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sexta-feira, 17 de abril de 2026

O que é racismo ambiental? Por que falar disso é importante?



O que é racismo ambiental? Por que falar disso é importante?

Ângela Gomes*
Departamento de Engenharia Ambiental
Centro Universitário de Belo Horizonte (UNIBH)
Integrante do Movimento Negro Unificado



CRÉDITO: FOTO ADOBE STOCK


O racismo ambiental é um conceito que expressa a transversalidade do recorte racial, que diferencia quem se beneficia e quem sofre com a destruição e desastres ambientais. Em sociedades desiguais, os riscos ambientais e, portanto, os desastres ambientais não se distribuem igualitariamente por todas as camadas da população. Sociedades racistas, construídas com base na injustiça racial escravocrata como a do Brasil, expõem principalmente os grupos vulnerabilizados historicamente à intensidade dos chamados desastres ambientais. Assim, no caso do Brasil, os negros, fenotipicamente não brancos, pobres, são os mais expostos a qualquer impacto ambiental, principalmente, os de maior gravidade, duração e intensidade. Isso fica evidente, por exemplo, ao olharmos para as áreas de risco por todo o Brasil. Quem as ocupa? Quem vive ali? São as populações majoritariamente negras. E isso não é de hoje. Os negros foram empurrados, obrigados a ocupar as áreas de risco para refugiarem-se da escravidão. Nas áreas rurais, os quilombos ficavam nas grotas, que, com o desmatamento, foram os primeiros locais a sofrerem com as enchentes. Na área urbana, a mesma coisa. O resultado da exclusão territorial escravocrata desenha as cidades de hoje: quem está nas encostas, onde há o maior índice de deslizamento, são os negros. As baixadas, lugares com a pior drenagem, sem saneamento básico, são territórios que as imobiliárias não desejam e são deixados para as comunidades marginalizadas do espaço urbano, a população negra. Por exemplo, o desastre criminoso de Mariana (MG) foi uma barragem de mineração que se rompeu, e os primeiros atingidos foram os quilombolas de Bento Rodrigues. Depois atingiu as comunidades restantes da Bacia Hidrográfica do Rio Doce. Os primeiros atingidos, os mais gravemente atingidos sempre serão os negros pobres.

Em grande parte, as mudanças climáticas são resultado da escolha de modelos/paradigmas dos países ricos e das elites. Um modelo tecnológico energívoro e poluidor, consumista, modelo civilizatório eurocêntrico ocidental, racista. Por isso, temos que discutir a desnaturalização dos desastres, das mudanças climáticas e de suas consequências, como os desastres.

São escolhas políticas e econômicas. Dificilmente são usadas tecnologias de mitigação, como um aterro sanitário, num bairro de classe média, de maioria branca, por exemplo. As áreas escolhidas são invariavelmente pobres.

Frente a isso, o movimento de justiça ambiental requer reparação histórica com os que estão na diáspora africana, com os que foram migrados forçadamente do continente africano e com os que são atingidos pelos desastres ambientais modernos. Precisamos de prevenção a esses desastres, e a prevenção passa pelo fim do racismo, pela ecologia urbana e a agroecologia resguardada pelos povos tradicionais. Só assim enfrentaremos o racismo, que vai se requalificando: racismo estrutural, racismo ambiental, racismo climático. Em síntese, é enfrentar a violência e a injustiça socioambiental. Só assim podemos construir o bem viver.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O apartheid não morreu

O apartheid não morreu
Aqui a discriminação é a lei. Numa África do Sul onde racismo é crime, um povoado se mantém 100% branco e vive como se fosse um país independente. Bem-vindo (ou não) a Orânia
por Felipe Lessa, de Orânia, África do Sul
Quase todos os carros são brancos em Orânia. Já entre os motoristas não existe quase. São todos brancos mesmo. É um povoado de 700 pessoas fundado por brancos e que só aceita moradores brancos. "Viemos atrás do sonho de ter uma comunidade livre e segura. A África do Sul já foi um país de primeiro mundo há algumas décadas, mas infelizmente não podemos mais dizer isso", diz Andries van der Berg, um oraniano de 24 anos.

Andries tem saudade de um tempo que nunca viveu para valer. Tinha só 4 anos de idade quando o apartheid acabou, em 1990. Nos 42 anos que a política de segregação durou, a elite de origem europeia era privilegiada em todas as esferas: tinha os melhores empregos e vivia em bairros nobres com serviços públicos comparáveis aos dos países ricos. Do outro lado dessa muralha invisível estavam 96% da população: negros e mestiços amontoados em periferias ocupando subempregos. Não ser racista era contra a lei, inclusive: o Estado proibia casamentos entre brancos e negros.

Em Orânia os muros também são invisíveis. Não há cancela com seguranças impedindo negros de entrar. Também nem seria permitido. A Constituição sul-africana mais recente, de 1993, transformou o racismo em crime. Se é assim, então, como Orânia é possível? Porque juridicamente esse povoado não é uma cidade. Mas uma empresa. O lugar em si está subordinado a um município de verdade, Hopetown. Não tem prefeito próprio. Mas tem presidente. E os moradores são os acionistas. Ao comprar uma casa lá, você vira sócio. Como qualquer empresa tem liberdade para recusar sócios, Orânia fica com autonomia para decidir quem pode e quem não pode viver lá, como se fosse um governo de verdade.

Isso foi possível porque os fundadores do lugar compraram uma vila operária abandonada no subúrbio de Hopetown - em 1990, logo que o apartheid acabou e Nelson Mandela saiu da prisão. A empreitada custou o equivalente a R$ 1,1 milhão em dinheiro de hoje. Mas isso só valeu pelo terreno, praticamente: eram 240 casas parcialmente destruídas, sem água, luz ou esgoto. "Começamos do nada", diz, orgulhoso, John Strydom, um dos diretores do povoado-empresa.

Empresa não. País. Eles se sentem mais oranianos do que sul-africanos. Como qualquer nação, buscam depender o mínimo possível do exterior. E ter o máximo de autossuficiência econômica. De fato, a maior parte dos serviços e dos alimentos é produzida na própria cidade. Mesmo sem ter nem 15 ruas, Orânia possui bandeira e uma moeda própria: o ora, que vale o mesmo que o rand sul-africano.

É um sistema financeiro engenhoso: você pega seus rands e troca numa casa de câmbio. Ela deixa o dinheiro aplicado. Os rands não são mais seus, a troca já foi feita. Mas você pode sacar os juros depois. Além disso, vários comerciantes dão um desconto de 5% a quem pagar com o ora. É a colaboração deles para criar uma identidade nacional. E para fortalecer a economia local também. Com a moeda local, oraniano gasta com oraniano, não com sul-africano.

"Nosso objetivo é manter o dinheiro dentro da cidade e, com isso, criar empregos", diz Frans de Klerk, o CEO. Não dá para dizer que não deu certo. Em quase 20 anos de existência, foram construídas 3 igrejas, duas escolas, dois museus e uma estação de rádio. E a maior parte dos oranianos tem negócios próprios no povoado, não precisa sair de lá para ganhar a vida.

Mas, cá entre nós, têm de contar com uma mãozinha dos sul-africanos. O posto de gasolina de Orânia, por exemplo, depende dos motoristas negros para sobreviver. Como ele é o único num raio de 15 quilômetros, os habitantes das redondezas abastecem por lá também. Para ter uma ideia, a SUPER viu durante 1h30 só 4 carros com brancos contra 13 com negros. "Sempre passo por aqui e nunca me trataram mal, mas também nunca abriram um sorriso. Lógico, eu estou gastando meu dinheiro no posto. Mas não gosto deste lugar. Nem um pouco", diz a comerciante negra Corina Mathlante.

O isolamento parece não ter fim. Enquanto o país está fervendo por causa da Copa do Mundo, que começa em 11 de junho, o clima em Orânia está frio, até gelado. Sabe como seria se o Brasil sediasse o próximo mundial de curling? É mais ou menos assim que está o clima do povo de Orânia para a copa. "Acho que algumas pessoas vão assistir os jogos pela televisão...", desconversa John Strydom. O negócio ali é atletismo e rúgbi, o esporte tradicional da elite branca.

Tribo de holandeses

O racismo dos oranianos não se limita a um brancos x negros. A questão étnica ali é mais profunda. Tanto que não é qualquer tipo de branco que vive por lá: somente africâneres, os descendentes dos holandeses que iniciaram a colonização do país no século 17 ("orânia" vem de orange, a cor-símbolo da Holanda). Se você for um branco sul-africano descendente de ingleses, que também dominaram a região, não entra.

O fato é que os africâneres dominaram politicamente e culturalmente o país na época do apartheid, mas perderam parte desse poder com a democratização, em 1994. O idioma africâner, um dialeto que veio do holandês dos anos 1600, fazia parte das matérias obrigatórias nas escolas e era número 1 nas universidades. Com a democratização, o inglês tem se tornado dominante no ensino, constituindo também uma segunda língua universal - pela qual as dezenas de etnias negras do país podem se comunicar. "Fomos marginalizados", reclama (em inglês) Carel Boshoff, um dos fundadores de Orânia.

Faz muito mais tempo que os africâneres se sentem marginalizados. Começou quando os ingleses invadiram a praia deles na Áfica do Sul, atrás das jazidas de diamante e de ouro, em 1877.

Os súditos da rainha Vitória expulsaram os colonos descendentes dos holandeses à bala. Aí os africâneres reagiram e pegaram suas terras de volta depois de uma batalha sangrenta. Após muita negociação, um acordo de paz acabou assinado. Pois bem, esse foi só o primeiro episódio. Na virada para o século 20 começaria outra guerra pelo ouro. E os ingleses, com um exército bem superior, massacrariam os africâneres, mandando milhares deles para férias forçadas em campos de concentração.

Se museus existem para relembrar o passado, o de Orânia faz isso com maestria: a maior parte do acervo é composto de carabinas, revólveres e espingardas. São 43. Fora a réplica de cera representando o sofrimento das mulheres nos campos de prisioneiros.

Independência. Ou morte?

Mesmo com uma história de tanta tensão, a relação com o governo é surpreendentemente boa. Prova disso é a visita feita pelo então presidente Nelson Mandela, em 1994, como um gesto de reconciliação entre negros e africâneres. O atual chefe de Estado, Jacob Zuma, também demonstrou interesse em conhecer o povoado. Uma amostra de simpatia, mas também da total falta de receio do governo sul-africano com esses loirinhos que brincam de Banco Imobiliário em seu bairro.

Mas isso não impede Orânia de pensar grande. "Vejo um futuro promissor. Somos uma alternativa para os africâneres e continuaremos crescendo." Crescendo até declarar independência? "Não. Não pretendemos nos tornar uma nação. Mas, se a relação com a África do Sul ficar ruim, será a nossa única opção. Para nos sentirmos seguros, precisamos sentir que pertencemos a algum lugar", diz Boshoff. Mas talvez exista um jeito melhor de saber sobre o futuro de Orânia do que perguntar para os líderes: dar uma volta na piscina pública de lá. É o ponto de encontro dos adolescentes, cheio de casais namorando, moleques fazendo brincadeiras... Lá de trás vem uma garota usando um daqueles óculos tipo persiana, cheia de pose. Na mão um aparelhinho tocando Single Ladies, da Beyoncé. Shantal Williams, 16, não tem nada do jeitão tradicionalista-rural dos africâneres. A menina quer se formar em música - em outra cidade, claro. "Até gosto de morar aqui, mas prefiro lugares de cultura mista, sabe? A gente pode trocar talentos com pessoas diferentes... Aqui é tudo muito igual."

Nome Oficial - Orânia
Localização - África do Sul, a 650 km de Johannesburgo
População - 700
"Independência" (ano da fundação) - 1991
Atividade econômica - Agricultura de azeitonas, pêssegos e figos.
Forma de governo - Empresarial.
Etnia - Africâner.

Para saber mais
The Afrikaners: Biography of a People
Hermann Giliomee , University of Virginia Press, 2003.

Revista Superinteressante

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Racismo temos de aprender a viver juntos

A xenofobia e o racismo são construções intelectuais que se enraizaram na mente humana ao longo dos séculos. É necessária uma estratégia intelectual para alcançar a profundeza histórica e cultural dessas pragas e eliminá-las de vez

Por Doudou Diène

“É ainda fértil o útero do qual veio a besta”, escreveu o dramaturgo alemão Bertolt Brecht quando a Segunda Guerra Mundial estava em seu auge. A seriedade dessa frase ainda ressoa hoje. A vitória de Barack Obama nas eleições presidenciais dos Estados Unidos foi, de fato, um golpe para o racismo e pode ter repercussões significativas. É difícil deixar de se alegrar diante da ideia de que o sonho de Martin Luther King pode ter se tornado realidade. Mas, ao mesmo tempo, como ignorar a violência interétnica que eclodiu no Quênia, país em que nasceu o pai do novo presidente, no mesmo ano em que ele foi eleito?

O racismo é um mutante. Antes de conseguirmos combater suas manifestações mais antigas (como o antissemitismo, o racismo contra negros e árabes), já vemos o ódio ressurgir com outra roupagem. Especialmente desde os ataques de 11 de setembro de 2001, tem emergido a noção alarmante de comunidades potencialmente terroristas, mostrando quão perigosa pode ser uma abordagem que funde fatores como raça, cultura e religião.

manifestação de negros em subúrbio parisiense em 2005, ano de grandes distúrbios raciais na França.

Esse tipo de amálgama obscurece a análise ou compreensão do racismo. Houve um tempo em que as ideias racistas eram promovidas por partidos claramente identificados como pertencentes à extrema direita. Mas, gradualmente, sob o pretexto de se defender a identidade nacional e combater a imigração ilegal e o terrorismo, argumentos inerentemente racistas têm sido adotados nas campanhas eleitorais de partidos democráticos. Alianças dentro de certos governos estão permitindo que partidos nacionalistas e de extrema direita implementem ideais xenófobos e racistas ao lhes conferirem legitimidade democrática.

O uso do racismo para propósitos eleitorais ou políticos está sendo complementado por uma legitimação intelectual ou científica do racismo e da xenofobia, como visto nas declarações de figuras públicas conhecidas, em pesquisas universitárias e em publicações comerciais.

Para usar apenas um exemplo, havia a teoria do choque entre civilizações desenvolvida pelo acadêmico norte-americano Samuel Huntington em meados dos anos 1990, de acordo com a qual o Ocidente seria ameaçado pela China e pelo Islã. Poucos anos mais tarde, em seu livro Quem somos nós?, Huntington deu mais um passo nessa direção ao supor uma ameaça à identidade americana como resultado da presença dos latino-americanos que vivem nos EUA.

imagem do ataque de 11 de setembro de 2001 em Nova York, que deu força à noção de comunidades potencialmente terroristas.

IDEIAS RACISTAS TÊM SURGIDO EM CAMPANHAS DE PARTIDOS DEMOCRÁTICOS

Ideias racistas e xenófobas expressadas por pessoas que gozaram de fama em certo momento da história penetram a política, a religião, a literatura, a educação e os meios de comunicação e acabam firmando raiz nas mentes das pessoas. A imagem distorcida dos muçulmanos não começou no 11 de setembro.

Ela é resultado de um longo processo intelectual que se iniciou com os primeiros encontros entre o Islã e o cristianismo. A imagem distorcida dos negros é fruto de um processo intelectual que legitimou o tráfico transatlântico de escravos e justificou a venda de seres humanos com base em uma alegada inferioridade, que os demonizava e os reduzia a meros objetos, buscando apoio em teorias e leis. Em outras palavras, o racismo tem profundas raízes culturais e históricas. Ele não caiu simplesmente do céu.

Se o choque de civilizações é uma ilusão, o multiculturalismo é uma realidade. Tomemos o exemplo da nova Europa. As identidades nacionais que foram legitimamente herdadas pelos Estados-nação têm de conviver diariamente com as identidades de outras comunidades étnicas, culturais e religiosas. Aquelas se sentem ameaçadas; estas, frustradas.

Essa frustração não advém apenas da marginalização política, econômica e social das pessoas às quais pedimos para se despirem de suas identidades, para entulharem suas memórias e adotarem, como na França, a fantasia da República, o símbolo de sua nova identidade.

As raízes dessa frustração têm origens históricas profundas. Mas o debate público sobre a presença dessas comunidades em solo europeu quase não existe. O colonialismo e o tráfico de escravos são capítulos da história que foram suprimidos ou desconsiderados. Afinal de contas, tivemos de esperar até a Conferência Internacional sobre o Racismo, em Durban (África do Sul), em 2001, para que o tráfico transatlântico de escravos fosse finalmente reconhecido como um crime contra a humanidade. A distorção ou a ignorância de certas realidades históricas, ao impedirem que elas façam parte da memória nacional, podem apenas levar a chamas, como aquelas que emergiram nos subúrbios franceses, há alguns anos.

APROVAR LEIS QUE CONDENEM O RACISMO E A XENOFOBIA ATINGE APENAS A PONTA DO ICEBERG

Podemos nos perguntar se, no processo de unificação, a Europa não desconsiderou um problema fundamental: a criação de uma nova identidade. Em outras palavras, o multiculturalismo que a define hoje. Olhando para certas políticas de imigração, podemos nos perguntar se a Europa tem até mesmo a consciência de que os imigrantes são também membros da humanidade e que o multiculturalismo é mutuamente enriquecedor. Os estrangeiros que vêm viver na Europa têm de se adaptar às regras sociais do país que os recebe. Não é isso que está sendo questionado. Mas eles também devem ser capazes de plantar algumas bonitas flores no jardim da Europa.

O multiculturalismo está no centro das manifestações contemporâneas de racismo e xenofobia e é em torno do multiculturalismo que a luta contra o racismo deve tomar forma.

Casos de violência entre grupos étnicos e religiosos estão se espalhando rapidamente e podem ser observados ao redor do mundo, demonstrando que uma estratégia puramente legislativa não é suficiente. É essencial que se continue a aprovar leis e que se estabeleçam regulamentos e outros textos nacionais e internacionais que condenem o racismo, a discriminação e a xenofobia, mas isso atinge apenas a ponta do iceberg. O que torna o útero fértil, nas palavras de Brecht, são as fontes mais profundas de racismo, as quais não podem ser influenciadas apenas pelas legislações.

É essencial que se tenha uma estratégia intelectual e ética. Sem isso, não seremos capazes de abalar a mentalidade racista. Isso significa ir até a base histórica e cultural do racismo; unir-nos contra a fecundidade dos argumentos racistas, contra seu uso por políticos e sua banalização pela mídia. Isso significa reconhecer a realidade da diversidade cultural, étnica e religiosa como a base para o diálogo entre civilizações, nos âmbitos nacional e internacional. Em uma palavra: aprender a viver juntos.

A fim de acabarmos com a ideologia racista, é necessário desenvolvermos uma arqueologia das causas profundas do racismo. A ideologia antirracista deve seguir a mesma trajetória que o racismo tem utilizado para se insinuar (a política, a religião, a literatura, a educação e a mídia) e conseguir se firmar nas mentes de homens e mulheres.

Doudou Diène é ex-diretor da Divisão de Diálogo Intercultural da Unesco e relator especial da ONU sobre as formas contemporâneas de racismo, de 2002 a 2008.

Revista Planeta

domingo, 2 de maio de 2010

O apartheid não morreu




O apartheid não morreu
Aqui a discriminação é a lei. Numa África do Sul onde racismo é crime, um povoado se mantém 100% branco e vive como se fosse um país independente. Bem-vindo (ou não) a Orânia
por Felipe Lessa, de Orânia, África do Sul
Quase todos os carros são brancos em Orânia. Já entre os motoristas não existe quase. São todos brancos mesmo. É um povoado de 700 pessoas fundado por brancos e que só aceita moradores brancos. "Viemos atrás do sonho de ter uma comunidade livre e segura. A África do Sul já foi um país de primeiro mundo há algumas décadas, mas infelizmente não podemos mais dizer isso", diz Andries van der Berg, um oraniano de 24 anos.

Andries tem saudade de um tempo que nunca viveu para valer. Tinha só 4 anos de idade quando o apartheid acabou, em 1990. Nos 42 anos que a política de segregação durou, a elite de origem europeia era privilegiada em todas as esferas: tinha os melhores empregos e vivia em bairros nobres com serviços públicos comparáveis aos dos países ricos. Do outro lado dessa muralha invisível estavam 96% da população: negros e mestiços amontoados em periferias ocupando subempregos. Não ser racista era contra a lei, inclusive: o Estado proibia casamentos entre brancos e negros.

Em Orânia os muros também são invisíveis. Não há cancela com seguranças impedindo negros de entrar. Também nem seria permitido. A Constituição sul-africana mais recente, de 1993, transformou o racismo em crime. Se é assim, então, como Orânia é possível? Porque juridicamente esse povoado não é uma cidade. Mas uma empresa. O lugar em si está subordinado a um município de verdade, Hopetown. Não tem prefeito próprio. Mas tem presidente. E os moradores são os acionistas. Ao comprar uma casa lá, você vira sócio. Como qualquer empresa tem liberdade para recusar sócios, Orânia fica com autonomia para decidir quem pode e quem não pode viver lá, como se fosse um governo de verdade.

Isso foi possível porque os fundadores do lugar compraram uma vila operária abandonada no subúrbio de Hopetown - em 1990, logo que o apartheid acabou e Nelson Mandela saiu da prisão. A empreitada custou o equivalente a R$ 1,1 milhão em dinheiro de hoje. Mas isso só valeu pelo terreno, praticamente: eram 240 casas parcialmente destruídas, sem água, luz ou esgoto. "Começamos do nada", diz, orgulhoso, John Strydom, um dos diretores do povoado-empresa.

Empresa não. País. Eles se sentem mais oranianos do que sul-africanos. Como qualquer nação, buscam depender o mínimo possível do exterior. E ter o máximo de autossuficiência econômica. De fato, a maior parte dos serviços e dos alimentos é produzida na própria cidade. Mesmo sem ter nem 15 ruas, Orânia possui bandeira e uma moeda própria: o ora, que vale o mesmo que o rand sul-africano.

É um sistema financeiro engenhoso: você pega seus rands e troca numa casa de câmbio. Ela deixa o dinheiro aplicado. Os rands não são mais seus, a troca já foi feita. Mas você pode sacar os juros depois. Além disso, vários comerciantes dão um desconto de 5% a quem pagar com o ora. É a colaboração deles para criar uma identidade nacional. E para fortalecer a economia local também. Com a moeda local, oraniano gasta com oraniano, não com sul-africano.

"Nosso objetivo é manter o dinheiro dentro da cidade e, com isso, criar empregos", diz Frans de Klerk, o CEO. Não dá para dizer que não deu certo. Em quase 20 anos de existência, foram construídas 3 igrejas, duas escolas, dois museus e uma estação de rádio. E a maior parte dos oranianos tem negócios próprios no povoado, não precisa sair de lá para ganhar a vida.

Mas, cá entre nós, têm de contar com uma mãozinha dos sul-africanos. O posto de gasolina de Orânia, por exemplo, depende dos motoristas negros para sobreviver. Como ele é o único num raio de 15 quilômetros, os habitantes das redondezas abastecem por lá também. Para ter uma ideia, a SUPER viu durante 1h30 só 4 carros com brancos contra 13 com negros. "Sempre passo por aqui e nunca me trataram mal, mas também nunca abriram um sorriso. Lógico, eu estou gastando meu dinheiro no posto. Mas não gosto deste lugar. Nem um pouco", diz a comerciante negra Corina Mathlante.

O isolamento parece não ter fim. Enquanto o país está fervendo por causa da Copa do Mundo, que começa em 11 de junho, o clima em Orânia está frio, até gelado. Sabe como seria se o Brasil sediasse o próximo mundial de curling? É mais ou menos assim que está o clima do povo de Orânia para a copa. "Acho que algumas pessoas vão assistir os jogos pela televisão...", desconversa John Strydom. O negócio ali é atletismo e rúgbi, o esporte tradicional da elite branca.

Tribo de holandeses

O racismo dos oranianos não se limita a um brancos x negros. A questão étnica ali é mais profunda. Tanto que não é qualquer tipo de branco que vive por lá: somente africâneres, os descendentes dos holandeses que iniciaram a colonização do país no século 17 ("orânia" vem de orange, a cor-símbolo da Holanda). Se você for um branco sul-africano descendente de ingleses, que também dominaram a região, não entra.

O fato é que os africâneres dominaram politicamente e culturalmente o país na época do apartheid, mas perderam parte desse poder com a democratização, em 1994. O idioma africâner, um dialeto que veio do holandês dos anos 1600, fazia parte das matérias obrigatórias nas escolas e era número 1 nas universidades. Com a democratização, o inglês tem se tornado dominante no ensino, constituindo também uma segunda língua universal - pela qual as dezenas de etnias negras do país podem se comunicar. "Fomos marginalizados", reclama (em inglês) Carel Boshoff, um dos fundadores de Orânia.

Faz muito mais tempo que os africâneres se sentem marginalizados. Começou quando os ingleses invadiram a praia deles na Áfica do Sul, atrás das jazidas de diamante e de ouro, em 1877.

Os súditos da rainha Vitória expulsaram os colonos descendentes dos holandeses à bala. Aí os africâneres reagiram e pegaram suas terras de volta depois de uma batalha sangrenta. Após muita negociação, um acordo de paz acabou assinado. Pois bem, esse foi só o primeiro episódio. Na virada para o século 20 começaria outra guerra pelo ouro. E os ingleses, com um exército bem superior, massacrariam os africâneres, mandando milhares deles para férias forçadas em campos de concentração.

Se museus existem para relembrar o passado, o de Orânia faz isso com maestria: a maior parte do acervo é composto de carabinas, revólveres e espingardas. São 43. Fora a réplica de cera representando o sofrimento das mulheres nos campos de prisioneiros.

Independência. Ou morte?

Mesmo com uma história de tanta tensão, a relação com o governo é surpreendentemente boa. Prova disso é a visita feita pelo então presidente Nelson Mandela, em 1994, como um gesto de reconciliação entre negros e africâneres. O atual chefe de Estado, Jacob Zuma, também demonstrou interesse em conhecer o povoado. Uma amostra de simpatia, mas também da total falta de receio do governo sul-africano com esses loirinhos que brincam de Banco Imobiliário em seu bairro.

Mas isso não impede Orânia de pensar grande. "Vejo um futuro promissor. Somos uma alternativa para os africâneres e continuaremos crescendo." Crescendo até declarar independência? "Não. Não pretendemos nos tornar uma nação. Mas, se a relação com a África do Sul ficar ruim, será a nossa única opção. Para nos sentirmos seguros, precisamos sentir que pertencemos a algum lugar", diz Boshoff. Mas talvez exista um jeito melhor de saber sobre o futuro de Orânia do que perguntar para os líderes: dar uma volta na piscina pública de lá. É o ponto de encontro dos adolescentes, cheio de casais namorando, moleques fazendo brincadeiras... Lá de trás vem uma garota usando um daqueles óculos tipo persiana, cheia de pose. Na mão um aparelhinho tocando Single Ladies, da Beyoncé. Shantal Williams, 16, não tem nada do jeitão tradicionalista-rural dos africâneres. A menina quer se formar em música - em outra cidade, claro. "Até gosto de morar aqui, mas prefiro lugares de cultura mista, sabe? A gente pode trocar talentos com pessoas diferentes... Aqui é tudo muito igual."

Nome Oficial - Orânia
Localização - África do Sul, a 650 km de Johannesburgo
População - 700
"Independência" (ano da fundação) - 1991
Atividade econômica - Agricultura de azeitonas, pêssegos e figos.
Forma de governo - Empresarial.
Etnia - Africâner.

Para saber mais
The Afrikaners: Biography of a People
Hermann Giliomee , University of Virginia Press, 2003.

Revista Superinteressante

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Quilombos contemporâneos

De lugar para refúgio de escravos fugitivos a movimento social. Qual a realidade hoje das comunidades rurais negras?
por Cathia Abreu


Quilombolas no lançamento da Agenda Social Quilombola e do Plano Nacional de Promoção da Igualdade Racial, no Palácio do Planalto em Brasília

Conceituá-lo não é tarefa fácil, e difícil também é dissociá-lo da brasilidade. Sua história se confunde com a formação do próprio país. Kilombo, Ochilombo, Quilombo. A raiz é africana e o nome remete a lugares que abrigavam aqueles que discordavam do sistema político no Brasil Colônia. Era para esses lugares - verdadeiros esconderijos na mata fechada, de difícil acesso, caminhos pelos quais poucos sabiam andar, também conhecidos por mocambos - que os escravos se refugiavam. Mas a caminhada levava a um reino idealizado, o Quilombo, lar dos homens com anseios de liberdade!

No Brasil escravista, os quilombos ganharam sentido de comunidade autônoma, e escondiam fugitivos, tomando dimensões que colocavam em risco a economia do país, sustentada pelo trabalho escravo. Localizados em torno das grandes concentrações urbanas; nesses refúgios, existia trabalho, moradia e meios para viver e idealizar a liberdade. No maior deles, o Quilombo dos Palmares, na região da Serra da Barriga, em Alagoas, a comunidade tentava reproduzir a tradição africana e a organização social da África mãe, com suas lideranças: reis, rainhas e príncipes.


Zumbi é símbolo da causa pela democracia racial, motivo pelo qual é lembrado em 20 de novembro, data de sua morte, e Dia da Consciência Negra no Brasil
Zumbi, diz a história, foi da realeza de Palmares, nasceu no Quilombo. Depois, foi seqüestrado, viveu na cidade, mas voltou a suas raízes e se tornou líder da causa pela liberdade. Hoje, ele é símbolo da luta pela democracia racial, motivo pelo qual é lembrado no dia 20 de novembro, dia de sua morte, data que também simboliza o Dia da Consciência Negra no Brasil (veja quadro Consciência Negra).

O Quilombo dos Palmares do tempo colonial pereceu no início do século XVIII, mas renasceu mais tarde como União dos Palmares, cidade histórica, criada no final do século XIX. A região guarda a história de luta do lugar. A Serra da Barriga, no entanto, palco dos acontecimentos protagonizados por quilombolas, permaneceu adormecida por algum tempo, mas sua história foi perpetuada, pois o lugar foi tombado como patrimônio e reconhecido como Monumento Nacional. No ano de 2007, União de Palmares ganha novo fôlego, com o nascimento do Parque Memorial Quilombo dos Palmares, que imortaliza o local como símbolo da luta pela liberdade e referência de uma História de resistência, de organização social e política.

ORGANIZAÇÃO social que hoje se difunde pelos milhares de quilombos espalhados pelo Brasil, que preservam sua cultura, seus fazeres e lutam por direitos. Direitos esses que foram assegurados pelo Decreto 4.887, de 20 de novembro de 2003, por exemplo, que regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos. O artigo 2° da resolução considera "remanescentes das comunidades dos quilombos, os grupos étnico-raciais, segundo critérios de auto-atribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida".

Os quilombos, hoje, são conhecidos não só por abrigarem histórias.


Com suas várias designações: mocambos, terra de preto, comunidades negras rurais, comunidades de terreiro, entre outras expressões que, para os leigos, generalizam esses grupos sociais, descendentes dos primeiros africanos no Brasil, os "remanescentes", os "quilombolas" resistem e afirmam-se, quando propõem um novo modelo de sociedade. Com essa bandeira, manifestam- se e reafirmam sua cultura, lutam por seus direitos. Eles continuam cultivando a terra de seus ancestrais e, de um jeito próprio, preparam o futuro de seus descendentes.

Quilombo significa um processo de trabalho autônomo das comunidades negras,
livre da submissão dos grandes proprietários

Porém, para alguns especialistas, o conceito de quilombo não pode ser apenas territorial, circunscrito a uma região específica. Quilombo significa um processo de trabalho autônomo das comunidades negras, livre da submissão dos grandes proprietários.

Desde 1988, com a Constituição, criou-se uma série de novas ações que atingem a questão da preservação do patrimônio cultural, como a que atua na conservação da memória de um dos "grupos formadores" de nossa nacionalidade - a população afro-descendente -, o que se daria por meio da valorização e proteção da história das comunidades que resistiram à opressão da escravidão.

Para Leandro Rosa, Assessor de Cultura para Gêneros e Etnias da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, existe uma relação dos quilombos enquanto fenômeno histórico e também enquanto um verdadeiro movimento social, que esteve presente na história brasileira com a chegada do primeiro escravizado. Foi o que defendeu em sua tese de mestrado em Sociologia: Os quilombos do Vale do Ribeira e o Movimento Social: O Movimento dos Ameaçados por Barragens do Vale do Ribeira (MOAB), em 2007, pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Faculdade de Ciências e Letras de Universidade Estadual Paulista, a UNESP.

O SOCIÓLOGO fez uma pequena contextualização do que vem a ser quilombo na historiografia. Com isso, constatou que, fora o exemplo do Quilombo dos Palmares, que é o maior, tanto com relação ao tamanho quanto em heterogeneidade da população e o mais documentado devido a sua longa duração, a grande maioria dos fenômenos quilombolas foram menores, heterogêneos, e apresentavam quase sempre uma relação muito próxima com os centros onde se localizavam. "Pude constatar que a idéia de quilombo estava muito estereotipada, vi que não são acontecimentos estáticos, isolados, formados apenas por fugas. Apresentaram ao longo da história uma dinâmica muito próxima dos movimentos sociais que temos hoje, tinham um protagonismo muito presente. Sua continuidade no que chamamos hoje de "remanescentes" de quilombo acaba por mostrar essa dinâmica e dizer: 'ainda somos centros de resistência e ainda interagimos com a sociedade que nos cerca'", conta ele.

Segundo Leandro Rosa, a Constituição de 1988 cita os remanescentes e mais: faz com que as terras destes possam passar por titulação.


No caso do Vale do Ribeira, objeto de sua tese, como em outros lugares, essa proteção da terra acaba por aglutinar outras bandeiras como a da luta contra as barragens, ou seja, a partir da Constituição, passa a ser um movimento social de fato.

A CRIAÇÃO DO Movimento dos Ameaçados por Barragens do Vale do Ribeira, o MOAB - que é uma central de movimentos sociais capitaneada pela Igreja Católica, mas que tem nos quilombos da região sua força - apresenta grande importância na compreensão das comunidades quilombolas como organização social. "O MOAB passa a ajudar na organização política das comunidades quilombolas e aglutinar bandeiras, discutindo questões como etnicidade, gênero, titulação das terras, saneamento, meio-ambiente, entre outras. No meu contato com as comunidades, pude perceber e desmontar muitas idéias pré-conceituais de quem mora fora dos quilombos. Ver que ali, para além de um foco de resistência histórica, temos pessoas, homens, mulheres e crianças, uma comunidade que faz parte da nossa dinâmica social. Não estão "tribalizados", são consumidores de direitos e deveres e estão muito mais perto do que imaginamos", confirma o sociólogo Leandro Rosa.


Por meio desse entendimento, essas comunidades saem do ponto de vista de grupos passivos, isolados, formados somente para preservar a tradição de seus antepassados, e passam a ser atores principais de sua história, com organização social e política, de defesa e de solidariedade, que se desdobram na criação de ações públicas em benefício dos quilombos. Ações como a criação de entidades governamentais, a exemplo da Fundação Cultural Palmares (FCP), uma instituição pública, vinculada ao Ministério da Cultura, do Governo Federal. A instituição possui, entre seus atributos, a promoção e preservação dos valores culturais, sociais e econômicos da influência negra na formação da sociedade brasileira. Com essas atribuições, formula e implanta políticas públicas que têm como objetivo potencializar a participação da população negra brasileira no processo de desenvolvimento, a partir de sua história e cultura. O reconhecimento de algumas comunidades remanescentes de quilombos está no quadro de suas iniciativas. Hoje, mais de 1700 comunidades foram certificadas pela FCP. Com isso, a terra foi assegurada para essas comunidades, que também podem solicitar ações e serviços do Governo Federal, como a implantação de medidas em educação e saúde.


COM DIREITOS assegurados, os "quilombos" hoje são notados porque persistem com uma nova proposta de organização social. É o que pensa o sociólogo Dagoberto José Fonseca, do Departamento de Antropologia, Política e Filosofia da Faculdade de Ciências e Letras, da UNESP, localizada em Araraquara, São Paulo, onde coordena o Centro de Estudos das Culturas e Línguas Africanas e da Diáspora Negra (CLADIN). À frente também do Laboratório de Estudos Africanos, Afro- Brasileiros e da Diversidade (LEAD), do alto de sua experiência no assunto, para ele, os quilombos surgem como uma proposta alternativa notável no sistema, relevante desde o período colonial até hoje. Com uma proposta de outra sociedade - em que a terra possa ser de todos e que possa se estabelecer enquanto bem e valor comunitário, essas organizações sociais trazem a noção de subsistência segundo a qual o grupo produz excedentes que não firam a Terra. "Hoje, os quilombos são ainda comunidades símbolo de resistência, mas também se revelam enquanto dado da tradição. O quilombo não estabeleceu a ruptura com a África. Em relação à nossa sociedade, ele apareceu como resistência cultural - para a população da cidade enquanto espaço político. Para o negro urbano, o quilombo é um lugar de tradição. Mas é muito mais, é um espaço político e não só exótico", explica o sociólogo.

As comunidades remanescentes saem do ponto de vista de grupos passivos
formados somente para preservar seus antepassados


Já quando o assunto é exclusão social, Dagoberto José Fonseca traz à tona a história da formação dos quilombos, como Palmares, e revela que desde a sua formação já existiam negros, brancos e índios vivendo nesses refúgios, e diz que a constituição dessas comunidades, de certa forma, tem ligação com a segregação. "Tem sim uma relação discriminatória da época em que foram formados, como refúgio, com outra proposta que não aquela escravista. No presente, porém, ainda há discriminação em relação aos quilombos. Em alguns lugares ainda não existe, por exemplo, a presença contumaz do Estado, alguns quilombos continuam isolados. Se antes foi uma estratégia de fuga, as leis de 1988 resgataram o processo africano; e os negros trouxeram uma nova proposta de sociedade que inclui elementos outros, índios e brancos", afirma.

Portanto, para Dagoberto José Fonseca, a causa do negro no Brasil não é um projeto isolado, mas hegemônico de sociedade, que diz respeito a uma grande parcela da população, cerca de 90 milhões de brasileiros.


A PROPOSTA quilombola é, no entanto, a de uma democracia racial, feita a partir da luta de todos os interessados em uma sociedade igualitária. Ampliar o foco do que seja possível fazer e estabelecer outras bases para aliar ações afirmativas pode ser um dos caminhos a seguir para atingir objetivos nesse sentido. "Andamos ainda de maneira incipiente, no entanto, é necessário avançar para trazer novas ações, investimentos sociais e políticas de qualidade para todos", diz o sociólogo. E o que hoje se faz para mudar esse quadro? A Agenda Social Quilombola é uma das estratégias criadas pelo Governo Federal, coordenada por sua Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR). Desenvolvida em parceria com governos estaduais e municipais, a iniciativa privada e a sociedade civil, para superar as desigualdades raciais e sociais no país, ela traz uma série de projetos e ações voltadas para as comunidades quilombolas, que estão em pauta para serem desenvolvidas no período de 2008 a 2010. O projeto pretende atingir 22 estados, 330 municípios e 128 territórios rurais, e beneficiar cerca de 50% da população de comunidades quilombolas.


ESTRUTURADA em quatro eixos, a Agenda Quilombola tende a viabilizar: o acesso à terra, a saúde, a educação, a construção de moradias, entre outras necessidades. A meta é atingir as comunidades quilombolas espalhadas por várias regiões do Brasil e melhorar a vida de milhões de brasileiros que vivem nessas organizações sociais. Um dos eixos - talvez o mais expressivo - é o que diz respeito à educação, pois um projeto de divulgação de conteúdos relacionados à história, à cultura africana e afro-brasileira, como determina a Lei 10.639/03, deve ser posto em prática nessas comunidades. Para isso, milhares de professores da rede pública do ensino fundamental serão preparados para lecionarem nessas regiões.

No caminho contra a segregação racial, desde 1998, tramita no Congresso Nacional o Estatuto da Igualdade Racial, do Senador Paulo Paim. Um projeto de lei que estabelece critérios para o combate à discriminação racial de cidadãos afro-brasileiros e aborda o acesso à Justiça, a criação de ouvidorias, o funcionamento dos meios de comunicação, do sistema de cotas raciais, dos mercados de trabalho, dos direitos da mulher afro-brasileira, de incentivos financeiros, religião, cultura, esporte e lazer, além dos diretos dos quilombolas. Uma proposta que causa polêmica e vem merecendo a atenção de vários segmentos da sociedade, que ainda aguarda aprovação. As comunidades negras rurais, conhecidas pelo senso comum por "quilombos", assumem um novo significado e têm muitos olhares atentos em sua direção, uma mira que foi aguçada pela Constituição de 1988, e fundamentada pela organização de movimentos sociais, de entidades governamentais e civis. Assim, as organizações sociais que resultam da compra das terras por negros libertos, da posse pacífica de terras abandonadas adotadas por exescravos ou por outras situações que indiquem a ocupação e garantam as terras para suas futuras gerações, mostram- se com seu caráter sociológico. São milhares espalhadas por todo o Brasil, comunidades que lutam pela garantia social, econômica e cultural. Por sua identidade e brasilidade.

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