segunda-feira, 29 de maio de 2017

Descubra quais são as cidades com maior renda no Brasil

Estudo mostra quais cidades têm maior renda no Brasil e aponta o crescimento populacional dos grandes municípios que ficam fora de zonas metropolitanas. Confira!

Texto Redação | Foto Will Rodrigues/Shutterstock



O interior paulista é destaque, quando o assunto é renda familiar. Segundo um levantamento realizado pela Geofusion, empresa especializada em inteligência geográfica de mercado, das dez grandes cidades* do interior do Brasil com maior renda média por família, oito estão neste Estado – Valinhos, Santos, Jundiaí e Campinas ocupam as quatro primeiras colocações. A companhia realizou o estudo “Lado B: o Brasil fora das capitais e zonas metropolitanas” (disponível em http://blog.geofusion.com.br/novo-estudo-da-geofusion-revela-informacoes-sobre-o-interior-do-brasil) com dados comparativos entre as capitais e suas Regiões Metropolitanas (RM) em relação às cidades do interior do Brasil com mais de 100 mil habitantes. Os números ainda mostram que 55% da renda do País está concentrada em 7% dos municípios, que também respondem por 38% da população.

Os dez municípios do interior (mais de 100 mil habitantes fora das Regiões Metropolitanas) com maior renda apresentam ganhos por domicílio 60% acima média brasileira, que é de R$ 3,9 mil. Valinhos tem a maior renda por família das grandes cidades do interior*: R$ 7.651,00. Essas cidades têm mais de R$ 142 milhões por ano disponíveis para gastos em produtos alimentícios: 63,5% com alimentação em casa, 29,6% fora do domicílio e 6,9% com bebidas.

TOP 10 INTERIOR: AS GRANDES CIDADES QUE MAIS CRESCERAM NOS ÚLTIMOS ANOS





O Brasil tem 5.570 cidades, as capitais e suas zonas metropolitanas, respondem por apenas 345 municípios (7% do total). O Centro-Oeste é a região com mais pessoas vivendo fora dessas regiões: 78% da população. Entre 2010 e 2015, é possível observar um forte crescimento populacional nos municípios do interior com mais de 100 mil habitantes. Foram mais de 8,4 milhões de pessoas nos últimos quinze anos – um aumento mais acentuado do que nas capitais e Regiões Metropolitanas. Rio das Ostras (RJ) foi a cidade* que teve um maior incremento populacional, com 26,3 mil pessoas (4,5%).


“A concentração populacional e de renda é conhecida por todos. Contudo, quando apontamos quais são essas regiões com base em dados precisos, as empresas que estão com planos de expansão ou planejamentos comerciais em andamento devem levar em conta essas análises de mercado, garantindo, assim, inteligência competitiva em relação aos concorrentes”, explica a diretora de Inteligência de Mercado da Geofusion, Susana Figoli.

O estudo foi baseado nas Projeções Sociodemográficas 2015 da Geofusion, que estimam dados sobre o perfil da população de todo o Brasil. A metodologia leva em conta diversas pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), como o Censo, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) e Estimativas e Contagens da População. Já os dados de Potencial de Consumo têm como fonte o IPC Marketing e indicam o volume em dinheiro disponível nos domicílios brasileiros para o consumo por ano – no caso, os valores referem-se a 2015.

*Cidades com mais de 100 mil habitantes fora das Regiões Metropolitanas.
Revista Geografia - Conhecimento Prático

Saiba mais sobre a interferência das ondas eletromagnéticas

As ondas eletromagnéticas estão presentes em quase toda parte do nosso dia a dia. Conheça mais detalhes

Texto Edgar Melo | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock


Elas estão espalhadas na atmosfera e ninguém as vê, isso não quer dizer, no entanto, que as ondas eletromagnéticas sejam inofensivas. Emitida por equipamentos elétricos e eletrônicos, esse tipo de energia ocupa o espaço, atravessa qualquer tipo de matéria viva ou inorgânica e produz uma poluição imperceptível, capaz de in fluenciar o comportamento celular do organismo humano. O uso da energia elétrica e eletromagnética tornou-se tão arraigado no cotidiano das grandes cidades, que já não é possível se privar do contato com elas. Além dos telefones celulares, os aparelhos eletrodomésticos e as linhas de alta tensão estão por toda parte. “Vivemos em um micro-ondas gigante”, diz o cientista, pesquisador do Sistema Integrado da Terra, filósofo noosférico e engenheiro de sistemas de teleautomação Boris Petrovic, ao alertar sobre o impacto da presença dos campos e das radiações eletromagnéticas. Petrovic explica que o corpo humano não foi preparado para lidar com as interferências das radiações e dos campos eletromagnéticos. O engenheiro esclarece que tanto os celulares quanto qualquer outro tipo de comunicação sem o como Wifi e bluetooth utilizam ondas de radiofrequência para transmitir dados ou voz. Essas ondas são de comprimento muito baixo e são chamadas de micro-ondas. Essa tecnologia é a mesma dos fornos de micro-ondas, usados para aquecer alimentos por atrito das moléculas de água.
Revista Geografia - Conhecimento Prático

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Notícias Geografia Hoje

 
Minoria yazidi celebra seu Ano Novo marcado pela tristeza no Iraque
Milhares de yazidis celebram nesta quarta-feira(19/04/2017) seu Ano Novo em um templo do norte do Iraque, na maior reunião desta minoria desde que os extremistas a converteu em alvo de seus ataques


19/04/2017


Lalish, Iraque - Milhares de yazidis celebram nesta quarta-feira seu Ano Novo em um templo do norte do Iraque, na maior reunião desta minoria desde que os extremistas a converteu em alvo de seus ataques. Os fiéis começaram as festividades na noite de terça-feira, a 50 km ao norte de Mossul, usando seus trajes tradicionais e levando velas e candeias. O evento comemora a criação do universo pelos anjos e festejam a natureza e a fertilidade.

Mas este ano, o ambiente era sombrio entre os yazidis, já que muitos sofreram a violência praticada pelo grupo Estado Islâmico (EI) a partir de 2014, quando os extremistas se apoderaram de amplas zonas do Iraque, incluindo a região de da qual é originária a maioria dos membros desta pequena comunidade. "No estou feliz. Isso não é como antes porque há pessoas que continuam em mãos do Daesh (acrônimo em árabe do EI)", diz Zoan Msaid, uma moradora de Sinjar que vive agora em um campo de refugiados.

"Não podemos esquecer nossos costumes e tradições, mas só que os reféns voltem para casa, só isso", acrescentou. Os yazidis são uma minoria de idioma curdo que pratica uma religião monoteísta com elementos tomados do cristianismo e do Islã. O Estado Islâmico os consideram hereges e, em meados de 2014, massacrou inúmeros membros da comunidade ao conquistar o monte Sinjar.

Em poucas horas, milhares de pessoas fugiram pelas montanhas áridas, procurando refúgio no Curdistão iraquiano. Outras centenas, talvez milhares, morreram no ataque, ou durante a fuga nas montanhas. Segundo a Anistia Internacional, os jihadistas executaram homens e sequestraram centenas, se não milhares, de mulheres, que foram vendidas como noivas para combatentes ou reduzidas à condição de escrava sexual.

As forças curdo-iraquianas reconquistaram no final de 2015 a cidade de Sinjar, com o apoio aéreo da coalizão antijihadista liderada pelos Estados Unidos. Segundo a ONU, o Estado Islâmico cometeu um "genocídio" contra a minoria yazidi. Calcula-se que cerca de 3.000 membros dessa comunidade continua em poder dos jihadistas. Segundo investigadores da ONU, os ataques do EI contra os yazidis no Iraque podem constituir um "genocídio".

Por isso pediram em 2015 uma ação no Tribunal Penal Internacional (TPI) a respeito. No mundo inteiro, os yazidis somam um milhão e meio, um terço desta comunidade se encontra no Iraque. Outras comunidades estão estabelecidas na Turquia, Geórgia e Armênia, sem contra a diáspora no Ocidente, segundo o site do Vaticano.

Vivendo em cantos remotos das montanhas do Curdistão, os yazidis, comunidade de língua curda, segue uma religião cujas origens remontam ao mazdeísmo, nascido no Irã há quase 4.000 anos, e ao culto a Mitra. Mas com o tempo, eles incorporaram elementos do Islã e do Cristianismo.

Os yazidis oram a Deus em direção ao sol e veneram sete anjos, sendo o mais importante deles Melek Taus ou Anjo-Pavão. Eles pronunciam suas orações em curdo e não têm nenhum livro sagrado. A tradição yazidi proíbe o casamento fora da comunidade e mesmo até em seu próprio sistema de castas. As crenças e práticas dos yazidis - como a proibição de comer alface e vestir a cor azul - são considerados por seus críticos como satânicas.

Os muçulmanos ortodoxos consideram o pavão como uma figura demoníaca e os yazidis foram rotulados como "adoradores do diabo". Como iraquianos não-árabes e não-muçulmanos, têm sido uma das minorias mais vulneráveis do país. Milhares de famílias fugiram do Iraque em razão da perseguição do governo de Saddam Hussein, em particular para a Alemanha.

Em agosto de 2007, enormes caminhões-bomba destruíram quase inteiramente duas aldeias yazidis no norte do Iraque. Mais de 400 pessoas foram mortas nas explosões. Além da minoria yazidi, dezenas de milhares de cristãos iraquianos, a maioria seguidores da Igreja Católica Caldeia, também fugiram em função da ofensiva do EI.
Correio Brasiliense

Concentração de CO2 na atmosfera bate novo recorde

Nível de dióxido de carbono atingiu marca de 412 ppm

A concentração de CO2 na atmosfera bateu um novo recorde histórico e superou pela primeira vez a marca de 410 partes por milhão (ppm).

Esse patamar foi ultrapassado de maneira inédita no último dia 18 de abril, segundo medição feita pelo Observatório de Mauna Loa, no Havaí (EUA), a mais antiga estação de detecção de dióxido de carbono no planeta.

Além disso, em 26 do mês passado, o índice de CO2 na atmosfera atingiu sua marca mais alta até hoje, 412 ppm. Os especialistas da agência meteorológica do Reino Unido (Met Office) haviam previsto que esse recorde só seria alcançado em maio.Concentração de CO2 na atmosfera bate novo recorde

Desde setembro de 2016, a concentração de dióxido de carbono vem superando os 400 ppm de modo permanente. A crescente presença de CO2 na atmosfera é considerada a principal responsável pelo aquecimento global e pelas mudanças climáticas no planeta.

O ano de 2016 já foi o mais quente desde 1880, ou seja, desde quando há dados disponíveis. Com isso, o mundo caminha para ter um aumento médio de 3ºC em sua temperatura, embora o objetivo do Acordo de Paris seja manter o aquecimento abaixo dos 2ºC em relação aos níveis pré-industriais, realizando esforços para tentar chegar a um limite de 1,5ºC. (ANSA)
Jornal do Brasil

segunda-feira, 1 de maio de 2017

A vida entre muros

Condomínios fechados e shopping centers acentuam a separação socioespacial em cidades médias

CARLOS FIORAVANTI



Conjunto do programa Minha Casa Minha Vida para moradores de faixa intermediária de renda próximo ao centro de Presidente Prudente

Presidente Prudente – município com 230 mil habitantes a 558 quilômetros da capital paulista – parece estar se desagregando, à medida que os grupos de moradores com ganhos econômicos mais altos e os com renda mais baixa se fecham em seus espaços. Outras cidades de porte médio de São Paulo – com 100 mil a 600 mil habitantes, que exercem um papel de polo regional, com influência sobre dezenas de municípios próximos – vivem o mesmo fenômeno, de acordo com estudos realizados nos últimos anos por uma equipe de pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Quem sai do centro de Prudente rumo ao norte observa terrenos ocupados por propriedades rurais, como se a cidade estivesse terminando. Mas não. Mais adiante emergem dezenas de fileiras de casas geminadas. É um dos conjuntos habitacionais para moradores de baixa renda do programa Minha Casa Minha Vida, com 2.600 casas e cerca de 8 mil pessoas, inaugurado em 2015. Lançado em 2009, o Minha Casa, como é conhecido, tornou-se o maior programa habitacional do país dos últimos 30 anos, com quase R$ 300 bilhões investidos e 10,5 milhões de pessoas beneficiadas até outubro de 2016.

 
Vistas de perto, as casas exibem diferenças: programas complementares de crédito para a compra de materiais de construção permitem a construção de muros altos e portões que as fecham inteiramente, enquanto outras permanecem abertas. Anúncios de mercados, bares e salões de beleza ocupam as fachadas das casas, mesmo sem permissão legal para abrigarem atividades comerciais. Na paisagem sem árvores destaca-se a torre amarela da escola, cercada por muros e cerca elétrica.

Ao sul, a 9 quilômetros dali, estendem-se os condomínios de luxo, cercados por muros com 4 metros de altura encimados pelos fios das cercas elétricas. “Nas entrevistas que fizemos, os moradores diziam que a maior preocupação era a segurança, mas reconheceram que buscam a distinção social por meio do lugar onde moram, comenta o geógrafo Arthur Whitacker, professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Unesp em Presidente Prudente. Não se veem casas nem pessoas nas ruas, apenas os longos muros. Muros altos com arames farpados fecham também os blocos de prédios dos moradores da categoria intermediária de renda do programa Minha Casa Minha Vida, mais próximos ao centro da cidade.

 
Os condomínios contribuem para o alargamento da área urbana. Em um artigo publicado neste ano na revista Mercator, da Universidade Federal do Ceará (UFC), o geógrafo francês Hervé Théry, professor visitante da Universidade de São Paulo (USP), observou que o Minha Casa induziu a formação de bairros que se tornaram os maiores em cidades como Ponta Porã (MS) e Sobral (CE).

“Os condomínios fechados de faixas de renda distintas estão se configurando como se fossem várias cidades em uma só, já que seus moradores raramente se encontram”, sintetiza a geógrafa Maria Encarnação Sposito, professora da Unesp, coordenadora de uma equipe multidisciplinar que tem pesquisado as transformações das cidades médias. Ela explica que a separação socioespacial – examinada pelo geógrafo Milton Santos (1926-2001) na década de 1980, com base em seus estudos sobre metrópoles – agora se intensifica, em decorrência da escassez de espaços de convivência entre as diferentes classes sociais, como as ruas dos centros das cidades, hoje ocupadas predominantemente pelas pessoas de menor renda.



Escola (torre amarela) e vista geral de casas da população de baixa renda, ao norte de Presidente Prudente

Para mostrar o alcance desse fenômeno, Maria Encarnação abre os mapas das seis cidades estudadas por seu grupo desde 2012: Presidente Prudente, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, Marília e São Carlos, em São Paulo, e Londrina, no Paraná, examinadas por causa de sua proximidade histórica e econômica, já que as seis resultaram da cafeicultura, principalmente no início do século XX. Os mapas elaborados com base no Censo de 2010 e em levantamentos de campo evidenciam a concentração dos condomínios populares e as áreas mais densamente povoadas ao norte e as áreas mais ricas ao sul em cinco cidades: Prudente, Ribeirão Preto, Rio Preto, Marília e Londrina. Em São Carlos ocorre o inverso, os ricos estão ao norte e os pobres ao sul, e a divisão não é tão clara, “mas já se desenha uma setorização, com a construção de novos condomínios de luxo”, diz a geógrafa.

Reforçando essa conclusão, três arquitetos – Bárbara Siqueira, professora da Universidade do Extremo Sul Catarinense, Sandra Silva e Ricardo Silva, professores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) – examinaram a ocupação urbana em São Carlos e São José do Rio Preto de 1970 a 2010 e concluíram que os condomínios fechados reforçam “os processos de fragmentação social e espacial das bordas urbanas, seja pela produção de grandes espaços murados, seja pelo espraiamento horizontal e descontínuo das cidades”, de acordo com um artigo de 2016 publicado na Revista Políticas Públicas & Cidades.



Residências com muros e portões …

Insegurança urbana
Os estudos do grupo da Unesp indicaram uma forte atuação das empresas imobiliárias na definição das áreas a serem ocupadas pelos novos loteamentos. Os moradores, por sua vez, sentem-se protegidos da violência urbana nos condomínios fechados e felizes por terem a possibilidade de comprar a casa própria. “Os moradores de todos os grupos sociais que entrevistamos relataram uma sensação de insegurança difusa, como se a violência urbana estivesse por toda parte e não em áreas ou momentos específicos”, diz a historiadora Eda Góes, professora da Unesp que coordenou as entrevistas. “E a ideia de insegurança urbana sustenta o ideal de morar em condomínios fechados.” Segundo ela, a crescente separação socioespacial representa “uma negação da cidade como espaço comum coletivo, a essência do urbano”.

Maria Encarnação, Eda e os outros pesquisadores do grupo identificam as prováveis consequências da segregação socioespacial: a valorização dos espaços privados e a desvalorização dos espaços públicos, como o centro da cidade e as praças; o esvaziamento das ruas, que se tornam espaços de circulação e não de encontros; o crescimento de estereótipos sociais sobre os grupos mais ricos e os mais pobres; e o fortalecimento de novos mecanismos de produção do espaço urbano. Antes, lembra a coordenadora da equipe, a formação de uma área comercial ou residencial era o resultado da iniciativa conjunta de pequenos empresários, do poder público e dos moradores.



…e comércio: preocupação com a segurança é comum a todas as classes

“Hoje quem produz o espaço urbano e rege a expansão das cidades são essencialmente as empresas imobiliárias, que, com o aval do poder público, definem onde construir os condomínios e os shoppings centers, que rapidamente estabelecem novos centros comerciais”, afirma Maria Encarnação. O economista Everaldo Melazzo, professor da Unesp que analisou a atuação das empresas imobiliárias, acrescenta: “As imobiliárias escolhem as áreas a serem ocupadas e o público que as ocupará de acordo com os preços dos terrenos”. Melazzo alerta sobre os limites desse mecanismo de expansão e ocupação das cidades, que não é mais questionado: “Somente o capital privado não consegue organizar e dar vida social para as cidades. Políticas públicas são fundamentais para organizar e qualificar a produção do espaço urbano”.

Identificação ou desconforto
Em expansão no Brasil a partir da década de 1960, os shopping centers reforçam a separação social ao criar espaços privados de lazer e consumo voltados a públicos específicos. Em um artigo publicado na revista portuguesa Finisterra, Eda Góes argumentou que os shoppings deixam os visitantes mais ou menos à vontade, desse modo, selecionando-os, por meio de propagandas que podem gerar identificação ou desconforto, da quantidade e da prontidão dos vigias e das câmeras de segurança. Eda encontrou 50 câmeras no Prudenshopping e 16 no Parque Shopping, criado em 1989, próximo ao centro da cidade para atingir um público de menor poder aquisitivo. Segundo ela, o sistema de vigilância expressa uma prática de controle social que é até mesmo desejada pelos frequentadores, destacando “uma suposta eficiência do mercado para dar resposta a problemas que o Estado não se tem mostrado capaz, como é o caso da insegurança”.



Vista externa de um dos condomínios de luxo…

De modo geral, os shopping centers transformaram rapidamente o centro das cidades, ao atrair as lojas interessadas em públicos mais endinheirados, ou induzir a adequação dos estabelecimentos de rua a uma clientela de menor poder de compra. “O comércio varejista procura seus próprios nichos de mercado”, conta o geógrafo e professor da Unesp Eliseu Sposito, que estudou as consequências da chegada de grandes redes de lojas de eletrodomésticos nas cidades médias. Ele observou também as mudanças no comércio varejista de Chapecó, em Santa Catarina, uma das 18 cidades estudadas pelos 43 pesquisadores da Rede de Cidades Médias (ReCiMe), formada por 17 universidades do Brasil, duas do Chile e uma da Argentina. Os trabalhos do Grupo de Pesquisa Produção do Espaço e Redefinições Regionais (GAsPERR) da Unesp e de outros da ReCiMe ajudam a entender os processos e ritmos de transformação próprios das cidades médias.

Formado por 18 pesquisadores e mais de 50 estudantes, o grupo da Unesp que estuda as cidades médias entrevistou, entre 2012 e 2016, moradores dos seis municípios para entender as mudanças nos hábitos de consumo e o impacto da chegada das grandes redes de varejo, que criam novos centros comerciais. Em consequência da ação de novas empresas varejistas, “os centros das cidades médias perdem prestígio social e estão cada vez mais populares, mas não morreram”, diz Whitacker. Com várias lojas tocando músicas ao mesmo tempo, as ruas centrais permitem uma expressividade e uma espontaneidade raramente consentidas em shoppings. “As passeatas e os protestos da população ocorrem aqui”, diz Melazzo, caminhando rumo ao camelódromo, autodenominado shopping popular.



…e casas de famílias de alta renda, ambos ao sul de Presidente Prudente

Às seis da tarde, porém, as lojas fecham e as ruas silenciam. Os cinemas de rua, entre eles o Cine Presidente, acabaram na década de 1990. “O centro da cidade é apenas o centro comercial, não mais o centro da vida social dos moradores”, conclui o geógrafo Nécio Turra Neto, professor da Unesp que estudou as transformações do lazer noturno na cidade, constituído pelos bares, boates e danceterias, hoje concentrados nas avenidas próximas ao Prudenshopping.

Projeto
Lógicas econômicas e práticas espaciais contemporâneas: Cidades médias e consumo (nº 11/20155-3); Modalidade Projeto Temático; Pesquisadora responsável Maria Encarnação Beltrão Sposito (Unesp); Investimento R$ 3.646.985,87.

Artigos científicos
GÓES, E. Shopping center: Consumo, simulação e controle social. Finisterra. v. 51, n. 102, p. 65-80. 2016.
SIQUEIRA, B. V. et al. Novas configurações em periferias de cidades médias paulistas: A proliferação dos empreendimentos habitacionais com controle de acesso. Revista Políticas Públicas & Cidades. v. 4, n. 1, p. 69-92. 2016.
THÉRY, H. Novas paisagens urbanas do programa Minha Casa Minha Vida. Mercator. v. 16, e16002, p. 1-14. 2017. 
Revista Fapesp

Zelândia, o novo continente, quase todo submerso, proposto por geólogos


 
Não é Atlântida, ilha lendária que teria afundado, mas Zelândia, um continente real, situado no sudoeste do oceano Pacífico, cujo território de 4,9 milhões de quilômetros quadrados se encontra 94% submerso. Entre os 6% que estão acima do nível do mar, destacam-se as duas ilhas que formam a Nova Zelândia (inspiração para o nome do continente) e o arquipélago da Nova Caledônia. A proposta de considerar esse grande bloco da crosta terrestre como um continente — a exemplo da África, América do Norte, América do Sul, Antártida, Austrália e Eurásia — foi feita por uma equipe coordenada por Nick Mortimer, do GNS Science, nome atual do antigo Instituto de Ciências Geológicas e Nucleares neozelandês (GSA Today, 9 de fevereiro). Segundo os autores do estudo, a Zelândia, embora majoritariamente coberta pelo Pacífico, apresenta as principais características geológicas e geofísicas que definem as áreas da crosta continental em oposição às da crosta oceânica. Sua composição é essencialmente granítica, mais “leve” do que a da crosta oceânica, formada por basalto. Apresenta altitudes mais elevadas (por isso, a maior parte dos outros continentes está acima do nível do mar). Sua espessura é maior, por volta de 35 quilômetros. A da crosta oceânica atinge, em média, 8 quilômetros. A Terra é o único planeta do Sistema Solar cuja crosta é dividida em dois tipos, a continental e a oceânica. Ao movimento das placas tectônicas, os geólogos atribuem o surgimento da crosta granítica, ou seja, dos continentes. Além dessa definição geológica de continente, há também outras, como as geográficas e as geopolíticas. 
Revista Fapesp

Poluição humana atinge as regiões mais profundas do oceano


Anfípodas, que vivem a 10 mil metros de profundidade, apresentam níveis elevados de poluentes

Nem mesmo as profundezas dos oceanos, consideradas as áreas mais intocadas do planeta, estão livres de influência humana. Pesquisadores do Reino Unido identificaram níveis elevados de poluentes orgânicos usados por décadas nas atividades industriais em crustáceos capturados nas regiões mais distantes da superfície. Usando armadilhas submergíveis, eles coletaram amostras de anfípodas, crustáceos semelhantes a camarões, a profundidades que variaram de 7 mil metros (m) a 10 mil m em duas áreas do oceano Pacífico: a fossa de Marianas, ao norte, próximo às Filipinas, e a fossa de Kermadec, no sul, na vizinhança da Nova Zelândia. Essas duas zonas abissais se estendem por centenas de quilômetros e estão entre as mais profundas e menos exploradas da Terra – a de Marianas tem 10.994 m de profundidade e a de Kermadec, 10.047 m. Ao analisar a composição química dos anfípodas, Alan Jamieson, da Universidade de Newcastle, Inglaterra, e seus colaboradores detectaram níveis elevados de dois produtos químicos: os bifenilpoliclorados, compostos bastantes estáveis, tóxicos e pouco inflamáveis, usados por décadas em fluidos de refrigeração; e os éteres difenil-polibromados, empregados como retardador da propagação de chamas em tintas, tecidos e materiais da indústria automobilística e aeronáutica. Anfípodas da fossa de Marianas apresentavam concentrações desses poluentes ambientais mais elevadas do que as dos crustáceos de Kermadec e, em ambos os casos, superiores às de regiões costeiras consideradas limpas (Nature Ecology and Evolution, 13 de fevereiro). Entre os anfípodas de Marianas, o nível de bifenilpoliclorados foi 50 vezes superior ao registrado em caranguejos do rio Liaohe, um dos mais poluídos da China. Os dados, segundo o pesquisador, indicam que as águas profundas e superficiais são altamente conectadas. 
Revista FAPESP

quinta-feira, 27 de abril de 2017

O coração em chamas da África

Por Peter Gwin Fotos de Marcus Bleasdale

A República Centro-Africana é um dos países mais cheios de riquezas naturais do continente. Então, por que faliu?


foto: licumbiphotos.com.br

Um bairro da capital Bangui ainda fumega, em 2014, depois que milícias lideradas por cristãos atacaram rebeldes muçulmanos que depuseram o governo. Antes, as fés coexistiam em paz, mas, nos últimos quatro anos, o caos impera em grande parte do país.

Para chegar à casa do singular artista das borboletas, é preciso vencer um labirinto de casas de tijolo de barro perto do largo e pardacento Rio Oubangui. Quatro anos atrás, grupos rebeldes muçulmanos e milícias cristãs engalfinharam-se nessa área pelo controle de Bangui, a capital da República Centro-Africana. Hoje, o local fervilha com crianças esganiçadas jogando futebol e ambulantes tagarelas vendendo amendoim e ovos, abacate e manga, mel silvestre e pimenta em grão. Mas a violência ainda assola a cidade, e os moradores permanecem alertas para sons de tiros e helicópteros militares.

Philippe Andé vive alheio a isso tudo. Careca e franzino, ele se debruça sobre uma mesa coberta de asas de borboleta – uma constelação de cores eletrizantes, formas espetaculares e padrões exóticos. A República Centro-Africana é lar de 597 espécies identificadas, e não raro um passante se vê em meio a uma nuvem silenciosa dessas criaturas, como se entrasse numa revoada de confetes. Andé, que é agricultor, captura-as nas suas plantações e às vezes contrata meninos para coletá-las nos morros e nas margens do rio.

Com pinça, lâmina de barbear e cola vulcanizante, ele dispõe as asas finas como tecido para formar cenas radiantes da vida centro-africana, cada uma delas um vitral em miniatura. Um homem pesca um peixe verde sarapintado em um rio turquesa. Mulheres de vestidos laranja com bebês adormecidos presos às costas moem mandioca para fazer farinha. Um menino sobe numa árvore para apanhar cocos. E há campos cobertos de algodão, retratos de elefantes, gorilas, papagaios, antílopes, e até mesmo um diamante lapidado, a mais famosa exportação do país.

Essa é a República Centro-Africana que Andé escolhe ver quando fecha os olhos: o tempo anterior a 2013, ano em que a Seleka – uma aliança de grupos de maioria muçulmana – saqueou, estuprou, matou e incendiou, derrubou o governo corrupto dominado por cristãos e deflagrou uma guerra civil brutal, ainda fumegante, que matou milhares de pessoas, desalojou quase 1 milhão e provocou escassez de alimentos.

Para ser franco, as encantadoras imagens de Andé representam algumas das impressões idealizadas que eu também tenho da República Centro-Africana. O país chamou a minha atenção quando o vi realçado em um mapa conservacionista: uma ilha verde, do tamanho da França, contendo parte do que resta da natureza primeva da África. Descobri que vastos trechos das suas florestas permanecem desabitados e são férteis em vida selvagem. Sob essa exuberância, jaz uma profusão de recursos, entre eles diamantes, ouro, urânio e, possivelmente, petróleo. Parece razoável que um país tão esparsamente povoado – apenas 5 milhões de habitantes, em comparação com os 65 milhões da França – viesse a prosperar. Mas está fracassando. Por quê? Essa questão me perseguiu durante os três anos em que fiz várias reportagens sobre o que os moradores chamam de “a Crise”, a sua expressão para designar a guerra e o caos resultante......http://www.nationalgeographicbrasil.com

terça-feira, 28 de março de 2017

Como as raízes do Cerrado levam água a torneiras de todas as regiões do Brasil


João Fellet - @joaofellet

Direito de imagem Nelson Yoneda/ICMBio Image caption 
 
Plantas do cerrado atuam como uma imensa esponja, recarregando aquíferos que abastecem rios e reservatórios

O rio São Francisco está secando, haverá cada vez menos água em Brasília e a cidade de São Paulo terá de aprender a conviver com racionamentos.

O alerta é do arqueólogo e antropólogo baiano Altair Sales Barbosa, que há quase 50 anos estuda o papel do Cerrado na regulação de grandes rios da América do Sul.

Ele diz à BBC Brasil que a rápida destruição do bioma está golpeando um dos pilares do sistema: a gigantesca rede de raízes que atua como uma esponja, ajudando a recarregar os aquíferos que levam água a torneiras de todas as regiões do Brasil.

Formado em antropologia pela Universidade Católica do Chile, doutor em arqueologia pré-histórica pelo Museu de História Natural de Washington e professor aposentado da PUC-Goiás, Barbosa conta que a água que alimenta o São Francisco e as represas de São Paulo e Brasília vem de três grandes depósitos subterrâneos no Cerrado: os aquíferos Guarani, Urucuia e Bambuí.

Os aquíferos são reabastecidos pela chuva, mas dependem da vegetação para que a água chegue lá embaixo.

Barbosa afirma que muitas plantas do Cerrado têm só um terço de sua estrutura acima da superfície e, para sobreviver num ambiente com solo oligotrófico (pobre em nutrientes), desenvolveram raízes profundas e bastante ramificadas.

"Se você arrancar uma dessas plantas, vai contar milhares ou até milhões de raízes, e quando cortar uma raiz e levá-la ao microscópio, verá inúmeras outras minirraízes que se entrelaçam com as de outras plantas, formando uma espécie de esponja."

Esse complexo sistema radicular retém água e alimenta as plantas na estação seca. Graças a ele, as árvores do Cerrado não perdem as folhas mesmo nem mesmo no auge da estiagem - diferentemente do que ocorre entre as espécies do Semiárido, por exemplo.

Barbosa conta que, quando há excesso de água, as raízes agem como esponjas encharcadas, vertendo o líquido não absorvido para lençóis freáticos no fundo. Dos lençóis freáticos a água passa para os

O professor diz que essa dinâmica começou a ser afetada radicalmente nos anos 1970, com a expansão da pecuária e de grandes plantações de grãos e algodão pelo Cerrado.

A nova vegetação tem raízes curtas e não consegue transportar a água para o fundo.

Pior: entre a colheita e o replantio, as terras ficam nuas, fazendo com que a água da chuva evapore antes de penetrar o solo. Em alguns pontos do Cerrado, como no entorno de Brasília, o uso de água subterrânea para a irrigação prejudica ainda mais a recarga dos aquíferos.

Em fevereiro, Brasília começou a racionar água pela primeira vez na história - e meses antes do início da temporada seca.

Migração de nascentes

Conforme os aquíferos deixaram de ser plenamente recarregados, Barbosa diz que se acelerou na região um fenômeno conhecido como migração de nascentes.

Para explicar o processo, ele recorre à imagem de uma caixa d'água com vários furos. Quando diminui o nível da caixa d'água, o líquido deixa de jorrar dos furos superiores.

Com os aquíferos ocorre o mesmo: se o nível de água cai, nascentes em áreas mais elevadas secam. 
 
Direito de imagem ICMBio Image caption
 
Especialista afirma que, quando há excesso de água, as raízes agem como esponjas encharcadas

Ele diz ter presenciado o fenômeno num dos principais afluentes do São Francisco, o rio Grande, cuja nascente teria migrado quase 100 quilômetros a jusante desde 1970.

O mesmo se deu, segundo Barbosa, nos chapadões no oeste da Bahia e de Minas Gerais: com a retirada da cobertura vegetal, vários rios que vertiam água para o São Francisco e o Tocantins sumiram.

O professor diz que a perda de afluentes reduziu o fluxo dos rios e baixou o nível de reservatórios que abastecem cidades do Nordeste, Centro-Oeste e Norte.

Em 2017, segundo a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec), o número de municípios brasileiros em situação de emergência causada por longa estiagem chegou a 872, a maioria no Nordeste.

Já em São Paulo as chuvas de verão aumentaram os níveis das represas e afastaram no curto prazo o risco de racionamento. Mas Barbosa afirma que a maioria dos rios que cruza o Estado é alimentada pelo aquífero Guarani, cujo nível também vem baixando.

O aquífero abastece toda a Bacia do Paraná, que se estende do Mato Grosso ao Rio Grande do Sul, englobando ainda partes da Argentina, Paraguai e Uruguai.
 
Fotografia do passado

Bastaria então replantar o Cerrado para garantir a recarga dos aquíferos?

A solução não é tão simples, diz o professor. Ele conta que o Cerrado é o mais antigo dos biomas atuais do planeta, tendo se originado há pelo menos 40 milhões de anos.

Segundo ele, olhar para o Cerrado é como olhar para uma fotografia do passado. Direito de imagem 
 
Rubens Matsushita, ICMBio Image caption 
 
Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil aponta que 872 cidades ficaram em situação de emergência por causa da estiagem em 2017

"O Cerrado já atingiu seu clímax evolutivo e precisa, para o seu desenvolvimento, de uma série de fatores que já não existem mais."

Ele exemplifica: há plantas do Cerrado que só são polinizadas por um ou outro tipo de abelhas ou vespas nativas, várias das quais foram extintas pelo uso de agrotóxicos nas lavouras. Essas plantas poderão sobreviver, mas não serão mais capazes de se reproduzir.

O Cerrado também é uma espécie de museu porque muitas de suas plantas levam séculos para se desenvolver e desempenhar plenamente suas funções ecológicas. É o caso dos buritis, uma das árvores mais famosas do bioma, que costuma brotar em brejos e cursos d'água.

Barbosa costuma dizer que, quando Cabral chegou ao Brasil, os buritis que vemos hoje estavam nascendo.

Mesmo plantas de pequeno porte costumam crescer bem lentamente. O capim barba-de-bode, por exemplo, leva mais de mil anos para atingir sua maturidade. Barbosa diz ter medido as idades das espécies com processos de datação em laboratório.
Parceria com animais

Sabe-se hoje da existência de cerca de 13 mil tipos de plantas no Cerrado, número que o torna um dos biomas mais ricos do mundo. Dessas espécies, segundo o professor, não mais que 200 podem ser produzidas em viveiros.

Ele conta que a ciência ainda não consegue reproduzir em laboratório as complexas interações entre os elementos do bioma, moldadas desde a era Cenozoica.

Barbosa diz, por exemplo, que muitas plantas do Cerrado têm sementes que são ativadas apenas em situações bem específicas. Algumas delas só têm a dormência quebrada quando engolidas por certos mamíferos e expostas a substâncias presentes em seus intestinos.

Há ainda sementes que precisam do fogo para germinar. Contrariando o senso comum, Barbosa diz que incêndios naturais são essenciais para a sobrevivência do Cerrado e podem ocorrer de duas formas. 
 
Direito de imagem Marcelo Camargo, Agência Brasil Image caption 
 
O Cerrado tem hoje cerca de 13 mil tipos de plantas, número que o torna um dos biomas mais ricos do mundo

Uma delas se dá quando blocos de quartzo hialino, um tipo de cristal, agem como lentes que concentram a luz do sol, superaquecendo a vegetação.

A outra ocorre pela interação entre algumas plantas e animais do Cerrado, entre os quais a raposa, o lobo-guará, o tamanduá-bandeira e o cachorro-do-mato-vinagre.

Segundo Barbosa, esses mamíferos carregam no pelo uma carga eletromagnética que, em contato com gramíneas secas, provoca faíscas.

O professor diz que o fogo é necessário não só para ativar sementes, mas para permitir que gramíneas secas, que não têm qualquer função ecológica, sejam substituídas por plantas novas.

"Se a gramínea seca fica ali, não tem como rebrotar, então é preciso dessa lambida de fogo natural pra limpar aquele tufo."

Os incêndios também são importantes, segundo ele, para que o solo do Cerrado continue pobre - afinal, foi nesse solo que o bioma se desenvolveu.

"O fogo é paradigma para quem pensa na preservação. Se você pensa como agrônomo, o fogo é nocivo, porque acentua o oligotrofismo do solo."
Estancar os danos

Quando deixa de haver incêndios naturais, os animais e insetos nativos desaparecem e as plantas do Cerrado são derrubadas, é quase impossível reverter o estrago, diz Barbosa.

Mesmo assim, ele defende preservar toda a vegetação remanescente para estancar os danos.

Barbosa diz torcer para que, um dia, a ciência encontre formas de recuperar o bioma. 
 
Direito de imagem Sedec/MT Image caption 
 
Especialista diz que incêndios naturais são essenciais para a sobrevivência do Cerrado

"Claro que você não vai reocupar toda a área que está produzindo [alimentos], mas você pode pelo menos tentar amenizar a situação nas áreas de recarga de aquíferos."

Sua preocupação maior é com a fronteira agrícola conhecida como Matopiba, que engloba os últimos trechos de Cerrado no Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Nos últimos anos, a região tem experimentado uma forte expansão na produção de grãos e fibras.

"Se esse projeto continuar avançando, será o fim: aí podemos desacreditar qualquer possibilidade, porque não teremos nem matriz para experiências em laboratório."

Nesse cenário, diz Barbosa, os aquíferos do Cerrado rapidamente se esgotarão.

"Os rios vão desaparecer e, consequentemente, vai desaparecer toda a atividade humana da região, a começar das atividades agropastoris."

"Teremos uma convulsão social", ele prevê.
BBC BRASIL

segunda-feira, 27 de março de 2017

Atualizado pela 1ª vez em 30 anos, atlas traz 12 'novos' tipos de nuvens


Nuvem volutus, baixa e horizontal.

Nuvem silvagenitus, que se formam sobre florestas.

Nuvem murus, nova categoria do Atlas.

Nuvem homomutatus, alteradas por interferência humana

Nuvem Flumen.

Nuvem flammagenitus, originada por queimadas.

Nuvem cavum, uma nova categoria.

Nuvem cauda.

Nuvens cataragenitus, originadas nas quedas d'água.

Nuvens asperitas, um tipo de nuvem que visto desde o solo se parece com as ondulações do oceano

Nuvem fluctus, nova categoria do Atlas


Doze “novos" tipos de nuvens - incluindo uma rara formação semelhante à superfície do oceano - foram reconhecidos pela primeira vez no Atlas Internacional de Nuvens.

Elaborada inicialmente em 1896, a publicação é uma importante referência global na observação e identificação de nuvens, usada por serviços meteorológicos, pela aviação e pela navegação.

A primeira edição trazia 28 fotografias coloridas e regras detalhadas para a classificação de nuvens.

A mais recente era de 1975 e havia sido revisada pela última vez em 1987 - desde então, tornou-se um item de colecionador.

A nova é a primeira edição com uma versão completamente digital e acessível ao público leigo.

Nela, foram incluídas novas classificações, entre as quais a mais conhecida é as asperitas, um tipo de nuvem que visto desde o solo se parece com as ondulações do oceano.

Essas nuvens foram documentadas pela primeira vez no Estado de Iowa, nos Estados Unidos, em 2006.

Logo, vários registros semelhantes foram enviados à Sociedade de Apreciadores de Nuvens, que deu início a uma campanha para que a formação fosse reconhecida oficialmente pela Organização Meteorológica Mundial (WMO, na sigla em inglês).

“Achava que isso nunca aconteceria”, diz Gavin Pretor-Pìnney, presidente da sociedade.

"A WMO (Organização Meteorológica Mundial, na sigla em inglês) dizia não ter planos de fazer uma nova edição do atlas, mas percebeu que há um interesse público por nuvens e ser necessário informar adequadamente sobre isso.”

Nuvens são classificadas de acordo com seu gênero, espécie e características suplementares.

A asperitas é uma característica suplementar nova, assim como cavum, cauda, fluctus e murus.

Também foi incluída no atlas um novo tipo, a volutus, que é baixa e horizontal.

Um elemento-chave da evolução do atlas é o avanço da tecnologia - pessoas ao redor do mundo estão registrando e compartilhando imagens de formações inusitadas com seus celulares.

“Não é preciso ser um observador do clima nem um estudioso do tema. Basta fazer a foto e mandar pra gente”, diz Pretor-Pinney.

A nova edição passou a identificar nuvens formadas a partir de processos específicos, como a flammagenitus, que surge em queimadas, as cataractagenitus, originadas em quedas d’água, e silvagenitus, formações encontradas sobre florestas.

Também há aquelas formadas pela ação do homem (homogenitus) e que são alteradas por interferência humana (homomutatus).

“Hoje em dia, você olha para o céu e vê nuvens formadas por aviões, que levam dias para desaparecer”, diz John Hammond, meteorologista da BBC.

Ele diz acreditar que novas classificações serão incluídas no futuro conforme mais pessoas enviem contribuições para o atlas.

Pretor-Pinney afirma que a publicação ajuda a “chamar atenção para o céu”.

“Assim, valorizamos nossa atmosfera e ajudamos a fazer as pessoas refletirem sobre nosso impacto sobre ela.”

Imagens: Atlas Internacional de Nuvens
 BBC Brasil

O que é a projeção Gall-Peters, mapa que promete acabar com '4 séculos de visão colonialista' do mundo


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A projeção de Gall-Peters mostra proporção mais real dos continentes

Por mais de 400 anos, escolas de todo o mundo usaram mapas com distorções ​​nos tamanhos dos continentes.

As representações do mundo usadas ​​atualmente são baseadas na projeção feita em 1569 pelo cartógrafo Gerardo Mercator, destinada aos navegadores da época. Seus gráficos respeitam a forma dos continentes, mas não os tamanhos - neles, a Europa e a América do Norte são vistas maiores do que realmente são e o Alasca ocupa mais espaço que o México, embora seja menor.

Um dos erros mais significativos é que a África parece menor do que realmente é, quando na verdade tem o triplo da extensão da América do Norte e é 14 vezes maior que a Groenlândia.

Mas agora algumas salas de aula de escolas públicas de Boston, no nordeste dos Estados Unidos, começaram a usar o mapa de Gall-Peters, projeção batizada em homenagem a James Gall, escocês aficionado por astronomia que a desenhou pela primeira vez em 1855, e ao historiador alemão Arno Peters, que a difundiu na década de 1970.

Esse mapa mostra o tamanho e a proporção de países, continentes e oceanos com mais precisão. Na semana passada, cerca de 600 escolas públicas da cidade americana receberam cópias dele, noticiou o jornal The Boston Globe.

Uma das principais mudanças é que a Europa aparece muito menor do que se via antes em comparação com a África, que é muito maior.
Continentes distorcidos

Uma das razões para as distorções cartográficas é a dificuldade de se projetar uma esfera como a Terra - de três dimensões - em uma superfície plana, de duas dimensões, como a de um mapa.

Mas, para os geógrafos, atrás dos erros de Mercator há também outra razão.

"A maioria dos primeiros mapas do mundo foi criada por europeus do norte", disse Vernon Domingo, professor de geografia da Universidade Estadual de Bridgewater e membro da Aliança Geográfica de Massachusetts, em declaração ao The Boston Globe.

"Eles tiveram a perspectiva do hemisfério norte - e também uma perspectiva colonialista." Direito de imagem 
 
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No mapa de Mercator, a Groenlândia é quase do tamanho da África
Descolonizar o currículo

A troca de mapas responde ao desejo de Boston de "descolonizar o currículo", disse ao mesmo jornal Colin Rose, superintendente-assistente do Escritório de Oportunidades das Escolas Públicas de Boston.

"Trata-se de mapas, mas, ao mesmo tempo, não se trata de mapas", disse Rose. "Esta é uma mudança de paradigma. Nós tivemos uma visão que era muito eurocêntrica. E como podemos falar de outros pontos de vista? Esse é um excelente ponto de partida."

Para Hayden Frederick-Clarke, diretor de competências culturais das escolas públicas de Boston, o erro mais grave das projeções de Mercator é o tamanho da África.

"Dos nossos alunos, 86% não são brancos e têm pais e avós que são de locais que são mostrados menores nos mapas", disse Frederick-Clarke ao programa The World, da PRI (Public Radio International) e da BBC.

"Queremos que os alunos se vejam de forma adequada e contestem a narrativa de que muitos desses lugares são pequenos e insignificantes no mundo", disse.

"A Groenlândia parece ter o mesmo tamanho da África e dos EUA. Parece de um tamanho comparável, embora sabemos que isso não é uma verdade absoluta. A África é 14 vezes maior do que a Groenlândia. Além disso, no mapa de Mercator, o México é menor que o Alasca, quando na verdade é muito maior", disse o professor.

"Também há problemas com o Brasil. A Europa, mais especificamente a Alemanha, aparecem perto do centro do mapa. E sabemos que isso não é verdade."

"Da minha experiência como instrutor, sei que as pessoas gostam da verdade e que os professores querem apresentar um produto melhor e mais autêntico", disse Frederick-Clarke.

O jornalista da PRI David Leveille diz que os críticos da iniciativa a veem como "mais uma batalha na guerra de culturas" e insistem que "um mapa é apenas um mapa".

Segundo Leveille, eles perguntam: "nenhum mapa é perfeito, então porque se preocupar?".
BBC BRASIL

sexta-feira, 24 de março de 2017

Na maioria do Brasil, não existem 4 estações. Por que então falamos em primavera, verão, outono e inverno?


Nós trópicos, as estações são uma tão artificial quanto neve no Natal

Redação AH

 Onde você mora, as árvores ficam assim? | Crédito: Pixabay

O número 4 é uma convenção baseada na astronomia, que não reflete necessariamente a temperatura e os fenômenos ambientais, e não é adotada de forma igual em todo o mundo. Tradicionalmente, os indianos consideravam que o ano tem 6 diferentes estações, enquanto os chineses o dividem em 24, e os aborígenes australianos, em 5. Mesmo em lugares onde o número de estações é 4, o dia em que começam não é consenso. Na Austrália, Nova Zelândia e África do Sul, o verão começa no dia 1º de dezembro, em vez do dia 21 ou 22, como no Brasil.

No Brasil, assim como na maioria dos países, as estações são marcadas pela diferença na duração de dia e noite, ou solstícios e equinócios, que são 4 ao longo do ano. Os solstícios, que caem em 21 ou 22 de dezembro, e 20 ou 21 de junho, são os dias com maior diferença. O dia mais longo do ano é o solstício de verão, e a noite mais longa, o solstício de inverno. Equinócios, caindo em março e setembro, são quando noite e dia têm exatamente a mesma duração. Esses dias marcam o começo das estações, para os países que seguem a regra da Organização Meteorológica Mundial.

Solstícios e equinócios são indicadores confiáveis da incidência de luz solar, mas não do clima. Se dependesse apenas da insolação, o solstício deveria ser o meio e não o começo de verão e inverno - mas há um atraso de semanas por causa do aquecimento e resfriamento dos oceanos.

A divisão pode não ser perfeita em lugar nenhum, mas é muito menos no Brasil. Na maioria do país, ela não serve para nada: entre os trópicos e o Equador, faz calor o ano inteiro e a diferença na duração de dia e noite é irrisível. Tanto que não existe horário de verão nos estados do Norte e Nordeste, já que não há diferença no comprimento do dia. Há duas estações práticas nos trópicos: de chuva ou seca.

Claudio Furukawa, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, explica que primavera e outono, na maioria do Brasil, são só importações da Europa. Tão fútil quanto neve no Natal. "O fato de que colocamos efeitos que simulam neve na árvore de Natal é um dos indícios de que festejamos a data de maneira que não pertence ao nosso clima."
Revista Aventuras na História

terça-feira, 21 de março de 2017

Tráfico de órgãos humanos na China levanta polêmica


RTP

Cartaz de protesto do grupo Falun Gong, contra o transplante forçado de órgãos de prisioneiros | Jameson Wu, Reuters
 
Convidar a raposa para o galinheiro: isso está a fazer, segundo os críticos, o Vaticano, ao acolher um antigo vice-ministro chinês da Saúde numa conferência sobre tráfico de órgãos.


Ao contrário dos vários países em que o tráfico de órgãos humanos é levado a cabo por mafias mais ou menos proscritas, na China esse tráfico é feito legalmente pelo Estado. O seu banco de órgãos é o corredor da morte das prisões.

O número de execuções capitais é um segredo, também ele de Estado. Calcula-se que oscile entre as 3.000 e as 7.000. Uma coisa é certa: a família da pessoa executada não tem direito ao corpo, não pode enterrá-lo e não pode vê-lo.

Os motivos do secretismo tornam-se mais transparentes, se se der crédito a Nicholas Bequelin, director regional da Amnistia Internacional para a Ásia oriental, citado no diário britânico The Guardian. Segundo Bequelin, a grande maioria dos órgãos transplantados na China provém de prisioneiros condenados à morte.

O facilitismo que o sistema de saúde chinês desenvolveu ao apoiar-se nesse "banco de órgãos" poderá mesmo afrouxar a pressão para que se crie um programa nacional de dadores voluntários. O facto é que o programa não existe e a sua criação vai sendo adiada.

Segundo o mesmo Bequelin é também por esse motivo que a China não adere às recomendações da Organização Mundial de Saúde sobre critérios para determinar quando alguém pode considerar-se morto: para algumas transplantações, retira-se o órgão de um prisioneiro que, segundo os critérios da OMS, ainda seria classificado como vivo.

Além disso, o ritmo e o calendário das execuções está subordinado, segundo aquele responsável da Amnistia, à intensidade da procura: "O timing da execução depende por vezes, segundo pensamos, da necessidade de uma determinada operação de transplantação. Executa-se esta pessoa a tal hora em tal dia, porque é nessa altura que o paciente tem de estar pronto".

A conferência sobre tráfico de órgãos vem na linha de anteriores declarações vaticanas, manifestando preocupação com o alastramento desse flagelo. Especialmente relevante tinha sido uma mensagem do papa Francisco no ano passado, considerando o tráfico de órgãos humanos como "uma nova forma de escravatura".

A conferência organizada pela Academia Pontifícia de Ciências irá realizar-se a partir de amanhã, terça feira, e durará dois dias. Ao convidar o antigo vice-ministro chinês da Saúde, Huang Jiefu, o Vaticano pretende melhorar as suas relações com o Governo de Pequim e espera que isso lhe permita exercer alguma influência no que diz respeito à observância de direitos humanos e de liberdade religiosa.

As vozes mais críticas põem, no entanto, em dúvida que o convite sirva esses propósitos. Segundo Wendy Rogers, um perito em deontologia médica da Universidade australiana de Macquarie, o convite a Huang e a sua visita, já agendada, ao papa Francisco arrisca-se a dar "um ar de legitimidade" à política chinesa de transplantações.

Segundo Rogers, "a Academia Pontifícia de Ciências devia saber como a caução, mesmo indirecta, de prestigiadas entidades estrangeiras é usada pelo aparelho de propaganda da China para polir a reputação do seu sistema de transplantação antiético". E apela à conferência para "que considere o apelo dos prisioneiros encarcerados na China, que são tratados como bancos de órgãos descartáveis".

A Academia respondeu, pela pena do bispo argentino Marcelo Sánchez Sorondo que a conferência apenas pretende ser "um exercício académico e não um debate sobre tese políticas contrapostas".

Huang notabilizara-se no seu cargo por ter prometido, em 2015, que a China iria deixar de usar órgãos de condenados à morte nas transplantações. A declaração de intenções continua ainda hoje a valer-lhe o aplauso de Francis Delmonico, um professor de cirurgia ao serviço da Academia Pontifícia.

Delmonico afirmou que "a sensibilidade do dr. Huang para a objecção mundial àquela prática impulsionou o seu incansável trabalho pela mudança na China, culminando na proibição, em Janeiro de 2015, do uso de órgãos dos prisioneiros executados".

Mas o mesmo Delmonico, ao prestar depoimento no ano passado perante uma comissão do Congresso dos EUA reconhecera que era impossível dizer se essa prática tinha sido efectivamente eliminada.

Transplantes de órgãos na China



A China tem um dos maiores programas de transplante de órgãos do mundo, com mais de 13 mil transplantes realizados por volta do ano de 2004, e um máximo de 20 mil em 2006. No entanto, por uma questão de cultura e de costume, o país tem taxas extremamente baixas de doação voluntária de órgãos. Entre 2003 e 2009, por exemplo, apenas 130 pessoas se ofereceram para ser doadores de órgãos. Em 2010 a Cruz Vermelha chinesa lançou uma iniciativa de âmbito nacional para atrair doadores voluntários de órgãos, mas apenas 37 pessoas se inscreveram.  Devido ao baixo nível de doação voluntária de órgãos, a maioria dos órgãos utilizados em transplantes veio de prisioneiros. Em 1984, o governo chinês aprovou um regulamento que permitiu a remoção de órgãos de criminosos executados, desde que eles deem consentimento prévio ou se ninguém reclamar o corpo.

Apesar da ausência de um sistema estruturado de doação de órgãos, os tempos de espera para a obtenção de órgãos vitais na China estão entre os mais curtos do mundo — frequentemente, apenas algumas semanas para órgãos como rins, fígados e corações. Esse fato fez da China um destino internacional para turismo de transplante e um importante local para testes de medicamentos anti-rejeição de órgãos. O comércio de órgãos humanos tem sido também uma fonte lucrativa de receita para estabelecimentos médicos, militares e de segurança pública na China. Por existir nenhum sistema nacional eficaz de doação de órgãos, os hospitais obtém os órgãos de locais tais como centros de detenção e prisões.

Na China, a identidade dos doadores de órgãos e a evidência de seu consentimento por escrito, em geral, não é revelada ou informada aos receptores de transplantes. Em alguns casos, nem mesmo a identidade da equipe médica e dos cirurgiões é informada aos pacientes. Esse problema de transparência é agravado pela falta de diretrizes éticas para os profissionais do transplante e de um órgão disciplinar para os médicos que violam padrões éticos.
Na década de 1990, a crescente preocupação com possíveis abusos da obtenção forçada de consentimento do doador e da corrupção levou as organizações médicas e grupos de direitos humanos a começar a condenar o uso de órgãos de prisioneiros da China. Essa preocupação ressurgiu em 2001, quando um médico militar chinês testemunhou perante o Congresso dos EUA que ele havia participado de operações voltadas a extrair órgãos de prisioneiros executados, mas que no entanto, alguns deles, ainda não estavam mortos. Em dezembro de 2005, o vice-ministro de saúde da China, Huang Jiefu, informou que mais de 95 % de transplantes de órgãos provinham de prisioneiros executados e prometeu medidas para evitar abusos. Huang reiterou essa informação em 2008 e 2010 e afirmou que mais de 90 % dos transplantes de órgãos de doadores falecidos são provenientes de prisioneiros executados. Em 2006, a Associação Médica Mundial exigiu que a China pare de extrair órgãos de prisioneiros, os quais não se considera serem capazes de dar o seu consentimento livremente. Em 2014, Huang Jiefu disse que a dependência chinesa de órgãos extraídos de prisioneiros no corredor da morte estava em declínio e, ao mesmo tempo, defendeu a prática do uso de órgãos de prisioneiros no sistema de transplante.

Além da fonte de órgãos de prisioneiros no corredor da morte, observadores internacionais e pesquisadores têm também expressado a preocupação de que os prisioneiros de consciência - nomeadamente praticantes do Falun Gong, mas também potencialmente tibetanos, uigures e membros de práticas cristãs minoritárias - estão sendo mortos para suprir de órgãos a indústria de transplante. Estes indivíduos não foram condenados por crimes capitais e, em muitos casos, foram presos extrajudicialmente devido às suas crenças políticas ou religiosas.
 Wikipédia

Extração de órgãos de praticantes do Falun Gong na China


Wikipédia

Relatórios sobre a extração de órgãos de praticantes do Falun Gong e de prisioneiros políticos na China têm levantado uma preocupação crescente na comunidade internacional nos últimos anos. De acordo com os relatórios, os prisioneiros na China, principalmente praticantes do Falun Gong, são executados "sob demanda" com o propósito de fornecer órgãos para receptores de transplante. É dito que o tráfico de órgãos é decorrência da perseguição ao Falun Gong pelo partido comunista chinês e dos ganhos financeiros obtidos por instituições e indivíduos envolvidos no comércio de órgãos.

Relatórios sobre a extração sistemática de órgãos de prisioneiros do Falun Gong surgiram em 2006. Acredita-se que tal prática tenha começado seis anos antes. Vários pesquisadores do assunto — mais notavelmente o advogado canadense de direitos humanos David Matas, o ex-parlamentar David Kilgour e o jornalista investigativo Ethan Gutmann — estimam que dezenas de milhares de prisioneiros de consciência do Falun Gong foram mortos para alimentar um lucrativo comércio envolvendo órgãos e cadáveres humanos e que possivelmente esses abusos ainda estejam ocorrendo. Tais afirmações são baseadas em levantamentos estatísticos; entrevistas com ex-prisioneiros, autoridades médicas e agentes de segurança pública; e provas circunstanciais, tal como o grande número de praticantes do Falun Gong detidos extrajudicialmente na China e os lucros obtidos com a venda de órgãos. O governo chinês tem persistentemente negado tais alegações. No entanto, o fracasso das autoridades chinesas em efetivamente responder ou refutar as acusações tem chamado a atenção e a condenação pública de governos, organizações internacionais e sociedades médicas. Os parlamentos do Canadá e da União Europeia e da Subcomissão de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, aprovaram resoluções condenando a extração de órgãos de prisioneiros de consciência do Falun Gong. Relatores especiais das Nações Unidas têm chamado o governo chinês para dar explicações sobre a origem dos órgão usados nos transplantes na China e a Associação Médica Mundial, a Sociedade Americana de Transplantes e a Sociedade de Transplantação pediram que sejam aplicadas sanções contra as autoridades médicas chinesas. Vários países consideram ou tomaram medidas para dissuadir os seus cidadãos de viajar para a China para obterem órgãos. Um documentário sobre o tráfico de órgãos de praticantes do Falun Gong, Human Harvest (Colheita Humana), recebeu em 2014 o Prêmio Peabody por sua excelência em jornalismo.

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