
Rainha Vitória (1882)
Canábis para as dores menstruais, ópio como analgésico, cocaína para arrebitar. A rainha consumia de tudo e o seu império enriqueceu com droga no século XIX — até levou a guerra.
Antes dos Escobares, El Chapos e El Menchos desta vida havia o império britânico, especialmente durante o governo da “Avó da Europa”, a Rainha Vitória.
A monarca presidiu a um sistema de comércio de ópio à escala global e altamente lucrativo, muito bem protegido pelo poder do Estado e fundamental para as finanças do império.
Mas atenção: a Rainha nunca escondeu o seu negócio, como fazem os grandes traficantes de droga contemporâneos. E até ia totalmente contra a suposta regra número 1 do traficante de droga moderno (nunca se agarrar ao próprio veneno). O que fez da rainha uma das maiores traficantes de droga de sempre foi, na verdade, a sua frieza perante o sofrimento que o seu Império causava do outro lado do mundo.
Vitória e as drogas
Para quem vê na imagem da rainha uma querida e inocente velhinha, desengane-se. A “vida louca” de Vitória começou tão cedo quanto as suas responsabilidades, em 1837, com 18 anos, quando subiu ao trono. Já aí consumia os fármacos que eram legais e socialmente aceites no continente europeu, a começar pelo ópio, logo pela manhã. Láudano, uma mistura de ópio e álcool muito usada no século XIX para aliviar dores e indisposições, estaria presente na mesa do pequeno-almoço da monarca.
A ínfame cocaína ainda não tinha sido proibida, para deleite da rainha, que a consumia sob a forma de pastilha elástica e vinho — chegou a consumi-los com um jovem Winston Churchill, avança a Smithsonian.
A soberana também usava canábis, mas não a fumava como a maioria dos consumidores da droga mais popular do mundo faz hoje em dia. Vitória bebia-a, por indicação médica, para aliviar sintomas menstruais. Mas há mais: associado a cenas dramáticas de raptos em filmes, o clorofórmio foi o melhor amigo da rainha britânica, durante o parto.
“A rainha Vitória, creio eu, desse por onde desse, adorava drogas“, resume o historiador Tony McMahon, na Smithsonian.
Muito para lá da rainha
Esse amor por estupefacientes poderá ter tido outro motivo, para lá do bem-estar pessoal da rainha, já que o comércio imperial de ópio resolveu um grave problema económico britânico.
No início do reinado, o Reino Unido enfrentava um forte desequilíbrio comercial com a China. Os britânicos consumiam grandes quantidades de chá chinês e importavam seda e porcelana, mas tinham dificuldade em encontrar produtos que os chineses quisessem comprar em troca. E assim “voava” a prata britânica para a China e pouco ou nada fazia o sentido inverso.
O ópio produzido na Índia (então sob controlo britânico através da influência da Companhia das Índias Orientais) terá sido o fim da frustração britânica. Era abundante, tinha muita procura e, acima de tudo, criava dependência: quem consumia, queria sempre mais, fosse qual fosse o preço.
O ópio já era comercializado antes da rainha Vitória, mas terá sido com ela no trono que o défice comercial do Reino Unido foi revertido, de acordo com o History Extra. O ópio tornou-se tão importante que as suas vendas passaram a representar entre 15% e 20% das receitas anuais de todo o Império Britânico.
Do fumo à guerra
Socialmente, na China, a droga (que já era ilegal) começava a preocupar. O imperador Daoguang decidiu pôr de vez um ponto final à entrada do estupefaciente através de um alto funcionário e académico respeitado, de nome Lin Zexu que, inicialmente, procurou a via diplomática.
Zexu terá escrito diretamente à rainha Vitória, apelando ao sentido ético britânico e questionando por que razão a China exportava para o Reino Unido bens úteis, como chá, seda e cerâmica, e recebia em troca uma droga destrutiva que estaria na altura a arruinar milhões de pessoas.
A carta (que pode ser lida aqui) não produziu o efeito desejado, nem se sabe se foi sequer lida pela Rainha Vitória, o que levou Lin Zexu a arregaçar as mangas.
Na primavera de 1839, mandou apreender uma grande remessa de ópio britânico e ordenou que a droga fosse destruída, isto é, lançada ao mar: 2,5 milhões de libras de ópio terão sido eliminadas pelas autoridades chinesas. Foi esta “declaração de guerra” que levou a rainha a reagir com força militar: os britânicos declararam a Primeira Guerra do Ópio (1839-42).
As forças britânicas devastaram o exército adversário e mataram dezenas de milhares de mortes de cidadãos chineses. O imperador vê-se forçado a aceitar o Tratado de Nanquim que pouco favorece a dinastia Qing, que, por exemplo, cede Hong Kong ao Reino Unido, abre os portos chineses ao comércio britânico e concede imunidade legal a cidadãos britânicos em território chinês.
A reputação chinesa seria uma das grandes afetadas, após uma grande derrota perante uma potência europeia. Começava aqui o “século das humilhações” da China.
https://zap.aeiou.pt/
Nenhum comentário:
Postar um comentário