sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

A Baía de Guanabara através dos tempos


Muito já se escreveu sobre a baía de Guanabara, cada qual com sua óptica pessoal. A razão disso são seus cenários magníficos, com uma beleza inusitada, de ordem planetária.
por Aziz Nacib Ab`Sáber
Olhando pela janela de seu apartamento, um amigo dizia que nem a rainha da Inglaterra podia desfrutar da paisagem que ele via. Outro companheiro de luta e resistência, olhando para a retroterra das praias, onde se desdobram morros ocupados por favelas, comentava que era certamente "lá que morava a felicidade", sem poder avaliar, à época, a conseqüência e impactos que as imensas desigualdades sociais viriam a ter.

Passados anos - meio século exato - quero contribuir para a recuperação do conhecimento acumulado, escrevendo uma pequena síntese sobre a história fisiográfica e vegetacional da Guanabara, em homenagem a amigos e companheiros que já se foram (José Veríssimo da Costa Pereira, Orlando Valverde, Jean Dresch e Jean Tricart).

Em primeiro lugar, é indispensável dizer que a região da Guanabara apresenta um quadro único para o conhecimento da fachada atlântica sudeste do Brasil. Sua origem remonta à separação do Brasil oriental em face da África ocidental. Uma distensão tectônica foi responsável pela criação de montanhas de blocos falhados, entre as escarpas da serra do Mar e os complexos maciços costeiros de feições majestosas, tais como o Corcovado, a serra da Carioca, o maciço de Niterói e os pontões rochosos que ladeiam a entrada da barra, culminando com o símbolo máximo representado pelo Pão de Açúcar. Há também uma baixada colinosa entre a serra do Mar e os maciços serranos mais próximos da atual linha de costas. E, por fim, a própria baía de Guanabara, que adentra as áreas dos morros e colinas, desembocando por uma barra estreita, entre os paredões rochosos do Rio de Janeiro vis-à-vis os morros de Niterói. E, para complicar ainda mais, a existência de uma pequena bacia paleoceânica em Itaboraí, embutida nas terras baixas onduladas regionais. Afora depósitos de cascalho nos altos das colinas aplainadas do Plioceno.

Os conhecimentos disponíveis sobre as bacias tectônicas, existentes na plataforma continental do Brasil de sudeste, permitem-nos avaliar a amplitude e a complexidade da tectônica de blocos falhados ocorridos no Brasil de sudeste, durante o período Cretáceo. Tudo leva a crer que antes da separação dos continentes, o setor afro-brasileiro de Gonduana era uma espécie de mega-abóbada rebaixada por longos processos erosivos, a qual foi fragmentada pela tectônica de placas, possibilitando a formação do oceano Atlântico. Na atual área continental do Brasil de sudeste existem indicadores concretos da tectônica quebrável, reconhecida como montanhas de blocos falhados (block-mountains).

Identicamente, no território fluminense - entorno da Guanabara - percebe-se todo um arranjo de blocos montanhosos e compartimentos tectônicos. Num entorno mais amplo, percebe-se a mudança de eixos das escarpas da serra do Mar, desde os escarpamentos do litoral norte de São Paulo e sul do Rio de Janeiro, a borda norte do maciço da Bocaina, e o retorno da orientação SSW-NNE na chamada serra do Mar fluminense (Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo). Um conjunto de escarpas com um maciço traçado em baioneta entre o litoral norte de São Paulo e sul fluminense, a borda transversal do maciço da Bocaina e o retorno direcional para a serra fluminense (de novo SSW-NNE). No ângulo norte da baioneta escarpada, a fragmentação tectônica bem marcada que deu origem à larga e colinosa Baixada Fluminense, tendo na frente oceânica a serra da Carioca, o Pão de Açúcar e os pontões serranos de Niterói.

Infelizmente, é impossível reconhecer os detalhes dos blocos falhados onde jazem os sedimentos da bacia de Campos e, separadamente, da bacia de Santos.

A maior parte desses fatos foram reconhecidos e registrados cartograficamente no importante Mapa geomorfológico da Guanabara, do grande mestre Francis Ruellan (1944). Um trabalho extremamente detalhado, elaborado em cima de cartas topográficas convencionais, numa época em que ainda inexistiam imagens de radar ou de satélites. Transformar um mapa singelo em um verdadeiro mapa geomorfológico exigiu observações de campo ao longo de múltiplos itinerários, o que pode ser considerado uma verdadeira façanha técnico-científica. Entrementes, Ruellan inseriu um acréscimo importantíssimo em seu estudo sobre a paleodrenagem subatual da Guanabara, ao noticiar para nós brasileiros, no início da década de 40, que, levando em conta os processos glacio-eustáticos, poderia se saber que o nível do mar esteve dezenas de metros abaixo de seu nível médio atual, no período do Pleistoceno Terminal. Daí se poder afirmar que existia toda uma bacia hidrográfica instalada na base da atual Guanabara, sendo que o antigo rio da Guanabara passava apertado entre o Pão de Açúcar e os pontões rochosos de Niterói. De onde se deduz que o nome Rio de Janeiro, cunhado pelos portugueses, tinha o vezo da intuição.

As flutuações radicais ocorridas entre o Pleistoceno Superior e o Recente são fundamentais para entender fatos relacionados à história fisiográfica da região costeira e à própria história vegetacional do território brasileiro. Convém lembrar sempre que no período Würm-IV Wisconsin Superior, o nível geral dos mares e oceanos estava 95 metros abaixo do atual. Para explicar esse fantástico rebaixamento é necessário saber que a partir de 22 mil anos A.P. (Antes do Presente), ocorreu um período glacial que se estendeu, com algumas irregularidades, até aproximadamente 12 mil anos atrás. Alguns pesquisadores especializados afirmam que o máximo da dinâmica glacial aconteceu sobretudo entre 15 mil e 12.700 anos A.P. E de 12 mil até 6.000-5.500 anos aconteceu uma dissolução das grandiosas geleiras que estavam estocadas nas regiões polares, subpolares e altas montanhas. Denominamos retropicalização esse período fantástico de derretimento das antigas geleiras.

Não podendo meditar sobre o zoneamento paleoclimático que teria acontecido dos pólos ao equador, Louis de Agassiz, estudando os depósitos de piemonte nos Alpes, concluiu que esses depósitos documentaram um período de glaciação generalizada na superfície do planeta Terra: uma teoria dita panglacial.

Estimulado a realizar viagens ao Brasil, acompanhado de excelentes discípulos (1864), Agassiz muito apressadamente identificou linhas de pedras abaixo dos solos vermelhos existentes nos barrancos dos morros da Guanabara e imediatamente as interpretou como fragmentos produzidos por geleiras cavalgantes. Imaginou que elas, ao escoarem pelas vertentes de morros e morretes, teriam fragmentado cabeças de diques de quartzo e arestas de rochas.

O fato básico é que o grande glaciologista, respeitado em todo o mundo cultural de sua época, observou bem e pioneiramente o ocorrer das linhas de pedras (stonelines), porém errou totalmente na interpretação geológica e geomorfogênica.

Costuma-se dizer que um pesquisador tem de saber observar bem, ainda que se possam perdoar interpretações aproximadas ou incompletas. No caso de Agassiz, a conclusão apressada e errônea teve implicações científicas muito graves. Decorreu quase um século para substituí-la por concepções mais exatas e consistentes. Fato que aconteceu durante o importante Congresso Internacional de Geografia realizado no Rio de Janeiro em 1956, quando cientistas de diversas partes do mundo puderam realizar pesquisas de campo em várias regiões do território brasileiro.

Temos salientado a importância das interpretações de Jean Tricart e André de Cailleux a respeito da gênese dos chãos pedregosos representados pelas stonelines encontradas em diversas áreas do Brasil. O grande mestre Tricart dizia para seus eventuais alunos brasileiros que, na região semi-árida do Nordeste, ocorriam manchas de chão pedregoso ocupadas por caatingas arbustivas. E que as linhas de pedras encontradas no Brasil Atlântico seriam o resultado da expansão de climas semi-áridos em certos momentos do período Quaternário.

Depois de muitas pesquisas de campo nas mais diversas re-giões do país, voltamos a pesquisar os morros do Rio de Janeiro e colinas da Baixada Fluminense, tendo a sorte de constatar relictos de cactos na base dos paredões rochosos nos arredores da Guanabara, além de mandacarus e xiquexiques em diversos pontos do Pão de Açúcar. Identicamente, em excelentes fotos tomadas por Marc Ferrez nos arredores do Rio de Janeiro, pode-se perceber que existiam relictos de cactos sob a forma de minirredutos em diversos patamares rochosos dos morros regionais. Do que decorre que hoje podemos melhor interpretar o cenário paleoecológico e fisiográfico da região vista em seu todo. E lembrando que entre Macaé e Cabo Frio existe o único setor de caatinga fora da região distante da core area do domínio semi-árido nordestino.

Por último, convém lembrar que o conjunto da Guanabara quando o mar se achava muito distante era um cenário típico das paisagens do Nordeste seco, cruzava colinas através de uma drenagem semi-embutida, passando por um boqueirão dos notáveis pontões rochosos do Pão de Açúcar e os do além-Rio, em Niterói. Se existissem povos pré-históricos provindos do sertão nordestino na época, eles estariam reconhecendo e vivendo numa região costeira dominada pela secura em um ambiente mais frio, com manchas de chão pedregoso e caatingas de diferentes tipos.

Aziz Nacib Ab`Sáber é professor emérito da FFLCH/USP e professor honorário do Instituto de Estudos Avançados/USP.

Scientific American Brasil

Fim das Mortes por Malária na África



Um dos piores assassinos do mundo pode ser controlado se houver investimento financeiro
por Jeffrey Sachs
Para a África, o epicentro mundial do flagelo de malária, uma revolução tanto no campo da saúde como da economia está ao alcance das mãos. A combinação entre novas tecnologias, métodos de controle de doenças e uma consciência maior da população podem reduzir a porcentagem de mortes por malária em até 90% ou mais, se a tendência continuar.

A forma mortal da malária é causada pelo protozoário Plasmodium falciparum, transmitido pela picada do mosquito Anopheles. Devido aos ciclos de vida do patógeno e do mosquito, é necessária uma temperatura ambiente de pelo menos 18ºC para a transmissão. Temperaturas mais altas aumentam as chances de transmissão, é por isso que a malária é considerada uma doença tropical. A extensão do contágio é determinado pela abundância de mosquitos, pela temperatura ambiente e pela propensão de determinadas espécies de Anopheles de picar humanos em vez de animais. A ecologia africana contribui mais para esses três fatores de transmissão que qualquer outro local no mundo.

As iniciativas para tentar controlar e eliminar a malária em várias regiões de clima temperado e subtropical entre os anos 50 e 60 usaram com sucesso o inseticida DDT, assim como o medicamento cloroquina. No entanto, a malária persiste nos trópicos, principalmente na África, onde a intensidade de transmissão da doença é a maior do mundo devido a razões ecológicas. A África paga um alto preço pelo fardo da malária, não apenas por mais de um milhão de mortes anuais, mas também pela significativa redução do crescimento econômico.

Até muito pouco tempo as coisas só pioravam. O parasita da malária se tornou resistente à cloroquina. Além disso, a confusão sobre o modo correto de utilização e aplicação do DDT (que deve ser borrifado na forma de uma fina camada sobre as paredes internas da casa) e a sua funcionalidade como inseticida em áreas abertas (o veneno é perigoso para o ambiente e leva à resistência dos insetos) também influenciaram para o uso reduzido das substâncias.

A solução a longo prazo com melhor potencial é uma vacina, e as principais candidatas ao posto já estão na fase de ensaios clínicos. Enquanto isso, uma confluência de avanços dá sinais de que em breve teremos um progresso significativo contra a doença. O primeiro é a invenção de um mosquiteiro para cama impregnada com um inseticida de longa ação, que evita as picadas dos mosquitos durante a noite. Essas redes duram até cinco anos, enquanto suas antecessoras exigiam reaplicação em questão de meses.

O segundo progresso, que pode salvar um número incontável de vidas, está na descoberta de uma nova droga, extremamente eficaz, formulada à base de artemisinina, extrato à base de ervas descoberto por cientistas chineses. No entanto, a substância deve ser usada somente em conjunto com medicamentos tradicionais para evitar a resistência dos parasitas.

O terceiro avanço é uma nova abordagem para o controle da doença. No passado, o governo americano e os de outros países promoviam preços mais baixos para os mosquiteiros. O resultado foi muito lento, pois a maioria dos moradores da zona rural africana eram pobres demais para comprá-los. Além disso, os descontos eram válidos apenas para crianças e mulheres grávidas, grupos mais susceptíveis a morrer de malária. Essa política direcionada negligenciava o fato de que às pessoas “desprotegidas” servem como depósitos para a infecção de malária: além de se contaminarem e sofrerem com a infecção, facilitam a transmissão para o grupo “protegido”, já que as telas não são 100% eficazes.

A nova estratégia é baseada na distribuição gratuita e em massa de mosquiteiros. Desse modo, nenhum grupo é deixado para trás e cada pessoa estará protegida contra o vetor da doença, evitando que se criem reservatórios para transmissão. Os medicamentos formulados com artemisinina também devem estar disponíveis gratuitamente para os povoados. Essa nova abordagem do controle da malária é extremamente econômica para os países doadores. Cada mosquiteiro custa apenas US$ 5,00 e a dose do remédio, aproximadamente US$ 1,00. A distribuição grátis das telas já está sendo feita com sucesso em vários países que sofrem com a epidemia.

O controle da malária é a maior barganha do planeta. Um estudo promovido por minha equipe revelou que com uma cobertura abrangente com mosquiteiros e medicamentos, e o uso de inseticidas para ambientes internos (quando indicado) pode sair por US$ 3 bilhões por ano, nos próximos anos, o que significa somente US$ 3,00 para cada pessoa com alta renda do mundo. Em outras palavras, o equivalente a dois dias de gastos no Pentágono poderia salvar mais de um milhão de vidas por ano. Além disso, esses gastos diminuirão ao longo dos anos com a redução das taxas de infecção. Mas o lucro não está em “apenas” salvar vidas humanas. O ganho econômico para a África chegaria rapidamente a uma dezena de bilhões de dólares por ano, com a redução direta dos gastos para o tratamento da doença, aumentando assim o crescimento econômico da região.

Fontes de financiamento estão entrando na fila. O Fundo Global de luta contra AIDS, Tuberculose e Malária é o naturalmente o principal financiador. O Banco Mundial pode assumir um papel de destaque, especialmente porque seu presidente, Robert B. Zoellick, já havia levado essa questão à frente no passado. A administração Bush recentemente aumentou o financiamento para o combate à malaria. O setor privado está pronto para apoiar a iniciativa de vários maneiras, e a população está doando milhões de dólares para a compra de mosquiteiros para os países mais pobres por meio de organizações como a Malaria No More – “Chega de malária” – (www.malarianomore.org). Estamos no limiar de um grande avanço. É hora de atravessá-lo.

Jeffrey Sachs é diretor do Earth Institute da Universidade de Columbia (www.earth.columbia.edu).

Scientific American Brasil

A volta do espectro de Malthus

Ainda é preciso verificar se as previsões pessimistas de Malthus estão se tornando realidade ou se simplesmente estão sendo adiadas
por Jeffrey Sachs
FOTOGRAFIA POR BRUCE GILBERT/INSTITUTO DA TERRA; ILUSTRAÇÃO POR MATT COLLINS



Em 1798 Thomas Robert Malthus fez uma previsão famosa que ganhos de curto prazo nos padrões de vida, inevitavelmente seriam desestabilizados à medida que o crescimento da população mundial superasse a produção de alimentos, e assim levando os padrões de vida a voltar aos níveis de subsistência. "Estamos condenados pela tendência de a população crescer em progressão geométrica e a produção de alimentos em progressão aritmética”, comentava na época.

Durante 200 anos, economistas afirmaram que Malthus ignorou o avanço tecnológico, o que teria permitido que a curva de crescimento da população se mantivesse à frente da curva de alimentos. O argumento é que a produção de alimentos pode na verdade crescer geometricamente porque além da terra, a produção depende também do know-how. Com os avanços na produção de sementes, nutrientes do solo, reposição de nutrientes ─ como fertilizantes químicos ─, irrigação, mecanização e outros, os suprimentos de alimentos podem permanecer bem à frente da curva de crescimento da população. Em outras palavras, os avanços tecnológicos em todos seus aspectos ─ agricultura, energia, uso da água, manufatura, controle de doenças, gerenciamento de informação, transporte, comunicações ─ permitem que a produção de alimentos cresça mais rápido que a população.

Um outro fator, ao que tudo indica, que solapa o argumento de Malthus é a transição demográfica. De acordo com essa transição, as sociedades passam de condições em que altos índices de fertilidade são, a grosso modo, compensados por altos índices de mortalidade, para condições de baixos índices fertilidade, com baixas taxas de mortalidade. Malthus não contava com os avanços na saúde pública, planejamento familiar e métodos modernos de contracepção, que juntamente com a urbanização e outras tendências, resultariam num declínio acentuado nas taxas de fertilidade chegando até abaixo da “taxa de substituição” de 2,1 filhos por casal. Talvez a população do mundo tenha revertido sua tendência de crescimento em progressão geométrica.

As críticas ao pessimismo de Malthus resistiram por longo tempo. De fato, quando eu estudava economia, o raciocínio de Malthus era alvo de galhofa, considerado por meus mestres como exemplo de previsão ingênua totalmente equivocada. Além disso, desde a época de Malthus, os salários médios no mundo todo aumentaram em pelo menos uma ordem de grandeza, de acordo com analistas econômicos, apesar de a população ter aumentado de cerca de 800 milhões em 1798 para 6,7 bilhões atualmente.

Alguns economistas chegaram ao ponto de afirmar que o alto crescimento das populações teria sido a maior razão para a melhoria de padrão de vida, e não um entrave. De acordo com essa interpretação, a octuplicação no aumento da população desde 1798 fez crescer proporcionalmente o número de gênios, além disso, são os gênios os responsáveis pelos avanços globais da humanidade. Costuma-se dizer que uma grande população é tudo de que se precisa para promover o progresso.

Na verdade o espectro de Malthus não foi exorcizado — ao contrário, longe disso. O aumento de know-how não só permitiu obter mais saídas para as mesmas entradas, mas também melhorou nossa capacidade de vasculhar a Terra em busca de mais entradas. Essa primeira revolução industrial começou com a utilização de combustíveis fósseis, particularmente o carvão, através das máquinas a vapor de Watt.

A humanidade estava presa a depósitos geológicos de energia solar primordial, armazenada na forma de carvão, petróleo e gás para atender suas necessidades modernas. Aprendemos a escavar minerais em locais mais profundos, pescar com redes maiores, mudar o curso de rios para formar canais e represas, nos apoderar de mais habitats de outras espécies e derrubar florestas com ferramentas mais poderosas para limpar grandes áreas. Inúmeras vezes, não conseguimos mais por menos, mas ao contrário sempre, mais por mais, convertendo ricas histórias de capital natural em altos fluxos de consumo atual. Boa parte do que chamamos de “lucro” ─ no sentido lato do valor agregado à atividade econômica ─ é na verdade uma redução ou uma perda do capital natural.

E embora o planejamento familiar e os métodos contraceptivos tenham de fato assegurado um baixo índice de fertilidade em muitas partes do mundo, a taxa de fertilidade geral permanece em 2,6, muito acima da taxa de substituição. A África subsaariana ─ região mais pobre do mundo ─ ainda tem uma taxa geral de fertilidade de 5,1 filhos por mulher, e a população global continua a crescer a uma taxa de cerca de 79 milhões por ano, com o maior aumento nos locais mais pobres. De acordo com previsões de fertilidade média da Divisão de População das Nações Unidas, estamos em vias de atingir 9,2 bilhões de pessoas na metade do século.

Se de fato continuarmos a consumir uma quantidade desmedida de petróleo e tivermos falta de alimentos, se reduzirmos as reservas fósseis de água do subsolo e destruirmos as florestas restantes e devastarmos os oceanos e enchermos a atmosfera com gases do efeito estufa, que pode provocar descontrole no clima da Terra com elevação do nível dos oceanos, poderemos estar confirmando a maldição de Malthus, embora tudo isso possa ser evitado. A idéia que know-how aprimorado e redução voluntária de fertilidade possam sustentar um crescente nível de ganhos para o mundo parece correto, mas somente se futuras tecnologias nos permitirem economizar o capital natural e não apenas encontrar maneiras mais inteligentes de reduzi-lo, de forma mais barata e rápida.

Nas próximas décadas teremos que migrar para energia solar e energia nuclear segura, uma vez que ambas fornecem, em princípio, energia limpa ─ se compararmos com a energia atual ─ adequadamente vinculadas a tecnologias aprimoradas e controles sociais. O know-how terá que ser aplicado a automóveis com alto rendimento (alta quilometragem por litro), agricultura com reaproveitamento da água e edifícios verdes que reduzam fortemente o consumo de energia. Teremos que repensar as dietas modernas e os projetos urbanos para conseguir estilos de vida mais saudáveis que também rejeitem padrões de consumo intensivo de energia. E teremos que ajudar a África e outras regiões a acelerar a transição demográfica para níveis de fertilidade de substituição, a fim de estabilizar a população global em torno de 8 bilhões.

Não há nada, num cenário sustentável como esse que viole as restrições de recursos ou disponibilidade de energia da Terra. No entanto, ainda não estamos seguindo essa trajetória sustentável, e os sinais do mercado atual não estão nos conduzindo por esse caminho. Precisamos de novas políticas para movimentar o mercado de forma sustentável ─ por exemplo, taxando o carbono para reduzir emissões de gases do efeito estufa ─ e para promover progressos tecnológicos em economia de recursos e não em mineração de recursos. Precisamos de novas políticas que reconheçam a importância de uma estratégia de crescimento sustentável e mobilização global para consegui-la.

Será que Malthus foi derrotado? Depois de dois séculos, realmente ainda ninguém sabe.

Jeffrey Sachs é diretor do Earth Institute da Universidade de Columbia (www.earth.columbia.edu).

Scientific American Brasil

A crise e o clima


O sistema econômico e o sistema climático globais interagem e não podem ser separados
por Sérgio Abranches
Há mais conexões entre a crise financeira global e a mudança climática do que aparece nos jornais, além do fato de ambas serem fenômenos sistêmicos e complexos. Não dá para eliminar todas as incertezas, nem antecipar todos os efeitos colaterais de nenhuma das duas. O sistema econômico e o sistema climático globais interagem continuamente, não podem ser separados.

Dou um exemplo pouco comentado na imprensa. As empresas seguradoras viram suas perdas com eventos naturais extremos, só nos Estados Unidos, subirem de menos de US$ 30 bilhões, na década de 1980, para US$ 100 bilhões, no decênio 1995-2005. De repente, são atingidas pelas crises imobiliária e financeira. Elas já haviam incorporado, em parte, critérios de avaliação do risco climático e de eventos naturais extremos. Mas, diante dos prejuízos, já consideravam seus modelos de risco superados. Sairão da crise com muitas seqüelas e uma nova concepção de risco, muito mais criteriosa e completa, na qual o risco climático, o risco de eventos naturais extremos, e o “risco carbono” terão peso muito maior que agora. O setor de seguros vai liderar a revisão dos modelos de risco, que passarão a incorporar não apenas critérios mais adequados de mensuração dos riscos financeiros, mas também o risco climático e ambiental. Essa revisão dos modelos de risco tornará os setores voltados para a mitigação dos gases de efeito estufa e, principalmente, as tecnologias, atividades e empresas de baixo carbono muito mais atraentes aos investidores. Também serão as que pagarão os menores prêmios de seguro.

Essas conexões sistêmicas vincularão, cada vez mais, as avaliações de investimento e a valorização de ações e empresas à mudança climática. Perderão valor aquelas atividades de alto carbono e as que estejam sujeitas aos efeitos da mudança climática, principalmente aquelas submetidas à alta probabilidade de danos por eventos climáticos extremos, chuva ácida, desertificação, elevação do nível das águas. As empresas e os setores de alto carbono terão sua rentabilidade futura ameaçada por regulações ambientais e climáticas mais duras, pela fuga de consumidores para produtos de baixo carbono e pelo risco de tributação mais pesada.

A crise financeira pode produzir dois efeitos de curto prazo nas emissões de carbono, um positivo e outro negativo. Deve haver queda nos investimentos em tecnologias verdes e energias renováveis. O mercado de carbono está caindo também. Mas a desaceleração econômica, provavelmente recessão global, reduzirá as emissões de carbono e os investimentos em atividades de alto carbono. É bem provável que os investimentos “verdes” sejam os menos prejudicados pela crise.

Em médio e longo prazo, porém, a reestruturação dos mercados financeiros, o novo marco regulatório que será desenhado para evitar crises desse tipo e os ganhos em coordenação global de políticas abrirão novos caminhos para um acordo global sobre mudança climática. A nova visão de risco sistêmico certamente terminará por incorporar o risco climático. A estrutura regulatória para o século 21, de que tanto falam Barak Obama, nos Estados Unidos, Gordon Brown e Nicolas Sarkozy, na Europa, terá de incorporar não apenas regulação econômica, comercial e financeira, mas também climática e ambiental.

É pouco provável que essa crise não altere profundamente as instituições da economia política global. E o mesmo processo que a criou, agravou a crise climática. A expansão exuberante das economias, que acabou nessa débâcle sistêmica das finanças, fez as emissões crescerem, a 3,5% ao ano, segundo o PNUMA. O pior cenário do IPCC previa 2,7% a.a. O sistema climático está dando sinais tão evidentes de crise quanto o sistema econômico. É provável que, na reconfiguração da economia global, no após-crise, se incorporem medidas para reduzir o ímpeto da crise climática. Apesar da oposição minoritária – que tende a ser derrotada – a União Européia manteve sua política de redução de emissões de carbono até 2050. Nos Estados Unidos também deve haver mudança na política climática.

O que está em discussão embrionária e se tornará o centro do diálogo entre os governos em algum momento no ano que chega é uma nova ordem econômica e financeira, com mecanismos mais eficazes de ação pública coordenada e governança global. É esse o arcabouço institucional que permitirá fechar um acordo climático capaz de mitigar as emissões de carbono, aumentar os esforços de adaptação à mudança climática e investir em tecnologias verdes e energias de baixo carbono. A concertação para enfrentar a crise sistêmica financeira criará momento e aprendizado para que avancemos na concertação pelo clima.

A crise, com toda a dor e o trauma que ainda produzirá, pode ser o verdadeiro ponto de ruptura a partir do onde a economia global será ajustada a uma gestão de menor risco especulativo e, progressivamente, a um padrão de baixo carbono.

Sérgio Abranches é mestre em sociologia pela Universidade de Brasília (UnB); M.A. e Ph.D. em ciência política pela Cornell University. Diretor e colunista de O Eco (www.oeco.com.br); comentarista de ecopolítica da rádio CBN

texto de Scientific American Brasil

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

UERJ - EXAME DISCURSIVO - VESTIBULAR ESTADUAL 2008

2ªFase - Exame Discursivo - Caderno de prova
Questão 1

Como pode ser observado na figura, a Terra possui uma inclinação de 23º27´ em relação ao plano de sua órbita em torno do Sol, o que gera vários fenômenos físicos.
Aponte duas alterações, uma no clima e outra na duração dos dias e das noites, que a ausência dessa inclinação provocaria.

Resposta:
Clima: As estações do ano não existiriam; a temperatura se manteria próxima a uma média, variável de acordo com a latitude, durante todo o ano.
Duração dos dias e das noites: os dias e as noites teriam a mesma duração, 12 horas cada um, em todas as latitudes, durante todo o ano.

Questão 2
Observe na ilustração abaixo um modelo de organização espacial que se disseminou entre muitas metrópoles americanas a partir da década de 1920:

Identifique duas características da organização espacial do Distrito Central de Negócios e apresente duas justificativas para a localização da área residencial da população de renda média e alta.

Resposta:
Duas das características:
• concentração de atividades terciárias de alto nível
• abrigo de sedes de grandes empresas e órgãos públicos importantes
• centralização das atividades financeiras
• alto valor do solo urbano
• tendência a intensa verticalização
• presença de rede de telecomunicações complexa e de alta qualidade
• polarização de fluxos de transportes
Duas das justificativas:
• abundância de áreas verdes e grandes espaços, associados à percepção de boa qualidade de vida
• facilidade de acesso através de auto-estradas, em função da disseminação do transporte individual
• possibilidade de morar em imóveis com maior área útil
• busca por maior segurança nos espaços segregados
• convívio com pessoas de perfil semelhante nos condomínios fechados


Questão 3
(…) hoje já é legítimo se colocar a dúvida quanto à validade da distinção entre campo e cidade. Não é difícil prever uma situação em que a maioria da população “rural”, no sentido ecológico, se dedique a funções urbanas e que a prática da agricultura em nada se distinga das demais atividades urbanas.PAUL Singer
Adaptado de Economia política da urbanização. São Paulo: Brasiliense, 1995. Campo e cidade, apesar de ocuparem diferentes porções do espaço geográfico, são complementares, sendo cada vez mais difícil apontar os limites físicos e funcionais entre um e outro.
Considerando as atividades econômicas, apresente dois exemplos de intercâmbio que demonstram a atual relação de interdependência entre o espaço urbano e o rural.
Resposta:

Dois dos exemplos:
• dependência, por parte da atividade industrial urbana, das matérias-primas produzidas no campo
• oferta de produtos em estado natural no comércio varejista
• oferta de espaços de lazer no campo para moradores da cidade
• dependência, por parte da atividade agropecuária moderna, de produtos industriais e de recursos
tecnológicos gerados nas cidades, como tratores, implementos agrícolas, fertilizantes, rações e
medicamentos veterinários
• oferta de bens e serviços urbanos para os moradores do campo

Questão 4
A caixa que encolheu a Terra
Convencionou-se dizer que o avião, as telecomunicações e a Internet viabilizaram a globalização ao derrubar fronteiras e encurtar distâncias. Do ponto de vista do comércio mundial, no entanto, nenhuma invenção teve mais impacto que o contêiner – aquela grande caixa metálica com tamanho padronizado internacionalmente que pode transportar, por trens, navios e caminhões, produtos tão distintos como grãos de café e iPods. Os contêineres são uma espécie de herói esquecido da globalização (...). Veja, 04/04/2007
Aponte uma conseqüência do uso de contêineres para o transporte marítimo mundial e explique por que a sua utilização levou várias áreas portuárias à decadência.
Resposta:

Uma das conseqüências:
• venda, em países com mercado consumidor de alta renda de produtos oriundos de países com baixos custos de produção, em função da queda do valor frete
• viabilização da produção fragmentada, com fabricação de cada componente em local de custos mais competitivos, em função do barateamento do transporte
• maior segurança para a integralidade dos produtos transportados
• transporte de carga de caráter intermodal
São necessários grandes pátios de armazenamento para empilhar os contêineres antes do embarque, o que aposentou os antigos portos com cais estreitos e lineares.

Questão 5
Cidades disputam Copa de extremos
O mundial de futebol de 2014 deve ser o mais difícil em termos climáticos e de logística da história do campeonato. Observe o esquema abaixo, com um possível itinerário de uma seleção de futebol participante da Copa do Mundo no Brasil. Adaptado de Folha de São Paulo, 18/08/2007

Tendo em vista as características naturais do território brasileiro, explique as diferenças de temperatura verificadas entre Manaus e Porto Alegre e as diferenças de pluviosidade entre Brasília e Rio de Janeiro.

Resposta:
Temperatura: A baixa latitude de Manaus resulta em temperaturas elevadas na cidade em qualquer época do ano; a alta latitude de Porto Alegre resulta em temperaturas mais baixas em junho, período de inverno.
Pluviosidade: A desigualdade verificada pode ser explicada pela atuação da Massa Tropical Atlântica (MTA) sobre as duas cidades na época do ano em que ocorrem os jogos. Quente e úmida, essa massa de ar provoca chuvas na faixa litorânea, onde está localizada a cidade do Rio de Janeiro; em Brasília, essa massa não provoca o mesmo efeito, uma vez que ela perde grande parte de sua umidade antes de chegar à capital federal.


Questão 6

No mapa acima estão assinaladas as três macrorregiões geoeconômicas presentes no território brasileiro.
Escolha duas delas e apresente uma característica física e uma característica socioeconômica que sejam marcantes para a sua individualização como macrorregiões.

Resposta:
AMAZÔNIA
Uma das características físicas:
• floresta pluvial latifoliada
• clima equatorial, quente e chuvoso o ano todo
• hidrografia caracterizada por grande número de rios com abundante volume d’água
• bioma marcado pela extrema diversidade de espécies
• topografia de predominância suave, marcada principalmente por planícies e baixos platôs
Uma das características socioeconômicas:
• densidades demográficas reduzidas na maior parte da região
• expressiva participação das atividades primárias na composição do PIB e de absorção da PEA
• forte participação dos grupos indígenas na composição étnica da população
• marcante influência dos grupos indígenas brasileiros sobre a cultura regional

NORDESTE
Uma das características físicas:
• vegetação de caatinga presente no Sertão fortemente associada às paisagens regionais
• clima semi-árido do Sertão Nordestino
• hidrografia sertaneja, marcada pelos rios temporários em função das características climáticas
• climas megatérmicos, marcados pela pequena amplitude térmica
Uma das características socioeconômicas:
• grandes desigualdades socioeconômicas
• concentração fundiária
• perfil de renda com médias inferiores às do restante do país
• predomínio, nas áreas rurais, das atividades agropecuárias tradicionais

CENTRO-SUL
Uma das características físicas:
• médias de temperatura inferiores às encontradas nas outras duas regiões, com amplitude térmica maior
em função da maior latitude
• vegetação de Cerrado
• relevo predominantemente de planalto com muitas escarpas, localmente denominadas de serras
Uma das características socioeconômicas:
• maiores índices de população urbana
• presença de áreas densamente urbanizadas, formando grandes aglomerações metropolitanas
• alto nível de participação da indústria no PIB/grandes concentrações industriais
• rede de transportes densa e diversificada
• agropecuária moderna e em expansão

Questão 7
O Brasil vai se tornar a Arábia Saudita verde?
O Brasil é novamente o país do futuro. Depois de rodar pelo país e se encantar com o processo de produção do álcool a partir da cana-de-açúcar, Thomas Friedman, colunis-ta do New York Times e um dos maiores especialistas em Oriente Médio, voltou para os Estados Unidos convencido de que o Brasil pode se tornar a Arábia Saudita do álcool. A comparação com o maior exportador mundial de petróleo não é delirante. O Brasil é o país mais avançado em produção de combustíveis de origem vegetal, também chamados biocombustíveis. Época, 12/02/2007
Após vislumbrar a auto-suficiência na produção de petróleo, o Brasil desponta como possível destaque na utilização da biomassa como fonte de energia.
Cite duas características do espaço físico brasileiro que favorecem a produção de biomassa no país. Cite também dois riscos, um socioeconômico e outro ambiental, caso se confirme o prognóstico apresentado no texto.

Resposta:
Duas das características:
• grande disponibilidade de terras para o plantio, sem necessariamente diminuir a área destinada à produção de alimentos
• temperaturas que permitem mais de uma safra de um grande número de produtos
• fotoperíodos longos durante quase todo o ano, favorecendo o crescimento dos vegetais utilizados para produção de biocombustíveis
• pluviosidade adequada à produção agrícola na maior parte do país
• condições adequadas ao cultivo da cana-de-açúcar, cujo álcool é mais barato do que o obtido a partir de plantas cultivadas em áreas temperadas, como o milho e a beterraba
Um dos riscos socioeconômicos:
• redução da área plantada destinada a alimentos
• aprofundamento da concentração fundiária
Um dos riscos ambientais:
• ampliação do desmatamento do cerrado e da Amazônia para realizar o plantio de espécies passíveis de gerar biocombustíveis
• possibilidade de aumentar a poluição hídrica causada por agrotóxicos em virtude da intensividade dos cultivos realizados pela agroindústria
• expansão de monoculturas, comprometendo a biodiversidade de ecossistemas regionais

Questão 8
A análise de uma pirâmide etária permite identificar numerosas características socioeconômicas de uma população, o que pode contribuir para o direcionamento adequado das ações governamentais. Observe as pirâmides etárias do Brasil:

Vesentini, José William. Brasil: sociedade e espaço. São Paulo: Ática, 2006.
Identifique duas mudanças do perfil demográfico do país, no período considerado, indicando também uma política pública adequada a cada uma dessas mudanças.

Resposta:
Duas das mudanças e respectiva política pública:
• O estreitamento da base da pirâmide indica a redução do número de jovens./ Reduzir alguns tipos de investimentos em educação, como a expansão da rede de escolas para o Ensino Fundamental.
• O alargamento do corpo da pirâmide indica o aumento da população em idade ativa e o esperado aumento correspondente da PEA./ Gerar trabalho e renda.
• O alargamento do topo da pirâmide indica o aumento da população idosa./ Para essa mudança, pode ser indicada uma das seguintes políticas públicas:
- aumentar os investimentos no sistema público de saúde para capacitá-lo a absorver a maior demanda por esses serviços
- elevar a eficiência do sistema previdenciário em função do maior número de aposentados em relação ao de trabalhadores ativos
- desenvolver ações que aumentem o percentual de trabalhadores formais de modo a aumentar o número de contribuintes em relação ao de beneficiários
- implementar programas e planos de assistência social voltados para a terceira idade

Questão 9
Observe a tabela.


A economia brasileira, ao longo da década de 1990, passou por profundas trans -formações com sucessivas privatizações e maior abertura comercial e financeira para o capital internacional. O Estado do Rio de Janeiro, nesse período, reestruturou sua economia com o surgimento de novas áreas especializadas, sobretudo nas regiões de governo Norte Fluminense e Médio Paraíba, apesar da manutenção da forte concentração do PIB na Região Metropolitana.
Aponte o setor industrial que mais se desenvolveu no Norte Fluminense e o mais impor-tante do Médio Paraíba, na última década. Identifique, também, dois fatores que ex-plicam a forte concentração do PIB na Região Metropolitana.

Resposta:
Norte Fluminense: extração de petróleo.
Médio Paraíba: pólo metal-mecânico.

Dois dos fatores:
• concentração de boa parte da infra-estrutura do Estado
• convergência das vias de transporte
• concentração das principais indústrias, dos serviços especializados e dos órgãos da administração pública federal
• concentração de grande parte do mercado consumidor do Estado
• convergência de investimentos públicos e privados na região, tendo em vista o fato de ter sido capital do país durante muito tempo
• pouca expressividade das atividades agropecuárias no interior do antigo Estado do Rio de Janeiro, desde a marcha do café, acentuando o contraste econômico entre capital e interior

Questão 10
Quatro favelas da Zona Sul do Rio de Janeiro cresceram 81% em quatro décadas


Com base na análise da imagem acima, apresente dois argumentos que explicam a expansão dessas quatro favelas na área mais valorizada da cidade.

Resposta:
Dois dos argumentos:
• proximidade de bairros com grande oferta de emprego no setor de comércio e serviços que exigem baixa qualificação
• localização entre o mar e o Maciço da Tijuca , em área cuja topografia acidentada dificulta a incorporação ao mercado imobiliário formal
• precariedade dos meios de transporte de massa na cidade, desestimulando longos movimentos pendulares
• condescendência das autoridades públicas com a expansão das favelas em virtude do manancial de votos que esses espaços populares representam
• acompanhamento do crescimento demográfico metropolitano

ÁFRICA - ASPECTOS ECONÔMICOS E GEOPOLÍTICOS


No início do período das Grandes Navegações, portugueses e espanhóis estabeleceram na costa ocidental africana feitorias para o comércio de mercadorias, mais tarde, já no século XIX, outros países como Reino Unido, França, Alemanha, Bélgica e Itália se interessaram pelo colonialismo no continente, devido seu enorme potencial de recursos minerais e energéticos, por causa da disputa imperialista entre esses países europeus, em 1884, realizou se a Conferência de Berlin, nela foram delimitadas as áreas coloniais já conquistadas e definidas as suas fronteiras. Alguns anos depois dessa reunião o domínio europeu chegou a 90% do território africano.
A riqueza do subsolo africano foi um dos principais motivos para o conflito de interesses entre os europeus, dando início a Primeira Guerra Mundial. Em um continente quetem 30% das reservas mundiais de recursos minerais, seria inevitável uma disputa acirrada pelos territórios. Dentre as riquezas merecem destaque o ouro – maior produção mundial se encontra na África do Sul, o diamante – a República Democrática do Congo tem a maior reserva, a platina – mais de 90% das reservas mundiais estão na África, entre outras.
O nacionalismo foi uma das ferramentas que impulsionou a Segunda Guerra Mundial. Os alemães ao perderam a Primeira Grande Guerra e também muitos de seus territórios, a acreditavam fielmente no Führer que poderiam conquistar não só a África, mas o mundo, a preocupação da segurança foi substituída pelo desejo de conseguir prestígio e poder.
Acaba a Segunda Guerra Mundial e após quase quinhentos anos de expansão, o colonialismo europeu entrou em colapso graças às crises que atingiram os países dominantes da ordem da Revolução Industrial. A Europa estava devastada, e as nações do Velho Mundo se empenharam na reconstrução de suas economias arrasadas pela guerra.
Logo a descolonização foi tão rápida quanto a ocupação imperialista e teve como uma das causas principais as pressões anti-colonialistas exercidas por movimentos políticos nas principais nações européias apontando a contradição em manter os laços coloniais após o combate ao nazi-fascismo.
Com a Guerra Fria, desenvolveu-se na África um forte nacionalismo caracterizado pelo antiimperialismo e pela noção de busca da soberania política e econômica. Entre 1950 e 1980 surgiram 45 novas nações no continente africano, entretanto não trouxe pacificação,pois as fronteiras impostas pelos europeus contribuíram para a eclosão de lutas internas de origem étnica, religiosa, territorial e econômica.
No final da Bipolaridade com a derrota da União Soviética, eles tinham um armamento bélico tão gigantesco, que ficaram sem saber como administrá-lo, anos de investimento militar para uma guerra que nunca aconteceu, foi o ápice do tráfico de armas, que eram vendidas principalmente para os tiranos e guerrilheiros da África, devido às guerras civis espalhadas por todo o continente. Estados Unidos, Federação Russa, Reino Unido, França e China, são os paises que mais tem armas no mundo e nem sempre estão em guerra, logo possuem uma reserva imensa. Portanto, surge a dúvida se seus PIBs seriam tão elevados, devido a venda de armas.

A pobreza na África acabaria se os recursos naturais do continente fossem administrados de maneira efetiva e sustentável.


Fernanda Machado Ferreira
Leandro Tadeu Barbosa Pimenta
Mayara Daher de Paula
Osmar Henrique Ribeiro Silva
Saulo Teruo Takami
Estudantes do curso de Geografia
Departamento de Artes e Humanidades-UFV

CONTEMPORÂNEOS

Revista de Artes e Humanidades

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Piratas da natureza

Substâncias extraídas de plantas e animais amazônicos são patenteadas no exterior

O termo pirataria remete a um mundo em que homens com tapa-olho e espada na cintura viviam de roubos no mar - uma lembrança do passado que sobrevive em filmes e histórias infantis. No entanto, piratas ainda existem na vida real, embora não correspondam a essa imagem: eles trocaram o mar pela floresta, detêm grande conhecimento científico e, em vez de ouro, roubam plantas e animais para contrabandeá-los para o exterior. São os biopiratas.

A Universidade de Cincinnati (Estados Unidos)
patenteou uma substância retirada do guaraná

O fenômeno não é novo. "O ciclo da borracha na Amazônia acabou porque os ingleses contrabandearam a semente da seringueira para a Malásia", lembra o biofísico Antônio Paz de Carvalho, presidente da Extracta Moléculas Naturais. O Brasil, porém, não foi apenas vítima dos biopiratas: o próspero ciclo econômico do café aconteceu graças a sementes trazidas ilegalmente da Guiana. O termo biopirataria, no entanto, surgiu recentemente para designar o contrabando da biodiversidade para grandes laboratórios internacionais.

A convenção internacional da biodiversidade estabelecida em 1992 determinou que ela pertence ao país em que se encontra. O acordo, porém, é contestado pelos Estados Unidos, e não impede a presença ilegal de pesquisadores estrangeiros na Amazônia, facilitada pela deficiência da legislação brasileira para regulamentar a coleta de material em expedições científicas. Em 2000, elaborou-se às pressas uma Medida Provisória (MP) para bloquear um contrato mal feito entre o governo brasileiro e uma multinacional. "A MP não diferencia interesse econômico de interesse científico e dificulta o intercâmbio com instituições no exterior", avalia o zoólogo Ângelo Machado, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Fundação Biodiversitas.

Esse intercâmbio, no entanto, é foco de controvérsias. "Não dá para assegurar que a troca terá apenas fins científicos", critica Paz de Carvalho. "O Brasil não tem cientistas o bastante para estudar a floresta sozinho", ressalta Ângelo. O engenheiro agrônomo Luiz Antônio de Oliveira, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) levanta outras questões: "Menos de 1% dos recursos para pesquisa estão na Região Norte. Não há incentivos para a formação de recursos humanos ali."



Um ingrediente ativo da planta Psychotria viridis, sorvido ritualisticamente por populações da Amazônia, foi patenteado por uma empresa norte-americana

Os químicos Maria da Paz Lima e Adrian Martin Pohlit, do Inpa, lembram que as populações tradicionais, responsáveis pela descoberta de muitas substâncias, não recebem nenhum retorno. Eles ressaltam a "obrigação moral de compartilhar os proventos de descobertas com os povos cujos conhecimentos e uso dessas plantas foi motivo da preparação do extrato". Uma lei da senadora Marina Silva (PT-AC) em trâmite no Congresso tenta atender a essas diferentes demandas. Ainda que seja aprovada, será difícil colocá-la efetivamente em prática. "Quem quiser contrabandear a biodiversidade amazônica só precisa comprá-la no mercado Ver-o-Peso, em Belém", diz Paz de Carvalho.


Renata Ramalho
Ciência Hoje/RJ

O papel das águas na Amazônia

Riqueza hídrica exerce função fundamental para o ecossistema da floresta

Entre seus muitos nomes, a floresta amazônica é conhecida em inglês como rain forest (floresta pluvial): a bacia amazônica recebe por ano 15 trilhões de m3 de chuva, responsável pelo grande volume de água de seus inúmeros rios. Um segundo de fluxo do rio Amazonas poderia abastecer por um dia uma cidade de 2 mil habitantes. Essa riqueza hídrica exerce papel fundamental para a floresta. "As águas são a base do ecossistema amazônico", afirma Sérgio Bringeo, químico do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

O igarapé Tarumã-Mirim é um afluente do rio Negro


Há na Bacia Amazônica três tipos de águas cujas características variam de acordo com o ambiente que elas percorrem. A idade geológica da foz de cada rio é fundamental para que suas águas se encaixem em uma das colorações encontradas na floresta: as originárias de formações mais recentes são ’brancas’; as que vêm de formações mais antigas podem ser ’pretas’ ou claras (verde-azuladas).

As águas brancas, como as do rio Solimões - um dos principais afluentes do Amazonas -, têm origem andina. Elas são básicas ou neutras, abundantes em nutrientes e carregam sedimentos ricos em sais minerais (como cálcio, magnésio ou potássio). Os solos banhados por elas (as várzeas) são ricos, e elas concentram grande biodiversidade. A fertilidade dessas águas favorece o desenvolvimento de larvas.

As águas pretas, caso do rio Negro, apresentam baixa carga de sedimentos. "Há uma grande concentração de carbono e ácidos orgânicos", explica o geoquímico Patrick Seyler, do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD, na sigla em francês). Segundo Bringeo, essas águas têm a grande vantagem de serem pouco propensas ao desenvolvimento de larvas e insetos hematófagos. "Elas são ácidas." Já nos rios de águas claras, como o Tapajós, não há substâncias predominantes, e as águas são em geral menos ácidas que as negras.

Imagem do satélite CBERS mostra encontro das águas escuras do rio
Negro (ao norte) com as brancas do Solimões, para formar o Amazonas

O rio Amazonas - o mais importante da região - é composto por todos esses tipos de água. "As águas brancas predominam (por terem mais materiais em suspensão), seguidas das pretas e claras", diz Seyler. "Sem o Amazonas, a floresta simplesmente não existiria."

Os rios da Amazônia são classificados em três tipos: igarapés, riozinhos (50 a 60 metros de largura) e grandes rios. "Os igarapés são usados como caminhos de canoa", explica Aziz Ab’Sáber, geógrafo da Universidade de São Paulo (USP). "O riozinho é muito percorrido pelos que querem explorar a beira do rio." Esses rios obedecem a ciclos de inundação responsáveis por algumas de suas características e por muito das riquezas do solo. De maio a julho é a época de cheia, e de novembro a janeiro, a de seca. Esses ciclos, no entanto, não são completamente estáveis. Algumas regiões permanecem inundadas (exceto em anos de seca intensa), outras são inundadas anualmente e, as de terra firme, apenas quando a cheia é excessiva.


Cristina Souto e
Renata Ramalho
Ciência Hoje/RJ

Individualismo e caos no trânsito

Motoristas brasileiros carecem de noções de civilidade e de espaço público, diz estudo

O trânsito caótico da cidade de São Paulo foi escolhido como palco de um estudo sobre o comportamento dos condutores, envolvendo a percepção que têm de espaço público. Fosse um teste, estaria reprovada a maioria dos entrevistados, que assume uma postura individualista na qual o interesse pessoal está acima da lei e, portanto, do bem-estar coletivo.

"Não há noção de espaço público e de civilidade na orientação da conduta dos usuários de trânsito em São Paulo", afirma a socióloga Alessandra Olivato, responsável pela pesquisa, base de sua dissertação de mestrado defendida em 2002, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP).
Foram feitas entrevistas de cerca de uma hora com 54 pessoas, abordadas nas ruas de São Paulo, pertencentes às seguintes categorias: pedestres, motoboys, motoristas de carro, ônibus, táxi e lotação. Cada um falou livremente da percepção que tem de si mesmo e dos outros no trânsito, como entende as leis e autoridades, o espaço público e a civilidade.

A partir dos resultados, Olivato observou que há uma 'lógica privada' que rege a conduta dos agentes do trânsito. "Nessa lógica a tentativa de cumprir a lei, por exemplo, não está relacionada ao bem comum, mas a princípios religiosos, ao caráter ou à boa educação familiar", diz. A maioria dos entrevistados admite cometer infrações, via de regra justificadas por motivos pessoais, que são sentidos como prioritários à lei. Boa parte refere-se às leis como meramente punitivas, considerando as autoridades de trânsito rigorosas e injustas, e relaciona os pedestres, assim como os demais motoristas, a 'obstáculos' do trânsito.

A pesquisadora associa a má conduta dos motoristas a uma tendência à privatização do espaço público, predominante nas duas últimas décadas, seguida da desvalorização do mesmo. "Hoje o espaço público é sentido como um lugar desagradável, devido a fatores como violência e poluição de todos os tipos", diz Olivato, que lembra que o espaço público é o 'lugar do cidadão'.

A tendência é agravada por fatores históricos que imprimiram um sentido negativo à cidadania brasileira. "Não há orgulho em dizer 'sou cidadão' no Brasil. Sentimos ter deveres mas não direitos", diz, acrescentando que em um país onde as pessoas não se sentem cidadãs, a individualidade acaba prevalecendo. "Isso afeta a nossa conduta no trânsito, tornando-a hostil e agressiva", afirma a socióloga.

O estudo também relaciona tal comportamento à má formação dos condutores e destaca o Novo Código de Trânsito, em vigor desde 1998, como um importante instrumento de possível mudança na conduta dos motoristas. Com ele, algumas auto-escolas substituíram a formação tradicionalmente técnica dos condutores por cursos que incluem noções de civilidade e direção defensiva -- em que o condutor deve prever os eventos no trânsito --, além de palestras e noções de primeiros socorros essenciais à boa convivência nesse espaço público. Mas os resultados ainda são muito incipientes.

Enquanto os motoristas e pedestres não desenvolvem uma educação cívica no trânsito, baseada no sentimento de co-responsabilidade pelo bem coletivo, a punição prevista nas leis ainda contribui para coibir as infrações e defender uns dos outros no caos urbano.
Revista Ciência Hoje 192
Maria Ganem

Crítica à sociedade motorizada

Livro discute poluição, exclusão social e outros males trazidos pelo uso do carro


Por que nos sujeitamos a um meio de transporte que causa, só no Brasil, a morte de 46 mil pessoas por ano? A troco de quê ajudamos a sustentar o mercado da indústria automobilística e petrolífera que fomenta tantas guerras? Por que julgamos tão necessário um veículo que é a maior causa da poluição atmosférica e do aquecimento global? Quantos ainda terão que se sacrificar para que alguns desfrutem o conforto de seu carro em congestionamentos?
Essas são algumas questões levantadas pelo livro Apocalipse motorizado - a tirania do automóvel em um planeta poluído. A obra é uma coletânea de textos que questionam a imposição social desse veículo, discutem problemas gerados pela sua superabundância, a expropriação do espaço público urbano e a exclusão social que ele acarreta.

O livro é organizado por Ned Ludd, que no ensaio de abertura conta a história do veículo no Brasil e chama a atenção para o culto ao carro que se pratica no cotidiano. "Questionar o automóvel implica, imediata e necessariamente, questionar a própria organização social e as necessidades e funções que lhes são próprias", defende.

A leitura continua com os textos do ambientalista radical Ivan Illich e do sociólogo André Gorz, que apontam os problemas da poluição e destruição do meio ambiente pela obtenção de energia para a produção e 'consumo' do carro. Gorz denuncia um paradoxo ligado à cultura do automóvel: "Ele é imprescindível para escapar do inferno urbano dos carros. A indústria capitalista ganhou assim o jogo: o supérfluo tornou-se necessário".

Outra reflexão levantada por Gorz -- e pelos textos seguintes, dos grupos Aufheben (alemão) e Mr. Social Control (tcheco) -- discute a estruturação do espaço urbano. "A verdade é que ninguém tem opção", lamenta Gorz. "Não se é livre para ter ou não um carro uma vez que o universo dos subúrbios é projetado em função dele."

Os grupos europeus também destacam a identidade estabelecida pelo carro e a exclusão social por ele provocada. "Quanto mais dinheiro é gasto por motoristas, mais lugares tornam-se fora do alcance das pessoas que não possuem carros, veja-se o êxodo de lojas das ruas principais para os anéis viários", afirma o texto tcheco. A falsa sensação de liberdade associada ao veículo e alimentada pela publicidade é outro tema evocado. "Ironicamente, a máquina que é vendida por sua capacidade de dar liberdade de movimentos e por sua capacidade de cobrir distâncias cria tanta distância quanto atravessa", acusam os alemães.

Os artigos de Apocalipse motorizado são ilustrados com charges do cartunista americano Andy Singer


O livro segue com propostas criativas e bem-humoradas de ações práticas para se opor à ditadura do automóvel -- como transformar as placas de 'Pare' em 'Pare de dirigir'. "Construa uma armação do tamanho de um carro para sua bicicleta e ande com ela pela cidade", sugerem ainda os autores.

Os artigos de Apocalipse motorizado têm linguagem simples e didática. Embora muitas vezes defenda pontos de vista irredutíveis e não apresente contrapontos ou soluções concretas para os problemas expostos, o livro funciona como um instigante guia de reflexão sobre a organização do atual sistema de transportes.

Apocalipse motorizado - a tirania do
automóvel em um planeta poluído
Ned Ludd (org.)
São Paulo, 2004, Conrad Editora

Renata Moehlecke
Revista Ciência Hoje

Sobre neve, eólicas e o pré-sal

Relato de viagem abre os olhos do colunista para a triste política energética brasileira

Neve acumulada diante de casas em Ottawa, no Canadá (foto: John Talbot).


Em uma coluna anterior, discutindo o aquecimento global, eu dizia que gostaria de conhecer a neve e mostrá-la a minha filha de 9 anos. Pois acabei de satisfazer ambos os desejos, por ocasião de uma curta viagem à França. Mas o que as férias de um colunista têm a ver com meio ambiente? De novo, tudo.

A pequena cidade no pé dos Alpes onde fomos apresentados à neve, Briançon, não via tanta neve há cerca de 15 anos. Uma tremenda tempestade havia dizimado as florestas costeiras de pinheiros do sudoeste francês na semana anterior; uma outra, com ventos de 150 km/h, varreu a costa da Bretanha e Normandia; fortes inundações atingiram o sul da França.

Enquanto isso, uma seca excepcional escaldava os pampas argentinos, chuvas idem castigavam o Brasil e a Austrália ardia em incêndios incontroláveis. Hum... Os cientistas bem que disseram que a chuva talvez não diminuísse, mas sua distribuição no tempo e no espaço se tornaria muito irregular, com aumento de frequência de eventos extremos e, portanto, potencialmente catastróficos. Mas relaxe, afinal, pode ser tudo coincidência.

Geotermia x chuveiros elétricos
E a viagem segue, com muita conversa com amigos e parentes de ocupações e pendores variados. Entre um canapé e outro, comentou-se, entre vários assuntos, a recente instalação de um sistema geotérmico na casa anteriormente aquecida a gás, diesel ou eletricidade. Falou-se das vantagens, desvantagens e custos da opção solar em comparação com a geotermia e aerotermia, dos incentivos fiscais para a conversão, dos prazos para amortizar o investimento inicial através da economia no consumo, dos sistemas mais silenciosos e daqueles que permitem tanto aquecer com refrigerar.

E juro que não provoquei – estava pensando naquela final de Copa dos 3 x 0. Mas, ai de mim, acabaram lembrando que eu existia e cometeram a temida pergunta:

O Brasil é um dos países em que o uso do chuveiro elétrico é mais difundido (foto: reprodução).


– E no Brasil, como vocês fazem?
– Usamos chuveiros elétricos e ar condicionado (silêncio e consternação).
– E quanto custa um chuveiro elétrico?
– Bem, o mais barato custa cerca de 5 euros (olhares incrédulos, gritinhos abafados).
– Mas e o consumo, a eficiência?
– Muito alto e muito baixa, respectivamente.
Até que um vizinho não resistiu, e rompeu o novo silêncio com um viperino:
– Deve ser por isso que são proibidos aqui. Nem a concessionária de energia nem a companhia de seguros deixam.
E outro:
– Mas não entendo, vocês tem tanto sol! E usam eletricidade para aquecer água? Por isso não param de enxotar índios para fazer novas mega-hidrelétricas!

Preferi concordar e mudar de assunto. Me ocorreu ainda lembrar-lhes que temos o pré-sal, mas temi que talvez me deixassem sem sobremesa. Arrá, lembrei que a única peça móvel do famigerado sistema geotérmico ou aerotérmico é movida a eletricidade, que na França é 80% de origem nuclear!!! Mas felizmente chegou a torta de maçã, orgânica, o que me ajudou a lembrar que as centrais nucleares praticamente não emitem carbono. Foi por pouco. Mas e os rejeitos radioativos? Ufa, hora do café. Mas o café era da Costa Rica, orgânico, sustentável e certificado e, não bastasse tudo isso, ainda remunerava de forma supostamente digna os seus produtores... Ai, ai.

Paisagem eólica
Ainda bem, já era hora de partir. Mas, a caminho do aeroporto, gentilmente conduzido por um ex-cunhado ao volante de seu Golf a diesel, mais uma surpresa: um engarrafamento causado por um comboio que transportava uma estrutura metálica, branca, lisa, torneada, de cerca de 25 metros de comprimento. Coisa grande, mas fina. Não imaginei outra coisa que não uma escultura moderna a caminho de seu pedestal em alguma praça ou pátio de museu.

Parque eólico em Solano County, na Califórnia
(foto: Wikimedia Commons).

Mas não: era uma pá. Uma pá de turbina eólica. Cada eólica tem três pás como aquela. E um suporte de 50 metros de altura. Diante de minha incredulidade, meu gentil condutor apontou silenciosamente para o poente, onde quatro megaeólicas giravam lentamente no horizonte da planície, destacadas contra o pôr-do-sol. Foi muito humilhante, difícil mesmo, coisa de filme.

De volta aos anos 1950, não resisti e fui pesquisar na internet que diabo de geo ou aerotermia é essa. É horrível. Com o consumo de uma geladeira, é possível alimentar todas as necessidades térmicas da casa. Combinado com uma varanda fotovoltaica, você se livra da conta de luz e do call center e ainda pode vender energia para aquele vizinho chato. Sem queimar lenha, carvão, diesel etanol ou gás. Tudo isso com uma economia de até 50 mil reais em 15 anos em comparação com os gastos de sistemas convencionais. E, com um bom advogado, quem sabe você ainda descola um troco extra no mercado de créditos de carbono.

Mas nós temos o pré-sal. Ai, ai.


Jean Remy Guimarães
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Revista Ciência Hoje

domingo, 22 de fevereiro de 2009

O dragão no teto do mundo

O conflito entre a China e o Tibet suscita discussões historiográficas e evidencia a natureza econômica dos desentedimentos. Saiba mais sobre este caso e a participação do Brasil nele.
Bruna Soalheiro

Desde o início de 2008, as tensões entre a China e o Tibet têm ganhado espaço na imprensa ocidental, seja pelo destaque dado à figura do Nobel da Paz Dalai-Lama ou pelo crescimento vertiginoso da China no cenário mundial. O auge das manifestações pró-Tibet ocorreu nas olimpíadas de Pequim, após um março de grande violência. Em ambos os casos, inúmeros manifestantes foram presos, dentre jornalistas e estudantes de várias nacionalidades. Hoje, dois meses após os jogos, o que pode ser dito sobre esse conflito e qual o papel do Brasil nele?

Em março, durante um crescimento da violência no Tibet, o Itamarati declarou-se a favor de uma “solução duradoura que favoreça a paz e o entendimento na Região Autônoma do Tibet, com pleno respeito às diferenças culturais e religiosas". As manifestações cresciam, muito por conta do 49º aniversário de exílio do líder Dalai Lama. Ao mesmo tempo, o governo brasileiro afirmou reconhecer a “integridade territorial da República Popular da China”, o que pode parecer um tanto contraditório.

Pelo menos desde 2004, o Brasil reconhece a unidade do território Chinês, sendo favorável ao princípio de "uma só China". É preciso identificar as razões que respaldam esta posição, sem necessariamente reconhecer uma “verdade histórica” por detrás dela.

Divulga-se na imprensa, por exemplo, o argumento de que o Tibet faz parte da China desde o século XIII. Em certa medida, reconhecer “uma só China” é estar de acordo com a postura chinesa de que o Tibet é parte inseparável de seu território desde tempos imemoriais e que, assim, as manifestações pró-independência são movimentos de caráter separatista.

Mas do ponto de vista histórico, há uma certa dificuldade de validar a idéia de que o Tibet é parte da China, tal como hoje defendem os chineses e tal como se tem investido atualmente numa “historiografia” que confirme esta posição.

As relações entre o Ocidente e o Tibet começaram no século XVII, quando um jesuíta português chegou à Tsaparang, na região ocidental do Tibet. Neste período, o Tibet nem se entendia como parte da China, nem foi descrito assim pelos viajantes europeus. Os jesuítas lá permaneceram por aproximadamente dez anos (1624-1635) e os relatos deste período estão acessíveis aos historiadores ocidentais, tanto em sua forma manuscrita, guardada no Arquivo da Companhia de Jesus, em Roma, quanto em versões publicadas em diversas línguas.

No mesmo período, missionários da Companhia de Jesus estiveram presentes também na região central do Tibet. No século seguinte, outro religioso, desta vez um italiano, chamado Ippolito Desideri, viajou ao Tibet, estabeleceu-se em Lhasa – atual capital da Região Autônoma do Tibet - permanecendo de 1716 a 1721. Desde então, sucederam-se inúmeras viagens ao “teto do mundo”, tanto no século XIX quanto no XX. E, assim, o Tibet foi sendo “revelado” progressivamente ao ocidente.

A figura do Dalai-lama como líder religioso e político só surgiu em 1642, contando com uma forte ingerência externa, em especial mongol. O investimento dos dois poderes numa mesma pessoa está vigente até hoje. As relações entre os grupos religiosos e o poder local no Tibet são tradicionalmente complexas e estão intrinsecamente ligadas à religião budista, seja ideologicamente ou através da organização e hierarquização social dos povos.

O budismo floresceu no Tibet a partir o século VIII, mesclando sua origem indiana com formas nativas de manifestações religiosas, em geral agrupadas sobre o nome de Bon. Ao longo dos séculos, disseminaram-se pelo território tibetano vários mosteiros, pertencentes a diferentes escolas budistas e ligados diretamente à lideranças políticas locais.

Em certo sentido, a história tibetana confunde-se com a história da disseminação do budismo. Assim como a associação entre reencarnação e sucessão de poder, isto é algo de difícil compreensão para nós ocidentais.As relações entre o temporal e o religioso no Tibet ora nos parecem inadequadas e ultrapassadas, ora cativam “celebridades” ocidentais de tal forma que acabam por garantir visibilidade à causa tibetana.

Para aqueles que, ao redor do mundo, seguem a doutrina e a prática do budismo, o exílio do Dalai-Lama possibilitou uma nova disseminação destes ensinamentos milenares, extrapolando as fronteiras do Himalaia.

Em 1949, com o advento da Republica Popular da China e a invasão, no ano seguinte, do território tibetano pelas forças armadas chinesas, o estatuto independente do Tibet – que durou de 1913 a 1949 no próprio século XX – viu-se ameaçado. Na década seguinte, houve uma grande revolta, que terminou com o exílio do XVIº Dalai-Lama e seu estabelecimento na Índia, onde se encontra desde então.

Enquanto os representantes do movimento de independência do Tibet denunciam a violência chinesa, a destruição de templos budistas e a perseguição aos civis, a China defende o progresso econômico naquela região e reitera que tem investido na conservação da cultura tibetana.

Por outro lado, o afluxo sem precedentes de migrantes chineses – de etnia han – em cidades do Tibet, as restrições na utilização do espaço por parte de pastores nômades, a diluição da utilização do idioma nativo frente à língua chinesa e, finalmente, a ausência do líder político-religioso em terras tibetanas são fatores que contribuem para a progressiva deterioração do Tibet, tal como ele é entendido pelos tibetanos e tal como foi conhecido pelo ocidente até o início do século passado.

No que toca a orientação da política externa brasileira e seu alinhamento com a posição chinesa, sua coerência reside nos atuais interesses econômicos com este país. Acompanhando a “ascensão” e o “declínio” das civilizações, a História pouca ajuda oferece para justificar o interesse chinês no Tibet – cujas raízes também são essencialmente econômicas, pois visam as riquezas minerais tibetanas – ou elucidar o papel oficial no Brasil nesta contenda.

Revista de Historia da Biblioteca Nacional

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Agentes de saúde comunitárias

Elas não são médicas. Não são enfermeiras. São mulheres analfabetas das castas intocáveis da Índia. Mas agora, treinadas para atuar como agentes de saúde, salvam vidas – inclusive a delas mesmas.

Com os dedos retorcidos pela lepra da adolescência, Sakubai Gite examina uma menina de 2 anos que ela ajudou a nascer e de quem cuida até hoje.

Foto de Lynn Johnson

Todos os atendimentos são em domicílio para Sureka Sadafule, que examina uma grávida à porta de casa em Matkuli. Sureka, uma das 120 agentes de saúde do Projeto de Saúde Geral Rural da Índia (PSGR), conquistou a confiança das mulheres pobres em parte porque elas sabem que a vida dela também é uma luta.

Foto de Lynn Johnson

Fundado em 1970, o PSGR (também conhecido como Jamkhed, nome da cidade onde está sediado) fornece cuidados preventivos aos pobres desprovidos de assistência. O projeto já atendeu 300 vilarejos e 500 mil pessoas no estado de Maharashtra, entre elas um recém-nascido, enfaixado e suspenso para ser pesado pela agente de saúde comunitária Leelabai Amte.

Foto de Lynn Johnson

A equipe cirúrgica no único hospital do projeto Jamkhed não dispõe de equipamentos modernos. Mesmo assim, o hospital atende os mais diversos casos, de operação de quadril a ruptura de intestino. Ter um hospital como parte do programa dá mais credibilidade às agentes de saúde comunitárias.

Foto de Lynn Johnson

Em seu banho matinal diário na frente de casa, Sakubai Gite, de 32 anos, sabe o que é passar a vida a limpo. Quando ela contraiu lepra, o marido expulsou-a

Nascida em 1961, ela foi a terceira de 11 filhos. Para ajudar a família, trabalhou na roça. Aos 10 anos casaram-na com um homem que a espancava. Aos 16, pensou em suicídio, mas foi salva por agentes de saúde do vilarejo, que lhe deram emprego e esperança. Hoje, Babai Sathe é a sarpanch, ou líder, de Jawalke. Sua sala está enfeitada com um retrato de Bhimrao Ramji Ambedkar, um intocável reverenciado por sua luta contra a discriminação. A vida dele “é como um sonho”, diz Babai.

Foto de Lynn Johnson

Sakubai Gite conduz vacas para pastar no vilarejo de Pangulghavan, acompanhada pelas rotações do motor de uma motocicleta. Agentes de saúde como Gite não recebem salário do Jamkhed, mas recebem treinamento e financiamento de pequenas empresas para ajudá-las a ter independência financeira.

Foto de Lynn Johnson

Quando Surekha Sadafule se senta para tomar a pressão sanguínea da grávida elas estão produzindo um sistema simples que, gradualmente, está se globalizando. Desde 1992, mais de 2 mil estagiários de mais de cem países estudaram no Instituto de Treinamento e Pesquisa em Saúde e Desenvolvimento com Base na Comunidade de Jamkhed. “A medicina não é uma disciplina apenas técnica, é uma disciplina social”, diz o Dr. Raj Arole, co-fundador do instituto. “A tecnologia está tirando a nossa atenção dos cuidados básicos de saúde”.

Foto de Lynn Johnson

Com afago, uma cantiga e algumas dicas sobre amamentação, a agente Surekha Sadafule alegra o dia de Intaj Pathan e seu bebê, Arbaaz, e também de si mesma. “O conhecimento nos dá prestígio e respeito”, diz ela. “Somos valorizadas pela comunidade.”

Foto de Lynn Johnson

No vilarejo de Matkuli, Surekha Sadafule mede a pressão sanguínea de um senhor de idade que sofre de hipertensão. Problemas crônicos como o dele exigem monitoração regular dos pacientes, mas pouca intervenção de médicos com amplo treinamento. Cerca de Roughly 80% das doenças mortais das áreas rurais podem ser tratadas por meio da educação do povo local, diz Ravi Arole, director de operações do Jamkhed. “Podem ser necessários bons clínicos e médicos para conseguir a confiança das pessoas, mas uma vez que o conhecimento é compartilhado, as próprias pessoas tomam a saúde em suas mãos.”

Foto de Lynn Johnson

Depois de uma sacolejante viagem até o hospital na cidade de Jamkhed, Rani Kale, de 24 anos, esforça-se para dar à luz. Ao seu lado, a agente Sarubai Salve tenta aliviar a dor. No passado, muitas mulheres morriam no parto, e a mortalidade infantil era alta. Essas tragédias eram vistas como vontade dos deuses. “Havia superstição”, diz Sarubai, e preconceito contra intocáveis como ela. “A discriminação era duríssima para mim, e muito difícil de combater”, conta. Mas Sarubai batalhou. “Dei amor e afeto às pessoas. Lentamente o preconceito de casta se dissipa.”

Foto de Lynn Johnson

Depois de uma sacolejante viagem até o hospital na cidade de Jamkhed, Rani Kale, de 24 anos, esforça-se para dar à luz. Ao seu lado, a agente Sarubai Salve tenta aliviar a dor. No passado, muitas mulheres morriam no parto, e a mortalidade infantil era alta. Essas tragédias eram vistas como vontade dos deuses. “Havia superstição”, diz Sarubai, e preconceito contra intocáveis como ela. “A discriminação era duríssima para mim, e muito difícil de combater”, conta. Mas Sarubai batalhou. “Dei amor e afeto às pessoas. Lentamente o preconceito de casta se dissipa.”

Foto de Lynn Johnson

National Geographic
Edição 105

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

PLANÍCIES ALUVIAIS


Muitas comunidades se organizaram em torno das planícies aluviais, áreas inundáveis adubadas naturalmente pelas cheias Fabrícia Massoni As áreas predominantemente planas, onde ocorre um forte acúmulo de sedimentos, sempre atraíram as sociedades humanas devido a sua fertilidade. Locus privilegiado de ocupação, esse tipo de terreno plano que se alonga a partir das margens de um rio é denominado planície aluvionar, aluvial ou planície de inundação.


Popularmente conhecidas como várzeas, essas planícies são áreas inundáveis, afetadas pelas cheias anuais e periódicas. Têm
forma alongada e são compostas por sedimentos finos (siltes e argilas) e matéria orgânica em abundância, que ficam em suspensão quando ocorre o extravasamento das águas e depois se depositam, formando camadas laminares de sedimentos.


Normalmente, as planícies aluvionares ocorrem no médio e baixo curso de um rio, onde o relevo, mais arrasado pela erosão, apresenta pequeno gradiente (declividade) topográfico. Nessas regiões a energia do rio diminui, permitindo que os sedimentos carregados em suspensão se depositem no fundo do canal. É um processo de assoreamento natural responsável pela redução da profundidade do rio e que facilita a ocorrência de transbordamentos.



A característica mais marcante das planícies aluvionares é o fato de essas áreas serem naturalmente suscetíveis a inundações. Em épocas de cheia, o canal fluvial extravasa e inunda a região da planície. Com o transbordamento, formam-se diques nas margens dos rios e depósitos de várzea que se espalham pela planície.


Quando ocorre uma inundação, além dos sedimentos, aságuas dos rios lançam enorme quantidade de nutrientes em suas planícies aluviais, o que torna o solo muito fértil para o plantio. É um processo de adubação natural do qual os antigos habitantes da planície do rio Nilo já se beneficiavam desde o século 5 a.C. O mesmo acontece em diversas planícies de rios brasileiros, onde é comum a presença de roças ou extensas plantações irrigadas.


As planícies aluvionares são áreas propícias à formação de depósitos de turfa – material orgânico natural, de coloração preta, derivado de restos de vegetais que crescem em áreas constantemente inundadas. Esse composto desperta grande interesse econômico, pois apresenta consagrado uso como fonte alternativa de energia. Além disso, cresce a utilização da turfa na agricultura, como insumo para produção de biofertilizantes.


As vegetações típicas dessas planícies são denominadas matas ciliares ou florestas galerias e se caracterizam por proteger o solo de processos erosivos que podem assorear os leitos dos rios. Além da ação estruturante das raízes que sustentam o solo, as folhas das copas das árvores exercem papel muito importante na proteção contra erosão, pois formam uma barreira física e retêm a maior parte das gotas de chuva, permitindo, assim, que a quantidade deágua que atinge o solo se infiltre, e não escoe superficialmente.

Enchentes urbanas
Em áreas urbanas é comum a ocupação das planícies aluvionares dos rios que cortam as cidades, o que invariavelmente expõe os moradores desses locais ao drama das inundações.


O problema é agravado pela impermeabilização do solo, causada pelo grande número de edificações e pela pavimentação da superfície do terreno.


Essas construções impedem a infiltração das águas das chuvas que alimentam os aqüíferos e proporcionam um grande escoamento superficial diretamente para os canais dos rios. Estes, por sua vez, não suportam o volume excessivo de água e transbordam com mais facilidade e freqüência que o normal.


Na cidade de São Paulo destacam-se as planícies dos rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí. Originalmente meândricas, elas foram intensamente remodeladas pela ação humana, graças a retificações dos canais e aterramento das várzeas. Na época das chuvas, mesmo quando o canal desses rios não atinge a sua vazão-limite, em regiões topograficamente mais baixas dessas planícies o sistema público de drenagem de águas pluviais não é totalmente eficiente, e o acúmulo de água provoca inundações.
(veja o quadro “Meandros”).


Além dos problemas das inundações, a ocupação das planícies aluviais por construções também é um fator crítico do ponto de vista da engenharia. Quando submetidos a cargas (peso das edificações), os solos argilosos que compõem essas áreas podem
comprimir-se e se deformar, ocorrendo um afundamento do terreno e originando os chamados recalques de solo. Conforme a magnitude e o tipo de recalque, pode-se comprometer estruturalmente uma edificação e até ocasionar o seu desabamento.


Nas obras em que são realizadas escavações no terreno, como construções de garagens subterrâneas com abertura de valas ou escavações de túneis, esses problemas são potencializados. Nesses casos, para aliviar a pressão da água no solo e tornar a obra mais segura, faz-se necessário o rebaixamento do nível do lençol freático por meio de poços que bombeiam aágua subterrânea. Quando essa prática é realizada em regiões de depósitos aluviais, a drenagem da água faz com que os grãos que compõem o solo percam sustentação e sofram acomodação, o que pode determinar recalques de grandes magnitudes e conseqüentes danos a edificações.


Em síntese, as planícies aluviais são áreas com características inerentes aos processos da dinâmica natural dos rios, cujos limites devem ser respeitados, e nas quais a ocupação humana deve fundamentar-se em conhecimento técnico-científico.


Fabrícia Massoni é geóloga formada pela Universidade Estadual
Paulista (Unesp – Rio Claro).

VALE PARAÍBA DO SUL



No Brasil, um exemplo interessante de planície aluvial é o vale do rio Paraíba do Sul, localizado nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Seguindo pela rodovia Presidente Dutra (BR-116) é possível observar um grande vale encaixado entre a serra da Mantiqueira, a noroeste, e a serra do Mar a sudeste. Após passar pela cidade de Jacareí (SP), o Paraíba do Sul cruza a estrada com suas águas calmas e seu curso cheio de curvas. Ele segue pelo vale acompanhando a estrada, ora distante, ora bem próximo, à espreita, como uma cobra prestes a dar o bote. E assim segue até desaguar no oceano Atlântico, no litoral norte do Rio de Janeiro.


O serpear desse rio se dá devido à ocorrência de meandros. Por isso, sua morfometria é dita meandrante. Ela se caracteriza por canais de alta sinuosidade, que delineiam curvas acentuadas, resultantes da migração lateral de sedimentos. Nas margens côncavas, ocorre uma erosão progressiva, e, nos leitos convexos dos meandros, sedimentação. Isso se deve ao tipo de fluxo em espiral e à topografia do terreno, com gradiente (declividade) extremamente baixo. O que mais impressiona na viagem por esse vale é a amplidão das terras que se estendem a partir das margens do rio até as serras que limitam a extensa região aplainada.


O vale do rio Paraíba do Sul tem origem tectônica associada ao desmantelamento do supercontinente Pangea, há aproximadamente 250 milhões de anos (limite entre as eras Paleozóica e Mesozóica), e à conseqüente separação dos continentes sul-americano e africano. O vale aberto, de formato alongado e com largura aproximada de 20 km, foi preenchido por sedimentos de antigos rios e lagos durante o período Terciário (65 milhões a 1,8 milhão de anos atrás), dando origem à bacia sedimentar de Taubaté e a outras bacias associadas, com orientação nordeste–sudoeste, como a bacia sedimentar de São Paulo. Atualmente o rio Paraíba do Sul tem seu curso médio instalado ao longo da bacia de Taubaté.

VALE PARAÍBA DO SUL



Embora pareça que os projetos de drenagem não tenham sido bem dimensionados e sejam os únicos responsáveis pelo problema, algumas áreas têm uma razão específica para se tornarem pontos de acúmulo da água das chuvas: trata-se de possíveis meandros abandonados. Ou seja, antigos trechos sinuosos de um curso de água que se desconectaram do canal principal do rio em decorrência da mudança constante de posição do canal ao longo da planície aluvial, graças ao processo continuado de erosão e deposição em suas margens. Esse processo leva ao acentuamento da curvatura do meandro, que acaba formando uma volta inteira (360º), sendo truncado em um ponto por onde passa a escoar a corrente fluvial. Barras de areia tamponam o meandro antigo abandonado, fechando-o como um lago em forma de U.

TIMES DE VÁRZEA

Não foi à toa que os primeiros times amadores de futebol do Brasil escolheram as planícies aluvionares dos rios para o esporte importado da Inglaterra por Charles Miller, em meados da década de 1890. Na cidade de São Paulo, os trabalhadores ingleses das estradas de ferro e as elites dos clubes aproveitavam o terreno extremamente plano das várzeas dos rios Pinheiros e Tietê e afluentes para a prática do esporte que se tornou o mais popular do País. Homens com bengalas e mulheres com vestidos longos e rendados acompanhados de sombrinhas se reuniam aos domingos para assistir aos jogos que aconteciam na baixada do Glicério, no Hipódromo da Mooca e nos campos próximos da São Paulo Railway, na Lapa. Daí a origem da expressão “time de várzea”.
Revista Discutindo Geografia

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