quinta-feira, 12 de março de 2026

Rainha Vitória, uma das maiores traficantes de droga de sempre, também se drogava (e muito)







Rainha Vitória (1882)

Canábis para as dores menstruais, ópio como analgésico, cocaína para arrebitar. A rainha consumia de tudo e o seu império enriqueceu com droga no século XIX — até levou a guerra.

Antes dos Escobares, El Chapos e El Menchos desta vida havia o império britânico, especialmente durante o governo da “Avó da Europa”, a Rainha Vitória.

A monarca presidiu a um sistema de comércio de ópio à escala global e altamente lucrativo, muito bem protegido pelo poder do Estado e fundamental para as finanças do império.

Mas atenção: a Rainha nunca escondeu o seu negócio, como fazem os grandes traficantes de droga contemporâneos. E até ia totalmente contra a suposta regra número 1 do traficante de droga moderno (nunca se agarrar ao próprio veneno). O que fez da rainha uma das maiores traficantes de droga de sempre foi, na verdade, a sua frieza perante o sofrimento que o seu Império causava do outro lado do mundo.

Vitória e as drogas

Para quem vê na imagem da rainha uma querida e inocente velhinha, desengane-se. A “vida louca” de Vitória começou tão cedo quanto as suas responsabilidades, em 1837, com 18 anos, quando subiu ao trono. Já aí consumia os fármacos que eram legais e socialmente aceites no continente europeu, a começar pelo ópio, logo pela manhã. Láudano, uma mistura de ópio e álcool muito usada no século XIX para aliviar dores e indisposições, estaria presente na mesa do pequeno-almoço da monarca.

A ínfame cocaína ainda não tinha sido proibida, para deleite da rainha, que a consumia sob a forma de pastilha elástica e vinho — chegou a consumi-los com um jovem Winston Churchill, avança a Smithsonian.

A soberana também usava canábis, mas não a fumava como a maioria dos consumidores da droga mais popular do mundo faz hoje em dia. Vitória bebia-a, por indicação médica, para aliviar sintomas menstruais. Mas há mais: associado a cenas dramáticas de raptos em filmes, o clorofórmio foi o melhor amigo da rainha britânica, durante o parto.

“A rainha Vitória, creio eu, desse por onde desse, adorava drogas“, resume o historiador Tony McMahon, na Smithsonian.

Muito para lá da rainha

Esse amor por estupefacientes poderá ter tido outro motivo, para lá do bem-estar pessoal da rainha, já que o comércio imperial de ópio resolveu um grave problema económico britânico.

No início do reinado, o Reino Unido enfrentava um forte desequilíbrio comercial com a China. Os britânicos consumiam grandes quantidades de chá chinês e importavam seda e porcelana, mas tinham dificuldade em encontrar produtos que os chineses quisessem comprar em troca. E assim “voava” a prata britânica para a China e pouco ou nada fazia o sentido inverso.

O ópio produzido na Índia (então sob controlo britânico através da influência da Companhia das Índias Orientais) terá sido o fim da frustração britânica. Era abundante, tinha muita procura e, acima de tudo, criava dependência: quem consumia, queria sempre mais, fosse qual fosse o preço.

O ópio já era comercializado antes da rainha Vitória, mas terá sido com ela no trono que o défice comercial do Reino Unido foi revertido, de acordo com o History Extra. O ópio tornou-se tão importante que as suas vendas passaram a representar entre 15% e 20% das receitas anuais de todo o Império Britânico.
Do fumo à guerra

Socialmente, na China, a droga (que já era ilegal) começava a preocupar. O imperador Daoguang decidiu pôr de vez um ponto final à entrada do estupefaciente através de um alto funcionário e académico respeitado, de nome Lin Zexu que, inicialmente, procurou a via diplomática.

Zexu terá escrito diretamente à rainha Vitória, apelando ao sentido ético britânico e questionando por que razão a China exportava para o Reino Unido bens úteis, como chá, seda e cerâmica, e recebia em troca uma droga destrutiva que estaria na altura a arruinar milhões de pessoas.

A carta (que pode ser lida aqui) não produziu o efeito desejado, nem se sabe se foi sequer lida pela Rainha Vitória, o que levou Lin Zexu a arregaçar as mangas.


Na primavera de 1839, mandou apreender uma grande remessa de ópio britânico e ordenou que a droga fosse destruída, isto é, lançada ao mar: 2,5 milhões de libras de ópio terão sido eliminadas pelas autoridades chinesas. Foi esta “declaração de guerra” que levou a rainha a reagir com força militar: os britânicos declararam a Primeira Guerra do Ópio (1839-42).

As forças britânicas devastaram o exército adversário e mataram dezenas de milhares de mortes de cidadãos chineses. O imperador vê-se forçado a aceitar o Tratado de Nanquim que pouco favorece a dinastia Qing, que, por exemplo, cede Hong Kong ao Reino Unido, abre os portos chineses ao comércio britânico e concede imunidade legal a cidadãos britânicos em território chinês.

A reputação chinesa seria uma das grandes afetadas, após uma grande derrota perante uma potência europeia. Começava aqui o “século das humilhações” da China.
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