segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O emprego no capitalismo globalizado*

O emprego no capitalismo globalizado*
Marcio Pochmann
A discussão acerca do emprego na globalização permanece inconclusa. A ausência de consenso nessa temática decorre principalmente da diferença dos enfoques teóricos utilizados para avaliar a situação do emprego no mundo.

A capacidade de gerar maior ou menor quantidade de postos de trabalho não depende exclusivamente do grau de expansão de cada país, mas também do padrão de desenvolvimento econômico nacional. Da mesma forma, a qualidade dos postos de trabalho existentes tende a estar associada tanto ao desenvolvimento tecnológico e à organização do trabalho quanto às condições impostas pela regulação no mercado nacional de trabalho.

A partir disso, o conceito de Divisão Internacional do Trabalho assume relevância como expressão do grau de assimetria geográfica no uso e rendimento da mão-de-obra em distintas fases históricas da evolução da economia mundial, especialmente no período atual de maior impulso à globalização. Duas são as referências teóricas que se sobressaem nessa temática.

De um lado, destaca-se a noção fundada nas vantagens comparativas que determinadas nações possuem ao produzir e comercializar seus bens e serviços. Assim, a existência de algumas nações mais ricas que outras poderia ser explicada por fatores estritamente de ordem econômica.

Atualmente, a versão mais sofisticada dessa visão teórica é defendida por agências multilaterais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. A desregulamentação dos mercados financeiros, de produtos e do trabalho seria peça fundamental para o acesso ao desenvolvimento econômico e à ampliação dos postos de trabalho.

De outro lado, há uma noção teórica oposta, que identifica a estratificação e hierarquização da economia mundial como não associadas à simples noção de vantagem comparativa na produção e comercialização de bens, serviços e informação, mas produto da lógica intrínseca de funcionamento do sistema econômico e social. A correlação de forças entre as distintas nações engendraria a geografia mundial da geração e absorção de riqueza e de criação e destruição de postos de trabalho, havendo possibilidades de manifestação de múltiplas formas de dominação de uma nação por outra, através da dimensão política, militar, econômica e cultural.

Duas interpretações distintas podem ser destacadas no campo das assimetrias na divisão da renda e dos postos de trabalho no mundo. A primeira dá mais destaque ao elemento externo, ou seja, ao próprio funcionamento das relações internacionais, articulado por laços de dominação e dependência. A segunda interpretação enfatiza mais o elemento interno, relativo aos obstáculos especificamente nacionais. Sem desconhecer as assimetrias nas relações internacionais, esse enfoque valoriza mais a articulação das elites nacionais no favorecimento de seus interesses e o estágio de desenvolvimento das estruturas produtivas internas na explicação da viabilidade de expansão doméstica, simultaneamente ao avanço da economia mundial.

A despeito das divergências notadas nas interpretações sobre a evolução histórica do capitalismo, prevalece pelo menos uma convergência: utiliza-se como referência o entendimento de que a economia mundial encontra-se estruturada nas relações entre centro e periferia.

Mais recentemente, foi introduzido o conceito de semiperiferia para identificar melhor o surgimento de uma diferenciação significativa no interior dos países fora do centro capitalista. De um lado, para distinguir as experiências das economias centralmente planejadas (socialistas), que apesar de não serem tão dependentes na geração de tecnologia, nem subordinadas na apropriação do excedente econômico e nem tampouco dominados pelo poder de comando central, apresentaram em determinado período histórico condições socioeconômicas intermediárias em relação ao centro capitalista mundial.

De outro lado, para destacar a constituição de um pequeno bloco de economias de mercado que, apesar de ser dependente de tecnologia, subordinado na apropriação do excedente e dominado pela estrutura do poder de comando decorrente do centro capitalista mundial, conseguiu alcançar uma posição socioeconômica intermediária. Foi o caso dos novos países que conseguiram internalizar algum grau de industrialização tardiamente no segundo pós-guerra.

As duas estratégias de desenvolvimento de economias semiperiféricas tiveram naturezas distintas. Nas economias centralmente planejadas, o padrão de desenvolvimento foi anti-sistêmico, pois ocorreu através de ruptura com o centro do capitalismo mundial, através de revoluções ou de profundas reformas. Dessa forma foi possível a constituição de sociedades mais homogêneas, mesmo sem registrar afluência idêntica à dos países centrais.

Diferentemente, algumas economias capitalistas periféricas conseguiram levar avante um projeto de industrialização nacional a partir de estratégia pró-sistêmica. Em geral, sem romper com a lógica de funcionamento das economias de mercado, houve o surgimento de pequeno segmento social com padrão de vida próximo ao do centro do capitalismo mundial, rodeado por grande parte da população vivendo em condições precárias, mais tradicionais às dos países periféricos.

Atualmente, com o aprofundamento da globalização, apresenta-se uma nova Divisão Internacional do Trabalho, que parece impor maiores dificuldades aos países com menor capacidade de desenvolvimento e difusão de novas tecnologias. Por conta disso, os países pobres tendem a concentrar maior geração de postos de trabalho de baixa qualidade, ao contrário dos países avançados. Mas essa é uma questão a ser aprofundada em outro artigo.

Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp.

* Artigo publicado na Revista Forum - edição número 1 - Agosto de 2001.

Um comentário:

rodrigo disse...

Achei muiro interessante e reconheço que concordo que jamais a violência irá acabar. Como Durkheim afirma sobre o crime a violência é uma das inúmeras formas que os diferentes sujeitos vêm o mundo.
E que evidentemente, muito bem esclarecido por você, é fruto das desigualdades sociais.

Mas o que venho propor é uma reflexão sobre o seu trabalho.

Hoje na Geografia tudo é território, conflito, disputa de poder, evidenciando lado competitivo do capital e a rivalidade entre grupos e povos.

Onde fica a importância do lugar nisso tudo?

Sinceramente discordo de Freud pois penso que isso seja insuficiente para entender o todo.

A pouco tempo tivemos significativas vitórias entre o movimento quilombola.

Movimento esse que mal era evidenciado pela grande mídia.

E de uma hora para outra surge na mesma obtendo inúmeras conquistas jurídicas reconquistando aquilo no qual era seu por direito.

Reconheço que o embate entre os sujeitos na busca de reaver as terras nas quais são de pertencimento do povo quilombola demonstra as concepções de Freud. Entretanto, não haveria conflito se não houvesse a sensação de pertencimento do espaço.

O conceito lugar trata-se do locus da identidade entre os sujeitos, o que me permite dizer que não há como viabilizar o movimento sem essa sensação de pertencimento.

Então, eu pergunto no meio de um mundo de disputas, de violências e conflitos constantes no qual Freud afirma existir ,onde esta as relações de indentidade dos sujeitos no espaço?

Existe rivalidade mesmo na formação identitária de um lugar?

É possivel haver movimento social sem o reconhecimento do outro em patamar de igualdade?

Abraço

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