-industrial.
Revista Superinteressante

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Aquecimento global dos oceanos equivale a 1,5 bomba atômica por segundo


Um estudo da Universidade de Oxford calculou a quantidade de calor absorvida pelo mar nos últimos 150 anos. É como se 1,5 bomba de Hiroshima explodisse a cada segundo
Ingrid Luisa


(Michasager/Pixabay)

Você deve estar cansado de ouvir que o aquecimento global faz mal para o planeta. Faz mesmo – e a humanidade sabe disso faz tempo. O cientista sueco Svante Arrhenius (1859-1927) foi o primeiro a afirmar, em 1896, que a queima de combustíveis fósseis pelo homem pode ter sido o início do aquecimento global como o conhecemos. E mais de 90% de todo o calor retido devido às emissões de gases pela humanidade foi absorvido pelos mares — menos de 10% vai parar no resto, como o ar, o solo e as calotas de gelo.

Ou seja: o mar ajudou a conter o fenômeno. Mas isso também é um problema. A quantidade de energia adicionada aos oceanos faz com que eles subam, e furacões e tufões se tornem mais intensos — e destrutivos. Mas quanto calor os oceanos já absorveram desde o início do aquecimento global? Foi isso que cientistas da Universidade de Oxford responderam em um novo estudo publicado no periódico Proceedings of National Academy of Sciences.

Combinando medições da temperatura da superfície dos oceanos desde 1871 com modelos computacionais que preveem a circulação oceânica, os pesquisadores calcularam que o mar absorveu 436 sextilhões de joules de energia de lá para cá. Número abstrato, certo? Então aqui vai uma metáfora simples e bombástica (com o perdão do trocadilho), feita originalmente por jornalistas do jornal inglês The Guardian: isso equivale ao calor liberado pela explosão de uma bomba atômica por segundo nos últimos 150 anos.

Mais impactante que a metáfora, porém, são as consequências. O aumento do nível do mar é considerado um dos mais perigosos impactos de longo prazo gerado pelas mudanças climáticas. Isso porque o mar pode “engolir” diversas cidades costeiras, ameaçando bilhões de pessoas que vivem lá. 


Outro fato levantado por eles é que os mares não se aquecem uniformemente, pois as correntes oceânicas transportam calor pelos quatro cantos do mundo. Calcular a quantidade de calor absorvida pelos oceanos nos últimos 150 anos fornece uma linha de base para estimar aumentos possíveis dos níveis do mar no futuro. A equipe descobriu que no Oceano Atlântico, por exemplo, a metade do aumento visto desde 1971, em latitudes baixas e médias, resultou do calor transportado para a região por essas correntes. 

De acordo com os cientistas, hoje a situação é ainda mais grave, pois o aquecimento acelerou ao longo do tempo, à medida que as emissões de carbono aumentaram. Agora, o mar absorve o equivalente a três a seis bombas atômicas por segundo (dependendo da temperatura da região).
Revista  Mundo Estranho

domingo, 13 de janeiro de 2019

Como a erosão afeta 60% do litoral brasileiro e deforma centenas de quilômetros de praia


Letícia Mori
 BBC 

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Na praia de Pititinga (foto), em Natal, o avanço do mar diminuiu a faixa de areia e engoliu construções

O Brasil tem cerca de 7.500 quilômetros de litoral, entre praias, falésias, dunas, mangues, restingas e muitas outras formações. Mais da metade disso, no entanto, está sendo progressivamente destruída pela erosão ou pelo acúmulo de sedimentos, agravados pela ação humana.

Juntos, esses dois problemas - erosão e acúmulo - atingem hoje cerca de 60% do litoral brasileiro, segundo o livro Panorama da Erosão Costeira no Brasil, publicado em novembro pelo Programa de Geologia e Geofísica Marinha, que reúne 27 universidades e instituições de pesquisa, e divulgado pela Fapesp no mês passado.

Isso significa que hoje 4.500 km de litoral são afetados pela erosão. Isso é um aumento de 50% em relação à primeira edição do levantamento, em 2003, quando cerca de 3.000 km do litoral eram afetados.

As regiões mais atingidas são Norte e Nordeste, segundo o geógrafo Dieter Mueher, coordenador do levantamento e pesquisador da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). "Na verdade, o que piorou mais se deu no Ceará e em Pernambuco", afirma.

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Praia erodida em Natal, no Rio Grande do Norte

Isso é bem visível em locais como Paracuru (CE) - na praia de mesmo nome, as raízes dos coqueiros foram expostas pela ação das ondas e as árvores correm o risco de cair. No município de Fortim (CE), a linha da costa recuou 300 m, e o avanço do mar destruiu estradas, casas e atracadouros.

Nas praias de Pilar e Forno da Cal, em Itamaracá (PE), a erosão diminuiu a faixa de areia e já expôs as rochas sob a praia. No Recife, a praia de Boa Viagem sofre com o problema há décadas, e no município próximo de Paulista dezenas de famílias já perderam casas e comércios.

Embora concentrado nas regiões Norte e Nordeste, o efeito dramático da erosão é visível no Brasil todo. O problema altera a linha da costa e gera danos econômicos e sociais. Se a erosão for muito grande, a água do mar pode acabar entrando pelos estuários e contaminando o lençol freático, fazendo com que ele se salinize. As mudanças também afetam a vida marinha e de animais como pássaros e tartarugas.
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Falésia na cidade de Conceição da Barra, no Espírito Santo, um dos locais onde o processo de erosão foi acelerado pela ação humana

Em São João da Barra (RJ), a erosão destruiu trechos da estrada de ligação entre o Farol de São Thomé e a Praia do Açu, que também teve várias casas e comércios próximos à linha da costa destruídos. O mesmo acontece em Ilha Comprida (SP), onde casas e árvores são derrubadas pelo efeito da erosão e onde, em alguns pontos, a linha da praia recuou até 100 metros.

Em Matinhos (PR), o problema aflige a Praia Brava de Caiobá desde os anos 1970 e nenhuma das obras feitas desde então conseguiu resolvê-lo - pelo contrário, acabaram agravando a situação, com barreiras sendo derrubadas e a praia, deformada.
Ação humana

A erosão é um fenômeno natural, mas que é intensamente agravado pela ação humana, diz Mueher, da Ufes.

O oceanógrafo Michel Mahiques, pesquisador do Instituto de Oceanografia da USP, explica que o processo de variação da linha da costa é algo que normalmente acontece ao longo de milhares de anos, não com a rapidez que se observa atualmente.

"A variação se dá em uma escala de tempo geológica. Quando o clima da Terra varia, o nível do mar sobe, o nível do mar desce", afirma. "Quando o homem atua como um agente que aumenta a temperatura do planeta, ele está acelerando um processo natural."

Direito de imagemDIETER MUEHEImage caption
A construção de guias-correntes para manter aberto o Canal do Furado, no Rio de Janeiro, fez com que a areia se acumulasse de um lado e que do outro houvesse erosão

Mas o aquecimento global não é o único fator, segundo os pesquisadores: em escala local, a ocupação da praia e as obras costeiras têm um papel muito maior na deformação da paisagem. "O que afeta mais é a interferência local na paisagem, a ocupação cada vez maior da faixa costeira", diz Mueher.

"As obras costeiras que o homem faz bloqueiam o transporte de sedimentos (pelo vento, pela maré, pelas correntes, por rios) que formam a praia, causando déficit de um lado e a acumulação de outro", explica Michel Mahiques. "O mesmo efeito acontece quando você constrói uma estrada muito perto da costa, quando faz um píer na praia, quando altera a desembocadura de um rio"

"Para o gestor público, o prefeito, empreiteiro, é muito mais fácil culpar o aquecimento global e fingir que suas obras não têm impacto nenhum", afirma Mahiques. "Afinal, o aquecimento global não tem CNPJ. Mas não podemos ter uma postura fatalista. O que os estudos (reunidos no livro) mostram é que é dá para relacionar diretamente a deformação do litoral com a ocupação da linha da costa."

Os primeiros sinais registrados de erosão costeira em Pernambuco, por exemplo, são do início do século 20, quando a ampliação do porto do Recife afetou a orla de Olinda.

Muitas vezes, as próprias obras feitas para tentar conter a erosão em orlas urbanizadas são mal projetadas e acabam provocando deformação em outras áreas. "Fica tudo na mão do município, onde geralmente as prefeituras não têm condições, dinheiro e equipe técnica qualificada", diz Mueher, da Ufes.

Foi o que aconteceu em São Vicente, no litoral de SP, segundo Michel Mahiques, da USP. "Eles começaram fazendo uma série de obras de contenção, mas não houve uma avaliação correta do impacto e foram obrigados a fazer cada vez mais."

O acúmulo de areia também pode gerar danos. Em Iguape, no sul do Estado de São Paulo, foi aberto um canal chamado Valo Grande, que desvio o curso de um rio. "O sedimento do rio foi parar na cidade de Iguape e assoreou o porto", explica o oceanógrafo.
O que pode ser feito

Como o que mais causa deformação nas praias é a ocupação e a construção de estruturas na orla, a solução mais efetiva para o problema, segundo os pesquisadores, é interferir o mínimo possível na paisagem, ou seja, evitar ao máximo a ocupação das áreas próximas à praia.

"É preciso criar uma zona de recuo para garantir a não erosão", explica o professor Miguel Mahiques. "É preciso manter uma distância da linha da costa. Mas muitas vezes isso é feito de maneira errada. Em áreas que têm dunas, tem gente que retira as dunas. Não é pra retirar, elas são uma proteção."

"Nas áreas urbanizadas em que o dano é irreversível, o que se faz são medidas mitigadoras, como procurar areia para alimentar a praia."

Segundo os analistas, é preciso uma mudança de cultura e mais consciência ambiental inclusive dos proprietários. "Todo mundo quer ter o pé na areia, e casas e hotéis são construídos muito próximos ao mar. Isso é uma garantia de 100% de ter problema daqui a 10, 20 anos", diz Mahiques.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

China faz primeiro pouso histórico no misterioso lado distante da Lua


O evento marca um ponto de virada para a exploração espacial chinesa e pode revelar segredos profundos da história lunar

Reprodução

A humanidade acaba de colocar sua bandeira no lado distante da Lua. A missão chinesa Chang`e 4 tocou o chão da cratera Von Kármán, de 186 km, na madrugada desta quinta-feira (3 de janeiro), concretizando o primeiro pouso no misterioso lado distante da Lua.

A Chang`e 4 irá realizar uma variedade de trabalhos científicos ao longo dos próximos meses, ajudando os cientistas a entender melhor a estrutura, formação e evolução do satélite natural da Terra. Porém, o peso simbólico da missão é que terá o maior impacto sobre o público: a lista de locais inexplorados no Sistema Solar ficou um pouco mais curta.

A aterrissagem épica - que aconteceu às 0:26, horário de Brasília, de acordo com as autoridades espaciais chinesas - se sucede após duas grandes conquistas aeroespaciais da NASA. No dia 31 de dezembro, a nave OSIRIS-REx entrou na órbita do asteróide Bennu, e a sonda New Horizons capturou imagens do objeto Ultima Thule, pouco depois da meia-noite do dia 1 de janeiro.

“Parabéns a todo o time da Chang`e 4 pelo que parece ser um pouso bem sucedido no lado distante da Lua. Isso é algo inédito para a humanidade, e uma conquista impressionante!” afirmou, via Twitter, Jim Bridenstine, Administrador da NASA, após a notícia do feito começar a circular nas mídias sociais.

TERRA INCOGNITA

A Lua leva aproximadamente o mesmo tempo para completar uma volta em torno de seu próprio eixo e para orbitar Terra: 27,3 dias. Por causa dessa coincidência de movimentos, nós só conseguimos ver uma face da Lua, a qual chamamos de lado visível. Esse lado familiar recebeu muitos visitantes ao longo dos anos, tanto humanos quanto robôs; todas as seis missões tripuladas Apollo, da NASA, para a superfície lunar pousaram no lado visível. O lado distante é um alvo muito mais difícil para a exploração de superfície, porque o núcleo rochoso da Lua bloquearia a comunicação direta com qualquer módulo de pouso ou jipe robô que estivessem lá. (E não o chame de "o lado escuro"; o lado oculto recebe a mesma quantidade de luz solar que o lado visível).

Para lidar com essa questão, a China lançou um satélite de retransmissão chamado Queqiao em maio de 2018. O Queqiao se estabeleceu no ponto L2 do sistema Terra-Lua, um ponto gravitacionalmente estável além da Lua, do qual o satélite pode manter à vista tanto a Chang`e 4 quanto o seu planeta natal.

O fluxo de dados que passará pelo Queqiao provavelmente será extenso. A Chang`e 4, que foi lançada no dia 7 de dezembro e entrou na órbita lunar 4.5 dias depois, possui oito instrumentos científicos: quatro em um módulo de pouso e quatro em um jipe robô.

O módulo de pouso abrigará a Câmera de Pouso, a Câmera para Terreno, o Espectrômetro de Baixas Frequências e o Experimento de Dosimetria de Neutrôns, fornecido pela Alemanha. O jipe robô está equipado com uma Câmera Panorâmica, um Radar de Penetração Lunar, um Espectrômetro de Imagem Infravermelha Visível e Próxima e o Pequeno Analisador Avancado para Átomos Neutros de Alta Energia, desenvolvido pela Suécia.

A Chang`e 4 irá, portanto, ser capaz de caracterizar seu entorno com grande detalhe, sondando a composição da superfície bem como as camadas de estruturas abaixo do nível do solo. Tais observações podem ajudar pesquisadores a compreender melhor porque as faces da Lua são tão diferentes. Por exemplo, planícies vulcânicas escuras chamadas “maria” cobrem boa parte do lado visível, mas estão praticamente ausentes do lado distante. (Nós temos boas imagens do lado distante visto de cima graças à espaçonaves como a Lunar Reconnaissance Orbiter, da NASA.)

A missão deve trazer algumas novas e intrigantes imagens também; a Cratera Von Kármán localiza-se na Bacia do Polo Sul-Aitken (SPA), uma das maiores bacias de impacto no Sistema Solar. A bacia do SPA mede incríveis 2.500 km de borda a borda e tem cerca de 12 km de profundidade. Além disso, a Chang`e 4 realizará um experimento biológico, que irá acompanhar como os bichos-da-seda, os tomates e as plantas Arabidopsis crescem e se desenvolvem na superfície lunar. A missão também fará observações de radioastronomia, aproveitando a excepcional tranquilidade e calmaria do lado distante. (O Queqiao também está reunindo dados de astronomia, usando um instrumento próprio chamado Explorador de Baixa Frequência da China e Holanda.)

UM PROGRAMA LUNAR AMBICIOSO

A Chang`e 4 é somente o mais novo passo do programa robótico de exploração lunar da China, o qual foi nomeado em homenagem à deusa da Lua na mitologia chinesa. A nação lançou Chang`e 1 e Chang`e 2 em 2007 e 2010, respectivamente, e conseguiu um pouso próximo com a Chang`e 3 em dezembro de 2013. (A Chang`e 4 foi originalmente projetada como um backup para a Chang`e 3, então o hardware das duas missões é semelhante.)

A China também lançou uma cápsula de retorno em uma viagem de oito dias ao redor da Lua em outubro de 2014, uma missão conhecida como Chang`e 5T1. Esse foi um teste para o esforço de retorno de amostras da Chang`e 5, que poderia ser lançada já neste ano. O país também tem ambições para missões tripuladas, mas seu programa de voos espaciais humanos está focado na órbita terrestre, pelo menos no curto prazo. Até o início dos anos de 2020, os chineses planejam ter uma estação espacial funcionando ali.

Mike Wall
Scientific American Brasil

Há uma crise humanitária na fronteira entre EUA e México? O que os números dizem



Direito de imagemGETTY IMAGESImage caption
No seu primeiro pronunciamento de 2019 na Casa Branca, Donad Trump disse que a migração na fronteira com o México estava provocando uma "crise humanitária"

O presidente dos EUA, Donald Trump, diz que a paralisação de parte do governo e agências federais vai continuar até que o Congresso americano aprove os US$ 5,7 bilhões que ele pediu para financiar o muro entre os Estados Unidos e o México, para conter a imigração.

No seu primeiro pronunciamento de 2019 no Salão Oval, na Casa Branca, ele disse que o projeto é necessário para resolver a "crise humanitária e de segurança na fronteira".

Enquanto a paralisação de serviços - o chamado "shutdown" - chega à terceira semana, cerca de 800 funcionários do governo federal estão sem receber salário.

No entanto, Trump parece irredutível na ideia de que o fechamento do governo é necessário para forçar o Congresso a aprovar recursos para o tão prometido muro - um dos pilares da campanha presidencial do republicano em 2016.

Os democratas, que são atualmente maioria na Câmara dos EUA, se recusam a liberar o dinheiro dizendo que a política migratória e a retórica do governo sobre o tema são uma "crise fabricada".

Então, o que, de fato, está acontecendo?
Quantas pessoas estão cruzando a fronteira ilegalmente?

É impossível dizer ao certo, mas apreensões feitas por agentes de fronteira dão algumas pistas.

Foram apreendidas 396,5 mil pessoas na fronteira com o México em 2018, contra 303,9 mil em 2017.


O número havia caído fortemente no primeiro ano de governo de Trump, mas voltou a subir no ano passado.

Nos últimos 10 anos, porém, houve uma queda acentuada das pessoas detidas tentando entrar ilegalmente em território americano.

Portanto, há ou não uma "crise" de migração ilegal na fronteira sul dos Estados Unidos?

"Não", diz Jacinta Ma, diretora do National Immigration Forum (Fórum Nacional de Imigração), entidade que advoga em defesa de imigrantes.

"Mesmo com o aumento das apreensões no ano passado, o patamar é muito menor que o do início dos anos 2000", afirma.
A maioria dos migrantes entra pela fronteira com o México?

A entrada de migrantes nos EUA não se limita à fronteira com o México. Em 2017, por exemplo, houve 3.027 apreensões de migrantes ilegais na fronteira com o Canadá e outras 3.588 nas faixas litorâneas dos Estados Unidos.

Embora a migração na fronteira do México ocupe as manchetes, a maior parte das pessoas que vivem ilegalmente nos Estados Unidos entrou legalmente no país, mas permaneceu lá após o visto expirar.


De acordo com os relatórios mais recentes do Departamento de Segurança Nacional e do Centro de Estudos de Migração - um think tank não governamental -, desde 2007, o número de pessoas que decidiram ficar nos EUA após os vistos expirarem ultrapassa aquele de migrantes que entram no país cruzando a fronteira ilegalmente.

Os canadenses compõem a maior parte desses imigrantes ilegais, seguidos pelos mexicanos.

Em 2016, ficaram nos EUA após o fim do visto 739.478 pessoas, comparados a 563.204 migrantes que cruzaram a fronteira de forma ilegal.

É importante notar que, de acordo com o Pew Research Center - um dos principais institutos de pesquisa do mundo - o número total de imigrantes morando nos Estados Unidos ilegalmente, na verdade, diminuiu desde 2007. Em grande parte isso se deve à redução no número de pessoas que chegam pelo México.

Direito de imagemGUILLERMO ARIAS/AFPImage caption
A entrada de migrantes nos EUA não se limita à fronteira com o México. Em 2017, por exemplo, houve 3.027 apreensões de migrantes ilegais na fronteira com o Canadá e outras 3.588 nas áreas litorâneas dos Estados Unidos

Apreensões na fronteira tiveram um pico em 2000, alcançando 1,64 milhões. No total, o Pew Research Center estima que, em 2016, havia 10,7 milhões de imigrantes vivendo ilegalmente nos EUA.
Quantas pessoas tentam cruzar a fronteira legalmente?

Apreensões divulgadas pelo governo americano incluem pessoas que pedem asilo ou status de refugiado ao entrar nos Estados Unidos.

No ano fiscal de 2018, quase 93 mil pessoas alegaram viver em locais e situações de risco e pediram asilo na fronteira. Foi um crescimento substancial em comparação com 2017, quando 55.548 fizeram o mesmo pedido.

Kate Jastram, do Centro de Estudos de Gênero e Refugiados, da Universidade da Califórnia, diz que as famílias que fogem da violência na América Central passaram a compor uma fatia maior dos grupos que cruzam a fronteira em busca de asilo, a partir do começo de 2014.

Ela diz que isso tem mais a ver com as condições de vida naqueles países do que com qualquer política migratória implementada durante o governo Trump.

"A grande maioria dos homens mexicanos cruzavam a fronteira em busca de trabalho. Agora, temos muitas famílias e crianças, especificamente, pedindo proteção", ressalta Jastram.

Em novembro, uma caravana de 7 mil migrantes chegou à fronteira dos Estados Unidos com o México. Muitos deles afirmam estar fugindo da violência em países como Honduras, Guatemala e El Salvador.

Trump classificou a caravana como uma "invasão". Em geral, a taxa de rejeição a pedidos de asilo cresceu nos últimos seis anos.
O que Trump tem feito para lidar com a situação?

Direito de imagemREUTERS/CARLOS BARRIAImage caption
Trump tem adotado medidas restritivas à imigração desde que assumiu a Presidência dos EUA. A medida mais polêmica foi separar pais dos filhos na fronteira

Nos últimos dois anos, Trump e seu gabinete lançaram mão de várias medidas restritivas, afetando tanto migrantes ilegais quanto pessoas em busca de asilo.

Pessoas em busca de asilo pegas cruzando a fronteira ilegalmente passaram a ter de esperar pela decisão do lado mexicano da fronteira.

Em junho, o então advogado-geral Jeff Sessions anunciou que alegações de violência doméstica e temor da violência de grupos criminosos não serviriam mais de base para a concessão de asilo nos EUA - essa medida foi derrubada pela Justiça americana.

Milhares de crianças foram separadas dos pais na fronteira como parte da "política de tolerância zero" que previa a detenção para processo criminal de todos que cruzassem a fronteira ilegalmente. Posteriormente, essa decisão foi revista, após decisões judiciais e repercussão negativa.

Na semana passada, Trump disse que poderia declarar situação de "emergência nacional" para forçar a liberação dos US$ 5,7 bilhões para a construção do muro na fronteira com o México. O decreto, em tese, permitiria que o Executivo passasse por cima das decisões do Congresso.

Especialistas em Direito Constitucional se dividem sobre se o presidente tem o poder e o direito de usar um decreto de emergência nacional para financiar o muro.
E a ameaça terrorista?

A porta-voz do governo Trump, Sarah Sanders, deu uma declaração que chamou a atenção em entrevista à rede de televisão americana Fox, na sexta.

"No ano passado, quase 4 mil terroristas ou suspeitos de terrorismo foram apreendidos após cruzar a fronteira sul dos Estados Unidos", disse ela.

Isso não é verdade. Até a colega dela, Kellyanne Conway, também assessora de Trump, classificou a fala de Sanders de "infeliz declaração incorreta".

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Nenhum migrante que cruzou a fronteira terrestre do México para os EUA foi condenado por ataque terrorista
Então, de onde vieram aqueles dados?

Um relatório da Casa Branca sobre imigração diz que 3.755 terroristas ou suspeitos de terrorismo foram impedidos de entrar nos Estados Unidos em 2017.

Mas isso inclui suspeitos que foram parados em qualquer ponto de entrada no território americano. A maioria tentou chegar aos Estados Unidos por avião e foi barrada nos aeroportos do país.

"O debate é sobre um muro na fronteira em terra. Incluir estatísticas de aeroportos é irrelevante e falacioso", diz Todd Bensman, do Centro de Estudos de Imigração, que defende uma redução na imigração.

Bensman, que atuou na área de inteligência contra terrorismo na fronteira do Texas com o México, analisou dados de uma "fonte de inteligência confiável" e concluiu que cerca de 100 migrantes da lista de suspeitos de terrorismo foram apreendidos na fronteira mexicana entre 2012 e 2017.

Dados da NBC News parecem corroborar essa afirmação. A emissora americana informou que, na primeira metade de 2018, seis migrantes na lista de suspeitos foram parados na fronteira sul dos EUA.

Ninguém que tenha cruzado a fronteira do México para os EUA ilegalmente de 1975 até o final de 2017 foi responsabilizado por ataques terroristas em solo americano, segundo David Bier e Alex Nowrasteh, da Cato Institute, um think tankcom sede em Washington.
BBC Brasil

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

O que é sensação térmica e por que não ‘fritamos’ quando ela ultrapassa os 80º C


Evanildo da Silveira
BBC News Brasil

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A sensação térmica é algo subjetivo que, como a expressão sugere, é o calor ou frio que as pessoas sentem

A informação divulgada pelo Sistema Meteorológico do Paraná (Simepar) de que a sensação térmica na cidade Antonina, a 87 km de Curitiba, chegou a escaldantes 81º C no dia 18 de dezembro, deixou muita gente espantada. Não é para menos. Esta é mais ou menos a temperatura de um cafezinho ou do chimarrão dos gaúchos. É apenas, também, cerca de 20º C a menos do que a temperatura de fervura da água.

É preciso diferenciar, no entanto, um ponto importante: temperatura não é a mesma coisa que sensação térmica.

"Temperatura é a quantidade de calor fornecida pelos raios solares ou pelo ambiente", explica o meteorologista José Carlos Figueiredo, do Instituto de Pesquisas Meteorológicas da Unesp (IPMet), da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e presidente da Sociedade Brasileira de Meteorologia. "A sensação térmica, por sua vez, leva em conta a temperatura e a umidade relativa do ar."

Também é preciso colocar na equação o "funcionamento" do ser humano. Nas pessoas, o suor é um mecanismo de perda de calor, saindo pela pele e evaporando e, assim, reduzindo a temperatura corporal e a sensação térmica.

Em ambientes ou climas muito úmidos, a água em forma de vapor, pairando no ar, reduz a taxa de evaporação do suor da pele, e, por isso, faz com que uma pessoa sinta mais calor num local desses do que outra em um ambiente seco de mesma temperatura.

Daí a confusão que há entre os dois conceitos. A temperatura é a expressão do valor concreto, real, absoluto do calor - ou do frio - que é medido pelos termômetros. Diferentemente, a sensação térmica é algo subjetivo, que, como a expressão sugere, é o calor ou frio que as pessoas sentem.

Por isso, pode variar de um indivíduo para outro ou até de acordo com a roupa que cada um está vestindo ou do lugar onde nasceu e a que clima está adaptado.

Também deve se observar que mesmo que ela chegue 100º C - como mostram algumas fórmulas de cálculo - a água não ferve, pois objetos e coisas inanimadas não sentem nada, como se sabe.

Direito de imagemPREFEITURA DE ANTONINA (PR)Image caption
Segundo o Sistema Meteorológico do Paraná, a cidade Antonina registrou sensação térmica de 81º C
Origem da sensação térmica

O conceito e a expressão sensação térmica começaram a se popularizar após a Segunda Guerra Mundial, quando as tropas alemãs foram derrotadas numa tentativa de invasão à Rússia, durante o seu inverno rigoroso, também conhecido como "General Inverno", o mesmo que já havia ajudado a bater Napoleão Bonaparte, em 1812.

Depois do fim do conflito mundial, em 1945, o exército americano criou um índice de avaliação do frio relacionado à velocidade do vento. Esse índice popularizou-se e passou a ser divulgado juntamente com as temperaturas. No Brasil e em outros países quentes, a sensação térmica está relacionada com a umidade relativa do ar e não com o vento, embora esse último possa diminuí-la também.

O problema é que há muitas fórmulas diferentes de calculá-la. Várias estão disponíveis na internet. Desde que surgiu a primeira há cerca de 70 anos, mais de 160 outras foram criadas, cada uma com seus próprios critérios. "Todas são feitas para locais diferentes", diz Figueiredo. "Desde 1978, vêm surgindo fórmulas diversas, principalmente nos últimos dez anos, devido ao interesse da imprensa em reportagens sobre o clima."

Segundo o meteorologista Fabio Luiz Teixeira Gonçalves, professor do Departamento de Ciências Atmosféricas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas, da Universidade de São Paulo (IAG-USP), o cálculo da sensação térmica leva em conta muitas variáveis, além da temperatura, tais como umidade relativa do ar, radiação solar, falta ou presença de vento e vestimentas. "São fórmulas semi-empíricas", diz. "Elas são ajustadas com questionários aos habitantes locais de cada região. Mesmo assim, ela é subjetiva e varia de pessoa para pessoa."

Duas das fórmulas mais conhecidas e usadas no mundo são o Heat Index, criado nos Estados Unidos, e o Humidex, do Canadá, ambas disponíveis na internet. O Semipar não divulgou qual fórmula usou, mas apenas a temperatura e a umidade relativa do ar. "Por volta, das 14h daquele dia, o calor em Antonina era de 44.3º C e unidade de 65%", conta Samuel Braun, um dos meteorologistas do órgão. "Pelos nossos cálculos, a sensação térmica chegou a 78º C."

Não atingiu, portanto, a marca de 81º C divulgada por alguns portais de notícias. O que, diga-se, não faz muita diferença. O certo é que o Semipar não usou nem o Heat Index nem Humidex.

No primeiro caso, o resultado para temperatura e a umidade registradas na cidade paranaense seria uma sensação térmica de 88.5º C e, no segundo, de 72º C.

O certo é que o ser humano é capaz de suportar isso. Pelo menos é o que garante Gonçalves, da USP.
Conseguimos suportar altas temperaturas?

"Somos extremamente tolerantes a altas temperatura e não só à sensação térmica", afirma o meteorologista. "Estamos entre os melhores no grupo dos mamíferos. Suamos muito bem e não temos pelos. E ninguém fica queimado em saunas, nem nas úmidas, que podem chegara a 50°C com umidade relativa de 70 a 80%, nem nas secas onde faz 100ºC e umidade abaixo de 10%."

Bem menos ameno do que em Antonina. Com esses números, pelo Heat Index, a sensação térmica no primeira caso seria de 133.7 a 155.7ºC e 129.7ºC, no segundo.

O professor de clínica médica, Jamiro da Silva Wanderley, da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, também ressalta a grande tolerância humana às inclemências do clima. "Temos uma capacidade de adaptação fantástica, tanto para altas temperaturas como para bem baixas. Vários mecanismos adaptativos são deflagrados de acordo com a necessidade."

Quando o calor é muito intenso, por exemplo, as pessoas começam a transpirar, para manter sua temperatura corporal dentro do aceitável.

Direito de imagemEPAImage caption
Há relatos de pessoas que conseguiram sobreviver a uma temperatura 127º C

"Passamos a urinar menos e mais concentrado (urina escura, amarelo ouro), para preservar água", explica Wanderley.

Isso não significa, no entanto, que não haverá problemas. "Se continuarmos com altas temperaturas e não nos hidratarmos adequadamente, teremos boca seca, vamos desidratando, podendo ficar com dores de cabeça, prostração, confusão mental e perda de consciência e até coma", alerta. Além disso, poderá haver problemas renais.

Segundo o médico Onivaldo Cervantes, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), há relatos de que o corpo humano aguentaria até 127ºC - não sensação térmica - por até 20 minutos.

"Mas o fato é que acima de 28ºC, sem vento, o calor já começa a ficar desagradável para o corpo", avisa. "Além disso, a temperatura corporal não deve ultrapassar os 40ºC, embora em alguns casos possa chegar a 42ºC, o que é muito perigoso. Neste estado febril, as proteínas do sangue começam a se desnaturar (perdem sua estrutura e deixam de ser ativas), o que leva a uma dificuldade circulatória e consequente diminuição da oxigenação dos tecidos."

Diante disso tudo, Figueiredo defende que não deveria existir fórmulas para calcular a sensação térmica.

"Não serve para nada, pois as fórmulas adotadas não levam em conta fatores metabólicos, gravidez, obesidade, cor da pele, altura, peso e se as pessoas estão em repouso ou não", critica.

"Como as informações sobre umidade e temperaturas são coletadas à sombra, quando as pessoas saem de casa, não têm a menor ideia do que estão sentindo. Para mim, só serve para serem alardeadas na imprensa informações sem critérios científicos."

domingo, 6 de janeiro de 2019

O quanto já foi construído do muro de Trump?


Equipe Reality
BBC 

Direito de imagemGETTY IMAGESImage caption
Trump ao lado de um possível protótipo de muro para a fronteira; orçamento da obra causa um impasse no governo americano

O debate em torno da construção de um muro na fronteira sul dos EUA tem causado um impasse entre o Executivo e o Legislativo americano: o presidente Donald Trump não conseguiu que o Congresso aprovasse um orçamento de US$ 5,6 bilhões para a "grande barreira" de concreto ou aço que quer construir e, na ausência de consenso orçamentário, diversos serviços e agências governamentais tiveram de interromper suas atividades, causando o que se chama de "shutdown" - ou paralisação.

Trump diz que está disposto a ir até o fim na intenção de obter verbas para construir o muro e prometeu declarar estado de emergência nacional, alegando que a fronteira sul americana é "um desastre horrível e perigoso".

"Farei o que tiver de ser feito", afirmou. "Se nós tivermos de ficar paralisados por um longo período, faremos isso."

Ele também já afirmou no Twitter que "muito do muro já foi plenamente renovado ou construído. O México vai pagar pelo muro por meio do novo tratado comercial USMCA".

A equipe do Reality Check, programa de checagem de fatos da BBC, foi investigar para entender: essa declaração está correta? Quanto do muro já foi, de fato, construído? E o México de fato vai pagar por ele?

Promessa de campanha e impasse com o Congresso

A construção do muro na fronteira com o México é uma das principais promessas de campanha de Trump, sob a justificativa de que ajudará a conter a imigração irregular e o tráfico de drogas.

A fronteira tem 3.145 km, sendo que um terço dela já tem vários tipos de grades de proteção em Estados como Califórnia, Arizona, Novo México e Texas.

Segundo documentos obtidos pela CNN no início de 2018, autoridades disseram ao Congresso que o plano de Trump prevê 1,4 mil km de muro novo e 1,8 mil km de muro substituto, a um custo que pode alcançar US$ 33 bilhões.Image caption
As declarações de Trump no Twitter sobre o muro

No momento, Trump pede ao Congresso a liberação de US$ 5,6 bilhões, mas a oposição democrata na Câmara se recusou a liberar verbas adicionais para a obra - tendo oferecido US$ 1,3 bilhão para segurança de fronteira, mas não para a construção do muro.

Como o financiamento do muro é parte de um orçamento maior que o Congresso tenta aprovar, há uma paralisação (desde 22 de dezembro) de algumas áreas do governo.
O que já existe do muro

As estimativas totais do custo do muro variam de US$ 12 bilhões a US$ 40 bilhões.

Em março passado, Trump conseguiu que o Congresso liberasse US$ 1,6 bilhão para projetos na fronteira. E a Agência Alfandegária e de Patrulha da Fronteira (CBP, na sigla em inglês) diz ter levantado dinheiro suficiente para construir 160 km de "um sistema de muro de fronteira".

No mês seguinte, a agência substituiu cerca de 22 km de arame farpado do muro por lâminas verticais de aço na região de San Diego, 3 km de "muro primário" também na Califórnia e 32 km de "novo muro" em Santa Teresa, Novo México.

E, em dezembro de 2018, o CBP contratou um corpo de engenheiros do Exército para construir 22,5 km de "muro secundário" e até 24 km de substituições para trechos de passagem de pedestres nas localidades de San Diego, Yuma e El Centro.

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Mapa mostra áreas na fronteira EUA-México onde já foi construído algum tipo de barreira

A lei aprovada pelo Congresso estipulava que o dinheiro poderia ser usado para a construção de grades primárias e secundárias, projetos e planejamento de barreiras e para aquisição de tecnologia de segurança.

O dinheiro não poderia, no entanto, ser gasto no desenvolvimento de protótipos de novos muros como alguns propostos por Trump.

O México vai pagar?

Os argumentos de Trump a respeito de como o México vai pagar pelo muro mudaram consideravelmente nos últimos meses. Durante sua campanha à Presidência, ele insistiu que o país vizinho pagaria diretamente pela construção.

"Vou construir um grande muro, e ninguém constrói um muro melhor do que eu, acredite. E vou construir de modo muito barato", ele afirmou à época. "Vou fazer o México pagar pelo muro."

No final do ano passado, Trump afirmou que a construção do muro daria retorno em "dois meses".

"Alguém pode por favor explicar aos democratas que nosso país perde US$ 250 bilhões de dólares ao ano com a imigração ilegal, sem contar o terrível fluxo de drogas. Segurança de alto nível na fronteira, incluindo um muro, custa US$ 25 bilhões. Paga por si mesmo em dois meses."

Agora, Trump argumenta que o México vai pagar por intermédio de um acordo comercial - mas os mecanismos de como isso ocorreria ainda não foram esclarecidos. Além disso, o novo acordo comercial sequer foi aprovado pelo Congresso.

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Barreira com lâminas de aço na fronteira EUA-México em San Diego; modelo é um dos que estão sendo usados na divisa

Trump talvez esteja querendo dizer que o novo acordo vai reduzir o deficit comercial que os EUA atualmente mantêm com o México, o que resultará em economias no longo prazo, opina Andrew Hunter, da consultoria Capital Economics.

"No entanto, há pouca relação direta entre o deficit comercial de um país e as finanças governamentais", explica.

Uma segunda possibilidade é que o acordo estimule a atividade econômica americana e, assim, a arrecadação de impostos.

Mas, novamente, "as mudanças previstas pelo acordo são relativamente pequenas e provavelmente não terão tanto impacto", prossegue Hunter.

Trump também levantou a ideia de impedir ou taxar as remessas que migrantes nos EUA façam a seus parentes no México - algo que geraria US$ 25 milhões por ano, segundo o Banco Central do México. Críticos afirmam, porém, que essa medida seria de difícil implementação e poderia ser questionada na Justiça.

O plano foi aventado como uma forma de pressionar o governo mexicano a pagar diretamente pelo muro - algo que este recusou categoricamente.

O veredito do Reality Check sobre a declaração de Trump: segundo as autoridades fronteiriças dos EUA, já há de fato obras para aumentar a segurança na fronteira, mas com dinheiro até agora restrito a modelos de barreiras que já existem. Até agora, não está claro como o acordo comercial com o México poderá financiar o aumento do muro.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Nicósia: Como é viver na última capital dividida do mundo


Angelo Attanasio

Direito de imagemANGELO ATTANASIO/BBC MUNDOImage caption
Todas as tentativas diplomáticas de reunificar a ilha fracassaram

Para ir tomar um café na casa de Elsie Slonim, você tem que enviar um pedido ao Ministério das Relações Exteriores de um Estado não reconhecido.

Em seguida, tem que dar seu passaporte para alguns militares armados que examinam o documento como se você fosse um suspeito perigoso.

E, finalmente, tem que dirigir por algumas ruas onde os únicos vizinhos são as tropas de um Exército que veio de outro país.

No entanto, enquanto os expressivos olhos azuis de Elsie Slonim acompanham o encadeamento de suas memórias, é fácil perceber imediatamente que a viagem valeu a pena.

Judia de pais austríacos e com um passaporte americano que a salvou do Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial, essa mulher elegante de 101 anos testemunhou alguns dos eventos mais importantes do século 20.

E ainda vive um deles.

Direito de imagemANGELO ATTANASIO/BBC MUNDOImage caption
Elsie Slonim tem 101 anos se dedica a escrever contos infantis e livros de memórias

Quando se casou - pela segunda vez - com um proprietário de terras turco-cipriota, ambos decidiram se estabelecer em Nicósia.

Desde então, Elsie é uma testemunha privilegiada da história da atual capital do Chipre.

Ela é a única civil que reside na zona militarizada que divide essa cidade em duas, a última capital dividida do mundo.

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Mapa mostra a divisão de Nicósia
Dividida por mais de meio século

Em 30 de dezembro de 1963, o oficial do Exército britânico Michael Perrett-Young desenhou com um lápis uma linha verde no mapa de Nicósia, do extremo ao outro.

Seu objetivo era frear os confrontos entre as duas comunidades, cipriotas gregos e cipriotas turcos, que em um mês deixaram mais de cem mortos nas ruas de um território sob controle britânico.

As disputas étnicas duraram 11 anos. Até que, em julho de 1974, a Turquia respondeu à tentativa de golpe no Chipre, financiada pela Grécia, com uma invasão militar da ilha.

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Chipre foi colônia britânica até 1960; até hoje Reino Unido mantém bases navais na ilha

No final daquele verão, cerca de 180 mil pessoas, um terço da população grega de Chipre, foram forçadas a deixar suas casas e se mudar para o sul. Ao mesmo tempo, cerca de 40 mil cipriotas turcos passaram para o norte ocupado.

O conflito terminou com mais de 4.000 pessoas mortas dos dois lados. O destino de outros 494 cipriotas turcos e 1464 cipriotas gregos, no entanto, deve permanecer desconhecido por muitos anos. Oficialmente, eles foram declarados desaparecidos.

Desde então, a maior parte da ilha é administrada pela República de Chipre, membro da União Europeia desde 2004, onde vive 80% da população, de origem grega.

Por outro lado, a República Turca de Chipre do Norte (RTCN), reconhecida apenas pela Turquia, ocupa um terço da sua extensão.

A fina linha verde desenhada por Perrett-Young em Nicósia, uma zona provisória de proteção com uma largura máxima de doze metros, foi alargada a toda a ilha, com uma extensão de cerca de 180 quilômetros, e tornou-se a fronteira que há 55 anos divide a capital entre a turco-cipriota Lefkoşa, ao norte, e a greco-cipriota Lefkosia, ao sul.

A parte sul da cidade velha é um labirinto de becos, lojas de crochê para turistas e jardins de palmeiras e buganvílias.

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Muitas ruas de Nicósia continuam divididas por trincheiras desde 1963

Em todas as horas do dia, as mesas dos bares estão cheias de pessoas tomando café, a bebida favorita deste lado do Mediterrâneo e que permeia praticamente todas as interações sociais.

O silêncio é interrompido apenas pelos chamados à oração do muezim de Selimiye, a antiga Catedral de Santa Sofia, convertida na principal mesquita da parte cipriota turca da cidade antiga.

E é lá a que eu me dirijo, depois do controle rotineiro do passaporte.

Em torno dos altos minaretes, dos bazares de camisas turísticas e das tavernas de shawarma, a vida cotidiana se desenrola com a mesma tranquilidade da do outro lado.

Apenas as bandeiras vermelhas e brancas quase onipresentes penduradas nas casas, nas oficinas mecânicas dos imigrantes turcos e em quaisquer edifícios públicos me lembram insistentemente que estou na parte cipriota turca de Nicósia.

Mas nada me faria pensar que estou pisando em um território em conflito há mais de meio século.

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Nicósia, capital de Chipre, está dividida desde 13 dezembro de 1963
Um cessar-fogo de mais de 44 anos

A elegante casa de dois andares onde Elsie Slonim passa seus dias tornou-se, ao longo dos anos, um museu de uma vida outrora agitada.

Uma imensa biblioteca cheia de livros em alemão, iídiche e inglês ocupa o vasto salão onde, diante de um uma xícara de café cipriota, ela descreve o sentimento de alegria e arrependimento que a dominou na primeira vez que viu a costa cipriota.

Era o verão de 1939 e Elsie e seu marido estavam prestes a desembarcar na ilha após uma viagem de navio dos Estados Unidos que durou várias semanas.

O antissemitismo assolava a Europa e a Segunda Guerra Mundial começaria em breve.

"Perdi vários tios e primos no campo de concentração de Auschwitz", lamenta. "Tive sorte porque cheguei a tempo."

A ilha era uma colônia do Reino Unido desde 1879 e permaneceria assim até 1960. Quando os britânicos se retiraram de lá, deixaram como legado a condução do lado esquerdo e duas enormes bases navais militares ainda ativas, que ocupam 3% do território.

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A missão de paz da ONU em Chipre - chamada UNFICYP - começou em março de 1964 e desde então foi renovada todos os anos até hoje
Profunda desconfiança

A principal herança, contudo, não é tangível: uma profunda desconfiança entre as elites cipriotas grega e turca.

Essa desconfiança mútua e a interferência política da Grécia e da Turquia levariam a confrontos violentos entre as duas comunidades e a divisão de Nicósia para tentar detê-los. Sem sucesso.

Cinquenta e cinco anos depois, a poucos metros das buganvílias que desabrocham no jardim de Elsie Slonim, estende-se uma das áreas mais militarizadas do mundo.

De suas torres, mais de 40 mil soldados cipriotas turcos guardam a RTCN (República Turca de Chipre do Norte). Em frente, cerca de 12 mil soldados da Guarda Nacional Cipriota grega controlam a fronteira da República do Chipre.

"Sem foto! Sem foto!", grita um deles, debruçando-se para fora de uma antiga guarita pintada com as cores azul e branca da bandeira da Grécia.

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Fronteiras entre as duas partes de Nicósia ficaram hermeticamente seladas até 2003, quando foi aberto o primeiro check-point

Sua expressão revela tédio e insatisfação por uma tarefa que ele deve repetir várias vezes ao dia: afastar os turistas que querem lembrar-se dessa tediosa trincheira.

Atrás da guarita, guardada zelosamente por ambos os exércitos, estende-se uma faixa estreita de estradas malcuidadas e casas em ruínas; uma terra de ninguém onde só a cor dos capacetes azuis da ONU quebra a monotonia.

O acesso a essa zona é de responsabilidade exclusiva das forças de manutenção da paz da ONU.

Desde a divisão da cidade, os soldados da missão UNFICYP - uma das mais antigas da Organização das Nações Unidas -, espalhados em toda a ilha, asseguram que nenhum dos exércitos acrescente "nem mais um saco de areia em suas posições na linha de cessar-fogo", explica um oficial argentino desta missão.

Há várias décadas, não há registro de episódios violentos significativos. "Os conflitos são limitados a alguns gestos obscenos ou a uma pedra jogada pelos recrutas de um lado ou de outro", diz o responsável da UNFICYP, Peter Vanek, enquanto me acompanha ao aeroporto de Nicósia.

Abandonadas após a invasão turca de 1974, suas instalações não só se tornaram um símbolo da divisão de Chipre ao longo do tempo, mas também do fracasso das inúmeras tentativas de reunificação entre políticos cipriotas gregos e representantes do norte.

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Ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, chegou a definir missão na ilha como "um dos maiores fracassos" da organização
Desconfiança

Entre as iniciativas mais recentes, está o referendo de 2004 sobre a criação de uma república federal, proposto pelo então secretário da ONU, Kofi Annan, que morreu em agosto deste ano.

O resultado refletiu a divisão do país: 65% dos cipriotas turcos votaram a favor da proposta, enquanto a maioria dos gregos votou "não".

Para que prosperasse, era necessário que ambas as comunidades o aprovassem.


Direito de imagemAFP/REUTERSImage caption
O líder greco-cipriota Nicos Anastasiades (esq.) e seu homólogo turco-cipriota Mustafa Akinci voltaram a se reunir no fim deste ano, mas não chegaram a nenhum acordo

A última tentativa em selar a paz remonta a julho de 2017, quando o líder da RTCN, Mustafa Akinci, e da República de Chipre, Nicos Anastasiades, pareciam ter finalmente chegado a um acordo na cidade de Crans-Montana, na Suíça.

Muitos cidadãos de Nicósia foram às ruas celebrar o que seria um momento histórico.

No entanto, o acordo não foi adiante e os dois políticos ficaram sem se reunir novamente por 15 meses.

Direito de imagemANGELO ATTANASIO/BBC MUNDOImage caption
Último encontro diplomático entre os dois líderes, Mustafa Akinci e Nicos Anastasiades, foi realizado no fim de outubro deste ano, mas nenhum acordo foi alcançado
Novas gerações

"Cipriotas gregos não confiam nos cipriotas turcos porque continuam pensando que eles são um cavalo de Troia para os interesses turcos", diz Harry Tzimitras, diretor do PRIO Chipre Center (PCC), um centro de pesquisa independente formado por pesquisadores das duas comunidades.

Por outro lado, "os cipriotas turcos acreditam que, em um Estado federal hipotético, seriam considerados cidadãos de segunda classe", acrescenta.

Ele diz acreditar que os partidos políticos que governam nas duas comunidades se beneficiam dessa disputa e não têm real interesse em chegar a um acordo final.

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Bandeiras de Turquía y la de la República Turca del Norte de Chipre cuelgan en las entradas de numerosas casas y edificios de la parte norte de Nicosia.

No entanto, sua maior preocupação é que essa falta de confiança contaminou os jovens da ilha, especialmente os de origem grega.

Em um estudo publicado em 2016 pela PRIO sobre a chamada "geração pós-Annan" - ou seja, a que veio depois do referendo em 2004 - mais de 48% dos estudantes universitários cipriotas gregos entre 18 e 23 anos disseram nunca ter cruzado a fronteira ao norte, enquanto 43% fizeram apenas algumas vezes.

"Por um lado, já faz muitos anos que as duas comunidades não estão em contato", explica Mete Hatay, um dos autores do estudo. "Por outro, em todos esses anos, uma narrativa muito distorcida sobre a história da divisão acabou cobrando seu preço".

"A memória do que aconteceu ainda está viva, não pode ser apagada de um dia para o outro", acrescenta.
Verão de 1974

A lembrança daquele verão de 1974 também permanece na memória de Elsie.

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Aeroporto de Nicósia está abandonado desde agosto de 1974

A invasão do Exército turco e o confronto armado que se seguiu com a Guarda Nacional de Chipre, em 1974, atingiram a casa onde ela mora atualmente.

Elsie e sua família passaram três semanas no porão, onde tinham o essencial para resistir ao conflito, que duraria até meados de agosto daquele ano.

Quando saíram daquele refúgio improvisado, encontraram uma imagem sombria. Todos os seus vizinhos foram expulsos do bairro e a área estava sob vigilância das tropas turcas.

"Um jovem soldado nos viu", lembra Elsie, "e pediu ao comandante que nos deixasse ficar".

O pai do menino tinha sido condutor de trator na fazenda de David Slonim, o marido de Elsie. Um dia, ele sofreu um acidente enquanto trabalhava e David o encontrou, levou-o ao hospital e pagou por seu tratamento por um ano.

"Quando os militares ouviram a história, decidiram que poderíamos ficar e morar em nossa casa" , diz Elsie.

No entanto, o marido havia investido todas as suas economias em campos de limões que estavam sob ocupação militar.

"Meu marido viu os limoeiros morrerem um por um", explica Elsie. "Foi a única vez na minha vida que o vi chorar de forma inconsolável."

Ela teve que tirar o passaporte americano e, aos 57 anos, procurar trabalho em Nova York como empregada doméstica para ajudar a alimentar sua família.

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Mais de 48% dos estudantes universitários cipriotas gregos entre 18 e 23 anos disseram nunca ter cruzado a fronteira ao norte, enquanto 43% fizeram apenas algumas vezes

"Éramos uma família rica. Da noite para o dia, perdemos todo o nosso patrimônio. Só sobrou esta casa", lembra ela, enquanto seu olhar se perde nos espaçosos cômodos.

Depois de alguns anos, quando suas forças físicas já estavam diminuindo, Elsie decidiu voltar a Nicósia e, desde então, esta casa vem sendo seu refúgio.
'Vítimas da situação'

Despeço-me de Elsie Slonim depois de ter recebido uma aula sobre a história ocidental do século passado.

Dou uma última olhada nas buganvílias de seu jardim e me dirijo para fora da zona militarizada.

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Do escritório do advogado Achilleas Demetriades, pode-se ver a enorme bandeira do RTCN iluminada todas as noites nas encostas de uma colina na parte norte de Nicósia

Enquanto os dois recrutas, de pouco mais de 20 e poucos anos, vasculham seus arquivos em busca do meu passaporte, me passa pela cabeça a conversa que tive, recém-chegado à ilha, com Achilleas Demetriades, advogado que talvez seja o maior especialista na questão cipriota, por ter defendido dezenas de casos perante a Convenção Europeia dos Direitos Humanos.

Além disso, durante 30 anos, até 2001, seu pai foi prefeito da zona sul de Nicósia e um dos políticos cipriotas gregos mais envolvidos na reunificação.

"Se você quer minha proposta de reunificação, eis aqui uma ideia simples", provoca o advogado.

"Em vez de construir monumentos para militares desconhecidos, por que as duas comunidades não se unem e constroem o monumento para os mortos desconhecidos?"

"Porque, afinal de contas", diz Demetriades. "Todos, de uma forma ou de outra, somos vítimas dessa situação."
BBC Brasil

Os segredos do clima guardados pela ilha mais isolada do mundo


Jonathan Amos

Direito de imagemSHARIF MIRSHAK/ACEImage caption
Tarefa de coletar dados na Ilha é díficil – o clima pode mudar de uma hora para outra e só é possível chegar até lá de helicóptero

É assim que a pesquisadora Liz Thomas descreve a sensação de trabalhar na inóspita Ilha Bouvet, uma pequena rocha vulcânica no Atlântico Sul. Esse território no meio do oceano, ao sul da Antártica, com altos penhascos cobertos por gelo, fica a milhares de quilômetros da civilização.

O clima lá não ajuda. As condições meteorológicas podem se deteriorar de maneira imprevisível. Em um momento, o céu está claro, mas no outro, você se vê rodeado por nuvens e névoas. Não é a toa que navegadores chamam Bouvet de a ilha mais remota do mundo e escritores e diretores de filmes de ficção científica a mencionam ou descrevem em livros e roteiros.

Mas essa ilha solitária tem chamado cada vez mais a atenção de cientistas pelo quanto ela pode nos informar sobre o clima da Antártica no passado.

Bouvet está em posição privilegiada para prover informações valiosas, já que ela se situa em um meio a um cinturão de ventos do oeste que têm efeito profundo na mudança climática.

Eles contribuem, por exemplo, para o aumento do nível do mar, ao mover para a superfície águas quentes do fundo do oceano que, então, derretem geleiras.

Direito de imagemBRITISH ANTARTIC SURVEYImage caption
Pesquisadores coletam núcleos de gelo para desvendar informações sobre as mudanças climáticas através dos anos

"Sabemos, por meio do histórico de observações, que esses ventos têm aumentado de força, mas esses registros só vão até 30 ou 40 anos atrás", diz Liz Thomas, do instituto de pesquisa British Antarctic Survey (BAS)

"O que nos interessa é saber se esse aumento da força do vento é resultado de uma variação natural. Eles aumentam em velocidade e depois diminuem? Ou isso é algo incomum, um efeito do impacto humano sobre o clima?", questiona.

Thomas e colegas pesquisadores recentemente desceram até a ilha de helicóptero – a única maneira de chegar lá – para coletar amostras de um núcleo de gelo. Os flocos de neve compactados são como um filme que registra o passado.

Quanto mais forte e rápido o sopro do vento, mais neve deve ser incorporada ao núcleo. E há outros marcadores. Diátomos – uma alga minúscula – que vivem na superfície do oceano são transportados da água para a neve.

Quanto mais vento, mais concentrada é a presença desses organismos nas camadas de neve da Ilha de Bouvet.
Gelo no mar

E não é apenas o registro do vento que a equipe de Thomas quer computar.

O grupo quer saber o tamanho do deslocamento anual de gelo nas águas, vindo da Antártica. Em alguns anos, as correntes chegam a empurrar o gelo até Bouvet.

A estudante de doutorado Amy King está examinando o núcleo de um composto orgânico específico que chegou até a ilha e que pode servir de base para entender as condições do gelo no mar existentes no passado.

Direito de imagemNASAImage caption
A visibilidade para o acesso à ilha pode ficar prejudicada pelo acúmulo inesperado de nuvens

Esse composto orgânico é um químico associados com uma alga que floresce no mar quando o volume de gelo diminui (pelo derretimento), liberando pigmentos fotossintéticos.

"Quanto mais gelo sobre as águas a gente recebe no inverno, maior o volume (desses químicos). Quando o gelo derrete na primavera, há uma área maior para o fitoplâncton crescer", explica King.

"Quanto mais fitoplâncton, mais desses compostos e ácidos metasulfônicos vamos encontrar no núcleo do gelo. Então, se estamos vendo compostos dessas origens no gelo, isso significa que houve um volume maior de gelo sobre as águas este ano (vindo da Antártica)."

As descobertas do time de Thomas foram apresentadas na American Geophysical Uninon, o maior encontro anual de cientistas que estudam a Terra e o espaço.

O pedaço de 14 metros de gelo retirado de Bouvet pela equipe de pesquisadores só traz dados sobre as condições de gelo aquático e de vento de 2001 para cá. Mas cientistas estão convencidos de que, se o grupo puder retornar à ilha, vai encontrar áreas de gelo e neve com registros mais antigos.

"Só ficamos em Bouvet por algumas horas, porque só podíamos trabalhar numa janela climática boa e tivemos que deixar a ilha rapidamente quando as nuvens começaram a baixar", explica Thomas.

"Mas eu definitivamente acho que existe a possibilidade de voltar lá e coletar um núcleo mais profundo de gelo que traga informações de centenas de anos, se não milhares, sobre as variações climáticas."

A pesquisa de Thomas foi feita em conjunto com as universidades de Maine, nos Estados Unidos, e Copenhague, na Dinamarca. Foi conduzida como parte da expedição antártica liderada pelo instituto de pesquisa Swiss Polar.
BBC Brasil

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