sábado, 14 de fevereiro de 2026

Minerais críticos: a negociação que separa país de colônia





Alfredo Lopes


Se conduzida com inteligência, pode se converter em motor de reindustrialização, redução de dependência tecnológica, geração de empregos qualificados e fortalecimento territorial.

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Há temas que parecem econômicos, mas são desafio civilizacional.

Minerais críticos — terras-raras, lítio, grafite, níquel, cobalto — deixaram de ser um capítulo técnico da mineração para se tornarem eixo de soberania. O debate não é mais sobre a rocha que se extrai. É agora sobre o que se constrói depois dela: refino, processamento, ligas especiais, ímãs permanentes, baterias, semicondutores, defesa, inteligência artificial.

A primazia das disputas por matérias primas no século XXI está ficando cada vez mais em segundo plano. A disputa por cadeias produtivas é o que dá o tom no mundo de hoje. E cadeias produtivas são aquilo que transforma os territórios trazendo desenvolvimento, ou em plataforma de extração dependente e subdesenvolvida.

O Brasil está diante de uma dessas encruzilhadas históricas.

Controle e manufatura das commodities é real poder

A corrida global por minerais críticos não é retórica ambiental nem modismo industrial. Ela responde a três vetores estruturais que não retrocedem: a transição energética, a digitalização da economia e a reorganização estratégica da indústria de defesa.

Tudo isso exige insumos específicos, concentrados e tecnologicamente sensíveis. A pergunta decisiva, portanto, não é quem tem reservas geológicas, mas quem domina o refino, o processamento e a engenharia aplicada.

Reservas sem cadeia produtiva são promessa incompleta. Cadeia produtiva sem soberania é dependência sofisticada.

O cobalto é um dos minerais críticos, ele é crucial para a produção de baterias, especialmente as utilizadas em veículos elétricos e dispositivos eletrônicos. Foto: Getty Images.

Negociação adulta começa em casa

A maturidade não começa na mesa de negociação internacional. Na verdade ela demanda uma definição interna de projeto nacional. Para que o Brasil precisa desses minerais nos próximos vinte anos?

Sem essa resposta clara, corremos o risco de repetir o velho padrão histórico: exportar barato, importar caro, e chamar isso de inserção no mercado global de bens de maior valor agregado.

Mineral crítico é insumo estratégico. Antes de pensar no mercado externo, o país precisa assegurar sua capacidade de abastecer demandas internas vinculadas à tecnologia, à energia, à defesa industrial e à modernização produtiva.

Exporta-se o excedente. Não se exporta a base do próprio futuro.
Beneficiamento não é triturar. É industrializar

Há uma diferença decisiva entre moer e dominar tecnologia.

Beneficiamento real significa controle das etapas industriais de separação, refino químico, metalização e transformação em componentes de alto valor agregado. É nesse elo que surgem empregos qualificados, engenharia nacional, pesquisa aplicada, arrecadação consistente e encadeamento produtivo duradouro.

Sem esse salto, o Brasil não vende apenas minério. Vende o direito de outro país ser tecnológico.

Negociação consequente exige transferência efetiva de conhecimento, instalação de capacidade industrial no território nacional e integração com a base produtiva existente. O contrário é retórica diplomática com resultado colonial.
Exclusividade é tutela disfarçada

Parcerias são bem-vindas. Mas subordinação geopolítica é a receita para a perpetuação do atraso.

Qualquer tentativa de impor exclusividade comercial ou alinhamento automático a um único bloco geopolítico compromete a autonomia brasileira. O país precisa negociar com múltiplos mercados, preservar liberdade diplomática e evitar tornar-se peça de disputa entre potências.

Mineração em terras raras. Foto: Bloomberg.

Território como variável econômica

Há ainda um equívoco recorrente de tratar salvaguardas ambientais e sociais como entraves.

Toda corrida por recurso tende a pressionar licenciamento, comunidades, água, rejeitos e rastreabilidade. Quando esses pilares são fragilizados, o custo aparece sob forma de judicialização prolongada, conflito social, perda de credibilidade internacional, encarecimento do crédito e exclusão de mercados exigentes.

Devastar para desenvolver é equação que gera lucro imediato e passivo estrutural. O território preservado não é obstáculo ao investimento. É garantia de estabilidade econômica de longo prazo.
Entre extrair e projetar um país

A negociação que se impõe ao Brasil não é meramente ideológica. Se conduzida com inteligência, pode se converter em motor de reindustrialização, redução de dependência tecnológica, geração de empregos qualificados e fortalecimento territorial.

Se conduzida com pressa ou ingenuidade, apenas atualizará o velho modelo extrativista com nova embalagem tecnológica.

Entre extrair e projetar um país há um abismo. A diferença está nas cláusulas que o Brasil escolher escrever.

Não é uma oportunidade qualquer. É um teste histórico

O Brasil pode transformar minerais críticos em base de reindustrialização, autonomia tecnológica e fortalecimento territorial.

Ou pode repetir o gesto automático de extrair, embarcar e assistir ao valor agregado florescer em outro lugar.

Entre ser fornecedor e ser protagonista há uma escolha silenciosa. Ela não será feita em discursos. Será feita em cláusulas.
Minerais críticos são infraestrutura de poder

O mundo disputa refino e tecnologia, não apenas extração. Exportar bruto é importar dependência. Negociação madura começa com definição de projeto nacional. Mercado interno estratégico vem antes do excedente externo.

Beneficiamento real significa industrialização e domínio tecnológico.

Transferência de conhecimento deve ser exigência contratual. Exclusividade compromete soberania. Território protegido é ativo econômico.A brasilidade estratégica se escreve em contratos inteligentes.

Alfredo é consultor ambiental, filósofo, escritor e editor-geral do portal BrasilAmazôniaAgora
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