sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

A Baía de Guanabara através dos tempos


Muito já se escreveu sobre a baía de Guanabara, cada qual com sua óptica pessoal. A razão disso são seus cenários magníficos, com uma beleza inusitada, de ordem planetária.
por Aziz Nacib Ab`Sáber
Olhando pela janela de seu apartamento, um amigo dizia que nem a rainha da Inglaterra podia desfrutar da paisagem que ele via. Outro companheiro de luta e resistência, olhando para a retroterra das praias, onde se desdobram morros ocupados por favelas, comentava que era certamente "lá que morava a felicidade", sem poder avaliar, à época, a conseqüência e impactos que as imensas desigualdades sociais viriam a ter.

Passados anos - meio século exato - quero contribuir para a recuperação do conhecimento acumulado, escrevendo uma pequena síntese sobre a história fisiográfica e vegetacional da Guanabara, em homenagem a amigos e companheiros que já se foram (José Veríssimo da Costa Pereira, Orlando Valverde, Jean Dresch e Jean Tricart).

Em primeiro lugar, é indispensável dizer que a região da Guanabara apresenta um quadro único para o conhecimento da fachada atlântica sudeste do Brasil. Sua origem remonta à separação do Brasil oriental em face da África ocidental. Uma distensão tectônica foi responsável pela criação de montanhas de blocos falhados, entre as escarpas da serra do Mar e os complexos maciços costeiros de feições majestosas, tais como o Corcovado, a serra da Carioca, o maciço de Niterói e os pontões rochosos que ladeiam a entrada da barra, culminando com o símbolo máximo representado pelo Pão de Açúcar. Há também uma baixada colinosa entre a serra do Mar e os maciços serranos mais próximos da atual linha de costas. E, por fim, a própria baía de Guanabara, que adentra as áreas dos morros e colinas, desembocando por uma barra estreita, entre os paredões rochosos do Rio de Janeiro vis-à-vis os morros de Niterói. E, para complicar ainda mais, a existência de uma pequena bacia paleoceânica em Itaboraí, embutida nas terras baixas onduladas regionais. Afora depósitos de cascalho nos altos das colinas aplainadas do Plioceno.

Os conhecimentos disponíveis sobre as bacias tectônicas, existentes na plataforma continental do Brasil de sudeste, permitem-nos avaliar a amplitude e a complexidade da tectônica de blocos falhados ocorridos no Brasil de sudeste, durante o período Cretáceo. Tudo leva a crer que antes da separação dos continentes, o setor afro-brasileiro de Gonduana era uma espécie de mega-abóbada rebaixada por longos processos erosivos, a qual foi fragmentada pela tectônica de placas, possibilitando a formação do oceano Atlântico. Na atual área continental do Brasil de sudeste existem indicadores concretos da tectônica quebrável, reconhecida como montanhas de blocos falhados (block-mountains).

Identicamente, no território fluminense - entorno da Guanabara - percebe-se todo um arranjo de blocos montanhosos e compartimentos tectônicos. Num entorno mais amplo, percebe-se a mudança de eixos das escarpas da serra do Mar, desde os escarpamentos do litoral norte de São Paulo e sul do Rio de Janeiro, a borda norte do maciço da Bocaina, e o retorno da orientação SSW-NNE na chamada serra do Mar fluminense (Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo). Um conjunto de escarpas com um maciço traçado em baioneta entre o litoral norte de São Paulo e sul fluminense, a borda transversal do maciço da Bocaina e o retorno direcional para a serra fluminense (de novo SSW-NNE). No ângulo norte da baioneta escarpada, a fragmentação tectônica bem marcada que deu origem à larga e colinosa Baixada Fluminense, tendo na frente oceânica a serra da Carioca, o Pão de Açúcar e os pontões serranos de Niterói.

Infelizmente, é impossível reconhecer os detalhes dos blocos falhados onde jazem os sedimentos da bacia de Campos e, separadamente, da bacia de Santos.

A maior parte desses fatos foram reconhecidos e registrados cartograficamente no importante Mapa geomorfológico da Guanabara, do grande mestre Francis Ruellan (1944). Um trabalho extremamente detalhado, elaborado em cima de cartas topográficas convencionais, numa época em que ainda inexistiam imagens de radar ou de satélites. Transformar um mapa singelo em um verdadeiro mapa geomorfológico exigiu observações de campo ao longo de múltiplos itinerários, o que pode ser considerado uma verdadeira façanha técnico-científica. Entrementes, Ruellan inseriu um acréscimo importantíssimo em seu estudo sobre a paleodrenagem subatual da Guanabara, ao noticiar para nós brasileiros, no início da década de 40, que, levando em conta os processos glacio-eustáticos, poderia se saber que o nível do mar esteve dezenas de metros abaixo de seu nível médio atual, no período do Pleistoceno Terminal. Daí se poder afirmar que existia toda uma bacia hidrográfica instalada na base da atual Guanabara, sendo que o antigo rio da Guanabara passava apertado entre o Pão de Açúcar e os pontões rochosos de Niterói. De onde se deduz que o nome Rio de Janeiro, cunhado pelos portugueses, tinha o vezo da intuição.

As flutuações radicais ocorridas entre o Pleistoceno Superior e o Recente são fundamentais para entender fatos relacionados à história fisiográfica da região costeira e à própria história vegetacional do território brasileiro. Convém lembrar sempre que no período Würm-IV Wisconsin Superior, o nível geral dos mares e oceanos estava 95 metros abaixo do atual. Para explicar esse fantástico rebaixamento é necessário saber que a partir de 22 mil anos A.P. (Antes do Presente), ocorreu um período glacial que se estendeu, com algumas irregularidades, até aproximadamente 12 mil anos atrás. Alguns pesquisadores especializados afirmam que o máximo da dinâmica glacial aconteceu sobretudo entre 15 mil e 12.700 anos A.P. E de 12 mil até 6.000-5.500 anos aconteceu uma dissolução das grandiosas geleiras que estavam estocadas nas regiões polares, subpolares e altas montanhas. Denominamos retropicalização esse período fantástico de derretimento das antigas geleiras.

Não podendo meditar sobre o zoneamento paleoclimático que teria acontecido dos pólos ao equador, Louis de Agassiz, estudando os depósitos de piemonte nos Alpes, concluiu que esses depósitos documentaram um período de glaciação generalizada na superfície do planeta Terra: uma teoria dita panglacial.

Estimulado a realizar viagens ao Brasil, acompanhado de excelentes discípulos (1864), Agassiz muito apressadamente identificou linhas de pedras abaixo dos solos vermelhos existentes nos barrancos dos morros da Guanabara e imediatamente as interpretou como fragmentos produzidos por geleiras cavalgantes. Imaginou que elas, ao escoarem pelas vertentes de morros e morretes, teriam fragmentado cabeças de diques de quartzo e arestas de rochas.

O fato básico é que o grande glaciologista, respeitado em todo o mundo cultural de sua época, observou bem e pioneiramente o ocorrer das linhas de pedras (stonelines), porém errou totalmente na interpretação geológica e geomorfogênica.

Costuma-se dizer que um pesquisador tem de saber observar bem, ainda que se possam perdoar interpretações aproximadas ou incompletas. No caso de Agassiz, a conclusão apressada e errônea teve implicações científicas muito graves. Decorreu quase um século para substituí-la por concepções mais exatas e consistentes. Fato que aconteceu durante o importante Congresso Internacional de Geografia realizado no Rio de Janeiro em 1956, quando cientistas de diversas partes do mundo puderam realizar pesquisas de campo em várias regiões do território brasileiro.

Temos salientado a importância das interpretações de Jean Tricart e André de Cailleux a respeito da gênese dos chãos pedregosos representados pelas stonelines encontradas em diversas áreas do Brasil. O grande mestre Tricart dizia para seus eventuais alunos brasileiros que, na região semi-árida do Nordeste, ocorriam manchas de chão pedregoso ocupadas por caatingas arbustivas. E que as linhas de pedras encontradas no Brasil Atlântico seriam o resultado da expansão de climas semi-áridos em certos momentos do período Quaternário.

Depois de muitas pesquisas de campo nas mais diversas re-giões do país, voltamos a pesquisar os morros do Rio de Janeiro e colinas da Baixada Fluminense, tendo a sorte de constatar relictos de cactos na base dos paredões rochosos nos arredores da Guanabara, além de mandacarus e xiquexiques em diversos pontos do Pão de Açúcar. Identicamente, em excelentes fotos tomadas por Marc Ferrez nos arredores do Rio de Janeiro, pode-se perceber que existiam relictos de cactos sob a forma de minirredutos em diversos patamares rochosos dos morros regionais. Do que decorre que hoje podemos melhor interpretar o cenário paleoecológico e fisiográfico da região vista em seu todo. E lembrando que entre Macaé e Cabo Frio existe o único setor de caatinga fora da região distante da core area do domínio semi-árido nordestino.

Por último, convém lembrar que o conjunto da Guanabara quando o mar se achava muito distante era um cenário típico das paisagens do Nordeste seco, cruzava colinas através de uma drenagem semi-embutida, passando por um boqueirão dos notáveis pontões rochosos do Pão de Açúcar e os do além-Rio, em Niterói. Se existissem povos pré-históricos provindos do sertão nordestino na época, eles estariam reconhecendo e vivendo numa região costeira dominada pela secura em um ambiente mais frio, com manchas de chão pedregoso e caatingas de diferentes tipos.

Aziz Nacib Ab`Sáber é professor emérito da FFLCH/USP e professor honorário do Instituto de Estudos Avançados/USP.

Scientific American Brasil

Um comentário:

Mirse disse...

Muito interessante essa postagem. Para quem mora como eu, apreciando a Baía de Guanabara, quando o Rio de Janeiro ainda era denominado Estado da Guanabara, é muito bom conhecer seu plâncton e sua formação.

Parabéns pela postabem!
Abraços

Mirze

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