segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Século de gerência feminina


07/ 03/ 2007 - MULHERES

Século de gerência feminina

Ana Lúcia Galinkin
Professora e pesquisadora do programa de Pós-graduação em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações, do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB). Tem doutorado em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), mestrado em Antropologia Social pela UnB e graduação em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
O processo de industrialização nas sociedades ocidentais deu origem a uma reconfiguração na divisão sexual do trabalho. A partir dele, criou-se a figura da mulher trabalhadora assalariada, que passou a desempenhar suas atividades profissionais no espaço público, particularmente nas fábricas. No decorrer do século 20, profissões como secretárias, professoras do ensino primário e secundário, enfermeiras, domésticas, funcionárias, entre outras tarefas que, nas representações coletivas aparecem como tipicamente femininas, foram, cada vez mais, ampliando as oportunidades de emprego para as mulheres.

Desde então, tem ocorrido um aumento significativo e constante da participação feminina no mercado de trabalho, em particular entre mulheres de classe média. Atualmente, elas correspondem a quase a metade da população economicamente ativa. Por conseqüência, o que se tem observado é uma progressiva feminilização do trabalho em diferentes setores, inclusive os considerados tipicamente masculinos. O nível de escolaridade também é crescente entre as mulheres, assim como sua participação em cargos de chefia intermediárias.

Mas sua presença ainda é minoritária em altos cargos gerenciais. As áreas mais favoráveis a elas continuam sendo a de serviços comunitários e sociais, educação e saúde, onde já têm maior representação e mais oportunidades de ocuparem cargos gerenciais. As micro e pequenas empresas, tanto no setor formal quanto informal, também têm se constituído em um espaço mais aberto para que as mulheres ocupem posições mais altas.

A participação feminina em postos de chefia tem levantado a questão se essas mulheres, que foram educadas para se colocarem em posições subalternas, adotando atitudes mais passivas e de conciliação, sendo treinadas para cuidar e se preocupar com o outro, desempenhariam bem esta função de mando tipicamente masculina, definida como racional, assertiva e impessoal. Estariam as gerentes exercendo essas funções como homens ou como mulheres? Teriam que mudar sua maneira de ser, considerada feminina, para se tornarem boas gerentes? Ou estão criando um estilo feminino de gerenciar?

Pesquisas voltadas para estilos gerenciais, que focalizam as relações de gênero, mostram que não há homogeneidade no desempenho das chefes, nem em sua maneira de entender qual a melhor forma de mandar. Em alguns casos, as mulheres adotam um estilo masculino, mais assertivo e competitivo, como forma de se fazerem respeitar e mostrar competência no desempenho de sua função gerencial. Este comportamento está, muitas vezes, vinculado às características da organização onde trabalham, que valoriza a racionalidade, a lógica e a competição.

Em outros casos, as gerentes adotam o estilo que consideram feminino, que é mais interativo e se caracteriza pela inclusão, por encorajar a participação das equipes, por dividir o poder e a informação e por desenvolver a auto-estima das pessoas. Esse estilo é estimulado por empresas em que ocorrem mudanças nas formas hierárquicas de organização, favorecendo o que tem sido interpretado como o estilo feminino de administração. Nele, as gerentes reconhecem como válida a transposição para o ambiente de trabalho de um aprendizado que tiveram no lar – seja na administração doméstica, no papel de negociadoras das relações familiares e de gestoras de uma multiplicidade de funções como mães, esposas e filhas.

Por mais contraditório que possa parecer, esse estilo de gerência já foi encontrado em empresas cujas atividades são consideradas tipicamente masculinas, como mineração. No serviço público, setor mais acessível às mulheres devido à seleção por concurso público, e que tem oferecido maiores oportunidades de ascensão funcional, o modo feminino de chefia também aparece com freqüência.

O estilo que as mulheres construíram corresponde às tecnologias gerenciais atuais que rejeitam a coerção e o autoritarismo, e valorizam a participação. Está em conformidade com as transformações organizacionais que exigem do gestor a capacidade de tecer redes de inclusão e gerar consenso. Uma forma de exercício de poder, cuja eficácia está baseada nas negociações, na coordenação, na persuasão, e não na dominação. Uma forma de gestão das organizações do século 21.

Dia do índio: o que comemorar?


23/ 04/ 2007 - ANTROPOLOGIA

Dia do índio: o que comemorar?

Roque de Barros Laraia
antropólogo e professor emérito da UnB. É doutor em Antropologia pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutor pela Universidade de Sussex, na Inglaterra. Foi pesquisador associado do Laboratory of Social Relations, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

Em abril de 1940, realizou-se na Posada de don Vasco de Quiroga, em Pátzcuaro, no México, o I Congresso Indigenista Interamericano, que contou com a participação de líderes indígenas e representantes oficiais da maioria dos países do continente. Neste primeiro encontro, foi aprovada a recomendação para que os governos dos países da América adotassem o dia 19 de abril, como “Dia Americano do Índio, dedicado a estudar em todas as escolas e universidades, com critério realista, o problema do índio atual”.

Desde então, a data é comemorada no Brasil, como o Dia do Índio, ocasião em que professoras brasileiras, com muita freqüência, fazem nos rostos das crianças com as pinturas faciais de índios norte-americanos. Nas comemorações oficiais, o “critério realista” recomendado em Pátzcuaro, que visava a proteção, o desenvolvimento e o bem-estar das nossas comunidades indígenas, é plenamente ignorado. Comemorações são importantes, mas devem ser acompanhadas de uma reflexão sobre a real situação dos índios brasileiros atualmente.

Desde 1910, quando foi criado o Serviço de Proteção aos Índios, transformado em 1967 na Fundação Nacional do Índio, muito foi feito, principalmente no que se refere à proteção das terras indígenas. O país regularizou a situação de 580 terras, totalizando cerca de 108.473.642 de hectares. Mas é um erro supor que a regularização dessa vasta extensão seria suficiente. Existe uma forte pressão por parte de madeireiros e grileiros, visando a redução das terras indígenas, que na Amazônia, e em outras regiões, constituem um forte obstáculo para o desmatamento.

Além disso, vemos hoje um quadro muito alarmante: a fome ronda as aldeias, como podemos verificar nos noticiários originados no Mato Grosso do Sul. E isto não acontece apenas nas situações de muitos índios com pouca terra, mas também entre os grupos que conseguiram preservar uma parte substancial de seu território. Estes convenceram-se, ou foram convencidos, que os seus sistemas tradicionais de alimentação não eram bons e os trocaram pelos nossos, perdendo assim a sua auto-suficiência. Precisam comprar alimentos e dependem de recursos financeiros escassos.

É verdade que a fome não está presente em todos os grupos, mas há ainda o seu contraponto que é a obesidade, a hipertensão, o diabetes e outras doenças cardíacas – graves conseqüências do abandono de seus hábitos alimentares tradicionais. Ainda há o surgimento de novos problemas sanitários que não estão sendo devidamente resolvidos.

A desorganização social decorrente do contato com a sociedade nacional teve o seu impacto nos índices de fertilidade e de saúde indígena. Crianças em fase de amamentação estão subnutridas porque suas mães dividem o leite escasso com outras crianças. Pesquisas indicam mulheres tupi-guarani com 12 filhos, fato impensável no passado, quando existiam rígidas regras de limitação da prole.

O aumento vertiginoso das taxas de fertilidade combinado com a redução das atividades agrícolas, com a redução das atividades de caça e de pesca tem contribuído para o aumento da dependência econômica. Surge então o paradoxo de grupos possuidores de razoável quantidade de terra dependentes de cestas básicas.

Situação mais crítica é a dos índios do Mato Grosso do Sul. As pequenas reservas demarcadas no início do século 20 tornaram-se insuficientes diante do grande aumento da população Caiwoá, por exemplo. Nesse grupo Guarani, a situação é desesperadora: uma alta taxa de suicídios de pessoas muito jovens é agravada por uma alta taxa de mortalidade infantil, decorrente de subnutrição e das enfermidades decorrentes. Em 2005, o coeficiente de mortalidade infantil entre os Caiwoá era superior ao índice de 40 por 1000!

O mais cômodo é acusar a Fundação Nacional do Índio por tudo o que está acontecendo, esquecendo que essa Instituição dispõe de orçamento e recursos humanos insuficientes para cuidar de centenas de milhares de índios espalhados por todo o imenso território nacional. Ela não faz parte das prioridades do governo, que não tem uma política indígena claramente definida, e é vitima de um descaso permanente por parte de nossos parlamentares. Basta dizer que o projeto do novo Estatuto das Sociedades Indígenas, que visa substituir o aprovado em 1973 está mofando no Congresso, desde o início da década de 1990. Com efeito, os índios brasileiros têm muito pouco a comemorar.

O mito do relógio de ponto


26/ 04/ 2007 - TRABALHO

O mito do relógio de ponto

Mário César Ferreira
Professor do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da UnB. É psicólogo do trabalho, doutor em Ergonomia pela École Pratique des Hautes Etudes (Paris, França)

No cardápio de instrumentos de gestão, o relógio de ponto sempre ocupou lugar de destaque. Ele é fruto da Revolução Industrial e consolidou-se com enfoque taylorista de tempos e movimentos, da chamada “Administração Científica”. O controle de ponto de funcionários transformou-se em remédio milagroso para o controle de comportamento indesejado dos assalariados. Dois séculos de capitalismo industrial – ancorados no pressuposto de que “time is money” - deram origem a uma métrica da produção: cada produto representa "x" horas de trabalho. Todavia, mesmo no contexto industrial, o uso do marcador de ponto já começa a respirar os ares da flexibilidade e, paulatinamente, o novo padrão de competitividade globalizada vem recomendando aos empresários "virar o disco".

O relógio de ponto pode ser um instrumento eficaz de controle de horários (chegada, saída, intervalo, turnos) e gerenciamento de segurança e banco de horas, fornecendo relatórios que são verdadeiras “pedras preciosas” nas mãos de dirigentes e gestores. Com a revolução microeletrônica, o modelo top de linha destes marcadores combina informática e biometria, possibilitando identificar com segurança o usuário por meio do corpo humano (olhos, mãos, dedos). Os relógios biométricos produziram euforia em certos gestores: “agora quero ver funcionário emprestar seu cartão magnético para o colega!”.

O mito do relógio de ponto começa quando outros setores econômicos do mundo do trabalho – com destaque para as esferas do comércio, serviços e governo – importam de modo acrítico este instrumento de gestão como forma de controlar as horas trabalhadas de servidores e empregados. Leitor, você acredita, sinceramente, que o ponto é uma garantia de horas trabalhadas? Uma série de estudos e pesquisas indicam que o controle rígido de horário – típico de modelos de gestão do trabalho baseados exclusivamente em desempenho e resultado – estão na origem de uma série de indicadores críticos nas organizações, como doenças, acidentes, estresse, retrabalho, perda de qualidade, panes e rotatividade.

No caso do setor público, com destaque para o legislativo, imaginar que a adoção do ponto é uma panacéia, que leva os servidores a trabalharem, é como prescrever analgésico para dor de dente: alivia, mas não resolve o problema. Será que a postura gerencial de alguns dirigentes e gestores não é a principal avalista da ausência contumaz de parcela dos servidores? A adoção do relógio pode fazer com que estes passem a estar de corpo presente na repartição pública, mas isto, não necessariamente, significa trabalhar na acepção saudável do verbete. Trabalho também requer alma. Tem muita gente querendo entrar no serviço público, mas experimente perguntar a um concursado antigo, que trabalha em um ambiente onde há marcador de ponto, como anda a sua motivação para o trabalho. Busque saber se as tarefas, o local, as pessoas e, principalmente, os estilos gerenciais são fontes de felicidade. A insatisfação grassa. Eles logo descobrem que só estabilidade e salário razoável não garantem a tão valiosa motivação para o trabalho.

Na área governamental, garantir trabalho efetivo, acompanhado de prazer e saúde, requer, pelo menos, duas macromedidas. A primeira, é operar uma mudança de cultura organizacional revendo valores, crenças, ritos e mitos. Implica em operacionalizar o paradigma do exercício da função pública como espaço também da cidadania organizacional, transparência nas formas de gestão e, sobretudo, controle coletivo interno do planejamento de atividades e controle social pelos cidadãos-contribuintes. A segunda, é adotar um modelo de gestão participativa do trabalho que viabilize, por exemplo, a autonomia responsável na execução de tarefas, a criatividade, o desenvolvimento pessoal, o reconhecimento institucional de quem trabalha e as condições ambientais e instrumentais adequadas de trabalho.

Infelizmente, muitos gestores públicos pelo Brasil afora, sob a batuta de governantes despreparados, querem transformar a repartição pública em unidade industrial e importam modelos de gestão voltados para a produtividade exacerbada. Eles ainda não compreenderam que as atividades do setor público não visam o mercado, mas a sociedade e a promoção da cidadania.

A fúria de um terremoto


23/ 07/ 2007 - SISMOLOGIA

A fúria de um terremoto

Alberto Veloso
Alberto Veloso foi o criador do Observatório Sismológico da UnB e é professor aposentado do Instituto de Geociências. Foi funcionário da ONU, em Viena, Áustria.

Falar sobre a ocorrência de terremotos no Japão não é grande novidade, mas associar um deles ao vazamento de material radioativo de uma usina nuclear já é algo diferente. Em 16 de julho, às 10h13, um abalo de magnitude 6.6 (segundo o Serviço Geológico Americano) com epicentro no mar, fez tremer uma vasta porção da costa oeste de Honshu, incluindo a área onde se encontra a maior central nuclear de energia elétrica do mundo. Logo em seguida, uma coluna de fumaça negra se elevou a partir de um ponto da usina, devido à queima de um transformador elétrico.

Cerca de 24 horas depois do tremor, as autoridades anunciaram um vazamento de água radioativa para o mar, mas afirmaram não ter ocorrido nenhum tipo de dano nos reatores. No decorrer do terremoto, medidas de segurança foram acionadas: a usina foi desligada automaticamente, trens-bala da região foram paralisados, os aeroportos fechados e os fornecimentos de energia elétrica e de gás para as residências cortados.

Não se tratou de um terremoto de magnitude colossal, mas sua profundidade rasa – 10km – e a proximidade da costa – 20 km - foram os fatores que aumentaram seu poder de destruição. Colapso de centenas de casas, danos em milhares de outras, escorregamento de encostas, grandes fissuras no terreno, autopistas cortadas e deslocadas e pessoas que não conseguiam se manter em pé durante o chacoalhar do terreno foram exemplos da gravidade desse terremoto. A intensidade sísmica - que avalia a severidade do terremoto – atingiu VI, valor altíssimo para a escala japonesa cujo limite é VII. Nove pessoas morreram, cerca de mil ficaram feridas e dez mil foram evacuadas.

Os principais terremotos são originados pelo deslocamento das placas tectônicas e as regiões mais perigosas são aquelas situadas nos limites ou encontro das placas. O arquipélago japonês se localiza justamente onde colidem três dessas placas tectônicas e essa é a razão para sua intensa e perigosa atividade sísmica. Ontem, hoje e amanhã, não há como o Japão escapar da ação dos terremotos, mas cada vez mais, o país tem aprendido a minimizar seus efeitos trágicos. O atual pequeno número de mortos e feridos é uma prova disso. O caso do vazamento precisa ser melhor estudado para saber se houve algum problema com a construção civil da usina, afinal o país tem aproximadamente 90 delas.

O Japão tem cerca de 380 mil quilômetros quadrados, mas, por ser um país montanhoso, somente 1/3 de sua área é ocupada. A densidade demográfica é muito alta e a concentração nas grandes cidades é um fator de vulnerabilidade diante dos terremotos. Em 17 de janeiro de 1995, um tremor de magnitude 6.9, com epicentro muito próximo da cidade de Kobe, produziu um desastre impressionante: 5.502 mortos e prejuízos de aproximadamente US$ 60 bilhões. A economia do país sentiu um baque e os engenheiros e arquitetos se assustaram com falhas em projetos e construções da cidade. Certamente colheram muitas lições.

Em 1º de setembro de 1923, um terremoto de magnitude acima de 8 destruiu um pedaço de Tóquio e o fogo consumiu uma outra grande parte da cidade. Morreram 140 mil pessoas. Essa região experimenta grandes terremotos a cada 70 anos. Isso significa que um outro pode acontecer a qualquer momento. Mas, nessas dezenas de anos, aprendeu-se muita coisa e por isso se tem confiança de que os belos e modernos arranha-céus da cidade continuarão de pé após um grande sismo. (Minha descrição não tem nenhum tom alarmista – já morei no Japão, senti seus terremotos, mas adoro o país e sempre que posso estou por lá).

Que lição o Brasil poderia tirar desse desastre sísmico? É ínfima nossa sismicidade perante o Japão. Estamos situados no interior de uma placa tectônica e distantes de seus limites ativos. Mas nem tudo é perfeito e há pontos a considerar. Abaixo do Acre, um pedaço de placa tectônica mergulha para as profundezas da Terra. Por isso, há muitos terremotos fortes na região, mas como são profundos, quase ninguém os sente ou reclama. Curiosamente, nosso maior terremoto teve magnitude similar ao do Japão, mas aconteceu em uma área deserta do Mato Grosso, há 50 anos, sem causar danos maiores. Se ele se repetir agora, o resultado será muito diferente. O Brasil está projetando novas barragens hidrelétricas e almejando a construção de outras usinas nucleares. É tradição considerar o risco sísmico nas grandes obras de engenharia brasileira e isso não pode ser abandonado jamais. Mesmo em áreas de pouca sismicidade, os terremotos não podem ser negligenciados. Nossa história sísmica não é bem conhecida e surpresas não podem ser descartadas.
http://www.secom.unb.br/artigos/at0707-07.htm

Família brasileira na pós-modernidade


03/07/ 2007 - SOCIOLOGIA

Família brasileira na pós-modernidade

Maria ClÁudia Santos Lopes de Oliveira
Professora do Programa de Pós-graduação em Processos de Desenvolvimento Humano e Saúde, do Instituto de Psicologia da UnB. Psicóloga, doutora em Educação pela PUC-Rio, tem pós-doutorado na Clark University, Massachusetts, e é membro do Laboratório de Microgênese das Interações Sociais (Labmis).


Eventos associados ao contexto de violência em que vivemos deixaram de ser novidade. O que era inédito, e deixa de ser, são os episódios protagonizados por membros de famílias de classe média que ficam expostas à avaliação pública, quanto à sua função educativa, formadora e de proteção.

Na última semana, foi amplamente divulgado o episódio no qual jovens universitários da cidade do Rio de Janeiro foram identificados como integrantes de um grupo de perseguição a prostitutas que atuavam na Barra da Tijuca. Mais chocante do que ter as atividades da gangue desveladas após espancarem uma empregada doméstica, foi assistir ao pronunciamento do pai de um deles, que se posicionava indignado com a prisão do grupo de rapazes, dada sua condição de universitários e com residências fixas.

O evento acima revela uma condição contemporânea em que os padrões de relacionamento, transmissão de valores e construção de pautas de ação social por meio das famílias das camadas médias encontra-se em crise. Denota situações em que as famílias parecem ter falhado no exercício coerente e eficaz dos papéis de educação, proteção e regulação do comportamento que a sociedade lhes atribui. Somos, então, impelidos a refletir sobre o que está acontecendo com a família brasileira nos dias atuais, e a buscar compreender a que papel ela responde na realidade sociocultural contemporânea.

Tomando como princípio que processos como tais são complexos e difíceis de apreender na sua totalidade, é possível ensaiar algumas linhas de reflexão, a começar por uma breve análise da história social da família no Brasil. Duas evidências parecem iluminar a compreensão dos casos presentes: que as funções de proteção, cuidado e preservação da prole – que costumamos tomar como características naturais da espécie humana – são produções sócio-histórico-culturais muito recentes; e que o regime jurídico que, a partir do fim do século XIX, veio dar suporte à regulação social das famílias no cumprimento da função de proteção teve por foco as famílias pobres e em situação de risco social.

Até a instituição do Estatuto da Criança e do Adolescente, toda a legislação brasileira parecia tomar como natural a competência das famílias de camadas médias e altas da população para cuidar, transmitir valores e formar cidadãos plenos. Enquanto isso, para as famílias menos favorecidas, a condição de pobreza era tida como fator impeditivo para práticas educativas promotoras de pleno desenvolvimento humano.

No Brasil Colonial, o contexto rural e o regime escravagista eximiam de pais e mães a maior parte dos encargos gerados pela maternidade. As práticas de cuidado infantil não se baseavam no vínculo afetivo mãe-pai-filhos, a amamentação e os primeiros cuidados eram providos por amas, escolhidas entre as escravas. Em outras palavras, não se encontrava por aqui, de modo claro, a noção de responsabilidade e/ou poder familiar, da forma como hoje o concebemos.

A lenta transição da sociedade brasileira para a modernidade tem como marco a vinda da família real portuguesa para viver aqui, em 1808. Este fato engendra uma série de novidades culturais e intensifica a influência de valores europeus em diferentes contextos da vida social. A emergente família burguesa brasileira passa a ver nos internatos o contexto ideal para a educação e a formação das gerações mais novas. Como a maior parte dos colégios vinculava-se a ordens religiosas, pode-se supor que, durante quase duzentos anos, os valores de classe média e a regulação moral do comportamento de várias gerações foram apoiados na moral cristã.

À medida que o sistema de ensino laico foi-se disseminando em território brasileiro, também a escola vai-se convertendo em espaço multicultural, que reflete e dá voz à multiplicidade de influências culturais presentes na sociedade. Por outro lado, ao passo que as relações de trabalho vão se tornando cada vez mais complexas, também a família passa a depender de modo crescente da escola e de instituições de cuidado, como creches e escolas de esportes.

Mesmo não mais permanecendo durante a infância e adolescência reclusas em internatos, a típica infância e adolescência de classe média da contemporaneidade tem seu tempo dividido entre rotinas e atividades que visam a ampla ocupação de seu tempo. As atividades são orientadas para o aprimoramento de competências virtualmente exigidas pelo futuro mundo do trabalho, de tal modo que pouco tempo é deixado para as interações afetivas espontâneas, as amizades, a formação de grupos de pares e o lazer. Ademais, pouquíssimas oportunidades são dadas ao convívio familiar, ao conhecimento mútuo de pais e filhos, ao desenvolvimento da identidade familiar e à negociação de uma pauta coerente de valores, que o jovem leve para a vida social.

Assim, proponho refletir sobre os efeitos subjetivos desse cenário. O processo de individuação no curso de vida converte-se em individualização. Não são desenvolvidas as competências para o lidar com a diferença, com a alteridade. A ação social da pessoa é marcada pela xenofobia, pelo intenso desprezo pelos diferentes. Nesse aspecto, é importante salientar que, desde tempos imemoriais, a juventude tem no comportamento de risco um fator de desenvolvimento. Entretanto, ensaiar comportamentos de risco costumava representar novas possibilidades para o “eu” por meio da superação de limites. O que nos causa preocupação nos dias atuais é que as situações de risco vêm ancoradas na negação, no desrespeito e na destruição do outro. Deixa de ser oportunidade de desenvolvimento e se converte em crime!
http://www.secom.unb.br/artigos/at0707-01.htm

China: reação aos problemas energéticos


10/ 07/ 2007 – INTERNACIONAL

China: reação aos problemas energéticos

Virgílio Arraes
Virgílio Arraes é professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (IREL/UnB) e doutor em História das Relações Internacionais

A China vivenciou um crescimento econômico superior aos 10% em 2006, materializado em um PIB acima de 2 trilhões e 500 bilhões de dólares. Contudo, Henry Paulson, titular da Secretaria do Tesouro dos Estados Unidos, acredita que as reformas naquele país deveriam ser ainda mais estimuladas, a fim de atrair mais investimentos externos e, por conseguinte, gerar mais competição interna.

Alguns resultados negativos da intensa expansão são já bastante perceptíveis: desigualdades sociais ascendentes e problemas ambientais significativos. Incapaz de encontrar, em curto prazo, fontes energéticas alternativas, a China deverá ampliar o seu consumo de carvão nos próximos anos, o que afetará ainda mais a qualidade do ar e da água. De acordo com o Banco Mundial, cerca de cinco milhões de pessoas morrem na região em decorrência de doenças relacionadas a altos índices de poluição.

Em função da amplitude territorial, a situação para a diversificação energética no país não é nada animadora, em decorrência da ampla necessidade de gastos. Embora disponha de tecnologia, a infra-estrutura para a distribuição eventual de diversas fontes de energia é precária – o gás natural, combustível fóssil menos poluente, não dispõe nem de uma rede estruturada de gasodutos, nem de um sistema ferroviário adequado à demanda sempre crescente.

Deste modo, além do carvão, extraído localmente, a China se baseia no petróleo, onde figura como o terceiro importador mundial desde os anos 90. Nesse sentido, o país tornou-se o segundo maior emissor de dióxido de carbono – ao posicionar-se apenas abaixo dos Estados Unidos –, e causa inquietação à sociedade internacional sobre o seu eventual modo de lidar com questões ambientais, em face do incessante desejo de manter robustos padrões de crescimento econômico.

Com o objetivo de amenizar essa situação, resta ao governo chinês realmente a necessidade de adotar medidas antipoluentes, apesar dos custos iniciais, de maneira que não se prejudiquem suas exportações, em especial para os países ocidentais, mais sensibilizados recentemente por sua opinião pública em relação a questões do meio ambiente: na indústria automobilística, por exemplo, estipularam-se padrões antipoluentes rigorosos, se comparados ao eixo euro-atlântico.

Graças a isso, o total de veículos exportados, inclusive para a América Latina e Oriente Médio, chegou a 340 mil unidades em 2006, cifra ainda modesta, porém de impacto, se cotejada respectivamente aos dois anos precedentes – 173 mil e 78 mil automóveis. Ressalte-se que o país já é o terceiro maior fabricante mundial.

O governo chinês, no entanto, não enxerga a questão ambiental apenas pelo lado comercial. Estende-a também para o geopolítico, ao ambicionar a redução gradativa da dependência de combustíveis fósseis, especialmente petróleo, cujo fornecimento principal advém do Oriente Médio, área considerada sobremodo instável.

Desta forma, a perspectiva chinesa é atrair, de maneira contínua, investimentos para intensificar o desenvolvimento de projetos em larga escala de fontes energéticas renováveis. Para tanto, houve a necessidade de modificar a legislação, efetivada com êxito em janeiro de 2006.

Por meio da alteração, providenciaram-se as condições necessárias para o financiamento de programas e, simultaneamente, de estímulos a parcerias entre empresas locais e estrangeiras, com a intenção de compartilhar tecnologia de última geração. Vários projetos vinculados à extração de energia eólica, solar e hidrelétrica encontram-se em andamento. Atividades relacionadas ao biocombustível também são consideradas importantes.

O país apressa-se, mas o cenário é desolador para os próximos anos. Não obstante os investimentos feitos e as medidas aplicadas, em 2010, espera-se que apenas meio por cento da energia elétrica proveria, por seu turno, de fontes renováveis. O carvão ainda ocuparia o primeiro lugar com 73% e as hidrelétricas e usinas nucleares, cujos padrões de segurança seguem os da França e os do Canadá, responderiam por 22,5% e 4% na devida ordem. Além do mais, estima-se que o país importará dois milhões de barris de petróleo por dia.

Diante de tal quadro, as tentativas de reduzir o ritmo de crescimento para cerca de 8% ainda em 2007 espelhariam, ao menos parcialmente, preocupações do governo chinês com vistas à obtenção, no curto prazo, de fontes energéticas viáveis, tanto em termos de renovação como de menor potencial poluidor.
http://www.secom.unb.br/artigos/at0707-03.htm

Agências reguladoras: o que deu errado?


04/ 09/ 2007 - ECONOMIA

Agências reguladoras: o que deu errado?

Paulo Cesar Coutinho e André Rossi de Oliveira
Paulo Cesar Coutinho é diretor do Centro de Estudos em Regulação (Cerme) da Universidade de Brasília, onde também é professor do Departamento de Economia. É pós-doutor em Economia pela University of Pennsylvania e pela Princeton University, e doutor pela University of Pennsylvania
André Rossi de Oliveira é vice-diretor do Centro de Estudos em Regulação (Cerme) da Universidade de Brasília, onde também é professor do Departamento de Economia. É doutor em Economia pela University of Illinois, e mestre em Economia pela UnB.

O recente caos que tomou conta da aviação civil brasileira, combinado à evidente incapacidade da agência reguladora responsável, a Anac, de prevenir ou solucionar os gravíssimos problemas do setor, gerou um debate sobre as funções, os objetivos e as regras de funcionamento das agências reguladoras, bem como sobre as formas de aperfeiçoamento de sua atuação. Grande parte dos participantes desse debate, no entanto, padece do mesmo mal que se identifica nas agências e em seus quadros dirigentes: desconhecimento do assunto. Como resultado, muitas questões importantes não foram devidamente esclarecidas.

A prática da regulação, como é conhecida hoje, iniciou-se nos Estados Unidos no final do século XIX com o objetivo de disciplinar indústrias nascentes com características de monopólio, como estradas de ferro, eletricidade e telefonia. O movimento na direção da regulação de indústrias monopolistas ou com alto grau de concentração cresceu até o ponto em que havia agências regulando setores responsáveis por 17% do PIB norte-americano. Embora elevado, esse número não é tão surpreendente quando se leva em consideração o prejuízo causado aos consumidores pela existência de monopólios.

Nossa experiência cotidiana mostra que, quando existem várias empresas no mercado, o bem ou serviço oferecido tende a ser de melhor qualidade e mais barato do que quando há apenas uma empresa. Nada mais natural, portanto, que o principal objetivo de uma agência reguladora seja fazer com que o setor regulado funcione “como se houvesse” intensa competição. Em linguagem econômica, o regulador procura garantir que os preços reflitam os custos e que a qualidade seja adequada aos padrões que a sociedade exige. Trata-se de um objetivo nada fácil de ser atingido.

Outro objetivo de grande relevância da regulação é o de fornecer aos investidores a maior segurança possível, ou seja, reduzir a incerteza sobre as condições futuras que afetarão seus investimentos. Não se trata de defender os interesses desses investidores, mas sim de garantir condições favoráveis a eles, o que é essencial para o desenvolvimento dos setores regulados – especialmente quando o investimento público não é uma alternativa viável. Esses setores, em sua maioria de infra-estrutura, usualmente pedem investimentos vultosos, caracterizados por um retorno de longo prazo.

Sendo assim, se o investidor não tiver segurança de que poderá recuperar o valor de seu investimento, ele exigirá uma taxa de lucro muito mais elevada ou poderá preferir até mesmo não realizar a aplicação. Ambas as alternativas são extremamente prejudiciais para a sociedade. Para que o órgão regulador possa executar suas funções adequadamente e atingir os objetivos discutidos acima, suas regras de funcionamento precisam ser bem desenhadas, prevendo, no mínimo: (a) um quadro funcional competente e estável; (b) independência financeira e decisória; (c) regras claras sobre os direitos e deveres de seus quadros dirigentes.

Infelizmente, no Brasil, essas condições, na maioria das vezes, não são atendidas. Por exemplo, apenas recentemente houve concurso para preenchimento dos quadros de funcionários de diversas agências. Muitas delas funcionaram por muito tempo com quadros provisórios, recrutados até mesmo das empresas reguladas. A independência financeira, por sua vez, tornou-se peça de ficção quando o orçamento das agências foi contingenciado pelo governo. Finalmente, o comportamento dos diretores e funcionários das agências é caracterizado, em alguns casos, por certa promiscuidade entre o público e o privado.

A comparação com o que ocorre nos Estados Unidos é, mais uma vez, ilustrativa. Um diretor de agência reguladora não pode encontrar-se com outro (nem mesmo falar pelo telefone) sem a presença de uma terceira pessoa que possa servir de testemunha sobre os assuntos tratados. Um encontro entre um diretor e um dirigente ou funcionário graduado da empresa regulada, então, é inimaginável naquele país. Também não se admite que qualquer funcionário ou dirigente de agência receba qualquer favor da empresa regulada. A violação dessas regras seria tipificada como crime.

A ausência dessas condições mínimas para o bom funcionamento das agências no Brasil é a principal responsável pelos problemas que testemunhamos hoje, e não a alegada inadequação ou falência do modelo de agências, como propagado pelos falsos “especialistas” no assunto. É preciso, na verdade, fornecer as condições necessárias para que as agências possam cumprir seu papel, que é fundamental para que o Estado brasileiro ingresse na modernidade.

Vinte anos depois do Césio



11/ 09/ 2007 - radioatividade

Vinte anos depois do Césio

Oyanarte Portilho
professor do Instituto de Física da Universidade de Brasília. É pós-doutor pela University of Arizona. Possui mestrado e doutorado em Física pelo Instituto de Física da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Atua na área de Física Nuclear.

Neste mês, 20 anos são contados desde quando a capital goiana foi sacudida por uma quase hecatombe. Os de boa memória recordam-se da sucessão de fatos e das conseqüências que daí advieram: sucateiros depararam-se com uma máquina que havia sido usada para radioterapia, abandonada num prédio em ruínas no centro da cidade. Continha, em seu invólucro de chumbo, uma fonte de césio-137. Não tiveram dúvidas em transportar a máquina até um ferro-velho, onde foi vendida. Após seu desmonte, o material radioativo ali contido tornou-se motivo de curiosidade para Devair – dono do ferro-velho – seus parentes e amigos, em vista da luz azulada que emitia. Dias decorreram, enquanto o material foi manuseado, esfregado no corpo, transportado em vidrinho, em saco de plástico e até ingerido.

Diante dos sintomas apresentados (náuseas, tonteiras e cefaléias, vermelhidão na pele e bolhas), vieram os primeiros diagnósticos equivocados, de dermatose ou reação alérgica a alimentos. Em seguida, a comprovação da síndrome aguda da radiação, o alarme, o confinamento no estádio, a remoção das 14 vítimas mais graves para o Rio de Janeiro, as manchetes correndo na imprensa de todo o mundo. Primeiros óbitos: a menina Leide das Neves e sua madrinha. Elas tiveram os caixões apedrejados ao adentrarem o cemitério por manifestantes que alegavam que os corpos transformariam o local em depósito de material radioativo. Note-se que Leide tornou-se uma intensa fonte radioativa ao ingerir pão com ovo, tendo as mãos sujas do pó de césio. Mais dois rapazes, funcionários de Devair, que efetivamente desmontaram a máquina, também vieram a falecer.

Uma entidade foi criada pelo governo estadual para oferecer acompanhamento médico e assistência social. Oficialmente houve, até hoje, 14 mortes decorrentes da contaminação, mas a Associação de Vítimas defende que esse número atinge 66. Não há dúvidas que essas pessoas devem receber acompanhamento permanente, pois é sabido que, enquanto a chance de aparecimento de leucemia torna-se irrelevante depois de 25 anos, a possibilidade para outros tumores tem tendência crescente entre 10 e 40 anos após a exposição excessiva.

Podemos nos perguntar de quem foi a culpa. Do ponto de vista judicial, foram condenados três médicos, proprietários do instituto onde a máquina funcionava, e o físico, tecnicamente responsável pela mesma. A pena foi cumprida em regime aberto, depois comutada para prestação de serviços à comunidade. Trata-se de uma pergunta de difícil resposta, pois há uma seqüência de ações (ou falta delas), cada qual contribuindo mais ou menos. Com certeza, cada indivíduo julga que cometeu um pequeno deslize que, encadeado a outros, levou a um desastre. Os sucateiros podem considerar que levaram um material reciclável, daqueles com os quais estavam acostumados a vender para sobreviver – guardadas as proporções – como latinhas de refrigerante, sem consciência do perigo que tinham em mãos, embora esse argumento nem sempre valha pois muitos correm risco calculado ao furtarem cabos de eletricidade. Os demais envolvidos, apesar de estarem em outro nível de esclarecimento, possivelmente terão lá suas justificativas.

O mais importante de tudo isso é tirar lições buscando-se minimizar a possibilidade de nova ocorrência. Sabe-se que havia um desleixo com relação a materiais radioativos. Fontes que se enfraqueciam eram simplesmente lançadas ao esgoto de hospitais e universidades. O pessoal da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), disponível para fiscalização, era irrisório. Espera-se que tenha havido desde então uma maior conscientização dessas pessoas e órgãos, construção de locais adequados para o armazenamento e adequação de recursos humanos.

Um outro tema atual é a conveniência do uso da energia nuclear para a geração de eletricidade. Nota-se mudança de postura por parte de alguns fundamentalistas da defesa do meio ambiente. Muitos estão considerando que vale mais correr o risco de acidente em uma usina do que continuar queimando descontroladamente combustíveis fósseis, já que as fontes alternativas nem sempre respondem à altura da demanda de cada país. As sociedades devem decidir sobre a questão. Sim, há riscos. Entre os engenhos produzidos pelo homem, nenhum é perfeito. Mas viver é perigoso – e não adianta ficarmos na cama, pois um terremoto pode atingir nossa casa. Uma boa regra seria dar um adendo à moral escotista, perguntando-se: "Que pecadilho deixei de cometer hoje?". E olho na posição das manetes.

A psicologia social da Tropa de Elite


30/ 10/ 2007 - violência

A psicologia social da Tropa de Elite

Ronaldo Pilati
Doutor em psicologia. Professor de psicologia social do Departamento de Psicologia Social e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações da Universidade de Brasília. Pesquisador do Laboratório de Psicologia Social da UnB. Coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Psicologia Social (GEPS).

Atualmente, o filme Tropa de Elite agita o mercado cinematográfico brasileiro e fomenta acaloradas discussões sobre a atuação policial e a violência. Este momento também é especial, porque nos permite despertar a atenção do grande público sobre o papel que as dinâmicas de grupo têm sobre o comportamento humano, fenômeno historicamente associado à psicologia social. Cabe ressaltar que a psicologia social em nosso país, infelizmente restrita ao meio acadêmico, é bastante desconhecida do público.

A ligação do filme com pressupostos da Psicologia Social fica evidente no início da película, quando é apresentada uma idéia que sintetiza um dos princípios estudados na área: o comportamento humano depende menos do caráter dos indivíduos e mais das circunstâncias sociais imediatas. A idéia geral é que boa parte do comportamento das pessoas está diretamente ligado à dinâmica de grupo. Um grupo com um número não muito grande de integrantes, mas que se concretiza como o seio das principais interações sociais de uma pessoa. No caso do filme, o grupo é o Batalhão de Operações Especiais (Bope).

Uma idéia trabalhada no filme é que este batalhão “dá certo”, pois não possui policiais corruptos e nem está dentro do “sistema” de corrupção da chamada polícia comum. Então, por que será que isto acontece? É pelo fato de todos os seus integrantes serem incorruptíveis? Em psicologia social, as explicações não se resumem às características dos indivíduos, mas sim à interação entre este indivíduo e seu meio social. Uma explicação está na compreensão da dinâmica de grupo. Este é um fenômeno poderoso e que pode levar a comportamentos duradouros e extremados.

Por exemplo, todo o processo de seleção e treinamento dos integrantes do Bope está alicerçado na idéia de criação de uma forte identidade dos indivíduos com o grupo, por meio de normas sociais rígidas e explícitas. O processo de subserviência em que os recrutas são submetidos e o rigoroso processo de treinamento que levam à fadiga física e mental aumentam o apego e o sentimento de pertença, por meio da criação de convicções e atitudes positivas naqueles que chegam ao final. Os símbolos criados para identificar os membros do grupo e diferenciá-los do restante da corporação, como a caveira e o uniforme negro, reforçam o processo de auto-categorização de quem faz parte, enaltecendo os aspectos positivos do Bope e reforçando os elementos negativos dos demais grupos.

Apesar de o batalhão ser parte da corporação maior, a Polícia Militar é apresentada como um “sistema” hierárquico que apóia a corrupção, enquanto, no Bope, a regra explícita é o hermetismo à corrupção e o alto grau de enaltecimento da coesão entre seus integrantes. É claro que este tipo de organização grupal tem seu lado negro, como a exaltação à violência, muitas vezes traduzida como tortura de suspeitos e cúmplices.

A psicologia social é entendida como uma área que produz teoria para compreendermos como o comportamento humano é influenciado pela presença real ou imaginada por outras pessoas. Muitas vezes a “psicologia popular” busca traduzir e explicar o comportamento como fruto de características que elas carregam consigo. O que a teoria em psicologia social mostra é que isto nem sempre é suficiente para explicar a conduta humana. Este tipo de compreensão nos permite entender que a forma como as instituições organizam seus ambientes sociais é fundamental para que tais instituições consigam alcançar seus objetivos. Isto é verdadeiro para a polícia, assim como para outras organizações sociais.

É fundamental que os psicólogos sociais brasileiros produzam e divulguem conhecimento teórico relevante e embasado empiricamente ao nosso contexto sociocultural. Este tipo de conhecimento pode auxiliar no desenvolvimento de estratégias de gestão e na elaboração de políticas públicas em diversas instâncias. Neste contexto, é interessante recordar de uma frase célebre do psicólogo social Kurt Lewin: “nada mais prático do que uma boa teoria”. Efetivamente, compreensão teórica com base na realidade social e cultural local é algo escasso, mas de grande valor. Assim lhes convido a conhecer, pensar, discutir e debater a psicologia social do brasileiro.

http://www.secom.unb.br/artigos/at1007-07.htm

A crise da América do Sul

Hugo Chaves - Presidente da Venezuela


11/ 03/ 2008 - RELAÇÕES INTERNACIONAIS

A crise da América do Sul


Amado Luiz Cervo
professor titular de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB)

A primeiro de março de 2008, um ataque do exército colombiano ao acampamento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) situado em território do Equador, perto da fronteira, fez 20 mortos, entre os quais o segundo homem da guerrilha, Raúl Reyes. Os ânimos se exaltaram e três países cortaram relações diplomáticas com Alvaro Uribe, presidente da Colômbia. O da Venezuela, Hugo Chávez, ademais, falou em guerra e posicionou tropas na fronteira com a Colômbia, ao passo que o equatoriano, Rafael Correa, embora exaltado, veio buscar o apoio de seu colega brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva.

Para o desfecho pacífico da crise contribuíram duas iniciativas: por um lado, a rápida movimentação do chanceler brasileiro, Celso Amorim, que dialogava com os envolvidos diretamente no conflito, Colômbia e Equador, e afastava com insistência a Venezuela, a voz das armas; por outro, o deslocamento também rápido do problema para o âmbito da OEA, cujo Conselho Permanente, na reunião de emergência do dia 5, baixou uma resolução conciliadora, admitindo a violação do território equatoriano, porém sem condenar a Colômbia, e nomeando uma comissão de investigação, cujo relatório será apresentado em 17 de março.

A crise foi contornada de vez, no dia 7, durante a Cúpula do Grupo do Rio programada anteriormente para Santo Domingo. Nela os presidentes de Colômbia, Equador e Venezuela, após exporem cada qual suas acusações, selaram a paz com resoluto aperto de mão e abraço, diante de Daniel Ortega que declarou incontinenti estar a Nicarágua reatando também suas relações diplomáticas com a Colômbia.

Essa descrição dos fatos requer explicações tanto para a gênese da crise de segurança na América do Sul como para seu desfecho diplomático. Nesse sentido, trazemos à consideração quatro linhas de reflexão.

Em primeiro lugar, cabe ressaltar que a Colômbia isolou-se na América do Sul. Para enfrentar sua grave situação de insegurança interna, que remonta a 1964, data de criação das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, o país de Alvaro Uribe não procurou apoio, solidariedade e força junto aos vizinhos. Ao contrário, buscou um aliado externo, os Estados Unidos, que lhe fornecem armas, equipamentos, especialistas e treinamento por meio do Plano Colômbia, um plano que envolve investimentos de grande porte. Tanto Fernando Henrique Cardoso quanto Lula viram essa aliança como algo espúrio, convictos de que a América do Sul reúne condições para resolver seus problemas de segurança sem intervenção externa.

Por outro lado, a aliança com os Estados Unidos suscita a animosidade dos governos de esquerda que circundam o território colombiano, desde a virada do milênio quando substituíram por eleições os governos neoliberais. Há, por certo, aversão política e ideológica opondo o conservador Alvaro Uribe a seus vizinhos Rafael Correa e Hugo Chávez. Embora tenha se mantido silencioso e observador durante a crise, Evo Morales, da Bolívia, também integra o grupo dos vizinhos desconfiados com essa aliança. Como não dizer o mesmo de Lula, apesar de seu papel de moderador?

Desde os anos 1990, os países da América do Sul, especialmente o bloco do Mercosul, voltam-se para construção da chamada Zona de Paz. A segurança regional tem-se deslocado de ações militares próprias das forças armadas tradicionais e se diluído em novas bases: a segurança humana, o narcotráfico, as fronteiras vivas e, sobretudo, a exclusão social como fonte de violência. A diplomacia emerge nesse contexto para assegurar a paz, substituindo a ação direta das forças armadas, enquanto o processo de integração chama a si a responsabilidade pelo desenvolvimento.

Com efeito, a integração da América do Sul embute um projeto de desenvolvimento, de concepção brasileira, que aspira construir a unidade regional em três dimensões: econômica, política e de segurança. Os dirigentes e as sociedades sul-americanos não são insensíveis diante da possibilidade de a América do Sul erguer-se como pólo de poder. Essa filosofia de fundo, à qual se achegam os atores regionais, explica o desfecho da crise. Por certo, pensar a América do Sul dessa forma significa sobrepor os interesses dos países da região aos interesses dos Estados Unidos. E faz do presidente francês, Nicolas Sarkozy, de olho apenas na libertação da prisioneira das Farc, Ingrid Betancourt, um observador alienado.
http://www.secom.unb.br/artigos/artigo.php?id=3

CUBA SEM FIDEL


19/ 02/ 2008 - CUBA SEM FIDEL

O início do fim

José Flávio Sombra
PhD pela Universidade de Birmingham, Inglaterra, é professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB).

O gesto de renúncia do líder cubano Fidel Castro, depois de quase meio século no poder, não é isolado e solitário. É gesto calculado e compõe moldura mais ampla das transformações mais abrangentes que ocorrem naquele país caribenho. Corresponde ao movimento desencadeado há quase dois anos, quando de sua licença por motivos médicos. Inicia-se uma transição: do fim do regime político que emergiu no contexto da Guerra Fria para uma nova tessitura política de adaptação ao mundo no qual vivemos.

A renúncia tem significado relevante e não pode ser classificada apenas como ato cosmético ou pantomímico. Em primeiro lugar, tem impacto na vida dos cubanos que habitam a ilha. Fidel é líder carismático, apesar dos reparos que muitos cubanos podem fazer ao papel de liderança vertical imposta pela Revolução Cubana. Sua saída formal da gestão do Estado foi, aos milímetros, calculada para não matar o totem, mantendo-o como força espiritual de uma transição espinhosa que se avizinha.

A transição de regime fica refém do líder carismático e do grupo político que a maneja, na lógica da mudança de dentro para fora, igualmente pacífica e adaptativa aos novos tempos. Há uma liderança jovem, de funcionários do Estado e das empresas públicas cubanas, que percorreram o mundo nos últimos anos e acompanham as transformações globais. Sabem que não há sobrevivência econômica do regime atual sem aggiornamento político. É em favor dessas lideranças, fiéis a Fidel e criadas nas últimas décadas do regime, que a transição se fará. E na migração de poder político carismático para o estamento burocrático, a figura de Fidel segue tendo um peso expressivo na balança.

Em segundo lugar, há sinalização valiosa da renúncia para o vizinho complicado, os Estados Unidos. Indica Fidel às lideranças de Washington que a transição deverá ser conduzida com capacidade decisória nacional, sem intervenções ou defecções políticas que contaminem as relações Cuba-Estados Unidos além do nível que elas já alcançaram em outros tempos.

A maneira em torno da qual o cronograma de transferência gradual do poder se faz em Cuba sugere a máxima geiseliana da transição gradual. É também forma de administrar, em parte, os contenciosos com os Estados Unidos. É deixar claro ao gigante que o pequeno não quer desafio à sua soberania e à sua capacidade de conduzir, a bom termo, não apenas a transição de agora, mas seu próprio futuro como nação adaptada ao século 21. Reconcilia-se, assim, o ideário romântico e nacionalista cubano, um vetor histórico da ilha, mesmo antes da Revolução Cubana, com os desafios do futuro da cooperação necessária com os Estados Unidos.

Para completar o quadro, o gesto realiza-se no momento da elucidação dos pontos de vista dos candidatos às prévias republicanas e democratas na luta pela Casa Branca. Sugere Fidel ao futuro vencedor da contenda nos Estados Unidos, e para seu eleitorado, que há uma possibilidade de avançar agenda mais cooperativa, desde que o embargo seja reconsiderado.

Em terceiro lugar, e finalmente, há uma forte sinalização para a sociedade internacional no gesto do longevo líder cubano. No início do novo século, no qual uma revolução subterrânea encerrou, em parte, os sonhos solidários do século 20 (do qual o socialismo fez parte, no leque de proposições filosóficas, políticas e econômicas), Fidel rende-se à necessidade de maior adaptação às regras do jogo internacional e à economia política da globalização.

Normalizar relações com a comunidade internacional, sair do isolamento auto-imposto pelas circunstâncias duras da Guerra Fria, avançar uma agenda no campo da liberalização política, encaminhar melhor o espinhoso tema dos direitos humanos, aceitar melhor as polarizações políticas legítimas internas, são aspectos da nova agenda internacional de Cuba. A nova diplomacia cubana, mais jovem e encarnada em rósea idéia de revisão dos velhos paradigmas, confere esperança à transição que se inicia nos dias de hoje na ilha caribenha.

Acompanhar a transição cubana nos próximos tempos é exercício de futurologia incerto. Mas certas verdades já se fazem notar: os ganhos sociais e cidadãos acumulados não serão jogados na lixeira da história, mas redesenhados na forma da inclusão da ilha no sistema democrático moderno, na sociedade global, mas a manter o patrimônio do “ser cubano”. Este “ser”, ao explicitar forma de agir e desafiar o grande, tem todas as condições de ser recriado na ilha não mais apenas de Fidel.
http://www.secom.unb.br/artigos/at0208-02.htm

Japão-Brasil: fluxo e refluxo imigratório


INTERNACIONAL
02-01-2008
Japão-Brasil: fluxo e refluxo imigratório

Lytton Guimarães
professor e coordenador do Núcleo de Estudos Asiáticos (Neasia) do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (Ceam) da Universidade de Brasília (UnB). É Ph.D, doutor e mestre pela Michigan State University.

Em 2008 comemora-se o centenário da imigração japonesa no Brasil. Por decisão dos dois governos, este será também o Ano do Intercâmbio Brasil-Japão, em que serão realizados vários eventos nos dois países. Mas não só a chegada de japoneses no Brasil deve ser lembrada neste ano. Atraídos por oportunidades de trabalho, milhares de nipo-brasileiros foram para o Japão a partir da década de 1980. Portanto, é oportuno examinar brevemente o fluxo e o refluxo imigratório entre os dois países e as suas contribuições.

Conflitos de interesse sobre a Coréia e a Manchúria provocaram a guerra sino-japonesa de 1894-95 e a guerra russo-japonesa em 1904-05. O Japão venceu as duas guerras e aumentou sua influência regional e internacional. Porém, o resultado foi conseguido com enormes sacrifícios, que conduziram o país a uma grave crise econômica. A alta taxa de crescimento demográfico piorava ainda mais as condições de vida. Diante desse quadro, o governo passou a estimular a emigração. O Brasil, com escassez de mão-de-obra, surgia como uma opção.

O primeiro grupo, de 165 famílias japonesas, desembarcou do navio Kasato Maru no porto de Santos no dia 8 de junho de 1908. Muitos desses eram camponeses e pequenos comerciantes, oriundos de regiões pobres do Japão, que vinham trabalhar nas fazendas de café. A partir de então, o Brasil tornou-se o principal destino desses imigrantes na América Latina.

Até o início da 2ª Guerra Mundial, mais de 190 mil japoneses vieram para o Brasil e fixaram-se principalmente nos estados de São Paulo e Paraná e na Amazônia. No começo, os imigrantes enfrentaram preconceito e muitas dificuldades: a língua, os costumes, o clima e a alimentação eram muito diferentes. Os primeiros imigrantes eram dekassegis - trabalhadores que planejavam ganhar dinheiro e, após alguns anos, retornar ao Japão. Entretanto, aqueles que tentavam regressar eram impedidos por seus empregadores. Nessas circunstâncias, muitos deles permaneceram, alcançaram sucesso e contribuíram para o desenvolvimento econômico e o enriquecimento cultural do País.

O movimento emigratório para o Brasil, interrompido durante a 2ª Guerra Mundial, teve novo fluxo entre 1952 e 1993. Durante esse período, vieram para cá mais de 52 mil japoneses. Portanto, fixaram-se no Brasil cerca de 250 mil japoneses nos dois períodos. A colônia nikkey multiplicou-se, e hoje possui mais de 1,5 milhões de nipo-brasileiros. É a maior comunidade de origem japonesa no exterior.

Muitos membros das cinco gerações de nipo-brasileiros tornaram-se famosos por suas relevantes contribuições em diversas áreas: na pintura, na arquitetura, no cinema e nos esportes. O empresariado de origem japonesa desempenha importante papel na economia e na sociedade. Profissionais de origem nipônica destacam-se nas mais variadas atividades: na área acadêmica, na pesquisa científica, na medicina, nas profissões liberais, na política, na diplomacia, na carreira militar e na área jurídica.

Graças à recuperação econômica do Japão e aos altos índices de crescimento da economia brasileira, os anos 1960 e 1970 foram de cooperação entre empresas brasileiras e japonesas. Grandes projetos foram desenvolvidos por joint-ventures. A presença no Brasil de uma grande comunidade nikkey contribuiu positivamente para o dinamismo e êxito desses projetos. Com sua rápida recuperação, a partir de meados de 1980, a economia japonesa apresentava escassez de mão-de-obra. Por outro lado, os anos de 1980 representaram uma década perdida para o Brasil, marcada por baixos índices de crescimento, altas taxas de inflação, moratória e escassez de investimentos.

Essa conjunção de fatores, coadjuvada por modificações das leis de imigração japonesas, incentivaram um fluxo migratório de nipo-brasileiros e suas famílias para o país oriental. Hoje vivem naquele país cerca de 300 mil dekassegis de origem brasileira, a maioria dos quais trabalha em funções que não são atraentes para os japoneses, recebem salários relativamente mais baixos e enfrentam preconceitos e condições muitas vezes precárias - experiência similar a de seus antepassados em terras brasileiras. Mesmo assim, conseguem remeter regularmente parte de seus rendimentos para o Brasil e desse modo contribuem para o desenvolvimento do País. Contribuem também para a difusão da cultura brasileira no Japão e para maior aproximação entre os dois povos.
http://www.secom.unb.br/artigos/at0108-01.htm

A abertura econômica cubana




A abertura econômica cubana

carlos pio
professor de Economia Política Internacional, no Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB). É mestre e doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj).


Cuba é um país pequeno se analisarmos, por exemplo, suas dimensões geográfica, populacional e econômica. Tem área de 111 mil km² (um pouco maior do que Pernambuco), população de 12 milhões de pessoas (inferior à da Bahia) e PIB de US$ 46 bilhões (4,3% do PIB brasileiro, metade do PIB do Paraná). No entanto, na política internacional, Cuba é gigantesca. Desde que o regime inaugurado por Fidel Castro e Che Guevara alinhou-se à União Soviética no auge da Guerra Fria, seu modelo tem sido capaz de mobilizar forte debate entre socialistas, liberais e social-democratas. Os principais aspectos do debate são: a impossibilidade prática de o Estado garantir a todos os cidadãos graus plenos de liberdade político-econômica e de igualdade de renda; e o mix desejável entre esses dois elementos na definição das regras e das políticas governamentais.

Desde que caiu o Muro de Berlim (1989) e foi extinta a União Soviética (1991), o modelo socialista cubano perdeu as bases de sua legitimidade política e viabilidade econômica. Com o socialismo mundial, também morreu parte importante do apelo exercido pelos ideais de Fidel e Che sobre intelectuais e políticos latino-americanos e brasileiros. Hoje, reconhece-se facilmente que o regime cubano é anacrônico e perverso. Por isso, desde o início da Revolução saíram de Cuba mais de 900 mil pessoas, e não há registro de grandes fluxos de pobres, militantes, políticos ou intelectuais comunistas demandando vistos de entrada para desfrutar das maravilhas proclamadas pela retórica oficial.

Qual o destino de Cuba, agora que parece claro que Fidel não mais retornará ao poder? Uma provável abertura econômica apresenta oportunidades reais para empresas brasileiras que investirem em Cuba? Que papel deve desempenhar o nosso governo ao longo da dupla transição que se espera para os próximos meses e anos (do socialismo para o capitalismo e da ditadura para a democracia)?

O destino de Cuba será construído pela interação entre: os movimentos sociais internos espontâneos – formados em torno de demandas por mudanças políticas, econômicas, sociais e culturais mais profundas e mais rápidas –; as principais lideranças do novo governo comandado por Raúl Castro e um grupo de jovens conselheiros pragmáticos e reformistas escolhidos por Fidel e já instalados em posições-chaves no Estado; as organizações anticastristas estabelecidas nos Estados Unidos – que se têm tornado mais moderadas em razão da emergência de novas lideranças nascida nos Estados Unidos –; e o governo (e o Congresso) dos Estados Unidos.

Desse intrincado jogo de interesses e forças, emergirá uma nova Cuba. Se mais parecida com a República Tcheca e o Chile – casos exitosos de transição –, ou com a Moldóvia e a Nicarágua – fracassados –, só o tempo dirá. Esse é um processo definido pelo jogo político, mas que não será controlado por nenhum ator ou grupo em particular. Cabe-nos, diante desse quadro, indagar sobre os riscos e as oportunidades para as empresas brasileiras, e sobre o papel mais aconselhável a ser desempenhado por nosso governo.

Em relação às empresas privadas, recomenda-se avaliação realista e suficientemente dinâmica do potencial econômico da nova Cuba. Quais são os setores mais atraentes da pequena economia cubana? Como seus principais concorrentes globais/regionais estão se posicionando em relação à abertura econômica do país? Quais são os riscos econômicos e políticos potenciais de investir em Cuba? Para responder a essas questões, será preciso observar atentamente o desenrolar dos acontecimentos políticos que vão fundar o novo país. De todo modo, é bom ter em mente que a economia cubana é demasiado pequena para representar grande oportunidade de negócios para a maior parte das empresas brasileiras, multinacionais ou meramente exportadoras.

Já o governo brasileiro precisa olhar com mais realismo para o que está acontecendo em Cuba. A saúde de Fidel não está “impecável”, como disse o presidente Lula em sua recente visita ao país. Cuba não é uma democracia, como ele nos afirmou não muitos meses atrás. Não há alternativa sustentável para o futuro de Cuba fora do modelo capitalista-democrático ocidental, por mais que isso venha a afrontar a visão idealizada dos petistas e esquerdistas incrustados em todos os escalões do governo brasileiro. E, por mais que isso pareça perverso do ponto de vista humanitário, é preciso avaliar as oportunidades de investimento a serem feitos com recursos públicos brasileiros – por exemplo, pela Petrobras e pelo BNDES –, levando em conta os riscos e as incertezas do processo de transição política e econômica que ocorrerá nos próximos anos.

http://www.secom.unb.br/artigos/at0108-06.htm

A terra treme em Minas Gerais


13/ 12/ 2007 - GEOLOGIA

A terra treme em Minas Gerais

Alberto Veloso

Foi lamentável, mas não surpreendente o resultado do terremoto de magnitude 4.9, em Minas Gerais, no último dia 9 – uma morte, pessoas feridas e casas destruídas. Era uma questão de tempo. Cedo ou tarde um terremoto poderia produzir vítimas por desabamento de construções. Isso ocorreu no distrito de Caraíbas, uma pequena comunidade do município de Itacarambi, no norte de estado. Por outras causas, terremotos já tinham causado mortes: uma pessoa por ataque cardíaco em São Paulo, outra em fuga no Ceará e um recém-nascido no Rio Grande do Norte, que ficou ao relento pelas constantes saídas dos pais da casa que ameaçava cair.

Alguns sismos brasileiros tiveram potencial para serem destrutivos, mas, até agora, a natureza tem sido benevolente. Os quatro maiores registrados - magnitudes entre 5.5 a 6.6 - tiveram seus epicentros no mar ou em zonas pouco habitadas. O de Caraíbas, apesar da magnitude moderada, possuía os ingredientes para produzir uma tragédia: foco raso e epicentro junto a um vilarejo com construções simples, sem condições de resistir a maiores acelerações do solo. Antes do evento principal, abalos menores enfraqueceram as construções. O tremor maior derrubou algumas casas e comprometeu as demais.

É oportuno relembrar fatos da sismicidade de Minas. O primeiro tremor noticiado foi em 1824. “Estendeu-se do Caxambú ao Picú, e na Campanha foi sentido. Apesar de não haver oscilado com abalos de dar a morte aos homens e animais, e romper-se a terra, contudo os edifícios sofreram, e os homens sentiram um choque balofo, surdo, trêmulo e abalante, que rapidamente deu-se”, escreveu o Dr. José Franklin da Silva Massena, em 1867.

O catálogo de sismos brasileiros assinala tremores em Campanha, Morro Grande, Pouso Alto, Itajubá, Passa Quatro, até chegarmos ao acontecimento do município do Serro, em 1872. Consta que, após um terremoto, o Rio do Peixe começou a crescer, causando inundações e deslizamentos de terra com destruição e mortes na localidade de Condado.

O próximo fato não se refere a um único terremoto, mas a três surtos de atividades em 1901, 1920 e 1934 que atingiram Bom Sucesso. A série de tremores ocasionou danos em construções, mas, sobretudo, desorganizou a vida da pacata cidade. Fecharam-se lojas e escolas, a insegurança cresceu e ninguém conseguia explicar o fenômeno. Depois do maior sismo, ocorrido em 31 de janeiro de 1920, com magnitude estimada de 4.0, parte da população abandonou a cidade em trens especiais cedidos pelo governo.

Em 1973, na divisa entre Minas e São Paulo, aconteceu o maior abalo induzido por reservatórios hidrelétricos do país – a ação da água em profundidade alterou o balanço das forças geológicas presentes na área, produzindo tremores localizados. Nesse caso, o sismo alcançou magnitude 4.2 e ocorreu na área dos reservatórios vizinhos de Porto Colômbia e Volta Grande, mas afetou principalmente a área rural do município mineiro de Conceição das Alagoas. Recentemente, abalos de terra com magnitude de 3.3 foram sentidos na região metropolitana de Belo Horizonte, inclusive nos bairros de Barreiro e Savassi, na capital.

Tremores de terra são relativamente comuns no norte de Minas. E é impossível predizer o desenrolar da sismicidade que ora atinge Caraíbas. Sismos menores continuarão acontecendo por algum tempo, mas a possibilidade de repetição de outro evento com magnitude similar, ou até maior do que o de domingo, não pode ser descartada, assim como a eventual migração dos epicentros para áreas vizinhas. Devido às incertezas do futuro e por se estar lidando com uma pequena comunidade, as autoridades mineiras – segundo notícias divulgadas – decidiram condenar todas as 76 casas existentes no povoado e transferir seus moradores para outra localidade. A solução seria muito mais complexa se tudo tivesse acontecido em uma cidade de porte maior.

A continuidade do monitoramento da área de Caraíbas permitirá aos pesquisadores da Universidade de Brasília apresentar justificativas científicas sobre a causa dos tremores. Isso mostra como estamos distantes das explicações míticas dos antigos moradores de Bom Sucesso, que acreditavam que os abalos sentidos eram produzidos pelo ronco de imensos jaús deslizando pelas águas do não-distante Rio das Mortes.
http://www.secom.unb.br/artigos/at1207-04.htm
Placas principais
Placa Africana
Placa da Antártida
Placa Australiana
Placa Euroasiática
Placa do Pacífico (rodeada pelo Círculo de Fogo do Pacífico)
Placa Norte-americana
Placa Sul-americana

Placas menores
Placa Adriática
Placa da Anatólia
Placa Arábica
Placa Caribeana
Placa da Carolina
Placa de Cocos
Placa Leste-Americana
Placa de Gorda
Placa Helénica
Placa Indiana
Placa Indo-Australiana
Placa Iraniana
Placa Juan de Fuca
Placa de Nazca
Placa das Filipinas
Placa da Somália
Placa de Scotia
Placa de Sunda
Placa de Tonga

Fonte: pt.wikipedia.org

O desmatamento da Floresta Amazônica


04/ 11/ 2008 - MEIO AMBIENTE

O desmatamento da Floresta Amazônica



Humberto Angelo


O desmatamento na Amazônia brasileira tem ocupado a agenda ambiental do país. No entanto, a problemática não se restringe apenas à Amazônia – todos os demais ecossistemas brasileiros sofrem com este problema, em maior ou menor magnitude.

Há evidências de que a degradação florestal na Amazônia tem se ampliado nos últimos anos. Em setembro, foram registrados 587 quilômetros quadrados de novas áreas desmatadas, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Os dados mostram que uma área comparada a 60 mil campos de futebol está sendo desmatada, mensalmente, na Amazônia. Tais valores não somente preocupam, mas também representam uma perda econômica e ambiental imensa para a sociedade brasileira.

O processo de ocupação da Amazônia desencadeou uma série de fatores indutores do desmatamento, dos quais se pode citar a expansão da pecuária e da fronteira agrícola, a indústria madeireira, os projetos de colonização, a abertura de novas estradas e outras infra-estruturas, o sistema de concessão de direito de posse, o aumento populacional, a especulação por terras e o crescimento econômico regional, entre outros. Recentes pesquisas desenvolvidas no Departamento de Engenharia Florestal da Universidade de Brasília mostraram que o desmatamento tem sido influenciado pelo aumento da população na região Norte, a extensão da malha viária, a expansão do rebanho bovino regional, o preço dos produtos agrícolas e a produção madeireira.

Se há desmatamento é porque os atores responsáveis pelo desmatamento legal e ilegal atribuem à floresta um baixo valor econômico, social e ambiental. Isso, associado aos fatores mencionados, leva a uma equação que busca solução em curto prazo. Os madeireiros são apontados por muitos como os principais indutores do desmatamento, mas a eles só interessam as espécies de maior valor comercial da floresta. Na verdade, deve recair sobre outras atividades o ônus maior, pois elas mudam o uso do solo, trocando a área com floresta por agricultura, pastagem, infra-estrutura, hidroelétricas etc.

A pergunta que não encontra resposta é: por que o desmatamento não cessa?

As razões são inúmeras, mas a principal é o baixo valor que a sociedade, como um todo, atribui à floresta. Esse baixo valor associado a uma série de políticas equivocadas leva ao crescente desmatamento.

Mas o desmatamento tem solução? Sim. A primeira medida seria inverter essa lógica perversa e atribuir maior valor à floresta. Para isso, incentivos fiscais e creditícios poderiam ser repassados aos proprietários que praticam a conservação e a preservação da área. As ações que promovam o uso sustentável da floresta, como o manejo florestal, ecoturismo e outras, devem ser estimuladas financeiramente com capital a custo e prazos compatíveis.

Para os atores que dinamizam as regiões de fronteira e são os agentes do desmatamento – e para os quais a floresta tem um baixo valor –, encarecer a produção e reduzir a competitividade das atividades que concorrem em área com a floresta, como a agricultura e a pecuária, parece ser o caminho mais curto e de resultado mais rápido para salvar a floresta.

A certificação também poderia ser uma forma de valorizar os produtos da Amazônia, pois atesta aos consumidores que os mesmos estão sendo produzidos de forma sustentável e em áreas que não foram desmatadas. Além disso, políticas tributárias deveriam ser implementadas para desestimular o avanço crescente das fronteiras agrícolas sobre a floresta – estas alcançam uma eficácia superior às práticas de fiscalização e controle atualmente adotadas pelos governos estaduais e Federal.

Outro ponto: a atual legislação que atribui aos proprietários de áreas na região da Amazônia legal a responsabilidade de manter 80% como reserva legal deve ser revista. Como a floresta é um bem público e de interesse de todos, a responsabilidade de preservá-la não pode recair apenas sobre o proprietário. Para assegurar a preservação, o governo deveria retomar as áreas devolutas e, com isso, ampliar as unidades de conservação de uso direto e indireto na região, atingindo assim cifras de áreas protegidas superiores às atuais.

Por fim, mas não menos relevante, o desmatamento no Brasil tem sido tratado de forma empírica e sem fundamentação cientifica. A teoria do "achismo" predomina. Já passou do momento do governo, por meio de suas agências de fomento à pesquisa (CNPq, Capes, Finep etc.), lançar editais conclamando a comunidade científica a participar e a encontrar soluções para este problema de enorme prejuízo ambiental, econômico e social à Nação.
http://www.secom.unb.br/artigos/artigo.php?id=72

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