Mariana Vick
Cinquenta e quatro países registraram eventos generalizados de degradação de recifes, segundo agência americana. Espécies são fundamentais para ecossistemas marinhos. Litoral brasileiro também foi afetadoO Nexo depende de você para financiar seu trabalho e seguir produzindo um jornalismo de qualidade, no qual se pode confiar.Conheça nossos planos de assinatura.Junte-se ao Nexo! Seu apoio é fundamental.
FOTO: Jorge Lima

Corais em processo de branqueamento na Costa dos Corais, em Japaratinga (AL)
A Noaa, Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, informou na segunda-feira (15) que o mundo passa por um novo evento global de branqueamento de corais. Trata-se da quarta ocorrência desse tipo já registrada pela agência e a segunda identificada em menos de dez anos. Todos os três oceanos que abrigam esses recifes (Pacífico, Índico e Atlântico) foram afetados.
Cinquenta e quatro países registraram eventos generalizados de branqueamento desde fevereiro de 2023. A confirmação mais recente, que motivou o anúncio de segunda, veio do Oceano Índico ocidental, incluindo lugares como Tanzânia, Quênia e a costa oeste da Indonésia. O evento afeta ecossistemas vitais para a biodiversidade marinha e para a humanidade.
850 milhões de pessoas dependem das barreiras de corais para alimentação, trabalho e proteção contra temporais e erosões, segundo a ONG WWF (Fundo Mundial Para a Natureza)
Neste texto, o Nexo explica o que são os corais, o que é seu branqueamento e por que um novo evento de branqueamento massivo está acontecendo. Mostra também com qual frequência eventos dessa magnitude estão ocorrendo e detalha qual a sua gravidade para o ecossistema marinho.
O que são os corais
Corais são animais marinhos invertebrados, ou seja, sem espinha dorsal. Pertencem ao grupo dos cnidários, o mesmo das anêmonas e águas-vivas. Têm capacidade de formar, por baixo de seus tecidos, um esqueleto calcário, que dá a eles uma aparência similar a de pedras, além de fazê-los permanecer fixos no mesmo lugar.
Para sobreviver, os corais se aliam a algas, que vivem dentro de sua estrutura. Elas usam o animal para se proteger e obter nutrientes. Em contrapartida, produzem, por meio da fotossíntese, um açúcar chamado glicerol — que, quando sintetizado em excesso, torna-se a principal fonte de alimento dos organismos que as hospedam.
FOTO: NYIMAS LAULA/REUTERS - 03.JUN.21

Peixes nadando em recife de corais na Indonésia
O branqueamento de corais ocorre nos casos em que há perda dessas algas. Quando elas ficam expostas a estresse térmico (ou seja, ao calor), produzem substâncias tóxicas (as chamadas “espécies reativas de oxigênio”), e os corais, como resposta adaptativa, acabam as expulsando. Com isso, eles perdem sua fonte de energia e seu tecido fica translúcido.
Nem sempre o branqueamento significa a morte de um coral. Eventualmente, os organismos podem se recuperar desse tipo de ocorrência, caso voltem a se associar com novas algas. Sem sua principal fonte de alimento, no entanto, eles têm grandes chances de morrer, principalmente se os períodos de estresse forem longos ou severos, segundo a Noaa.
O que define um branqueamento global
Para haver um evento global de branqueamento, todos os três oceanos que abrigam corais (Pacífico, Índico e Atlântico) precisam tê-lo registrado em 365 dias, segundo os parâmetros da Noaa. Além disso, pelo menos 12% dos recifes em cada oceano devem ser submetidos a temperaturas que causam branqueamento. Não basta, portanto, que haja estresse térmico em lugares isolados: é preciso que ele se espalhe por grandes áreas do globo.
Mais de 54% dos recifes de corais do mundo experimentaram temperaturas de branqueamento desde fevereiro de 2023, segundo a agência americana. O percentual está aumentando cerca de 1% por semana. Há a possibilidade de este ser o “evento global de branqueamento mais extenso em termos de área já registrado”, segundo Derek Manzello, coordenador do programa Coral Reef Watch da Noaa, ao jornal The New York Times.
FOTO: Tom Bayly/Wikimedia Commons - 02/06/2011

Peixes marinhos com corais ao fundo
O mapa abaixo mostra as áreas de corais do mundo sob mais estresse térmico nos últimos dias. Lugares como a Grande Barreira de Corais (na Austrália), a região do Caribe, o litoral brasileiro e o Pacífico sul (incluindo países como Fiji, Tuvalu e Polinésia Francesa) estão entre os mais afetados. Locais como o estado da Flórida, nos Estados Unidos, também registraram alerta máximo ao longo de 2023.

A Noaa determina um evento global de branqueamento a partir da análise de temperaturas da superfície dos oceanos e de evidências dos recifes. A agência monitora o globo desde 1985, a partir de medições de satélites. Os dados acumulados no período mostram que, a cada nova ocorrência global de branqueamento, a situação tem se agravado:
primeiro evento (1998): 20% das áreas de corais sob estresse
segundo evento (2010): 35% das mesmas áreas sob estresse
terceiro evento (2014-2017): 56% das áreas sob estresse
quarto evento (2023-2024): mais de 54% até agora
O que explica o evento atual
A Noaa afirma que a principal causa para o atual evento de branqueamento de corais são as altíssimas temperaturas registradas nos oceanos no último ano. A mudança climática é a principal responsável pelo fenômeno. Os anos de 2023 e 2024 também foram marcados pela presença do fenômeno climático El Niño, que afeta diretamente o mar, como o Nexo conta no vídeo abaixo:
Jennifer Koss, diretora do programa de conservação de recifes de corais da Noaa, afirmou na segunda (15) que a ciência sugere há anos que o aquecimento dos oceanos deve intensificar os eventos de branqueamento. A mudança climática tem promovido o estresse mesmo de espécies conhecidas por serem mais resistentes ao calor. A emissão de gases de efeito estufa também é responsável pela acidificação dos oceanos, que dificulta a manutenção dos recifes.
Mortes substanciais de espécies foram identificadas na Flórida e no Caribe desde 2023. O estado americano registrou no último ano uma onda de calor sem precedentes, que durou mais e foi mais severa que qualquer outro evento anterior na região. Ainda é cedo, no entanto, para estimar qual será a extensão da mortalidade global, segundo a Noaa.
Apesar da gravidade do evento atual de branqueamento, a agência americana estima que ele será curto. O El Niño já está enfraquecendo e deve se encerrar neste outono de 2024, segundo previsões. Depois dele, é provável que venha o fenômeno La Niña, conhecido por esfriar as águas dos oceanos que hoje estão mais quentes.
Quais são os danos para os ecossistemas
O branqueamento de corais causa danos graves para os ecossistemas marinhos. Miguel Mies, coordenador de pesquisa do programa Coral Vivo e professor do Instituto Oceanográfico da USP (Universidade de São Paulo), disse ao Nexo que o coral é “um organismo engenheiro”, que “constrói o ecossistema chamado recifes de coral”. Quando eles morrem, há impactos para inúmeras espécies.
“O esqueleto calcário [do coral] constrói essa barreira rígida, recortada e tridimensional que dá abrigo para milhões de espécies de peixes, invertebrados e outros organismos”, afirmou Mies. “No momento em que o coral morre, esse recife vai se degradando, e os sítios de abrigo, de alimentação e de reprodução dessas incontáveis espécies se perdem. A perda do coral, no fim, é a perda da biodiversidade como um todo”, acrescentou.
¼ das espécies oceânicas se nutrem a partir dos corais em algum momento de seu ciclo de vida
Além de causar danos biológicos e ecológicos, o branqueamento de corais em escala global pode ter efeitos socioeconômicos. “O recife de corais, enquanto vivo, fornece serviços ecossistêmicos como pesca, turismo e proteção costeira”, segundo Mies. A morte desses organismos, portanto, tem impacto nas economias, na segurança alimentar e na vida das pessoas que dependem dessas espécies para manter seus meios de subsistência, complementa a Noaa.
US$ 2,7 trilhões ou R$ 14 trilhões é o valor econômico dos recifes de corais no mundo
Outra preocupação está relacionada ao período entre as ocorrências de branqueamento. A água do planeta passa ciclicamente por picos de temperatura — e, quando sobrevivem ao estresse, corais precisam de mais de uma década de estabilidade para se recuperarem plenamente. Cientistas temem que, mais frequentes, os eventos globais impeçam a “folga” necessária para haver regeneração entre uma crise e outra.
Como o evento afeta o Brasil
O Brasil é um dos mais de 50 países que registraram branqueamento significativo de corais no último ano. Uma das áreas mais afetadas é o litoral nordestino, onde está o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos (BA), uma das mais importantes áreas de proteção marinha do país. Há registros de branqueamento severo na região, com alta mortalidade.
Levantamento da Rede de Monitoramento do Branqueamento Coral Vivo mostra que, em alguns recifes do Nordeste, até 100% dos corais já branquearam. Não são todas as espécies nem todas as colônias da região, mas a situação é generalizada, segundo o grupo. A situação é mais moderada no litoral do Sudeste, de acordo com Mies.
FOTO: Jorge Silva/Reuters - 17.abr.2024

Imagem aérea mostra corais em processo de branqueamento na Costa dos Corais, em Japaratinga (AL)
Para o pesquisador, não há solução simples para a situação. “Esse é o resultado de um processo de um longo e lento aumento da temperatura. Não é uma coisa que a gente aperta um botão e para ou reverte. O que a gente tem que fazer é batalhar por um planeta que combata as mudanças climáticas, para que os próximos possíveis episódios de branqueamento sejam menos intensos”, disse.
Segundo ele, isso passa por atividades de comunicação e educação ambiental e outras que mostrem às pessoas a importância dos recifes de corais para o meio ambiente e para as sociedades. Também é preciso mostrar “como eles estão sendo destruídos pelas mudanças climáticas causadas pelo homem”, complementou.
Colaborou Mariana Froner com o mapa
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