sábado, 29 de setembro de 2018

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

O problema da desigualdade


 Tomás Rigoletto Pernías

Nas últimas décadas a desigualdade tem crescido em todo planeta. O Brasil, país que não teve um passado marcado por uma maior igualdade socioeconômica entre seus cidadãos, apresenta um índice de desigualdade social similar ao dos países do oriente médio. Nível de desigualdade social alarmante nomeado de “fronteira da desigualdade”, uma expressão criada para designar os países em que a desigualdade se manifesta de forma mais intensa

O documento recém lançado “World Inequality Report 2018” aponta que o crescimento da desigualdade social é um fenômeno que tem ocorrido, de maneira geral, em todas as regiões do mundo. O relatório mencionado, que visa contribuir para enriquecer o debate sobre a desigualdade, demonstra que a concentração de renda aumentou, grosso modo, em todos os países: desde 1980, de maneira acelerada nos Estados Unidos, China e na Índia; e moderadamente, entre os países da Europa. Em perspectiva histórica, diz o texto, trata-se do fim de uma era marcada por regimes econômicos mais igualitários, a depender da região considerada.

O documento esclarece, todavia, que apesar de a desigualdade social ter crescido em todas as regiões do mundo, foi possível observar diferenças substanciais na velocidade em que a concentração de riqueza ocorreu. As diferentes trajetórias do crescimento da desigualdade entre os países estudados mostra, desse modo, que as políticas públicas e as instituições de cada país possuem tem um papel fundamental em moldar as formas e a intensidade da desigualdade entre os cidadãos.



Ainda que o relatório pondere que há exceções dignas de serem mencionadas, como o Brasil, país em que a desigualdade social permaneceu relativamente estável ao longo dos últimos anos, cumpre enfatizar que o panorama geral não é animador. O Brasil, país que não teve um passado marcado por uma maior igualdade socioeconômica entre seus cidadãos (tal como ocorreu nos países desenvolvidos), apresenta um índice de desigualdade social similar ao dos países do oriente médio. Portanto, ao apresentar um nível de desigualdade social alarmante, o Brasil representa o que o documento chama de “fronteira da desigualdade”, uma expressão criada para designar os países em que a desigualdade se manifesta de forma mais intensa.

Combater a desigualdade social no Brasil, infelizmente, não é uma tarefa trivial. Como se não bastasse a complexidade do tema, o enfrentamento da questão ainda carrega a imensa dificuldade de confrontar os economistas que buscam deslegitimar essa batalha, ora negando o problema, ora relativizando as mazelas envolvidas, ou, ainda pior, afirmando que não há nada que realmente se possa fazer sobre o assunto.

João Amoêdo, candidato à presidência da República, afamado por sua sua candidatura de viés econômico liberal (porém conservadora nos costumes), é um dos que procuram minimizar o problema da desigualdade social. Numa recente entrevista para a Folha São Paulo, o candidato declarou que, mais importante do que o combate à desigualdade social, é preciso combater a pobreza. Na mesma entrevista, o candidato foi além e afirmou: “Qual é o problema da desigualdade? Você acha que se a gente resolver a desigualdade no Brasil é bom?”[i]

O candidato mencionado, que possui um patrimônio estimado em R$ 425 milhões – cuja metade está investido em aplicações de renda fixa – é também conhecido por denunciar os privilégios da “classe” política, um tema que certamente merece prioridade na agenda pública. Entretanto, algumas dúvidas a respeito de seu comprometimento em colocar um fim a todos os privilégios ainda permanecem. O que Amoêdo tem a dizer, por exemplo, sobre o seu privilégio de pagar 15% de imposto sobre suas aplicações financeiras, enquanto um trabalhador brasileiro chega a ter 27,5% de seu salário tungado pela Receita Federal? Será que resolver essa desigualdade no Brasil é bom?

A declaração de Amoêdo reproduz um velho pensamento muito comum entre diversos economistas liberais: trata-se da ideia de que a desigualdade social não configura um problema e, portanto, não deveria entrar na agenda do poder público. O verdadeiro problema, conforme essa linha de raciocínio, estaria na pobreza, essa sim merecedora de atenção especial. As palavras de um ex-professor da London School of Economics e atual economista chefe do Citygroup, Willem Buiter, sintetizam bem a mensagem: “Poverty bothers me, Inequality does not. I just don´t care[ii]. De maneira mais sútil, Barack Obama já declarou também algo no mesmo sentido: “eu, como a maioria dos americanos, não invejo o sucesso ou a riqueza de outras pessoas. Isso faz parte do sistema de livre mercado”[iii], afirmou o ex-presidente Norte-americano. [iv]

Assim, o candidato que integra o Partido Novo revela sua disposição em aderir ao “velho”. Em meados do século XX, o economista austríaco Friedrich A. Hayek já pregava que intervenções públicas na distribuição da riqueza social reduzem a produtividade dos indivíduos e, portanto, rendem efeitos negativos. De modo similar, Milton Friedman pregava que a atuação governamental em busca de maior igualdade social, numa sociedade constituída por indivíduos com aptidões diferentes, prejudica os incentivos econômicos e enfraquece os nexos entre esforço e recompensa, causando um desserviço à sociedade. Ambos, cada um a seu modo, procuravam demonstrar a incoerência de se aplicar a noção de “justiça social” num sistema em que a distribuição de riqueza é um resultado de forças impessoais, os mecanismos de mercado.

Nesse sentido, Amoêdo não faz mais do que ecoar ideias decrépitas e ultrapassadas de antigos economistas liberais. Não é uma surpresa. É comum encontrar nos discursos de empresários, políticos e figurões do mercado financeiro argumentos vão no mesmo sentido da declaração de Amoêdo: um entendimento de que a desigualdade social não é um problema legítimo e digno de ser combatido. Lembremos as palavras de John Maynard Keynes, ainda no século XX: “Os homens práticos que se julgam livres de qualquer influência intelectual são habitualmente escravos de algum economista morto”[v].

Sem mais floreios, é preciso ser direto: níveis elevados de desigualdade social são disfuncionais para a sociedade, seja sob um ponto de vista econômico, seja sob um ponto de vista político.

Em primeiro lugar, é preciso enfatizar que níveis alarmantes de desigualdade social são disfuncionais para o funcionamento da economia. A progressiva concentração de renda nos estratos superiores, ao diminuir a renda disponível para os estratos inferiores, limita as possibilidades de gasto de uma camada social que, em função de suas carências materiais de todo o tipo, possui maior propensão ao consumo. O enfraquecimento das possiblidades de consumo das camadas de baixa renda, por sua vez, impacta negativamente na demanda agregada de uma economia. Uma demanda agregada débil e incerta, por fim, prejudica o ímpeto de investimento dos empresários. Níveis baixos de investimento são incompatíveis com o crescimento econômico sustentado e com a elevação do emprego e da renda dos trabalhadores. A desigualdade social em níveis extremos, portanto, é irracional do ponto de vista econômico.[vi]

Em segundo lugar, é forçoso observar que níveis alarmantes de desigualdade social são prejudiciais à democracia: há um custo político a ser considerado. Em sociedades extremamente desiguais, a elite econômica pode facilmente fazer uso de seu poder para influir nos processos políticos, fazendo valer seus interesses, moldando as instituições conforme suas vontades e bloqueando as políticas públicas que poderiam melhorar a distribuição de renda. A concentração extrema da riqueza se traduz na criação de um Estado plutocrático, em que o poder do Estado é direcionado a facilitar a transferência de renda da base da sociedade para os estratos do topo. O resultado é um ambiente econômico e institucional que acentua a desigualdade social: uma espécie de mecanismo (nada impessoal) que reproduz a concentração de riqueza. [vii]

Para finalizar, vale dizer que se a desigualdade social realmente fosse uma condição para o crescimento econômico, um fator que enseja mais investimentos ou um incentivo para os agentes produzirem mais, tal como alguns economistas liberais preferem insinuar, o Brasil certamente estaria na pole position do progresso. Como o leitor pode observar, não é o caso.

*Tomás Rigoletto Pernías é doutorando em Desenvolvimento Econômico pelo Instituo de Economia da Unicamp

[i] Ver mais em CUNHA, J. Ainda pior do que a desigualdade no Brasil é a pobreza, Diz João Amoêdo. Folha São Paulo. 18/08/2018. Acessado em 22/08/2018 e disponível em https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/08/ainda-pior-do-que-a-desigualdade-no-brasil-e-a- pobreza-diz-joao-amoedo.shtml

[ii] Ver WADE, R. How High Inequality Plus Neoliberal Governance Weakens Democracy, Challenge, 56:6, 5-37. 2013. p. 6.

[iii] Tradução livre da frase “I, like most of the American people, don’t begrudge people’s success or

wealth. That is part of the free-market system”. Ver mais em Wade R. Why Has Income Inequality Remained on the Sidelines of Public Policy for So Long?, Challenge, 55:3, 21-50.2012. p. 22.

[iv] Tradução livre de I, like most of the American people, don’t begrudge people’s success or

wealth. That is part of the free-market system. Ver mais em Wade R. Why Has Income Inequality Remained on the Sidelines of Public Policy for So Long?, Challenge, 55:3, 21-50.2012. p. 22.

[v] KEYNES, J. M. A teoria geral do emprego, do juro e da moeda. São Paulo/SP. Ed: Saraiva. 2012. p. 348.

[vi] Para uma investigação mais detalhada do preço da desigualdade, ver STIGLITZ, J. E. O Preço da Desigualdade. Lisboa. Ed: Bertrand Editora. 2016.

[vii] Ver WADE, R. How inequality plus neoliberal governance weakens democracy. Challenge, 56:6, 5-37. 2013; STIGLITZ, J. E. O Preço da Desigualdade. Lisboa. Ed: Bertrand Editora. 2016.
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sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O primeiro país que o mar vai engolir com a mudança climática


Cerca de 100.000 pessoas vivem em Kiribati, um arquipélago no Pacífico que está em alerta desde 1989 por causa do nível do oceano. Um documentário conta a emigração de seus habitantes e a luta de seu ex-presidente

Madri 

Já se disse que Kiribati, um Estado composto por 33 ilhas no meio do Pacífico, algum dia vai virar uma Atlântida, e que seus habitantes ficarão irremediavelmente submersos pelas águas do oceano. Um relatório da ONU alertava, já em 1989, que esse seria o primeiro país a ser dizimado pela mudança climática no século XXI, devido à elevação do nível dos mares. O Governo desenhou nos últimos anos um plano de transferência populacional para as quase vizinhas ilhas Fiji, caso a inundação se confirme, e seu ex-presidente Anote Tong percorreu o mundo na última década levando o nome de seu país por todos os fóruns possíveis: a sede da ONU, as cúpulas climáticas, programas de televisão, visita oficiais a outros Estados, o Vaticano...

O ex-presidente Anote Tong, protagonista do documentário.

O fotojornalista canadense Matthieu Rytz aterrissou nesse país para uma reportagem há quatro anos e disse a si mesmo: “Esta é minha história”. Sem nenhuma experiência prévia no audiovisual, investiu todas as suas economias para acompanhar Tong em suas viagens e gravar o documentário Anote’s Ark (“a arca de Anote”), que estreou no festival de Sundance e será exibido no madrilenho Another Day Film Festival, que acontece de 4 a 7 de outubro. A programação do evento reúne cerca de 20 documentários sobre ativismo, desenvolvimento sustentável, consumo responsável e saúde global. A história de Anote fecha o ciclo.

“Estamos tão isolados que sempre achamos que as atribulações do mundo nada tinham a ver conosco, mas aqui estamos, submetidos ao fenômeno global da mudança climática”, diz o ex-presidente no filme. Em 2016, ele perdeu as eleições para Taneti Mamau, um mandatário que promoveu uma guinada na política externa de Tong e se centrou em potencializar o turismo e a pesca num plano para os próximos 20 anos. Depois de quatro anos indo e vindo das ilhas, Rytz já não é bem recebido em Kiribati. “No Natal passado fui para lá projetar o documentário. Para mim era importante que, depois de ter convivido com eles, vissem o resultado. Estava na casa de alguns amigos com minha mulher, e três policiais ficaram com meu computador e me disseram que eu precisava pegar o próximo voo”, relata por telefone.

Os habitantes de Kiribati são gente da água. Brincam nela, dela obtêm seu alimento diário, são açoitados por violentas tempestades, suas casas são construídas com o pé na areia. “Para eles o mar tem um sentido quase espiritual, sentem um grande respeito pelo oceano porque, quando você está lá, literalmente só vê mar”, conta o cineasta. Além de ser devorados completamente pelo Pacífico, seus habitantes já enfrentam a falta de água potável, e alguns povoados costeiros precisaram se deslocar alguns metros para o interior do território. O documentário de Rytz contém lindas imagens em que a água, que lhes dá vida e pode acabar matando seu país, é a protagonista. Grandes planos gravados com um drone mostram o imenso azul que rodeia Kiribati e onde seus cidadãos submergem a cada dia.


Tiemeri, mãe de seis filhos, decide abandonar sua ilha em busca de um futuro para sua família na Nova Zelândia. A natalidade em Kiribati supera os três filhos por mulher

O documentário também acompanha Tiemeri, mãe de seis filhos que decide abandonar a ilha em busca de um futuro para sua família na Nova Zelândia. Kiribati ocupa 139º. lugar entre 184 países que compõe o ranking do IDH (índice de desenvolvimento humano). A população do país oceânico não para de crescer, e a natalidade supera os três filhos por mulher. Organizações como o Banco Mundial elaboraram relatórios para propor a acolhida obrigatória dos habitantes das ilhas do Pacífico por parte da Austrália e Nova Zelândia. Os kiwisoferecem anualmente 75 postos de trabalho para os quiribatianos, graças a um acordo bilateral.

Mais de metade da população de Kiribati é católica, mas o fotojornalista relata que nos últimos anos a igreja mórmon de Utah (EUA) andou investindo dinheiro nesse Estado insular e ganhando adeptos para sua fé. “A maioria da comunidade nestas ilhas se organiza em torno da igreja, é um lugar de encontro para eles. Por isso quando o presidente foi ver o Papa estava convencido de que seria algo relevante”, resume Rytz. No filme, é possível ver igrejas abarrotadas, com paroquianos que brigam por espaço para beijar as imagens religiosas antes das danças tradicionais polinésias.

Enquanto limpa um peixe, Tong resume assim a realidade em que vive há mais de uma década: “Quem foi embora perdeu a conexão espiritual com Kiribati, porque já não se considera nativo. Não podemos resistir, estas ilhas vão desaparecer. Se formos embora, preservar nossa cultura e tradições não será nada fácil”.

Imagem do documentário sobre Kiribati.


OUTROS TÍTULOS EXIBIDOS NO ANOTHER DAY FILM FESTIVAL


Jane. Gravações inéditas mostram os primeiros dias da primatologista Jane Goodall na Tanzânia e sua história de amor com o cinegrafista que as filmou

Silas. Retrata a vida do ativista Silas Siakor e sua luta pela defesa da terra na Libéria

When Lambs Become Lions. A história de um comerciante de marfim e sua prima na selva do Quênia.

The End of Meat. Relato que imagina um mundo pós-carne.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

O que é o campo magnético da Terra? O que ele influencia?


Um dia, num futuro distante, as bússulas deixarão de apontar o norte

Janaína Harada

ILUSTRA Tila Barrionuevo
EDIÇÃO Felipe van Deursen

(Tila Barrionuevo/Mundo Estranho)

É uma gigantesca distorção magnética criada pelo núcleo terrestre, que funciona como um ímã. O núcleo é dividido em duas partes, a interna, formada por ferro, níquel e outros metais em estado sólido, e a externa, em que esses elementos estão na forma líquida.

Por causa da rotação terrestre, os metais líquidos estão em movimento constante, o que produz correntes elétricas. Essa é a chamada Teoria do Dínamo, que diz que as cargas elétricas no núcleo externo originam o campo magnético, que exerce influência em todo o planeta. A principal função dele é a manutenção da atmosfera e, consequentemente, da vida na Terra.

O campo magnético protege as camadas de ar ao minimizar ataques de ventos solares. Sem tal defesa, as partículas lançadas pelo Sol arrancariam a atmosfera do planeta.

Um ímãzão desses, bicho!

Campo magnético influencia de minhocas até auroras boreais


(Tila Barrionuevo/Mundo Estranho)

1.PAREM AS MÁQUINAS
Quando erupções solares massivas entram em contato com o campo magnético da Terra, ocorre a tempestade magnética. Essas partículas ejetadas pelo Sol criam correntes elétricas, que interferem no campo da Terra. Assim, as perturbações afetam equipamentos de aviação, satélites, sistemas de comunicação e navegação

2.CORRA E OLHE O CÉU
As auroras boreal e austral são o resultado de tentativas de partículas carregadas, ejetadas pelo Sol, em penetrar na atmosfera. Quando esses íons atingem o campo magnético terrestre, eles são desviados, principalmente para os polos. Lá, interagem com os átomos de oxigênio e nitrogênio, que liberam fótons (partículas de luz), criando, assim, as auroras

3.ANIMAIS
Um estudo da Universidade do Texas (EUA) identificou uma molécula no cérebro da minhoca que age como um sensor que orienta o animal em relação ao campo magnético. Outro estudo diz que o magnetismo funciona não só como bússola mas também como visor para aves migratórias: ele reforça brilhos e cores no campo de visão dos pássaros, guiando-os

DE PONTA-CABEÇA
Nem sempre os polos magnéticos ficam no mesmo lugar

A ciência ainda não sabe por quê, mas os polos magnéticos não são fixos. Hoje, o polo norte magnético, de onde saem as linhas de campo, fica próximo do Polo Sul. Já o sul magnético, para onde as linhas vão, fica perto do Polo Norte. Por isso, as bússolas apontam o norte. A última vez que os polos estavam em posição invertida foi há cerca de 780 mil anos

CONSULTORIA Jorge Deveikis Junior, físico e mestrando em ensino de física pela USP
FONTES Faculdade de Ciências da Unesp (São Paulo), Serviço Geológico do Brasil, Physics.org, Cosmo Magazine, MIT, Inpe e Nasa; estudo A New Type of Radical-Pair-Based Model for Magnetoreception, vários autores
Revista Mundo Estranho

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