domingo, 29 de março de 2026

Número de animais abandonados no Brasil segue alarmante



Mais de 4 milhões de pets vivem em situação de vulnerabilidade, incluindo os animais abandonados. Períodos de férias e festas são mais propícios ao abandono, segundo especialistas


Mesmo sendo crime, o abandono de animais ainda faz parte da realidade brasileira e sobrecarrega ONGs em todo o País – Foto: wirestock/Freepik


Oabandono de animais segue como um problema alarmante no Brasil, com milhões de cães e gatos vivendo em situação de vulnerabilidade. O tema ganhou atenção nacional nos últimos anos e passou a ser alvo de campanhas de conscientização, mas ainda faz parte da realidade de muitas famílias, mesmo sendo considerado crime. Em determinados períodos do ano, especialmente em épocas de férias e festas, os casos tendem a se intensificar, agravando um cenário já crítico.

Dados do Instituto Pet Brasil mostram que 4,8 milhões de cães e gatos vivem em situação de vulnerabilidade no País, número que inclui animais abandonados ou sem tutela definida. Desse total, mais de 201 mil estão sob responsabilidade de ONGs, que atuam no resgate, acolhimento e cuidados básicos desses animais. A diferença entre o número de animais vulneráveis e a capacidade de atendimento das organizações evidencia a dimensão do problema e os limites da atuação voluntária.

Ana Lúcia Baldan – Foto: Arquivo pessoal

Segundo a médica veterinária Ana Lúcia Baldan, mestre em Ciências pelo programa de Psicobiologia com ênfase em Etologia Animal da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, o abandono não ocorre por um único motivo, mas está diretamente ligado à forma como muitos animais são adotados. Para ela, “o abandono é multifatorial, mas está fortemente associado à adoção ou à aquisição sem planejamento”, já que muitas pessoas adotam por impulso, “sem considerar custos, tempo, mudanças de rotina ou até as necessidades comportamentais do animal”. Esse tipo de decisão, tomada sem reflexão, tende a gerar frustração quando surgem dificuldades no convívio.

Entre essas dificuldades, a especialista lista o obstáculo da inadequação do animal ao novo ambiente, algo que pode levar ao abandono. “Problemas de comportamento como medo, ansiedade ou agressividade, muitas vezes consequência do manejo inadequado, estão entre os principais motivos de abandono”, afirma. Situações comuns do processo de adaptação acabam sendo vistas como problemas definitivos, o que leva à desistência da guarda responsável.
Mudanças na vida do tutor

Além disso, mudanças na vida dos tutores contribuem significativamente para esse cenário. Conforme explica a médica veterinária, “mudanças na vida do tutor como viagens, troca de residência, desemprego ou separações também contribuem significativamente para esse cenário acontecer”. Essas transformações, quando não são previstas no momento da adoção, recaem diretamente sobre os animais, que acabam sendo abandonados ou entregues a instituições.

Na ponta desse processo estão as Organizações Não Governamentais (ONGs) de proteção animal, que lidam diariamente com as consequências do abandono. Andrea Bombonato, diretora da ONG Focinhos S.A., de Ribeirão Preto, relata que há períodos em que a procura por acolhimento aumenta de forma expressiva, especialmente no fim do ano. Segundo ela, muitos animais chegam à ONG após serem deixados para trás durante viagens ou quando os tutores não conseguem mais manter os cuidados necessários, o que sobrecarrega equipes, espaços e recursos financeiros.

Andrea Bombonato – Foto: Arquivo pessoal

Para Andrea, a repetição desses casos evidencia um problema estrutural. “Muita gente ainda vê o animal como algo descartável, que pode ser deixado para trás quando vira um incômodo”, afirma. De acordo com ela, essa visão contribui para ciclos constantes de abandono, sobretudo quando os tutores não estão dispostos a lidar com responsabilidades de longo prazo.

A diretora também chama atenção para o impacto emocional sofrido pelos animais resgatados. “Além dos problemas físicos, muitos chegam extremamente assustados, desconfiados, alguns com sinais claros de trauma”, relata. Segundo Andrea, o abandono afeta diretamente o comportamento dos animais, dificultando inclusive processos de socialização e futuras adoções.

Outro ponto destacado é a falsa ideia de que entregar um animal para uma ONG não configura abandono. “Muitas pessoas acreditam que, ao deixar o animal na porta da ONG ou pedir ajuda, estão resolvendo o problema, mas isso também é uma forma de abandono”, explica. Para ela, a responsabilidade deve ser pensada antes da adoção, e não transferida quando surgem dificuldades.

Andrea ressalta ainda que o trabalho das ONGs depende quase exclusivamente de doações e voluntariado. “A gente não tem apoio fixo, não tem verba pública contínua. Tudo funciona com doações, rifas, ajuda da população”, afirma. Essa instabilidade financeira, segundo ela, limita o número de resgates e compromete o atendimento ideal aos animais.

Ana Lúcia reforça que compreender o que é adoção responsável é fundamental para evitar novos casos de abandono. “Quando as pessoas vão pensar em adotar um animalzinho, tem que sempre ter em mente para fazer uma adoção responsável”, explica, ressaltando que isso envolve avaliar se aquele é o momento adequado da vida, considerando rotina, tempo disponível, condições financeiras e espaço físico. Ela também chama a atenção para a decisão coletiva dentro da família, alertando que, “se alguém não estiver de acordo, a possibilidade, a probabilidade desse animalzinho ser devolvido ou abandonado é maior”.

*Estagiária sob supervisão de Ferraz Junior e Gabriel Soares


Jornal da USP

Consumo digital motivado por influenciadores redefine hábitos e decisões de compra entre jovens


Janaina de Moura Engracia Giraldi analisa como influenciadores digitais moldam hábitos de consumo nas mídias sociais




Influência digital e a formação dos hábitos de consumo – Foto: Freepik

Influenciadores digitais ocupam papel central na construção de preferências, comportamentos e estilos de vida, especialmente entre o público jovem, que já cresceu imerso nas redes sociais. Mais do que divulgar produtos, esses criadores de conteúdo interferem diretamente no processo de decisão de compra, encurtam caminhos entre desejo e consumo e reforçam dinâmicas de validação social que impactam o cotidiano de milhões de pessoas.

Para compreender esse fenômeno, a professora Janaina de Moura Engracia Giraldi, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP, explica que o primeiro passo é entender quem são os influenciadores digitais e como eles atuam no ambiente on-line. Segundo ela, o influenciador digital é, basicamente, um criador de conteúdo, que vai utilizar as redes sociais, principalmente Instagram, TikTok, YouTube, para divulgar os conteúdos que ele cria. “Esse conteúdo busca gerar reações específicas do público, conhecidas como engajamento, com o objetivo de criar opiniões, modificar imagens ou comportamento, ou incentivar alguma decisão de compra, em diferentes nichos de mercado”, diz.

Janaina de Moura Engracia Giraldi – Foto: Arquivo pessoal

A professora ressalta que esse modelo de comunicação tem ganhado força, sobretudo entre os jovens. “Esses influenciadores digitais têm um papel cada vez maior na divulgação de produtos e na formação de hábitos entre os consumidores, mas em especial entre esse público mais jovem, que já é nativo digital”, afirma. Para ela, os influenciadores são vistos como inspiração de estilo de vida e como fonte confiável de informação, muitas vezes com mais credibilidade do que a publicidade tradicional. Esse vínculo, segundo Janaina, se constrói ao longo do tempo, a partir da interação e da percepção de autenticidade. “Esse é um ponto-chave. O influenciador consegue exercer esse poder de mudar comportamentos pela sua autenticidade”, explica.

Nos últimos anos, esse cenário foi intensificado pelo crescimento dos microinfluenciadores. De acordo com a professora, marcas têm buscado perfis menores por apresentarem maior proximidade com o público. “Eles têm um público muito cativo, conseguem um altíssimo engajamento e são considerados com alta autenticidade”, afirma. Segundo ela, muitas empresas preferem investir em vários microinfluenciadores a contratar grandes celebridades, já que isso garante menor custo e taxas de conversão mais elevadas.
Impactos

Ao analisar os impactos no comportamento do consumidor, Janaina destaca que a influência exercida vai muito além da promoção de produtos. “Os influenciadores digitais têm um papel central na construção das preferências e dos comportamentos dos jovens e têm impactos que vão muito além da promoção dos produtos”, avalia. Para ela, os jovens veem esses criadores como especialistas em determinados segmentos, o que amplia a credibilidade das recomendações. “Eles podem ver os influenciadores como um grupo aspiracional. Ele quer um dia ser como aquele influenciador, ter aquele estilo de vida”, afirma.

Esse processo, segundo a professora, está ligado à identificação social e à aspiração. “Eles são considerados modelos de comportamento, principalmente aqueles microinfluenciadores, que não são vistos como tão distantes quanto uma celebridade”, explica. Essa proximidade aumenta o poder de persuasão, especialmente em compras de apelo emocional. Janaina destaca ainda que a percepção de autenticidade reduz a resistência do consumidor. “Isso reduz a resistência desse comprador, especialmente do jovem, a aceitar a mensagem.”

Outro ponto levantado é o papel dos influenciadores como líderes de opinião. “Eles ajudam a criar a imagem da marca, porque as características e histórias desses influenciadores acabam se misturando com as da própria marca”, explica. Segundo ela, os influenciadores atuam em várias etapas do processo decisório, desde a descoberta de novas marcas até o pós-compra, quando reforçam a satisfação do consumidor.
Decisões de compra

Uma das questões a se analisar nesse processo é o impacto das tendências nas decisões de compra. “Quando a gente fala que alguma coisa é uma tendência, isso pode funcionar como um nudge, um empurrãozinho”, explica. Segundo ela, a credibilidade dos influenciadores encurta o ciclo de decisão, favorecendo compras por impulso. “Essas recomendações acabam gerando muitas vezes compras quase imediatamente após a exibição do vídeo”, afirma. Esse senso de urgência, segundo ela, pode afetar o bem-estar psicológico dos jovens.

No campo da identidade, Janaina destaca que o consumo vai além da utilidade. “Para o público jovem, o consumo é uma forma de expressar valores, identidade e pertencimento”, afirma. As redes sociais, segundo ela, funcionam como espaço de validação social, onde curtidas e compartilhamentos reforçam escolhas. “Os influenciadores têm um peso muito maior nessa decisão de compra do que uma propaganda tradicional”, avalia.

Por fim, a professora alerta para os riscos associados a esse poder de influência, especialmente nos hábitos alimentares. “Pode, sim, acontecer esse impacto nos hábitos alimentares, principalmente quando os jovens percebem alinhamento entre os seus valores e os valores do influenciador”, explica. Ela destaca a necessidade de regulamentação para evitar abusos, como publicidade disfarçada e falta de transparência. “É preciso uma exigência clara de [mostrar] quando é um conteúdo patrocinado e quando não é”, afirma, defendendo um uso mais responsável dos influenciadores, especialmente por marcas do setor alimentício.

*Estagiária sob supervisão de Ferraz Junior e Gabriel Soares


Jornal da USP

Crescimento da dívida pública por juros nominais pode causar aumento da desigualdade no País


Clara Brenck explica que a dívida causada por pagamento de juros nominais impede a economia de circular

O pagamento de juros nominais afeta o custo do governo com a dívida, já que ele paga juros sobre esse valor – Foto: Freepik/ Fotomontagem Jornal da USP

Uma nota de política econômica produzida por pesquisadores da USP questiona as relações entre a dívida pública brasileira e a desigualdade no País, a partir da análise dos efeitos do déficit primário e dos juros nominais sobre a participação dos trabalhadores na renda agregada. Clara Brenck, pesquisadora do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made) da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP e uma das autoras da nota, explica os objetivos do estudo.

“O nosso objetivo principal era entender o debate sobre a dívida pública, que estava em alta. Há vários fatores que podem aumentar ou diminuir a dívida pública, como ajustes cambiais e privatizações, mas focamos em dois componentes principais. O primeiro é o pagamento de juros nominais, porque os juros estão muito altos e esse elemento afeta o custo do governo com a dívida, já que ele paga juros sobre esse valor. Esses juros, em grande parte, acompanham a taxa Selic, que está em 15%.
Clara Brenck – Foto: x.com

O segundo componente é o déficit primário, uma variável normalmente associada à política fiscal. Quando observamos a discussão sobre a dívida no debate público, ela costuma ficar muito vinculada à ideia de gasto excessivo do governo, ou seja, quando o gasto é maior do que a arrecadação. Esses dois componentes são os mais associados à política macroeconômica de maneira geral.”

“A ideia é entender qual é o movimento desses fatores e como isso afeta a desigualdade. Nós nos inspiramos em um estudo feito para a Itália, que analisa exatamente isso, observando o pagamento de juros e o resultado primário. No nosso caso, escolhemos analisar a parcela de salários na renda. Essa variável é uma medida de desigualdade que indica, aproximadamente, qual porcentagem do PIB fica com os trabalhadores. O PIB é distribuído entre todas as pessoas do país, seja entre os donos de empresas, seja entre os trabalhadores que recebem salários. Para fazer essa análise, realizamos uma estimação econométrica, que basicamente procura observar a associação entre esses fatores”, explica a pesquisadora.
Consequências dos juros nominais e do déficit primário

A pesquisadora explica os efeitos das diferentes razões para o aumento da dívida. “Quando a dívida pública aumenta porque o governo está gastando mais do que arrecada, isso tende a ter um efeito positivo na redução da desigualdade. Nesse caso, a parcela salarial na renda aumenta e os trabalhadores passam a ganhar mais. Esse gasto do governo funciona como uma transferência de renda para a sociedade, o que pode gerar empregos.

Isso pode ocorrer na forma de compras públicas, pagamento de salários ou benefícios sociais. Todos esses mecanismos geram gasto na economia. As pessoas que recebem esse dinheiro do governo tendem a gastá-lo, o que gera empregos e, consequentemente, aumento de salários.”

“No caso dos juros nominais, a lógica é diferente. Se a dívida pública aumenta porque o governo está pagando juros, ocorre uma piora na desigualdade e uma redução da parcela de salários na renda. Isso acontece porque essa transferência de recursos do governo para a sociedade acaba sendo direcionada principalmente para as pessoas mais ricas.”

A pesquisadora acrescenta que “quem consegue comprar títulos da dívida pública e emprestar dinheiro para o governo é, em sua maioria, quem tem recursos sobrando e pertence às camadas mais ricas da sociedade. Isso também tende a aumentar o desemprego, porque essas pessoas não necessariamente vão gastar esse dinheiro na economia real, já que já possuem renda elevada. Em muitos casos, elas recebem os juros pagos pelo governo e reinvestem esse dinheiro no próprio mercado financeiro”, comenta.
Principais conclusões do estudo

Clara esclarece que o objetivo do estudo não é inocentar ou responsabilizar integralmente o Estado, mas ampliar o debate sobre as causas da desigualdade. “O nosso ponto principal não é dizer que não deve haver preocupação com as contas do governo no âmbito da política fiscal. Um déficit primário aumenta a dívida, e precisamos olhar para isso. Mas também não podemos criminalizar a política fiscal no sentido de achar que a responsabilidade é apenas do governo por gastar mais.”

A questão dos juros também precisa ser levada em consideração, acrescenta a pesquisadora. “Principalmente se estamos preocupados com o emprego e com a desigualdade. Se a nossa preocupação é, além do crescimento e da dívida pública, aumentar o emprego e melhorar o salário do trabalhador, precisamos olhar para os juros. Queremos trazer a taxa de juros para essa discussão e debater um ajuste que realmente considere a estabilidade da dívida, mas que também se preocupe com a desigualdade. Não é possível discutir esses temas sem considerar o papel da taxa de juros, que é, inclusive, uma das principais críticas do setor produtivo, que reclama frequentemente dos níveis elevados”, finaliza.
Jornal da USP

Estudo mostra que imprensa retrata o Nordeste como região cercada por preconceitos e estereótipos



Tese de doutorado de Marina Chaves de Macedo Rego demonstra que parte da imprensa tradicional paulista perpetua estereótipos históricos e deslegitima o exercício político da população nordestina

Muitas vezes, associamos imagens a um conceito. Isso reproduz um estereótipo. Por exemplo, o termo Nordeste no banco de dados do Jornal da USP sugere esta imagem – Foto: Leo Nunes via Wikimedia Commons

A famosa frase que Euclides da Cunha imortalizou em sua obra Os Sertões, segundo a qual o sertanejo é, antes de tudo, um forte, num contexto em que o escritor enaltecia a resistência, a resiliência e a capacidade de superação do povo nordestino, bem poderia, nos dias de hoje, se transformar em algo como o sertanejo é, antes de tudo, uma vítima do preconceito – e não é necessário ir muito longe para chegar a essa constatação. Basta pegar um bonde de volta à eleição de Luiz Inácio Lula da Silva como presidente do País no pleito de 2022, quando se exacerbou o preconceito de que os habitantes dos Estados do Nordeste – que em sua maioria votaram no candidato petista – sempre sofreram, e que é, inclusive, tema de uma tese de doutorado (Conheço o Meu Lugar – Paulistanidade e Estigmatização Nordestina nas Eleições Presidenciais [1989-2022]) defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP pela pesquisadora Marina Chaves de Macedo Rego, que demonstrou que parte da imprensa tradicional paulista associa a região com o atraso e a irracionalidade política.

Marina Chaves de Macedo Rego – Foto: Reprodução/Facebook

Para chegar a essa constatação, Marina rastreou as últimas nove eleições presidenciais do País, de 1989 a 2022, valendo-se de dados colhidos em jornais como Diário de Pernambuco, Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo. O resultado da pesquisa apontou que, em 50% dos casos em que o Nordeste foi citado nos últimos dois veículos, sua imagem está ligada a estereótipos que o associam com seca e falta de instrução. São representações, segundo Marina, que, além de reforçarem preconceitos históricos, deslegitimam o exercício político de grande parcela das populações nordestinas. A cada cinco vezes que o Nordeste é citado, uma traz um estereótipo negativo da região.

Como se não bastasse, independentemente dos resultados eleitorais, o nordestino é retratado como menos racional politicamente, quando não considerado apenas como alguém guiado por votos amparados em políticas de distribuição de renda ou de assistência social. Das 1.080 notícias analisadas pela pesquisadora, 69% relacionam o Nordeste ao Partido dos Trabalhadores (PT), e geralmente de forma depreciativa. Segundo Marina, “mesmo quando o Nordeste não votava majoritariamente no PT, por exemplo, já se tentava associar o Nordeste ao PT”. Mesmo tendo Lula vencido as eleições no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, em 1989 – e perdido no Nordeste, mas quase ganhando em São Paulo -, ainda assim a região continuou a ser tratada por uma parcela tradicional da imprensa paulista como a de concentrar o maior eleitorado do candidato petista.
Estigma

Tudo contribui, portanto, para que a palavra nordestina, enquanto prática política, seja estigmatizada, inferiorizada e deslegitimada, o que, para Marina, foi a principal estratégia utilizada quando do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016. Diz a pesquisadora: “Simbolizar um exercício político como nordestino é capaz de diminuir esse exercício político, de tentar deslegitimá-lo em movimentos conservadores. E isso foi possível em âmbito nacional quando houve um golpe institucional em 2016”.
Preconceito vem do passado

O preconceito contra o Nordeste não é um fenômeno atual, mas deve ser buscado no passado, com a decadência da economia açucareira e a ascensão do mercado cafeeiro no Sudeste do Brasil, no fim do século 19. Com a concentração de renda mudando de mãos, saindo do Nordeste rumo ao Sudeste, São Paulo, sobretudo, passou a ser sinônimo de industrialização, atraindo para si imigrantes europeus brancos – isto, por sua vez, foi parte de uma política do Estado brasileiro de tentar embranquecer a população por meio do estímulo à vinda de europeus brancos para as regiões que estavam em franca expansão industrial.

Já o Nordeste, por sua vez, permaneceu povoado por uma população em que predominavam negros, ex-escravizados. A consequência é que São Paulo passou a ser visto como o futuro do desenvolvimento, enquanto ao Nordeste coube a pecha de uma região colada ao passado, que deveria ser superada, segundo Marina. Na prática cotidiana, essa distorção pode ser vista, destaca a pesquisadora, no uso pejorativo da palavra “baiano” para “qualificar” indiscriminadamente todos os migrantes nordestinos, além de negros e indígenas, geralmente às margens da pobreza.

Marina destaca que não há populações superiores a outras, nem mesmo quando São Paulo é tratada como locomotiva do País, uma forma de conferir ao Estado uma superioridade que viria de uma parcela rica e branca da população paulista. No mesmo sentido, não existe população paulista e nordestina que seja homogênea, de vez que todas possuem suas especificidades. Tais ideias, segundo a socióloga, são fruto de construções históricas baseadas na desigualdade racial e de classe.

(Com informações de Gabriela César, estagiária na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP)
Jornal da USP

“Guia Alimentar” dos EUA vai contra todas as evidências científicas




Segundo Ricardo Abramovay, o novo “Guia Alimentar” dos EUA, que recomenda o consumo cada vez maior de proteína animal, parece atender a interesses econômicos

O gado bovino emite gás metano, que é ainda pior que o dióxido de carbono para a produção de gases do efeito estufa – Foto: Pedro Bolle/USP Imagens


A economia com excesso: diversidade é a base de um padrão alimentar saudável é o título de um artigo que trata do recém-adotado Guia Alimentar dos EUA 2025/2030, o qual preconiza que a redução no consumo de ultraprocessados foi ofuscada pela ênfase reiterada na ampliação do consumo de proteínas, em especial de origem animal, agora apresentada como eixo central de uma alimentação saudável, uma recomendação que, até então, era descartada pela ciência, que a via como danosa à saúde humana. Qual seria a razão dessa mudança de paradigma? Como um dos autores do artigo acima citado, o professor Ricardo Abramovay, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia ( INCT Superar a Tríplice Monotonia dos Sistemas Agroalimentares, do Instituto de Estudos Avançados), diz que tem uma explicação. De acordo com ele, os EUA estão entre os maiores consumidores de proteínas de origem animal, consumo que vai muito além das necessidades metabólicas dos seres humanos, mas o fato é que, no mundo contemporâneo, está se fortalecendo o mito de que é imprescindível o consumo cada vez maior de proteína para atender às nossas necessidades alimentares.

“Isso não é verdade, o consumo de proteína para uma pessoa que tenha uma atividade física média é em torno de 0,8 grama por quilo. O atual Guia Alimentar americano praticamente dobra a recomendação dessas 0,8 grama”, argumenta Abramovay. “Um dos grandes problemas desse excesso do consumo de proteína é que as proteínas animais, que são consumidas sobretudo nos Estados Unidos, uma boa parte delas é consumida em fast foods, e o fast food oferece uma comida ultraprocessada, uma comida que obviamente não é saudável. A única razão plausível para que haja essa recomendação é que houve interesses industriais pressionando o governo norte-americano para fazer essa mudança.”




Os guias alimentares de outros países, inclusive o do Brasil, preconizam uma redução no consumo de carne e uma maior diversidade alimentar. Ocorre, porém, como já aconteceu, por exemplo, com a indústria do tabaco, que os interesses econômicos se sobrepõem ao interesse científico, como no caso em questão. Para Abramovay, trata-se de um absurdo “e que corresponde a um ataque não só à democracia, mas à ciência, que o governo norte-americano atual está sistematicamente patrocinando”. Ele reforça seu ponto de vista com outro exemplo, citando que, no início deste século, um artigo científico publicado numa importante revista científica afirmava que o glifosato, um herbicida, não era cancerígeno.


Anos depois, porém, descobriu-se que os autores do artigo eram ligados à Monsanto e que, portanto, foram pagos para escrevê-lo. O artigo, frisa Abramovay, foi despublicado. “Ouçam essa expressão, despublicado, porque ela vai ser cada vez mais frequente, porque isso acontece com frequência. Por isso as revistas científicas sérias exigem uma declaração formal de se há ou não conflito de interesses, como é que foi financiada a pesquisa para publicar esse artigo etc., é um resguardo que a ciência tem.”

Anos depois, porém, descobriu-se que os autores do artigo eram ligados à Monsanto e que, portanto, foram pagos para escrevê-lo. O artigo, frisa Abramovay, foi despublicado. “Ouçam essa expressão, despublicado, porque ela vai ser cada vez mais frequente, porque isso acontece com frequência. Por isso as revistas científicas sérias exigem uma declaração formal de se há ou não conflito de interesses, como é que foi financiada a pesquisa para publicar esse artigo etc., é um resguardo que a ciência tem.”

Gases do efeito estufa


O professor chama atenção ainda para um outro aspecto. Ao preconizar o aumento no consumo de produtos animais, o Guia Alimentar norte-americano não leva em conta o fato de que o sistema agroalimentar responde por um terço dos gases de efeito estufa e que as proteínas animais estão na origem da metade desse um terço, ou seja, cerca de 15% da emissão desses gases estão ligados ao consumo de produtos de origem animal. Afinal, o gado bovino é responsável pela emissão de gás metano. “Essas emissões de metano são mais de cem vezes mais potentes, no que se refere à destruição do sistema climático, do que o dióxido de carbono. Elas ficam menos tempo na atmosfera do que o dióxido de carbono, mas têm um poder destrutivo muito maior”, afirma Abramovay. “A humanidade precisa reduzir esse consumo de carne e, sobretudo, precisa modificar os métodos de criação bovina para neutralizar e reduzir essas emissões de metano, e isso não entra no Guia Alimentar americano.”

Por outro lado, a simples substituição da carne bovina por carne suína ou de frango também não é a solução, “porque os métodos de criação de carne suína e de carne de frango também são altamente consumidores de antibióticos e são altamente consumidores de grãos. Nós precisamos fazer uma remodelação do sistema agroalimentar para poder enfrentar essas questões”. Ele encerra com uma boa notícia, a de que o Brasil “tem todas as condições de liderar isso, porque o Brasil possui tecnologias – sobretudo bioinsumos – que permitem que as tecnologias hoje usadas sejam ultrapassadas em benefício de tecnologias que se apoiem no respeito e na valorização da vida para a produção agropecuária”.


Jornal da USP

sábado, 28 de março de 2026

AGRICULTURA E MEIO RURAL - VESTIBULAR DA UERJ

 1. (Vestibular UERJ-2000) “Não era a fome absoluta, a da inanição, muito embora nós, os filhos do meu pai, estivéssemos crescendo meio nanicos, mal alimentados, meio tristes, meio duros, meio revoltados. Mas era a fome moderna corroendo devagar aqueles nossos anos de infância de 1967, 1968, na cidade desumana dos desempregados, dos retirantes, dos esmoleres do Recife. Somente duas décadas depois eu leria uma definição de ‘fome moderna’, a fome do capital.” (FELINTO, Marilene. A Fome. In: SADER, Emir (org.). 7 Pecados do Capital. Rio de Janeiro: Record, 1999.)

 Considerando o texto, uma causa e uma conseqüência do problema da fome, estão, respectivamente, apresentadas em: 

(A) modernização técnica nos estabelecimentos rurais / política de assentamentos rurais dos governos militares 

(B) incapacidade para investimentos do setor alimentar / sucessão de greves dos trabalhadores rurais 

(C) elevação dos preços dos alimentos / participação crescente do poder das oligarquias rurais 

(D) prioridade da agricultura de exportação / mobilidade espacial da população

2. (Vestibular UERJ-2000)


No mapa encontram-se indicadas as áreas de expansão da fronteira agrícola no Brasil ao longo do tempo. A associação correta entre região, período e relação social de produção predominante é: 

(A) Nordeste – séculos XIX e XX – trabalho familiar de migrantes sulistas e mineiros 

(B) Sudeste – século XIX – mão-de-obra cativa africana e trabalho livre de imigrantes europeus 

(C) Centro-Oeste – 1ª metade do século XX – mão-de-obra escrava de origem indígena e mestiça 

(D) Norte – 2ª metade do século XX – trabalho assalariado de migrantes dos países andinos e das Guianas

3. (Vestibular UERJ-2001) Existem dois conjuntos sociais para os quais a questão da terra constitui um fator de importância fundamental. Um deles é formado por aqueles que utilizam a posse ou a propriedade como instrumento de diversas formas de exploração e especulação. O outro grupo social é formado pelos trabalhadores sem terra, pequenos produtores deslocados pelo latifúndio para áreas marginais ou pressionados pelo capital comercial e financeiro, e os migrantes frustrados, que sobrevivem nas periferias urbanas. A estes podem vir a agregar-se, em futuro não muito remoto, outras vítimas do processo de ajuste neoliberal, ex-funcionários públicos, ex-bancários e todos os outros ex de menor nível de qualificação. (Adaptado de TAVARES, Maria da Conceição. Destruição não criadora. Rio de Janeiro: Record,1999.)

 Segundo a visão da autora, problemas sociais no campo e na cidade estão intimamente relacionados. No caso brasileiro, esta relação se estabelece porque em ambos os espaços ocorrem, dentre outras, as seguintes situações: 

(A) estagnação da economia e fuga de capitais 

(B) estatização das empresas e expansão do setor financeiro 

(C) atenuação das desigualdades e periferização do povoamento 

(D) redução do emprego e concentração do poder econômico

4. (Vestibular UERJ-2001)“Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! (...) Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até à outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa.(...) Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande;(...) — terra que nos parecia muito extensa.” (CAMINHA, Pero Vaz de. Carta a El Rei D. Manuel. In: PEREIRA, Paulo Roberto. Os três únicos testemunhos do descobrimento do Brasil. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 1999.)

 “A superfície do Brasil,(...) é de 850 milhões de hectares.(...) Ora, atualmente, apenas 60 milhões desses hectares estão a ser utilizados na cultura regular de grãos. O restante, (...) em estado de improdutividade, de abandono, sem fruto. Povoando dramaticamente esta paisagem e esta realidade social e econômica, vagando entre o sonho e o desespero, 4.800.000 famílias de trabalhadores rurais sem terra. A terra está ali, diante dos olhos e dos braços, uma imensa metade de um país imenso (...)” (SARAMAGO, J. apud ALENCAR,C. Br 500: um guia para a redescoberta do Brasil. Petrópolis: Vozes, 1999.)

 Separados por quase 500 anos, dois portugueses refletem a respeito da imensidão da terra encontrada por seu país. Mas a impressão transmitida pelo depoimento de cada um deles é diferente, uma vez que a história da Colônia e do período seguinte transformou a terra para o trabalho agrícola em um bem de acesso restrito. Esse longo processo de restrição ao acesso à terra poderia ser sintetizado na seguinte afirmação: 

(A) O sistema de doações de sesmarias, sucedido pela transformação da terra em mercadoria, instituiu a propriedade da terra em fonte de poder econômico e político. 

(B) As precárias condições naturais das terras no interior, somadas a crises climáticas e ao êxodo rural, acarretaram um esvaziamento da produção de bens primários. 

(C) Os entraves da Coroa para a compra de terras, seguida pelas dificuldades de financiamento da produção, criou um desequilíbrio na distribuição das áreas agrícolas. 

(D) A ênfase colonial na produção exportadora, acompanhada pela pouca habilitação técnica dos agricultores, propiciou uma elitização da população do campo.

5. (Vestibular UERJ-2003) 

Os mapas, de 1975 e 1995, mostram a evolução do número e da distribuição de empresas de aviação agrícola no Brasil, que utilizam equipamentos sofisticados para pulverizar com pesticidas as plantações. Isso demonstra uma dinamização do setor associada aos processos de: 

(A) metropolização e êxodo rural 

(B) expansão da fronteira agrícola e difusão da agroindústria 

(C) esvaziamento das áreas interiores e concentração urbana 

(D) centralização da política agrícola e descentralização de investimentos produtivos

6.(Vestibular UERJ-2003)  “aqui, em se plantando, tudo dá” 

A construção do mito de satisfação das necessidades alimentares, evidenciada neste fragmento do texto, contradiz a seguinte afirmativa: 

(A) As terras férteis resultam da ação de agrotóxicos. 

(B) Os melhores solos destinam-se aos cultivos para exportação. 

(C) Os avanços tecnológicos direcionam-se às propriedades improdutivas. 

(D) Os diversos tipos climáticos dificultam a variedade de cultivos agrícolas.

7. (Vestibular UERJ-2003) 

O primeiro texto procura contextualizar a produção para o abastecimento interno no Brasil Colônia, enquanto que o segundo refere-se à invasão de uma propriedade do Monsanto, produtor internacional de alimentos, por ambientalistas e pelo MST, durante o Fórum Social Mundial contra a globalização, realizado em Porto Alegre. A alternativa que aproxima os dois textos por apontar uma semelhança entre o processo brasileiro de produção de alimentos, no passado e no presente, é: 

(A) A produção agrícola se mantém subordinada a interesses externos. 

(B) O Estado deixa para agricultores de subsistência a tarefa da produção alimentar. 

(C) As políticas públicas para o setor agrário provocam preços altos dos produtos exportados. 

(D) As ações do Estado priorizam a produção alimentícia através de consórcios internacionais.

8. (Vestibular UERJ-2004) A imagem tradicional do campo mudou. As chamadas atividades não-agrícolas têm hoje um peso importante na composição da renda agrária, conforme se verifica na tabela abaixo. 


Dentre estas atividades não-agrícolas, a que merece maior destaque é: 

(A) turismo 

(B) indústria 

(C) comércio 

(D) piscicultura

9. (Vestibular UERJ-2004) 


As motivações que originaram a Lei de Terras, de 1850, ainda hoje são causas de conflitos em relação à propriedade rural no Brasil. Dentre as questões levantadas nos artigos transcritos, aquelas que caracterizam a atual estrutura fundiária no Brasil são: 

(A) mercantilização da terra e expulsão de posseiros pobres 

(B) exclusão de grileiros e internacionalização da propriedade 

(C) obrigatoriedade de registro oficial e predomínio de terras devolutas 

(D) instituição de gratuidade nas fronteiras e obrigatoriedade de produção

10. (Vestibular UERJ-2005) 



Os dois textos acima têm como principais elementos geradores das problemáticas apontadas os processos de: 

(A) assentamento agrícola e êxodo rural 

(B) proletarização rural e reforma agrária 

(C) modernização agrícola e revolta social 

(D) concentração fundiária e conflitos no campo

11. (Vestibular UERJ-2005) 



Em contraponto à grande disponibilidade de terras, o processo de grilagem na Amazônia avança associado à seguinte situação: 

(A) especulação fundiária, buscando maior lucratividade

(B) demanda acentuada por terra, determinando novas invasões 

(C) procura de terras devolutas, ampliando a produção agrícola extensiva 

(D) ausência da fiscalização do Estado, propiciando o aumento de latifúndios

12.(Vestibular UERJ-2005) 



Apesar dos incrementos de produtividade e da expansão do agronegócio, o texto nos aponta dificuldades enfrentadas por parte dos pequenos agricultores brasileiros, que devem ser compreendidas a partir das relações políticas e econômicas vigentes hoje no campo. Uma causa básica e uma conseqüência para as dificuldades enfrentadas pelos pequenos produtores rurais são: 

(A)ausência de linhas de financiamento − lucratividade retraída 

(B) precária base tecnológica − sistema de transportes subutilizado 

(C) fracionamento das propriedades − mercado de consumo depreciado 

(D)carência de uma política agrícola favorável − produção familiar inviabilizada

13. (Vestibular UERJ-2007) O desenvolvimento da agroindústria brasileira vem alterando a paisagem nas áreas rurais com ações polêmicas que possibilitam o aumento da produtividade, mas também promovem a devastação da vegetação nativa. Uma das conseqüências das mudanças geradas pelas agroindústrias no campo é: 

(A) incremento da agroecologia com a ocupação das terras devolutas 

(B) expansão das médias propriedades com a distribuição da renda agrícola 

(C) fragmentação das grandes propriedades com o aumento da produção para exportação 

(D) ampliação das relações de trabalho capitalistas com o crescimento da produção comercial

14.(Vestibular UERJ-2008)



Compare os mapas acima. A alternativa que indica de forma correta dois Estados brasileiros e o tipo de relação, verificada em ambos, entre os graus de concentração da terra e de modernização agrícola é: 

(A) Maranhão e Piauí – inversa 

(B) São Paulo e Bahia – direta 

(C) Mato Grosso e Tocantins – direta 

(D) Santa Catarina e Espírito Santo – inversa

15. (Vestibular UERJ-2009)



A partir das informações do texto, podemos concluir que a distinção entre cidade e campo vincula-se ao estabelecimento da diferença entre espaço e atividades econômicas. Essa distinção está adequadamente expressa em: 

(A) o campo não é lugar adequado à instalação de indústrias 

(B) o espaço rural não é sinônimo de atividades primárias 

(C) o espaço urbano não é compatível com a prática do ecoturismo 

(D) a cidade não é o local de predomínio dos setores secundário e terciário

Gabarito:

1. D    2. B   3. D   4. A   5. B   6. B   7. A    8. A   9. A|  10. D   11. A  12. A    13. D    14. A    15. B



terça-feira, 24 de março de 2026

O enorme custo da obesidade



Problema de sobrepeso afeta 2,1 bilhões de pessoas

Duas pessoas obesas em rua da Cidade de México.JUSTIN WILSON (GETTY)

A recente decisão do Tribunal Europeu de Justiça que reconhece que a obesidade “pode representar uma deficiência” no trabalho voltou a colocar em primeiro plano um dos maiores problemas de saúde dos países desenvolvidos e emergentes, com graves implicações sobre o futuro da atividade econômica. O reconhecimento do excesso de peso como “deficiência” obrigaria as empresas, por exemplo, a fornecer espaços de trabalho maiores para estes empregados, designar-lhes tarefas mais leves, ou habilitar zonas de estacionamento apropriadas. E, levando-se em conta que cerca de 20% dos homens e 23% das mulheres da Europa são obesos, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a questão do sobrepeso representa um fator de tensão nas relações trabalhistas a médio prazo.

Pela primeira vez na história da humanidade há mais pessoas com excesso de peso do que desnutridas. Cerca de 2,1 bilhões de pessoas no mundo sofrem de sobrepeso, das quais 670 milhões padecem de obesidade. O número total já representa em torno de 30% da população mundial, e um estudo da consultoria McKinsey estima que o percentual subirá para a metade dos habitantes do planeta em 2030. “A obesidade está em crescimento nos países desenvolvidos e, agora, também está presente nas economias emergentes”, afirmam os especialistas da consultoria, que apontam que o problema não só se agrava rapidamente, como também será cada vez mais difícil de ser revertido. “Só um plano que ataque em várias frentes, desde o tamanho das porções dos alimentos, passando pelo controle sobre o fast-food até o estímulo ao exercício físico e à educação alimentar, entre outras questões, poderá começar a frear a crise”, dizem na McKinsey.
Pela primeira vez há mais obesos do que pessoas desnutridas

O impacto da obesidade na economia mundial é calculado em cerca de 2 trilhões de dólares (5,3 bilhões de reais), o equivalente a 2,8% do produto interno bruto (PIB) global, segundo a McKinsey. A gravidade do problema está à altura do tabagismo, da violência armada e do terrorismo, e suas consequências se expandem para muitas áreas da economia, desde os custos de saúde –públicos e particulares— passando pela queda da produtividade e o aumento do absentismo trabalhista, até um maior consumo de alimentos e de energia.

Nos Estados Unidos, por exemplo, o custo anual da obesidade em função da produtividade para as empresas chega a 153 milhões de dólares, segundo a consultoria Gallup. Na Europa, o valor ronda os 160 bilhões, segundo estudo do Bank of America-Merrill Lynch. Um levantamento realizado há quatro anos por especialistas da Clínica Mayo, dos EUA, calculou que, enquanto o tabagismo aumenta o custo dos cuidados médicos em 20% a cada ano, a obesidade eleva esse percentual a 50%.

O mesmo centro médico, assim como as universidades norte-americanas de Duke e Cornell, dedicaram recursos para estudar o impacto do excesso de peso das empresas do país. Os diferentes estudos calcularam que as faltas ao trabalho derivadas da obesidade elevam os custos das empresas em 6 bilhões de dólares anuais, enquanto a menor produtividade destes mesmos empregados aumenta essa perda em outros 30 bilhões. O problema não afeta apenas a empresa, mas também o trabalhador, uma vez que as pessoas obesas têm menor probabilidade de serem contratadas e inclusive ganham menos, especialmente no caso das mulheres.

Ainda que em países industrializados, como EUA e Reino Unido, que estão entre os mais afetados pela crise, tenham surgido campanhas governamentais e privadas para estimular hábitos que ajudem a combater o problema, a maioria das empresas ainda não tem consciência da importância de incentivar programas internos para estimular pelo menos o cuidado com a alimentação e o exercício físico. A maioria dos especialistas concorda que as empresas devem subvencionar os programas de emagrecimento, os medicamentos contra a obesidade que os empregados podem necessitar e investir no replanejamento do local de trabalho (sala de exercícios, refeitório, máquinas com produtos saudáveis, entre outros). Planos amplos contra a obesidade teriam um custo de entre 20 e 30 dólares anuais por pessoa em países como Japão, Itália, Canadá ou Reino Unido.
Problema custa 160 bilhões de dólares em produtividade na Europa

A obesidade ainda tem outras implicações. A empresa aérea australiana Qantas calculou que o peso dos passageiros adultos aumentou dois quilos desde 2000, o que representa um custo extra de 1 milhão de dólares por ano em combustível. A Samoa Air, por exemplo, é a primeira a cobrar dos passageiros de acordo com seu peso. A fabricante de aeronaves Airbus já oferece assentos mais largos para seu modelo A320, e várias companhias fabricantes de ônibus e trens estudam fazer o mesmo. No setor de automóveis, calcula-se que os passageiros obesos aumentam o consumo de gasolina em milhões de litros por ano só nos EUA. A Universidade de Buffalo (Nova York) constatou que as pessoas sem excesso de peso são 70% mais propensas a usar o cinto de segurança do que os obesos, o que reduz a gravidade e o custo dos acidentes.

Um estudo recente dos professores Núria Mas (IESE) e Joan Costa (London School of Economics), intitulado Globesity? The Effects of Globalization on Obesity and Caloric Intake, (Globesidade? Os Efeitos da Globalização na Obesidade e Ingestão Calórica) faz a correlação entre a globalização e a obesidade. “A obesidade é um fenômeno complexo que implica tanto aspectos econômicos como sociais”, diz Mas. “Nós observamos que as normas sociais e culturais têm um impacto fundamental sobre a obesidade. Os elementos da globalização social que têm mais efeito sobre a obesidade são os fluxos de informação e os contatos pessoais. Há evidências que indicam que o grupo de pessoas com quem comemos ou com quem nos relacionamos tem um impacto sobre como e quanto ingerimos. De fato, já se fala de um ‘entorno obesogênico’, que propicia a obesidade se forem seguidas suas normais sociais: por exemplo, o tempo que se leva para comer e o tamanho das porções, entre outros”, acrescenta.
Jornal El País

sexta-feira, 20 de março de 2026

O impacto destruidor do aquecimento global no Alasca






Crédito,Alamy Legenda da foto, À medida que o vilarejo de Kwigillingok descongela, a infraestrutura está desmoronando | Foto: AlamyArticle InformationAuthor,Sara Goudarzi
Role,BBC Future


Vladimir Romanovsky atravessa a densa floresta de coníferas com facilidade. Não para ou diminui o passo nem sequer para se equilibrar diante do musgo macio que cobre o permafrost - superfície que permanece congelada nas regiões polares.


É um dia quente de julho, e o cientista está procurando uma caixa que ele e sua equipe deixaram no solo. Ela está escondida cerca de 10 quilômetros ao norte do Instituto de Geofísica da Universidade do Alasca, em Fairbanks, onde Romanovsky é professor de geofísica e responsável pelo Laboratório de Permafrost.


O recipiente, coberto por galhos de árvores, contém um coletor de dados conectado a um termômetro, instalado abaixo do solo para medir a temperatura do permafrost em diferentes profundidades.


O permafrost é qualquer material terrestre que permaneça a 0°C ou abaixo dessa temperatura por pelo menos dois anos consecutivos.

Legenda da foto,Vladimir Romanovsky coleta registros de temperatura abaixo do solo da floresta | Foto: Anthony Rhoades


Romanovsky conecta então seu laptop ao coletor de dados para transferir os registros de temperatura desta localidade, chamada Goldstream 3, que mais tarde serão adicionados a um banco de dados online, acessível tanto para cientistas quanto para qualquer pessoa interessada.


"O permafrost é definido com base na temperatura. Esse é o parâmetro que caracteriza a sua estabilidade", explica o professor.


Quando a temperatura do permafrost é inferior a 0°C, por exemplo, - 6°C, ele é considerado estável, o que significa que vai demorar muito para mudar ou descongelar. Já se está perto de 0°C, é classificado como vulnerável.


Todo verão, a porção de solo que cobre o permafrost, chamada de camada ativa, derrete - e congela de novo no inverno seguinte.


Em Goldstream 3, naquele dia de julho (verão no hemisfério norte), o derretimento chegava a 50 cm de profundidade.

Legenda da foto,Solo escuro indica a presença de carbono orgânico acumulado | Foto: Anthony Rhoades


À medida que a Terra aquece e as temperaturas aumentam no verão, o degelo está se expandindo e ficando mais profundo, fazendo com que o permafrost fique menos estável.


Se o derretimento continuar, haverá consequências profundas para o Alasca e para o mundo. Cerca de 90% do Estado é coberto por permafrost, o que significa que vilarejos inteiros precisarão ser realojados, conforme as fundações dos edifícios e as estradas desmoronarem.


E se o permafrost liberar o carbono acumulado e retido há milênios dentro dele, poderá acelerar o aquecimento do planeta - muito além da nossa capacidade de controlá-lo.

Estado de vulnerabilidade


À medida que o permafrost derrete, casas, estradas, aeroportos e outras infraestruturas construídas sobre o solo congelado podem rachar e até mesmo ruir.


"Estamos vendo mais serviços de manutenção em estradas que passam sobre o permafrost", diz Jeff Currey, engenheiro de materiais do Departamento de Transportes Públicos do Alasca.


"Um dos nossos superintendentes de manutenção contou recentemente que sua equipe está tendo que remendar certos trechos das rodovias com mais frequência do que há 10 ou 20 anos. "


Da mesma forma, as infraestruturas construídas no subsolo - para atender os serviços de utilidade pública, por exemplo - estão sendo afetadas, conforme as temperaturas aumentam.


"Em Point Lay, na costa noroeste do Alasca, por exemplo, eles estão tendo todos os tipos de problema com as redes de água e esgoto no solo de permafrost", afirma William Schnabel, diretor do Centro de Pesquisa de Água e Meio Ambiente da Universidade do Alasca.

Legenda da foto, Leituras feitas a partir de sensores no solo indicam mudanças significativas em andamento | Foto: Anthony Rhoades


A preocupação é ainda maior para aqueles que vivem em áreas rurais, que não dispõem de fundos suficientes para combater os efeitos do derretimento do permafrost.


Para esses moradores, não são apenas os edifícios que estão ruindo, o que é comum agora, mas também o abastecimento de água.


Muitas vezes, quando o permafrost derrete ao lado de um lago usado por um vilarejo como fonte de água, há uma fenda e ocorre um dreno lateral.


"Geralmente, é necessária uma infraestrutura bem cara para tirar água de um lago, levar para uma vila e armazená-la. E todos os componentes desta infraestrutura são vulneráveis ao degelo do permafrost", diz Romanovsky.


Crédito,AlamyLegenda da foto,Permafrost é qualquer solo que permaneça congelado a 0°C ou menos por pelo menos dois anos consecutivos | Foto: Alamy


Se um vilarejo depende de um lago afetado para conseguir água, os membros da comunidade têm de levar sua infraestrutura e, às vezes, a vila inteira para outro lago, o que pode custar muito dinheiro.


De acordo com uma análise realizada pelo órgão de pesquisas geológicas americano US Geological Survey, aldeias como Kivalina, no noroeste do Alasca, terão que se mudar nos próximos 10 anos.


"Mas estimativas sugerem que o custo desta mudança seria de cerca de US$ 200 milhões por cada vila de 300 pessoas", explica Romanovsky.


Chegar a uma quantia como essa só seria possível com o financiamento do governo federal - mas não há garantias de que uma nova localização também não seria afetada.


"Acredito que agora existam 70 vilas que realmente precisam ser realojadas em decorrência do derretimento do permafrost", avalia.


"Mas transferir os vilarejos para outra área no permafrost é muito difícil de garantir por uns 30 anos. E o governo federal não quer pagar por algo que precisará pagar novamente."

Legenda da foto,Vladimir Romanovsky no Laboratório de Permafrost, da Universidade do Alasca, em Fairbanks | Foto: Anthony Rhoades


Além disso, é possível que a construção de assentamentos no permafrost também possa agravar o problema no Alasca.


"Quando você pensa em água e esgoto, você precisa mantê-los sem congelar. E, no caso do permafrost, você tem que mantê-lo congelado", diz Schnabel.


"Ou seja, vai correr água relativamente quente pelo permafrost e haverá alguma dissipação de calor lá."


Do mesmo jeito, quando uma estrada é construída, parte da vegetação que cobre o permafrost é removida para que a rodovia seja pavimentada com asfalto, o que aumenta a quantidade de radiação solar absorvida.


Por isso, embora os serviços de manutenção tenham aumentado, nem todos os problemas relacionados à infraestrutura podem ser atribuídos à mudança climática.

Freezer cheio de carbono


O Alasca, está, sem dúvida na linha de frente das mudanças climáticas, mas as questões relacionadas ao permafrost vão além da "última fronteira selvagem", como é conhecido. O derretimento do material afetará outros 48 estados americanos, localizados abaixo dele, assim como todo o planeta.


De acordo com Romanovsky, metade do estado e 90% do permafrost do interior do Alasca vão descongelar se houver um aumento médio global de 2°C na temperatura.


Isso é especialmente preocupante porque uma enorme quantidade de carbono orgânico é sequestrada no permafrost e na camada ativa que se sobrepõe a ele.


Uma vez que não há calor suficiente no solo congelado para ajudar os micro-organismos a decompor a vegetação morta, a matéria orgânica foi se acumulando durante milhares de anos no permafrost.


Algumas análises estimam que a quantidade de carbono no permafrost equivale a mais de duas vezes a de dióxido de carbono na atmosfera.


"Se mantivermos o curso atual, é bem provável que até 2100 uma parte significativa do permafrost, nos cinco metros superiores, descongele. E, com ele, toda a matéria orgânica que está atualmente retida ali", diz Kevin Schaefer, pesquisador do National Snow and Ice Data Center da Universidade do Colorado.

Legenda da foto,No Parque Nacional Denali, o aumento da temperatura começou a afetar a vida selvagem | Foto: Anthony Rhoades


"Isso significaria uma liberação de dióxido de carbono e metano, que aumentaria o aquecimento devido à queima de combustíveis fósseis."


Em artigo publicado em 2012 na revista científica Nature, Schaefer e seus colegas sugerem que os eventos de aquecimento súbito ocorridos anteriormente foram essencialmente desencadeados pela liberação de dióxido de carbono e metano do permafrost há cerca de 50 milhões de anos na Antártida.


E as projeções não parecem otimistas: "Teoricamente, se esse carbono for liberado para a atmosfera, a quantidade de CO2 será três vezes maior do que a que está lá (na atmosfera) agora", diz Romanovsky.


Desta forma, há uma genuína retroalimentação, uma vez que aquecimento aumenta em decorrência da queima de combustíveis fósseis.


Mas, apesar do fato de o aquecimento estar acelerando, os efeitos da retroalimentação serão graduais, levando tempo para serem sentidos.


"É um feedback muito lento", diz Schaefer.


"Imagine tentar conduzir um navio a vapor com o remo de uma canoa, esse é o tipo de feedback que estamos falando", compara.


Infelizmente, uma vez que o permafrost começa a derreter, é difícil congelá-lo novamente - pelo menos enquanto estivermos vivos. Além disso, a partir do momento que material sai do solo e vai para a atmosfera, não existe uma maneira fácil de enviar esse carbono de volta ao chão.


"A única maneira de fazer isso seria baixar a temperatura global e congelar de novo o permafrost, o que significaria que você estaria removendo o dióxido de carbono da atmosfera", diz Schaefer.


Segundo Romanovsky, os modelos climáticos mostram que os atuais compromissos intergovernamentais para reduzir o aquecimento global - conforme estabelecido no Acordo de Paris - podem não ser suficientes.


Em artigo publicado em 2016 na revista Nature Climate Change, a pesquisadora Sarah Chadburn e seus colegas estimam que, mesmo que o clima fosse estabilizado, conforme acordado pelos 196 países em 2015, "a área de permafrost seria eventualmente reduzida em mais de 40%".


No entanto, após o anúncio do presidente Donald Trump de retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris, em junho do ano passado, é de se esperar uma perda ainda maior de permafrost no horizonte.

O jogo de culpa


O Alasca é um Estado conservador politicamente, então quem está de fora pode supor que seus moradores rejeitam a ideia do aquecimento global. Mas a realidade é mais complexa.


Uma pesquisa realizada no início deste ano pelo Alaska Dispatch News, com um total de 750 participantes, mostrou que mais de 70% da população local está preocupada com os efeitos da mudança climática.


"No Alasca, a quem você perguntar, vai responder 'sim, há aquecimento'", afirma Romanovsky.


"Quanto mais para o norte você for, especialmente no noroeste, mais forte é esse sentimento. Porque está acontecendo, você consegue ver. Claro, a questão sobre de quem é a responsabilidade depende das crenças políticas."


No Parque Nacional Denali, a guarda florestal Anna Moore testemunhou como o aquecimento pode afetar em pouco tempo a vida selvagem.


Ela reparou que a lebre do ártico, que muda a cor da pele de acordo com as estações do ano para se camuflar, parece não estar acompanhando mais as mudanças, como resultado do aumento da temperatura, o que a deixa mais exposta a predadores.


Crédito,Getty Images Legenda da foto, A lebre do ártico está tendo dificuldade para se camuflar, conforme a neve derrete, diz guarda florestal | Foto: Getty Images


"No inverno, eles ficam brancos", diz Moore.


"À medida que está ficando mais quente, a neve está derretendo mais rápido, mas seus corpos são aclimatados a certas mudanças de temperatura e, portanto, mesmo que a neve já esteja derretendo, eles continuam brancos - e correndo perigo por causa dos predadores."


Moore acrescenta que, apesar de acreditar nas mudanças climáticas e estar observando seus efeitos na fauna e flora do parque, ela considera isso um resultado tanto das atividades humanas quanto de um ciclo natural.


Ashley Tench, sua colega, compartilha o mesmo sentimento:


"Eu concordo com ela (em) como isso é em parte feito pelo homem, mas é também natural."


Por isso, Tench não acredita que a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris faça diferença no clima.


Mas nem todo mundo no Alasca tem essa opinião. Para Bill Beaudoin, mergulhador e educador aposentado, que agora é proprietário de uma pensão em Fairbanks, é óbvio que os humanos são culpados e que devemos trabalhar para reverter os efeitos de nossas ações.


"Acredito que o Acordo de Paris era necessário ", diz ele.


"Na verdade, eu não achava (que era) suficiente. Há um país, a Nicarágua, que não assinou o acordo porque achou que não era forte o suficiente. Eu ficaria provavelmente ao lado da Nicarágua nesta questão", acrescenta.

Legenda da foto,‘O Acordo de Paris era necessário. Na verdade, eu não achava (que era) suficiente’, afirma Bill Beaudoin, morador do Alasca | Foto: Anthony Rhoades


Mas não importa quem seja o culpado pelo aquecimento e o consequente derretimento do permafrost. A população do Alasca está, em sua maioria, preocupada com seu futuro.


"As pessoas estão preocupadas, porque, claro, não existe seguro para derretimento do permafrost", diz Romanovsky.


"Os seguros não estão cobrindo os danos causados pelo permafrost, assim como por terremotos na Califórnia."

Em busca do carbono


De volta a Goldstream 3, Romanovsky observou que a 50 cm de profundidade, a temperatura do solo era de - 0,04°C. Em um metro, chegava a - 0,23 °C.


Na última vez que tinha verificado os dados, em março, a temperatura a um metro do solo era de -1,1°C.


Ele pega sua pá e faz um buraco no chão para observar o solo e checar se há presença de carbono. A superfície mais escura indica carbono orgânico acumulado.


Quanto mais ele cava, mais frio fica o solo. Ele escava tanto até que sua pá toca o permafrost - e aparentemente ele não pode ir além.

Legenda da foto, Pesquisadores do Instituto Geofísico da Universidade do Alasca estão monitorando mudanças de temperatura no longo prazo | Foto: Anthony Rhoades


Romanovsky força um pouco mais e consegue desenterrar um pedaço do permafrost - do tamanho de uma pequena moeda. Segundos após segurar o solo congelado entre os dedos, ele derrete como se fosse um cubo de gelo.


Ele devolve a terra removida de volta ao buraco, desconecta seu laptop do coletor de dados, fecha a caixa, cobre novamente com galhos de árvore e se prepara para voltar.


Em uma semana, ele vai se deslocar para o norte do Estado para registrar a temperatura em outras áreas, acrescentando mais informações a uma das bases de dados de permafrost mais abrangentes do mundo.


Enquanto isso, pouco a pouco, o Alasca vai derretendo - e o que vem pela frente não se sabe. O certo é que o grande degelo mudará para sempre a paisagem como é hoje - e provavelmente o planeta e seus habitantes.
BBC Brasil

A enorme fenda que pode separar o Chifre da África do resto do continente




Crédito,Reuters Legenda da foto, A estrada que liga as cidades quenianas de Narok e Nairobi foi atravessada pela fenda que se abriu  no sudoeste do país

Em Mai Mahiu, um pequeno vilarejo rural no sudoeste do Quênia, a 50 km da capital, Nairobi, ocorrem há algumas semanas chuvas intensas, inundações e tremores. Mas, em 18 de março, algo estranho aconteceu: a terra começou a se abrir.


"Minha mulher começou a gritar para os vizinhos, pedindo ajuda para tirar nossos pertences de casa", contou Eliud Njoroge à agência de notícias Reuters.


Desde então, a fenda no piso de cimento de sua casa não parou de crescer, fazendo com que a família de Njoroge e muitas outras fossem evacuadas.


"As fendas correm quase em linha reta, então, dá para projetar para onde vão. Se você vê uma vindo em sua direção, você sai dali correndo", disse o geólogo David Adede à Reuters.


A enorme fissura já tem quilômetros de comprimento e alguns metros de largura. Ela está ligada a uma falha tectônica conhecida como Vale do Rift, ou Vale da Grande Fenda, na África Ocidental.



Segundo os geólogos, esse é um sinal de que, daqui a dezenas de milhões de anos, a África pode ser separada em duas.


Crédito,ReutersLegenda da foto,A fissura já levou a evacuações de zonas rurais no sudoeste do Quênia e seguirá se expandindo pelo continente

África sem o Chifre


Assim como ocorreu com a América do Sul, separada da África há 138 milhões de anos, os geólogos estimam que chegará um momento em que o Chifre da África também se desprenderá do continente.


O Vale da Grande Fenda se estende por mais de 3 mil km, "desde o Golfo de Adén, no norte, até o Zimbábue, no sul, dividindo a placa africana em duas partes iguais", afirma a geóloga Lucía Pérez Díaz na revista científica The Conversation.


A pesquisadora do Grupo de Investigação de Falhas Dinâmicas da universidade Royal Holloway defende que "a atividade ao longo da parte oriental do Vale da Grande Fenda, que corre ao longo da Etiópia, Quênia e Tanzânia, tornou-se evidente quado a grande fissura apareceu repentinamente no sudoeste do Quênia".


Para Pérez Díaz, a fenda é única no planeta, porque permite observar as diferentes etapas de seu processo de fissura ao vivo.



A fratura mais interessante, escreve, começou na região de Afar, no norte da Etiópia, há cerca de 30 milhões de anos. Desde então, está se propagando rumo ao sul, na direção do Zimbábue, a uma média de 2,5 a 5 centímetros por ano.


Atualmente em Afar, a camada exterior sólida da Terra, chamada de litosfera, tem sido reduzida a ponto de a ruptura ser quase completa.


Quando a quebra estiver completa, detalha Pérez Díaz, um novo oceano começará a se formar e, "em um período de dezenas de milhões de anos, o leito marinho avançará ao longo de toda a fenda".


"O oceano inundará e, como resultado, o continente africano ficará menor, e haverá uma grande ilha no Oceano Índico composta por partes da Etiópia, Somália, incluindo o Chifre da África", afirma.
BBC Brasil

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