sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Propaganda enganosa



Assim como numa pandemia biológica, muitas pessoas carregam e transmitem o vírus da desinformação sem saber que estão infectadas (ou sendo influenciadas) por ele. “Esse é um clássico da comunicação e da propaganda, não é mesmo? O consumidor nunca acha que está sendo influenciado”, diz a pesquisadora Marie Santini, professora da Escola de Comunicação e diretora do Laboratório de Estudos de Internet e Mídias Sociais (Netlab) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).


Em última instância, a desinformação busca manipular a percepção pública da realidade como um todo; por isso ela contamina todas as áreas do debate público e não apenas o noticiário político, apontam pesquisadores.

“A desinformação trabalha com o mundo, mais ou menos, como se ele fosse uma maquete”, diz a jornalista Daniela Osvald Ramos, professora da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP e pesquisadora do COM+, um grupo de estudos especializado em comunicação digital. “Você tem um cenário e você tem grupos de pessoas que vivem nesse cenário. Então, você planta uma informação aqui, outra informação ali, e assim você vai manipulando a maquete, de acordo com os seus interesses”, explica ela.

Essa manipulação, segundo Ramos, é feita por pessoas “que se colocam de fora do processo democrático” e que sabem usar o maquinário das mídias digitais para construir cenários fictícios — mas de aparência extremamente realista — dentro dessa maquete social. “Todo esse aparato tecnológico que foi construído dentro da internet nos últimos 20 anos nos colocou, de certa forma, como espectadores, voluntários e involuntários, de um espetáculo no qual não temos acesso aos bastidores nem sabemos quem está cumprindo qual papel”, diz. Segundo ela, é irrealista esperar que as pessoas sejam capazes de identificar todas as formas de desinformação por conta própria, “porque elas são construídas de uma forma muito crível”, quase sempre usando uma pitada de realidade para conferir um verniz de veracidade a alguma narrativa mentirosa.

A mensagem falsa em que a Polícia Militar supostamente recomenda às pessoas não sair de casa após as 22 horas é um bom exemplo: muito bem redigida, ela se aproveita de uma preocupação legítima com a questão da criminalidade urbana para propagar uma sensação de medo na sociedade, com o objetivo de torná-la mais permeável à aceitação de políticas armamentistas e intervencionistas. A mensagem circula amplamente desde 2018 e já foi desmentida pela Polícia Militar de vários Estados. O texto não pede voto em ninguém, mas busca construir uma realidade adulterada, na qual as pessoas, sentindo-se ameaçadas, se tornam mais inclinadas a apoiar políticas e políticos que defendem intervenções radicais na segurança pública, como armar a população ou ampliar o conceito de excludente de ilicitude para policiais.

“A desinformação é uma forma desonesta de propaganda, que não diz que é propaganda”, diz o jornalista Carlos Orsi, diretor de comunicação do Instituto Questão de Ciência, que combate a desinformação científica e a pseudociência nas políticas públicas. Neste caso, não uma propaganda de produtos, mas de opiniões, crenças e visões de mundo. “É uma mentira disfarçada de verdade, construída para alterar o comportamento das pessoas”, completa Orsi.

Os disfarces são muitos e variam de acordo com o objetivo da desinformação e o meio pelo qual ela vai ser disseminada. Não precisa nem ser uma notícia falsa, propriamente dita. Pode ser uma notícia verdadeira, porém tirada de contexto ou manipulada de alguma forma para inflar sua relevância ou lhe conferir algum significado espúrio. Pode ser um boato espalhado por aplicativos de mensagens; às vezes na forma de texto, às vezes como arquivo de áudio, gravado por alguém que se apresenta como testemunha ou delator de alguma informação secreta. Pode ser um vídeo de alguém de jaleco distorcendo evidências científicas, oferecendo curas milagrosas ou propagando teorias conspiratórias de que o homem nunca pisou na Lua, que as vacinas alteram o seu DNA, que as universidades públicas no Brasil são centros de doutrinação comunista ou que o desmatamento na Amazônia não passa de uma mentira inventada por ONGs internacionais para destruir o agronegócio brasileiro. A ficção, diferentemente da verdade, não é limitada por fatos, mas pela criatividade de seu criador.


Jair Bolsonaro exibe embalagem de hidroxicloroquina em uma live na internet, em julho de 2020. Governo promoveu amplamente o uso da droga durante a pandemia, apesar de estudos mostrarem que ela era ineficaz contra a covid-19 - Foto: Reprodução/ Youtube

Jornal USP

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