Para Marcelo Gomes, Brasil criou uma equipe de “compliance” muito qualificada por conta da Operação Lava Jato

No caso da América Latina o crime organizado tem ganhado forças – Foto: DC Studio/Freepik
O crime organizado afeta corriqueiramente as empresas no Brasil e no mundo ao ponto de que cerca de 6% do seu faturamento é desviado por fraudes, como fraudes internas. Segundo Marcelo Gomes, mestre e doutor em Ciências Contábeis pela Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP, pesquisador do Grupo de Investigações Periciais, Forenses e Tecnológicas (Perfort), vinculado à faculdade, o dado é originado de uma pesquisa feita por uma associação de investigadores de fraude global.
“É uma pesquisa muito comum, feita por várias consultorias, várias entidades. A mais famosa pesquisa nessa área é o Report to the Nation, que é reproduzida pela Association of Certified Fraud Examiners, que é uma associação de investigadores de fraude global, mas sediada nos Estados Unidos, e tem esse relatório para as nações, em que apura também dentro do mesmo critério, ou seja, o que aconteceu em termos de fraude nos últimos 12 meses. Primeiro, vamos desmistificar essa questão numérica. Ele é espalhado no mundo inteiro, não tem um problema específico no Brasil. Ele é igual no Brasil, ele é igual na Itália, ele é igual na Uganda, a fraude não tem cor, não tem raça, não tem sexo e não tem nacionalidade. É uma situação obviamente preocupante para todas as empresas, mas é um fenômeno infelizmente espalhado mundialmente.”
Gomes explica que, no caso da América Latina, o crime organizado tem ganhado forças. “O primeiro diferencial que está acontecendo, principalmente nos países latino-americanos, com o crescimento das organizações criminosas locais. O que tem diferenciado é como ela tem se inserido na atividade econômica legal. É muito comum a gente enxergar empresas que são franquias, seja perfumaria, seja lavanderia, seja qualquer tipo de serviço que demande ou que traga recursos dos clientes, supostamente em dinheiro.”
“A partir daí, quando ele começa a faturar e trazer muito dinheiro para essa franquia, ele usa essa franquia para comprar outros negócios legais, por exemplo, postos de gasolina. Ligados ao crime organizado começaram a comprar fazendas de açúcar, adentrando no mundo empresarial. Eles entraram em outras ramificações que começam a prejudicar uma gama maior da economia. E é para isso que, hoje em dia, é uma preocupação muito grande dos compliances das empresas tentar identificar essa situação e impedir que a empresa para qual trabalha faça negócios com essas empresas que estão ligadas ao crime organizado”, acrescenta.
Sinais
Gomes alerta sobre o principal sinal de que uma empresa possa estar ligada ao crime organizado. “Uma empresa que estava com uma dificuldade financeira, que o mercado inteiro conhecia, por exemplo, um fornecedor de plásticos para sua indústria, de repente começa ter facilidade financeira e passa a oferecer os melhores preços, melhores que os concorrentes. O julgamento que vem primeiro é que ela deve ter passado por uma reorganização e está ‘sob nova direção’. Assim, a empresa decide fazer negócio com ele, porque ele está fazendo o melhor preço. Porém, tem que tomar um cuidado enorme, porque nem sempre o melhor preço é realmente é o melhor preço, em vista daquele novo fornecedor estar conectado ao crime organizado.”
Gomes finaliza comentando métodos do compliance, ou seja, formas das empresas de assegurar que estão agindo dentro da regularidade legal e, portanto, não interagindo com o crime organizado. “Tem um procedimento que os profissionais usam chamado due diligence, ou seja, a investigação daquela empresa sobre os seus antecedentes, sobre os antecedentes dos seus sócios, com quem eles fazem negócios. O processo investiga até o terceiro nível de relação societária. A empresa X tem o sócio A e o sócio B. No due diligence você pega o sócio B que, além dele ser sócio da empresa X, ele é da Y. Assim, você vai investigar quais são as relações que esses sócios têm com as empresas e se elas também possuem alguma relação com o crime organizado. A investigação vai até o terceiro nível para ter certeza de que você está lidando com pessoas que não têm qualquer conexão com o crime organizado.”
Jornal da USP
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