sábado, 14 de fevereiro de 2026

Como surgiu a Amazônia? 250 milhões de anos que criaram a maior floresta tropical do planeta




Foto: Mauro Pimentel/AFP




Da separação de continentes aos rios voadores, conheça as forças geológicas, climáticas e biológicas que moldaram a Amazônia e explicam sua importância para o futuro climático do planeta.

A Amazônia transcende a definição de uma simples floresta tropical, ela é um sistema dinâmico, complexo e fundamental para o equilíbrio ecológico e hidrológico do planeta. Sua imensidão, com cerca de 6,7 milhões de km², abriga uma biodiversidade incomparável e exerce um papel insubstituível na estabilidade climática global.

A floresta funciona como um gigantesco sumidouro de carbono, com estoques estimados entre 80 e 120 bilhões de toneladas, uma capacidade que a torna peça central na mitigação do aquecimento global e a consolida como uma das “áreas úmidas vitais para o futuro climático”.

Para a ciência do sistema terrestre, a Amazônia é também um laboratório essencial. Projetos como o Amazon Tall Tower Observatory (ATTO) revelam a complexidade da floresta como engrenagem biogeoquímica. Estudos sobre meteorologia, vegetação e gases de efeito estufa mostram que a floresta opera como um sistema em sincronia e que alterações mínimas podem desencadear efeitos em escala continental.

Mas a Amazônia é também um território profundamente humano. Cerca de 3 milhões de indígenas, pertencentes a mais de 390 povos, vivem na Pan-Amazônia, expressando formas de vida, espiritualidade e conhecimento ecológico que há milhares de anos moldam e preservam a floresta.

As práticas de manejo, agricultura, culinária, medicina tradicional e uso sustentável dos recursos naturais constituem um patrimônio imaterial que sustenta ecossistemas inteiros. Comunidades ribeirinhas e extrativistas, por sua vez, carregam saberes detalhados sobre rios, igarapés, igapós e ciclos sazonais. A existência e os saberes desses povos são essenciais para a subsistência e a gestão dos ecossistemas e também para o próprio debate climático global.

Essa Amazônia contemporânea — vasta, diversa, culturalmente rica e integrada ao funcionamento do planeta — nos leva a uma pergunta inevitável: como essa teia complexa de vida se formou e se transformou até se tornar o coração ecológico da Terra? Como surgiu a Amazônia?

A resposta atravessa 250 milhões de anos de reengenharia planetária, em que placas colidiram, mares recuaram, montanhas surgiram e florestas se expandiram. Muito antes dos rios e das árvores, ali existia um oceano.
A Amazônia antes da floresta: As origens geológicas

Para compreender a Amazônia, é preciso recuar entre 300 e 100 milhões de anos atrás, aos períodos Paleozoico e Mesozoico. Naquela época, toda a América do Sul fazia parte do supercontinente Gondwana, junto com África, Antártica, Austrália e Índia. A região que hoje abriga o Rio Solimões e o Alto Purus estava submersa sob mares rasos, repletos de moluscos, peixes primitivos e plantas aquáticas.

Reserva Comunal Purús. Foto: Thomas Müller / SPDA.


Esses antigos mares deixaram como testemunho rochas sedimentares e fósseis marinhos encontrados em plena Amazônia, revelando que a paisagem atual não tem nada de estática. Na verdade, ela foi um dia, um fundo oceânico.

Concha de caracol fóssil de água doce, com similaridades aos moluscos marinhos, achada nas margens de rios a oeste da Amazônia brasileira. Foto: Maria Inês F. Ramos / MPEG

A abertura do Atlântico e o nascimento dos Andes

Há cerca de 120 milhões de anos, o supercontinente Gondwana começou a se fragmentar. A África se separou da América do Sul, abrindo lentamente o Oceano Atlântico. Ao mesmo tempo, o choque das placas tectônicas no oeste eleva progressivamente uma cadeia montanhosa que mudaria para sempre a formação da futura floresta: a Cordilheira dos Andes.

Cordilheira dos Andes. Foto: Jorge Morales Piderit


A ascensão dos Andes alterou profundamente o relevo, o clima e o fluxo das águas. Antes disso, a drenagem amazônica não corria para o Atlântico, mas sim para o Pacífico. Com o levantamento da cordilheira, uma barreira geológica se formou, represando as águas e invertendo todo o sistema de drenagem continental. Esse bloqueio criou novas bacias internas e estabeleceu as condições para o surgimento de um gigantesco lago, o ponto ancestral do atual sistema amazônico.

As montanhas recém-formadas também passaram a bloquear ventos úmidos vindos do Pacífico, alterando padrões climáticos e contribuindo para redirecionar o fluxo das águas para o interior do continente. Esse processo seria o início da longa transformação que, milhões de anos depois, permitiria o nascimento do maior rio do planeta; o Rio Amazonas.

Mapa da Bacia do Rio Amazonas. Foto: Tunes Ambiental.

Quando o mar virou rio: A formação da bacia amazônica

Entre 23 e 10 milhões de anos atrás, no período Mioceno, a Amazônia não era florestada, mas sim um imenso complexo de lagos, pântanos e canais chamados pelos cientistas de Sistema Pebas. Imagine uma espécie de Pantanal colossal, que se estendia do atual Acre ao oeste do Pará.

Nesse ambiente úmido e lamacento viviam mega répteis, como crocodilos gigantes e tartarugas de mais de 2 metros, além de moluscos de água salgada e peixes enormes. A coexistência de fósseis marinhos e de água doce confundiu os primeiros naturalistas, mas hoje sabemos que o Pebas estava ligado ao Atlântico e ao Caribe por canais e estuários.

Reconstrução paleoartística de Stupendemys geographicus, a maior tartaruga que já existiu, nadando nas águas do antigo mega-pantanal amazônico. Em primeiro plano aparece um macho; atrás dele, uma fêmea. Na superfície, vê-se um Purosaurus. Foto: Cadena et al. (2020). Arte de Jaime Chirinos.

O nascimento do Rio Amazonas

Com o avanço dos Andes, o fluxo que antes seguia em direção ao Pacífico foi bloqueado. Lentamente, as águas se acumularam, transbordaram e romperam barreiras naturais, iniciando uma drenagem para o leste. Foi então que a Amazônia “virou” definitivamente para o Atlântico, há cerca de 10 a 8 milhões de anos, formando o esqueleto do sistema fluvial atual.

O Rio Amazonas é, portanto, um rio jovem em termos geológicos, um adolescente de poucos milhões de anos, apesar de carregar a memória de um oceano extinto.

Rio Amazonas. Foto: Anna Chaplygina

Clima, vegetação e megafauna na era das florestas

Com o fim do Sistema Pebas e o escoamento das águas para o Atlântico, o clima da região começou a mudar, permitindo a expansão das florestas tropicais. No entanto, essa vegetação não permaneceu estável ao longo do tempo. Durante o Pleistoceno (entre 2,6 milhões e 11,7 mil anos atrás), sucessivos períodos glaciais deixaram a Amazônia mais seca, o que afetou diretamente a extensão da floresta.

Para explicar esse contexto, surgiu a chamada Teoria dos Refúgios Florestais, proposta por pesquisadores como Jürgen Haffer e George Prance. Segundo essa ideia, durante as fases mais áridas, a vasta floresta amazônica se retraiu em áreas menores e isoladas, os chamados “refúgios”.

Ao redor dessas ilhas de floresta úmida, predominaram paisagens mais abertas, semelhantes a savanas. O isolamento entre os refúgios teria favorecido a evolução de novas espécies, ajudando a explicar por que a Amazônia abriga tantos organismos endêmicos (exclusivos da região).

Com aparência pouco usual, uacari-branco é uma das espécies endêmicas da Amazônia. Foto: Fábio Manfredini


Embora ainda seja um modelo influente, estudos mais recentes indicam que a savanização pode não ter sido tão intensa quanto se imaginava. Isso sugere que a biodiversidade amazônica também pode ter se formado por processos mais contínuos de diversificação ou por refúgios menores e mais localizados, conhecidos como áreas de endemismo.

Independentemente dos detalhes, o que a pesquisa deixa claro é que a Amazônia passou por grandes oscilações climáticas ao longo da sua história e, mesmo assim, mostrou uma capacidade notável de se reorganizar, persistir e evoluir.

A megafauna amazônica

Diferentemente das preguiças atuais, as espécies pré-históricas eram terrestres. Chegavam a 5 toneladas e se deslocavam apoiadas nas quatro patas, ficando “em pé” apenas para alcançar alimentos na copa das árvores. Ilustração: Rodolfo Nogueira.


Muito antes dos humanos, a Amazônia foi lar de criaturas impressionantes. Durante o Pleistoceno — período que se estendeu de 2,6 milhões até cerca de 11,7 mil anos atrás — a região era dominada por mamíferos de grande porte. Viviam ali preguiças gigantes de até 4 toneladas, mastodontes, roedores colossais e gliptodontes, tatus blindados do tamanho de carros compactos.

Esses animais moldavam a paisagem: abriam clareiras, dispersavam sementes e influenciavam diretamente a estrutura das florestas.

Comparativo de tamanho do tatu gigante com um ser humano. Foto: Grupo de Paleontologia da UFSCar/Divulgação


A extinção dessa megafauna ocorreu no final da última Era do Gelo, aproximadamente 10 mil anos atrás. Os cientistas atribuem esse desaparecimento a uma combinação de fatores. De um lado, as rápidas mudanças climáticas do início do Holoceno transformaram os habitats; de outro, a chegada dos primeiros seres humanos ao continente pode ter aumentado a pressão por meio da caça e da competição por recursos.

Esse evento de extinção marca o primeiro grande impacto ecológico provocado pela presença humana na Amazônia, um prenúncio das discussões atuais sobre como as ações humanas continuam a remodelar a floresta.

Com a estabilização climática do Holoceno, a floresta se tornou a principal fábrica de umidade do continente. A evapotranspiração das árvores passou a alimentar correntes atmosféricas que transportam água para grande parte da América do Sul.
Os rios invisíveis da Amazônia

A Amazônia não apenas responde ao clima, ela o constrói. A combinação entre calor, árvores de raízes profundas e rios caudalosos cria um sistema único de reciclagem de água, uma verdadeira “bomba biológica” de umidade sem paralelo no planeta.

A umidade liberada pela floresta é carregada pelos ventos alísios em direção aos Andes, que funcionam como uma muralha natural. Ao encontrar a cordilheira, o ar úmido se eleva, condensa e forma tempestades diárias, alimentando a maior máquina produtora de chuva da Terra.

A extensa copa das árvores amazônicas desempenha um papel crucial nesse ciclo. Por meio da evapotranspiração, a floresta recicla a água da chuva com enorme eficiência, liberando quantidades monumentais de vapor d’água que se transformam em correntes atmosféricas conhecidas como Rios Voadores.
Rios Voadores. Foto: Reprodução


O climatologista Carlos Nobre explica que esses rios invisíveis são fundamentais para o clima da América do Sul. A umidade que chega do Atlântico é reciclada várias vezes sobre a floresta antes de ser direcionada para o interior do continente. Mais de 40% da chuva no Cerrado e cerca de 15% da precipitação no Sudeste brasileiro vêm dos Rios Voadores, demonstrando que a estabilidade hídrica e agrícola de boa parte da região depende diretamente da integridade da Amazônia.

Essa interdependência também revela sua vulnerabilidade. Se a floresta perder sua capacidade de reciclar água, especialmente devido ao desmatamento, projeções indicam que os Rios Voadores podem diminuir em até 40%, o que poderia levar à savanização quase total do Cerrado e ao colapso dos sistemas alagados do Pantanal.
A fertilização transcontinental e a barreira dos Andes

Além disso, estudos mostram que a floresta recebe nutrientes transportados por ventos vindos do Deserto do Saara, que depositam fósforo e outros minerais essenciais sobre a Amazônia. Essa fertilização atmosférica transcontinental compensa uma característica crucial da região, a maior parte dos solos amazônicos é naturalmente pobre em nutrientes.

Isso ocorre porque são solos muito antigos, formados por rochas profundamente intemperizadas ao longo de milhões de anos, processo que provoca a lixiviação, lavagem contínua dos minerais pela chuva. A poeira africana funciona, portanto, como um reabastecimento vital.

Ao mesmo tempo, a Cordilheira dos Andes atua como uma barreira orográfica que redireciona as massas de ar úmidas para o sul, permitindo que os Rios Voadores abasteçam o Centro-Oeste, o Sudeste e até o Sul do Brasil. A combinação entre a fertilização vinda da África e o papel dos Andes sustenta o ciclo de evapotranspiração da floresta, responsável por liberar enormes quantidades de vapor d’água que, ao encontrar a cordilheira, se condensam e formam chuvas intensas em grande parte da América do Sul.

A Amazônia é, portanto, uma sinergia improvável: uma floresta que cria a própria chuva, alimentada pela poeira de outro continente e moldada por uma cordilheira que direciona seus rios invisíveis. É uma engrenagem climática sofisticada e frágil, da qual depende o futuro hídrico de grande parte do continente.

Rios voadores formados pela umidade da Amazônia transportam vapor d’água e levam chuvas para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, além de regiões do Paraguai, Bolívia e norte da Argentina. Foto: Brasil Amazôniia Agora.

Povos antigos e domesticação da floresta amazônica

A Amazônia não é apenas resultado de processos naturais, é também uma paisagem moldada pela ação humana. A visão da Amazônia como uma paisagem “intocada” é um mito refutado pela arqueologia. As evidências arqueológicas demonstram ocupação humana há pelo menos 10 mil anos, com redes de aldeias, agricultura intensiva e manejo sofisticado da biodiversidade.
Terras pretas de índio (TPI)

As Terras Pretas de Índio (TPI) são solos amazônicos caracterizados por camadas superficiais escuras, cuja origem é reconhecidamente antrópica. Pesquisas mostram que esses horizontes foram formados por antigas populações indígenas a partir do acúmulo de resíduos orgânicos, restos alimentares, carvão produzido pela queima controlada e outros materiais descartados ao longo de séculos.

Foto: Portal Amazônia.


O resultado é um solo extremamente fértil, em nítido contraste com os solos amazônicos típicos, geralmente pobres devido ao intemperismo intenso e à lixiviação. As TPIs concentram altos níveis de fósforo, cálcio, zinco, manganês e apresentam estoques de carbono orgânico que podem ser até cem vezes maiores do que nos solos adjacentes.

A temática tem sido estudada em revistas científicas internacionais, como Nature e Science, pela sua importância para a Amazônia e pelo potencial de descobertas antropológicas.

A identificação das Terras Pretas de Índio transformou a arqueologia amazônica. Ela demonstrou que grandes populações puderam viver por longos períodos em um mesmo território sem degradar o solo, contrariando a antiga ideia de que a região não suportava assentamentos densos e permanentes.

Pesquisas recentes indicam que essas áreas férteis não surgiram por acaso: foram resultado de um manejo deliberado de resíduos orgânicos, semelhante a uma “compostagem” comunitária, que possibilitou práticas agrícolas contínuas e sustentáveis.
Amazônia, uma floresta cultivada

O manejo sustentável dos recursos naturais também se expressou de forma marcante na domesticação de plantas. Povos amazônicos selecionaram e cultivaram dezenas de espécies — como mandioca, pupunha, cacau, açaí e castanha-do-pará — criando sistemas que iam muito além das roças tradicionais. Eles organizaram jardins florestais, áreas onde plantas úteis eram plantadas, cuidadas e redistribuídas ao longo das gerações.

Estudos mostram que muitos trechos da floresta que hoje parecem intocados abrigam concentrações incomuns de espécies domesticadas ou semidomesticadas, sinal claro de manejo humano antigo. Esse processo não apenas garantia alimento, remédios e materiais, mas também aumentava a diversidade e a resiliência dos ecossistemas. Em regiões como o Alto Xingu, o rio Madeira e o Baixo Tapajós, esses padrões de distribuição são tão marcantes que alguns autores afirmam que a Amazônia é, em grande parte, uma floresta cultivada.

Foto: Maurício De Paiva/InfoAmazonia


A descoberta de cidades perdidas e a revolução do LiDAR

O verdadeiro alcance da ocupação humana antiga na Amazônia só se tornou visível recentemente, graças ao uso da tecnologia LiDAR (Detecção de Luz e Medida de Distância). Esse método permite mapear o relevo abaixo da densa copa da floresta, funcionando como uma espécie de “radiografia” capaz de revelar estruturas e variações sutis no solo que seriam invisíveis a olho nu.

Mapa LIDAR da antiga cidade de Kunguints, na Amazônia equatoriana, revela ruas completas e alinhamentos de casas. Foto: Antoine Dorison e Stéphen Rostain.


Com o LiDAR, arqueólogos identificaram vastas redes de assentamentos complexos, incluindo geoglifos monumentais, valas escavadas, sistemas agrícolas e cidades com até 2.500 anos. Essas descobertas são especialmente marcantes em regiões como o Alto Xingu e o Acre. Um modelo matemático baseado nesses mapeamentos estima que ainda existam entre 10 mil e 24 mil estruturas pré-colombianas ocultas pela floresta.

Essas evidências demonstram que a Amazônia não era — e não é — uma floresta intocada. Trata-se de uma paisagem cultural, moldada e manejada por povos tradicionais ao longo de milênios. A própria distribuição atual de espécies importantes, como mandioca, cacau e açaí, reflete esse manejo contínuo. Compreender essa história de ocupação humana, marcada por estratégias sustentáveis de convivência com a floresta, torna-se fundamental para orientar os caminhos da conservação futura.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

A transição ecológica: Amazônia, Cerrado e Pantanal

As fronteiras da Amazônia formam zonas de transição biogeográfica que conectam a floresta úmida às savanas do Cerrado e aos grandes alagados do Pantanal. A diversidade nessas regiões é moldada por gradientes de altitude e, sobretudo, por variações de umidade e sazonalidade climática.

Essas transições não são simples linhas no mapa, mas corredores ecológicos ativos, por onde circulam fauna, polinizadores e fluxos genéticos que garantem a conectividade entre os biomas da América do Sul. Por isso, a integridade dessas áreas é essencial para a resiliência ecológica de todo o continente.

Em áreas de transição entre Amazônia e Cerrado, onde floresta úmida e savana se encontram e formam um dos ecótonos mais biodiversos do continente. Foto: Agro Estadão.


A interdependência fica ainda mais evidente no ciclo hídrico. Pesquisas mostram que o desmatamento na Amazônia compromete o mecanismo de reciclagem de umidade justamente nessas zonas de transição. Massas de ar que atravessam regiões desmatadas produzem até duas vezes menos chuva do que aquelas que passam sobre a floresta intacta. Como resultado, áreas como a porção leste da fronteira entre Amazônia e Cerrado já registram reduções de precipitação superiores a 10 mm por ano.

Esses dados revelam que a crise da Amazônia não se limita ao seu interior. Ela se manifesta também nos biomas vizinhos, evidenciando a profunda interdependência climática que liga toda a América do Sul.

Foto: CVC.

A diversificação e os mosaicos ecológicos da Amazônia atual

A floresta amazônica não é um bloco homogêneo, mas um mosaico intrincado de ecossistemas especializados: várzeas, igapós, terra firme, campinas, campinaranas e campos rupestres. Cada um desses ambientes reflete regimes hídricos, tipos de solo e condições de luz totalmente distintos, moldando comunidades de plantas e animais altamente adaptadas, muitas vezes exclusivas de cada habitat.

A terra firme, que nunca alaga, abriga as árvores mais altas da Amazônia e concentra a maior parte da biodiversidade conhecida, com solos bem drenados e grande complexidade estrutural. Já as várzeas são florestas que alagam todos os anos com as “águas brancas” ricas em sedimentos vindos dos Andes, o que torna esses ambientes mais férteis e extremamente produtivos. Em contraste, os igapós ficam inundados por longos períodos com “águas pretas” ou claras, pobres em nutrientes e mais ácidas, exigindo adaptações extremas, como sementes que germinam na água e raízes especializadas.

Foto: Tim Láman/Nat Geo Image Collection


As campinas e campinaranas, por sua vez, surgem sobre solos arenosos e pobres, formando paisagens abertas, com vegetação baixa e espécies muito especializadas, algumas com distribuição altamente restrita. Já os campos rupestres amazônicos, que ocorrem em afloramentos rochosos isolados, hospedam plantas endêmicas adaptadas à escassez de nutrientes e à alta exposição solar.

A dinâmica desses ecossistemas é tão intensa que, todos os anos, dezenas de novas espécies de peixes, insetos, árvores e fungos são descobertas pela ciência, reforçando que a Amazônia continua um dos centros evolutivos mais ativos do planeta.

Igarapé. Foto: André Dib.


Integridade Florestal e Estabilidade Climática

Para que a Amazônia continue evoluindo e atuando como reguladora climática, sua integridade é essencial. A ciência mostra que florestas preservadas mantêm microclimas estáveis, sustentam cadeias alimentares e são fundamentais para a resiliência ecológica. A floresta não apenas absorve carbono, ela cria as condições atmosféricas necessárias para sua sobrevivência e para os biomas ao redor.

Quando o desmatamento ou as mudanças climáticas reduzem a produtividade primária da floresta, sua capacidade de armazenar carbono é comprometida. Áreas degradadas podem deixar de funcionar como sumidouros de carbono, alimentando um ciclo perigoso de aquecimento e seca que ameaça todo o sistema amazônico.



A Amazônia e o Futuro da Terra


A trajetória de 250 milhões de anos da Amazônia demonstra a extraordinária capacidade da vida de se adaptar — à separação de continentes, à formação de mares internos e às grandes eras glaciais. O desafio atual, porém, não está apenas na magnitude das mudanças climáticas, mas sobretudo em sua velocidade, impulsionada por atividades humanas.
O Ponto de Não Retorno

O climatologista Carlos Nobre alerta que a Amazônia está perigosamente próxima de atingir um ponto de não retorno, o limite a partir do qual a degradação se torna irreversível e a floresta úmida começa a se transformar em savana.

As evidências mais preocupantes estão concentradas no sul e leste da Amazônia, região conhecida como “Arco do Desmatamento”, com cerca de 2,5 milhões de km². Ali, os sinais de estresse são claros.

  Mapa mostra a região do Arco do Desmatamento (polígono em preto). Fonte: PRODES/INPE.


A estação seca já se alongou entre 3 e 4 semanas, a umidade caiu 20% a 30%, e as temperaturas estão até 3°C acima da média histórica. Esses fatores criam um ciclo de feedback climático, no qual a degradação intensifica a seca, que por sua vez mata árvores adaptadas à umidade e acelera ainda mais o colapso climático.

Seca na Amazônia.


Resiliência Histórica versus Velocidade Antropogênica

A questão central é o descompasso entre a velocidade das pressões humanas, como a pecuária, agricultura, queimadas e desmatamento, e o ritmo natural de adaptação da floresta. Enquanto a Amazônia sobreviveu às lentas oscilações climáticas do Pleistoceno, as mudanças atuais ocorrem em escalas de tempo muito mais rápidas do que a capacidade das espécies de responder.

Se o ponto de não retorno for ultrapassado, os impactos serão severos. Até 70% da floresta pode colapsar em 30 a 50 anos, prejudicando de forma irreversível a capacidade da região de armazenar carbono e regular o clima global.

A história evolutiva da Amazônia é uma aula sobre a resiliência da vida, mas também um alerta: não podemos romper, em poucas décadas, um ciclo de equilíbrio que levou 250 milhões de anos para se estabelecer.

Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.
Portal Brasil Amazônia Agora

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