sábado, 12 de outubro de 2019

4º maior produtor de lixo plástico do mundo, Brasil é o que menos recicla


Relatório da WWF aponta que o Brasil reaproveita pouco mais de 1% do plástico.


Poluição de plástico nos oceanos prejudica os animais das regiões mais profundas (Foto: MichaelisScientists/Wikimedia Commons)


Rios, lagos, oceano, tartarugas, crustáceos, garrafas d’água, purpurina, canudinhos. Plástico, plástico, plástico. Das calçadas às notícias de jornais, ele está em toda parte. O Carnaval mal acabou, o glitter ainda vai demorar semanas para deixar os cantos mais escondidos do corpo, e dá uma enorme preguiça pensar no destino do planeta, mas precisamos falar sobre o esse crescente problema.

Por mais que gritem sobre a quantidade absurda de plástico produzida (e descartada) pelo homem, muito pouco é feito para mudar essa situação. E, no quesito “fazer nada”, o Brasil, quarto maior produtor de plástico do planeta, só recebe nota dez dos jurados. Dos grandes produtores de plástico, somos disparados os que menos reciclam, conforme demonstrou o relatório da WWF “Solucionar a Poluição Plástica – Transparência e Responsabilização”.


Produzimos mais de 11 milhões de toneladas de lixo plástico todo ano, mas apenas 1,2% é reciclado. Para efeito de comparação, a Indonésia, quinto maior consumidor de plástico, recicla 3,66%. Também é bem abaixo da média global de reciclagem, que é de cerca de 9%.

Segundo dados do Banco Mundial, mais de 2,4 milhões de toneladas de plástico brasileiro são descartadas de forma irregular, sem qualquer tipo de tratamento, em lixões a céu aberto. Outros 7,7 milhões de toneladas vão para aterros sanitários. E mais de 1 milhão de toneladas sequer são recolhidas pelos sistemas de coleta.

Só não ficamos tão feios na fita porque os EUA e a China existem. É verdade que ambos apresentam bons números na reciclagem, dando um novo destino para 34% e 21% do plástico, respectivamente. Mas os dois consomem muito mais plástico que todo mundo.

Nos EUA são mais de 70 milhões de toneladas descartados todos os anos. Mesmo com os 24 milhões de toneladas descartados, eles são responsáveis por despejar no ambiente mais de quatro vezes o que o Brasil. Veja na tabela abaixo.


(Foto: WWF)


“O plástico não é inerentemente nocivo. É uma invenção criada pelo homem que gerou benefícios significativos para a sociedade”, diz o relatório. “Infelizmente, a maneira com a qual indústrias e governos lidaram com o plástico e a maneira com a qual a sociedade o converteu em uma conveniência descartável de uso único transformou esta inovação em um desastre ambiental mundial.

Um problema que não para de aumentar. Aproximadamente metade de todos os produtos plásticos que poluem o mundo hoje foram criados após 2000. Apesar da maior parte do plástico ser novo, 75% de todo o plástico já produzido não servem para nada além de poluir o meio ambiente.

Quase metade de todo o plástico é utilizado para criar produtos descartáveis com vida útil menor que três anos. A maioria desses descartáveis é consumida em países de renda alta ou média-alta. A indústria da embalagem é a maior transformadora de plástico virgem em produtos, e responsável por converter quase 40% do todo o plástico produzido em 2015.

Apesar da maior parte desse total ficar em terra, principalmente aterros sanitários, é quando chega no oceano que esse plástico causa mais estrago. São dez milhões de plásticos descartados no mar todos os anos. É como se a humanidade atirasse 23 mil aviões do tipo Boeing 747, um dos maiores que existem, no oceano anualmente.

Se nada mudar, até 2030, a poluição por plásticos nos mares deve chegar a 300 milhões de toneladas – o que corresponde a 26.000 garrafas de 500ml de água a cada km² de oceano. “É hora de mudar a maneira como enxergamos o problema: há um vazamento enorme de plástico que polui a natureza e ameaça a vida”, afirma Mauricio Voivodic, Diretor Executivo do WWF-Brasil. “O próximo passo para que haja soluções concretas é trabalharmos juntos por meio de marcos legais que convoquem à ação os responsáveis pelo lixo gerado. Só assim haverá mudanças urgentes na cadeia de produção de tudo o que consumimos.”

Afinal, não é só a saúde do planeta que sofre, A poluição por plástico gera mais de US$ 8 bilhões de prejuízo à economia global. Enquanto o lixo plástico nos oceanos prejudica barcos e navios utilizados na pesca e no comércio marítimo, o plástico nas águas vem reduzindo o número de turistas em áreas mais expostas, como Havaí, Ilhas Maldivas e Coréia do Sul.

O assunto será tema na Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEA-4), que será realizada em Nairóbi, no Quênia, de 11 a 15 de março. Na ocasião será votado um acordo global sobre o plástico. No relatório, a WWF lista uma série de medidas que ajudariam a enfrentar o problema:


- Cada produtor ser responsável pela sua produção de plástico – O valor de mercado do plástico virgem não é real pois não quantifica os prejuízos causados ao meio ambiente e também não considera os investimentos em reuso ou reciclagem. É necessário haver mecanismos para garantir que o preço do plástico virgem reflita seu impacto negativo na natureza e para a sociedade, o que incentiva o emprego de materiais alternativos e reutilizados.

- Zero vazamento de plástico nos oceanos – O custo da reciclagem é afetado pela falta de coleta e por fatores como lixo não confiável, ou seja, misturado ou contaminado. As taxas de coleta serão maiores se a responsabilidade pelo descarte correto for colocada em empresas produtoras dos produtos de plástico e não apenas no consumidor final, uma vez que serão encorajadas a buscar materiais mais limpos desde seu design até o descarte.

- Reúso e reciclagem serem base para o uso de plástico – A reciclagem é mais rentável quando o produto pode ser reaproveitado no mercado secundário. Ou seja, o sucesso desse processo depende de que valor esse plástico é negociado e seu volume (que permita atender demandas industriais). Preço, em grande parte, depende de qualidade do material, e essa qualidade pode ser garantida quando há poucas impurezas no plástico, e quando ele é uniforme – em geral, oriundo de uma mesma fonte. Um sistema de separação que envolva as empresas produtoras do plástico ajuda a viabilizar esta uniformidade e volume, ampliando a chance de reúso.


- Substituir o uso de plástico virgem por materiais reciclados. Produtos de plástico oriundo de uma única fonte e com poucos aditivos reduzem os custos de gerenciamento desses rejeitos e melhoram a qualidade do plástico para uso secundário. Por isso o design e o material de um produto são essenciais para diminuir esse impacto, e cabe às empresas a responsabilidade por soluções.
Revista Galileu

O MAL-ESTAR DA CIVILIZAÇÃO EM REDE

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GRITOS E SUSSURROS: O MAL-ESTAR DA CIVILIZAÇÃO EM REDE

Em carta escrita ao psicanalista austríaco Sigmund Freud (1856-1939) em 1927, o pensador e escritor francês Romain Rolland (1866-1944) mencionou seu interesse de que o colega explorasse melhor a sensação religiosa espontânea, o sentimento do eterno que desconhece limites, como um sentimento “oceânico”. Freud não se furtou a enfrentar o desato, já que a metáfora lhe pareceu rica de significado. No final de O futuro de uma ilusão, publicado no mesmo ano, Freud abordou o tema da construção do ego a partir da crítica da ideia de um sentimento oceânico primitivo, caro à religião. Quando publicou o seu célebre ensaio O mal-estar da civilização em 1930, esse ‘sentimento oceânico’, ou melhor, as formas que a sociedade encontrava para lhe impor limites, tornou-se o cerne de suas preocupações.

Os tempos eram de guerra e, evidentemente, sobressaía naquele contexto o problema da morte iminente diante dos imperativos da vida em sociedade. Havia três fontes intrínsecas ao desprazer que Freud identificava como decorrência da construção dos limites para esse sentimento oceânico, que emanava, em sua visão, do próprio ego primitivo da criança, e não de estruturas religiosas ou místicas pré-configuradas.

Fosse pela experiência existencial da dor ou da morte, pelo caráter destrutivo ou desastroso da própria natureza, mas sobretudo pelo sofrimento endêmico que os seres humanos necessariamente conhecem na vida em sociedade – isto é, na civilização –, surgiria imperativamente na criança que confronta seu sentimento oceânico a necessidade de reconciliar seus instintos, que buscam gratificação, com a realidade que a vida social impõe. 

Como componente central das formas de vida de boa parte das civilizações contemporâneas, as redes sociais sujeitam aqueles que nela coexistem a imperativos e limites bastante similares aos que Freud apontava quando falava da relação paradoxal que a realidade social impõe ao ego primitivo da criança: ao mesmo tempo que induz à liberdade em busca de prazer, a cerceia com regras que devem ser introjetadas a fim de garantir a sociabilidade. A questão, então, está em pensar como tal relação encontra meios de se atualizar – e com quais efeitos – nas novas tecnologias de comunicação em geral e nas redes sociais em particular.


Protagonistas da comunicação

As plataformas eletrônicas nas quais as redes sociais não presenciais são estabelecidas estão passando por um momento de transição. À medida que as interfaces de interação social virtual foram regredindo novamente para a telefonia, a mobilidade introduzida pelo celular e a transmissão de dados por ele facilitada fizeram desses aparelhos os protagonistas da comunicação que engendra e reproduz redes sociais.
A tela do celular ganhou propriedades que teclas de um telefone comum nunca tiveram, e a capacidade de armazenamento de informação e outras aplicações no mesmo objeto transformaram o celular, em menos de uma década, no principal aparelho utilizado por seres humanos

A tela do celular ganhou propriedades que teclas de um telefone comum nunca tiveram, e a capacidade de armazenamento de informação e outras aplicações no mesmo objeto transformaram o celular, em menos de uma década, no principal aparelho utilizado por seres humanos. Talvez seja cedo para decretar categoricamente a superação do Facebook, ou o fim da hegemonia das redes sociais mais adequadas ao computador caseiro. Contudo, não será apressado reconhecer que, mantidas as tendências em curso, aplicativos como o WhatsApp transformarão o Facebook e seus aparentados em plataformas secundárias.

O Facebook e outras redes sociais assemelhadas estão assentadas sobre um conjunto de atributos comuns: o fluxo em geral transparente da informação, em que cada um se dirige simultaneamente a muitos (one to many), torna público o privado; o conteúdo da informação, as trocas e os compartilhamentos efetuados conformam uma espécie de subesfera pública que mais repercute do que pauta a esfera pública propriamente dita.

O WhatsApp opera sob uma lógica diversa: as mensagens, sempre enviadas a uma ou poucas pessoas (one to one ou one to few), permanecem no âmbito do privado, cuja opacidade só muito raramente é violada; as trocas e os compartilhamentos se dão por grupos de interesse, afinidades ou necessidades pessoais, contextos profissionais, ou simplesmente em substituição a um telefonema. Combina-se a isso o silêncio que caracteriza a maior parte das trocas comunicativas das duas plataformas, ainda que mobilizado de modos distintos.

No Facebook, esse silêncio é quase imperativo, já que nenhuma de suas mensagens e publicações encontra um assento feliz no uso da voz humana como meio da comunicação. O que tem som no Facebook, em geral, já é um audiovisual postado.

No WhatsApp, por outro lado, o texto ou mensagem parecem destinados a um papel de ‘suplente’ da fala, já que esbanja trocas comunicativas que são meras substitutas de conversações que poderiam servia você, mesmo quando em grupos maiores. Não é acidental que o WhatsApp tenha sido rápido em incluir entre seus recursos a possibilidade de utilizá-lo como telefone. Não se trata meramente da possibilidade de utilizar som em comunicações – as duas plataformas incluem recursos para que as trocas sejam audíveis, mas, enquanto o Facebook utiliza esses recursos apenas para ampliar os modos de interação entre conectados, o WhatsApp os emprega para substituir as formas tradicionais da oralidade, que costumam exigir protocolos conversacionais que oneram, em tempo e disponibilidade, os ritos de introdução, desenvolvimento e conclusão das trocas comunicativas.


Implicações das redes

Consideradas as características e diferenças formais de ambas as plataformas, é hora de retornarmos a Freud para, com a licença do uso alargado de alguns dos seus conceitos e categorias, observar de que maneira tais características atravessam, ou mesmo ajudam a constituir, o mal-estar na civilização em rede. Pensar na tecnologia não como um artefato, mas como um contexto, implica partir do princípio de que a presença das redes sociais na vida das pessoas afeta o repertório de ações disponíveis a elas, assim como a forma em que experimentam o mundo ao seu redor.

Se as redes sociais favorecem certos modos de diálogo e tipos de interações, é de se esperar que ganhem aderência social. Por sua própria arquitetura, o Facebook estimula uma forma de enunciação que, em linhas gerais, poderíamos caracterizar de espalhafatosa e assertiva, eque possui, no ‘curtir’ alheio, a medida de seu sucesso. Essa ênfase ubíqua no reconhecimento intersubjetivo, entretanto, cobra o seu preço: ao fazer da aprovação expressa de outros o termômetro cotidiano de suas atividades on-line, o indivíduo acostuma-se a exteriorizar excessivamente os critérios pelos quais julgará a si próprio.

O espelho facebookiano contribui para idealizar ainda mais as representações ideais que constituem o imaginário; sem a imagem desejada devolvida, resta ao indivíduo a mania patológica de persegui-la, ou a diluição depressiva de seu investimento libidinal pelo seu suposto fracasso.

Já o WhatsApp está fundado num modo de diálogo que, em função da exigência da instantaneidade – se o sujeito se ausentar dos grupos de que participa, mesmo que apenas por algumas horas, arrisca a perder o fio da meada da conversa –, induz a um comportamento obsessivo-compulsivo, em que tiques excessivos, de olhos e dedos em busca constante de novidades, não se ligam ao propósito ao qual aparentemente se dirigem.


Custos psíquicos

O temor de excluir a si mesmo de trocas habitua à checagem do aparelho celular a intervalos cada vez mais curtos; quanto mais os grupos de que se participa, maiores as possibilidades de exclusão, e os custos psíquicos decorrentes. Como alguém que rói as unhas, o usuário do WhatsApp opera um descolamento do real que pode durar poucos instantes, ou dias, e que se encontra demarcado como parte das práticas sociais quase aceitáveis.
(foto: Pixabay.com / Domínio Público)

O WhatsApp fustiga o indivíduo em função da ansiedade provocada pela exigência incessante por disponibilidade, mas o protege da vigilância alheia. Em um contexto de patrulha politicamente correta, a segurança da mensagem privada, ventilada entre amigos e conhecidos com vínculos e afinidades claramente delineados, oferece o conforto necessário à livre expressão de preconceitos e discursos de ódio. No WhatsApp, pode-se sentir prazer com a humilhação ou dor alheia, sem a contrapartida da culpa: abolidas as interdições públicas ao gozo, o escárnio encontra nos grupos privados espaço privilegiado para manifestar-se livremente.

O Facebook, ao contrário, obriga o indivíduo a comprometer-se diariamente com a apresentação da melhor versão de si. Como afirma o historiador norte-americano Christopher Lasch (1932-1994), se uma cultura narcisista é aquela na qual os relacionamentos são definidos pelo imperativo hedonista de aquisição e exibição de símbolos de status ou riqueza, então plataformas como o Facebook são seus principais operadores contemporâneos, uma vez que seus usuários parecem tomar parte de uma espécie de jogo de espelhos de reflexos indiretos: são fotos de viagens que pressupõem estilos de vida (saudável, aventureiro, intelectual, refinado etc.); postagens de conteúdos culturais sugerindo distinção; temáticas políticas que expressam visões de mundo com pretensões de infalibilidade; e assim por diante.

Não é preciso ser um etnógrafo do mundo virtual para nele reconhecer traços característicos do narcisismo clássico – hipersensibilidade acríticas, baixa disposição empática, arrogar para si o status de ‘especialista’ em assuntos variados, aparentar ser mais importante do que se é –, tudo em escala aumentada.

Esse narcisismo amplificado pelas redes sociais não presenciais não desaparece com as novas plataformas de  interação mais intimistas como o WhatsApp em celulares. A trama especular que nelas se desenrola, entretanto, sempre tem endereços definidos que não permitem nenhuma forma romantizada de circulação livre de ideias, modelo ao qual muitos ainda se apegam para descrever a dinâmica comunicativa de redes sociais ancoradas em plataformas como o Facebook.

No WhatsApp, o público morreu; no Facebook, ele simula a sua própria farsa. É concebível escrever uma postagem no Facebook sem se preocupar com quem vai lê-la, mas no WhatsApp, não. O destino conhecido de toda comunicação no WhatsApp devolve seu protagonista narcisista ao mundo da interação virtual como um indivíduo, e o silêncio de uma audiência que simplesmente não se manifesta – isto é, que não ‘curte’ sua postagem com um mero clique, como no Facebook – ecoa mais alto: na intimidade do privado, a ausência de reconhecimento carrega o peso da indiferença ou desaprovação explícitas.


Gramáticas próprias

Tal qual o Facebook, o WhatsApp também tem sua gramática. Enquanto o Facebook constrói o império da extroversão, tornando a troca comunicativa uma luta para ver quem grita mais alto – a métrica é o alcance, afinal –, no WhatsApp, os extrovertidos precisam ser cautelosos: sussurros altos demais são causas implacáveis de exclusão e ostracismo. Em contraste com o território do excesso do Facebook, onde (quase) tudo vale, a gramática do WhatsApp é uma disciplina com regras de etiqueta mais exigentes: textos curtos, imagens em arquivos leves, emojis e repressão às falas fora do tópico.

Acima de tudo, rege esta gramática a regra que cada rede social imprime para o ritmo das postagens. O WhatsApp converte em párias aqueles que falam demais, que falam de menos e que esquecem de falar. Saber o ritmo dos ritos comunicativos do grupo é questão de sobrevivência.

Tudo somado, eis a dicotomia construída até aqui: de um lado, plataformas de amplificação de discurso público, referido a um simulacro da polis, vazado em prosa imagética ruidosa, que sequer expansiva; de outro, plataformas de reprodução de comentários privados, endereçados à esfera de uma certa intimidade, e que são vazados sem estardalhaço.

No Facebook, grita-se histericamente para reivindicar a aprovação imaginária dos outros, sempre os mesmos outros, em doses homeopáticas diárias, buscando uma satisfação narcísica alimentada pela falsa sensação de excesso ou a inevitável melancolia produzida pela falta de ‘curtidas’. No WhatsApp, tecla-se compulsiva e silenciosamente para dar vazão ao que não pode ser dito em público, para manter-se a par do inconfessável do outro, para assegurar pertencimento a grupos mais ou menos próximos, de modo a afastar rotineiramente o medo da exclusão. Afinal, um celular que não anuncia novas mensagens insinua o ostracismo.
Na internet, vozes não se convertem nem em gritos, nem em sussurros, sem escapar do paradoxo de que quanto maior é o alcance e a possibilidade da fala no mundo conectado das redes sociais, maior a importância do silêncio que lhe subjaz

Na internet, vozes não se convertem nem em gritos, nem em sussurros, sem escapar do paradoxo de que quanto maior é o alcance e a possibilidade da fala no mundo conectado das redes sociais, maior a importância do silêncio que lhe subjaz. A repressão, a imposição de limites ao que pode ser dito num contexto em que aparentemente todos podem falar livres de amarras presenciais, começa na negociação sutil de tal silêncio.

O sentimento oceânico a que Freud se referia encontra no silêncio das redes, mais do que nos ruídos que as atravessam, a verdadeira medida de sua contenção – é o vazio, a ausência da interação, e não o seu excesso, que causa verdadeiro desconforto ao indivíduo contemporâneo. Ele ostenta um celular para não ter que conversar com quem está ao seu redor. Cabisbaixo e absorto, ele navega pelas teclas enquanto soergue diante de si uma muralha que, ao mesmo tempo, lhe priva e lhe subtrai dos desprazeres que a vida em sociedade impõe. Ninguém o ouve e ele nem sabe ao certo sequer ser ouvido. Está cada vez mais enterrado em um narcisismo de pequenas diferenças.


Sugestões para leitura

EISENBERG, J E MUDESTO, R. ‘A PAX ZUCKERBERG: o que está por trás do sucesso do Facebook’ in Ciência Hoje, v. 50, n. 300, 2013.

FREUD, S. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

MOROZOV, E. THE NET DELUSION. The dark side of internet freedom. New York: PublicAffairs, 2011.

TURKLE, S. ALONE TOGETHER. Why we expect more from technology and less from each other. New York: Basic books, 2011.

José Eisenberg
Antonio Engelke
Instituto de Ciências Sociais
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Revista Ciência Hoje

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

A árvore mais alta da Amazônia


Pesquisadores localizam um santuário com gigantes de mais de 70 e 80 metros quando buscavam um exemplar de 88,5 metros



Um pesquisador, na copa da maior árvore da Amazônia.
RAFAEL ALEIXO E TIAGO CAPELLE, DE LA EXPEDICIÓN JARÍ-PARU.

A Amazônia ainda guarda surpresas para os cientistas. E conserva rincões em que nenhum ser humano pisou. O engenheiro florestal Eric Gorgens, 36 anos, liderou uma expedição que acaba de confirmar em um desses cantos remotos uma descoberta espantosa: uma árvore de 82 metros (como um prédio de 27 andares), a mais alta que os cientistas tocaram na maior floresta tropical do mundo. Está situada na Floresta Estadual do Paru (Estado do Pará). Chegaram a ela de barco e a pé, guiados por indígenas.

Lá eles comprovaram que ela não está sozinha, mas acompanhada por quinze exemplares que ultrapassam os 70 metros. “Não havia dados de que existiam árvores gigantes na Amazônia, no máximo, eram de 60 metros. Mas encontramos exemplares de 82 metros, de 74, de 72 ... E isso acende uma luz para a ciência”, explica por telefone esse professor e pesquisador da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri.

Com troncos de dois a três metros, são da espécie dinizia excelsa. Foram medidas pelos escaladores, soltando uma corda desde a copa. Depois, eles as analisaram e recolheram material genético, mas não tiveram tempo de chegar à gigante entre os gigantes, a árvore mais alta de que têm indícios, de 88,5 metros. É mais que o dobro do Cristo Redentor que coroa a baía do Rio de Janeiro.

A expedição que Gorgens realizou com uma equipe de 30 pessoas lembra aquelas dos naturalistas europeus do século XIX. "Foi uma viagem muito difícil porque é uma região completamente isolada", enfatiza. Não há nem mesmo tribos não contatadas. Um grupo de 12 membros da comunidade tradicional de São Francisco de Iratapuru, mestres da navegação, os guiou durante os cinco dias rio acima pelo Jari e dois de caminhada pela mata. Os demais eram dois escaladores, especialistas em subir em árvores na Amazônia para medi-las sem danificá-las, pesquisadores de cinco universidades federais brasileiras, de institutos públicos de pesquisa, de Cambridge e de Oxford, dois bombeiros militares e uma equipe da TV Globo.


No alto de um gigante da Amazônia.

Foram dez dias de agosto em que estiveram completamente incomunicáveis. Somente quando deixaram a exuberante floresta amazônica eles souberam que o mundo havia descoberto com horror, graças ao presidente francês e ao G7, os incêndios que devoram a Amazônia e outras áreas da rica biodiversidade no Brasil. A Frontiers in Ecology publicou os resultados desta pesquisa.

Gorgens sabe que a árvore de 88,5 metros existe porque esse “santuário gigante de árvores” foi detectado com um medidor de laser acoplado a um avião Cessna que fazia sobrevoos para outra pesquisa: calcular a biomassa da Amazônia, medir quanto pesa a vegetação, dados cruciais para saber, por exemplo, quanto carbono armazena. Porque, embora do ar a Amazônia possa parecer um tapete de musgo, sob essas copas esta região maior do que toda a UE abriga uma imensa variedade de vegetação. Esses 800 sobrevoos localizaram uma chamativa concentração de árvores imponentes no parque do Paru. E lá se foram eles para confirmar o que os sistemas remotos anunciavam.

Além de citar os recordes, Gorgens explica que a descoberta é importante porque as árvores gigantes abrem uma nova perspectiva para entender melhor como a floresta tropical atua na dinâmica global do carbono e da biodiversidade. "Uma única árvore gigante pode acumular tanto carbono quanto 500 árvores normais", diz ele. Os cientistas estimam que a Amazônia armazene 17% do estoque de carbono do mundo. Agora, o desafio é saber o que propiciou tantos exemplares de tal altura. A distância e o fato de estar em uma área de conservação legalmente protegida são fatores importantes, destaca. Por isso, o pesquisador brasileiro considera essencial a sobrevivência e a expansão desses espaços.


Pesquisadores das árvores gigantes da Amazônia.
RAFAEL ALEIXO E TIAGO CAPELLE, DE LA EXPEDICIÓN JARÍ-PARU

Enquanto Gorgens conversava com este jornal sobre a expedição, milhões de adolescentes caminhavam por cidades de todo o mundo para exigir que os adultos ouçam os cientistas como este brasileiro e tomem medidas contundentes contra a crise climática porque não há planeta B. Ele está encantado com esse despertar dos adolescentes e destaca que a crescente preocupação com o aquecimento global indica que "nossa pesquisa não está desconectada dos cidadãos".

A expedição do Jarí-Paru foi possível graças a vários elementos que a política ambiental de Jair Bolsonaro pôs em grave risco com as tesouradas nos fundos públicos para pesquisa, o congelamento do Fundo Amazônia, bancado pela Noruega e Alemanha, e a campanha de descrédito contra a agência oficial que mede o desmatamento, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Após essa primeira incursão, os pesquisadores querem retornar à área em busca do gigante entre os gigantes. Seus 88,5 metros são um recorde da Amazônia. O mundial é uma sequoia-vermelha nos Estados Unidos, de 115,7 metros (38 andares). O tropical é uma shorea faguetiana de 100,8 metros, na Malásia.
El País

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

50 anos depois, agente laranja continua contaminando o solo do Vietnã


Herbicida usado pelos EUA na guerra ainda chega aos humanos a partir de sedimentos de rios e lagos


Imagem de novembro de 1962 mostra o efeito do agente laranja na margem direita do rio.ALAMY

No Vietnã, o Exército dos EUA travou duas guerras: uma contra o Viet Cong e outra contra a natureza. Nesta, os militares americanos usaram milhões de litros de herbicidas contra a selva onde se escondiam os comunistas e as plantações de arroz que os alimentavam. O herbicida mais usado foi o agente laranja. Uma revisão de diversos estudos mostra que, 50 anos depois que as forças dos EUA pararam de pulverizá-lo, ainda há restos altamente tóxicos desse desfolhante no solo e em sedimentos, de onde entram na cadeia alimentar.

Foi o presidente John Kennedy que, como parte de uma nova estratégia para impedir que o Vietnã do Sul entrasse em colapso sob a pressão dos nacionalistas e comunistas do norte, abriu as portas para a maior guerra química da história. Os primeiros herbicidas chegaram ao Sudeste Asiático em janeiro de 1962, em uma operação que acabaria sendo chamada de projeto Ranch Hand. Usaram diversos compostos químicos, muitos deles desenvolvidos durante a Segunda Guerra Mundial para destruir as colheitas de alemães e japoneses.

Vários relatórios das Academias Nacionais de Ciência dos EUA (NAS) e agências governamentais como a Usaid calculam que na Guerra do Vietnã foram usados mais de 80 bilhões de litros de herbicidas. O mais usado foi o agente laranja, um desfolhante. Os militares não quebraram muito a cabeça para dar um nome a esse composto: ele ia em barris com uma faixa dessa cor para diferenciá-lo do agente branco, do agente púrpura, do agente rosa, do agente verde (contra vegetação de folhas grandes) e do agente azul (usado contra os arrozais).
Cerca de 20% das selvas do país e 10 milhões de hectares de arrozais foram pulverizados pelo menos uma vez com doses 20 vezes maiores que as recomendadas

A lógica militar era a seguinte: já que os comunistas usavam a selva como uma arma a mais contra os EUA, era preciso neutralizá-la. O trabalho publicado recentemente em uma revista especializada em solos mostra que 20% das selvas do Vietnã foram pulverizadas pelo menos uma vez. Mas o arroz e outros produtos agrícolas também foram alvo. Até 40% dos herbicidas foram usados contra as plantações. Embora os militares tentassem diferenciar entre arrozais de amigos e inimigos, 10 milhões de hectares foram pulverizados com agente azul, que acabava com a colheita em horas. O terceiro principal uso dos herbicidas foi acabar com todo o verde que houvesse nos arredores das bases militares americanas, criando assim um perímetro de segurança.

Os efeitos de todos os herbicidas eram temporários e era preciso voltar a aplicá-los depois de algum tempo. Para isso, eram usadas desde mochilas às costas até lanchas para pulverizar as margens. Mas foi uma pequena frota de aviões C-123 Provider e helicópteros adaptados para levantar tanques de 3.800 litros que protagonizou o projeto Ranch Hand, com mais de 19.000 voos entre 1962 e 1971.

O agente laranja era, na verdade, um composto em partes iguais de dois herbicidas, o ácido 2,4-Diclorofenoxiacético (2,4-D) e o ácido 2,4,5- Triclorofenoxiacético (2,4,5-T). São reguladores hormonais do crescimento e em poucos dias, semanas no máximo, param de agir. Mas o que não se sabia na época era que o agente laranja continha uma dioxina altamente tóxica, a TCDD. Para acelerar a produção, a temperatura foi elevada em cerca de cinco graus, e a altas temperaturas o cloro presente no composto gerava entre 6.000 e 10.000 partes por milhão (ppm) de TCDD a mais do que em condições normais. Essa substância cancerígena é hidrofóbica, ou seja, não se dissolve na água. Também não é absorvida, e sim adsorvida. Ficava colada às folhas e estas, ao cair, levavam a dioxina até o solo, e a natureza se encarregava de espalhá-la.


Força Aérea dos EUA realizou 20.000 missões de pulverização de herbicidas.U.S. AIR FORCE PHOTO

“A dioxina contaminante adere ao carbono orgânico e a partículas argilosas do solo, e processos de erosão movem os sedimentos contaminados até os cursos d’água, rios, lagoas e lagos, onde as condições anaeróbicas protegem a dioxina da degradação microbiana, estendendo sua vida média”, comenta em um e-mail o especialista em solos e coautor do estudo Ken Olson, professor da Universidade de Illinois (EUA).

Exposta à ação do Sol, a TCDD se degrada em menos de três anos. Mas, em solos protegidos pela vegetação, demora até 50 anos para se decompor — e, se estiver em sedimentos fluviais ou marinhos, mais de 100 anos. “Os peixes e camarões que se alimentam no fundo pegam os sedimentos contaminados, e a dioxina se acumula em seus tecidos. Peixes maiores comem esses peixes e depois são comidos pelos vietnamitas”, assinala Olson.

Em um dos relatórios mais recentes analisados por Olson e sua colega, a socióloga rural Lois Wright Morton, da Universidade do Estado de Iowa, os pesquisadores oficiais estudaram o solo da base aérea de Bien Hoa e seus arredores. Era uma das principais bases de onde partiam as missões de lançamento de herbicidas. Nela se acumularam as latas que sobraram quando foi suspenso o projeto Ranch Hand. “Os pesquisadores coletaram 1.300 amostras de solo de 76 pontos diferentes da base, terras próximas e lagos. Dessas, 550 tinham níveis de dioxina acima do regulamento do Ministério de Defesa Nacional do Vietnã para uso da terra", comenta o professor americano.
Trinta anos depois que foram usados no Vietnã, vários aviões ainda tinham a dioxina aderida a eles

O solo de outras 16 bases áreas americanas tanto no Vietnã como na Tailândia está contaminado, e muitos dos vietnamitas e americanos expostos na época desenvolveram doenças. Mas pouco se sabe sobre o impacto do agente laranja fora das bases. Ao lado da de Bien Hoa fica a cidade homônima onde vivem 900.000 pessoas. Até hoje é proibida a pesca em rios e lagos da área.

A persistência da TCDD é tanta que vários dos aviões usados para pulverizar o agente laranja tiveram de ser retirados de um leilão e incinerados porque, 30 anos depois de voltar do Vietnã, ainda tinham a dioxina aderida a eles. O último relatório da NAS sobre os efeitos do agente laranja nos veteranos de guerra, publicado em novembro, acrescentou novas patologias relacionadas com a exposição ao herbicida. Esses relatórios são publicados a cada dois anos por determinação do Congresso dos EUA.

Embora se calcule que ainda existam três milhões de vietnamitas que sofrem os efeitos dos desfolhantes, não há um acompanhamento semelhante ao dos veteranos americanos. Dos poucos estudos internacionais sobre a persistência da TCDD no ambiente, destaca-se um publicado há 10 anos por pesquisadores japoneses e vietnamitas. Nele, o nível de contaminação do solo de uma aldeia pulverizada com agente laranja é comparado com o de aldeias que foram poupadas. No primeiro caso, a presença da dioxina era cinco vezes maior que no segundo caso, embora sua concentração fosse mais baixa do que a registrada na base aérea de Bien Hoa. O estudo também detectou níveis mais altos de dioxina no leite materno, mas não se pode descartar a possibilidade de que isso se deva à exposição mais recente a pesticidas agrícolas.

Olson acredita que seria exagerado e sem base científica considerar que todos os solos pulverizados há 50 anos continuem contaminados hoje. De qualquer forma, só em Bien Hoa há pelo menos 414.000 metros cúbicos de solo que deveriam ser tratados. Para Olson, o método definitivo para acabar com a dioxina seria incinerá-los, queimar a terra.País
El País

Saturno se torna o planeta com mais luas em órbita; são 82 agora


A novidade foi descoberta pelo Minor Planet Center ao usar algoritmos para comparar imagens de uma década, tiradas em série, que distinguiam estrelas estacionárias, luas e galáxias ao redor de Saturno




Saturno é o planeta com mais luas do sistema solar(foto: Divulgação/ Nasa)Júpiter perdeu o posto de planeta com maior número de luas em órbita. De acordo com a União Astronômica Mundial, o número de luas que orbitam Saturno chegou a 82, superior às 79 do planeta jupteriano. 


A novidade foi anunciada pelo Minor Planet Center ao usar algoritmos para comparar imagens de uma década, tiradas em série, que distinguiam estrelas estacionárias, luas e galáxias ao redor de Saturno. 


Desde a criação do sistema solar, grandes quantidades de gás e poeira orbitam o Sol e, assim, se fundiram aos oito planetas conhecidos. À vista disso, astrônomos acreditam que, no caso de Saturno, asteroides e cometas próximos foram capturados pela gravidade do planeta e o circulam desde então.


Segundo Scott Sheppard, astrônomo da Carnegie Institution for Science, em entrevista ao The Guardian, a maior parte das luas externas que circundam Saturno estão em órbita retrógrada, o que significa que orbitam o planeta para trás e, por isso, podem pertencido a uma lua-mãe muito maior que se separou há bilhões de anos.


"Esse tipo de agrupamento de luas externas também é visto em torno de Júpiter, indicando colisões violentas ocorridas entre luas no sistema saturniano ou com objetos externos, como asteróides ou cometas", contou Sheppard ao jornal The Guardian.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

BRASIL ‘MESTIÇO’

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“O Brasil é um país mestiço.” Essa afirmação, tão comum ao se falar da composição da população brasileira, e que tem seu lado de verdade, é generalizante demais – razão por que é muito perigosa. A ideia que vem associada é a de que somos um país de ‘mistura de raças’, e, por sua vez, deriva de um entendimento que não apenas reconhece a existência de raças, como quase sempre vem acompanhado do ‘mito das três raças’, que apresenta como base para a formação da população brasileira componentes indígenas, negros e brancos. Isso pode até dar letra de samba – mas será que faz sentido para nossa história?

Raça como conceito científico não existe. Também é errôneo pensar que o povo brasileiro é resultado da miscigenação de africanos, europeus e populações indígenas. Mesmo quando se incluem outras contribuições ‘raciais’, como japoneses e libaneses, nesse caldo, erramos ao afirmar que essa ‘mistura’ teria ocorrido de forma natural e quase sempre harmoniosa.

No século 19 e nas décadas iniciais do século 20, o cruzamento de ‘raças’ era considerado um perigo de degeneração, e o ‘embranquecimento’ da população, um alvo a alcançar. O pensamento dominante na época via o desaparecimento da herança cultural e biológica de negros e indígenas como fator de progresso.

 

‘A Redenção de Cam’, pintura de Modesto Brocos y Gomes, retrata uma família miscigenada: avó negra, mãe mulata, pai e filho brancos. No século 19, o ‘embranquecimento’ da população era um alvo a alcançar. (imagem: Wikimedia Commons)

Mas, ao longo do século 20, o Brasil se transformava: cresciam as lutas sociais, surgiam novas ideias e aumentava a presença popular na vida política. E esse povo que saía às ruas e passava a votar não era ‘puro e branco’ como no Velho Mundo, muito pelo contrário. Pouco a pouco, foram aparecendo novas formas de se referir aos brasileiros e, entre elas, fortaleceu-se a ideia de povo mestiço como um valor positivo e característico da nossa população.

O artigo ‘Das moscas aos humanos: a genética e a questão da ‘mistura racial’ no Brasil’ na CH 326 mostra como a questão da ‘formação racial brasileira’ era vista no século 19 – um dilema para a construção da nação e da identidade nacional – e revela o interesse dos cientistas, já em meados do século 20, no estudo da variabilidade genética da população brasileira.


Povo cordial?

Junto com a construção da ideia de que a mistura entre povos de diferentes origens sempre foi tranquila e natural por aqui, veio aquela sobre a índole pacífica e cordial do povo brasileiro. Seríamos uma combinação perfeita de gente de pele morena, sorriso nos lábios, muita simpatia, sempre vivendo em paz, mesmo em condições muito difíceis. Trata-se de uma bonita imagem para ser assumida internamente e vendida como mercadoria atraente ao exterior. Mas teria isso um fundo de verdade?
O Brasil foi o país que mais recebeu africanos escravizados na história da humanidade

Se pesquisarmos a história do Brasil, a resposta é não. Uma longa trajetória de lutas e resistência de africanos e seus descendentes escravizados, assim como de guerras promovidas contra grupos indígenas que lutavam para permanecer nas suas terras ancestrais, mostra totalmente o contrário. O Brasil foi o país que mais recebeu africanos escravizados na história da humanidade: foram quase quatro séculos e mais de 4 milhões de africanos chegando aos portos brasileiros pelo comércio escravista. Somos o segundo país do mundo em população de origem africana, e o primeiro fora da própria África. E, hoje, mais da metade dos brasileiros se declara negro ou pardo.

Muitos de nós, entretanto, desconhecem o legado cultural dos povos africanos para o país. A história dos nossos antepassados até há bem pouco tempo não entrava nos livros didáticos e nas salas de aula brasileiras, onde predominava uma história europeia e ‘branca’. Isso vem mudando, embora devagar; ainda se vê muito preconceito e intolerância. Desde 2003, vigora uma lei que tornou obrigatório o ensino dessa parte da história. Conhecer a memória da África e dos negros no Brasil, assim como das culturas indígenas, significa mudar a perspectiva, e fazer com que os brasileiros possam se ver de outra maneira.


Ajustes necessários

É preciso repensar a ideia de africano como um todo único. A África é um continente e, mesmo ao sul do deserto de Saara, onde habitam em sua maioria povos de pele escura, há, e desde há muito tempo, uma enorme variedade de línguas, culturas, religiões, costumes e aparências entre os diferentes grupos humanos. Esses grupos interagiram e disputaram espaços e o domínio sobre produtos e rotas de comércio. Alguns se misturaram e deram origem a outros povos, como ocorreu em outros continentes e regiões do mundo.


Origens dos africanos escravizados no Rio de Janeiro no século 19 (no mapa, fronteiras do século 20). Grupos étnicos: 1. Bacongo; 2. Nsundi; 3. Tio, Monjolos; 4. Bobange; 5. Bundo; 6. Quissama; 7. Libolo; 8. Ovimbundo; 9. Ganguela; 10. Iaô; 11. Macua;12. Tumbuca; 13. Achanti; 14. Daomé; 15. Iorubá; 16. Ibo; 17. Fulani; 18. Hauçá; 19. Bornu; 20. Nupe. (imagem: Adaptada de KARASH, Mary. ‘A vida dos escravos no Rio de Janeiro, 1808-1850. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p .53.)

A ideia de ‘africano’ surgiu apenas no século 19, vinculada à luta contra o tráfico e a escravidão. É, ao mesmo tempo, uma resposta e um novo significado ao tratamento dado pelos europeus aos nativos do continente. Por trás da generalização do termo, estava o objetivo da dominação europeia e uma justificativa para exercê-la. É difícil precisar a origem dos africanos trazidos para o Brasil. Muitos eram capturados longe do litoral, apesar de receberem o nome do local de partida. Outros – ao longo da travessia e em sua inserção na sociedade brasileira, no universo de outros nativos da África escravizados –, assumiam uma identidade que fazia referência ao seu local de origem. Outros, ainda, integravam-se a grupos da mesma região de procedência, ainda que pertencessem a povos diferentes.

Assim, os chamados ‘cabindas’ no Brasil, trazidos da região da baía de Cabinda (hoje em Angola), poderiam ser nsundis, tekes e gabões. Incluíam-se entre eles muitas vezes os anjicos e monjolos. Os ‘congos’ seriam originados de diversos grupos situados na vasta rede comercial do rio Zaire (Congo). E os ‘angolas’ podem ter sido trazidos do entorno da cidade de Luanda, mas também da área de Cassange ou do vale do rio Cuanza.

Esses grupos formaram a maioria dos cativos transportados para o Brasil, originários da grande região Congo­Angola. Mas houve muitos outros. Os ‘moçambiques’ poderiam ser macúas, ou senas, ou mujaus, entre outras origens, capturados em uma ampla área que abrangia o que é hoje o sul da Tanzânia, o norte de Moçambique, o Malauí e o nordeste da Zâmbia. Os africanos embarcados na África Ocidental (região do golfo da Guiné ou sua subdivisão, a Costa da Mina) poderiam ser todos incluídos no grande grupo que ficou conhecido como mina aqui no país, sendo, por sua vez, iorubas (também conhecidos como nagôs), hauçás, ibos, daomeanos ou mahís.
Havia escravos cristãos, muçulmanos e aqueles que acreditavam em religiões nativas. Eram povos com histórias, modos de vida e saberes distintos

Alguns entre os africanos escravizados eram cristãos, outros muçulmanos – tinham inclusive os que liam e escreviam em árabe – e, em sua maior parte, acreditavam em deuses de suas religiões nativas. Eram povos com histórias, modos de vida e saberes distintos – alguns trouxeram conhecimentos sobre técnicas agrícolas em clima tropical, outros eram mineradores experientes, outros artesãos ou conhecedores de práticas curativas.


Retratos da diversidade

Jean­Baptiste Debret (1768­1848), artista francês estudioso da natureza no Brasil, retratou os diferentes tipos de mulheres africanas que pôde observar na cidade do Rio de Janeiro. Nem na própria África seria possível encontrar tantos representantes de povos daquele continente como aqui. Debret produziu aquarelas que mostravam a diversidade de origens das mulheres que haviam sido trazidas e escravizadas no nosso país.

Com seus trajes e penteados, adornos e marcas faciais e de estética própria – como a prática de limar os dentes – essas mulheres afirmavam suas diferenças, também percebidas em suas tradições culturais e idiomas. Nada mais distante de suas vidas que a ideia de uma África no singular ou de características de comportamento e crença que unissem todas elas em um denominador comum. Essas africanas eram tão diferentes entre si como homens e mulheres europeus de países distintos.

Conhecer essas histórias africanas é uma maneira de desmascarar essa uniformidade inventada, e reconhecer o rico mapa da diversidade ‘negra’ que faz parte de nossas origens.

E de que vale saber essas diferenças todas e questionar uma imagem idealizada de país mestiço? Serve para nos aproximar de outras histórias que nos pertencem e nos darão a chance de chegar mais perto de entender que o tanto que nos diferencia nos aproxima, e nos faz mais humanos. Afinal, o racismo que se vê e percebe no Brasil é como uma mosca na sopa dos estudos sobre a nossa miscigenação.
Revista Ciência Hoje

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

THANOS: AMBIENTALISTA OU TIRANO ULTRAPASSADO?


Assim como Malthus fez no século 18, vilão do filme Vingadores: ultimato acredita que o excessivo crescimento populacional pode esgotar os recursos do planeta e que a solução é reduzir o número de humanos.


Em uma lua pacata e tecnológica chamada Titã, nasce Thanos, irmão de Eros e filho de Mentor, governador do satélite. Devido a uma crise de falta de alimentos, Thanos viu sua terra natal quase entrar em colapso. Quando ficou mais velho, obstinado em evitar o mesmo destino para outros astros, iniciou uma jornada a inúmeros planetas com o objetivo de aniquilar metade da população do universo e, assim, restabelecer o equilíbrio cósmico entre população e recursos. Apesar de uma ação obviamente reprovável, a intenção do supervilão de Vingadores: ultimato era acabar com a fome, as guerras e todo tipo de desigualdade, melhorando a qualidade de vida da população sobrevivente.



Diferentemente de Thanos, a solução de Malthus para superar o problema não era matar, mas sim a abstinência sexual voluntária e o casamento tardio, principalmente nas classes mais baixas


No final do século 18, um pastor anglicano e economista britânico chamado Thomas Malthus teve uma leitura de mundo similar à do personagem da Marvel. Para ele, a população estava crescendo em uma progressão geométrica (1, 2, 4, 8, 16, 32…), enquanto a produção de alimentos só conseguia crescer em uma progressão aritmética (1, 2, 3, 4, 5, 6…). Assim, era questão de tempo até a quantidade de gente no mundo superar a quantidade de comida. Quando isso acontecesse, haveria fome, doenças e guerra, que matariam várias pessoas, restabelecendo um equilíbrio na natureza.

Polêmico, Malthus defendia que os culpados pela possível crise de recursos eram as pessoas pobres, porque tendiam a ter mais filhos, sem condição de criá-los. Diferentemente de Thanos, a solução de Malthus para superar o problema não era matar, mas sim a abstinência sexual voluntária e o casamento tardio, principalmente nas classes mais baixas.


Efeito Malthus

Embora Malthus não tenha matado ninguém diretamente, suas ideias inspiraram uma série de desastres. Alguns exemplos são: a Leis dos Grãos, em 1815, que levou a um período de fome, doenças e emigração em massa na Irlanda; a Lei dos Pobres, em 1834, que resultou na criação das ‘casas de trabalho’ na Inglaterra, espécies de campos de concentração para indigentes; a recusa do vice-rei da Índia, Lord Lytton, em enviar ajuda humanitária depois da morte de 10 milhões de indianos vítimas de fome entre 1876 e 1878; o Darwinismo Social, que defendeu a existência de humanos superiores a outros; o Holocausto; a esterilização forçada que mulheres de vários países sofreram; e a política do filho-único na China.

Apesar de Thanos ter matado um sem-número de pessoas, sua visão de mundo não carregava preconceito e elitismo, como se vê em Malthus e seus seguidores. Sua proposta era matar metade da população aleatoriamente, sem escolher entre pobres ou ricos. Assim, Thanos atuaria quase como uma força cega – e inevitável – da natureza, o que não minimiza o problema de sua decisão.


Visões equivocadas do mundo

O grande erro de Malthus foi não prever que a tecnologia avançaria a tal ponto que alimentos seriam produzidos em escalas industriais, crescendo muito mais do que em uma progressão aritmética. Outra importante crítica que se faz à teoria malthusiana é baseada no conceito de transição demográfica, proposto já no século 20 pelo demógrafo norte-americano Warren Thompson (1887-1973).

Segundo ele, os países passam por quatro principais fases de transição demográfica: a primeira, com baixo desenvolvimento e pouco crescimento populacional; a segunda, em que a sociedade evolui e há explosão demográfica; a terceira, marcada pela industrialização e modernização do país, com queda no aumento da população; e a quarta, onde está a maioria dos países desenvolvidos, com taxas de natalidade e mortalidade baixas e crescimento populacional próximo a zero.



Thanos e os neomalthusianos

É curioso que um ser de inteligência sobre-humana possa defender uma teoria econômica tão ultrapassada como a de Malthus. Podemos compreender seu erro de leitura olhando para os neomalthusianos. Segundo esse grupo, mesmo com toda a tecnologia do mundo, a fome e a pobreza resistiriam. Para eles, o excesso populacional ainda é causa não só da fome e da pobreza, como também de gastos excessivos do governo com educação e saúde, afetando negativamente a economia. Até hoje existem correntes derivadas do malthusianismo.

Os ecomalthusianos, por exemplo, colocam a culpa do esgotamento dos recursos naturais da Terra no excesso de pessoas. Há não muito tempo, ouvimos políticos brasileiros propondo o controle de natalidade da população pobre, por meio de cirurgias de laqueadura e vasectomia, como solução para a economia, a miséria e a violência. E há aqueles que reúnem o pior de Thanos e Malthus: a crença de que a causa da fome e da pobreza é o excesso de pessoas e de que a pena de morte para aqueles de comportamento desviante é solução que garantirá maior qualidade de vida para os cidadãos de bem. Seriam esses os MalthusiThanos?

O erro dessas pessoas está em desconsiderar informações cruciais da teoria de Thompson. Como fica claro no conceito de transição demográfica, é justamente a educação, a saúde e o desenvolvimento da ciência e tecnologia que ajudam na regulação do crescimento da população. Da mesma forma, a causa do possível esgotamento de recursos energéticos e das mudanças climáticas globais não é o crescimento populacional, mas o uso de combustíveis fósseis, o desperdício e a poluição dos recursos hídricos e da atmosfera com gases do efeito estufa etc.


Apesar de Thanos ter matado um sem-número de pessoas, sua visão de mundo não carregava preconceito e elitismo, como se vê em Malthus e seus seguidores



O fato é que há comida e dinheiro para que todos vivam com dignidade. Há recursos renováveis na natureza (como etanol, biomassa, biodiesel) e fontes energéticas que não poluem tanto o meio ambiente. Portanto, culpar quaisquer outras coisas por esses problemas é uma forma de criar justificativas para a manutenção da desigualdade no planeta, onde 1% da população concentra 87% de toda a riqueza global (segundo estudo de 2017 da ONG britânica Oxfam).

Portanto, se Thanos tivesse investido em melhorar saúde, educação e redução da desigualdade, teria usado uma estratégia mais eficiente para salvar o planeta e não precisaria encarar os Vingadores.

Lucas Miaranda
Editor do blog Ciência Nerd
Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo
Universidade Estadual de Campinas
Revista Ciência Hoje

TODO UM ECOSSISTEMA AMEAÇADO


Desde a industrialização, os corais vêm sofrendo as consequências das ações humanas em nível global e local. A resposta desses seres vivos ao estresse que lhes é imposto é seu branqueamento, o que pode causar mortalidade em massa e a sua extinção. A boa notícia é que a recuperação pode ser viável, se os impactos a que os corais são submetidos forem controlados e fortemente reduzidos. Mas, para isso, é preciso começar agora.



Simples e sofisticados

Os corais são seres vivos exclusivamente marinhos, parentes das águas-vivas e anêmonas. Vivem principalmente em regiões tropicais do mundo onde a água é quente, clara e pobre em nutrientes, permitindo uma boa penetração da luz. Ao mesmo tempo em que estão entre os animais mais simples do planeta, por apresentarem apenas uma fina camada de tecidos recobrindo um esqueleto de carbonato de cálcio, são também bastante sofisticados e, muitas vezes, sensíveis a mudanças ambientais.



Os corais são animais simples, que apresentam uma fina camada de tecidos recobrindo um esqueleto de carbonato de cálcio. Eles vivem em regiões tropicais, de água quente, clara e pobre em nutrientes, permitindo uma boa penetração da luz. A imagem mostra um coral da espécie Siderastreastellata
Créditos: Jéssica Bleuel/ #DeOlhoNosCorais



Uma das sofisticações mais interessantes dos corais é seu modo de alimentação. Alguns corais podem obter energia a partir do consumo de pequenos animais que vivem na coluna d´água, conhecidos como plâncton, mas também por meio de uma associação de benefício mútuo com microalgas que vivem em seus tecidos. Essa associação é conhecida como simbiose: enquanto a microalga ganha abrigo nos tecidos do coral e recebe as condições necessárias para fazer a fotossíntese, ela provê ao coral hospedeiro açúcares produzidos durante a fotossíntese.


Estresse e branqueamento

Mudanças ambientais podem desencadear respostas de estresse, em que os corais expulsam essas microalgas dos seus tecidos. Como a cor dos corais muitas vezes depende dos pigmentos dessas algas, ao expulsá-las, o coral perde a cor, e seu esqueleto branco abaixo do seu tecido transparente torna-se visível. Por isso, essa resposta ao estresse é conhecida como branqueamento de corais, processo que deixa os animais mais susceptíveis a doenças, podendo, inclusive, causar a sua morte

Microalgas que vivem associadas aos corais
Créditos: Paula Laurentino/ #DeOlhoNosCorais



Coral em processo de branqueamento
Créditos: Edson Vieira Filho/ #DeOlhoNosCorais


A hipótese fisiológica para explicar esse fenômeno é baseada no estresse oxidativo. O aumento de temperatura estimula a reprodução das algas, que se tornam mais numerosas nos tecidos dos corais, e a alta incidência de luz aumenta a taxa de fotossíntese. Como um dos produtos da fotossíntese é o oxigênio, ocorre uma maior liberação dessa molécula nos tecidos dos corais, o que lhes causa irritação, e o excesso de oxigênio funciona como um gatilho para a expulsão das microalgas. Além disso, a competição com outros organismos, como macroalgas, eventos de soterramento, salinidade reduzida e infecções por organismos que causam doenças (patógenos), também podem resultar em branqueamento.


Ameaças e consequências

Com mais de 7 bilhões de pessoas vivendo no planeta, a atividade humana tem causado fenômenos de branqueamento de corais com uma frequência e intensidade jamais vistas. Em 2016, por exemplo, o branqueamento chegou a atingir 80% dos corais na Austrália, trazendo consequências que vão muito além da morte desses organismos. Recifes de coral inteiros branquearam em poucos meses e morreram em menos de um ano.



Com a morte dos corais, os recifes perdem complexidade estrutural e deixam de ser abrigos importantes para peixes e outros organismos, resultando em uma enorme perda de diversidade(figura 4). Além das espécies, perdem-se também os benefícios que elas proveem à humanidade, como segurança alimentar, turismo e proteção costeira.


Peixes juvenis nadando ao redor de coral da espécie Milleporaalcicornis. Os recifes de coral são um importante abrigo para peixes e outros organismos
Créditos Jéssica Bleuel/ #DeOlhoNosCorais



Desde a industrialização, passamos a emitir enormes quantidades de gases que aumentam a intensidade do efeito estufa na atmosfera, provocando o aquecimento da terra e dos oceanos. É como se esses gases formassem um enorme cobertor sobre o planeta que retém o calor, processo popularmente conhecido como aquecimento global.

Um dos principais gases causadores desse fenômeno é o dióxido de carbono, que, além de aumentar o efeito estufa, se dissolve na água do mar, tornando-a mais ácida. Esse processo, conhecido como acidificação dos oceanos, prejudica o crescimento dos corais, devido ao seu esqueleto de carbonato de cálcio, e pode ter efeitos negativos também sobre outros animais, como os moluscos que fazem conchas.

Além de sofrerem os impactos globais derivados da emissão de gases estufa na atmosfera, os corais ainda estão sob forte pressão de atividades humanas em escala local. Entre elas, estão a coleta ilegal, o turismo desordenado e a poluição por resíduos sólidos e químicos, como no caso do simples uso de um protetor solar.

No início do século 19, era comum utilizar esqueletos de coral na construção civil, fosse para obter cal dos seus esqueletos ou para uso direto na construção de paredes e muros. Mesmo que esse costume tenha sido praticamente extinto no Brasil, a coleta ilegal de corais para aquarismo ou fins decorativos ainda é um problema. Já imaginou o que aconteceria se todo mundo resolvesse levar um coral para decorar sua casa? Além de causar a morte da colônia coletada, essa atividade resultaria na diminuição da complexidade estrutural dos recifes, prejudicando diversos organismos que dela dependem.

Embora o turismo possa ser um grande aliado da conservação marinha, quando é feito de maneira desordenada pode gerar danos severos aos corais e espécies que vivem nos recifes. Os corais têm um tecido muito fino sobre um esqueleto duro, e um turista desavisado pode facilmente confundi-lo com uma pedra. Às vezes, um simples toque já é suficiente para causar lesão no tecido do coral, deixando-o mais susceptível a doenças e à morte.


Bons e maus exemplos

Existem alguns bons exemplos de ordenamento de turismo em ambientes recifais no Brasil, onde condutores são capacitados para orientar os turistas a não tocarem ou pisarem nos corais. Há outros locais onde o turismo ocorre em áreas menos sensíveis, ou onde o uso de nadadeiras é restrito. O turismo de mergulho autônomo, quando mal ou pouco orientado, também pode causar toque e revolvimento do fundo, podendo trazer consequências negativas não apenas aos corais, mas ao recife como um todo. Portanto, a melhor saída para evitar esses impactos é a conscientização. Existem evidências científicas de que uma explicação clara antes da atividade de turismo aquático e mergulho reduz a quantidade de toques nos organismos e melhora significativamente a conduta dos mergulhadores embaixo d’água.

Outra questão relacionada com o turismo e que frequentemente vem à tona em discussões é a relacionada ao uso de protetor solar. Algumas substâncias presentes nesses produtos podem causar branqueamento, afetar a formação e o desenvolvimento das larvas dos corais, e até provocar alterações no DNA do animal, reduzindo seu tempo de vida e comprometendo seu desenvolvimento e reprodução. Os protetores que contêm oxibenzeno foram indicados como os mais nocivos aos corais. O curioso é que a maior parte das evidências para o efeito negativo do protetor solar e de seus componentes químicos sobre a saúde dos corais vem de experimentos em laboratório. A grande questão agora é determinar qual é a concentração necessária desses compostos na água para que eles tenham tantos efeitos negativos sobre os corais. Onde e como atingimos essa concentração em situação natural? Ou seja, quantos banhistas cobertos de protetor solar seriam necessários para atingir a concentração que prejudica esses animais?

Enquanto os cientistas buscam respostas para essas perguntas, o melhor a fazer é escolher as marcas menos tóxicas disponíveis no mercado e evitar usar protetor solar quando entrar em pequenas poças ou piscinas de maré, comuns em diversas praias do Nordeste, por exemplo. Se a quantidade de água for muito pequena, o efeito negativo sobre os corais pode ser mais intenso e rápido. Existem camisetas, calças e bonés com ótima proteção solar para usar nessas ocasiões, em vez de abusar desses produtos.

Os corais também podem ser afetados por resíduos sólidos, como o agora famoso microplástico. Apesar de ainda ser uma área de pesquisa em desenvolvimento, há evidências de que a maioria dos corais pode ingerir microplásticos, sendo que alguns ficam tentando digeri-los por algum tempo, enquanto outros rapidamente rejeitam essas partículas por reconhecerem sua indigestibilidade.

Outras espécies, quando entram em contato com microplástico, mas sem ingeri-lo, aumentam sua produção de muco, como forma de limpeza dos seus tecidos. O fato é que, na maior parte dos casos, os corais que tiveram contato com microplásticos exibiram branqueamento pontual ou necrose de tecido.


Ameaças de larga escala

Outras ameaças de maior escala, como a exploração de petróleo ou a construção de portos nas proximidades de bancos coralíneos, também trazem bastante preocupação. Recentemente, a liberação do leilão de áreas de exploração de petróleo no entorno do banco dos Abrolhos, arquipélago do oceano Atlântico, no sul da Bahia, causou apreensão, uma vez que potenciais acidentes de derramamento afetariam diretamente o maior banco de corais do Atlântico Sul.

De maneira similar, a construção de portos exige uma grande modificação do hábitat, podendo gerar sérios danos aos corais e ambientes recifais no entorno desses empreendimentos. A melhor solução é um bom planejamento, que leve em conta impactos e benefícios ambientais, sociais e econômicos desses empreendimentos em zonas marinhas e costeiras.


O futuro dos corais

Será que um coral consegue se recuperar depois de um evento de branqueamento? A resistência a esses eventos e a recuperação dos corais dependem muito da intensidade e da frequência dos impactos, mas também de quantos impactos simultâneos os corais estão sofrendo.

Se há, por exemplo, um aumento brusco de temperatura por um período curto em um local protegido de poluição, os corais provavelmente terão uma boa chance de resistir, ou mesmo de se recuperar após um branqueamento. Mas, se além do estresse de temperatura, os corais ainda estiverem sob influência de poluição intensa, isso pode reduzir bastante tais possibilidades. Ou seja, a recuperação após o branqueamento é ainda viável se conseguirmos controlar os demais impactos em escala local.

Trabalhos científicos apontam que, embora tenha havido um grande evento de branqueamento em Abrolhos em 2016, a mortalidade foi relativamente baixa, indicando que os corais podem se recuperar dentro de uma área protegida, como é o caso desse parque nacional. Mesmo na Austrália, diversos recifes conseguiram se recuperar após um evento de branqueamento massivo.

Apesar da boa resposta desses casos, é importante ressaltar que, se a frequência e intensidade dos impactos aumentarem, os corais podem passar a não reagir tão bem. Então, o que podemos fazer efetivamente é reduzir impactos locais, como esgoto, poluição, pisoteio, coleta, sobrepesca etc., além de diminuir nossas emissões de gases estufa. Essas ações darão pelo menos uma chance melhor aos corais.

Por outro lado, a ciência já está correndo em paralelo, criando técnicas, por exemplo, para remediar o branqueamento de corais por meio de probióticos que auxiliam na recuperação, ou por meio da reprodução de corais mais resistentes. Embora promissoras, essas ações ainda estão um pouco distantes de se concretizar. Precisamos agir agora.

Existem esforços e tratados internacionais, como o Acordo de Paris, em que diversos países se comprometeram a reduzir suas emissões de gases estufa. O Brasil, por exemplo, se comprometeu a reduzir, até 2025, as emissões a níveis 37% menores do que aqueles que tínhamos em 2005. Para isso, os países devem adotar práticas de produção mais sustentáveis, como reduzir o uso de combustível fóssil, mudando a matriz energética. É um longo caminho, mas possível e necessário.


Qualquer um pode ajudar

Todos os dias, milhares de pessoas estão em contato com o mar e observam corais ao longo de toda a costa brasileira. Já imaginou quanta informação seria gerada se essas pessoas pudessem compartilhar o que viram com cientistas? Pois hoje elas podem! Basta compartilhar as fotos ou vídeos dos corais nas redes sociais, indicando a data e localização da foto e marcando #DeOlhoNosCorais.

Essas fotos são compiladas pela nossa equipe, que faz a identificação da espécie e um diagnóstico de saúde do coral. Com a data e o local da foto, conseguimos também acessar dados oceanográficos de temperatura da água, por exemplo. Esses registros passam a fazer parte de um banco de dados que nos permite avaliar a saúde dos corais em toda a costa brasileira e, praticamente, em tempo real!

Temos recebido informações de branqueamento em diversos estados (RN, PB, PE, AL, SE, BA, RJ, SP, PR e SC). Agora, além do branqueamento, o projeto #DeOlhoNosCorais está focado também em encontrar e registrar histórias de recuperação da saúde dos corais. E você? Já compartilhou sua foto com a gente?

Qualquer pessoa pode compartilhar fotos ou vídeos dos corais com os cientistas e participar do monitoramento desses organismos na costa brasileira
Créditos: Edson Vieira Filho/ #DeOlhoNosCorais


Com a ajuda das informações enviadas pelos cidadãos, o projeto#DeOlhoNosCorais já conseguiu monitorar a saúde desses organismos em 10 estados do litoral do Brasil
Créditos: Edson Vieira Filho/ #DeOlhoNosCorais


Guilherme Ortigara Longo
Departamento de Oceanografia e Limnologia,
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Revista Ciência Hoje

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Iceberg de 315 bilhões de toneladas se desprende da Antártida


Jonathan Amos
BBC


Direito de imagemCOPERNICUS DATA/SENTINEL-1/@STEFLHERMITTEImage caption
Sistema de satélite Sentinel-1 da União Europeia capturou essas imagens para fazer a comparação antes e depois

A plataforma de gelo Amery, localizada na na Antártida, acaba de produzir seu maior iceberg em mais de 50 anos.

O bloco tem uma área de 1.636 km² — um pouco maior que a cidade de São Paulo — e foi batizado de D28.

Assim que começa a se deslocar, um iceberg desse tamanho passa a ser monitorado e rastreado, pois no futuro pode se tornar um risco para o transporte marítimo. A Amery não produzia um iceberg tão grande desde a década de 1960.

Amery é a terceira maior plataforma de gelo da Antártida e um importante canal de escoamento para o leste do continente.

A plataforma é a extensão flutuante de várias geleiras que fluem na direção do mar. Perder icebergs para o oceano é a maneira como essas correntes de gelo mantêm o equilíbrio diante dos acúmulos de mais neve.


Mas os cientistas já previam esse acontecimento. O interessante é que boa parte da atenção sobre a área foi focada no leste do trecho que se separou.


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AImage caption'Dente mole' retratado no início dos anos 2000; D28 é vista se formando à esquerda

'Dente' vizinho

Este é um segmento da Amery que ficou carinhosamente conhecido como Dente Mole, devido à sua semelhança em imagens de satélite com a dentição de uma criança. Ambas as áreas de gelo tinham o mesmo sistema de fendas.


Mas, embora pendente, o Dente Mole ainda continua preso. O D28 é que foi "extraído".

"É um molar quando comparado a um dente de leite", disse à BBC a professora Helen Fricker, da Scripps Institution of Oceanography.

Fricker havia previsto em 2002 que o Dente Mole se descolaria em algum momento entre 2010 e 2015.

"Estou empolgada em ver esse evento após todos esses anos. Sabíamos que isso aconteceria eventualmente, mas, para ficarmos mais espertos, não aconteceu exatamente quando esperávamos", disse ela.

A pesquisadora do Scripps enfatizou que não havia ligação entre este evento e as mudanças climáticas.

Dados de satélite capturados desde a década de 1990 mostraram que a Amery está em equilíbrio com o ambiente, apesar de sofrer forte derretimento da superfície durante o verão.

Direito de imagemRICHARD COLEMAN/UTASImage caption
Amery, 3ª maior plataforma de gelo da Antártida, não produzia um iceberg tão grande como esse desde a década de 1960

"Embora haja muito com o que se preocupar na Antártida, ainda não há motivo de alarde em relação a essa plataforma de gelo em particular", acrescentou a professora Fricker.

Entretanto, a Divisão Australiana da Antártida vai observar a Amery de perto para ver como ela reage. Os cientistas da divisão têm instrumentos na região.

É possível que a perda de um iceberg tão grande mude o equilíbrio na plataforma de gelo. Isso pode influenciar o comportamento das rachaduras e até a estabilidade do Dente Mole.

Calcula-se que o D28 tenha cerca de 210 metros de espessura e cerca de 315 bilhões de toneladas de gelo.

O nome vem de um sistema de classificação administrado pelo Centro Nacional de Neve e Gelo dos Estados Unidos, que divide a Antártida em quadrantes.

O quadrante D cobre as longitudes de 90 graus Leste a zero grau, o Meridiano de Greenwich. O tamanho do D28 é ofuscado pelo poderoso iceberg A68, que rompeu com a plataforma de gelo Larsen C em 2017. Atualmente, ele cobre uma área três vezes maior.

As correntes e ventos costeiros levarão o D28 para o oeste. É provável que demore vários anos para que se desmanche e derreta completamente.

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