terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Para aonde vai a Amazônia

Nosso repórter percorreu 2 mil km de uma parte devastada da mata; conheceu gente que não se importa com a destruição e gente que faz tudo para impedi-la. E conta por que essa é uma discussão que você tem de tomar parte
Texto: Sérgio Adeodato

Na paisagem ao longo da BR-163, a floresta cedeu lugar a pastagens. Restaram apenas as palmeiras patiúbas, que escaparam porque sua resina estraga as motosserras
Serra do Cachimbo, extremo-norte de Mato Grosso, agosto de 2007. No dia anterior à nossa chegada nessa que foi uma das primeiras regiões devastadas da floresta, o governo anunciava a redução de 25% do desmatamento da Amazônia entre 2005 e 2006. Durante uma semana, percorremos quase 2 mil quilômetros no entorno desse eixo de destruição: a BR-163, que liga Cuiabá (MT) a Santarém (PA). Vimos sinais da mata castigada. No horizonte, o céu cinzento denunciava a fumaça das queimadas. A realidade contrastava com os dados oficiais. Como conciliar os novos tempos com o passado de destruição?

A paisagem empoeirada nessa época seca lembra o Velho Oeste Americano. Protegido à sombra de uma castanheira solitária em meio às pastagens, Enivaldo Piovesan, 49 anos, observa a boiada que ocupa terras antes cobertas por mata frondosa. Ele conta que veio do Espírito Santo. Fez parte da segunda geração de colonos que chegaram ali, atendendo ao chamado do governo militar na segunda metade da década de 70, de ocupar a região para garantir a soberania do Brasil sobre ela, a partir do lema “integrar para não entregar”. “Pagamos impostos, mas até hoje não temos a posse da terra”, afirma. “E ainda somos acusados de destruidores.”

Enivaldo derrubou uma área de floresta equivalente a 600 campos de futebol para plantar pasto em terras da União. Mas reconhece agora que é preciso frear essa destruição. Não diz isso porque é amigo da natureza. Mas “para garantir o futuro dos filhos”. Se estragar toda a floresta, não vai sobrar nada para eles explorarem. Pensando nisso, o produtor mantém uma parte de suas terras intocável. É uma exceção entre a maioria dos grileiros da Amazônia que ocuparam a região sem pensar no amanhã e hoje, nessas regiões mais devastadas, disputam áreas e recursos cada vez mais escassos.

“O fim de um ciclo”

“Daqui para a frente, será preciso seguir outra lógica”, constata Gustavo Irgang, do Instituto Centro de Vida (ICV), entidade que trabalha com a conservação de áreas protegidas. “Vai sobreviver quem estiver legalizado e cumprir as exigências com a manutenção da mata.” Gustavo acredita que a Amazônia hoje “assiste ao fim de um ciclo”. O mundo está com os olhos na região. Salvar a Amazônia é essencial para garantir o equilíbrio do clima do planeta, além de preservar a riqueza da floresta e as populações tradicionais.


Carretas de madeira e de gado (ao fundo) são comuns em meio à poeira da BR-163, refletindo as principais atividades econômicas que avançam sobre a floresta da região
Partimos pela rodovia MT-208, em Alta Floresta, a 876 quilômetros de Cuiabá, para alcançar a BR-163. Nas proximidades do município de Colíder (MT), chamam a atenção as marcas do eldorado criado pela agropecuária – grandes frigoríficos e a fábrica Agrodiesel, que produz biodiesel a partir do sebo de vaca. Em contraste, mais adiante, a cidade de Peixoto de Azevedo, que cresceu sobre os barrancos deixados pelos antigos e numerosos garimpos às margens do rio do mesmo nome, é um retrato da decadência dos ciclos econômicos. Com a escassez do metal e a queda do valor no mercado, garimpeiros que antes andavam armados e ostentavam dentes e colares de ouro, hoje cortam madeira e trabalham com gado.

Pelas cicatrizes na paisagem, não é difícil imaginar o que pode acontecer em outras regiões da Amazônia se esse modelo prevalecer. Até agora, a floresta sofreu com a ação de grileiros, que ocupam terras públicas, derrubam árvores para vender a madeira e, na área aberta, instalam pastos ou cultivos agrícolas. Como resultado, o solo se degrada e os posseiros se deslocam para novas áreas, reiniciando o ciclo de destruição.

Isso quando não lucram com a especulação, vendendo as terras para terceiros apenas com os documentos provisórios de posse. Acrescente-se a ação dos grandes fazendeiros que têm o título de propriedade, mas desmatam mais do que a lei permite, para ampliar pastagens e plantios. O processo vicioso já levou a Amazônia a perder 17% da mata original, área superior a de muitos países, como a França.

“Antes, fomos orientados pelo Incra a desmatar para comprovar a ocupação da área e ter o documento de posse”, reclama Altemar Queirós, 44 anos. Ele conta que viveu em acampamentos de sem-terra até comprar a “posse” de 1,4 mil hectares de floresta e cerrado de um dos primeiros colonos na região de Guarantã do Norte (MT).


Surpresa na Serra do Cachimbo: perto da BR-163, ao lado de grandes áreas queimadas...

A cidade nasceu há 25 anos a partir de um assentamento rural, logo após a inauguração da BR-163. A estrada facilitou o acesso de quem vinha de outras regiões em busca de um melhor futuro na floresta. O dinheiro da madeira e do gado abriu restaurantes, locadoras de vídeo e hotéis. Rasgou avenidas e construiu casas. A pavimentação da rodovia, que começa a sair do papel, deve atrair ainda mais gente. Nas condições atuais, a BR-163 fica intransitável em muitos trechos na estação das chuvas.

“As terras vão se valorizar e atrair compradores”, prevê o comerciante gaúcho Henrique Lopes de Lima, 69 anos, um dos pioneiros na região, hoje dono de um restaurante e um hotel na beira da estrada que ajudou a construir. “Com o asfalto, o fluxo de caminhões vai aumentar”, calcula, esperando bons lucros.

Estrada influi no desmatamento

Prevista para ser concluída até o fim de 2007, a pavimentação da BR-163, com seus 1.767 km de extensão, busca encurtar distâncias na exportação de produtos agrícolas do norte do País, por meio do porto fluvial de Santarém. As obras de terraplanagem já começaram, como indica o vaivém de máquinas em alguns pontos. Mas nem todo mundo está satisfeito. “Os estudos prévios de impacto ambiental têm falhas e as conseqüências podem ser desastrosas”, alerta o pesquisador americano Philip Fearnside, do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), um dos cientistas que mais publicam trabalhos de pesquisa sobre a Amazônia no exterior.

Ele explica por quê: “Ao passar pela região de clima mais seco que a média amazônica, a BR-163 asfaltada vai induzir a abertura de clareiras que poderão aumentar o risco de queimadas de grandes proporções”. O processo pode ser mais intenso diante das mudanças no clima locais e globais. O perigo é fazer da floresta uma savana – um tipo de vegetação rasteira, mais parecida com a do cerrado.

...ainda existem pedaços de floresta que abrigam nascentes cristalinas
O alerta preocupa. Em 2007, a incidência de queimadas na Amazônia aumentou, segundo as imagens de satélite apuradas até julho pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Foram 23% mais focos de incêndio em relação ao ano anterior, sendo que 6,5 mil casos ocorreram dentro de unidades de conservação federais e estaduais e reservas indígenas. Mato Grosso, cortado pela BR-163, lidera o ranking dos números.

Segundo a previsão de Fearnside, até 2030, se não houver mobilização social e maior controle do governo contra a destruição, a rodovia asfaltada poderá promover o desmatamento de 29,7 mil quilômetros quadrados, uma área maior que o Estado de Alagoas. Sem o asfalto, a estrada já serve à exploração madeireira numa faixa de 5 quilômetros em cada margem. Após as obras, a distância que torna a extração de madeira viável deve se estender 45 quilômetros de cada lado, ameaçando áreas até hoje poupadas da destruição. “Novas rotas para o transporte ilegal de madeira devem empurrar o desmatamento para o centro da Amazônia”, diz o pesquisador.

Partindo de Guarantã do Norte rumo à cidade de Cachoeira da Serra, na divisa do Mato Grosso com o Pará, observamos as marcas desse processo. A paisagem rala é pontilhada pela inconfundível figura da palmeira-patiúba, com suas folhas em forma de leque. É a única que escapa da destruição, pois as fibras de seu tronco são ricas em sílica, substância que danifica as lâminas de corte das motosserras.

Essa área é uma das portas de entrada da planície amazônica, onde o cerrado encontra a floresta densa. Apesar de explorado há décadas, o lugar ainda protege pedaços importantes de mata nativa, principalmente nos parques e reservas ecológicas. Pegadas de onça, que observamos na margem da pista, confirmam isso. Ali perto, outra surpresa: um lago de águas azuis borbulhantes, que lembra a região de Bonito, no Mato Grosso do Sul. A beleza da nascente, espremida na mata entre clareiras cobertas por troncos queimados, dá bem a medida da riqueza natural que existia ali no passado.

Quilômetros à frente, logo após o monumento que marca a inauguração da BR-163 pelo presidente militar Ernesto Geisel, em 1982, alcançamos as exuberantes cachoeiras do rio Curuá, que estão com os dias contados. Em nome do progresso, parte das águas será desviada para alimentar as turbinas de três usinas hidrelétricas de pequeno porte em construção à margem da estrada.

Outros perigos rondam o projeto de asfaltamento. Prevê-se a chegada de mais grileiros à procura das terras valorizadas e o avanço da violência no campo. Os pessimistas temem a repetição da história do assassinato da missionária Dorothy Stang, no Pará, em 2005, que defendia os pequenos lavradores na luta contra os grileiros. Contra isso, o governo federal, pressionado pela repercussão do caso e pelos números galopantes do desmatamento, traçou um plano para dar um destino diferente à BR-163 asfaltada. O objetivo é transformá-la na primeira rodovia “sustentável” do País, um modelo que promove o desenvolvimento econômico e social, sem agredir o meio ambiente.


A construção de três pequenas usinas hidrelétricas deve mudar a paisagem próxima do rio Curuá, em Mato Grosso: cachoeiras vão desaparecer
Áreas “congeladas”

Áreas estratégicas de floresta da União, vizinhas à estrada, foram “congeladas” para qualquer tipo de exploração até que o governo decida o que fazer com elas. Entre as medidas, previstas no plano, está a criação de 8,2 milhões de hectares de parques, reservas ecológicas e outras áreas protegidas por lei, além de ações para inibir a especulação de terras públicas por grileiros. Mesmo sem o título de posse definitivo, eles conseguiam autorização oficial para cortar madeira, obter empréstimo em bancos para desmatar e vender a terra para terceiros.

“O plano é interessante, mas precisa ser implementado na prática”, diz André Mugiatti, um dos coordenadores do Greenpeace na região. Ele lembra que muitas promessas ficam no papel por falta de recursos humanos do governo na Amazônia. “O processo é lento, porque envolve a articulação com diversos setores”, rebate André Lima, diretor do Ministério do Meio Ambiente responsável pelas ações na Amazônia.

No momento, o governo pretende rever o Plano Nacional de Combate ao Desmatamento, iniciado em 2004. “A prioridade até hoje tem sido reforçar a investigação policial contra crimes ambientais e aumentar a fiscalização”, afirma Lima. Depois, segundo ele, o foco será incentivar o uso econômico das florestas. “Não podemos salvar a Amazônia apenas à base de porretes”, argumenta Lima. Uma iniciativa dentro dessa nova visão foi a criação do Distrito Florestal Sustentável da BR-163, aberto para projetos de geração de emprego e renda.

A tarefa será árdua. É fácil constatar a força da ilegalidade em meio à poeira da BR-163. No passado, carretas transportando toras de madeira, muitas vezes ilegais, circulavam em grandes comboios à luz do dia. De certa maneira, a situação mudou após a Operação Curupira, da Polícia Federal, que em 2006 ganhou espaço nobre na televisão ao levar à cadeia madeireiros ilegais, autoridades e agentes ambientais acusados de corrupção em Mato Grosso. Mas a diferença é que, atualmente, os caminhões com madeira irregular rodam na calada da noite para escapar dos fiscais, como chegamos a constatar.

“Para evitar problemas com a fiscalização, fazendeiros autorizados a desmatar para plantar ou criar gado dentro do que é permitido por lei só cortam uma ou outra árvore mais valiosa. O resto é tudo queimado”, constata Rodrigo Dutra, chefe do Ibama em Alta Floresta. Os recursos naturais, em vez de ajudar no sustento de famílias, viram fumaça lançada na atmosfera, contribuindo para o agravamento do efeito estufa e para as alterações no clima do planeta.


Fiscais do Ibama medem a castanheira encontrada na mata queimada. Eles não são bem-vindos nas cidades que vivem do corte ilegal de madeira
Onde impera a lei da selva

Com autorização do Ibama, acompanhamos uma operação de rotina dos fiscais nas imediações da BR-163. Após quatro horas de incursões em pequenas estradas secundárias, a equipe chegou à Fazenda Ingazeira, multada em 2006 por desmatamento ilegal. Armados e equipados com GPS e mapas, os fiscais procuravam novas áreas derrubadas. Encontraram caídas na terra despelada para o plantio de pasto árvores centenárias, como uma castanheira de 30 metros de altura por 1,60m de diâmetro – espécie cujo corte é proibido por lei. “A área está preparada para ser queimada”, comprova o fiscal.

Zootécnico que há quatro anos trocou o emprego com gado de leite no Paraná pela fiscalização de crimes ambientais no Mato Grosso, Rodrigo Dutra chegou como força jovem para colocar ordem na casa. Em 2006, apenas em Alta Floresta, aplicou multas que somaram R$ 70 milhões, embargou uma área igual a 40 mil campos de futebol de desmatamento e apreendeu 400 carretas de madeira ilegal. Mas reconhece que está mexendo num barril de pólvora. Em julho de 2007, ele e sua equipe foram cercados e mantidos como reféns por madeireiros em Paranaíta (MT). Foram obrigados a reabrir as serrarias ilegais que tinham acabado de embargar. “A resposta será severa”, ameaça o chefe do Ibama, que prepara uma megaoperação na cidade com o apoio do Exército.

Em região de difícil acesso, onde o estado está pouco presente, impera a lei da selva. Vingança, pistolagem e ameaças de morte são comuns. Nesses lugares, fiscais do Ibama, policiais e oficiais de Justiça não costumam ser bem-vindos. “Falta credibilidade”, admite João Alencar Simioni, secretário de Meio Ambiente de Marcelândia, uma cidade que vive há décadas do corte de madeira e agora, com as restrições à atividade, busca uma nova vocação econômica.

Em dois anos, o número de serrarias caiu pela metade. Desempregados fazem fila na prefeitura pedindo cestas básicas. Sem alternativa, produtores queimam árvores para abrir pastos. “Os incêndios fogem do controle”, admite o secretário.

Na luta contra a decadência, a cidade é palco de projetos para proteger nascentes que abastecem o rio Xingu, no Mato Grosso. “Estamos recompondo o que ajudamos a destruir”, afirma Adão Rodrigues Leal, que antes serrava o equivalente a 20 árvores por dia. Hoje, ele trabalha plantando mudas no viveiro público, destinado a reflorestar o município. O trabalho faz parte da campanha Y Ikatu Xingu, coordenada pelo Instituto Socioambiental (ISA) em parceria com diversas instituições.

Ações de reflorestamento, alternativas econômicas, pesquisas, formação de lideranças e educação ambiental tentam salvar as fontes de água que estão ameaçadas pela expansão agrícola e abastecem diversas comunidades, entre elas aquelas do Parque Indígena do Xingu, onde vivem 10 mil índios. “É preciso somar forças e ter pressa porque está em jogo o futuro das próximas gerações”, diz dom Erwin Krautler, bispo do Xingu, diversas vezes ameaçado de morte por seu trabalho em defesa dos índios. “Comemorar a redução do desmatamento na Amazônia é um equívoco: é como festejar que em determinado lugar morrem diariamente cinco e não dez índios por desnutrição infantil como em outros tempos.”

O desmatamento é, de fato, um mau negócio para o meio ambiente e para a população, segundo recente estudo do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). No primeiro momento, a derrubada de árvores gera dinheiro. Mas, no longo prazo, a população empobrece. O estudo revelou que, nos municípios amazônicos com mais de 90% do território desmatado, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) – parâmetro internacional que mede a qualidade de vida da população – é menor do que a média regional.

Sem alternativas de sustento, a população migra da floresta para a periferia das cidades, aumentando a violência. Um exemplo está no município de Trairão (PA), cerca de 600 km ao norte da Serra do Cachimbo, mas há muitos outros, relata Marcos Ximenes, diretor do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). A cidade foi fundada na década de 70 por colonos que se aventuraram na selva para sobreviver de plantios.
Com o tempo, passaram a trabalhar no garimpo e no corte de madeira. A violência cresceu. Em julho de 2007, a sede do Ipam naquele município foi baleada e precisou ser fechada. “O técnico que organizava lavradores para a produção sustentável foi transferido para a cidade de Itaituba (PA)”, conta Ximenes.

A procura por alternativas

Perto da BR-163, a 100 km do ponto final da rodovia em Santarém (PA), os pesquisadores do Ipam dão suporte científico à empresa Manejo Florestal e Prestação de Serviços (Maflops) na adoção de um novo modelo para exploração de madeira em parceria com assentamentos rurais. A empresa faz contratos com os pequenos produtores para receber a madeira retirada de suas terras. Os assentados são orientados a preservar 80% das propriedades, conforme manda a lei, e a obter ganhos com o uso dessa reserva sem danos ambientais.

O corte das árvores é planejado para garantir as sementes das quais vão brotar as espécies que serão exploradas no futuro. O trabalho inclui o aproveitamento de áreas degradadas por pastagens, evitando o avanço sobre a floresta. “O modelo deve se expandir para outras regiões da Amazônia”, informa Ximenes. Ele não é o único. Entre os esforços para inibir a devastação, está a Moratória da Soja, proposta pela Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove). Pela iniciativa, os empresários se comprometem a não comercializar o grão produzido em áreas da Amazônia desmatadas após julho de 2006.

A moratória, conduzida em parceria com instituições não-governamentais, como o próprio Ipam, o Greenpeace, o WWF e a The Nature Conservancy (TNC), tem a adesão de um número crescente de produtores, com incentivo para não desmatar novas áreas e manter as reservas legais de floresta. Parte das propriedades se localiza na região de influência da BR-163. “A moratória é uma chance de demonstrar que a articulação entre empresas, organizações não-governamentais e movimentos sociais pode proteger a floresta”, afirma Paulo Adario, do Greenpeace.

Ele acredita que “é possível virar o jogo contra o desmatamento e as mudanças climáticas”, evitando que problemas hoje comuns nas primeiras regiões desmatadas na Amazônia se espalhem por toda a floresta. A BR-163, nesse caso, poderá ter um futuro melhor. Será, além de símbolo da destruição, palco de medidas tomadas para mudar esse quadro.

EXCLUSIVO ON LINE
Relato do repórter Sérgio Adeodato sobre suas impressões de viagem

Fazer uma reportagem em lugares distantes na Amazônia exige uma logística bem organizada. Tínhamos todo o plano de viagem traçado. De antemão, havia uma boa noção da realidade que nos esperava, o que foi possível por meio de entrevistas e contatos prévios desde a redação da revista, em São Paulo. É claro que, em reportagens desse tipo, surpresas e até imprevistos acontecem - e não foi diferente ao longo do nosso trabalho na Amazônia. De certa maneira, elas são bem-vindas para dar mais cores e vida à apuração jornalística.

Já no avião de linha comercial que partiu de São Paulo para Alta Floresta (MT), com conexão em Brasília, sentimos o grau da aventura que nos esperava. Na capital federal, após horas de atraso, soubemos que o aparelho que nos levaria ao destino final estava retido no Rio de Janeiro, em decorrência de uma pane. Após aterrissar no aeroporto de Brasília e fazer o desembarque dos passageiros vindos do Rio, o piloto fechou as portas do avião e começou a testar as turbinas, aumentando e reduzindo a aceleração dos motores, como fazemos quando o nosso carro ameaça “morrer” na rua. O funcionário da companhia dizia com toda a seriedade que o avião só estava “pegando no tranco”. Todos os passageiros que aguardavam o embarque para Alta Floresta presenciaram a cena desde a sala de embarque. Muitos desistiram de viajar. Ma, apesar do risco, a nossa equipe precisava seguir adiante, porque no dia seguinte, logo cedo, partiríamos para a BR-163.

Chegamos sãos e salvos a Alta Floresta, na madrugada. Dormimos apenas três horas e, às 8 horas manhã, a camionete do Instituto Centro de Vida (IVC), instituição que nos deu apoio logístico na região, já nos aguardava para a viagem. Além do fotógrafo André Pessoa e do coordenador do IVC Gustavo Irgang, integrou nossa equipe o guia Rosalvo Rosa, o Rosinha. Ex-garimpeiro que se tornou confeiteiro de bolo e agora dá suporte na selva às equipes de pesquisadores que trabalham na criação e consolidação de parques nacionais e outras reservas, o personagem e suas histórias já indicavam a riqueza dos “causos” que encontraríamos ao longo da reportagem.

E assim foi. Em meio à poeira levantada pelos caminhões de madeira e gado na BR- 163, encontramos personagens que dão bem a medida de uma região que, desde a década de 70, busca uma vocação econômica. Muitos pioneiros chegaram ali para plantar café. Depois, guaraná. Ouro, madeira e gado marcaram os ciclos posteriores. E de agora em diante? Qual o futuro da região da BR-163 já tão devastada? Em busca das respostas, rodamos 2 mil km nessa rodovia, que começa a ser asfaltada, e em estradas menores que levam a locais ocupados por posseiros, rota do transporte ilegal de madeira - muitas vezes noturno para evitar a fiscalização dos agentes ambientais. Conhecemos cidades que vivem do corte de madeira e que agora, quando o mundo se volta para a preservação da floresta, correm o risco de virar lugares fantasmas.

Em meio a tanta destruição, encontramos recantos bem preservados, como nascentes de águas azuis cristalinas ao lado de áreas queimadas para a abertura de pastos. Observamos pegadas de onça na beira da estrada, sinal de que bem tudo está perdido. Colonos que antigamente caçavam esses felinos hoje encaram os animais de uma maneira diferente. As histórias de onças, às vezes difíceis de acreditar, continuam comuns na região. Com uma diferença: nos tempos modernos, os colonos já têm como provar que estão falando a verdade. Utilizando o telefone celular, tiram fotos das onças que encontram, como fez o filho do produtor Enivaldo Piovesan, meia hora antes de encontrar nossa equipe na estrada.
Revista Horizonte Geografico

Um comentário:

Daniel Simões disse...

hahaha
seu blog me faz lembrar que sempre odiei geografia...

mas enfim, um bom trabalho feito aos pesquisadores via internet e os que anseiam entrar em uma iniversidade.

já passei por isso, e nao quero repetir a experiencia.

agradeço a visita e o comentário,

abraços e sucessos

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