terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O Mercosul naufraga por boas razões


O Mercosul naufraga por boas razões
Escrito por Andres Malamud
01-Out-2008
O Mercosul tem duas faces: a do discurso oficial e a da política real. Enquanto o discurso é ideológico, a política é pragmática. Por esta razão, os governos dos quatro países-membros declaram o seu apoio à integração regional, mas as suas acções pouco fazem para a promover.

Esta duplicidade não é, contudo, um mero acaso, dado que a integração, que foi benéfica durante grande parte da década de 1990, já não o é. Os governos compreenderam este facto e agiram em consequência; no entanto, as palavras continuam a circular com a lógica do afecto e da popularidade, e não a da eficácia ou do realismo.

Quando a Argentina e o Brasil fortaleceram a sua reaproximação em 1985, os objectivos eram a consolidação das suas democracias e o desenvolvimento das suas economias através de efeitos de escala e de complementaridade produtiva. Aquando da assinatura do tratado fundador do Mercosul, em 1991, e embora as democracias destes países já fossem bastante sólidas, as suas economias não o eram. Nos anos que se seguiram, planos bem sucedidos de estabilização monetária expuseram a fórmula orientadora deste bloco de países: o Brasil procurava apoio regional para sustentar as suas aspirações políticas internacionais e a Argentina tirava proveito dos benefícios económicos que o mercado brasileiro lhe oferecia. Enquanto a Argentina ganhava dinheiro e o Brasil aumentava o seu prestígio, o Mercosul ia crescendo. No entanto, a partir de 1999, quando os rendimentos decrescentes se tornaram evidentes e às crises internas derivaram no desalinhamento das políticas externas, o bloco estagnou. E quando, no momento do colapso argentino de 2001, a fórmula cessou de funcionar, os governos levaram a cabo uma fuga para a frente: mais instituições formais e mais ideologia integracionista. Contudo, por detrás das aparências, o bloco regional continuou a perder peso relativo e as fronteiras internas tornaram-se se mais rígidas.

Apesar do mercado brasileiro continuar a ser importante para a Argentina, é menos que durante a década de 90. Durante o período da Convertibilidade, o saldo comercial da Argentina só era positivo com o Brasil; actualmente, é positivo com todos os seus parceiros com a excepção do Brasil. Por outro lado, os governantes brasileiros estão a começar a compreender que a Argentina nunca acompanhá-los-á no que diz respeito aos seus objectivos internacionais mais ambiciosos, tais como o lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU. Por esta razão, iniciaram uma estratégia de inserção mundial que relativiza o apoio da América do Sul: o Brasil está associado à Índia e à África do Sul na IBSA, é líder do G20 na Organização Mundial do Comércio, participa em reuniões laterais do G8 (o G5) e foi convidado a participar numa parceria estratégica com a União Europeia. Neste sentido, a relação com a Argentina, embora continue a ser relevante, já deixou de ser central para o Brasil.

À medida que os prejuízos trazidos pelo Mercosul se forem tornando mais importantes relativamente aos benefícios – nomeadamente em termos de impedimentos para assinar tratados comerciais, disputas comerciais desgastantes e implementação problemática de acordos – os seus membros irão procurando outros caminhos. A aproximação do Uruguai e do Paraguai aos Estados Unidos – e eventualmente à China – é uma manifestação clara desta tendência. A Argentina continua a apostar no bloco e procura até que a Venezuela passe a integrá-lo. Contudo, o Mercosul que a Argentina tem em mente já não é o mesmo que o do Brasil. O discurso favorável à integração vai sem dúvida continuar: falar positivamente da unidade latino-americana não provoca danos; pelo contrário, apenas gera simpatia popular. Promovê-la, no entanto, já acarreta custos concretos. Os governos estão conscientes deste facto e procuram actuar com uma lógica instrumental: dizem o que seduz, mas fazem o que mais convêm. Desta forma, o Mercosul continuará a ser pouco mais do que um bonito discurso, não devido à negligência dos seus membros mas à sua racionalidade. E esta, afinal de contas, não é uma razão assim tão má no continente do realismo mágico.
O Mercosul naufraga por boas razões
01-Out-2008 © 2008 - Revista Autor


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Fonte:
http://revistaautor.com/index.php?option=com_content&task=view&id=282&Itemid=50

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