quinta-feira, 15 de agosto de 2019

As dicas ao Brasil do iraquiano que ajudou a Noruega a dar volta por cima com petróleo


Nathalia Passarinho - @npassarinho 
BBC News Brasil em Londres

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A família de Farouk Al-Kasim teve de fugir para a Noruega para garantir tratamento médico, em 1968. Na época, o Iraque dificultava a saída de funcionários do setor de Petróleo

Há 51 anos, o geólogo iraquiano Farouk Al-Kasim batia à porta do Ministério da Indústria da Noruega, sem hora marcada, em busca de emprego.

Na verdade, esperava apenas conseguir uma lista de empresas petroleiras com atividades no país, para depois oferecer seus serviços a essas companhias.

A visita se tornou entrevista de emprego e, poucos meses depois, Al-Kasim estava trabalhando num ministério que tinha apenas quatro pessoas responsáveis pelo - naquela época - incipiente setor de petróleo norueguês.

Pouco depois, petróleo seria encontrado no Mar do Norte e o iraquiano se tornaria o criador do modelo de exploração desse recurso natural que rendeu para o país o maior fundo soberano do mundo, com cerca de US$ 1 trilhão.

Do final de 1969, quando foi descoberta a primeira reserva, até agora, o país escandinavo se tornou um dos 15 maiores exportadores de petróleo, além de potência na área de tecnologia e inovação.

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Recentemente, Al-Kasim recebeu uma condecoração real pela contribuição ao desenvolvimento da Noruega

Embora a Noruega não seja a maior exportadora de petróleo - é a décima-segunda - por não possuir as maiores reservas, especialistas dizem que é o país que melhor soube reverter os lucros da exploração para um projeto de desenvolvimento que beneficiasse a sociedade em geral.

Que decisões garantiram esse resultado bem-sucedido? O exemplo da Noruega pode se aplicar ao Brasil?

A BBC News Brasil conversou com o maior responsável pelo modelo norueguês.

Na entrevista, Farouk Al-Kasim, hoje com 85 anos, explica os fatores que contribuíram para o sucesso da Noruega e dá conselhos para países em desenvolvimento que possuem petróleo em seus territórios.

Para ele, é importante impedir o monopólio das operações por uma única empresa, seja estatal ou privada, para evitar corrupção e abuso de poder.

Além disso, o iraquiano defende que economizar os recursos provenientes das operações de petróleo, com a criação de um fundo, pode ajudar a impedir a 'doença holandesa' e a 'maldição do petróleo'

O dinheiro, segundo ele, deve ser revertido em prol da população e das gerações futuras, com investimentos em infraestrutura, pesquisa e tecnologia. Para isso, na visão de Al-Kasim, a intervenção ou participação estatal - sem monopólio - é necessária.
Como tudo começou para Farouk

O ano que definiu a trajetória de Al-Kasim foi 1968, quando ele, a esposa norueguesa e os três filhos se mudaram para a Noruega.

Naquela época, a mudança soava como grande sacrifício para o iraquiano, que tinha um bom emprego na Companhia de Petróleo do Iraque, em Basra, o que lhe garantia uma vida confortável de classe média alta.

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Farouk Al-Kasim foi o criador do modelo de gestão do petróleo que, segundo especialistas, foi capaz de gerar maior riqueza para a população e desenvolvimento sustentável para um país

A decisão de se mudar para a Europa veio com o nascimento do terceiro filho do casal que, por causa de uma paralisia cerebral, tinha dificuldade motora.

Na Noruega, o menino teria acesso a melhores tratamentos, e a mudança seria definitiva, já que os cuidados necessários eram de longo prazo.

Deixar o Iraque, contudo, não seria tarefa fácil. Segundo Al-Kasim, era preciso obter autorização do governo para sair do país.

"Eles não queriam que os funcionários-chave da indústria do petróleo deixassem o Iraque em caráter definitivo",
 explica.Direito de imagemARQUIVO PESSOALImage caption
Farouk Al-Kasim teve que fingir que a ida à Noruega era temporária, para convencer o governo iraquiano a liberá-lo

A presença de especialistas iraquianos era essencial para os futuros planos do governo de nacionalizar a indústria do petróleo.

"Precisei de uma junta médica para dizer que era essencial que o meu filho recebesse tratamento médico fora do país", conta Al-Kasim.

Para evitar um "não" do governo iraquiano e viabilizar a ida do restante da família para Noruega, ele teve de dizer que a viagem era temporária, embora soubesse que o adeus ao país de origem era definitivo.

"Eu tive praticamente que organizar uma operação de fuga para o restante da minha família, porque era difícil justificar a saída de todos ao mesmo tempo", contou.

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Al-Kasim estava progredindo como funcionário da Empresa Iraquiana de Petróleo, mas decidiu se mudar para a Noruega e recomeçar a vida profissional lá para garantir tratamento ao filho

Ultrapassada essa etapa, a maior preocupação de Al-Kasim era arrumar emprego. Ele se formou em geologia do petróleo no Imperial College London, no Reino Unido, onde conheceu a esposa Solfrid, que é norueguesa.

Depois de se formar, retornou ao Iraque com Solfrid, onde se empregou e ascendeu como funcionário no setor de petróleo. Com a mudança para a Noruega, Al-Kasim teve que pedir demissão da empresa onde trabalhava.

Na Noruega, a vida seria diferente. Desempregado, ele e a família morariam com a família da esposa numa pequena cidade norueguesa.
'Pit stop' no Ministério da Indústria

Al-Kasim desembarcou em Oslo em maio de 1968. Na capital norueguesa, teria oito horas de espera até tomar o trem para o interior.

"Eu comecei refletir sobre o que poderia fazer durante esse período de tempo e decidi pedir uma lista das empresas de petróleo que operam na Noruega. Optei por ir até o Ministério da Indústria, já que não havia, na época, um ministério do Petróleo ou de Minas e Energia", disse.

Ao chegar ao ministério e solicitar uma reunião, foi informado para retornar durante a tarde. "Quando voltei, vi que eles estavam muito interessados em saber da minha experiência. A reunião virou uma entrevista de emprego."

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Al-Kasim decidiu bater à porta do Ministério da Indústria em busca de informações sobre empresas onde pudesse trabalhar no setor de petróleo

Na época, empresas internacionais estavam tentando achar petróleo na Noruega, mas em anos de pesquisas, nada significativo havia aparecido.

Prova das baixas expectativas do governo norueguês era o fato de que só havia três funcionários responsáveis pelo setor - todos relativamente jovens e com pouca experiência na área.

Precisavam de um especialista para analisar os resultados das explorações das companhias de petróleo.

"Os funcionários do ministério disseram que entrariam em contato caso tivessem algum emprego para me oferecer. Alguns meses depois, eles me telefonaram", conta Al-Kasim, que acabou sendo contratado como consultor no Ministério da Indústria.

A missão dele seria analisar os achados das empresas e dar um parecer sobre as possibilidades reais de exploração lucrativa de petróleo no país.
A descoberta de petróleo

Al-Kasim conta que, em 1965, o governo norueguês concedeu 78 licenças a empresas privadas para explorar potenciais reservas, mas após três anos de buscas, os resultados eram desanimadores.

Até que, no final de 1969, a Philips Petroleum informou ter achado petróleo no campo de Ekofisk. A descoberta ocorreu pouco depois de a empresa comunicar ao governo norueguês que pretendia interromper as operações.

Coube a Al-Kasim analisar os achados da Philips e a das buscas feitas pelas outras empresas. "No meu relatório, eu fui enfático em dizer que aquelas descobertas comprovavam a existência de petróleo e gás no Mar do Norte", disse à BBC News Brasil.

"Eu tinha certeza de que a Noruega tinha potencial de ser uma grande produtora."

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Ao analisar primeiros achados da Philips Petroleum, Al-Kasim concluiu que a Noruega tinha potencial para ser grande produtor e exportador de petróleo

Mas o governo norueguês optou por agir com cautela, diferentemente de muitos países que se jogariam de cabeça em busca dessa "riqueza".

"Eles queriam ter certeza de que seria possível explorar petróleo com competitividade. E também estavam preocupados com o impacto ambiental, com os pássaros e animais, e com o efeito para as populações locais e a atividade pesqueira", relata Al-Kasim.

Hoje, ele reconhece que essa cautela foi um dos fatores que salvaram a Noruega do que ele chama de "maldição do petróleo".
Bênção ou maldição?

Petróleo é, naturalmente, uma potencial fonte de riqueza. Mas essa riqueza nem sempre se converte em desenvolvimento e, às vezes, pode condenar um país à corrupção e a depender de um único setor produtivo.

Se decisões erradas ou precipitadas são tomadas, a exploração de petróleo pode acabar "engolindo" as demais indústrias. Isso porque, com capacidade de pagar maiores salários, a indústria de petróleo e gás acaba absorvendo boa parte da mão-de-obra especializada de outros setores.

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Embora tenha uma das maiores reservas de petróleo do mundo, a Venezuela não soube transformar essa riqueza em desenvolvimento

E o grande fluxo de dinheiro para as regiões de exploração eleva os preços, encarecendo o custo de vida para a população local que não trabalha direta ou indiretamente com esse setor.

Empresas não relacionadas à indústria do petróleo quebram e o país passa a depender cada vez mais exclusivamente da produção e exportação de combustível, num fenômeno conhecido como "doença holandesa" ou "maldição do petróleo".

"Se você deixa o setor de petróleo crescer rápido demais, sem regulação e sem preparar o país, ele pode sugar os investimentos de outras partes da economia", explicou à BBC News Brasil o consultor em economia do petróleo Erik Jarlsby, da Eureka Energy Partners.

É o caso, por exemplo, da Venezuela, que tem sua economia quase totalmente dependente do petróleo.

Outros riscos ligados à exploração desse recurso incluem a concentração excessiva de poder nas mãos de uma - ou algumas - empresas, estatais ou privadas, que acabam tendo influência decisiva nos rumos do país.

A Noruega escapou da "maldição", soube criar equilíbrio entre a participação de empresas privadas e do Estado na exploração e, com os lucros do petróleo, conseguiu formar um fundo voltado para desenvolver infraestrutura, pagar aposentadoria e garantir o bem-estar das gerações norueguesas futuras.

Como conseguiu isso?
Cautela e planejamento

Al-Kasim diz que a primeira decisão acertada da Noruega foi agir com cautela.

Em vez de iniciar de imediato novas concessões e arriscar entregar recursos e o poder de decisão comercial a empresas internacionais, o governo decidiu que novas licenças só seriam concedidas depois que fosse criado um marco regulatório e um modelo de exploração.

Coube a Farouk elaborar esse modelo que, depois, foi votado no Parlamento. "A Noruega estava determinada a ter uma visão, uma política, instituições, uma estatal e uma legislação que permitissem um trabalho conjunto com as empresas privadas antes de iniciar a exploração de petróleo", relata.

"Em 1971, foram aprovadas diretrizes que criavam um ambiente para que empresa estatal, empresas nacionais privadas e empresas internacionais pudessem atuar em conjunto", diz.

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Para Farouk Al-Kasim, um bom modelo de gestão do petróleo deve contar com participação forte do Estado, mas sem que ele exerça o monopólio das operações

Para que o governo pudesse ter peso nas decisões comerciais referentes ao petróleo, foi criada a estatal Statoil.

Mas, diferentemente do que ocorreu no Brasil, essa empresa não recebeu direitos monopolísticos sobre extração e refino, embora tenha obtido privilégios no início da operação para que pudesse competir com as empresas já estabelecidas.

No Brasil, por 44 anos, do governo Getúlio Vargas até 1997, com a Lei do Petróleo, a Petrobras deteve exclusividade em diversas operações do setor. Até hoje, a empresa controla grande parte das operações de extração e refino de petróleo.

No caso da Statoil, Al-Kasim diz que, no início, houve uma proteção para garantir que a estatal tivesse de 10% a 25% de participação em novas licenças. O objetivo era garantir que a empresa tivesse competitividade.

Mas, segundo ele, a proteção foi sendo retirada conforme a Statoil adquiria condições para competir em pé de igualdade com as empresas internacionais.

A especialista em gestão de petróleo Tina Hunter, professora de legislação em energia da Universidade de Aberdeen, no Reino Unido, destaca que o maior enfoque do governo norueguês ao conceder "privilégios" à Statoil era garantir que a estatal obtivesse conhecimento e desenvolvesse tecnologia.

"Uma das condições para licença de exploração a empresas privadas era, por exemplo, treinar funcionários da Statoil", disse à BBC News Brasil.
Participação forte do Estado, mas sem monopólio

A segunda decisão acertada do governo norueguês, segundo Al-Kasim, foi garantir a inserção do Estado na regulação e exploração de petróleo, por meio da Statoil e de uma agência reguladora, mas sem assumir o monopólio sobre as operações.

A partir do modelo de gestão proposto por Al-Kasim, os parlamentares decidiram que a participação norueguesa total nas operações de petróleo não deveria ser menor que 50%.

Mas essa participação não precisava ser direta do Estado - a soma considerava também as atividades das empresas privadas nacionais. Na década de 1970, havia duas companhias norueguesas no setor.

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A Statoil, hoje chamada Equinor, não detém o monopólio da exploração de petróleo, embora tenha recebido privilégios em concessões quando foi criada

"Nós não queríamos que a Statoil se tornasse todo-poderosa ou um Estado dentro do Estado. Não queríamos que ela tivesse poder de decisão sobre a concessão de licenças para outras empresas", destaca Al-Kasim.

Perguntado se, na visão dele, impedir o monopólio no setor é necessário para evitar casos de corrupção como o investigado na Petrobras pela Operação Lava Jato, ele foi categórico:

"É fácil responder a essa pergunta. A história mostra que é muito difícil evitar a corrupção quando há a possibilidade de uma empresa privada ou estatal dominar todas as outras."

Para garantir o cumprimento da lei e dos objetivos do novo modelo, foi criada uma agência reguladora, a Direção de Petróleo Norueguês, cujo principal objetivo era garantir competitividade e equilíbrio na atuação da Statoil, das outras empresas nacionais e das companhias estrangeiras.
Fundo trilionário

Apesar da cautela na liberação de novas concessões, quando as operações começaram, no início da década de 1970, nos poços já licenciados, rapidamente recursos começaram a inundar a economia norueguesa, colocando o país em risco de cair na temida "doença holandesa".

Empresas de outros setores passaram a sofrer com o grande enfoque dado à indústria de petróleo e o governo resolveu agir para conter os estragos.

"Em 1973, a Noruega começou a produção e houve significativo retorno financeiro e nós tivemos várias dificuldades para manter outras indústrias vivas", relata Al-Kasim.

O governo, então, resolveu, em 1974, limitar novas concessões e controlar o ritmo das operações voltadas à descoberta de reservas. "Foi uma decisão crucial para evitar a maldição do petróleo", diz.

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Em 1987, Farouk Al-Kasim visitou o Brasil

Inicialmente, os recursos do petróleo foram investidos em pesquisa e no desenvolvimento de tecnologia para permitir a exploração em águas profundas.

Mas, com o tempo, os lucros foram aumentando e o governo decidiu que parte do dinheiro deveria ser economizada para beneficiar, também, as futuras gerações que não mais poderão contar com a indústria do petróleo.

Al-Kasim menciona como terceiro fator de sucesso do modelo norueguês a criação, na década de 1990, de um fundo soberano para evitar que o dinheiro das operações entrasse de imediato na economia do país.

Os recursos do fundo são aplicados em ações de empresas estrangeiras, justamente para impedir a circulação excessiva de dinheiro na Noruega. E o governo só pode usar, atualmente, até 3% do total por ano. Antes o percentual era de 4%, mas foi reduzido pelo Parlamento em 2017.

O objetivo é impedir que o dinheiro seja gasto de uma só vez em tempos difíceis, como é a tentação de governos no afã de recuperar a popularidade em épocas de crise.

Além disso, explica Al-Kasim, o fundo tem uma função "intergeracional", ou seja, deve beneficiar as futuras gerações norueguesas. A expectativa é que as reservas no país se esgotem em até 50 anos.

"Conforme as atividades de petróleo se tornam menos profícuas e menores em volume, a economia precisa estar pronta para esse desafio", justifica Al-Kasim.

Esse modelo de gestão dos recursos do petróleo rendeu à Noruega o título de detentora do fundo soberano mais robusto do mundo - atualmente com mais de US$ 1 trilhão.
Esse modelo pode ser replicado no Brasil?

A especialista em gestão de petróleo Tina Hunter, da Universidade de Aberdeen, diz que o modelo norueguês pode e deve servir de inspiração para o Brasil.

Para ela, o Estado deve intervir na gestão do petróleo como regulador e, em alguns casos, por meio de uma estatal, mas sem exercer o monopólio.

Hunter argumenta que o grande erro do modelo brasileiro foi concentrar poderes demais nas mãos da Petrobras.

De 1953, quando foi criada, a 1997, quando a Lei do Petróleo permitiu a entrada de empresas estrangeiras no setor, a Petrobras detinha o monopólio da exploração e do refino.

A partir de 1997, ela pôde decidir com quais campos ficar e quais liberar para exploração de companhias privadas.

Acabou ficando com todas as reservas lucrativas e abdicou de 62 campos pequenos, diz a consultora de energia da Fundação Getúlio Vargas Magda Chambriard, ex-diretora-geral da Agência Nacional de Petróleo (ANP).

Nos campos ainda não explorados, a estatal pôde manter o controle se comprovasse ter tecnologia para explorar. Se não tivesse, poderia tanto liberar para concessões a empresas privadas quanto formar parcerias para exploração conjunta.

No caso do pré-sal, a lei de partilha prevê que o Ministério de Minas e Energia (por meio do Conselho Nacional de Política Energética) decida se realiza licitações para exploração ou se entrega determinadas áreas diretamente à Petrobras, se considerar que é de interesse nacional manter o controle total dessas reservas.

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Pelo modelo de partilha, usado para os campos do pré-sal, a Petrobras tem preferência na escolha das áreas que quer operar

No caso de optar pela licitação, o conselho oferece primeiramente à Petrobras a opção de ser operadora dos blocos a serem contratados. Se a estatal tiver interesse, ela deve informar em quais áreas quer atuar e terá garantida participação mínima de 30% no consórcio que vencer a licitação para explorar as reservas.

Ou seja, a Petrobras ainda detém ampla preferência na exploração e controle das operações de petróleo no Brasil.

"No momento em que você começa a dar poderes demais para uma empresa, tudo desmorona. É quando temos corrupção e escândalo. Quando há poder demais, há corrupção", diz Hunter.

"A estatal não deve ter poder de decisão sobre o modelo de concessão. Precisa ser tratada como as empresas privadas, sem poderes especiais", defende a professora britânica.
'Poder em excesso gera corrupção'

Farouk Al-Kasim concorda com a visão de que excesso de poder nas mãos de uma estatal ou empresa privada abre brecha para a corrupção.

Ele diz que quando a Statoil passou a deter uma fatia muito ampla do mercado, em 1983, o governo norueguês, então, agiu para reduzir o poder de decisão da companhia e acabou por privatizar parte da empresa, posteriormente.

Atualmente, 33% das ações da companhia, hoje chamada Equinor, são privadas e o restante é do Estado.

"A natureza humana é muito simples. Quando você tem poder, os outros temem te desafiar", diz Al-Kasim ao comentar sobre as denúncias de que construtoras que detinham contratos com a Petrobras pagavam propina a diretores da estatal e a partidos políticos.

"Se o Estado não quer que a sua estatal tenha uma posição monopolística, precisa criar regras para as demais empresas serem ouvidas e criar pesos e contrapesos. Sem isso, o forte vai prevalecer. E o forte pode não querer servir aos interesses da nação."

terça-feira, 13 de agosto de 2019

O ambicioso plano da Rússia para combater o encolhimento da população


Mar Pichel
BBC News Mundo

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Segundo estimativas da ONU, população da Rússia vai diminuir 8% até 2050

É uma das principais ameaças às aspirações geopolíticas da Rússia.

O país enfrenta uma crise demográfica sem precedentes que atingiu um novo patamar em 2018 quando, pela primeira vez em uma década, a população russa caiu em termos absolutos.

Segundo a Rosstat, o IBGE russo, o país tem agora 148,8 milhões de habitantes, 93,5 mil a menos do que no ano anterior.

E as estimativas não são promissoras. Segundo estimativas da ONU, a Rússia perderá cerca de 8% de sua população até 2050.

Consciente disso, o governo do presidente Vladimir Putin desenvolveu um plano ambicioso para atrair entre 5 e 10 milhões de imigrantes entre 2019 e 2025.

"O declínio demográfico tem sido um problema para a Rússia há décadas", diz Gregory Feifer, analista do Centro Davis para Estudos Russos e Eurasianos da Universidade de Harvard (EUA), à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

"O alto escalão do governo, incluindo o presidente Putin e o primeiro-ministro Medvedev, falou publicamente sobre isso".

"Mas as políticas que vêm sendo tomadas são inadequadas para enfrentar o declínio da população. O que o governo está fazendo é desestimular a imigração e incentivar a emigração", acrescenta Feifer.

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Imigrantes da Ásia Central aprendem russo
Fuga de cérebros

Como muitos outros países do mundo, a Rússia também enfrenta baixas taxas de natalidade.

Em sua campanha eleitoral de 2018, o presidente Putin prometeu gastar mais de US$ 8 bilhões (R$ 32 bilhões) nos próximos três anos em programas para ajudar as famílias a ter filhos.

Mas o declínio da população russa em termos absolutos se deve, principalmente, à migração.

Em 2017, o último ano com dados disponíveis, 377 mil deixaram a Rússia, segundo a Rosstat.

"Muitas pessoas estão deixando a Rússia, jovens profissionais altamente qualificados são maioria", diz Feifer. "E isso é um problema para a Rússia, porque é o tipo de pessoas que o país precisará para manter sua influência no mundo e em sua economia."

A opinião de Feifer é comprovada pelos números da Rosstat. Segundo o órgão, em 2017, 22% das pessoas que deixaram a Rússia tinham formação superior, 5% a mais que em 2012.

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Rússia tem grandes extensões de terra completamente despovoadas
Atrair imigrantes

Tradicionalmente, a Rússia era um país receptor de imigrantes, e a perda de população causada pelo declínio natural (baixas taxas de natalidade) costumava ser mitigada pelos recém-chegados ao país, principalmente de países do Cáucaso e da Ásia Central.

Por outro lado, esse número vem registrando quedas consecutivas. No ano passado, chegou ao valor mais baixo desde 2005: 124.900, segundo a Academia Russa de Economia e Administração Pública (Ranepa).

A dificuldade na obtenção de vistos de residência e a obrigatoriedade de que o candidato à cidadania russa renuncie a sua nacionalidade de origem representam barreiras à imigração, explicou Yulia Florinskaya, especialista em migração da Ranepa, ao site de notícias Eusarianet.

Estima-se que a Rússia precise de até 300 mil pessoas a mais por ano para mitigar os efeitos da perda natural da população e permanecer em um crescimento líquido zero.

Neste contexto, o governo de Putin deu prioridade à política imigratória e aprovou em outubro do ano passado um novo plano para os próximos seis anos, com o qual espera atrair entre 5 e 10 milhões de migrantes.

Pelo plano, os procedimentos para obtenção de autorizações de trabalho e acesso à cidadania russa são simplificados.

O objetivo é atrair principalmente a população de língua russa de países vizinhos, incluindo a Ucrânia, o Cazaquistão, o Uzbequistão, a Moldávia e outras repúblicas ex-soviéticas. Mas também tem como alvo os estrangeiros que querem "integrar-se à sociedade russa".

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Maioria dos imigrantes da Rússia vêm das ex-repúblicas soviéticas
O despovoado leste

A desigualdade na ocupação do território é outro problema para as autoridades russas.

Segundo um documento do Conselho Russo de Assuntos Internacionais, "a Rússia entende que tem uma crise demográfica em curso, especialmente nas regiões da Sibéria e do Extremo Oriente".

E é por isso que esse plano de imigração visa a "atrair estrangeiros e imigrantes para repovoar essas áreas com baixa população".

Isso não é algo novo. De acordo com o serviço russo da BBC, desde o colapso da União Soviética, houve numerosos programas para receber imigrantes "etnicamente russos" das antigas repúblicas soviéticas.

O objetivo desses programas, por meio dos quais os imigrantes podiam obter a nacionalidade russa, era repovoar essas áreas remotas. As famílias que se mudaram para a Rússia receberam terras e uma quantia em dinheiro (aproximadamente US$ 6,5 mil).

"Não se podia escolher o local onde você ia morar; era o governo que escolhia, e geralmente se tratava de lugares remotos, sem serviços sociais, sem escolas ...", explica Anastasia Uspenskaya, repórter do serviço russo da BBC.

Como resultado, menos de 1 mil pessoas se candidataram a esses programas.

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Governo de Putin lançou política para atrair imigrantes

Segundo uma análise do centro de estudos Stratfor, a Rússia enfrenta o risco de tensões étnicas com a chegada de imigrantes do Cáucaso e da Ásia Central.

"A Rússia não é tradicionalmente propensa à imigração; é uma sociedade fechada", diz Anastasia Uspenskaya.

Para Gregory Feifer, a Rússia "é um lugar muito difícil para os imigrantes viverem e trabalharem".

"Em teoria, a Rússia seria o destino ideal para imigrantes de países fronteiriços da Europa Oriental e da Ásia Central, como o Tajiquistão, onde o salário médio mensal é de US$ 15 por mês. Mas a sociedade é muito racista", diz o analista.

"Especialmente os imigrantes de pele escura enfrentam discriminação e violência", acrescenta.

Em Yakutsk, na Sibéria, fortes protestos contra a imigração foram realizados em março passado, após o estupro de uma mulher por imigrantes da Ásia Central.

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Rússia busca trabalhadores no setor de construção civil
O plano de Putin está funcionando?

Após uma trajetória descendente durante vários anos, os números da Rosstat mostram um aumento significativo no número de imigrantes nos primeiros meses de 2019.

Entre janeiro e abril deste ano, houve uma "imigração estranhamente alta na Rússia".

As estatísticas oficiais mostram que nesse período a população migrante cresceu em 98 mil pessoas, em comparação com as 57,1 mil registradas no mesmo período de 2018.

No entanto, nenhum dos planos anteriores do governo russo foi bem-sucedido.

Além disso, ainda é muito cedo para vincular esse aumento à nova política de imigração do governo e estabelecer uma tendência.

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Extremistas nacionalistas protestatam contra imigrantes

Em qualquer caso, de acordo com uma análise da Stratfor, embora a Rússia consiga atrair um número significativo de migrantes para mitigar o declínio de sua população, isso terá um impacto pequeno nas previsões demográficas.

"Mesmo que a Rússia consiga aumentar substancialmente a imigração, isso não vai garantir números suficientes para compensar o declínio em sua população", diz Feifer.

"As autoridades russas perceberam que suas estratégias anteriores para aumentar as taxas de natalidade não funcionavam, e agora eles estão falando sobre o incentivo à imigração, mas é tudo da boca para fora. Não acho que isso vai resolver os problemas", conclui.

domingo, 11 de agosto de 2019

Como o aquecimento global vai espalhar uma 'praga bíblica'



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Saná, capital do Iêmen, foi invadida por gafanhotos em julho passado

Em 27 de julho, imagens de uma "invasão" de insetos em Las Vegas percorreram o mundo.

Eles foram atraídos principalmente pelas luzes ofuscantes da cidade e, apesar do susto, causaram mais incômodo do que estragos.

Ao mesmo tempo, uma nuvem de insetos no Iêmen, um país devastado pela fome e pela guerra civil, chamou muito menos atenção, mas foi mais preocupante.

Eles eram gafanhotos, cujo apetite pode causar danos consideráveis ​​às plantações em mais de 60 países - principalmente na África, no Oriente Médio e na Ásia Central.

Esses eventos podem se tornar uma ocorrência mais frequente - os especialistas temem que a mudança climática faça os insetos agirem de maneira mais destrutiva e imprevisível.

Enxame com fome

Já existem evidências de que o aumento da temperatura terá um efeito direto sobre o metabolismo dos insetos.

Um estudo de 2018 publicado por cientistas americanos na revista Science mostrou que o clima mais quente os torna mais ativos e mais propensos a se reproduzir.

Isso também torna as criaturas geralmente mais famintas. Um gafanhoto adulto do deserto é capaz de comer o equivalente a seu próprio peso corporal em um dia.

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Gafanhotos do deserto formam rapidamente enxames e são uma ameaça à segurança alimentar
Monitoramento

Os pesquisadores estimaram que os danos globais causados ​​por pragas de insetos a trigo, arroz e milho podem aumentar de 10% a 25% por grau Celsius de aquecimento.

O impacto desse dano pode ocorrer em regiões de clima temperado, onde a maioria dos grãos é produzida.

"Com exceção dos trópicos, temperaturas mais altas aumentam as taxas reprodutivas de insetos. Você tem mais insetos e eles comem mais", escreveu Curtis Deutsch, um dos autores do estudo de 2018.

Embora os gafanhotos não sejam a única espécie a devorar culturas, eles são os mais monitorados por autoridades nacionais e internacionais, graças ao seu potencial destrutivo.

Os esforços nas últimas quatro décadas os mantiveram afastados, mas tem havido surtos graves, como a infestação africana em 2004, que causou danos estimados de US$ 2,5 bilhões para as lavouras.

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Temperaturas mais altas fazem com que insetos comam mais e criem mais - incluindo gafanhotos
Segurança alimentar

Embora seja estimado que a proporção global de todos os danos causados ​​por gafanhotos em cultivos seja relativamente pequena em relação a outros insetos - os acadêmicos a estimam em apenas 0,2% - o efeito do enxame em uma determinada localidade pode ser devastador.

"Condições mais secas no futuro nos limites norte e sul da área de distribuição de gafanhotos do deserto podem produzir habitats mais favoráveis ​​para esta espécie e podem ter impactos negativos importantes", diz o entomologista Michel Lecoq, um dos maiores especialistas em gafanhotos do mundo.

"Os riscos em termos de danos às culturas, pastagens e, em última instância, à segurança alimentar e social de muitas pessoas pobres nos países em desenvolvimento podem ser enormes", adverte Le Coq.

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Gafanhotos têm apetites vorazes e podem rapidamente causar grandes danos às culturas
História destrutiva

Pragas do tipo mais devastador, os gafanhotos do deserto, têm o potencial de prejudicar a subsistência de 10% da população mundial, segundo a FAO - Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura.

Um enxame "pequeno" come a mesma quantidade de comida em um dia que cerca de 35 mil pessoas.

Seus "petiscos" favoritos incluem grãos básicos como arroz, milho e trigo.

Essas criaturas são alguns dos inimigos mais antigos da humanidade - eles até apareceram na Bíblia e no Alcorão.

No mundo antigo, o historiador romano Plínio, o Velho, escreveu que 800 mil pessoas haviam morrido na região que atualmente engloba Líbia, Argélia e Tunísia devido à fome causada por uma praga de gafanhotos.

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Os gafanhotos são uma das mais antigas pragas conhecidas pelos homens e são mencionados na Bíblia e no Alcorão

Mais recentemente, em 1958, na Etiópia, um enxame de gafanhotos que cobriu mais de mil quilômetros quadrados destruiu 167 mil toneladas de grãos - o suficiente para alimentar um milhão de pessoas por um ano.

As regiões temperadas serão mais afetadas pelos insetos com mais fome porque seu metabolismo diminui se ficar muito quente, o que já é o caso em áreas tropicais.

Em 2016, especialistas suspeitam que tenha havido influência do aquecimento global quando a Argentina enfrentou sua maior infestação de gafanhotos em 60 anos.

Acredita-se que um inverno mais quente e mais úmido desencadeou o fenômeno.
Voos mais altos e mais longos

A FAO, que coordena uma rede de monitoramento global especificamente para atividades de gafanhotos no deserto, também alerta que as mudanças climáticas podem resultar em condições mais favoráveis ​​para a migração e a distância percorrida - os gafanhotos adultos do deserto podem voar até 150 quilômetros em um único dia.

"Sob o aquecimento futuro, os enxames poderiam alcançar áreas mais rapidamente do que no passado", diz a agência.

Direito de imagemGETTY IMAGESImage caption
Gafanhotos até apareceram na Copa do Mundo de 2014

Temperaturas mais altas também podem permitir que os insetos voem mais alto e ultrapassem barreiras naturais como montanhas, abrindo novas rotas de migração, especialmente se os padrões de vento mudarem conforme os gafanhotos são transportados.

"Em geral, espera-se que surtos de gafanhotos se tornem mais frequentes e severos sob a mudança climática", diz Arianne Cease, diretora da Global Locust Initiative na Arizona State University, nos Estados Unidos.

As regiões agrícolas de subsistência são as mais vulneráveis ​​à devastação causada por enxames de gafanhotos.

Mas não apenas as safras produtoras de alimentos estão em risco: no Paquistão, as autoridades têm lidado com uma infestação que ameaça as plantações de algodão, um produto responsável por quase metade das exportações do país.
BBC Brasil

Exploração voraz do solo pode intensificar a fome, aponta relatório


Nações Unidas alerta que, se não mudarmos as práticas de uso da terra, há o risco de enfrentarmos uma catástrofe alimentar. Os autores ressaltam, ainda, que a ação humana predatória tem os efeitos intensificados pelas mudanças climáticas

Paloma Oliveto



Segundo o documento feito por especialistas de mais de 50 países, ao menos 500 milhões de pessoas vivem em áreas que sofrem desertificação(foto: Orlando Sierra/AFP)A voracidade com que o homem tem explorado o solo é uma ameaça à segurança alimentar e, caso não modifique os padrões produtivos, boa parte da população mundial corre o risco de passar fome. Especialmente em tempos de mudanças climáticas, que intensificam as pressões sem precedentes impostas por indústria e agropecuária, é preciso agir em curto prazo para evitar uma catástrofe. Esses são os recados principais de um documento com 1,2 mil páginas elaborado por cientistas e aprovado pelos 195 países-membros da Organização das Nações Unidas na quarta-feira. Nesta quinta-feira (8/9), o conteúdo do documento foi divulgado pela ONU.

O relatório é fruto de três anos de trabalho de uma centena de cientistas de mais de 50 países, especialistas em solo e clima. “Temos que mudar substancialmente a maneira como utilizamos nossas terras. Precisamos pensar de maneira muito mais exaustiva como utilizaremos cada hectare. As terras têm que permitir cultivar nossa comida, proporcionar biodiversidade e água doce, dar trabalho a bilhões de pessoas e capturar bilhões de toneladas de carbono”, disse, em uma coletiva de imprensa em Genebra, Piers Forster, professor da Universidade de Leeds, no Reino Unido, e um dos autores do relatório.

De acordo com o texto, atualmente, 72% da superfície do planeta livre de gelo é explorada pela humanidade. A intensificação do uso do solo libera o dióxido de carbono estocado pela vegetação e também causa erosão, reduzindo a capacidade da terra de suportar o plantio e manter o CO2 livre da atmosfera, alertam os cientistas no relatório, segundo o qual um terço de todo o solo já está degradado.

“Hoje, 500 milhões de pessoas vivem em áreas que passam por desertificação. As pessoas que já vivem em áreas degradadas ou desertificadas estão sendo afetadas cada vez mais negativamente pelas mudanças climáticas”, observou Valérie Masson-Delmonte, vice-presidente de um dos três grupos de trabalho do IPCC. “A forma como temos usado o solo não é sustentável e contribui para as mudanças climáticas”, disse, lembrando que o aumento da temperatura se soma às atividades humanas predatórias, o que amplifica mais ainda a pressão sobre o planeta.

Fome e desperdícioJim Skea, copresidente de outro grupo de trabalho, destacou que, como se não bastasse a pressão sobre o solo, até 30% dos alimentos são perdidos ou desperdiçados. Isso em meio a relatos recentes de que mais de 820 milhões de pessoas estão subnutridas no mundo. Ele lembrou que, com as estimativas de que a população global chegue a 10 bilhões em 2050, o quadro se agravará.

Na coletiva de imprensa, Skea destacou que os países devem encontrar meios de lidar com o desperdício, reduzindo, assim, a pressão sobre o solo e as emissões resultantes dos gases de efeito estufa decorrentes, inclusive, do cultivo de espécies para geração de biocombustíveis. “Limitar o aquecimento global a 1,5ºC ou mesmo a 2ºC envolverá a remoção de dióxido de carbono da atmosfera, e a terra tem um papel crítico a desempenhar nessa tarefa. As práticas agrícolas podem ajudar a estocar o carbono nos solos, mas também podem significar o uso de mais bioenergia com ou sem captura e armazenamento de carbono.”

Emissão de CO2De acordo com o relatório do IPCC, agricultura, silvicultura e outros usos da terra contribuem para cerca de um quarto das emissões de gases de efeito estufa, fato que os formuladores de políticas devem considerar ao decidir como devem investir para se adaptar e mitigar os efeitos das mudanças climáticas. “Reduzir as emissões de gases de efeito estufa de todos os setores é essencial se quisermos manter a carga em 2ºC”, disse Debra Roberts, vice-presidente do grupo de trabalho II. Hans-Otto Pörtner, copresidente do grupo III, ressaltou que essas medidas têm de ser imediatas. “Não há possibilidade de alguém dizer: ‘Ah, a mudança climática está acontecendo e nós vamos nos adaptar a ela. A capacidade de adaptação é limitada.”

Em nota, Paulo Adário, estrategista sênior de florestas da Organização Não Governamental Greenpeace, disse que o relatório do IPCC indica que já não basta zerar as emissões globais de combustíveis fósseis. “É fundamental zerar o desmatamento, proteger e restaurar nossas florestas e ecossistemas naturais, que são sorvedouros naturais de CO2, além de substituir commodities agrícolas por alimentos sustentáveis, reduzindo a produção e o consumo de carne, hoje o maior vetor de destruição da Amazônia e outros ecossistemas”.
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Segundo o IPCC, o consumo de carne mais do que duplicou nos últimos 60 anos, à medida que os solos foram convertidos para uso agrícola a um ritmo sem precedentes na história da humanidade. Hoje, as emissões do sistema alimentar como um todo, incluindo produção e consumo, representam até 37% do total global de emissões de gases de efeito estufa induzidas pelo homem.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Paz na era da incerteza


Em tempos de governantes se ofendendo mutuamente, ameaças de lançamentos de mísseis nucleares, guerras civis com centenas de milhares de mortos e aquecimento global, é possível pensar em paz? Sempre é, dizem os especialistas



Desde 1947, o Boletim de Cientistas Atômicos – um painel de especialistas da Universidade de Chicago (EUA) que inclui 15 vencedores do Prêmio Nobel – divulga anualmente o status do Relógio do Apocalipse, cuja chegada dos ponteiros à meia-noite significaria a destruição do planeta pelas mãos humanas. Em 25 de janeiro deste ano, o grupo adiantou o relógio em meio minuto, para 23h58, devido “às crescentes ameaças de guerra nuclear e mudança climática” e à “redução do papel de liderança exercido pelos Estados Unidos”. É a pior situação registrada, igual àquela em que o relógio estava em meados dos anos 1950, quando EUA e União Soviética empilhavam armas termonucleares em seus arsenais. Ou seja: chegamos ao mesmo grau de insensatez dos tempos da Guerra Fria.

É verdade que nunca houve um dia sem guerras no mundo desde que os humanos surgiram aqui, e que conflitos continuam a destruir vidas em vários cantos do globo. Atualmente, os destaques são as guerras civis na Síria (que, desde 2011, já matou mais de 400 mil pessoas) e no Sudão do Sul (cerca de 10 mil mortos desde 2013) e contínuas ações terroristas em países como Afeganistão, Turquia, Iraque, Nigéria e República Democrática do Congo. Mas uma parcela significativa do agravamento apontado pelo Boletim de Cientistas Atômicos tem nome: Donald Trump, o atual e instável ocupante da Casa Branca. “Os Estados Unidos são liderados por um presidente em que poucos confiam”, avaliou em janeiro Joschka Fischer, ex-ministro do Exterior da Alemanha.

Kim Jong-un e Trump assinam o acordo: a princípio, vantagem para o norte-coreano (Foto: iStock)

Por causa de Trump, o Relógio do Apocalipse já havia sido adiantado em 30 segundos no ano anterior – o Boletim de Cientistas Atômicos justificou a decisão sublinhando os comentários do governante sobre as armas nucleares, a ameaça de uma renovada corrida armamentista entre EUA e a Rússia e o desprezo da administração americana pelo consenso científico sobre a mudança climática. Para piorar o quadro, nos primeiros meses deste ano vivia-se uma escalada de ameaças entre o presidente americano e o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, cada qual ameaçando aniquilar o outro com bombas nucleares.
Insultos mútuos

Desde julho de 2017, quando os norte-coreanos testaram um míssil balístico intercontinental, o mundo conviveu com uma espantosa troca de intimidações entre dois governantes imprevisíveis. Com a situação cada vez mais nebulosa, e depois de descerem ao nível das ofensas mútuas­ (Kim virou o “pequeno homem-foguete”, enquanto Trump foi tachado como “velho senil”), a dupla combinou uma reunião pessoal – algo que governos americanos anteriores sempre haviam evitado, pois significaria reconhecer como equivalente ao seu governante o ditador de um estado pária da comunidade internacional. A cúpula, realizada em Singapura em junho, aparentemente foi um triunfo para Kim – em troca de um vago acordo de paz, ele conseguiu que os EUA e a Coreia do Sul suspendessem seus exercícios militares conjuntos, considerados “provocação” pelos norte-coreanos, e não especificou nenhum cronograma específico de desarmamento nuclear.




O encontro baixou por algum tempo a temperatura entre EUA e Coreia do Norte, mas serve como exemplo da instabilidade gerada por Trump no tabuleiro mundial. Para manter a pressão sobre os norte-coreanos, por exemplo, o governo dos EUA depende da boa vontade da China, com quem Pyongyang mantém mais de 90% do seu comércio. O ideal seria americanos e chineses viverem uma relação amistosa, mas a situação se complicou. Acusando o gigante asiático de obter um imenso superávit no comércio bilateral e de supostos “roubos” de propriedade intelectual, o governo Trump iniciou no primeiro semestre uma guerra comercial com os chineses de consequências ainda imprevisíveis.
Sonhos de grandeza

Trump já é praticamente um ícone de iniciativas contrárias à paz (veja quadro ao lado), mas não está sozinho nessa lista. Um dos companheiros é o presidente russo Vladimir Putin, que não oculta a vontade de ver seu país como uma superpotência comparável à dos tempos da antiga União Soviética. Nesse embalo, os russos assumiram um papel proeminente na guerra civil da Síria e no conflito entre ucranianos e russos étnicos no leste da Ucrânia (que, inclusive, derivou para a anexação da península da Crimeia, em 2014. A Rússia também participa – associada a posições nacionalistas, populistas e de ameaça à democracia – em eleições no Ocidente via redes sociais. Sua influência foi notória, por exemplo, na escolha do próprio Trump nos EUA e na vitória do Brexit, em 2016.



Às turbulências internacionais em relação à paz somam-se os problemas internos de cada país. A América do Sul registrou em 2017 a segunda maior taxa de homicídios entre as regiões do globo, ficando atrás apenas da América Central e do Caribe. Por seu lado, o Brasil ocupa o 106o lugar entre 163 países no Índice Global da Paz de 2018, organizado pela ONG australiana Instituto para Economia e Paz (IEP), em virtude de fatores como criminalidade e corrupção.



Com tanta violência e desalento espalhados pelo globo, é possível pensar em paz neste momento? Não só se pode, como se deve pensar sempre em paz, indicam estudos científicos. A ideia inicial para a realização desses trabalhos surgiu com uma afirmação do guru indiano Maharishi Mahesh Yogi, criador da meditação transcendental. Maharishi declarou nos anos 1960 que se 1% da população mundial praticasse sua forma de meditação, as guerras desapareceriam da face da Terra.Guerra civil na Síria: o pior conflito bélico do momento no planeta (Foto: iStock)

As condições para testar essa afirmação surgiram por volta de 1974, quando mais de 250 mil norte-americanos já praticavam a meditação transcendental e, em muitas pequenas cidades do país, o número desses adeptos atingia 1% da população local. Os estudos começaram então, em quatro cidades com meditadores, focando em índices como estatísticas de crimes, taxas de acidentes e admissões em hospitais, comparados a seguir com os de outras quatro cidades que serviram como controle. Enquanto as taxas de crimes caíram nas cidades com meditadores, subiram nos demais núcleos urbanos.
Redução confirmada

O estudo foi então ampliado para 11 cidades com 1% de meditadores e 11 cidades-controle. As primeiras tiveram taxas de crime 16,6% menores do que as últimas. Nova ampliação, com 48 cidades de cada lado, mostrou resultados semelhantes, abordados no estudo “The Transcendental Meditation Program and Crime Rate Change in a Sample of Forty-Eight Cities”, publicado na revista “Journal of Crime and Justice” (Vol. IV, 1981). Os números obtidos foram considerados a evidência de um “Efeito Maharishi” sobre a violência.
Grupos de meditadores vibrando paz de modo organizado: receita com chance de êxito (Foto: iStock)

A partir daí, a pesquisa se diversificou. Um dos estudos mais famosos que se seguiram foi realizado em 1983, durante a escalada na guerra entre Líbano e Israel. Um grupo de centenas de praticantes de meditação transcendental reuniu-se em Jerusalém para meditar pela paz mundial, com resultados surpreendentes, segundo o físico John Hagelin, presidente da Universidade Central Maharishi, em Fairfield (EUA). “Descobrimos que nos dias em que o grupo de meditadores teve o máximo de participantes (e também no dia seguinte a eles), os níveis de conflito tiveram redução de cerca de 80%”, afirmou Hagelin numa palestra realizada em 2007 no Instituto de Ciências Noéticas, na Califórnia. “Isso se tornou um efeito estatisticamente significativo e surpreendente, porque havia apenas entre 600 e 800 pessoas meditando no meio desse conflito inteiro e da altamente estressada população circundante.”

Os números não foram favoráveis somente nos campos de combate: os índices de crimes, colisões de trânsito, incêndios e outras ocorrências associadas a destruição também caíram durante os períodos de meditação do grupo. Na sua conclusão, Hagelin afirmou: “Existem muito mais evidências de que a meditação em grupo pode desativar a guerra como um interruptor de luz do que a aspirina diminui as dores de cabeça. É um fato científico.”
Estudos ampliados

Em sua edição de dezembro de 1988, o “Journal of Conflict Resolution”, da Universidade Yale (EUA), publicou esses resultados e uma carta na qual convocava outras instituições e grupos a replicar o estudo. Nos 821 dias seguintes sete experimentos foram conduzidos, com grupos baseados em Israel, no próprio Líbano e em países do Oriente Médio, da Europa e de outras partes do mundo. Mais uma vez, os resultados chamaram a atenção: quedas de 71% no número de mortos na guerra, de 68% nos casos de feridos e de 48% no nível geral de conflito, enquanto a cooperação entre os antagonistas aumentou em 66%. E com o aumento no número de experiências, concluiu-se que, para chegar a um efeito semelhante ao já obtido, não era preciso reunir 1% da população; um estudo de 1993 realizado em Washington, a capital americana, apresentou resultados positivos com a participação de apenas 0,17% dos habitantes locais.

Maharishi defendia a prática de sua forma de meditar para se obterem esses resultados, mas isso não parece ser necessário. O fundamental é harmonizar-se consigo mesmo e vibrar paz. E, como as pesquisas na área comprovaram, uma fração de pessoas vibrando organizadamente paz pode espalhá-la pelo mundo. É como explica Jon Kabat-Zinn – professor de medicina da Universidade de Massachusetts (EUA) e popularizador da meditação budista mindfulness (da atenção plena) no Ocidente – em seu livro “Aonde Quer que Eu Vá” (Editora Sinais de Fogo): “Sendo um todo e simultaneamente parte de um todo maior, podemos mudar o mundo simplesmente mudando a nós mesmos. Se me torno um centro de amor e bondade neste momento, então, possivelmente de uma forma pequena e insignificante, o mundo tem agora um núcleo de amor e bondade que faltava no momento anterior.” Não custa nada tentar, certo?

Revista Planeta

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Mendigos de cidade sueca têm de pagar R$ 100 para poder pedir dinheiro

Licença é válida por três meses; quem desrespeitar a lei que regula a mendicância em Eskilstuna poderá ser multado em mais de R$ 1.600

Pedinte: se ele estivesse em Eskilstuna, precisaria de uma licença para esmolar que custa cerca de R$ 100 por trimestre


Eskilstuna, a oeste de Estocolmo, é a primeira cidade da Suécia a criar uma autorização oficial para mendigos pedirem dinheiro nas ruas, informa o jornal “The Guardian”. Para tanto, cada pedinte deve solicitar uma licença, disponível online ou em delegacias de polícia, e fornecer dados de um documento de identidade válido.

A autorização custa 250 coroas suecas (cerca de R$ 100) e vale por três meses. Quem for flagrado sem ela terá de pagar uma multa de 4 mil coroas (cerca de R$ 1.640).



A medida entrou em vigor no início de agosto, depois de quase um ano de atrasos legais. Segundo Jimmy Jansson, conselheiro social-democrata de Eskilstuna, ela visa “burocratizar” a mendicância para “tornar mais difícil” o ato de as pessoas pedirem dinheiro. “Vamos ver onde isso vai dar”, disse ele à mídia local.

Jansson afirmou também acreditar que a nova política deve ajudar a pôr pessoas desabrigadas e outros indivíduos em situação vulnerável em contato com as autoridades locais, sobretudo os serviços sociais.

Polêmica

A medida é polêmica. Para alguns de seus críticos, ela legaliza a mendicância e deixa os pedintes (muitos dos quais são ciganos vindos de países como Romênia e Bulgária) em situação ainda mais vulnerável.

Para Tomas Lindroos, da organização de caridade Stadsmission, o novo sistema aumenta as oportunidades de exploração. Gangues criminosas poderiam pagar pelos pedidos de licença das pessoas e exigir delas pagamentos indevidos.

Jansson defende a abordagem adotada. “Não se trata de assediar pessoas vulneráveis, mas de tentar resolver a questão maior: se consideramos que a mendicância deve ser normalizada dentro do modelo sueco de assistência social”, afirma.

Várias cidades suecas proibiram a mendicância nos últimos meses, depois que o Supremo Tribunal Administrativo confirmou em dezembro a proibição da prática em Vellinge, no sul do país.

Segundo a emissora estatal SVT, oito autorizações foram solicitadas em Eskilstuna no fim de semana. Três cidadãos da União Europeia que mendigavam no centro da cidade sem licença foram informados pela polícia sobre a nova lei e deixaram o local.
Revista Planeta

domingo, 4 de agosto de 2019

Aquecimento do planeta altera a vida marinha, aponta estudo


Revisão de 120 pesquisas mostra que as mudanças climáticas influenciam o comportamento e a evolução de animais oceânicos. Há, por exemplo, sinais de impacto no acasalamento de peixes e na forma como aves aquáticas buscam as presas

Paloma Oliveto



A redução do pH e o aumento da turbidez da água são alguns dos fatores que prejudicam o habitat marinho(foto: AFP PHOTO / HO / KANDIS SEMIDANG)Se, em terra firme, os efeitos do aquecimento do planeta sobre a vida animal são conhecidamente devastadores, no habitat marinho não é diferente. Estudos demonstram, por exemplo, que o excesso de dióxido de carbono está mudando o pH dos oceanos, que ficam mais ácidos e, consequentemente, afetam uma cadeia de organismos, como ostras e corais. Mas, de acordo com um estudo do Instituto de Ciência Marinha da Faculdade de Wil-liam & Mary, nos Estados Unidos, a fisiologia não é o único aspecto a sofrer alterações. O comportamento e a evolução dos seres aquáticos serão profundamente modificados, observa o trabalho, divulgado na Frontiers of Marine Sciences. 

“As mudanças climáticas impactarão significativamente os organismos marinhos, alterando as vias sensoriais”, diz Emily Rivest, principal autora do estudo. “Isso terá consequências para as interações ecológicas e evolutivas, incluindo acasalamento, predação e seleção de habitat”, alerta. Ela diz isso baseada na revisão de 120 artigos pioneiros, publicados em revistas científicas conceituadas.

De acordo com Rivest, a síntese dos resultados dessas pesquisas revela padrões de alterações na vida marinha e poderá orientar pesquisas que visem à conservação do habitat mais rico do planeta. Um dos estudos analisados pela pesquisadora, por exemplo, mostrou que a acidificação oceânica prejudica a interação de predador-presa entre caranguejos azuis e moluscos. Outro trabalho indicou que a alteração no pH marinho torna o caramujo mais propenso à predação das estrelas do mar.
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“Nossa revisão enfatiza que o comportamento animal é o resultado de um percurso sensorial que inclui a produção de informações, a transmissão dessas informações pelo ambiente, a recepção das informações por um organismo e, em seguida, uma resposta — o que o organismo decide fazer com a informação”, diz. O trabalho também faz as distinções entre as informações produzidas incidentalmente (o que os cientistas chamam de pista) e informações que um organismo produz intencionalmente — um sinal.

“Saber onde e em quantos lugares a mudança climática interrompe esse caminho nos ajudará a antecipar como isso pode afetar processos ecológicos mais amplos, como a dinâmica alimentar e a dinâmica populacional”, destaca Erin Satterthwaite, biólogo marinho da Universidade da Califórnia em Davis e coautor do estudo. “Se pudermos entender melhor onde os estressores causados pelas mudanças climáticas impactam o caminho sensorial dos organismos marinhos, poderemos desenvolver estratégias de manejo e conservação mais direcionadas e eficazes.”
Efeito disseminadoDe acordo com o especialista, a revisão detectou impactos de mudanças globais em todas as etapas do caminho sensorial dos organismos aquáticos. Por exemplo, um estudo feito com pescadas-amarelas e corvinas, espécies populares de peixes da Baía de Chesapeke, nos Estados Unidos, mostrou que as águas mais quentes e turvas alteram a produção dos sons que os machos de ambas as espécies usam para atrair fêmeas, afetando potencialmente o sucesso reprodutivo.

Outra pesquisa, sobre a ave aquática cormorão, também conhecida como corvo-marinho, indicou que a maior turbidez do mar causada pela poluição degrada a transmissão de luz, diminuindo a capacidade de esses predadores altamente visuais detectar alimentos. Um estudo de 2013 demonstrou que níveis elevados de dióxido de carbono afetam uma estrutura do ouvido interno chamada otólito, usada pelos vertebrados para detectar a gravidade e o movimento, nos filhotes do peixe bijupirá.

Na revisão, a equipe considerou como impactantes da mudança global aqueles listados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática no relatório mais recente: aumento de temperaturas, acidificação oceânica, aumento de zonas de baixo oxigênio, mudanças de salinidade, aumento da radiação UVB, aumento da turbidez, alteração da hidrodinâmica, maior estratificação e excesso de nutrientes. O IPCC é o órgão da Organização das Nações Unidas encarregado de orientar a resposta internacional à crise provocada pelas mudanças climáticas.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Asteroide capaz de destruir cidade só foi visto ao chegar perto da Terra


Primeira observação foi feita por cientistas brasileiros, cerca de 24 horas antes de o corpo passar a 79 mil quilômetros da Terra. Batizado de 2019 OK, o corpo tem o tamanho de um campo de futebol




Linha branca mostra a trajetória do 2019 OK: asteroide passou a uma distância cinco vezes menor da que separa a Terra da Lua(foto: Reprodução)
Um asteroide passou perto da Terra na última quinta-feira (25/7). Até aí não há nada de novo nem de muito preocupante. O problema com esse objeto, batizado de 2019 OK, é que, apesar de ser grande o bastante para destruir uma cidade inteira, passou totalmente despercebido por cientistas. Só quando ele estava praticamente nos arredores do nosso planeta que um observatório brasileiro o notou.

Por sorte, o corpo celeste passou "reto", a 73 mil quilômetros do nosso planeta, uma distância cinco vezes menor da que separa a Terra e a Lua. Os responsáveis pela detecção foram astrônomos do Sonear, observatório localizado em Oliveira (MG). Segundo Cristóvão Jacques, sócio-diretor do centro de pesquisa, entre a Terra e a Lua, deve passar um asteroide por semana, em média. Muitos são captados com dois meses de antecedência, mas é comum que alguns só sejam percebidos quando já estão indo embora.

O que chama a atenção, contudo, é que o 2019 OK tem um tamanho considerável. "Os asteroides que passam, geralmente, medem 10m. E esse tinha aproximadamente o tamanho de um campo de futebol", compara. A medida faz com que ele seja o maior corpo que se aproximou do Planeta Azul este ano.

Mas por que, então, ele não foi visto com antecedência? "Esse é um asteroide bem peculiar, porque ele veio de frente em relação à Terra. Com esse movimento, é mais difícil de se identificar. Nós fomos os primeiros, e o vimos 24 horas antes de ele passar por aqui", acrescenta Jacques.

Rússia, 2013
Para José Leonardo Ferreira, professor do Instituto de Física da Universidade de Brasília (UnB), a descoberta de um asteroide tão perto do momento de passagem é, sim, motivo de preocupação. Ele lembra o episódio de 2013, em que um asteoride caiu na cidade russa de Chelyabinsk. O objeto, ao se desintegrar, gerou uma explosão mais potente que a bomba de Hiroshima, danificou prédios e deixou mais de mil pessoas feridas, algumas com queimaduras. "E esse era um asteroide de 15m a 20m. Era pequeno", ressalta.


As diferentes iniciativas de detecção de asteroides já conseguiram mapear cerca de 20 mil desses corpos próximo à Terra. Mas, com esses 20 mil, não há com o que se preocupar, garante Cristóvão Jacques. "Não há perigo de colisão. Nenhum tem risco de cair (na Terra)", esclarece. 

Os não conhecidos é que preocupam. E para nos protegermos deles, mais observatórios seriam necessários, defende Ferreira. "Boa parte das detecções são por acaso. Muitos astrônomos amadores ficam vasculhando o céu, e eles têm dado uma grande contribuição. Existem observatórios, mas a área de observação é imensa e eles estão mais concentrados no Hemisfério Norte. Essa busca não é balanceada", explica. "É importante que se faça essa observação, porque um asteroide de 50 metros pode destruir uma cidade inteira. Porque não é só o tamanho que importa, mas a energia (que sua explosão libera)", completa.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Quem tem o poder de mitigar a mudança climática: negócios ou consumidores?



Hanohiki / Shutterstock

“Segunda-feira sem carne”, “consumir produtos locais e sazonais”, “reciclar”, “usar mais transporte público e viajar menos de avião”, “comprar um carro híbrido ou elétrico” e até “ter menos filhos”. Essas e outras mensagens similares são aquelas que, como cidadãos e, acima de tudo, como consumidores, recebemos continuamente para que, através de nossas decisões, reduzamos nossa presença no planeta e, com ele, lutemos contra as mudanças climáticas.


No entanto, os agregados familiares, especialmente através de transportes privados ou aquecimento, geram diretamente apenas 26% das emissões de carbono da economia espanhola. Os restantes 74% são devidos a decisões de produção tomadas pelas empresas.

No final, são as empresas que decidem como produzir as mercadorias, onde localizam sua produção, quais fornecedores escolhem e se utilizam tecnologias com menor emissão de carbono. De que, de responsabilidade, vamos falar neste artigo.
A pegada das subsidiárias

Em nosso trabalho recente publicado na Nature Communications, avaliamos a pegada de carbono de subsidiárias de multinacionais norte-americanas espalhadas pelo mundo.

Com essa pegada, quantificamos as emissões diretas e indiretas geradas pelas multinacionais quando se trata de produzir bens e serviços que são consumidos em qualquer país do mundo. Assim, obtemos uma pegada de carbono das subsidiárias dos EUA que representa um volume de emissões de carbono maior do que o de muitos países. Por exemplo, essa pegada é quase o dobro das emissões geradas em toda a economia espanhola e as colocaria em um hipotético 12º lugar no ranking mundial dos países mais poluidores.

Do total da pegada dessas multinacionais, 60% correspondem a produtos que são consumidos nos países onde as subsidiárias realizam sua atividade, os 40% restantes são incorporados em bens e serviços que exportam para outros países. Apenas 8% é explicado pelo consumo de bens e serviços por cidadãos dos Estados Unidos.Representação do 'ranking' das emissões e da pegada de carbono das multinacionais norte-americanas. Os autores, Autor

Esses processos de realocação representam um risco para a mudança climática se vazamentos de carbono ocorrerem. Ou seja, se as empresas decidirem localizar parte de sua produção em países com leis ambientais mais frouxas. No entanto, essa mesma realocação pode ser uma oportunidade de mitigação se os critérios de sustentabilidade ambiental também forem levados em conta nas decisões de produção.

Por exemplo, as empresas podem selecionar fornecedores com certificados com garantia verde. Eles podem usar papel reciclado para suas embalagens ou mover suas mercadorias usando transporte elétrico. Ainda mais em um contexto no qual a maioria das emissões de CO₂ não são geradas diretamente por essas subsidiárias, mas são geradas por empresas que fornecem bens intermediários e energia nesses países.
"Segundas-feiras sem carne"

Um bom exemplo de manejo sustentável pode ser encontrado se falarmos novamente sobre "segunda-feira sem carne". Como as empresas podem reagir ao fato de que parte de seus consumidores exigem menos consumo de carne?

Por exemplo, a multinacional de fast food Burger King está avaliando, em colaboração com a empresa Imposible Foods , a possibilidade de incorporar hambúrgueres vegetais que degustam e sangram da mesma forma que os hambúrgueres de vitela: o Wopper Impossível.O Impossible Whopper, do Burger King. 

Na prática, a introdução desta opção implica uma mudança na cadeia de fornecimento, reduzindo a demanda por carne de vitela e aumentando a de proteínas à base de plantas, o que geraria uma redução significativa na pegada de carbono.

No entanto, essa ação deve ser complementada com outras na mesma linha para ser totalmente eficaz. Por exemplo, usando eletricidade em seus estabelecimentos que têm um certificado de origem verde , optando por fornecedores e distribuidores com veículos elétricos ou incentivando o uso de transporte público por seus trabalhadores quando eles se mudam para o local de trabalho.
A hora de agir é agora

Os compromissos de mitigação feitos pelos 185 países que ratificaram o Acordo de Paris ou as políticas que estão sendo realizadas pelos prefeitos de numerosas cidadesdo planeta, até agora se mostraram insuficientes. Assim, vimos recentemente como a estudante Greta Thunberg conseguiu abalar as consciências do continente europeu e proclamar uma ação política maior para conter a “crise climática”.

Multinacionais, com seu imenso poder econômico, também têm considerável responsabilidade ambiental. Eles são forçados a se tornarem atores principais na luta contra as mudanças climáticas. Seu desempenho relatará vantagens, já que eles podem cruzar fronteiras e influenciar centenas de milhares de empresas que lhes fornecem bens.Fluxos de carbono incorporados nas exportações de multinacionais dos EUA. Os autores, Autor

Além disso, os compromissos de mitigação das mudanças climáticas dos países serão mais facilmente adotáveis ​​se as multinacionais perceberem os riscos que a inação implica para seus negócios: da perda de consumidores à dificuldade de acesso ao financiamento no mercado de capitais. .

Algumas empresas já estão assumindo um preço interno de carbono para avaliar como seus negócios serão afetados pela possibilidade de estabelecer impostos sobre carbono.

Da mesma forma, essas empresas estarão mais propensas a tomar medidas para reduzir sua dependência de carbono se perceberem os benefícios que podem obter: da redução dos custos de energia associados ao autoconsumo de energia renovável à lealdade dos consumidores cada vez mais conscientes da crise Clima


Luis Antonio López Santiago , professor de Fundamentos de Análise Econômica, Universidade de Castilla-La Mancha ; Guadalupe Arce González , professora adjunta da Universidade Complutense de Madri ; Jorge Enrique Zafrilla Rodríguez , Médico Interino Interino - Fundamentos de Análise Econômica, Universidade de Castilla-La Mancha e Maria Angeles Cadarso , Professora Universitária, especialista em economia e meio ambiente, Universidade de Castilla-La Mancha

Este artigo foi originalmente publicado no The Conversation . Leia o original .

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