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domingo, 16 de outubro de 2016

As raízes da resistência

Distância do padrão histórico de imigrante branco e europeu e mercado de trabalho limitado são algumas das razões da hostilidade aos fluxos migratórios atuais 


 Vendedores de ervas e temperos típicos da Bolívia na feira da rua Coimbra, em São Paulo
Vendedores de ervas e temperos típicos da Bolívia na feira da rua Coimbra, em São Paulo

“Voltem para Cuba!” A socióloga Roberta Peres assustou-se com o grito vindo de um passageiro de um carro cinza que passava em frente à Missão Paz, instituição religiosa que atende migrantes, imigrantes e refugiados recém-chegados à cidade de São Paulo. O haitiano que ela entrevistava – um estudante de engenharia que interrompeu o curso porque sua universidade fora destruída pelo terremoto de 2010 no Haiti – não entendeu a situação, já que conversavam em inglês. Era o início de 2014, auge da chegada de haitianos à capital paulista. A hostilidade cresceu nos meses seguintes. No sábado 1º de agosto de 2015, seis haitianos foram baleados com espingarda de chumbinho na rua do Glicério e na escadaria da paróquia Nossa Senhora da Paz, que abriga a Missão Paz.
“Em várias cidades brasileiras os haitianos ainda são oprimidos pelos moradores locais”, observa Rosana Baeninger, também socióloga e colega de Roberta no Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). As duas participaram de uma pesquisa recém-concluída sobre a situação e os planos de 250 haitianos que vivem em Manaus, Porto Velho, capital de São Paulo e três cidades do interior paulista (Campinas, Jundiaí e Santa Fé do Sul), Curitiba, Camboriú, Porto Alegre e Encantado, no Rio Grande do Sul. Os entrevistados eram, na maioria, homens com idade entre 24 e 29 anos, que pretendiam trazer os familiares, mas não pensavam em permanecer no Brasil. “Para os haitianos”, diz Roberta, “o Brasil está deixando de ser um país de destino para ser uma etapa de trânsito, ainda que demorada, para os Estados Unidos, para onde a maioria disse que gostaria de ir”.
O levantamento reiterou duas conclusões prévias da equipe do Nepo. A primeira é a desconcentração territorial: cidades do interior paulista como Piracicaba e Limeira, além de Campinas, Jundiaí e Santa Fé do Sul, por causa de investimentos internacionais em agropecuária ou indústria, estão recebendo mais imigrantes e vivendo situações antes comuns apenas em capitais como São Paulo, que até o início dos anos 2000 constituíam o destino quase exclusivo dos estrangeiros. “O excedente populacional acompanha alocações do capital internacional, embora a cidade de São Paulo continue como referencial no imaginário imigratório”, diz Rosana.

© EDUARDO CESAR
Imigrantes africanos trabalhando como camelôs e, à direita, frequentadores do comércio de rua mantido por bolivianos na região do Brás, em São Paulo
Imigrantes africanos trabalhando como camelôs

A segunda conclusão é que a onda imigratória dos últimos 10 anos – formada por bolivianos, peruanos e outros povos latinos, aos quais se somaram haitianos, senegaleses e congoleses, a partir de 2010 – contraria pressupostos históricos tácitos. “Desde o final do século XIX criou-se a ideia de que o imigrante, para ser aceito, teria de ser branco e europeu, e os imigrantes atuais são indígenas que falam espanhol, como os bolivianos, ou negros que falam francês ou crioulo, como os haitianos”, diz Rosana, que trabalha nesse campo há 30 anos. Segundo ela, o distanciamento do padrão histórico branco europeu, a ausência de uma necessidade explícita da mão de obra estrangeira e a escassez de políticas públicas locais, estaduais e federais que promovam a interação social dos imigrantes do século XXI geram o que ela chama de “distanciamento em relação ao outro” e as reações de hostilidade.
Os japoneses que chegaram no início do século XX, observa Rosana, embora tolerados pela necessidade de mão de obra para as plantações de café, então a base da economia nacional, foram hostilizados e discriminados, como mostrou o filme Gaijin – Os caminhos da liberdade (1980). Os orientais eram vistos como uma raça inferior, tanto quanto negros e índios, que prejudicaria o branqueamento da população desejado pelo governo brasileiro e promovido por imigrantes europeus.
De caráter eugenista, o projeto de branqueamento da população brasileira tinha sido estabelecido por Getúlio Vargas durante o Estado Novo (1930-1945). De acordo com estudo do historiador Fábio Koifman, da Universidade Federal Rural Fluminense, publicado no livro Imigrante ideal: o Ministério da Justiça e a entrada de estrangeiros no Brasil (1941-1945) (Civilização Brasileira, 2012), o projeto estabelecia quais eram os imigrantes desejáveis – branco, católico e apolítico, de preferência portugueses de baixa escolaridade, sem “ideias dissolventes” como as que tinham grupos intelectualizados da Alemanha, França e Áustria, entre outros países. Os indesejáveis eram negros, japoneses, idosos e deficientes. Em 1930, durante a campanha à Presidência, Vargas alertou que a imigração teria de ser pensada também sob o critério étnico, não apenas econômico. Depois de eleito, ele aprovou várias leis que estabeleciam cotas de imigração restringindo a entrada, principalmente, de orientais. “Segmentos letrados da sociedade brasileira e muitos homens do governo, incluindo Vargas, acreditavam que o problema do desenvolvimento brasileiro estava relacionado à má formação étnica do povo. Achavam que trazendo ‘bons’ imigrantes, ou seja, brancos que se integrassem à população não branca, o Brasil em 50 anos se transformaria em uma sociedade mais desenvolvida”, disse Koifman em entrevista à Pesquisa FAPESP em 2012.
© EDUARDO CESAR
Frequentadores do comércio de rua mantido por bolivianos na região do Brás, em São Paulo
Frequentadores do comércio de rua mantido por bolivianos na região do Brás, em São Paulo
Preconceitos

Tanto no Brasil quanto na Europa, os meios de comunicação tratam a chegada dos imigrantes “como uma ameaça, como se o país tivesse sendo invadido por uma horda de desocupados, baderneiros que vêm para cá para pressionar o tão combalido sistema de proteção social e o mercado de trabalho”, escreveu Antônio Tadeu Ribeiro de Oliveira, pesquisador do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em um artigo publicado em janeiro deste ano na Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana. Segundo ele, a dimensão desse fenômeno, apesar da intensa visibilidade, “é bem inferior ao da entrada através de aeroportos, portos e outras áreas de fronteiras de imigrantes irregulares brancos”.

Quem chega muitas vezes se decepciona. Segundo padre Paolo Parise, um dos diretores da Missão Paz, os coiotes, como são chamados os agentes que cobram dos interessados para ajudá-los a atravessar as fronteiras de outro país, prometem aos haitianos emprego fácil e ganhos de US$ 1.500 por mês. “Os haitianos dizem que não imaginavam que o Brasil fosse tão racista”, diz ele. Mantida pela Congregação Scalabriniana e por doações, desde 1978 a Missão Paz oferece abrigo, alimentação, atendimento médico e psicossocial e serviços de documentação para imigrantes, refugiados e migrantes. Por ali passaram 11 mil dos 60 mil haitianos que entraram no Brasil desde 2010. No início de setembro, padre Paolo cumprimentava os recém-chegados sírios com a mão no peito, sem estender a mão nem tocá-los, como fazia com os latinos que encontrava enquanto caminhava, indicando os cuidados indispensáveis para lidar com os representantes dos diferentes países e culturas.

© EDUARDO CESAR
Sírios recém-chegados acolhidos pela Oásis Solidário, organização mantida pela comunidade síria estabelecida em São Paulo
Sírios recém-chegados acolhidos pela Oásis Solidário, organização mantida pela comunidade síria estabelecida em São Paulo

Neste ano, a equipe da Missão conseguiu empregos para 1.180 imigrantes. Até setembro do ano passado, foram 1.700, o que faz padre Paolo prever que o ano possa terminar com um terço a menos de contratações. O levantamento da Unicamp também indicou que a fase boa parece ter passado. Depois de uma época de emprego temporário relativamente fácil na construção civil antes da Copa do Mundo de 2014, muitos agora preferem ir para Santa Catarina e Rio Grande do Sul, onde, acreditam, encontrarão empregos melhores.
“Os órgãos públicos estão se posicionando a favor da imigração e se responsabilizando por criar políticas públicas”, observa Camila Baraldi, coordenadora-adjunta da Coordenação de Políticas para Migrantes (CPMig) da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo. Como uma de suas primeiras ações, logo após ser criada, em 2013, a coordenação promoveu a simplificação da abertura de contas bancárias pelos imigrantes como forma de reduzir os assaltos a esses grupos de pessoas, que antes guardavam com eles o dinheiro que acumulavam, e facilitar a contratação por empresas. Uma boa parte do tempo das equipes do CPMig é dedicada aos haitianos, que em 2014 chegavam em grande número, às vezes um ônibus por dia. O fluxo hoje está menor, mas ainda chegam dois a três ônibus por semana vindos do Acre, a primeira parada no Brasil. A maioria permanece, ao menos no início, na capital. Agora a entrada de sírios é que está aumentando: em agosto as equipes da prefeitura atenderam 25.
Para os que chegam sem ter para onde ir, a coordenação oferece abrigos e apoio para a emissão de documentos e a procura de emprego, além de promover a articulação com as equipes de outros órgãos públicos para assegurar o acesso a serviços de saúde e educação e assistência social. “Muitas vezes esses direitos são negados, por desconhecimento de quem os atende”, diz Camila. Nesse momento uma das prioridades é a formação do Comitê Intersetorial da Política Municipal para a População Imigrante, criado em agosto, que deverá ter 13 representantes do poder público e 13 da sociedade civil, com a tarefa de redigir uma proposta de política pública para a população imigrante que hoje vive na cidade de São Paulo.

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O suporte legal de apoio a quem imigra ainda é precário. O Estatuto do Refugiado, de 1997, assegura alguns direitos, como o registro de estrangeiro no Brasil, mas ações mais amplas são dificultadas pelo caráter restritivo do Estatuto do Estrangeiro, em vigor desde a década de 1980. Em julho o Senado aprovou um projeto de lei que cria uma nova Lei de Migração, que revoga o estatuto e reduz as exigências para a concessão de vistos e autorização de residência. O projeto hoje tramita na Câmara dos Deputados.
Nos últimos quatro anos, o número de refugiados no país dobrou, atingindo 8.530 até setembro de 2015, segundo o Comitê Nacional de Refugiados, do Ministério da Justiça. Os sírios, que chegam em número crescente, representam 24,5% do total de refugiados de 81 nacionalidades que vivem no Brasil, seguidos pelos colombianos, angolanos e congoleses e libaneses. Há também 12.666 pedidos de refugiados em análise.
No Brasil não há multidões de refugiados como as que há meses chegam aos países centrais da Europa, vindas principalmente da Síria, destruída pela guerra. Em 2015, a Alemanha recebeu cerca de 200 mil imigrantes, que podem compensar a redução da população gerada pela queda da taxa de natalidade, mas em geral os imigrantes são indesejados – e não apenas na Europa. De acordo com estudo do instituto francês Ipsos, metade dos moradores entrevistados em 24 nações, incluindo o Brasil, disse que havia imigrantes demais em seus países; 46% acreditavam que os estrangeiros dificultavam o acesso dos moradores nativos a empregos e apenas 21% dos 17.533 entrevistados consideraram positivo o impacto dos imigrantes em seus países. No Brasil, 36% dos que foram ouvidos disseram que os imigrantes intensificam a disputa por empregos, índice bem abaixo dos 85% da Turquia, 68% da Rússia e 56% dos moradores da Argentina com a mesma opinião.
As reações contrárias exibidas até agora nas cidades brasileiras também estão longe dos conflitos ocorridos na Europa, “mas expressam a dificuldade da sociedade receptora em acolher estes grupos de imigrantes”, ressalta Rosana. Em 2012 e 2013, pichações em portas de lojas de Piracicaba hostilizaram os coreanos, numerosos na cidade desde quando a montadora sul-coreana Hyundai começou a construir sua fábrica, em 2010. No início de agosto deste ano, o muro do cemitério de Nova Odessa, cidade próxima a Campinas, foi pichado com a frase “Back to Haiti” (“Voltem ao Haiti”). Até julho, a Igreja Batista de Nova Odessa tinha ajudado cerca de 80 haitianos a encontrarem empregos e a aprenderem português. Em 2014, 13 haitianos denunciaram espancamentos sofridos nas empresas em que trabalhavam em Curitiba. Na capital estima-se em 2.500 o número de haitianos, a maioria trabalhando em construtoras.
Apesar das dificuldades, os imigrantes conquistam seus territórios. Já se veem lanchonetes, docerias, lojas de roupas e lan houses com funcionários ou proprietários haitianos na região do Glicério, próxima à Missão Paz, em São Paulo. A rua Coimbra, no bairro do Brás, é o coração da comunidade boliviana na capital, estimada em 300 mil imigrantes, dos quais apenas 90 mil regularizados. As feiras de sábado e domingo da rua Coimbra reúnem cerca de 6 mil bolivianos e visitantes que podem comprar batatas que parecem cenouras, pedras brancas ou pretas ou rajadas com pontos vermelhos, além de muitos tipos de milho e de pimenta e outros temperos, em meio a restaurantes que servem salchipara, silpancho, sajta, caldo de cordan e outros pratos típicos. Como provável efeito da clandestinidade em que viveram ou vivem, os vendedores são atenciosos, mas ariscos, falam com entusiasmo dos numerosos tipos de milho, quando muito contam sobre a cidade de origem, em geral La Paz ou Cochabamba, e depois silenciam. A feira foi regularizada pela prefeitura em novembro de 2014, o que permitiu melhorias em sua organização e segurança, depois de funcionar 11 anos na ilegalidade.
A menos de 3 quilômetros dali funciona uma maternidade municipal cujas equipes, desde 2005, se especializaram em atender mulheres bolivianas que em geral não falam português. Em um artigo publicado em 2006 na revista Estudos Avançados, o antropólogo Sidney Silva, da Universidade Federal do Amazonas, escreveu que a imigração boliviana se tornou mais visível em São Paulo a partir da década de 1980, mas começou nos anos 1950 com estudantes que chegavam por meio de um programa de intercâmbio cultural Brasil-Bolívia. “Após o término dos estudos, muitos deles acabavam optando pela sua permanência, em razão das múltiplas ofertas de emprego encontradas naquele momento no mercado de trabalho paulistano”, observou Silva. Depois, o fluxo de imigrantes latino-americanos – bolivianos, peruanos e paraguaios, uruguaios e chilenos – continuou em crescimento. Eles trabalham principalmente em confecções e no comércio.
Para entender as raízes da imigração, a socióloga Patrícia Freitas, atualmente pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole (CEM), um dos 17 Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) financiados pela FAPESP, entrevistou 17 bolivianos em São Paulo e outros 33, durante oito meses, em 2012 e 2013, em cidades e em municípios rurais da Bolívia, como parte de seu doutorado, orientado por Rosana Baeninger. “Em geral os bolivianos que imigraram estão sendo expulsos do campo desde as décadas de 1980 e 1990 e viveram em situações de extrema precariedade nas cidades da Bolívia”, Patrícia concluiu, após refazer as trajetórias pessoais dos entrevistados.

© EDUARDO CESAR
Boliviana em trajes de festa assistindo a festival de poesia na feira dominical da praça Kantuta,  no bairro do Canindé
Boliviana em trajes de festa assistindo a festival de poesia na feira dominical da praça Kantuta, no bairro do Canindé

“As condições de trabalho lá são piores do que aqui, onde podem ganhar mais. Há casos de exploração, sim, mas muitos se dão bem”, diz. Segundo ela, os contratadores atraem os interessados em emigrar por meio de anúncios e pagam a viagem para São Paulo ou Buenos Aires, outro destino comum, para trabalhar em oficinas de costura, criando uma dívida nem sempre paga, porque os imigrantes, depois de chegarem, encontram empregos melhores. Os 50 entrevistados haviam passado por 180 oficinas de costura nas cidades bolivianas e em São Paulo.
“Esta é uma oportunidade de nos reconhecermos como parte da América Latina”, diz Camila Baraldi, da CPMig. Em seu doutorado, concluído em 2014 na USP, ela argumentou que a cidadania sul-americana está em construção e “poderia vir a ser uma cidadania fundada no paradigma da mobilidade”. Padre Paolo sugere: “Temos de aprender e ensinar as razões históricas dos fluxos migratórios”. “O mundo hoje”, diz ele, “é feito pela emigração e pelo refúgio, que deixaram de ser circunstanciais e hoje são estruturais”. A migração internacional é uma condição básica pela qual as sociedades e estados se formam, se expandem e se reproduzem, reitera Thomas Nail, professor da Universidade de Denver, Estados Unidos, em um livro recém-lançado (The figure of the migrant, Stanford University Press). “As condições sociais da migração”, ele observa, “são sempre uma mistura dos tipos de expulsão territorial, política, jurídica e econômica. Os quatro operam ao mesmo tempo, em graus diferentes”. O mundo acadêmico tem um papel a cumprir nesse campo, oferecendo oportunidades para estudantes e pesquisadores prosseguirem em suas carreiras, alertou um editorial da Nature de 10 de setembro. De outro modo, argumentou a revista, pode-se perder uma geração inteira de talentos do Oriente Médio e de outras regiões do mundo.
Confira o registro do fotógrafo Eduardo Cesar na Galeria de Imagens.
Projetos
1. Observatório das migrações em São Paulo: migrações internas e internacionais contemporâneas no estado de São Paulo (nº 2014/04850-1); Modalidade Projeto Temático; Pesquisadora responsável Rosana Aparecida Baeninger (Nepo/Unicamp); Investimento R$ 555.279,96.
2. A governança das migrações internacionais e os seus impactos na experiência social dos migrantes: um estudo comparativo dos contextos nacionais e locais de São Paulo, no Brasil, e Buenos Aires, na Argentina (nº 2014/11649-0); Modalidade Bolsa de Pós-doutorado; Pesquisador responsável Eduardo Cesar Leão Marques (USP); Bolsista Patrícia Tavares de Freitas; Investimento R$ 169.557,84.
Artigos científicos
BAENINGER, R. Rotatividade migratória: um novo olhar para as migrações internas no Brasil. Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana. v. 20, n. 39, p. 77-100. 2012.
FREITAS, P. T. de. Família e inserção laboral de jovens migrantes na indústria de confecção. Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana. v. 22, p. 231-46. 2014.
Keep a welcome. Nature, v. 525, p. 157. 10 set. 2015.
OLIVEIRA, A.T.R. de. Os invasores: As ameaças que representam as migrações subsaariana na espanha haitiana no Brasil. Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana. v. 23, n. 44, p. 135-55. jan./jun. 2015.
SILVA, S.A. Bolivianos em São Paulo: entre o sonho e a realidade.Estudos Avançados. v. 20, n. 57, p. 157-70. 2006.
Revista Fapesp

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Xenofobia no Japão

Japão recebe críticas da ONU após onda de xenofobia nas ruas

Ewerthon Tobace
De Tóquio para a BBC Brasil



"Estrangeiros só poderão entrar se estiverem acompanhados de um japonês", diz a placa


Uma recente onda de casos de xenofobia tem causado grande preocupação no Japão e levou a ONU a pedir que o governo do primeiro-ministro Shinzo Abe tomasse medidas concretas para lidar com o problema.

As principais vítimas nesse incidentes têm sido comunidades estrangeiras como a de coreanos e chineses, além de outras minorias chamadas de "inimigas do Japão".

Um exemplo dos abusos é um vídeo que se tornou viral e circula pelas redes sociais. Mostra um grupo de homens da extrema-direita com megafones em frente a uma escola sul-coreana em Osaka.

Eles insultam os alunos e professores com palavrões, fazem piadas com a cultura do país vizinho e ameaçam de morte os que se atreverem a sair do prédio.

Um relatório do Comitê de Direitos Humanos da ONU encaminhado ao governo japonês, destaca a reação passiva dos policiais em manifestações deste tipo.

As autoridades têm sido criticadas por apenas observarem, sem tomarem nenhuma atitude efetiva para conter os abusos.

No final de agosto, o Comitê das Nações Unidas para a Eliminação da Discriminação Racial solicitou que o país "abordasse com firmeza as manifestações de ódio e racismo, bem como a incitação à violência racial e ódio durante manifestações públicas".

Desde 2013, o Japão registrou mais de 360 casos de manifestações e discursos racistas.

A questão ganhou os holofotes da mídia e está sendo amplamente debatida pelo partido governista, o Liberal Democrático.

Um caso que está sendo visto como teste para a Justiça japonesa nesta área é a ação movida, no mês passado, por uma jornalista sul-coreana, Lee Sinhae, contra Makoto Sakurai, presidente do grupo de extrema-direita Zaitokukai, por danos morais.


Ela quer uma indenização depois de ser "humilhada" por textos discriminatórios na internet.

"O que me preocupa é que muitos destes discursos estão deixando o anonimato da internet e já chegaram às ruas", disse Lee em uma coletiva de imprensa.

A jornalista alertou que várias crianças estão tendo contato com este tipo de pensamento e replicam no ambiente escolar, gerando casos de bullying.
Lei

No Japão, não há uma lei que proíba discursos difamatórios ou ofensivos. Para os opositores, banir os discursos de ódio pode acabar interferindo no direito das pessoas à liberdade de expressão.

Mas o país é signatário da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, que entrou em vigor em 1969, e que reconhece expressões discriminatórias como crime.

Pela Convenção, os países seriam obrigados a rejeitar todas as formas de propaganda destinadas a justificar ou promover o ódio racial e a discriminação e tomar ações legais contra eles.

Segundo as Nações Unidas, o governo japonês ainda tem muito para fazer nesta área. O comitê da ONU insistiu para que o Japão implemente urgentemente "medidas adequadas para rever a sua legislação", em particular o seu código penal, para regular o discurso de ódio.
Exclusão dos estrangeiros

Para o escritor, ativista e pesquisador norte-americano naturalizado japonês Arudou Debito, "(essas atitudes discriminatórias) têm se tornado cada vez mais evidentes, organizadas e consideradas 'normais'".

Debito coleciona, desde 1999, fotos de placas de lojas, bares, restaurantes, karaokês, muitas delas enviadas por leitores de todo o Japão, com frases em inglês - e até em português - proibindo a entrada de estrangeiros.

A coletânea virou livro, intitulado Somente japoneses: o caso das termas de Otaru e discriminação racial no Japão.

Debito se diz ainda preocupado que, com a divulgação cada vez maior dos pensamentos da extrema-direita, a causa ganhe cada vez mais "fãs".

"No Japão ainda há a crença de que é pouco provável haver o extremismo em uma 'sociedade tão pacífica'", explicou.

"Eu não acredito que seja tão simples assim. Ignorar os problemas de ódio, intolerância e exclusivismo para com as minorias esperando que eles simplesmente desapareçam é um pensamento positivo demais e historicamente perigoso."


Aviso em um hotel de águas termais alerta que estrangeiros não podem entrar


Brasileiros

A comunidade brasileira no Japão também é alvo constante de atitudes discriminatórias. Quarto maior grupo entre os estrangeiros que vivem no país, os brasileiros estão constantemente reclamando de abusos gerados por discriminação racial e o tema é sempre levantado em discussões com autoridades locais.

O brasileiro Ricardo Yasunori Miyata, 37, é um dos que foi à Justiça depois que o irmão foi confundido com um ladrão em um supermercado de uma grande rede, na cidade de Hamamatsu, província de Shizuoka.

"O problema foi a abordagem. O segurança chegou gritando, como se ele fosse bandido e, mesmo depois de provado que tudo não passou de um engano, ele (o segurança) justificou que faz parte da índole do brasileiro roubar e que não poderíamos reclamar pois deveríamos estar acostumado com este tipo de coisa", contou o rapaz, ainda indignado.

O caso aconteceu há quatro anos, mas até hoje Ricardo divulga a história para que outros não passem pelo mesmo constrangimento pelo qual ele e a família passaram.

"Acionamos a polícia, fizemos a reclamação na matriz da rede, procuramos um advogado e, por semanas, os gerentes do supermercado tentaram nos convencer a não entrar com processo", lembra.

Depois de três meses, foi feito um acordo. "A rede trocou a empresa que faz a segurança local, pagou todas as despesas com advogados e exigimos ainda que os gerentes pedissem desculpas em público", contou Ricardo.

Há 20 anos morando no Japão, o brasileiro lembra que antigamente a situação era bem pior. "Quando entrava brasileiro em supermercados, por exemplo, geralmente tocavam uma música brasileira. Era um sinal para avisar os funcionários de que havia estrangeiro na loja", contou.

Ricardo já foi barrado em bares e também sofreu todo tipo agressão verbal. "Esse tipo de discriminação existe, é visível e constante. Enquanto as autoridades e a própria mídia não tomarem uma posição, esses abusos vão continuar acontecendo", destacou.
BBC Brasil

sábado, 26 de maio de 2012

Xenofobia em charges





A xenofobia pode ser entendida como um tipo de aversão a estrangeiros, considerados, de forma preconceituosa, inferiores, impuros ou com outras caracterizações negativas.
O problema da xenofobia ocorre mais mais intensamente em alguns países desenvolvidos, sobretudo nos que recebem um grande contingente de imigrantes provenientes dos países pobres. As reações contrárias à permanência dos imigrantes em alguns países europeus e nos Estados Unidos preocupam as autoridades mundiais, todos os anos, vários casos de agressões físicas e verbais e outros tipos de violência contra estrangeiros são registrados em decorrência desse tipo de preconceito.
Além dos atos de agressão e discriminação latentes, a xenofobia pode prejudicar a luta pela igualdade de direitos e oportunidades a todos os cidadãos, sejam eles nativos, estrangeiros ou mesmo descendentes de estrangeiros, dificultando a garantia de melhores condições de vida para a população.
O fortalecimento de partidos políticos de extrema direita na Europa e o aumento de atos repressivos contra imigrantes, principalmente dos que vivem na clandestinidade, aumentam a intolerância e as ações xenófobas, o que prejudica a convivência pacífica entre os povos.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Uma cruzada anti-islâmica na Europa?


Sociedade e classe política europeias assistem ao crescimento do preconceito contra estrangeiros e islâmicos contestam medidas de governos do continente
Por Eliza Capai
Chovia no frio de dois graus de Berlim quando, ao tentar entrar no Parlamento, prédio que é um dos cartões postais da cidade, fui informada que ele estava fechado para visitação por “suspeita de atentado terrorista”. Um dos policiais que fazia a ronda – havia várias viaturas ao redor - me explicou que não havia previsão de reabertura para o público. Segui, então, para uma entrevista em uma das estações de trem centrais de Berlim, a Hauptbahnhol. A entrevistada me chamou a atenção para o fato que presenciara havia pouco: “Você viu a quantidade de policiais aqui?”, me perguntou Kubra Yucel. “É muito fácil e prático criar o Outro e colocar a culpa de tudo nele”, falou com paixão a jovem de 22 anos, olhos vivos e véu colorido na cabeça.
Filha de imigrantes turcos na Alemanha, ela sabe na pele o que é ser convertida à figura do “Outro”. Há três anos, Kubra andava pela rua com seu habitual véu quando uma mulher que ela jamais havia visto começou a xingá-la. Como forma de se defender, Kubra criou um blogue (http://ein-fremdwoerterbuch.com/), hoje famoso na Alemanha, e começou a se destacar na mídia como defensora da causa e da diversidade islâmica. Na semana anterior a nossa entrevista, ela havia recebido uma ameaça de morte: “no e-mail dizia ‘você sabe como os alemães funcionam e sua hora vai chegar e blá-blá-blá’... Em resumo, alguém queria cortar minhas ‘asinhas’”, disse. “Não se quer falar muito nisto, mas o anti-islamismo é hoje uma nova forma de racismo”, lamentou.
O sentimento que ganhou força e embasamento retórico com o famoso 11 de setembro encarna uma nova fase na Europa. Se antes estava ali de forma camuflada ou presente somente em setores extremistas da sociedade, agora se permite falar em público sobre o assunto. Foi assim que a chanceler alemã Angela Merkel, da União Democrata Cristã, explicou que o sonho do multiculturalismo havia fracassado e que o país não estava aberto para quem não se identificasse com os valores cristãos. O líder do CSU, Horst Seehofer, havia pronunciado, semanas antes, que a Alemanha não precisa mais de imigrantes de países de culturas diferentes, como os turcos e os árabes, para os quais a integração é mais difícil. Vale considerar que a população turca forma o maior grupo de imigrantes no país, com 3,5 milhões de pessoas.
Mas tal cenário não se resume à Alemanha. O ministro do Interior francês, Brice Hortefeux, declarou no ano anterior, ao lado de um jovem árabe, que “quando há um árabe, tudo bem. Quando há muitos é que há problemas”. O presidente Nicolas Sarkozy, no “discurso de Grenoble”, feito em 30 de julho de 2010, vinculou imigração e delinquência – o que, obviamente, mereceu críticas de associações ligadas aos direitos humanos. Ao mesmo tempo, a possível próxima candidata pela Frente Nacional à presidência francesa, Marine Le Pen, filha de Jean-Marie Le Pen, defende o fim do direito de solo [hiperlink – também conhecido pela expressão latina jus soli , trata-se do reconhecimento da uma nacionalidade a partir do lugar de nascimento. Na maioria da Europa impera o jus sanguinis ou direito de sangue, que determina a nacionalidade a partir da ascendência da pessoa] no país e compara os mulçumanos, que lotam ruas e mesquitas, aos tempos de invasão nazista em seu país. Em 2010, na região de Voralberg, na Áustria, 20% do eleitorado se posicionou em favor do Partido Austríaco da Liberdade (FPÖ), partido que defende que a invasão turca ameaça a paz social e tem como um de seus slogans “O Ocidente nas mãos dos cristãos”. O partido conseguiu 13,8% dos votos e foi o quarto mais votado em nível nacional em 2009.
A ultradireita, que tem como principal bandeira a questão anti-imigratória/anti-islâmica, entrou nos parlamentos mais liberais do continente. Na Finlândia, cerca 13 deputados ultradireitistas estão no poder. Na Suécia, onde um em cada sete habitantes tem raiz estrangeira, o Partido Democrata Sueco (SD) levou 5,7% dos votos, conseguindo 20 das 349 cadeiras do Parlamento. Ele deixou o primeiro-ministro Fredrik Reifeldt numa saia justa: seu partido recebeu 49,3% dos votos e precisa de mais três deputados para ter maioria absoluta. Em discurso, o ministro afirmou que não negociará com a ultradireita, o que lhe obriga a negociar com a esquerda verde. O SD conseguiu suas 20 cadeiras com bandeiras que defendem a diminuição da imigração (atualmente mais de cem mil pessoas entram por ano no país), a suspensão total do que chamam de “islamização” e uma política de asilo mais severa. A agremiação, que se inspira no Partido Populista da Dinamarca e no Partido da Liberdade (PVV) da Holanda, surgiu em meados dos anos 1990, fruto de organizações racistas que beiravam o neonazismo. Em uma década, o partido dobrou o número de adeptos.
O PVV holandês surgiu como um partido liberal e fez o caminho contrário ao SD, tornando-se mais xenófobo. Seu principal representante é Geert Wilders, que defende que a imigração é custosa à Holanda e que os imigrantes vindos dos países pobres sacam bilhões dos cofres do país. Geert defende a deportação de milhões de mulçumanos, e sua agremiação atualmente representa a terceira força política do país. Sua influência no novo governo pode-se representar com a nova plataforma, que reduz em 50% os imigrantes provindos de países não ocidentais. A Holanda, em 2003, foi o único país da Europa Ocidental onde o número de emigrantes superou o de imigrantes. Desde 2006, mais de cem mil pessoas por ano saem do país – um recorde desde os anos 1950 (dados do Centro Holandês de Estatísticas).
Literatura xenófoba
Seguindo o partido holandês, o Partido da Liberdade foi fundado em Berlim pelo cristão René Stadtkewitz, dando força ao sonho de Geert de organizar forças extremistas nos EUA, Alemanha, França, Reino Unido e Canadá para a formação da Aliança para a Liberdade. A Holanda já havia sido criticada pela implementação dos “testes de integração” – prova de língua holandesa e sociedade, que foram criados como forma de limitar as marroquinas e as turcas de imigrarem e reencontrarem seus maridos ou se casarem. O teste, que é obrigatório apenas para os imigrantes dos países não desenvolvidos, já evidenciava a discriminação, mas agora Wilders Geert tirou as ideias subentendidas e as colocou de forma clara ao comparar o Islã ao nazismo e o alcorão ao Mein Kempf, de Hitler.
Descendo um pouco no mapa europeu, um outro livro teria mais relações com a obra do Fuhrer. Na Alemanha, o ex-secretário da Fazenda de Berlim e ex-integrante da diretoria do Banco Central Thilo Sarrazin lançou um livro que virou best-seller na Alemanha. Em Deutschland schafft sich ab (algo como "A Alemanha se desfaz"), ele busca fundamentar o sentimento anti-islamismo em números e pretensas pesquisas científicas que comprovariam a inferioridade – genética inclusive – dos islâmicos. De acordo com seu raciocínio, a Alemanha se tornaria menos inteligente ao longo dos anos devido aos imigrantes turcos e do Oriente Médio, principalmente, que são “menos inteligentes e se reproduzem mais”. Aqui, ele toca num dos pontos centrais do sentimento xenófobo: o de que a população “nacional e pura” vá sendo substituída por estes “Outros” inferiores. Isto tanto pode ser observado na Europa, em relação aos islâmicos, como nos Estados Unidos, em relação aos latinos/mexicanos.
“Esse livro foi comprado mais de um milhão de vezes... Não digo que um milhão de pessoas o leram, mas isto expressa que há uma questão, algo que os alemães tentam entender e justificar”, explicou a socióloga Manuela Bojadzijev, que estuda e ministra aulas sobre racismo. O secretário-geral do Conselho Central de judeus da Alemanha, Stephan Kramer, se mostra preocupado com a sociedade alemã, que se radicaliza num debate "desmesurado, hipócrita e histérico". Para Manuela Bojadzijev, embora em processos históricos e contextos diferentes, a criação do racismo – seja ele o que justificou que negros africanos fossem escravizados, judeus perseguidos ou, agora, islâmicos excluídos – se baseia em um estereótipo de um grupo que é heterogêneo, em oposição a uma sociedade, também heterogênea, mas apresentada como homogênea. “Um exemplo simples: a questão da moradia é um problema em muitos países europeus. Em vez de se começar a discutir e buscar soluções para isso, o que se faz? Culpa-se o imigrante. Coloca-se a sociedade de uma forma coesa e idealizada sendo afetada por este grupo de fora que chega”, salientou. Depois de um suspiro, continuou: “mas esta sociedade coesa não existe, nunca existiu. Isto é uma visão baseada no idealismo do Estado-Nação, e com esse discurso, permite-se que os governos não discutam a falta de moradia, o desemprego.”
Dentro do grupo dos imigrantes – que somam 10% da população germânica –, o mais numeroso é o dos turcos. São eles também os maiores alvos de xenofobia no país. Acusados de não se integrarem, a mídia participa do processo de criação dos estereótipos. Conforme o sociólogo brasileiro residente na Alemanha Sergio Costa, “a mídia baseia-se em algumas ‘acusações’. Uma delas é a de que os jovens turcos são homofóbicos. Outra, é que a comunidade islâmica é violenta e contrária aos direitos de gênero conquistados no Ocidente”, apontou. “Assim, cria-se uma dicotomia: quem você quer apoiar: o grupo que é contra os direitos humanos, contra homossexuais e contra a igualdade de gênero ou o grupo dos que são a favor? Mas essa é claramente uma pergunta falaciosa”, críticou Sergio Costa. “Se observarmos as estatísticas, há menos islâmicos que cometem crimes de ódio que alemães neonazistas que atacam imigrantes”, exemplificou. “Outro fato é que, no contexto europeu, a Alemanha foi dos últimos países a aprovar o casamento gay. Ou seja, historicamente o país nem é homofriendly, mas com esse discurso se cria uma imagem do alemão como naturalmente adepto as questões homossexuais.”
Os governos em vários países corroboram com os estereótipos, criando punições específicas a pessoas que vêm de outros lugares. A França aprovou, por exemplo, uma lei que retira a cidadania francesa de pessoas de origem estrangeira, naturalizadas há menos de dez anos, que atentem contra um representante da autoridade pública. As mudanças viram manchetes e se esquece de falar que estses crimes já estão previstos na legislação e poderiam ser punidos, sem recorrer e evidenciar a questão de origem territorial do acusado ou de sua família.
Outra manchete europeia que merece destaque vem de um país com fama de tolerante aos assuntos ligados à imigração. No final de 2009, 57% da população suíça votou em um referendo pela proibição dos minaretes, por descaracterizar a arquitetura local. De acordo com o maior partido do país, o Partido do Povo Suíço (SVP), que propôs o referendo, os minaretes são símbolos do imperialismo religioso e da intolerância islâmica. A Suíça tem 4% de sua população mulçumana e apenas quatro mesquitas com minaretes, o que torna o referendo uma piada se não fosse verdade. Eveline Widmer-Schumpf, ministra da Justiça, teme que a proibição aumente o número de muçulmanos radicais ao invés de diminuir sua influência.
Minaretes e véus
Enquanto caminhava pela capital Genebra buscando uma mesquita, cruzei com várias igrejas e catedrais ao som de sinos que retumbavam. É de se questionar se, utilizando o mesmo raciocínio, aquele ruído também não poderia ser entendido como um distúrbio à organização do país. O mesmo eu havia pensado ao ver imensos presépios nas ruas da Alemanha. Enquanto Jesus, Maria e os Reis Magos eram exibidos em tamanho grande ao lado de árvores de natal, 16 estados alemães proibiram a demonstração pública de religiosidade. “Uma exceção é feita a isso: os cristãos podem demonstrar sua religiosidade em público, o que torna a lei claramente racista” denunciou Gauri Van Gulik, advogada da Human Rights Watch (HRW). Nesses estados, as mulheres foram proibidas de utilizar véus nas escolas. “A defesa da liberdade das mulheres está em nossa agenda, mas o que se está fazendo na Alemanha não está ajudando a liberação feminina.”
A HRW faz trabalhos em países islâmicos radicais em defesa das mulheres e do direito delas de não utilizarem o véu ou a burca. “Deixemos claro que nós não estamos aqui defendendo o véu. Nós só acreditamos que a decisão de usá-lo, ou não, não é, definitivamente, uma questão do Estado. O que se faz nos países que obrigam as mulheres a utilizarem burca ou aqui, onde se proíbe, é a mesma coisa, aplicado de forma inversa”, pontuou. No estudo Discriminação em nome da Neutralidade, véus proibidos para professoras e trabalhadoras civis na Alemanha (livre tradução de Discrimination in the Name of Neutrality, Headscarf Bans for Teachers and Civil Servants in Germany) a HRW acompanhou mulheres islâmicas que utilizavam véu e eram professoras dos estados onde a vestimenta foi proibida. “Algumas dessas mulheres eram professoras de alemão”, riu. “Ou seja, elas estavam perfeitamente integradas na sociedade. Mas com a proibição, algumas delas deixaram seus empregos e retrocederam do ponto de vista econômico. Se os governos querem ajudar a condição feminina, a primeira providência é propiciar condições de independência financeira”, defendeu a advogada.
“Mas o que vão fazer essas mulheres?”, questionou Kubra Yucel. “Tenho muitas amigas que desanimaram de estudar. Desta forma, estão encaixando as mulheres islâmicas no clássico estereótipo da mulçumana que não trabalha, não sai de casa e depende de seu marido”, relatou a jovem que estuda, trabalha e colabora para várias mídias alemãs, turcas e inglesas e se prepara para casar. “Não quero que me ajudem... estou bem. Por que eles não vão ajudar outros ou curar seus pensamentos tolos?” Quando perguntei por que usava o véu, Kubra sorriu. “Quando eu morrer, meu Deus me explicará. Não tenho uma resposta, e só de ter que verbalizar significa que estou racionalizando a questão”, completou com leveza. “Uso porque tenho uma fé que me pede”, expressou o que, em princípio, nem deveria ter que dar satisfação.
Assim, apesar do discurso de que a proibição do véu é para emancipar essas mulheres, o governo não leva em conta dois fatores básicos: há aquelas que querem usar o véu – assim como mulheres cristãs que querem usar seus crucifixos no pescoço -, e ir contra essa vontade seria um retrocesso nos direitos das mulheres. O segundo, é que a proibição das mulheres – das que querem usar e das que são obrigadas a – de circular na rua ou em locais públicos apenas contribui para que elas não saiam de casa, não se integrem e não tenham meios de se sustentar nem de pedir ajuda caso estejam em situação de violência doméstica. Ou seja, o discurso e a prática são completamente antagônicos. “Por que não se criam punições para os homens que obrigam e violentam suas mulheres, em vez de se estigmatizá-las ainda mais?”, propôs Gulik.
Manuela foi mais longe em sua crítica. “No pós-guerra, a Alemanha se abriu para a imigração, porque precisava demão de obra. Desde a década de 1970, entretanto, o país não aceita mais imigrantes. Há exceções para isto, mas, em termos gerais, não há imigração legal na Alemanha a não ser para reintegração familiar.” Manuela fez uma pausa, com um riso irônico. “Ou seja, o governo diz que quer liberar essas mulheres, mas se estão realmente em situação de abuso doméstico e forem à polícia denunciar seus maridos, elas perderão o direito de estarem neste país”, concluiu. “As dificuldades dos imigrantes em terem seus direitos e o de seus filhos e netos nos países europeus é enorme. O que se fez aqui para dificultar a vida desta população imigrante e, agora, falar que quem tem de resolver a questão da falta de integração são os imigrantes.... No atual contexto europeu, com o decréscimo da população e a evidência de que a mão de obra imigrante será necessária, está se intensificando uma crise com a qual teremos que conviver”, observou.
Quando o deputado e antropólogo português Miguel Vale Almeida foi perguntado se o que está acontecendo na Europa poderia ser comparado à década de 1930, ele respondeu: “Não se pode comparar a história, está claro. Mas com a atual crise econômica, que caminha para um aumento do discurso do Estado Nacional, assiste-se a um desagrupamento dos direitos que havíamos conquistado em referência à igualdade, aos direitos humanos... Nunca vi a situação como está e tenho muito medo do que pode vir”, lamentou.
Kubra, apesar do e-mail comparando o que está por vir com o que foi na história da Alemanha, respondeu com novidades. Como forma de combater a criação do racismo e a criação da massa homogênea “Islâmico”, ela criou um blog: “Se eu queria mudar aquela situação, eu tinha que criar meus próprios métodos e mostrar que não existe O Islâmico... que existe um monte de gente diferente: que gosta de política, ou que gosta de música ou que gosta de cinema”, detalhou, com os olhos brilhantes e uma maturidade acima de sua idade, o porquê da criação de seu blog . Quando perguntei como ela se definiria, Kubra respondeu: “Eu não me penso mais em categorias nacionais: turca ou alemã. Tem coisas das duas culturas que eu gosto e incorporo”, disse, destacando a culinária turca e a língua saxônica. “Então, eu prefiro me definir como alguém que gosta de world music, que gosta de política.... meus amigos não necessariamente são islâmicos. Muito mais que gostar de alguém que ame o mesmo Deus que eu, eu gosto de ter amigos que se questionem, que sejam intensos... mesmo que sejam agnósticos”, encerrou a jovem, com um suspiro de esperança.
REVISTA FÓRUM

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Racismo temos de aprender a viver juntos

A xenofobia e o racismo são construções intelectuais que se enraizaram na mente humana ao longo dos séculos. É necessária uma estratégia intelectual para alcançar a profundeza histórica e cultural dessas pragas e eliminá-las de vez

Por Doudou Diène

“É ainda fértil o útero do qual veio a besta”, escreveu o dramaturgo alemão Bertolt Brecht quando a Segunda Guerra Mundial estava em seu auge. A seriedade dessa frase ainda ressoa hoje. A vitória de Barack Obama nas eleições presidenciais dos Estados Unidos foi, de fato, um golpe para o racismo e pode ter repercussões significativas. É difícil deixar de se alegrar diante da ideia de que o sonho de Martin Luther King pode ter se tornado realidade. Mas, ao mesmo tempo, como ignorar a violência interétnica que eclodiu no Quênia, país em que nasceu o pai do novo presidente, no mesmo ano em que ele foi eleito?

O racismo é um mutante. Antes de conseguirmos combater suas manifestações mais antigas (como o antissemitismo, o racismo contra negros e árabes), já vemos o ódio ressurgir com outra roupagem. Especialmente desde os ataques de 11 de setembro de 2001, tem emergido a noção alarmante de comunidades potencialmente terroristas, mostrando quão perigosa pode ser uma abordagem que funde fatores como raça, cultura e religião.

manifestação de negros em subúrbio parisiense em 2005, ano de grandes distúrbios raciais na França.

Esse tipo de amálgama obscurece a análise ou compreensão do racismo. Houve um tempo em que as ideias racistas eram promovidas por partidos claramente identificados como pertencentes à extrema direita. Mas, gradualmente, sob o pretexto de se defender a identidade nacional e combater a imigração ilegal e o terrorismo, argumentos inerentemente racistas têm sido adotados nas campanhas eleitorais de partidos democráticos. Alianças dentro de certos governos estão permitindo que partidos nacionalistas e de extrema direita implementem ideais xenófobos e racistas ao lhes conferirem legitimidade democrática.

O uso do racismo para propósitos eleitorais ou políticos está sendo complementado por uma legitimação intelectual ou científica do racismo e da xenofobia, como visto nas declarações de figuras públicas conhecidas, em pesquisas universitárias e em publicações comerciais.

Para usar apenas um exemplo, havia a teoria do choque entre civilizações desenvolvida pelo acadêmico norte-americano Samuel Huntington em meados dos anos 1990, de acordo com a qual o Ocidente seria ameaçado pela China e pelo Islã. Poucos anos mais tarde, em seu livro Quem somos nós?, Huntington deu mais um passo nessa direção ao supor uma ameaça à identidade americana como resultado da presença dos latino-americanos que vivem nos EUA.

imagem do ataque de 11 de setembro de 2001 em Nova York, que deu força à noção de comunidades potencialmente terroristas.

IDEIAS RACISTAS TÊM SURGIDO EM CAMPANHAS DE PARTIDOS DEMOCRÁTICOS

Ideias racistas e xenófobas expressadas por pessoas que gozaram de fama em certo momento da história penetram a política, a religião, a literatura, a educação e os meios de comunicação e acabam firmando raiz nas mentes das pessoas. A imagem distorcida dos muçulmanos não começou no 11 de setembro.

Ela é resultado de um longo processo intelectual que se iniciou com os primeiros encontros entre o Islã e o cristianismo. A imagem distorcida dos negros é fruto de um processo intelectual que legitimou o tráfico transatlântico de escravos e justificou a venda de seres humanos com base em uma alegada inferioridade, que os demonizava e os reduzia a meros objetos, buscando apoio em teorias e leis. Em outras palavras, o racismo tem profundas raízes culturais e históricas. Ele não caiu simplesmente do céu.

Se o choque de civilizações é uma ilusão, o multiculturalismo é uma realidade. Tomemos o exemplo da nova Europa. As identidades nacionais que foram legitimamente herdadas pelos Estados-nação têm de conviver diariamente com as identidades de outras comunidades étnicas, culturais e religiosas. Aquelas se sentem ameaçadas; estas, frustradas.

Essa frustração não advém apenas da marginalização política, econômica e social das pessoas às quais pedimos para se despirem de suas identidades, para entulharem suas memórias e adotarem, como na França, a fantasia da República, o símbolo de sua nova identidade.

As raízes dessa frustração têm origens históricas profundas. Mas o debate público sobre a presença dessas comunidades em solo europeu quase não existe. O colonialismo e o tráfico de escravos são capítulos da história que foram suprimidos ou desconsiderados. Afinal de contas, tivemos de esperar até a Conferência Internacional sobre o Racismo, em Durban (África do Sul), em 2001, para que o tráfico transatlântico de escravos fosse finalmente reconhecido como um crime contra a humanidade. A distorção ou a ignorância de certas realidades históricas, ao impedirem que elas façam parte da memória nacional, podem apenas levar a chamas, como aquelas que emergiram nos subúrbios franceses, há alguns anos.

APROVAR LEIS QUE CONDENEM O RACISMO E A XENOFOBIA ATINGE APENAS A PONTA DO ICEBERG

Podemos nos perguntar se, no processo de unificação, a Europa não desconsiderou um problema fundamental: a criação de uma nova identidade. Em outras palavras, o multiculturalismo que a define hoje. Olhando para certas políticas de imigração, podemos nos perguntar se a Europa tem até mesmo a consciência de que os imigrantes são também membros da humanidade e que o multiculturalismo é mutuamente enriquecedor. Os estrangeiros que vêm viver na Europa têm de se adaptar às regras sociais do país que os recebe. Não é isso que está sendo questionado. Mas eles também devem ser capazes de plantar algumas bonitas flores no jardim da Europa.

O multiculturalismo está no centro das manifestações contemporâneas de racismo e xenofobia e é em torno do multiculturalismo que a luta contra o racismo deve tomar forma.

Casos de violência entre grupos étnicos e religiosos estão se espalhando rapidamente e podem ser observados ao redor do mundo, demonstrando que uma estratégia puramente legislativa não é suficiente. É essencial que se continue a aprovar leis e que se estabeleçam regulamentos e outros textos nacionais e internacionais que condenem o racismo, a discriminação e a xenofobia, mas isso atinge apenas a ponta do iceberg. O que torna o útero fértil, nas palavras de Brecht, são as fontes mais profundas de racismo, as quais não podem ser influenciadas apenas pelas legislações.

É essencial que se tenha uma estratégia intelectual e ética. Sem isso, não seremos capazes de abalar a mentalidade racista. Isso significa ir até a base histórica e cultural do racismo; unir-nos contra a fecundidade dos argumentos racistas, contra seu uso por políticos e sua banalização pela mídia. Isso significa reconhecer a realidade da diversidade cultural, étnica e religiosa como a base para o diálogo entre civilizações, nos âmbitos nacional e internacional. Em uma palavra: aprender a viver juntos.

A fim de acabarmos com a ideologia racista, é necessário desenvolvermos uma arqueologia das causas profundas do racismo. A ideologia antirracista deve seguir a mesma trajetória que o racismo tem utilizado para se insinuar (a política, a religião, a literatura, a educação e a mídia) e conseguir se firmar nas mentes de homens e mulheres.

Doudou Diène é ex-diretor da Divisão de Diálogo Intercultural da Unesco e relator especial da ONU sobre as formas contemporâneas de racismo, de 2002 a 2008.

Revista Planeta

domingo, 30 de agosto de 2009

Como enfrentar o protecionismo

A onda de fechamento de mercados que toma conta do mundo é perigosa e merece ser confrontada pelo Brasil - e há um jeito certo de fazer esse combate

Christopher Furlong/Getty Images Ingleses protestam contra o emprego de estrangeiros: volta do nacionalismo


Angela Pimenta e Roberta Paduan
De tempos em tempos, quando a economia global adoece, como agora, uma infecção oportunista - o protecionismo - começa a se manifestar pelo mundo todo. Nesse quadro, é comum ver empresários reivindicando barreiras contra produtos importados e trabalhadores gritando contra o emprego de imigrantes estrangeiros. Governos, que dependem de votos tanto de trabalhadores quanto de empresários, tendem a ceder às reivindicações. O passo seguinte normalmente é a adoção de medidas que interrompem o fluxo normal do comércio, transformando-se em distorções econômicas com efeitos potencialmente destrutivos. "Na década de 30, o protecionismo levou ao nacionalismo e à Segunda Guerra", disse o vice-chanceler britânico, Mark Malloch Brown, a EXAME. De fato, enquanto eram castigados pela profunda recessão que sucedeu à queda da bolsa em 1929, os Estados Unidos aumentaram os impostos de importação de 20 000 produtos. O resultado foi uma reação em cadeia dos europeus,
barrando a entrada de produtos americanos. Três anos depois, as exportações e importações americanas tinham caído mais de 60% e a crise virou a Grande Depressão. Passadas quase oito décadas, o mundo começa a flertar com os mesmos erros. Desde que a crise americana começou a afetar outras economias, o vírus protecionista voltou a atacar em escala planetária e tornou-se uma ameaça à globalização. Ele também é mais uma ameaça ao comércio mundial, já enfraquecido pela crise - a previsão é que, após 27 anos consecutivos de crescimento, as trocas entre os países declinem em 2009.


Infiltradas em pacotes de estímulo econômico ou infringindo descaradamente regras básicas do comércio internacional, investidas protecionistas se multiplicaram nos últimos meses. Nos Estados Unidos, maior parceiro comercial do Brasil, o governo Obama lançou um pacote de quase 800 bilhões de dólares, incluindo as controversas cláusulas buy american (algo como "compre produto americano"), com o intuito de gerar pelo menos 3 milhões de empregos. Na prática, foram inicialmente estabelecidos benefícios fiscais a empresas americanas que preferirem ferro, aço e outros itens produzidos no país. A iniciativa gerou protestos no mundo todo, e Obama decidiu retirar do pacote as restrições às empresas europeias e canadenses, que ameaçaram abrir processo contra os Estados Unidos na Organização Mundial do Comércio. No mesmo rumo, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, aprovou ajuda de 6,5 bilhões de euros para montadoras, recomendando que as beneficiadas investissem dentro da França para criar ou manter empregos no país. A crise ainda gerou uma nova variedade de vírus protecionista, o que a revista The Economist chama de "nacionalismo econômico". Trata-se da recusa, seja por incapacidade financeira, sejam por restrições deliberadas, de os bancos de países ricos emprestarem aos do mundo em desenvolvimento. Foi justamente esse corte repentino no crédito o principal canal de contágio da crise global no Brasil. O presidente do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Kahn, se diz preocupado com o fato de, ao capitalizar bancos em dificuldades, os governos do Primeiro Mundo instruírem os banqueiros a manter o dinheiro em casa.

Para o Brasil, os efeitos comerciais mais diretos estão sendo provocados pelas medidas impostas pela Argentina, segunda maior importadora de produtos brasileiros. Lá, o protecionismo ressurgiu inicialmente sob o disfarce da burocracia: o governo da presidente Cristina Kirchner promoveu aumento de alíquotas de importação e ampliou o número de produtos que precisam de licença para entrar no país. O documento está dentro das regras da OMC, mas vem sendo emitido com prazo superior ao máximo de 60 dias fixado pelo órgão. O setor calçadista brasileiro tem sido um dos mais afetados. "Muitos clientes cancelaram pedidos por causa dos atrasos, pois os sapatos seguem as estações do ano e têm tempo certo para ser vendidos", diz Paulo Tigre, presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul. Para tentar resolver o impasse, argentinos e brasileiros travam intensas negociações. Depois de um primeiro encontro em Brasília, em fevereiro, mais duas reuniões de alto nível estão marcadas para São Paulo e Buenos Aires. De sua parte, os argentinos dizem não poder suportar a competitividade brasileira. Irritado com a resistência argentina em manter as barreiras aos produtos brasileiros, o secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Welber Barral, ameaça acionar a OMC. "Em 2008, as barreiras argentinas causaram prejuízo de 1,5 bilhão de dólares aos exportadores brasileiros", diz Barral.


Num ambiente em que governos de vários países, incluindo os mais desenvolvidos, agem de maneira protecionista, o que é melhor fazer? Aderir à onda ou lutar contra ela? Há, no leque de reações possíveis, formas mais ou menos inteligentes de lidar com o problema? Com a experiência de quem foi embaixador brasileiro em Londres e em Washington, o ex-diplomata Rubens Barbosa avalia que há, sim, alternativas boas e más entre as opções. "O protecionismo é ruim para todo mundo no longo prazo e o Brasil precisa afirmar sua posição contrária a ele", diz. "Mas também é necessário saber se defender." Nesta fase, em que o problema se dissemina com força no mundo, é recomendável que o governo monitore com frequência redobrada e com lente de aumento poderosa todo o movimento de importações e exportações. O Brasil conta com mais de uma centena de especialistas distribuídos pelos ministérios das Relações Exteriores e do Desenvolvimento, além da Apex, agência de promoção comercial brasileira. No âmbito do Itamaraty, além de um time de 40 profissionais do departamento comercial, o governo mantém diplomatas espalhados pelo mundo, atentos ao surgimento de barreiras a produtos brasileiros. O país tem ainda uma série de entidades de classe na iniciativa privada que podem ajudar com informações. "Esse trabalho técnico é fundamental, pois é preciso saber o que ocorre com milhares de produtos vendidos em inúmeros países", diz Barral. "Além disso, muitas vezes o protecionismo é disfarçado, o que torna o trabalho de acompanhamento ainda mais difícil - e importante."

Caso sejam identificadas práticas de concorrência desleal, a saída é reagir, mas sempre obedecendo às normas internacionais. O melhor caminho é usar a favor as regras e os foros de solução de conflitos de organismos como a própria OMC, como o Brasil já fez no passado, obtendo vitória contra os europeus no mercado de açúcar. Também não vale deflagrar uma guerra comercial por um problema localizado num único setor, já que isso só faz crescer o problema. "Não adianta partir para o simples olho por olho, dente por dente, pois a criação de barreiras às importações pode prejudicar ainda mais as empresas locais", diz Mário Marconini, presidente do Conselho de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo. Essa visão, de que as relações internacionais são complexas e devem ser tratadas com cautela, foi o que moveu muitos empresários brasileiros em janeiro a reclamar quando o governo impôs licenças prévias de importação para produtos de 17 setores que representam mais de 60% das compras externas do país. Diante da medida rudimentar, os protestos foram imediatos, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva logo a revogou, praticamente se desculpando pela barbeiragem de sua equipe. Os empresários "insurgentes", que fizeram a pressão nesse episódio, são os que aprenderam que a globalização é uma via de duas mãos. No curto prazo, a restrição às importações pode trazer algum benefício, mas no médio e longo prazo as próprias empresas locais sofrem prejuízos, pois não conseguem obter por preço razoável insumos sem os quais perdem competitividade. Além disso, o comportamento atabalhoado deve ser evitado porque suja a imagem do país.


Uma regra de ouro, portanto, é nunca fechar o mercado levantando barreiras acintosas com alíquotas ou cotas restritivas - a menos que sejam identificadas práticas claras de concorrência desleal, como o dumping, por parte de empresas de outros países. "Em vez de fechar as fronteiras, é melhor o governo tentar ajudar os setores produtivos a ser mais competitivos e estimular o consumo doméstico", afirma Ricardo Mendes, da Prospectiva, consultoria especializada em relações internacionais. É o que vem sendo feito, com pacotes de centenas de bilhões de dólares, na China e em países europeus, além dos Estados Unidos. No Brasil, parte disso está se concretizando via aportes do BNDES e cortes de impostos que tornam os produtos caros para os consumidores brasileiros ou reduzem sua competitividade no mercado externo. Bons projetos de infraestrutura são preciosos para facilitar o escoamento dos produtos - que poderão chegar a preços melhores nos mercados lá fora. Há mais a fazer nessa linha. "O Brasil pode usar a desoneração tributária e a melhoria de crédito aos exportadores para dar competitividade aos setores prejudicados", diz André Nassar, presidente do Icone, um centro de estudos do comércio internacional mantido por associações do agronegócio.

Não é de hoje que medidas de proteção seduzem cidadãos e políticos. Mas já há consenso, na literatura econômica, de que o estímulo provocado por medidas dessa natureza se limita ao curto prazo. No longo prazo, países mais fechados tendem a crescer menos e a ver sua indústria ficar para trás. Alguns economistas consideram positiva a proteção à chamada "indústria nascente" - quando os países elegem algum novo setor para apoiar, e mesmo assim por tempo limitado. "Na história recente, os exemplos de proteção adotados por Japão, Coreia do Sul e Suécia demonstram que esse é o caminho para desenvolver negócios inovadores em seu estágio inicial", diz o economista sul-coreano Ha-Joon Chang, da Universidade de Cambridge. Mas, embora um alto nível de competição possa ser fatal para negócios jovens, a ausência de competição - por meio do protecionismo continuado - também é letal para a inovação e a produtividade.

Parte do agronegócio europeu é exemplo disso. O custo da carne produzida no Velho Continente é significativamente maior que o do Brasil. No entanto, a Europa impõe limites de volume às importações, impedindo a expansão das compras de países como o Brasil. Pior: a União Europeia só autoriza a compra de carne brasileira industrializada, alegando riscos sanitários para impedir a entrada do produto in natura. Muitos consideram que isso é, na verdade, um artifício para favorecer produtores locais. "Sob o disfarce de precauções sanitárias ou de querer proteger o meio ambiente e os direitos trabalhistas, muitas dessas barreiras visam neutralizar a competição que eles exercem sobre os mercados desenvolvidos", diz o economista Jagdish Bhagwati, da Universidade Columbia, uma autoridade mundial em comércio. Segundo ele, as barreiras não tarifárias são a forma mais perversa de protecionismo praticado por países ricos. A saída, diz, é centrar esforços em novas rodadas de liberalização comercial - que hoje parecem cada vez mais distantes.

Diante das dificuldades para concluir a Rodada de Doha, da OMC, a principal negociação global em curso, uma nova tendência são os acordos setoriais. "O futuro do comércio internacional passa necessariamente por esse tipo de acordo", diz o ex-ministro do Desenvolvimento e ex-embaixador Sérgio Amaral. "Por serem menos ambiciosos, eles são muito mais viáveis." Tais acordos consistem na reunião de setores produtivos afins de um ou mais países para negociar a liberalização do comércio, com redução gradual de tarifas. No Brasil, setores competitivos, como o de minérios, vidros planos e pedras como granitos, já demonstraram estar abertos a esse tipo de negociação com outros países. Para Otto Nogami, professor de mercado econômico global do Ibmec São Paulo, esta seria também a hora de o Brasil retomar uma agenda que ficou para trás: a dos acordos bilaterais de país para país. "Eles funcionam como uma via de mão dupla, com concessões em troca de concessões, o que pode ser útil contra o protecionismo e facilitar o comércio", diz.

É incontestável que a globalização amplifica a concorrência e as crises econômicas, como a atual. O trabalhador de uma fábrica brasileira pode perder o emprego se consumidores na Europa ou nos Estados Unidos deixarem de comprar o produto que ele fabrica. Ocorre que os benefícios proporcionados pela globalização são igualmente inegáveis. O aprofundamento da integração comercial e financeira na década de 90 promoveu uma aceleração no crescimento de países em desenvolvimento acima da média global. Como resultado disso, diminuiu a extrema pobreza e a classe média no mundo aumentou quase 70% em 15 anos, o maior avanço registrado desde a revolução industrial. O país que melhor aproveitou a intensificação do comércio internacional, a China, conseguiu reduzir de 28% para 9% o número de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza. É esse tipo de progresso que pode ser perdido caso os atuais governantes insistam em práticas protecionistas e decidam retroceder na globalização. No fundo, o protecionismo está para as relações internacionais como o egoísmo para as relações humanas. O egoísta quer ganhar sempre e só respeita as regras quando está ganhando. O problema é que nem sempre é possível que todos ganhem. E também não é possível haver jogo se os jogadores quiserem mudar as regras quando perdem.

Revista Exame - 03.2009

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Integrar ou Reprimir?


Embora precisem da mão-de-obra imigrante, países desenvolvidos intensificam o controle em suas fronteiras

Embora não seja um fenômeno historicamente novo, a imigração
passou ao centro da discussão em vários países da Europa e nos EUA, principais destinos desses deslocamentos. Como um dos efeitos mais característicos da globalização, vivemos um novo fluxo imigratório em praticamente todas as partes do planeta.
De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU) cerca de 2% da população mundial vive longe de seu país ou região de origem. Entre refugiados, imigrantes legais e ilegais, cerca de 185 milhões de pessoas deixaram sua terra natal em 2005. Estados Unidos e Alemanha são os países desenvolvidos que atraem o maior número de imigrantes. Milhares deles vivem ilegalmente, o que tem causado sérias conseqüências econômicas e políticas.
A imigração costuma ser apresentada como um fenômeno negativo, pois prejudica os países hospedeiros, sobretudo quando os imigrantes são clandestinos. Antes, porém, de examinarmos o problema da ilegalidade, é preciso fazer algumas ponderações. Em primeiro lugar, esse tipo de imigração é uma das conseqüências perversas do sistema econômico vigente, que estimula a desigualdade mundial, caracterizada por duas dezenas de nações prósperas em contraste com centenas de pobres ou no máximo emergentes – para usar o atual jargão econômico. Em segundo lugar, os países desenvolvidos precisam de imigrantes em grande quantidade. E a principal razão é demográfica. Ano a ano, a população desses países – em especial os europeus – tem envelhecido e diminuído. E a baixa taxa de natalidade deverá reduzir ainda mais a população economicamente ativa (PEA) dessas regiões, com uma conseqüente queda no número de trabalhadores. Não é difícil perceber o impacto negativo desse processo na Economia: enquanto o número de idosos (e seus custos de Saúde e Previdência) aumenta, é cada vez menor o número de jovens para trabalhar e arcar com os gastos da sociedade, principalmente dos mais velhos.

Necessidade
Alemanha, Itália, Espanha, Japão, Coréia do Sul, Rússia, França, Inglaterra e mesmo os Estados Unidos são os países que mais precisam de imigrantes para que mantenham os níveis atuais de produtividade e bem-estar social. A Itália, por exemplo, precisaria receber em torno de 6,5 mil imigrantes por ano para cada milhão de habitantes, e a Alemanha, 6 mil. Já os estadunidenses precisariam aproximadamente 1,3 mil imigrantes ao ano para cada milhão de habitantes.


Segundo estudos da ONU, a imigração teria de dobrar na Europa para impedir a queda populacional do continente. Na Ásia, o Japão teria de receber um grande número de pessoas, e a Coréia do Sul, um país com uma tradição de emigração, teria de diminuir esse fluxo, ou então compensá-lo com o ingresso de mais estrangeiros. Em tese, os estadunidenses e os europeus não têm com que se preocupar, pois a migração dos países subdesenvolvidos para os desenvolvidos tem crescido desde a segunda metade do século passado.

Esses deslocamentos populacionais resultam de carências econômicas. Da mesma forma como fizeram os europeus ao aportarem em diferentes
locais da América, do século 19 até a primeira metade do 20, fundamentalmente em busca de trabalho e de melhores condições de vida, parte dos descendentes desses imigrantes agora retorna às terras de seus antepassados, movimento que poderíamos chamar de onda invertida.


Além disso, muitos imigrantes enviam regularmente parte do que produzem de volta a seu país de origem, o que tem sido uma fonte de renda adicional apreciável para algumas dessas nações. É o caso do México em relação aos EUA, e da Turquia em relação à Alemanha.

É preciso lembrar, porém, que nem todas as correntes migratórias têm como motivação os interesses econômicos. Há uma grande quantidade de pessoas que deixam seu país para fugir de guerras civis e perseguições de natureza política, étnica ou religiosa, especialmente na África, palco recorrente de conflitos armados de origem étnica e religiosa, intensificados durante os anos 90.

Se é fato que europeus e estadunidenses precisam de um fluxo imigratório constante para manter os padrões de produtividade de sua Economia e garantir uma condição de bem-estar aos seus aposentados,
também é fato que o aumento do desemprego e da intolerância a outras culturas têm provocado intensa reação contra a imigração. A crescente hostilidade das populações locais contra os estrangeiros tem instigado ações violentas, efeitos partidários e eleitorais na política interna e promulgação de leis mais severas com relação à entrada e permanência de estrangeiros.


O velho continente
Na parte ocidental da Europa, a maior parte dos 25 milhões de estrangeiros é procedente de nações subdesenvolvidas da América, África e Ásia. A partir dos anos 90 também aumentou muito a corrente migratória dentro do próprio continente. Com o fim da União Soviética, em 1991, as populações do Leste Europeu partiram principalmente em direção a Alemanha, França e Itália em busca de melhores condições de vida. Para ter uma idéia, entre 1990 e 1995, a Alemanha recebeu 1,5 milhão de imigrantes de origem alemã que viviam nos antigos países socialistas.

Segundo relatório da ONU elaborado em 2000, a União Européia, com uma população atual de 380 milhões de pessoas, precisaria receber até 159 milhões de imigrantes até 2025 para compensar o aumento do número de aposentados e o fraco índice de natalidade. Esse mesmo estudo relata que, entre 1999 e 2000, os estrangeiros foram responsáveis por 89% do crescimento demográfico no continente europeu. Sem eles, a população teria declinado em 4,4 milhões de indivíduos.
Para continuarmos nos números, a Comissão Mundial sobre as Migrações Internacionais da ONU estimou em 2005 entre 2,5 milhões e 4 milhões de pessoas em deslocamento ilegal no planeta. Desse total, 500 mil entraram no continente europeu.


Há certa predominância no fluxo migratório. Por exemplo, poloneses e turcos têm grande presença na Alemanha. Caribenhos, sul-africanos e indianos aportam regularmente no Reino Unido. Argelinos, tunisianos e marroquinos, na França. Latinoamericanos de origem hispânica e marroquinos vão para a Espanha. Albaneses, sérvios, eslovenos, tunisianos e líbios migram para a Itália e completam as principais correntes migratórias entre os países europeus, boa parte delas por vias ilegais.


Por conta própria ou com a ajuda de máfias, com as quais comprometem seus ganhos futuros, grandes contigentes têm entrado no que se convencionou chamar fortaleza Europa. Para ingressar no Reino Unido, por exemplo, os agenciadores cobram de 4,5 mil a 7,5 mil euros por pessoa. Isso torna os imigrantes dependentes deles, o que apenas estimula uma rede clandestina e potencialmente criminosa de negócios.


Para enfrentar esse problema, a União Européia dispõe de poucos recursos legais, uma vez que cada país tem legislação própria para lidar com essa questão. A distinção normativa, no entanto, permite que imigrantes entrem em um país do bloco que apresenta leis de imigração mais flexíveis para chegar a outro com normas mais rígidas, fato que torna o tema controverso entre os integrantes da entidade.


A busca por uma legislação una deve ser o objetivo, mas é difícil conciliar os interesses entre países que precisam mais de imigrantes – Itália, Espanha e Alemanha são os que mais necessitam de mão-de-obra – com os de outros que precisam menos – como a França e a Inglaterra. Há também a questão demográfica, que confronta países de maior população com outros menos populosos, ou com taxas de natalidade adequadas, como os casos da Holanda e da Suécia.

As propostas em andamento, com nuanças entre os países, partem da adoção de política de cotas, passam por mecanismos de imigração seletiva até a regularização em larga escala de imigrantes ilegais. A Espanha, por exemplo, regularizou 600 mil estrangeiros em 2005. A demanda crescente, a intolerância social
e o oportunismo de grupos políticos conservadores têm desgastado tais propostas.

A prioridade mais recente passou a ser simplesmente reativa, ou seja, um aumento da coibição da entrada ilegal, como o reforço no controle das fronteiras. A tragédia dos enclaves espanhóis de Ceuta e Mellila, na costa marroquina do Mediterrâneo, mostra que a tendência precisa ser mudada. Em agosto e setembro de 2005, centenas de africanos foram rechaçados a bala pelo exército espanhol. A represália deixou um saldo de algumas dezenas de mortos, e a maioria dos africanos foi transportada de volta em comboios pela polícia marroquina e abandonados em pleno deserto do Saara.


Embora haja a necessidade econômica inegável do recebimento de imigrantes, o aumento desregrado do fluxo migratório tem tornado mais clara a falta de coesão entre os países hospedeiros e a radicalização política interna entre eles. Isso desloca a questão para o terreno da segurança, tanto por políticos, quanto pela polícia, serviços sociais, imprensa e parte da opinião pública.


Estados Unidos
Nos EUA, a questão imigratória ganhou contornos radicais depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. A defesa de uma política integradora de imigração, necessária em algumas regiões do país, passou a confundir-se com uma política severa de segurança interna, a fim de impedir outros atentados terroristas. Desse modo, a imigração passou a ser criminalizada e deixou de ser vista como uma alternativa socioeconômica tradicional em um país forjado fundamentalmente por grandes ondas migratórias.


Vivem nos EUA em torno de 24 milhões de estrangeiros, o que representa 8% da população do país. Desse total, 12 milhões são clandestinos, e aproximadamente 500 mil novos imigrantes entram ilegalmente por ano. Os números impressionantes ajudam a explicar – nesse contexto político mais radical – as recentes medidas repressivas adotadas pelo Governo estadunidense.



Em setembro de 2006, o Congresso estadunidense aprovou a Lei da Barreira de Segurança. Homologada pelo presidente George W. Bush, a legislação determina a construção de um muro na fronteira entre os EUA e o México, ao custo de US$ 1,2 bilhão. Outra parte da lei, menos severa, previa um programa de concessão de vistos temporários que beneficiaria praticamente todo imigrante ilegal. A proposta, porém, foi rejeitada pelos integrantes do Partido Republicano. Isso ajuda a explicar a perda de votos que os republicanos tiveram nas eleições legislativas de novembro de 2006, quando 69% dos cidadãos estadunidenses de origem hispânica votaram nos candidatos do Partido Democrata.

O mais curioso é que a maior parte da população dos EUA é contra medidas truculentas, como a construção do muro. Pesquisa publicada no periódico econômico Wall Street Journal informa que 60% da população se dizem favoráveis a legislações que abram caminho para a cidadania dos ilegais, desde que atendam a requisitos como ter cinco anos de residência no país, estar empregado e não ter antecedentes criminais.
Apesar dessas iniciativas repressivas, os EUA continuam a ser o país que mais atrai imigrantes no mundo, devido à pujança de sua Economia, às suas amplas fronteiras, à pobreza reinante a partir de suafronteira com o México e à proximidade com o

Caribe, além da já mencionada tradição de tolerância em relação a estrangeiros.

Assim, muitos imigrantes preferem viver em condições ilegais nos Estados Unidos, pois sabem que ganharão mais do que em seus países de origem, mesmo quando estes atravessam boa fase econômica, como o caso do México nos últimos anos. País que, ademais, tira boa parcela de seu produto interno bruto (PIB), das divisas que retornam dos imigrantes estabelecidos no seu grande vizinho do norte.


Duas realidades
Ao comparar o fenômeno da imigração nos EUA e na Europa, chama a atenção a ausência de intolerância social e politicamente organizada contra os imigrantes nos primeiros e sua ocorrência cada vez mais intensificada na segunda. De forma geral, eles prosperam e são mais integrados ao mercado de trabalho entre os norte-americanos do que entre os europeus, devido, principalmente, a uma legislação trabalhista mais flexível nos EUA.


Isso não significa que hoje não existam problemas nos EUA semelhantes aos encontrados na Europa, como uma verdadeira subclasse de trabalhadores informais e à margem da lei. Mas eles têm conseguido maior integração do que nos países europeus, estabelecendo laços sociais e econômicos com imigrantes legalmente estabelecidos no país, em especial os de mesma etnia.


Destaca-se o grande contingente do que os norte-americanos chamam de “hispânicos”: cubanos exilados, brasileiros, panamenhos, mexicanos e guatemaltecos, entre outros. Essa fatia já representa 1/6 do total da população dos EUA e é a que mais cresce (22% em 2000, diante de 7% de brancos e de 2% de negros). A ascensão populacional latina em um país formado em sua maioria por brancos, anglo-saxões e protestantes, também explica a recente onda conservadora, representada pela construção do muro. Mesmo com esses problemas, os imigrantes que chegam aos Estados Unidos conseguem conquistar um lugar, pois o país continua a gerar empregos, ao contrário da recessão vivida pelos europeus, há vários anos.

Na Europa, os imigrantes ficam confinados em redutos específicos, como os árabes na França, os indianos na Inglaterra, ou os turcos no norte da Alemanha. São quase comunidades separadas, com pouca integração com o conjunto da sociedade e cultura de cada país. Mesmo sua inserção econômica é limitada, já que esses imigrantes ocupam posições sociais subalternas, preenchem as piores vagas de empregos e não têm acesso à Educação.
Essa segregação tem provocado reações violentas tanto por parte de grupos extremistas de direita – como por exemplo os ataques alemães contra turcos e curdos –, quanto por parte das comunidades de imigrantes – como a onda de incêndios nos subúrbios de Paris e outras cidades francesas, em 2005.

Já nos EUA, os imigrantes conseguem manter parte de seus costumes em consonância com o modo de vida vigente. Mas isso porque a sociedade estadunidense lhes permite, por meio da mobilidade socioeconômica, maiores chances de prosperidade e integração. É o caso da comunidade árabe que vive no país. Seus cerca de 3,5 milhões de habitantes têm nível educacional e de renda superiores à média nacional, e a maioria comunga das várias crenças do cristianismo (75% deles), ao passo que a imensa maioria dos 6 milhões de muçulmanos estadunidensesé negra, só para confundir os estereótipos.

Claro que a discriminação e a intolerância aumentaram após o 11 de setembro, mas nada que tenha alterado as características de uma comunidade étnica que, ao seu modo, participa da sociedade estadunidense. Se os europeus têm problemas mais sérios a resolver, como divergências internas, culturas nacionais diferentes e uma necessidade maior de abrigar trabalhadores com mão-de-obra pouco qualificada, o caso dos Estados Unidos não deveria suscitar medidas tão draconianas como a da construção de um muro.



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