sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O primeiro país que o mar vai engolir com a mudança climática


Cerca de 100.000 pessoas vivem em Kiribati, um arquipélago no Pacífico que está em alerta desde 1989 por causa do nível do oceano. Um documentário conta a emigração de seus habitantes e a luta de seu ex-presidente

Madri 

Já se disse que Kiribati, um Estado composto por 33 ilhas no meio do Pacífico, algum dia vai virar uma Atlântida, e que seus habitantes ficarão irremediavelmente submersos pelas águas do oceano. Um relatório da ONU alertava, já em 1989, que esse seria o primeiro país a ser dizimado pela mudança climática no século XXI, devido à elevação do nível dos mares. O Governo desenhou nos últimos anos um plano de transferência populacional para as quase vizinhas ilhas Fiji, caso a inundação se confirme, e seu ex-presidente Anote Tong percorreu o mundo na última década levando o nome de seu país por todos os fóruns possíveis: a sede da ONU, as cúpulas climáticas, programas de televisão, visita oficiais a outros Estados, o Vaticano...

O ex-presidente Anote Tong, protagonista do documentário.

O fotojornalista canadense Matthieu Rytz aterrissou nesse país para uma reportagem há quatro anos e disse a si mesmo: “Esta é minha história”. Sem nenhuma experiência prévia no audiovisual, investiu todas as suas economias para acompanhar Tong em suas viagens e gravar o documentário Anote’s Ark (“a arca de Anote”), que estreou no festival de Sundance e será exibido no madrilenho Another Day Film Festival, que acontece de 4 a 7 de outubro. A programação do evento reúne cerca de 20 documentários sobre ativismo, desenvolvimento sustentável, consumo responsável e saúde global. A história de Anote fecha o ciclo.

“Estamos tão isolados que sempre achamos que as atribulações do mundo nada tinham a ver conosco, mas aqui estamos, submetidos ao fenômeno global da mudança climática”, diz o ex-presidente no filme. Em 2016, ele perdeu as eleições para Taneti Mamau, um mandatário que promoveu uma guinada na política externa de Tong e se centrou em potencializar o turismo e a pesca num plano para os próximos 20 anos. Depois de quatro anos indo e vindo das ilhas, Rytz já não é bem recebido em Kiribati. “No Natal passado fui para lá projetar o documentário. Para mim era importante que, depois de ter convivido com eles, vissem o resultado. Estava na casa de alguns amigos com minha mulher, e três policiais ficaram com meu computador e me disseram que eu precisava pegar o próximo voo”, relata por telefone.

Os habitantes de Kiribati são gente da água. Brincam nela, dela obtêm seu alimento diário, são açoitados por violentas tempestades, suas casas são construídas com o pé na areia. “Para eles o mar tem um sentido quase espiritual, sentem um grande respeito pelo oceano porque, quando você está lá, literalmente só vê mar”, conta o cineasta. Além de ser devorados completamente pelo Pacífico, seus habitantes já enfrentam a falta de água potável, e alguns povoados costeiros precisaram se deslocar alguns metros para o interior do território. O documentário de Rytz contém lindas imagens em que a água, que lhes dá vida e pode acabar matando seu país, é a protagonista. Grandes planos gravados com um drone mostram o imenso azul que rodeia Kiribati e onde seus cidadãos submergem a cada dia.


Tiemeri, mãe de seis filhos, decide abandonar sua ilha em busca de um futuro para sua família na Nova Zelândia. A natalidade em Kiribati supera os três filhos por mulher

O documentário também acompanha Tiemeri, mãe de seis filhos que decide abandonar a ilha em busca de um futuro para sua família na Nova Zelândia. Kiribati ocupa 139º. lugar entre 184 países que compõe o ranking do IDH (índice de desenvolvimento humano). A população do país oceânico não para de crescer, e a natalidade supera os três filhos por mulher. Organizações como o Banco Mundial elaboraram relatórios para propor a acolhida obrigatória dos habitantes das ilhas do Pacífico por parte da Austrália e Nova Zelândia. Os kiwisoferecem anualmente 75 postos de trabalho para os quiribatianos, graças a um acordo bilateral.

Mais de metade da população de Kiribati é católica, mas o fotojornalista relata que nos últimos anos a igreja mórmon de Utah (EUA) andou investindo dinheiro nesse Estado insular e ganhando adeptos para sua fé. “A maioria da comunidade nestas ilhas se organiza em torno da igreja, é um lugar de encontro para eles. Por isso quando o presidente foi ver o Papa estava convencido de que seria algo relevante”, resume Rytz. No filme, é possível ver igrejas abarrotadas, com paroquianos que brigam por espaço para beijar as imagens religiosas antes das danças tradicionais polinésias.

Enquanto limpa um peixe, Tong resume assim a realidade em que vive há mais de uma década: “Quem foi embora perdeu a conexão espiritual com Kiribati, porque já não se considera nativo. Não podemos resistir, estas ilhas vão desaparecer. Se formos embora, preservar nossa cultura e tradições não será nada fácil”.

Imagem do documentário sobre Kiribati.


OUTROS TÍTULOS EXIBIDOS NO ANOTHER DAY FILM FESTIVAL


Jane. Gravações inéditas mostram os primeiros dias da primatologista Jane Goodall na Tanzânia e sua história de amor com o cinegrafista que as filmou

Silas. Retrata a vida do ativista Silas Siakor e sua luta pela defesa da terra na Libéria

When Lambs Become Lions. A história de um comerciante de marfim e sua prima na selva do Quênia.

The End of Meat. Relato que imagina um mundo pós-carne.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

O que é o campo magnético da Terra? O que ele influencia?


Um dia, num futuro distante, as bússulas deixarão de apontar o norte

Janaína Harada

ILUSTRA Tila Barrionuevo
EDIÇÃO Felipe van Deursen

(Tila Barrionuevo/Mundo Estranho)

É uma gigantesca distorção magnética criada pelo núcleo terrestre, que funciona como um ímã. O núcleo é dividido em duas partes, a interna, formada por ferro, níquel e outros metais em estado sólido, e a externa, em que esses elementos estão na forma líquida.

Por causa da rotação terrestre, os metais líquidos estão em movimento constante, o que produz correntes elétricas. Essa é a chamada Teoria do Dínamo, que diz que as cargas elétricas no núcleo externo originam o campo magnético, que exerce influência em todo o planeta. A principal função dele é a manutenção da atmosfera e, consequentemente, da vida na Terra.

O campo magnético protege as camadas de ar ao minimizar ataques de ventos solares. Sem tal defesa, as partículas lançadas pelo Sol arrancariam a atmosfera do planeta.

Um ímãzão desses, bicho!

Campo magnético influencia de minhocas até auroras boreais


(Tila Barrionuevo/Mundo Estranho)

1.PAREM AS MÁQUINAS
Quando erupções solares massivas entram em contato com o campo magnético da Terra, ocorre a tempestade magnética. Essas partículas ejetadas pelo Sol criam correntes elétricas, que interferem no campo da Terra. Assim, as perturbações afetam equipamentos de aviação, satélites, sistemas de comunicação e navegação

2.CORRA E OLHE O CÉU
As auroras boreal e austral são o resultado de tentativas de partículas carregadas, ejetadas pelo Sol, em penetrar na atmosfera. Quando esses íons atingem o campo magnético terrestre, eles são desviados, principalmente para os polos. Lá, interagem com os átomos de oxigênio e nitrogênio, que liberam fótons (partículas de luz), criando, assim, as auroras

3.ANIMAIS
Um estudo da Universidade do Texas (EUA) identificou uma molécula no cérebro da minhoca que age como um sensor que orienta o animal em relação ao campo magnético. Outro estudo diz que o magnetismo funciona não só como bússola mas também como visor para aves migratórias: ele reforça brilhos e cores no campo de visão dos pássaros, guiando-os

DE PONTA-CABEÇA
Nem sempre os polos magnéticos ficam no mesmo lugar

A ciência ainda não sabe por quê, mas os polos magnéticos não são fixos. Hoje, o polo norte magnético, de onde saem as linhas de campo, fica próximo do Polo Sul. Já o sul magnético, para onde as linhas vão, fica perto do Polo Norte. Por isso, as bússolas apontam o norte. A última vez que os polos estavam em posição invertida foi há cerca de 780 mil anos

CONSULTORIA Jorge Deveikis Junior, físico e mestrando em ensino de física pela USP
FONTES Faculdade de Ciências da Unesp (São Paulo), Serviço Geológico do Brasil, Physics.org, Cosmo Magazine, MIT, Inpe e Nasa; estudo A New Type of Radical-Pair-Based Model for Magnetoreception, vários autores
Revista Mundo Estranho

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

A ordem mundial do petróleo


José Luís Fiori

Plataforma (Foto: Divulgação/Petrobras)

Publicado no Jornal do Brasil

POR JOSÉ LUÍS FIORI, cientista político e professor titular da UFRJ

Nas duas últimas décadas do século passado, a Guerra Irã- -Iraque, entre 1980 e 1988; a Guerra do Golfo, entre 1990 e 1991; e o fim da URSS, em 1991, atingiram em cheio alguns dos maiores produtores e exportadores mundiais de petróleo, dividindo e enfraquecendo a Opep e destruindo a capacidade de produção russa. Foi um período de anarquia no mercado mundial de petróleo, o mesmo momento em que as grandes corporações petroleiras privadas promoveram uma grande desconcentração e “desverticalização” do seu capital e de suas estratégias, enquanto o petróleo era transformado num “ativo financeiro”, cujo preço era renegociado diariamente nas bolsas de Nova York e Londres. Mas no fim dos anos 90 e início do século 21, essa tendência foi revertida de forma abrupta e radical. E tudo começou, surpreendentemente, pelas próprias petroleiras privadas anglo-americanas, que comandaram, a partir de 1998, uma nova revolução na indústria privada do petróleo, envolvendo-se num processo gigantesco de fusões de empresas, que já eram as maiores do mundo e que deram origem às atuais Exxon-Mobil, ConocoPhillips, Chevron, BP, Total, ou mesmo à norueguesa StatoilHydro.

Esse terremoto se alastrou logo em seguida, assumindo novas formas com a reestatização e reorganização das “gigantes energéticas” russas, chinesas e indianas, ao lado das que já estavam no mercado, mas alargaram suas ambições, na Arábia Saudita e em todo o Golfo Pérsico, na Venezuela, Nigéria, México, Argélia, Angola e também no Brasil, sobretudo depois da descoberta do petróleo em águas profundas, em 2006. Uma transformação tão rápida e profunda que levou o grande especialista em petróleo norte-americano Michael Klare a dizer que o mundo havia entrado numa “nova ordem energética internacional”, caracterizada pela hiperconcentração do capital petroleiro privado, pela multiplicação das grandes petroleiras estatais e pela crescente hegemonia do nacionalismo econômico e do “nacionalismo energético”, entre as grandes potências do sistema mundial, mesmo entre as chamadas “potências liberais”, incluindo os Estados Unidos de Donald Trump, o último dos “conversos”. E, de fato, 20 anos depois do início dessa transformação, cerca de dois terços das reservas de petróleo do mundo se concentram no território de 15 países, e em 13 deles são de propriedade estatal; das 20 maiores empresas petroleiras do mundo, 15 são estatais e controlam 80% das reservas mundiais. As outras cinco empresas são privadas – três anglo-americanas, uma holandesa e uma francesa – e controlam menos de 15% da oferta mundial do petróleo. Por isso tem toda razão Daniel Yergin – outro grande especialista americano – quando diz que nos dias de hoje as principais decisões relativas ao petróleo – da definição dos preços ao traçado das grandes estratégias – são tomadas pelos Estados nacionais e suas grandes empresas públicas. Cabe sublinhar, além disso, que pelo lado da demanda mundial do petróleo, 50% do seu crescimento nos próximos 30 anos deve vir de China e Índia.

É muito difícil identificar uma causa única que explique essa revolução na ordem mundial do petróleo. Mas é possível destacar três tipos de turbulências fundamentais, que ocorreram simultaneamente. No plano econômico, o enorme crescimento dos países asiáticos e, em particular, da China e da Índia, que produziu um verdadeiro “choque de demanda” sobre o mercado mundial de petróleo. E, pelo lado da oferta, a grande expansão, nesse início do século 21, da produção americana de petróleo e gás, que recolocou os EUA na liderança do negócio mundial de energia. Por outro lado, no plano geopolítico, a guerra quase contínua no Oriente Médio, que se prolonga desde 2001, provocando um verdadeiro “choque de expectativas” negativas, com a perspectiva de uma guerra permanente envolvendo as grandes potências e quase todos os países de dentro e fora daquela região com grandes reservas de petróleo.

Por fim, como consequência dos dois fatores anteriores, a verdadeira “corrida” das grandes potências, para conquistar e monopolizar os novos recursos descobertos nesse período, em qualquer lugar do mundo, mas sobretudo no Canadá, Venezuela e Brasil, e em alguns pontos da África. Assim mesmo, num plano mais geral e de longo prazo, se pode afirmar que essa nova ordem é um produto direto e necessário da gigantesca expansão do sistema interestatal capitalista, que ocorreu de forma concentrada nas últimas décadas. Não se trata apenas da China e da Índia; trata-se de um sistema com 200 Estados nacionais que disputam atualmente um recurso absolutamente escasso, essencial para a sobrevivência como sociedades e economias nacionais, mas também como unidades territoriais soberanas que participam de uma luta que deve se intensificar nas próximas décadas, sem deixar lugar para neutralidades.

Nesse contexto geopolítico só uma elite inteiramente corrompida e rebaixada, do ponto de vista moral, e completamente imbecilizada, do ponto de vista intelectual, pode abrir mão do controle estatal de seus recursos energéticos nacionais já conquistados.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Concepções erradas acerca do neoliberalismo




Enviado por Almeida

Do resistir.info
Prabhat Patnaik [*]

O neoliberalismo muitas vezes é encarado apenas como uma política econômica. Isto por si pode não importar, uma vez que um conjunto específico de medidas econômicas cai, sem dúvida, sob a categoria de neoliberalismo. Mas ao reduzir o neoliberalismo apenas a um conjunto de medidas econômicas por vezes é transmitida a impressão enganosa de que tais medidas são uma questão de escolha por parte da formação política burguesa dominante, isto é, que um conjunto "não neoliberal" de medidas também poderia ser seguido, mesmo nas condições do capitalismo contemporâneo, bastando apenas que a formação política burguesa instalada no governo assim o decidisse.
Reduzir o neoliberalismo a uma mera política econômica abre caminho para esta concepção errada. Na verdade, o neoliberalismo é de facto uma mera descrição (e bastante má) de todo um conjunto de medidas que estão necessariamente associadas à hegemonia da finança globalizada. Estas medidas não são uma matéria de escolha por parte de alguma formação política burguesa particular; elas teriam de ser adotadas na época contemporânea por qualquer formação política burguesa, isto é, desde que o país permaneça dentro da órbita capitalista, de onde se segue que qualquer formação política que pretenda seriamente anular estas medidas teria necessariamente de estar preparada para transcender o capitalismo. Ela pode ter de fazer isso, sem dúvida através de toda espécie de complexos passos tácticos, mas não pode tranquilizar-se fazendo vista grossa para a necessidade de assim fazer. Este ponto adquire particular significância no contexto da Grécia de hoje e de outros países europeus que no futuro possam vir a ter governos de esquerda anti-"austeritários".

O ponto a destacar aqui é análogo àquele que Lenine apontou contra Karl Kautsky na questão do imperialismo. Ele acusou Kautsky de pensar acerca do imperialismo como uma política e dessa forma sugerir que uma política não imperialista também seria possível naquele tempo, ou na base do próprio capitalismo monopolista ou através de uma regressão do monopolismo outra vez à "livre competição", da qual havia emergido. Mas tais possibilidades, argumentou ele, eram absolutamente irreais e representavam uma absoluta lavagem cerebral, ou uma fantasia "pequeno-burguesa".

Para sublinhar que não se pode destacar o imperialismo do capitalismo monopolista desta maneira, que não se tratava de uma "política" que pudesse ou não ser adotada conforme a vontade do governo dominante sob o capitalismo monopolista, ele definiu o imperialismo como a fase monopolista do capitalismo. A réplica de Kautsky a isto, nomeadamente de que se alguém definiu imperialismo como capitalismo monopolista, então esse alguém não provou a "necessidade" do imperialismo para o capitalismo mas simplesmente avançou-a como definição, também emergia naturalmente da sua posição. Eles apenas exprimiu a sua percepção de que a necessidade do imperialismo era um assunto independente o qual tinha de ser tratado separadamente, de onde se seguia como uma possibilidade manter o capitalismo monopolista mas abolir esta necessidade, isto é, que uma política não imperialista seria possível naquele tempo mesmo sem transcender o capitalismo.

De modo exatamente análogo, o neoliberalismo não é uma coisa separada e destacável do capitalismo contemporâneo. Ele é o capitalismo contemporâneo, uma manifestação deste capitalismo contemporâneo, caracterizado pela hegemonia do globalizado, isto é, do capital financeiro, internacional.

Frequentemente encontramos uma imagem espelhada deste argumento da "separabilidade" quanto à "globalização", a qual predomina em círculos de esquerda, especialmente na Europa. Este argumento sustenta que a "globalização" que hoje se verifica é uma coisa "boa", muito embora o capitalismo contemporâneo seja "mau", de modo que deveríamos de algum modo reter esta "globalização" mesmo enquanto tentamos transcender o capitalismo contemporâneo. O que faz esta argumentação é destacar a "globalização" contemporânea do capitalismo contemporâneo e sugerir que deveríamos reter uma mas não o outro. Mas a "globalização" que se está hoje a verificar não é menos manifestação do capitalismo contemporâneo do que as medidas econômicas abrangidas pelo termo neoliberalismo. Assim como não podemos nos livrar do neoliberalismo e ao mesmo tempo reter o capitalismo contemporâneo, da mesma forma não podemos nos livrar do capitalismo contemporâneo e ao mesmo tempo reter a globalização contemporânea. Eles em conjunto constituem uma unidade integral que tem de ser transcendida. Através de que passos tácticos particulares se faz isto é uma questão separada, mas imaginar que um componente disto pode ser retido enquanto o outro é descartado é ignorar esta unidade. Isto equivale a lavagem cerebral.

CAPITALISMO DESENFREADO 

A questão que se levanta é: quais são os traços característicos desta unidade que constitui o capitalismo contemporâneo? Obviamente aqui só se pode aflorar alguns deles, mas todos eles decorrem do facto de que o capitalismo de hoje é um "capitalismo desenfreado". A restrição que o capitalismo enfrentava quando estava empenhado numa luta contra a aristocracia (a qual havia entre outras coisas forçado a aprovação de legislações fabris na Inglaterra); a restrição que o capitalismo enfrentava quando estava empenhado numa luta contra a ascensão do proletariado, quando o encarava como se o socialismo estivesse prestes a conquistar o mundo; e a restrição que o capitalismo enfrentava quando estava organizado em linhas "nacionais", quando o capital financeiro "nacional" tentava impor-se sobre o Estado-nação contra a resistência dos trabalhadores, especialmente no período pós segunda guerra quando esta resistência forçou a instituição da democracia eleitoral nos países capitalistas avançados: esta conjuntura de restrições parece por agora tem sido suspensa. O desafio socialista diminuiu por enquanto; e a "globalização" do capital forçou Estados-nação, mesmo aqueles cujos governos obtêm apoio da classe trabalhadora, a aceder às exigências deste capital. As características do capitalismo contemporâneo portanto decorrem de certo modo desta conjuntura de "capital desenfreado". O que são estas características que são imanentes ao capitalismo, mas estão agora a serem exprimidas com uma "liberdade" sem precedentes?

Uma é o propagar da mercantilização (commoditisation) numa escala até agora nunca vista. De particular relevância aqui é a mercantilização de sectores como educação e saúde. No país capitalista mais velho do mundo, a Inglaterra, mais de dois séculos decorreram desde a revolução industrial, antes de a esfera da educação superior ficar aberta à obtenção de lucro privado. A mercantilização da educação superior tem duas implicações. Uma é que aqueles que são os produtos desta também são meras mercadorias com pouca sensibilidade social e o que é verdade para os países capitalistas avançados verifica-se com muito maior força nos chamados países capitalistas "emergentes". A destruição da sensibilidade social entre os produtos da educação superior é executada aqui com muito maior extensão. Os outro é uma tentativa de mercantilizar seja o que for que reste da resistência intelectual ao capitalismo e portanto enfraquecê-la.

A segunda característica é uma destruição implacável da pequena produção . Historicamente o capitalismo subjugou a pequena produção (ou, mais geralmente, a produção pré capitalista) para os seus próprio objetivos através do colonialismo, sem necessariamente suplantá-la (excepto nas regiões temperadas de colonização branca onde a terra dos "nativos" foi tomada pelos imigrantes das metrópoles); mas contra tal subjugação também houve resistência maciça dos pequenos produtores. Na nossa própria história, a cadeia de revoltas, desde a revolta do Índigo ao levantamento de 1857, culminando num apoio do campesinato em grande escala à luta de libertação anti-colonial, são exemplos óbvios de tal resistência. A descolonização trouxe restrição a esta subjugação, mas o capitalismo contemporâneo, negando os regimes econômicos dirigistas pós coloniais e integrando as oligarquias corporativo-financeiras das nações ex-coloniais no corpus do capital financeiro internacional, não só ressuscitou este processo implacável de subjugação de pequenos produtores como está agora a embarcar num processo maciço de expropriação(dispossession) de tais produtores, de "acumulação primitiva de capital" nua, da qual a "Lei de tomada da terra" (" Land Grab Bill ") atualmente no parlamento indiano é um exemplo óbvio. O fenômeno de 200 mil camponeses cometerem suicídio após a assimilação da Índia dentro do mundo hegemonizado pelo capital financeiro internacional revela a severidade deste processo.

O terceiro é um enorme aumento da desigualdade econômica , não só em riqueza mas também em rendimentos e não só globalmente, entre os trabalhadores do mundo e as oligarquias corporativo-financeiras mundiais, mas também dentro de cada país, entre estes dois pólos dentro de cada país. Este problema tornou-se tão significativo que o livro de Thomas Piketty se tornou um best-seller instantâneo. E mesmo a cimeira econômica de Davos dos líderes mundiais do capital listou-a como uma das três principais questões que confrontam a "espécie humana". A razão para este aumento da desigualdade é que enquanto o exército de reserva mundial do trabalho permanece grande e em toda plenitude, suas consequências destrutivas, de não permitir que as taxas de salário reais aumentem, agora não estão confinadas apenas aos países do terceiro mundo onde existem grandes reservas de trabalho. Elas estendem-se aos países capitalistas avançados cujos trabalhadores também têm de evitar reivindicações de aumentos salariais, temendo que o capital, agora "globalizado", se mude para países do terceiro mundo com salários mais baixos. Portanto, com salários reais por toda a parte a não aumentarem, todos os aumentos na produtividade do trabalho aumentam a fatia do excedente no produto e em consequência a desigualdade do rendimento. Isto ocorre globalmente bem como dentro de cada país.

CRESCIMENTO DA FOME MUNDIAL 

Um aspecto deste fenómeno é o crescimento da fome mundial. Sugerimos acima que salários reais permanecem ligados a algum nível de subsistência em países do terceiro mundo. Mas mesmo isto não acontece. A privatização da educação, saúde e outros serviços essenciais aumenta os seus custos enormemente, o que corrói o poder de compra dos trabalhadores e realmente reduz sua despesa real per capita com alimentos. Quando acrescentamos a isto, que basicamente afeta os trabalhadores empregados ou "exército do trabalho na ativa", o facto de que a expropriação de pequenos produtores também incha o exército de reserva, a escala de aumento na magnitude da fome mundial torna-se entendível.

A quarta característica está ligada a este aumento na desigualdade. Um tal aumento produz ao nível mundial uma tendência rumo à super-produção (uma vez que uma mudança de distribuição do rendimento dos trabalhadores para os grandes capitalistas tem como efeito deprimir a procura). Numa situação em que os Estados-nação que confrontam o capital internacional têm pouca opção a não ser obedecer ao seu diktat, o capital utiliza este facto para extorquir novas concessões do Estado com o fundamento de que tais concessões, ao melhorarem o estado de confiança dos "investidores", superariam a crise de super-produção. Em suma, foi construída na conjuntura contemporânea uma dialéctica de crescente desigualdade de rendimento, persistindo ou mesmo acentuando a crise econômica e o crescente poder de classe do capital – que realmente agrava tanto a desigualdade como a crise mas que paradoxalmente é defendida como um caminho de saída da crise.

A quinta característica decorre da anterior. As instituições democráticas tais como existem em países capitalistas resultaram de lutas dos trabalhadores. Uma vez que esta "restrição" da militância de trabalhadores foi levantada, a tendência natural do capitalismo seria afundar tais instituições (também, inter alia, mercantilizando-as). Entretanto, além da persistente dialéctica mencionada acima, de desigualdade crescente, crises persistentes e aumento do poder de classe do capital, a qual é justificada em nome da superação da crise que no entanto persiste, aumenta o temor do capitalismo, e a sua hostilidade, a instituições democráticas. Desde financiar grupos fascistas, dividir o povo de acordo com linhas étnicas e religiosas, o flagrante recurso à mentira (como no caso da guerra do Iraque), à supressão absoluta de instituições democráticas, todo um conjunto de métodos é empregue para assegurar que tais instituições sejam adequadamente enfraquecidas. Ao mesmo tempo, a tentativa de manter o povo dividido cria uma situação de desintegração social. O recurso ao autoritarismo político e a desintegração social tornam-se então a marca inconfundível do capitalismo contemporâneo.
17/Maio/2015

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
jornalggn.com.br

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

A verdade sobre o nióbio


Um tesouro gigantesco, capaz de transformar o Brasil em país de primeiro mundo? Um grande mal-entendido, envolto em mitos e exageros? Ou as duas coisas? Saiba o que é real, e o que é ficção, sobre o metal mais polêmico da atualidade.
 Tiago Cordeiro e Bruno Garattoni

(Tomás Arthuzzi/Thales Molina/Superinteressante)

Parece mágica. Você joga um punhadinho de nióbio, apenas 100 gramas, no meio de uma tonelada de aço – e a liga se torna muito mais forte e maleável. Carros, pontes, turbinas de avião, aparelhos de ressonância magnética, mísseis, marcapassos, usinas nucleares, sensores de sondas espaciais… praticamente tudo o que é eletrônico, ou leva aço, fica melhor com um pouco de nióbio. Os foguetes da empresa americana SpaceX, os mais avançados do mundo, levam nióbio. O LHC, maior acelerador de partículas do planeta, e o D-Wave, primeiro computador quântico, também. Todo mundo quer nióbio – e quase todas as reservas mundiais desse metal, 98,2%, estão no Brasil. Nós temos o equivalente a 842 milhões de toneladas de nióbio, que valem inacreditáveis US$ 22 trilhões: o dobro do PIB da China, ou duas vezes todo o petróleo do pré-sal. Por isso, há quem diga que o nióbio pode ser a salvação do Brasil, a chave para o País se desenvolver e virar uma potência global. Mas de que forma o nióbio é explorado hoje em dia, e quem ganha com ele?

É verdade, como se ouve por aí, que estamos exportando nossas reservas a preço de banana? E, se esse metal vale tanto, por que há tão pouca informação sobre ele? Há muitas lendas a respeito do nióbio. A mais importante: ele é, de fato, um elemento estratégico e raro. Mas não se trata de uma fonte inesgotável de riqueza.
A filha de Tântalo

O nióbio foi descoberto em 1801 pelo cientista britânico Charles Hatchett, que o batizou de columbium, em referência ao local de onde a amostra tinha vindo – Connecticut, nos Estados Unidos, numa época em que os poetas ingleses se referiam ao país como Columbia. Anos depois, o nióbio foi confundido com o tantálio pelo químico inglês William Hyde: ele afirmou que os dois elementos eram idênticos. Foi só em 1846 que outro químico, o alemão Heinrich Rose, comprovou que eram coisas diferentes. Quando a confusão foi desfeita, os americanos continuaram chamando o elemento de columbium, mas os europeus adotaram o nome nióbio: referência a Níobe, figura da mitologia grega, filha de Tântalo (uma piadinha com o antigo debate nióbio versus tantálio).

No final do século 19, o nióbio começou a ser usado nos filamentos de lâmpadas, até descobrirem que o tungstênio é mais resistente. A partir dos anos 1930, começaram a surgir pesquisas indicando que misturar nióbio com ferro era uma boa ideia. Mas, para usá-lo em escala industrial, era preciso encontrar uma boa quantidade desse metal. Na década de 1960, foi descoberta a primeira grande reserva do planeta: em Araxá, a 360 km de Belo Horizonte. Em 1965, o almirante americano Arthur W. Radford, integrante do conselho da mineradora Molycorp, convidou o banqueiro brasileiro Walther Moreira Salles para montar uma empresa de extração e refino do nióbio. A Molycorp tinha acabado de comprar algumas minas em Araxá. O brasileiro topou, e nasceu a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM).

(Tomás Arthuzzi/Thales Molina/Superinteressante)

Como em 1965 o metal ainda não tinha utilidade comprovada, o governo militar deixou passar batido – e permitiu que a CBMM, junto com os americanos, explorasse o nióbio à vontade. Aos poucos, Salles foi comprando a parte dos americanos, o que os militares viram com bons olhos. Na década seguinte, a CBMM virou controladora mundial de um mercado que nem sequer existia. Não existia, mas passou a existir: nos anos 1970, a empresa descobriu dezenas de utilidades para o nióbio – que hoje é um dos principais negócios da família Moreira Salles (também dona do banco Itaú).

A CBMM não vende o minério bruto, e sim uma liga chamada ferronióbio, que contém 2/3 de nióbio e 1/3 de ferro. Além desse produto, seu carro-chefe, ela também comercializa dez outras formulações à base de nióbio. A empresa tem 1.800 funcionários e lucra R$ 1,7 bilhão por ano. Em 2011, vendeu 30% de suas ações para um grupo de empresas asiáticas, mas com restrições: os brasileiros mantiveram o controle da empresa, e não cederam nenhuma informação técnica sobre o processamento do nióbio – um segredo industrial que tem 15 etapas e foi inventado pela empresa dos Moreira Salles. “Ele envolve mineração, homogeneização, concentração, remoção de enxofre, remoção de fósforo e chumbo, metalurgia, britagem e embalagem”, explica Eduardo Ribeiro, presidente da CBMM. “Para produzir o nióbio metálico, por exemplo, é necessário realizar uma última etapa em um forno de fusão por feixe de elétrons, que atinge temperaturas superiores a 2.500 oC”, diz.

Além da CBMM, há outra empresa explorando nióbio no País: a Anglo American Brazil, que opera em Catalão, Goiás. Também há nióbio na Amazônia, mas ele ainda não começou a ser minerado. Só o que temos em Minas Gerais e Goiás já é suficiente para abastecer toda a demanda mundial pelos próximos 200 anos. Os maiores compradores são China, EUA e Japão, que pagam em média US$ 26 mil pela tonelada de nióbio (esse valor é uma estimativa, pois o metal não é vendido em bolsas de commodities; o preço é negociado caso a caso, direto com cada comprador). Há quem diga que esse valor é muito baixo – o ouro, por exemplo, é comercializado a US$ 40 mil o quilo. Se o nióbio é tão útil, e o Brasil controla quase todas as reservas, não poderia cobrar mais caro? O governo brasileiro não deveria exigir royalties sobre a venda? E por que apenas 10% das tubulações de aço do planeta usam nosso produto? Há respostas para tudo isso.
Nada é perfeito

A primeira delas: o nióbio é substituível. Vanádio e titânio cumprem basicamente a mesma função. O vanádio é encontrado na África do Sul, na Rússia e na China. O titânio está presente na África do Sul, na Índia, no Canadá, na Nova Zelândia, na Austrália, na Ucrânia, no Japão e na China. Esses países preferem explorar suas próprias reservas a depender de um mineral que é praticamente exclusivo de uma nação só – o Brasil. Em alguns casos, também é possível trocar o nióbio por tungstênio, tântalo ou molibdênio. “Não há mercado para mais nióbio”, afirma o economista Rui Fernandes Pereira Júnior, especialista em recursos minerais.

(Tomás Arthuzzi/Thales Molina/Superinteressante)

Outra questão é que é preciso pouco nióbio para que ele faça sua mágica. “As reservas brasileiras são suficientes para abastecer o mundo por séculos. Mas aquelas existentes em outras regiões do planeta, como o Canadá [que, como a Austrália, também possui nióbio], também são”, diz Roberto Galery, professor do departamento de Engenharia de Minas da UFMG. Quer dizer: não adianta aumentar muito o preço do nióbio, pois os compradores tenderão a optar por outros metais, nem tentar acelerar demais a exportação (pois aí haverá excesso de oferta de nióbio, fazendo o valor desse metal despencar).

Há outra questão: o Brasil só exporta o nióbio em si. Não fabrica produtos derivados dele. “Ninguém está disposto a pagar uma fortuna pelo nióbio, porque nós não conseguimos dar valor agregado a ele”, diz o professor Leandro Tessler, do Instituto de Física da Unicamp. “Nós repetimos nosso velho ciclo: vendemos matéria-prima e compramos produtos prontos. Vendemos nióbio e compramos fios de tomógrafos, por exemplo.” É um caso parecido com o do silício. Nós temos as maiores reservas de areia do planeta (e é da areia que o silício é extraído), mas só exportamos silício com 99,5% de pureza, menos que os 99,99999% exigidos pela indústria eletrônica.

E os royalties? O Brasil cobra pouco, mas cobra. O Estado fica com 2% do valor das exportações de nióbio – bem menos do que a Austrália, que exige 10%. Nós poderíamos impor royalties mais altos (com o petróleo, por exemplo, eles ficam entre 5% e 10%). Mas não há sinais de que isso vá ser feito. O Marco Regulatório da Mineração, que está tramitando no Congresso desde junho, não traz nenhuma regra específica para o nióbio.


(Tomás Arthuzzi/Thales Molina/Superinteressante)

Depois de crescer 10% ao ano na década passada, o mercado mundial de nióbio está estável. A demanda é de 100 mil toneladas anuais, 90% fornecidas pelo Brasil. De todos os 55 minérios que o Brasil exporta, o nióbio é o único em que somos líderes globais. Ele é o nosso terceiro metal mais exportado em valor financeiro (atrás do minério de ferro e do ouro, e empatado com o cobre na terceira posição).

“O surgimento de novas tecnologias pode levar ao aumento do mercado de nióbio”, diz Marcelo Ribeiro Tunes, diretor do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM). Afinal, o consumo mundial cresceu cem vezes desde a década de 1960, e é provável que a tecnologia continue a dar saltos (e encontrar novos usos para o nióbio) no futuro. Mas, se quisermos explorar todo o valor dessa riqueza natural, precisamos aprender o que fazer com ela – e começar a fabricar produtos mais sofisticados. “O Brasil deveria desenvolver a tecnologia desse material na medicina, nos transportes, na engenharia”, afirma Rui Fernandes Pereira Júnior. Do contrário, vamos continuar à mercê dos compradores estrangeiros. Como sempre estivemos desde que, no comecinho do século 16, navegadores portugueses descobriram a primeira de nossas commodities: uma madeira chamada pau-brasil.
Revista Superinteressante

domingo, 22 de julho de 2018

O alvo agora é o plástico, o próximo pode ser o seu negócio


As imagens chocantes de ilhas de plástico e de animais mortos por ingerirem todo tipo de resíduo são chocantes. Qual será o próximo produto ou impacto insustentável de uma indústria ou serviço que estará na berlinda?

Álvaro Almeida

O plástico é o inimigo da vez, quando o assunto é sustentabilidade. E não há qualquer injustiça nisso. É inadmissível a forma como passamos a usar de maneira irresponsável uma matéria-prima que tem muitas qualidades, mas pode gerar imensos danos ambientais e sociais. O problema não é o plástico, mas como o usamos. Por comodidade, adotamos o seu uso em descartáveis e não nos preocupamos com o que acontece com as toneladas que jogamos no lixo após uma simples e fugaz utilização. Talheres, canudinhos, copos, garrafas, saquinhos, todo plástico chamado de “uso único” – ou seja, usou e joga fora – está com os dias contados. E mais: todos e qualquer uso do plástico deve considerar sua reciclagem e volta como matéria-prima à produção.

A pressão contra o plástico começou há alguns anos, quando ONGs e especialistas passaram a chamar a atenção para, sobretudo, a poluição dos oceanos pelo plástico mal descartado no mundo todo. As imagens chocantes de ilhas de plástico e de animais mortos por ingerirem todo tipo de resíduo plástico são chocantes. A ciência foi capaz de reunir dados suficientes para demonstrar como o plástico entrou em nosso estilo de vida e está nos afetando. Há estudos demonstrando que já estamos ingerindo microplásticos sempre que degustamos peixes e frutos do mar.

Nossos hábitos de consumo tão arraigados, que a revista National Geographic, que publicou uma maravilhosa edição em junho com o título Mar de Plástico foi chamada de incoerente por ser distribuída aos assinantes no Brasil envolta em duas proteções de plástico. O lapso do sistema editorial não invalida o conteúdo. A pressão somente aumenta e começamos a ver de todos os lados notícias de proibição do uso de canudos, copos, sacos e garrafas. A regulação sempre responde à pressão da sociedade, cedo ou tarde. Este é o grande ponto que deve ser levado em consideração pelos gestores de todas as empresas.

Hoje é o plástico, e amanhã? Qual será o próximo produto ou impacto insustentável de uma indústria ou serviço que estará na berlinda? A tendência é que novos alvos sejam identificados na medida em que organizações da sociedade civil consigam articular evidências suficientes para demonstrar o efeito danoso ao equilíbrio da vida. Mudanças serão exigidas e os ajustes terão o seu custo. Minhas apostas estão na indústria da carne, responsável por mais de 40% das emissões causadoras das mudanças climáticas, e no sistema financeiro, diretamente relacionado à desigualdade e à concentração de riqueza, cada vez mais crescentes no planeta.O futuro dirá qual será o novo ponto de pressão da sociedade.
Revista Isto é Dinheiro

Rússia afirma que pode aumentar produção de petróleo


Exploração de petróleo em em Otrada, na Rússia. Foto: Andrey Rudakov/ Bloomberg.

Objetivo é enfrentar possível déficit no mercado. Outros países da Opep têm o mesmo planejamento.

A Rússia planeja elevar ainda mais a produção de petróleo, caso problemas de suprimento atinjam o mercado global. De acordo com informações da agência de notícias Reuters, o ministro de Energia da Rússia, Alexander Novak, afirma que o país e outros grandes produtores de petróleo estão com a mesma ideia.

Nas últimas semanas, os preços do petróleo alcançaram as máximas atingidas em 2014, em meio à queda esperada nas exportações da commodity do Irã em 2018 devido à retomada das sanções dos EUA sobre o país, além da queda na produção da Venezuela e problemas na oferta da Líbia, Canadá e Mar do Norte.

A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e outros países produtores, incluindo a Rússia, responderam aos problemas do mercado com um afrouxamento no acordo de corte de oferta em junho. Na prática, o acordo eleva a produção de petróleo combinada em 1 milhão de barris por dia (bpd).

“Se nós precisarmos de mais que 1 milhão de bpd, não descarto que nós possamos rapidamente discutir isso e tomar uma decisão rápida”, disse Novak a jornalistas. Só a Rússia elevaria em 200 mil bpd, mas, segundo Novak, o país poderia aumentar para além desse nível.

Só na Rússia, o ministro acredita que os preços elevados do petróleo devem gerar 2,5 trilhões de rublos aos cofres públicos russos em 2018, o equivalente a US$ 40,14 bilhões.

Na quinta-feira (12), a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) afirmou que já há sinais “muito bem vindos” de que a produção dos principais produtores tem sido elevada e pode alcançar um recorde.

Com informações da Reuters.
https://revistamineracao.com.br

O que há por trás dos campos de concentração de gays na Chechênia



Kadyrov (à direita): o aliado de Putin que pode ser uma ameaça ao presidente russo.


Parecia uma piada de mau gosto de dia da mentira. No dia primeiro de abril, a imprensa internacional começou a propagar uma notícia que dizia que autoridades da Chechênia estavam enviando homens entre 16 e 50 anos a campos de concentração. O crime: eles são homossexuais. Segundo o jornal russo Novaya Gazeta, mais de 100 pessoas foram espancadas e eletrocutadas, e pelo menos quatro morreram nesses centros de detenção. 

Essa tortura seria a institucionalização de uma prática antiga na região do Cáucaso, o crime de honra, medida que serviria para “lavar a vergonha” de uma família. Mas, para o governo checheno, tudo não passa de conspiração. Um porta-voz declarou que “mesmo que existissem gays na Chechênia, a polícia não teria problema com isso, pois as próprias famílias deles se comprometeriam a enviá-los a um lugar de onde não seria possível retornar.”

Isso mesmo. Não só a república foi acusada de um crime humanitário grotesco como seu porta-voz fez pouco caso e ainda disse que famílias chechenas matam seus filhos gays. Acontece que não são as famílias, mas é o próprio governo da Chechênia que está liderando essa caçada, segundo grupos de direitos humanos como o Humans Rights Watch e a Anistia Internacional.

Esses homens estariam sendo capturados para serem eliminados até o dia 26 de maio, quando começa o ramadã, mês sagrado do islamismo. Não que o Islã, por si só, tenha algo a ver com a morte em massa de pessoas, é preciso frisar. Trata-se de mais um caso em que religião é usada para fins políticos malignos. O cristianismo também sofre com isso. Em Uganda, país muito influenciado pelo fundamentalismo evangélico americano, o governo determinou que ser gay pode render prisão perpétua (fora que Rússia e Brasil são dois dos países mais perigosos do mundo para homossexuais, e ambos são majoritariamente cristãos). 

A possível iminente matança foi condenada por nações importantes, como Reino Unido e Austrália. Os Estados Unidos se limitaram a declarar, por meio de seu embaixador na ONU, que, “se for verdade, tal violação aos direitos humanos não pode ser ignorada, e as autoridades chechenas precisam investigar imediatamente o ocorrido e tomar as medidas necessárias para prevenir abusos futuros.” Um blablablá mais em cima do muro do que gato insone, ainda mais que são as próprias “autoridades chechenas” que estão sendo acusadas. A posição da Rússia foi além. Ela deu respaldo ao governo local, limitando-se a dizer que não foram encontradas evidências a respeito dos tais campos. 

Bem, a Chechênia é um lugar isolado, montanhoso e com um cenário político que desfavorece o trabalho de ONGs e da imprensa livre. Podemos acreditar na posição oficial do governo e fim de papo. Ou levar em conta as acusações – ainda mais quando há alguns fatos na mesa, como o de que o presidente checheno tem costas quentes.

Mas, primeiro, como isso foi acontecer na Chechênia? – lugar que ocupou o noticiário nos anos 90 a ponto de ganhar piadas óbvias por causa de seu nome (às vezes acompanhada de outro figurão da época, o Kosovo).
Divisão política da Rússia, com a Chechênia destacada




CHECHÊNIA QUEM?

A Chechênia é uma das menores e mais barulhentas das 22 repúblicas que integram a Rússia (aliás, aos nerds de geografia: este vídeo explica a composição do país, que ainda tem oblasts, krais, cidades federais…). Um pedaço de terra de 17 mil km quadrados (menor que Sergipe), sem saída para nenhum dos dois mares que banham o Cáucaso, o Negro e o Cáspio. Até o século 15, ela ficou no fogo cruzado entre árabes e mongóis, quando Ivan (aquele mesmo, o Terrível), iniciou a expansão do czarismo. Persas e russos e, depois, turcos e russos guerrearam pelo domínio dessa região estratégica. Diversas religiões conviviam em relativa harmonia, sem predomínio claro de uma sobre as outras, mas a opressão da cristã Rússia ao longo dos séculos ajudou o islamismo a ser mais popular que outras fés – uma forma de resistência cultural dos povos da região .

A área enfim foi conquistada no século 19, mas a Revolução Russa, em 1917, abriu uma brecha para a Chechênia e outras repúblicas vizinhas, Inguchétia e Daguestão, declararem independência e formarem a República Montanhosa do Norte do Cáucaso. O país teve vida curta, e em 1920 foi engolido pela fúria soviética. Em seu governo (1924-53), Stálin deportou milhares de chechenos e deu suas casas e propriedades a russos. Quando os chechenos voltaram, criou-se um problema visível até hoje (algo semelhante aconteceu na Crimeia, também na conta de Stálin).

Em 1991, a União Soviética implodiu. O Cáucaso voltou a uma nova fase de bagunça. A Chechênia declarou independência, mas em 1994 os russos invadiram o território em uma guerra de 100 mil mortos. Em 1999, a Segunda Guerra da Chechênia estourou. Os russos tomaram a capital, Grozny, e diversos atentados terroristas ocorreram nos anos seguintes.

O conflito beneficiou politicamente o novo e desconhecido chefe de governo russo, Vladimir Putin. No último dia daquele ano, o presidente Boris Iéltsin, enfraquecido por um cenário de incerteza econômica, instabilidade política e denúncias de corrupção (tudo embalado em uma saúde debilitada por litros de vodca), renunciou. Putin assumiu interinamente, reprimiu os chechenos e recuperou a economia com a ajuda do aumento do preço do petróleo (sempre ele). A popularidade lhe rendeu a vitória nas eleições de 2000. E desde então o homem está aí.

Em 2007, Putin indicou Ramzan Kadyrov para a presidência da Chechênia. A república rebelde passou a ser uma ilha de estabilidade nas montanhas do Cáucaso. Grozny foi reconstruída com investimentos vultosos de Moscou. Mas o preço foi pago em direitos humanos.

Kadyrov é um sujeito afável. Ele é acusado de chefiar uma milícia que sequestra, tortura e mata separatistas chechenos. Ao mesmo tempo, quer impor preceitos da sharia, a lei islâmica, na região. Putin tolera isso, segundo analistas internacionais, para evitar mais dor de cabeça na Chechênia, afinal ele tem um suposto aliado no comando, em vez de um político separatista. Além disso, manter um governante que segue as leis religiosas mais tradicionais seria uma forma útil de cooptar terroristas, um problema recorrente na região.
 
Grozny, a capital: reconstruída depois de duas guerras.


Mas essa parceria acabou se tornando uma ameaça a Putin, porque Kadyrov está cada vez mais poderoso. Cerca de 80% do orçamento da república vem do Kremlin, e muito acaba no bolso de seu presidente: Kadyrov tem um zoológico particular e um Lamborghini de 1 milhão de euros (a joia de uma frota de 50 carros de luxo). Até aí, corrupção é um assunto em que é difícil se destacar na Rússia, então ele nem chamaria muita atenção. Mas Kadyrov é um cão que se livrou da coleira. Em 2015, Boris Nemtsov, um político oposicionista, foi assassinado em Moscou, literalmente ao lado do Kremlin, por um homem ligado a Kadyrov. O episódio pegou muito mal para Putin, porque ele já estava sofrendo sanções devido à guerra com a Ucrânia (e a morte de um líder da oposição não era lá um sinal de uma democracia pujante, digamos assim). Fora que o atentado aconteceu sem que Moscou autorizasse, ou sequer soubesse, do plano. Mas o presidente russo não repreendeu seu parceiro. Quando um político siberiano disse que Kadyrov era uma desgraça para a Rússia, seus homens bateram na porta do homem e disseram que se ele não se retratasse, poderia ter o mesmo fim que Nemtsov. Coisa fina.

O presidente checheno já disse que qualquer autoridade que se aventurar a entrar em seus domínios sem permissão será assassinada. Ele matou todos que se opuseram ao seu governo. Assumiu o controle da empresa petroquímica estatal da Chechênia. Encheu os próprios cofres com dinheiro de Moscou. E agora quer, aparentemente, exterminar os gays da república que comanda. Ao agir à revelia do Kremlin, Kadyrov mostra, segundo uma análise do site Vox, que é possível peitar Putin e se dar bem – algo do qual o líder russo pode se arrepender no futuro se não controlar seu pequeno ditador.

Enquanto isso, grupos se mobilizam na internet para denunciar os crimes (você pode assinar a petição do Avaaz aqui e ver a campanha do Humans Rights Watch aqui). No Instagram, a campanha #kiss4LGBTQrights pede que as pessoas postem fotos se beijando e marquem o Kremlin como localização (o beijaço virtual foi uma zoeira politizada e moralizadora, diga-se de passagem).

Putin disse na sexta (5) que irá ordenar uma investigação sobre os “rumores sobre o que está acontecendo com as pessoas de orientação não-tradicional no norte do Cáucaso”. Ao usar termos assim, já se pode esperar o que virá da tal investigação.

Mas Kadyrov segue não ligando a mínima, aparentemente. Ele insiste que não há “pessoas de orientação não-tradicional” na Chechênia e investe em sua carreira midiática. Seu perfil no Instagram (@kadyrov_95) tem 2,7 milhões de seguidores (quase o dobro da população da república). No ano passado, ele estrelou um reality show cujo vencedor seria seu novo assistente. Os candidatos tiveram que enfrentar provas como vender sorvete nas ruas de Grozny e ajudar a realizar uma cirurgia cardíaca, além de enfrentar atividades físicas como arco e flecha, hipismo, corrida e boxe com o próprio Kadyrov. O programa tinha a clara intenção de suavizar a imagem do líder e expandi-la para além do Cáucaso, tornando-o um nome de alcance nacional. No programa, ele declarou: “As pessoas acreditam na imagem que os liberais fizeram de mim, que sou assustador, que mato quem fala qualquer coisa de mim, que vou prendê-los em calabouços e esfaqueá-los. Isso foi inventado por inimigos do povo”.

O homem pode fazer campos de concentração para gays, algo que não se via na Europa desde Hitler. Mas ao mesmo tempo entra para o clube dos políticos/astros de reality show, fenômeno que vimos acontecer em 2016 em Washington (e em São Paulo).

A realidade no Cáucaso, não tão distante assim, não precisa ser ignorada. O que está acontecendo na Chechênia, tão cruel assim, não pode ser ignorado.
Revista Superinteressante

Níveis atuais de CO2 na atmosfera são os piores dos últimos 3 milhões de ano




A concentração de dióxido de carbono na atmosfera terrestre aumentou em velocidade recorde em 2016 e atingiu um nível não visto há mais de três milhões de anos, alertou a Organização das Nações Unidas (ONU).

O novo relatório chamou a atenção de cientistas e governantes e levou as nações a considerarem reduções drásticas na quantidade de CO2 que emitem nas negociações da próxima reunião climática em Bona, na Alemanha.

“As concentrações globais de CO2 atingiram 403,3 partes por milhão (ppm) em 2016 contra 400 ppm em 2015, devido à combinação de atividades humanas com um forte evento de El Niño”, de acordo com o Boletim de Gases do Efeito Estufa, feito anualmente pela agência meteorológica da ONU.

O aumento de 3,3 ppm é consideravelmente maior do que o aumento anual médio de 2,08 ppm na última década. Também encontra-se bem acima do último grande El Niño, em 1998, quando o aumento foi de 2,7 ppm.

O estudo, que utiliza monitoramento de navios, aeronaves e estações terrestres para acompanhar as tendências das emissões de CO2 desde 1750, afirma que o dióxido de carbono na atmosfera está aumentando 100 vezes mais rápido do que na última Era Glacial devido ao crescimento populacional, agricultura intensiva, desmatamento e industrialização.

Foto: Pixabay
http://thegreenestpost.com

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Agrotóxico está quebrando a safra de fios do bicho da seda, indica pesquisa

Os pesquisadores brasileiros verificaram que a aplicação do fungicida piraclostrobina na monocultura pode ser o responsável pela quebra da safra de fios do bicho da seda, realizada principalmente por pequenos produtores rurais.

Quando usado nas amoreiras, o agrotóxico beneficia a planta, mas chega a triplicar a mortalidade das lagartas e reduz sensivelmente o tamanho dos casulos que são tecidos pelas lagartas que sobrevivem, causando quebra na produção de seda.

No Brasil, a grande maioria dos sericicultores (criadores do bicho da seda) está concentrada no norte do Paraná, mas também há produtores no oeste do Estado de São Paulo e no Mato Grosso do Sul. São pequenas propriedades isoladas em meio a monoculturas de cana-de-açúcar, soja ou milho, por exemplo, onde o uso de agrotóxicos é intensivo.

Quando aplicado sobre as monoculturas o agrotóxico, seja ele um inseticida, herbicida ou fungicida, pode acabar sendo carregado pelo vento na direção das propriedades vizinhas ao campo de cultivo, onde podem existir plantações de amoreira. “Essa é uma das possíveis causas das quebras de safra dos sericicultores”, disse Daniel Nicodemo, professor na Faculdade de Ciências Agrárias e Tecnológicas (FCAT) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Dracena.

A descoberta aconteceu por acaso e de forma inversa ao esperado. Os pesquisadores, na realidade, estavam testando o piraclostrobina como o objetivo de aumentar a produção da seda. As folhas dadas para as lagartas atingem o maior valor nutricional por volta dos 60 dias da poda. Já aos 90 dias, o volume de folhas é bem maior, porém sua qualidade nutricional é menor. O uso da piraclostrobina serviria justamente para fazer com que, após 90 dias e na hora da poda, as amoreiras estivessem com quantidade máxima de folhas e elevado valor nutricional.

Isso seria importante, pois é justamente dos nutrientes das folhas ingeridas que as lagartas irão extrair os nutrientes necessários para produzir casulos. Quanto mais folhas com maior teor proteico, melhor será o desenvolvimento das lagartas e, consequentemente, melhor a qualidade e o peso dos casulos.

“A piraclostrobina é um fungicida utilizado para controlar fungos e ainda retarda a senescência vegetal, conferindo maior resistência ao estresse oxidativo em muitas culturas. Tais efeitos poderiam contribuir para a obtenção de folhas de amoreira de melhor qualidade e, sendo assim, os sericicultores maximizariam a produção qualitativa dessas folhas na hora da poda. O objetivo de nossa pesquisa foi verificar se o tratamento das folhas de amoreira com piraclostrobina contribuiria para melhorar a produção de casulos. Os resultados obtidos foram opostos ao esperado”, disse Nicodemo.

Há diversos fungicidas comerciais com piraclostrobina em sua fórmula, em associação ou não com outros agrotóxicos. Um fungicida comercial unicamente à base de piraclostrobina foi o eleito para o experimento em campo.

Esse não é o primeiro caso de queda da produção causada por agrotóxicos. “O crescente uso de agrotóxicos no mundo tem causado problemas ambientais, como a redução da população de organismos não alvo. Devido aos seus efeitos econômicos, a face mais notória desta história é a mortandade mundial de abelhas utilizadas comercialmente para a produção de mel e serviços de polinização”, disse Nicodemo

Nos últimos anos, sericicultores brasileiros têm relatado a redução na produção de casulos tecidos pelas lagartas, a matéria-prima para a extração do fio da seda e esse fator provavelmente está relacionado com o uso do agrotóxico.

Sericultura

A sericicultura, como é conhecido o processo de criação do bicho-da-seda, é realizada por pequenos agricultores que cultivam amoreiras para alimentar as lagartas com suas folhas, o único alimento desses insetos. O modelo de negócio inicia na indústria têxtil, onde as mariposas da espécie Bombyx mori cruzam produzindo ovos. Após a eclosão, as lagartas começam a ser alimentadas com folhas de amoreira, sendo criadas pelos sericicultores a partir da terceira idade.

“Nas propriedades rurais, as lagartas passam cerca de 20 dias sendo alimentadas com ramos de amoreira trazidos do campo. Ao fim do período, param de comer e começam a tecer os casulos, processo que dura três dias. Elas secretam uma substância gelatinosa que em contato com o ar se solidifica, transformando-se em fio de seda. Cada casulo é composto por um único fio, que costuma ter até 1.500 metros de comprimento,” disse Nicodemo.

Três dias após o encasulamento, as lagartas estão prontas para sofrer a metamorfose que as transformará em crisálidas e, em seguida, em mariposas. É nesse momento que os casulos são coletados pelos sericicultores e entregues à indústria, onde as crisálidas são mortas por exposição a altas temperaturas antes do rompimento dos casulos pelas mariposas, para evitar danos irremediáveis no fio. Em seguida, durante o cozimento dos casulos, a proteína que cola o fio do casulo é dissolvida na água, soltando o fio que então é enrolado em carretéis, junto de outros fios de outros casulos.

O artigo Pyraclostrobin Impairs Energetic Mitochondrial Metabolism and Productive Performance of Silkworm (Lepidoptera: Bombycidae) Caterpillars(doi: https://doi.org/10.1093/jee/toy060) é assinado por Daniel Nicodemo, Fábio Ermínio Mingatto, Amanda de Carvalho, Paulo Francisco Veiga Bizerra, Marco Aurélio Tavares, Kamila Vilas Boas Balieira e William Cesar Bellini. (Carta Campinas com informações de divulgação)
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Notícias Geografia Hoje


Nunca teremos cidade sustentável com desigualdade social, alerta professor da USP



O professor João Sette Whitaker Ferreira, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) e coordenador do grupo de estudos Políticas Públicas para a Metrópole, do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, acredita que a urbanização é uma tendência irreversível e por isso ela não é em si um problema.

Mas a falta de planejamento urbano é prejudicial. O surgimento das favelas é o grande exemplo desse fenômeno.

Para Whitaker Ferreira, para uma cidade ser sustentável, ela precisa ser inevitavelmente igualitária, o que faz com que políticas públicas sejam imprescindivelmente homogêneas. Ele ressalta que a desigualdade social vinculada ao aumento populacional não impactará apenas as classes mais baixas, mas a sociedade inteira sofrerá com suas consequências. (Com informações de divulgação)


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Pesquisadora da USP monta mapa da contaminação por agrotóxico no Brasil



Os mapas produzidos por Larissa Mies Bombardi são chocantes. Quando você acha que já chegou ao fundo do poço, a professora de Geografia Agrária da USP passa para o mapa seguinte. E, acredite, o que era ruim fica pior. Mortes por intoxicação, mortes por suicídio, outras intoxicações causadas pelos agrotóxicos no Brasil. A pesquisadora reuniu os dados sobre os venenos agrícolas em uma sequência cartográfica que dá dimensão complexa a um problema pouco debatido no país.

Ver os mapas, porém, não é enxergar o todo: o Brasil tem um antigo problema de subnotificação de intoxicação por agrotóxicos. Muitas pessoas não chegam a procurar o Sistema Único de Saúde (SUS); muitos profissionais ignoram os sintomas provocados pelos venenos, que muitas vezes se confundem com doenças corriqueiras. Nos cálculos de quem atua na área, se tivemos 25 mil pessoas atingidas entre 2007 e 2014, multiplica-se o número por 50 e chega-se mais próximo da realidade: 1,25 milhão de casos em sete anos.

Além disso, Larissa leva em conta os registros do Ministério da Saúde para enfermidades agudas, ou seja, aquelas direta e imediatamente conectadas aos agrotóxicos. As doenças crônicas, aquelas provocadas por anos e anos de exposição aos venenos, entre as quais o câncer, ficam de fora dos cálculos. “Esses dados mostram apenas a ponta do iceberg”, diz ela.

Ainda assim, são chocantes. O Brasil é campeão mundial no uso de agrotóxicos, posto roubado dos Estados Unidos na década passada e ao qual seguimos aferrados com unhas e dentes. A cada brasileiro cabe uma média de 5,2 litros de venenos por ano, o equivalente a duas garrafas e meia de refrigerante, ou a 14 latas de cerveja.

Em breve, todo o material reunido por Larissa será público. O livro Geografia sobre o uso de agrotóxicos no Brasil é uma espécie de atlas sobre o tema, com previsão de lançamento para o segundo semestre. Será um desenvolvimento do Pequeno Ensaio Cartográfico Sobre o Uso de Agrotóxicos no Brasil, já lançado este ano, com dados atualizados e mais detalhados. No período abrangido pela pesquisa, 2007-2014, foram 1.186 mortes diretamente relacionadas aos venenos. Ou uma a cada dois dias e meio:
“Isso é inaceitável. Num pacto de civilidade, que já era hora de termos, como a gente fala com tanta tranquilidade em avanço de agronegócio, de permitir pulverização aérea, se é diante desse quadro que a gente está vivendo?”, indaga a professora ao programa De Olho nos Ruralistas.

O papel do agronegócio
Larissa fala de agronegócio porque é exatamente esse modelo o principal responsável pelas pulverizações. Os mapas mostram que a concentração dos casos de intoxicação coincide com as regiões onde estão as principais culturas do agronegócio no Brasil, como a soja, o milho e a cana de açúcar no Centro-Oeste, Sul e Sudeste. No Nordeste, por exemplo, a fruticultura. A divisão por Unidades da Federação e até por municípios comprovam com exatidão essa conexão.
A pesquisadora compara a relação dos brasileiros com agrotóxicos à maneira como os moradores dos Estados Unidos lidam com as armas: aceitamos correr um risco enorme. Quando se olha para um dos mapas, salta à vista a proporção entre suicídio e agrotóxicos. Em parte, explica Larissa, isso se deve ao fato de que estes casos são inescapavelmente registrados pelos órgãos públicos, ao passo que outros tipos de ocorrências escapam com mais facilidade. Mas, ainda assim, não é possível desconsiderar a maneira como distúrbios neurológicos são criados pelo uso intensivo dos chamados “defensivos agrícolas”, termo que a indústria utiliza para tentar atenuar os efeitos negativos das substâncias.
Soja, milho e cana, nesta ordem, comandam as aplicações.

Uma relação exposta no mapa, que mostra um grande cinturão de intoxicações no centro-sul do país. São Paulo e Paraná aparecem em destaque em qualquer dos mapas, mas a professora adverte que não se pode desconsiderar a subnotificação no Mato Grosso, celeiro do agronegócio no século 21.


O veneno está na cidade
A conversa com o De Olho nos Ruralistas – durante gravação do piloto de um programa de TV pela internet – se deu em meio a algumas circunstâncias pouco alvissareiras para quem atua na área. Há alguns dias, a Rede Globo tem veiculado em um de seus espaços mais nobres, o intervalo do Jornal Nacional, uma campanha em favor do “agro”. Os vídeos institucionais têm um tom raríssimo na emissora da família Marinho, com defesa rasgada dos produtores rurais de grande porte.
“Querem substituir a ideia do latifúndio como atraso”, resume Larissa. Ela recorda que, além do tema dos agrotóxicos, o agronegócio é o responsável por trabalho escravo e desmatamento. E questiona a transformação do setor agroexportador em modelo de nação. “A alternativa que almejaríamos seria a construção de uma outra sociedade em que esse tipo de insumo não fosse utilizado. Almejamos uma agricultura agroecológica com base em uma ampla reforma agrária que revolucione essa forma de estar na sociedade.”
No mesmo dia da entrevista, o Diário Oficial da União trouxe a sanção, pelo presidente provisório, Michel Temer, da Lei 13.301. Em meio a uma série de iniciativas de combate à dengue e à zika, a legislação traz a autorização para que se realize pulverização aérea de venenos em cidades, sob o pretexto de combate ao mosquito Aedes aegypti. A medida recebeu parecer contrário do Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador do Ministério da Saúde, posição que foi ignorada por Temer.
Larissa considera que a medida representa um grande retrocesso e demonstra preocupação pelo fato de a realidade exposta em seus mapas ser elevada a potências ainda desconhecidas quando se transfere um problema rural para as cidades. “O agrotóxico se dispersa pelo ar, vai contaminar o solo, vai contaminar a água. O agrotóxico não desaparece. Ao contrário, ele permanece.” Em outras palavras: o veneno voa e mergulha. Alastra-se. E tem longa duração. (Por João Peres/ Do De Olho nos Ruralistas)
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quarta-feira, 4 de julho de 2018

Como o rio poluído pela mineração há 20 anos voltou a ser o lar de peixes e patos


Jim Robbins
Em Montana (EUA)


Janie Osborne / The New York Times

Foram necessárias duas décadas para limpar a maior parte do Silver Bow Creek, o rio poluído durante um século de mineração

Os primeiros indícios de ouro foram encontrados aqui, em 1864, em um riacho que ganhou o nome de Silver Bow. A descoberta se transformou em uma corrida de ouro desenfreada e, na década de 1860, inúmeros mineiros vieram para o córrego minúsculo em busca de suas riquezas.

Mas Butte nasceu do "útero de cobre", como escreveu um poeta, um veio muito mais rico. Depois que milhares de quilômetros de túneis foram dinamitados e perfurados, uma mina gigante foi escavada perto da cabeceira do riacho.


(Biblioteca Pública Butte-Silver Bow/The New York Times

Foto da Mina de Cobre Anaconda em Butte, Montana, em 1900Ao longo dos anos, o córrego acabou ficando extremamente poluído: os resíduos da mineração foram despejados por fábricas poluentes que trabalhavam o minério, e o riacho teve seu curso alterado, além de ser aproveitado para satisfazer as demandas industriais; uma grande inundação, em 1908, levou toneladas de detritos por toda a extensão do córrego; o esgoto não tratado foi nele despejado até a década de 1960. A maior parta da vida que existia no córrego e ao longo de suas margens foi dizimada. Ao lado do Silver Bow, ossos do gado adquiriram uma tonalidade quase azul-esverdeada por causa dos altos níveis de cobre na água.

"Minha vida toda ouvi as pessoas avisarem para a gente não chegar perto do Silver Bow", contou Ellen Crain, diretora do Arquivo Público do Silver Bow em Butte, que narra a história da mineração local.

Porém, nas últimas duas décadas, grande parte do córrego foi meticulosamente reconstruída e restaurada, com a remoção de mais de um milhão de metros cúbicos de solo e rocha contaminados, a um custo de cerca de US$ 150 milhões (cerca de R$ 587 milhões).

Agora só pouco mais de três quilômetros do riacho não estão recuperados, incluindo um trecho que atravessa bairros desta cidade. No final de maio, depois de oito anos de sigilo em torno da limpeza, determinado pelo tribunal, muitos segredos foram revelados, e a Agência de Proteção Ambiental (EPA) divulgou seu plano para terminar a empreitada.

Uma parcela será desviada, desta vez com metas ecológicas, mas não há planos para restaurar o último quilômetro do Silver Bow, que corre por alguns bairros, o que gerou mais preocupação nesta cidade de 34 mil habitantes.

"Quero ver um Silver Bow limpo e restaurado serpenteando pela cidade. Não só queremos e precisamos de um córrego limpo, mas temos direito a ele", disse Fritz Daily, ex-deputado estadual que já trabalhou nas minas e que agora é chefe da Coalizão Nascente do Riacho Silver Bow.

A prospecção de minérios da chamada "colina mais rica da Terra" durou mais de um século. O cobre retirado daqui eletrificou a nação e forneceu material para a guerra, transformando a Anaconda Copper Co. em uma empresa poderosa de Montana, que fazia o que bem entendia.

Com o declínio da mineração, a companhia foi comprada pela Atlantic Richfield Co, que logo fechou a mina e se envolveu com o maior fundo de restauração ecológica dos Estados Unidos para lidar com as áreas tóxicas espalhadas pelo oeste de Montana. Entre elas está a mina de cobre gigante da Anaconda, o solo contaminado em torno da cidade de Butte, o cavernoso Fosso Berkeley, o rio Clark Fork de quase 200 quilômetros e a Represa Milltown, já removida, e o Silver Bow, um afluente desse rio.


Janie Osborne / The New York Times
O poço de Berkeley, onde o cobre era minerado e que atualmente contém 50 bilhões de galões de água contaminada. Espera-se que a água, uma vez tratada, possa ser a "cabeceira" para parte do rio Silver Bow CreekEsse último já teve cerca de 40 quilômetros de extensão, cruzando a Divisão Continental, onde um pequeno fio de água se juntava aos riachos Yankee Doodle e Dixie, ambos sendo prospectados por mineiros de lados opostos na guerra civil. Cerca de 38 quilômetros do riacho ao sul de Butte, chegando até o ponto em que encontra o rio Clark Fork e o rio Columbia, foram restaurados.



Ele está muito mais limpo, mas nunca voltará a ser o que já foi. Nos melhores trechos, há cerca de 200 peixes pescáveis a cada 1,6 km, enquanto que em córregos semelhantes existem mil.

Porém, Butte ama seu Silver Bow recuperado. Em uma recente manhã cinzenta, os patos nadavam em uma área do córrego e os peixes pequenos eram visíveis. Os visitantes contam com trilhas para caminhadas e mesas de piquenique convidativas.

"Se há 20 anos alguém tivesse me dito que eu estaria pescando truta aqui, eu teria aceitado a aposta", disse Matt Vincent, ex-executivo do governo local e hoje consultor que trabalha na limpeza por duas décadas.


Janie Osborne / The New York Times
Água retirada do rio Silver Bow Creek, que se tornou azul brilhante devido à contaminação por cobreO plano anunciado recentemente visa a porção do Silver Bow que corre através do Cânion Slag, cujas paredes são feitas de resíduos de mineração, e que será desviado para um novo canal longe dos solos tóxicos. O plano também exige a limpeza de centenas de milhares de metros cúbicos de resíduos enterrados ao longo do curso do riacho.

Isso é um alívio para muitos que temiam que as negociações confidenciais entre o estado, a EPA e autoridades da Atlantic Richfield fossem deixar grandes quantidades de resíduos, ou de minério, no chão onde foram despejados pelas empresas. Muitos simplesmente não confiam na ciência que descobriu que deixá-los no lugar é uma alternativa segura. Na verdade, alguns resquícios enterrados liberavam uma água contaminada azulada no riacho recuperado. Eles serão desenterrados e levados nos próximos meses para uma propriedade de uma empresa mineradora daqui.

Mas ainda há a preocupação com o fato de que não existe um plano para recuperar o trecho final do córrego. Em um estado famoso por rios límpidos de trutas e pelo filme "Nada é Para Sempre", aqueles que defendem a limpeza do último pedaço a veem como uma forma de transformar Butte de um dos maiores locais do fundo de recuperação ecológica do país em algo mais lisonjeiro.

O trecho superior do Silver Bow, a leste do centro de Butte, tem um longo caminho a percorrer. Ele é uma sombra do que costumava ser, parecendo pouco mais que uma vala indistinta. Até dois anos atrás, era oficialmente chamado de "Metro Storm Drain" (ralo de tempestades da cidade), até que Daily e outros venceram uma batalha jurídica de quatro anos para que fosse renomeado Silver Bow, fazendo com que o estado fosse obrigado a restaurá-lo.

Qual seria o valor de um novo riacho? O preço para a limpeza está agora em torno de US$ 5 milhões (cerca de R$ 19 milhões) para cada quilômetro do córrego.

Segundo Daily, um regato limpo e a remoção de rejeitos ajudaria Butte a reduzir seu estigma tóxico, e poderia simbolizar um novo começo. "Em eventos esportivos, os times da cidade são insultados com gritos de 'água suja', e é difícil recrutar profissionais de saúde para o maior complexo de recuperação ecológica do país. Ainda há muito a ser feito", afirmou.

Jon Sesso, coordenador do projeto Butte Silver Bow, disse que, embora não haja nenhum plano para um novo riacho, ele espera que isso ocorra em alguns anos, assim que os resíduos nas proximidades forem removidos. "É complicado. Não há nascente, não há água com que você possa contar. É tudo plano feito uma panqueca de leste a oeste pelo corredor, e não dá para mudar a topografia", por isso o riacho não pode fluir, e não há nascentes porque elas foram isoladas.

Mas existe uma fonte de água que talvez possa ser garantida: o Fosso Berkeley, orifício de quase dois quilômetros de diâmetro ao lado de Butte, de onde o cobre era extraído.

Desde que a Atlantic Richfield desligou as bombas que mantinham o fosso gigante seco para a mineração, em 1982, ele está sendo preenchido com uma mistura de águas subterrâneas. Em 2016, o poço chegou às manchetes quando milhares de gansos migratórios exaustos pousaram nele e morreram ao beber sua água ácida.

Quando uma nova usina do tratamento for concluída, aproximadamente 30 milhões de litros de água potável serão bombeados dos 230 bilhões de litros do poço. Espera-se que essa se torne a nova "nascente" da última milha do Silver Bow.

Pode dar certo. A água tóxica no fosso contaminará o lençol freático se continuar a enchê-lo, por isso deve ser retirada e tratada perpetuamente para evitar que chegue a esse ponto. A Atlantic Richfield criou um fundo para manter a usina de tratamento para sempre.

Daily disse que ele e outros vão continuar lutando para que o riacho passe através de Butte. "Estamos em uma encruzilhada. Se não houver a limpeza do córrego, dos resíduos e da água no fosso, esta comunidade vai fracassar econômica, ambiental e socialmente."
The New York Times

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