domingo, 29 de março de 2026

“Guia Alimentar” dos EUA vai contra todas as evidências científicas




Segundo Ricardo Abramovay, o novo “Guia Alimentar” dos EUA, que recomenda o consumo cada vez maior de proteína animal, parece atender a interesses econômicos

O gado bovino emite gás metano, que é ainda pior que o dióxido de carbono para a produção de gases do efeito estufa – Foto: Pedro Bolle/USP Imagens


A economia com excesso: diversidade é a base de um padrão alimentar saudável é o título de um artigo que trata do recém-adotado Guia Alimentar dos EUA 2025/2030, o qual preconiza que a redução no consumo de ultraprocessados foi ofuscada pela ênfase reiterada na ampliação do consumo de proteínas, em especial de origem animal, agora apresentada como eixo central de uma alimentação saudável, uma recomendação que, até então, era descartada pela ciência, que a via como danosa à saúde humana. Qual seria a razão dessa mudança de paradigma? Como um dos autores do artigo acima citado, o professor Ricardo Abramovay, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia ( INCT Superar a Tríplice Monotonia dos Sistemas Agroalimentares, do Instituto de Estudos Avançados), diz que tem uma explicação. De acordo com ele, os EUA estão entre os maiores consumidores de proteínas de origem animal, consumo que vai muito além das necessidades metabólicas dos seres humanos, mas o fato é que, no mundo contemporâneo, está se fortalecendo o mito de que é imprescindível o consumo cada vez maior de proteína para atender às nossas necessidades alimentares.

“Isso não é verdade, o consumo de proteína para uma pessoa que tenha uma atividade física média é em torno de 0,8 grama por quilo. O atual Guia Alimentar americano praticamente dobra a recomendação dessas 0,8 grama”, argumenta Abramovay. “Um dos grandes problemas desse excesso do consumo de proteína é que as proteínas animais, que são consumidas sobretudo nos Estados Unidos, uma boa parte delas é consumida em fast foods, e o fast food oferece uma comida ultraprocessada, uma comida que obviamente não é saudável. A única razão plausível para que haja essa recomendação é que houve interesses industriais pressionando o governo norte-americano para fazer essa mudança.”




Os guias alimentares de outros países, inclusive o do Brasil, preconizam uma redução no consumo de carne e uma maior diversidade alimentar. Ocorre, porém, como já aconteceu, por exemplo, com a indústria do tabaco, que os interesses econômicos se sobrepõem ao interesse científico, como no caso em questão. Para Abramovay, trata-se de um absurdo “e que corresponde a um ataque não só à democracia, mas à ciência, que o governo norte-americano atual está sistematicamente patrocinando”. Ele reforça seu ponto de vista com outro exemplo, citando que, no início deste século, um artigo científico publicado numa importante revista científica afirmava que o glifosato, um herbicida, não era cancerígeno.


Anos depois, porém, descobriu-se que os autores do artigo eram ligados à Monsanto e que, portanto, foram pagos para escrevê-lo. O artigo, frisa Abramovay, foi despublicado. “Ouçam essa expressão, despublicado, porque ela vai ser cada vez mais frequente, porque isso acontece com frequência. Por isso as revistas científicas sérias exigem uma declaração formal de se há ou não conflito de interesses, como é que foi financiada a pesquisa para publicar esse artigo etc., é um resguardo que a ciência tem.”

Anos depois, porém, descobriu-se que os autores do artigo eram ligados à Monsanto e que, portanto, foram pagos para escrevê-lo. O artigo, frisa Abramovay, foi despublicado. “Ouçam essa expressão, despublicado, porque ela vai ser cada vez mais frequente, porque isso acontece com frequência. Por isso as revistas científicas sérias exigem uma declaração formal de se há ou não conflito de interesses, como é que foi financiada a pesquisa para publicar esse artigo etc., é um resguardo que a ciência tem.”

Gases do efeito estufa


O professor chama atenção ainda para um outro aspecto. Ao preconizar o aumento no consumo de produtos animais, o Guia Alimentar norte-americano não leva em conta o fato de que o sistema agroalimentar responde por um terço dos gases de efeito estufa e que as proteínas animais estão na origem da metade desse um terço, ou seja, cerca de 15% da emissão desses gases estão ligados ao consumo de produtos de origem animal. Afinal, o gado bovino é responsável pela emissão de gás metano. “Essas emissões de metano são mais de cem vezes mais potentes, no que se refere à destruição do sistema climático, do que o dióxido de carbono. Elas ficam menos tempo na atmosfera do que o dióxido de carbono, mas têm um poder destrutivo muito maior”, afirma Abramovay. “A humanidade precisa reduzir esse consumo de carne e, sobretudo, precisa modificar os métodos de criação bovina para neutralizar e reduzir essas emissões de metano, e isso não entra no Guia Alimentar americano.”

Por outro lado, a simples substituição da carne bovina por carne suína ou de frango também não é a solução, “porque os métodos de criação de carne suína e de carne de frango também são altamente consumidores de antibióticos e são altamente consumidores de grãos. Nós precisamos fazer uma remodelação do sistema agroalimentar para poder enfrentar essas questões”. Ele encerra com uma boa notícia, a de que o Brasil “tem todas as condições de liderar isso, porque o Brasil possui tecnologias – sobretudo bioinsumos – que permitem que as tecnologias hoje usadas sejam ultrapassadas em benefício de tecnologias que se apoiem no respeito e na valorização da vida para a produção agropecuária”.


Jornal da USP

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