quarta-feira, 18 de setembro de 2019

De chuva de diamantes a megafuracões, os extremos do clima em outros planetas



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Podemos reclamar do clima, mas no espaço as condições podem ser extremas

Muitas vezes reclamamos do clima, principalmente quando eventos extremos se tornam cada vez mais comuns aqui na Terra.

E se passássemos nossas férias lutando com ventos que chegam a 8.000 km/h ou temperaturas quentes o suficiente para derreter o chumbo?

O clima, bom ou ruim, é um elemento permanente em nosso planeta - mas lá fora, nas profundezas do espaço, pode ser ainda mais intenso. Aqui estão alguns exemplos:
Vênus infernal

Vamos começar perto de casa, com nosso vizinho Vênus, o lugar mais inóspito do sistema solar.

Basicamente, Vênus é um buraco apocalíptico. Lar de uma atmosfera densa, composta principalmente de dióxido de carbono, a pressão atmosférica em Vênus é 90 vezes maior que a da Terra.

Essa atmosfera retém grande parte da radiação solar, o que significa que as temperaturas em Vênus podem chegar a 460° C - você seria esmagado e fervido em segundos se colocasse os pés ali.

Mas se isso não parecer doloroso o suficiente, a chuva em Vênus é composta de ácido sulfúrico extremamente corrosivo, que queimaria gravemente a pele ou o traje espacial de qualquer viajante interestelar, caso chegasse à superfície.


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Temperaturas extremamente quentes ou congelantes em outros planetas podem tornar a vida insuportável

Devido às temperaturas extremas do planeta, essa chuva evapora antes de tocar o solo.

Ainda mais bizarro: há "neve" em Vênus. Não é do tipo com a qual você poderia fazer guerra de bolas de neve: esse material é composto dos restos de basalto e geada de metais vaporizados por sua atmosfera.
Netuno turbulento

Por outro lado, temos os planetas gigantes de gás, Urano e Netuno.

Este último, nosso planeta mais distante, abriga nuvens congeladas de metano e os ventos mais violentos do sistema solar.

Por causa da topografia do planeta, que é bastante plana, não há nada para diminuir a velocidade desses ventos supersônicos de metano, que podem atingir velocidades de até 2.400 km/ h.


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Netuno congela nuvens de metano e os ventos mais violentos do sistema solar

Além de poder ouvir a barreira do som quebrando, uma visita aqui também incluiria chuva de diamantes, graças ao carbono na atmosfera sendo comprimido.

Mas você não precisaria se preocupar em ser atingido por uma pedra caindo, pois já teria sido congelado instantaneamente - a temperatura média é de -200° C.
Planetas fora do sistema solar

Os exoplanetas estão localizados fora do nosso sistema solar e orbitam em torno de um sol.

Tom Louden, pesquisador de pós-doutorado na Universidade de Warwick, no Reino Unido, é uma espécie de meteorologista intergaláctico. Seu trabalho é descobrir quais são as condições atmosféricas em outros planetas.

Sua especialidade são exoplanetas, particularmente um batizado de HD 189733b.

Arte do planeta extra-solar HD 189733b do tamanho de Júpiter sendo eclipsado por sua estrela-mãe
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O HD189733b, eclipsado por sua estrela, é candidato a ter o clima mais extremo conhecido em qualquer planeta

Este mundo azul profundo a 63 anos-luz de distância é um bom candidato para hospedar o clima mais extremo conhecido em outro planeta.

Pode parecer bonito, mas suas condições climáticas são cataclismaticamente terríveis.

Com ventos de 8.000 km/ h (os mais fortes registrados na Terra têm pouco mais de 400 km/ h), também é 20 vezes mais próximo do sol do que nós, com temperatura atmosférica de 1.600 ° C - a mesma de lava derretida.

"As rochas do nosso planeta seriam vaporizadas em líquido ou gás aqui", diz Louden. E também chove vidro derretido. Lateralmente.
Há algum lugar habitável por aí?

Louden diz que existem planetas semelhantes em tamanho e massa à Terra que orbita estrelas anãs M menores, ou "anã vermelha".

Essas são as estrelas mais comuns da Via Láctea, mas se escondem nas sombras, muito escuras para serem vistas a olho nu da Terra.

Paisagem de planeta semelhante à Terra 
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Existem planetas semelhantes em tamanho e massa à Terra que orbitam estrelas menores de "anã vermelha"

Se esses planetas são habitáveis ​​ou não é outra questão.

Muitos desses exoplanetas estão de fato na "zona Cachinhos Dourados", que não é nem muito próxima nem muito longe do Sol. Infelizmente, é provável que muitos também estejam "ordenadamente travados" em sua estrela.

Isso significa que eles sempre têm o mesmo lado voltado para o objeto em que estão orbitando - assim como o mesmo lado da Lua sempre é virado para a Terra.

Por esse motivo, você terá um lado com luz do dia permanente e o outro, noite perpétua.

"Quando você cria modelos de computador, há ventos fortes se movendo do dia para o lado escuro", diz Louden.

"Isso é uma consequência do efeito de travamento das marés. Um lado do planeta fica muito mais quente que o outro, então ventos fortes são uma conseqüência quando o planeta tenta redistribuir o calor", diz ele.

"Qualquer água líquida do lado do dia evapora em nuvens, que são sopradas para o lado noturno, onde congelam e nevam. Você tem um lado que é deserto e outro que é ártico."

Arte representa um furacão se movendo sobre um deserto de areia
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Modelos de computador mostram fortes ventos com força semelhante à de um furacão, movendo-se de um lado para o outro em exoplanetas

Mas Louden diz que essas são apenas previsões de modelos e outros especialistas estão mais otimistas sobre a vida em exoplanetas que sofrem influência da maré.

Ingo Waldmann, professor de planetas extrasolares da UCL, disse à BBC News que, se existir uma atmosfera espessa o suficiente, a circulação do dia para a noite deve ser suficiente para impedir que a noite fique totalmente congelada.

Outros modelos sugerem que a água que evapora no ponto mais quente do dia se condensará em nuvens e formará uma cobertura permanente de nuvens no lado do dia.

Essas nuvens poderiam refletir o suficiente da radiação da estrela de volta ao espaço para diminuir a temperatura do planeta e tornar habitáveis ​​partes do dia.

Então, até encontrarmos condições habitáveis ​​fora do planeta Terra, realmente não haverá lugar como nosso lar.

Este texto foi adaptado de um artigo da BBC Earth por Jason Riley
BBC Brasil

terça-feira, 17 de setembro de 2019

O impacto social, nutricional e ambiental do desperdício de alimentos




A demanda mundial por alimentos está aumentando e mudando rapidamente devido ao crescimento populacional, mudanças na dieta e desenvolvimento econômico.


Melhorar a sustentabilidade do sistema agroalimentar é uma prioridade global, embora muitos dos esforços até agora tenham se concentrado no lado da produção (como o aumento de hectares cultivados).

No entanto, a promoção do consumo responsável (dietas sustentáveis ​​e saudáveis ​​e redução do desperdício de alimentos) é uma estratégia fundamental para alcançar benefícios ambientais e segurança alimentar sustentável.

Um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (ODS), ODS 12 , concentra-se na produção e consumo responsáveis. Um de seus objetivos é reduzir pela metade a perda e o desperdício de alimentos .
Desperdício de alimentos, fonte de desigualdade

O desperdício de alimentos gera um grande impacto na segurança e distribuição de alimentos em todo o mundo. Segundo a FAO , existem mais de 815 milhões de pessoas com desnutrição no mundo. A perda de cerca de um terço da comida produzida gera grande desigualdade e distorção significativa em todo o sistema alimentar.

O número de estudos destinados a quantificar o desperdício de alimentos ao longo da cadeia cresceu significativamente nos últimos anos. Anteriormente, não apenas os trabalhos científicos ou técnicos eram escassos, mas também a conscientização do público.

Gradualmente, devido em grande parte à associação de resíduos com desnutrição e ao grande impacto ambiental que isso implica, as estimativas e análises sobre o assunto aumentaram.

A perda e o desperdício de alimentos representam um mau uso do trabalho, água, energia, terra e outros recursos naturais que foram usados ​​para produzi-los.

Estudos recentes que vinculam resíduos e meio ambiente tentam responder a perguntas como: quais são os efeitos de jogar alimentos nas emissões de poluentes ou nos recursos naturais? Seria possível obter melhorias ambientais significativas reduzindo o desperdício de alimentos?

Diferentes investigações mostraram que a redução do desperdício de alimentos resulta em uma diminuição considerável nas emissões de gases de efeito estufa (GEE). Isso ocorre porque a produção de todos os alimentos perdidos ou desperdiçados em toda a cadeia gera uma série de GEE que poderiam ser evitados se não fossem obtidos.

Em outras palavras, alimentos não consumidos tornam-se alimentos "destinados" única e exclusivamente à contaminação. Se não fossem desperdiçados, não seria necessário produzir novos (com as emissões que isso gera).

Por exemplo, o desperdício de 88 milhões de toneladas de alimentos por ano na UE é responsável pela emissão de 170 milhões de toneladas de CO₂. Este valor representa 8% do total das emissões globais e aproxima-se do volume desse gás correspondente ao transporte rodoviário.

Uma investigação mundial concluiu que cerca de 25% do total de kcal produzido é desperdiçado. Essa taxa de perda de alimentos pressupõe que cerca de 23% dos recursos naturais (água doce, terras agrícolas e fertilizantes) são igualmente desperdiçados.

O estudo também mostrou que o uso total de terras “desperdiçadas” é quase igual à extensão de terras agrícolas na África.
Perda de água e nutrientes

O desperdício de alimentos também implica perda de água (a usada para produzi-los) ou nutrientes. Do centro CEIGRAM da Universidade Politécnica de Madri e do Observatório da Água da Fundação Botín, realizamos um estudo para avaliar os impactos nutricionais e hídricos relacionados aos resíduos nos lares espanhóis.

Os resultados do trabalho mostraram que "apenas" 4% do que foi comprado é desperdiçado (cerca de 26 kg por pessoa por ano). Mas esse número implica um desperdício de 116 litros de água por pessoa, por dia. Destes, 19 litros são de “água azul” (destinavam-se diretamente à irrigação). Esse volume representa quase um sexto de toda a água que uma pessoa usa diariamente para o restante das atividades domésticas (chuveiro, bebida, limpeza etc.).

Além disso, o desperdício de alimentos está associado à perda de nutrientes. Nossos resultados revelaram que, devido ao desperdício anual de alimentos nas casas espanholas, as seguintes quantidades de nutrientes são desperdiçadas por pessoa e ano:
Macronutrientes: 40 385 kcal, o que significa quase 7,5 kg de macronutrientes; 1,5 kg de proteína, 1,8 kg de gorduras e 4,2 kg de carboidratos.
Fibra: 483 g
Micronutrientes: quase 160 gramas (19 g de vitaminas e 141 g de minerais).

Isso significa que cerca de 5% de energia (kcal), 5% de proteínas (e outros macronutrientes), 8% de fibra, 4% de minerais e 11% de vitaminas são perdidos em A parte final da cadeia alimentar.

Com o equivalente ao lixo gerado anualmente em todos os lares espanhóis, quase 2,2 milhões de pessoas poderiam ser alimentadas por ano. Em nível individual, os nutrientes contidos nos alimentos que uma pessoa ingere anualmente podem alimentá-los por 18 dias (levando em consideração uma necessidade média de cerca de 2.200 kcal / pessoa e dia).


Alejandro Blas Morente , Doutor Agrônomo. Pesquisador em desenvolvimento sustentável, Universidade Politécnica de Madri (UPM)

Este artigo foi publicado originalmente na The Conversation . Leia o original .

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Por que ilhas desertas são dominadas por cobras


Evanildo da Silveira
BBC  Brasil



Direito de imagemMARCIO MARTINS

Durante cinco anos, brasileiro da USP catalogou 1.223 espécies encontradas em 986 ilhas ao redor do mundo

Não são poucas as pessoas que têm o sonho de viver - ou pelo menos passar umas férias - numa ilha, ensolarada, rodeada de praias e com vegetação exuberando no interior. Mas, às vezes, é preciso ter cuidado. Um bicho que causa medo em muitos já pode estar instalado nela, rastejando ou em cima de árvores e pedras. São as cobras, que vivem em muitas delas.

Num levantamento, realizado durante cinco anos, na literatura científica sobre 986 ilhas ao redor do mundo, o biólogo e herpetologista Marcio Roberto Costa Martins, do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), catalogou 1.223 espécies.

De acordo com ele, é comum a ocorrência de serpentes em altas densidades em ilhas e isso ocorre principalmente porque as faunas desses ambientes são naturalmente pobres, o que resulta em poucos ou nenhum predador. "Isso leva a crescimento populacional delas maior do que nas espécies do continente", explica. "De fato, constatamos que as cobras mais abundantes do mundo estão em ilhas, destacando-se a jararaca-ilhoa (Bothrops insularis), de Queimada Grande, a 35 km do litoral de São Paulo, e a víbora-de-shedao (Gloydius shedaoensis), na China."




Direito de imagem GUSTAVO ARNAUD
Pesquisador diz que cobras são comuns em ilhas porque há poucos ou nenhum predador

Martins conta que a ideia do levantamento surgiu depois que ele e seu colega Harvey Lillywhite deram um curso de pós-graduação sobre Ecologia de Ilhas na Universidade da Flórida (Gainesville, Flórida), no segundo semestre de 2013. "Durante esse curso, nós dois nos demos conta de que ainda sabíamos relativamente pouco sobre a ecologia e a biogeografia [distribuição de espécies num determinado ambiente] das cobras que ocorrem nesses locais isolados por água ao redor do mundo, embora houvesse alguns casos bem conhecidos", diz.

"Entre eles, a jararaca-ilhoa, que tem sido estudada nas últimas décadas por um grupo de pesquisadores do qual eu faço parte, e a boca-de-algodão (Agkistrodon piscivorus) da ilha Seahorse Key, da Flórida, a que o Harvey vem se dedicando também há décadas."

Segundo Martins, não havia na literatura algo sobre os padrões gerais da ecologia e biogeografia de cobras insulares. Por isso, eles resolveram fazer uma revisão sobre o assunto e iniciaram textos preliminares já em 2013. "Pouco depois disso, percebemos que seria muito interessante colocar em um livro o conhecimento que já havia sido acumulado sobre as serpentes que vivem em ilhas, por meio de capítulos focando em diferentes espécies e sistemas ao redor do mundo. Passamos então a convidar pessoas que trabalham com esses ofídios em várias partes do planeta para participarem da obra."



Direito de imagem MARCIO MARTINS 
Pesquisadores classificam ilhas em três tipos oceânicas, continentais antigas e continentais recentes

Os pesquisadores classificaram as ilhas estudadas em três tipos - os mesmos em que se dividem praticamente todas as do mundo: oceânicas, continentais antigas e continentais recentes. As primeiras ficam sobre a crosta oceânica e foram formadas principalmente por vulcanismo, as segundas são pedaços de rochas sobre a plataforma continental, que foram separadas do continente pela movimentação das placas tectônicas, e as terceiras são aquelas localizadas nas plataformas continentais e que surgiram com o fim da última glaciação.

Para simplificar, pode-se considerar as segundas e as terceiras como um mesmo tipo, consideradas de maneira geral como continentais.

Martins diz que é importante ressaltar que a origem das serpentes dessas ilhas é muito diferente daquela das oceânicas. As cobras que vivem nelas, na maioria dos casos, são porções relictuais (remanescentes) de populações que eram amplamente distribuídas nas plataformas continentais expostas durante as glaciações do Pleistoceno (período que estendeu de 1,8 milhão a 11 mil anos atrás).

"Explicando melhor: em cada período glacial do Pleistoceno, o mar retraía e expunha boa parte da plataforma continental", explica. "No pico da última glaciação (que foi - a própria glaciação, não o pico - de 110.000 a 10.000 antes do presente), por exemplo, o mar estava a 120 -130 m abaixo do nível atual."



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Das 986 ilhas que Martins e Lillywhite estudaram para a revisão que fizeram, 368 são continentais e 618 oceânicas

Nesses períodos, explica Martins, essas regiões expostas das plataformas eram cobertas por vegetação costeira e as espécies que ocorriam no litoral expandiam suas distribuições para esses novos habitats. Com o aquecimento da atmosfera e o consequente aumento do nível do mar, as montanhas da plataforma continental exposta durante a glaciação se tornaram ilhas e as populações que aí estavam ficaram presas nelas.

Nas pequenas, como Queimada Grande e Alcatrazes, na costa de São Paulo, por exemplo, boa parte delas que ficou confinada acabou se extinguindo, restando apenas uma fauna relictual. Por exemplo, só duas na primeira e apenas três na segunda. Já nas grandes, ocorrem poucas extinções. Como na ilha de São Sebastião, que possui uma fauna de serpentes (22 espécies) quase tão rica quanto a de uma área equivalente do continente adjacente (cerca de 25 a 30).

O que acontece nas oceânicas é bem diferente, no entanto. As populações de cobras, na maioria das vezes, são originadas por processos de colonização, pois são locais sem conexão atual com os continentes. "As serpentes colonizam ilhas usando a forma de dispersão conhecida como 'aquática passiva'", explica Martins. "Ou seja, pegam carona em 'balsas' de vegetação, que são lançadas ao mar pelos rios. Na Amazônia, elas são chamadas de 'camalotes' (especialmente aquelas formadas por aguapé) ou periantã."

Como exemplo, ele cita a colonização das Pequenas Antilhas por cobras da família Boidae, do gênero Corallus - as jiboias arborícolas, e da família Viperidae, do gênero Bothrops - as jararacas, que deve ter se dado por meio de ilhas de vegetação que foram lançadas ao mar na foz do Rio Amazonas e que foram levadas até lá por correntes marinhas, que fazem exatamente esse percurso, do noroeste da América do Sul em direção ao sul do Caribe. Também foi dessa forma que as serpentes colonizaram e se diversificaram nas Galápagos.



Direito de imagem MARCIO MARTINS
Ilhas oceânicas têm a maioria se suas cobras originadas por processos de colonização

Das 986 ilhas que Martins e Lillywhite estudaram para a revisão que fizeram, 368 são continentais e 618 oceânicas, desde minúsculas, como Senkaku, no Japão, como 1.000 metros quadrados, até gigantes, como a da Nova Guiné, com 785.753 km², dividida por dois países, Papua Nova Guiné e parte da Indonésa.

Entre as primeiras, são exemplos no Brasil, Queimada Grande, São Sebastião e Santa Catarina, e no mundo, Grã-Bretanha (a maior do Reino Unido), Bornéu, Sumatra, quase todas as gregas e a maior parte das do Japão, incluindo as maiores delas.

Entre as segundas, estão as brasileiras Fernando de Noronha, Trindade e Martim Vaz, e as de fora Maurício, Okinawa, Havaí, Nova Zelândia, Sulawesi e Hispaniola (dividida entre República Dominicana e Haiti).

Os pesquisadores encontraram 718 espécies de serpentes nas continentais e 761 nas oceânicas, o que dá médias de 6,1 e 4,8, respectivamente. "Além disso, descobrimos que existem regiões do globo que são hotspots de diversidade de serpentes insulares, com destaque para o Caribe, com 181 ilhas, entre elas Cuba e Hispaniola, e a região oriental, com mais de 200, onde se destaca o Arquipélago Malaio (que contém Bornéu, Sumatra e Nova Guiné).

"Também encontramos hotspots de faunas de serpentes insulares bem estudadas, como as da costa sudeste do Brasil, as do Caribe, as gregas e as do Japão", conta.



Direito de imagem MARCIO MARTINS 
Entre os exemplos de cobras que são excelentes colonizadoras está jararaca comum do sudeste do Brasil

De acordo com Martins, embora a origem das serpentes das ilhas que se situam nas plataformas continentais seja muito distinta daquela das oceânicas, os padrões biogeográficos encontrados nesses dois tipos de locais não é muito diferente. "A riqueza de espécies nos dois tipos de ilhas, por exemplo, é explicada em grande parte por dois fatores principais: a área e a diversidade de habitas encontrada nelas (este último fator inferido pela altitude máxima)", explica. "Isso já era conhecido para as oceânicas, mas ainda não havia sido descrito para as continentais."

A presença e o sucesso das cobras em ilhas não são por acaso, no entanto. De acordo com Martins, algumas de suas características fazem com que elas sejam especialmente hábeis em persistir nas continentais e em colonizar oceânicas. "As serpentes conseguem passar períodos muito longos sem se alimentar, até mais de um ano sem comer em várias espécies, por necessitarem pouca energia para viver", explica. "Isso torna possível que elas passem longos períodos à deriva nas balsas de vegetação, aumentando a chance de acabar aportando em uma ilha."

Além disso, há muitas que possuem características que possibilitam crescimento populacional rápido, como, por exemplo, fecundidade e frequência reprodutiva altas. Isso possibilita o estabelecimento em pouco tempo de uma população viável em ilhas, isto é, com poucas chances de extinção. O pequeno porte de muitas espécies também ajuda.

Essas cobras menores podem colonizar as muito pequenas, onde há relativamente poucos recursos. "Por fim, várias espécies comem diferentes tipos de presas, o que facilita o estabelecimento em ambientes insulares, mesmo quando há poucos alimentos disponíveis, como é o caso da maioria das ilhas pequenas", acrescenta Martins.

Entre os exemplos de cobras que são excelentes colonizadoras está a jararaca comum do sudeste do Brasil (Bothrops jararaca). "Adultos dessa espécie podem sobreviver com apenas uma ou duas presas por ano", diz Martins. "Além disso, ela possui alta fecundidade, com média de cerca de 10 filhotes por ninhada, mas podendo chegar a mais de 30.

Como se não bastasse é generalista em dieta, alimentando-se principalmente de centopeias, lagartos, anfíbios, aves e mamíferos. Isso certamente facilitou a persistência de populações delas em várias ilhas continentais da costa sudeste do Brasil."

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

A Era do Plástico: É assim que eles chamarão os tempos em que estamos vivendo?


Um estudo indica que a quantidade de micropartículas de plástico vem dobrando a cada 15 anos desde 1940.


Cientistas da Universidade da Califórnia em San Diego (Estados Unidos) indicaram que o antropoceno , uma era geológica caracterizada pelo impacto global das atividades humanas, poderia ser definido pelas camadas de plástico nos sedimentos. Mesmo esses mesmos especialistas assumem que poderia ser chamada de Era do Plástico .


O trabalho, publicado recentemente na revista Science, mostra seus resultados da análise de camadas anuais na costa da Califórnia desde 1834.

Esta é a primeira análise detalhada do aumento da poluição de plásticos nos sedimentos que demonstrou o aumento da produção de plástico nos últimos 70 anos. Desde a década de 1940, a quantidade de plásticos microscópicos dobrou aproximadamente a cada 15 anos.

A esse respeito, Jennifer Brandon , líder de pesquisa, disse ao The Guardian :


O plástico foi inventado e quase imediatamente podemos vê-lo no registro sedimentar.
Direto para os oceanos

Os cientistas estimam que o desperdício de plástico está fluindo incontrolavelmente para os oceanos, já que a maioria das partículas encontradas acabou por ser fibras de fibra sintética usadas em roupas. Isso significa que não há remoção adequada de partículas nas residências ou nas estações de tratamento de águas residuais . Sobre esse assunto, Brandon disse:


É ruim para os animais que vivem no fundo do oceano: recifes de coral, mexilhões, ostras, etc. Mas o fato de ele estar entrando em nosso registro fóssil é mais uma questão existencial
"A era do plástico"


O líder deste estudo tem pavor de pensar que nossas gerações são lembradas ou apontadas pelo uso desenfreado de plástico e por todo o impacto que isso implica para o meio ambiente e a humanidade. E adicione:


Todos nós aprendemos na escola sobre a Idade da Pedra, a Idade do Bronze e a Idade do Ferro. Isso é conhecido como Idade do Plástico?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou através de um relatório publicado em agosto passado sobre a contaminação do meio ambiente por microplásticos. O documento destaca que esse tipo de partículas foi detectado na água do mar, esgoto, ar, chuva, alimentos e até na garrafa e na água da torneira. Como a entidade alerta, existem sérios riscos potenciais para a saúde humana devido aos componentes químicos dessas partículas.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

O verdadeiro impacto ambiental causado pelas scooters elétricas


Uma investigação revela que as scooters elétricas geram mais poluição do que outros meios de transporte, como bicicletas.


As scooters elétricas não são mais apenas uma moda passageira, elas se tornaram uma alternativa de transporte para distâncias curtas em muitos países do mundo. De fato, esses veículos são promovidos como uma opção ecológica. Mas um estudo recente publicado na revista Environmental Research Letters indica que eles contaminam mais do que se pensa e podem até causar um impacto ambiental significativo.


A investigação, realizada pela Universidade da Carolina do Norte (EUA), mostra que os materiais utilizados para a fabricação dos elementos da scooter (estrutura, rodas e bateria) e as empresas responsáveis ​​por sua coleta , distribuição e carga são responsáveis ​​por um maior impacto diário das emissões de gases de efeito estufa em comparação com outros meios de transporte.

Existem duas áreas que causam esse impacto ambiental devido ao uso de scooters elétricas. Por um lado, as emissões geradas com a produção dos elementos utilizados em cada scooter. Por outro lado, a poluição que envolve o uso de outros veículos para coletar e transportar scooters elétricos.

Para determinar o verdadeiro impacto das scooters, os cientistas analisaram quatro aspectos que envolvem seu uso: a produção dos materiais e seus componentes, o processo de fabricação, a transferência da scooter para as cidades de destino e a coleta, carregamento e distribuição. Os autores apontam em seu estudo:


Tanto o baixo uso diário da scooter elétrica quanto a baixa vida útil da scooter mostram impactos muito altos no aquecimento global causado pela fabricação e pelas cargas de material, distribuídas em um número menor de quilômetros de passageiros percorridos durante a vida útil da scooter. elétrico



O ciclo de vida das scooters elétricas

Outra implicação ambiental desse novo meio de transporte, que não está relacionado à produção das próprias unidades, é o seu ciclo de vida . Os resultados do estudo mostram uma alta sensibilidade associada à vida útil das scooters elétricas. Os cientistas compararam diferentes análises dos ciclos de vida publicados anteriormente de carros, ônibus, ciclomotores e bicicletas elétricas com o ciclo de vida das scooters elétricas, cujo uso por dois anos pode diminuir as emissões médias por passageiro. Isso significa que quanto mais tempo a scooter permanecer em serviço, mais ela precisará compensar o impacto gerado pela produção de todas as peças que a compõem.

A investigação também descobriu que dirigir um carro é geralmente menos ecológico do que mover uma scooter elétrica , portanto, a substituição do uso de carros pessoais por scooters elétricos também contribuiria para a redução líquida dos impactos ambientais.

Embora o trabalho de pesquisa tenha sido focado em aspectos específicos da cidade de Raleigh (Carolina do Norte), os autores afirmam que os resultados de seu trabalho podem ser aplicados a outros países.

domingo, 8 de setembro de 2019

Tudo se tornará digital? Indústrias que foram modificadas pela tecnologia




Vivemos uma era de constantes mudanças, onde novos desenvolvimentos técnicos afetam a vida de bilhões de pessoas. Nesse sentido, diferentes setores econômicos e produtivos tiveram que ser atualizados nos últimos anos para não serem deixados para trás. De lojas a cassinos, tudo pode ser encontrado na tela pequena do nosso smartphone. Aqui está uma breve revisão de quanto nossa vida diária mudou.


Negar contra telefones celulares ou a Internet hoje é um ato quase heróico. Ou melhor, teimoso. As últimas décadas mostraram uma forte série de mudanças em torno da conectividade e da entrega de dados, que não só causaram mudanças no dia a dia dos seres humanos, mas também conseguiram modificar os setores de produtos e serviços em questão. de pouco tempo.

Com a necessidade de se adaptar às novas tendências, os grandes players do mercado, assim como os novos projetos, procuram estar dentro das últimas tendências. Enquanto Android, Apple e Microsoft continuam sua batalha para se tornar os donos indiscutíveis da economia 3.0, tudo muda ao nosso redor.
Das grandes lojas aos aplicativos


Uma das maiores transformações que experimentamos nas últimas décadas foi a digitalização de milhares de produtos e serviços. Há algum tempo, tivemos que ir a uma loja para obter o que procurávamos, hoje basta deslizar o polegar em nosso iPhone ou simplesmente fazer alguns cliques em nossos laptops. Assim, supermercados, lojas de roupas, agências de turismo e até cassinos fizeram a transição do mundo analógico para o digital, o que na grande maioria dos casos lhes permitiu aumentar sua base de clientes.

Se considerarmos o caso dos cassinos e casas de apostas, não podemos ignorar que é um dos setores ligados ao entretenimento que mais cresceu nos últimos tempos. Por exemplo, o cassino Bronze concorre igualmente com as marcas tradicionais da indústria, graças às suas propostas inovadoras e à possibilidade de oferecer vários meios de pagamento, algo que os cassinos tradicionais nem sempre têm.

Sem ir mais longe, o mesmo aconteceu com passagens aéreas e reservas de hotel. No que diz respeito ao turismo , as páginas que facilitam a reserva de ingressos on-line, bem como a hospedagem, são uma verdadeira fúria e, de acordo com diferentes estudos, 9 em cada 10 viajantes os utilizam como primeira opção. Se alguém nos dissesse que isso aconteceria algumas décadas atrás, certamente não teríamos acreditado.
Desafios para o futuro


Agora, nem tudo é corado em relação à tecnologia, se não for tratado com o cuidado e a seriedade que toda grande mudança merece. Por trás dos avanços e das instalações desses novos aplicativos e modelos de negócios, existe o risco de perda de empregos, que em muitos casos não tem correlação no mundo digital. Além do fechamento de lojas pequenas e independentes que não podem competir com grandes empresas internacionais, outros ramos da atividade humana podem ser afetados, como o conceito de bairro e comércio local.

Na mesma direção, o conceito de divisão digital será fundamental para os próximos anos: os diferentes estados nacionais e multinacionais devem ser responsáveis ​​por treinar a população para poder usar e trabalhar nesse novo tipo de produtos e serviços. Dessa forma, a tecnologia será o que promete ser: uma ferramenta democratizante e eqüitativa. Enquanto as políticas educacionais e sociais não acompanharem esse desenvolvimento, as diferenças poderão ser aumentadas.

Dessa forma, podemos afirmar que estamos enfrentando um momento de dobradiça na história da economia mundial. À medida que as indústrias se transformam, os consumidores devem acompanhar.

sábado, 7 de setembro de 2019

Telefones celulares causam câncer, disse a OMS!




Em maio de 2011, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), da Organização Mundial da Saúde ( OMS ), anunciou a inclusão de campos eletromagnéticos de radiofreqüência (CEM-RF), o que emitem telefones celulares, no grupo 2B, como "possivelmente cancerígenas para seres humanos". Quase 10 anos depois, como é esse problema?

Carcinógenos classificados em grupos

O IARC classifica os agentes cancerígenos em quatro grupos, dependendo do grau de evidência disponível.


Assim, o Grupo 1 inclui agentes para os quais "existe evidência suficiente" de carcinogenicidade em humanos. No total, destacam-se 120 agentes entre os quais álcool, tabaco, poluição do ar ou radiação solar.
No Grupo 2A , estão incluídos 82 agentes, como o consumo de carne vermelha ou bebidas extremamente quentes (acima de 65ºC). Aqueles que são "provavelmente cancerígenos" porque ou há evidência limitada de carcinogenicidade em humanos, evidência suficiente em animais experimentais ou fortes evidências de que eles exibem características carcinogênicas essenciais.
A 2B Grupo inclui aqueles agentes que são "possíveis cancerígenos" porque não é evidência limitada em humanos, suficiente em animais ou forte evidência de que exibem características-chave de agentes cancerígenos. Este é o grupo no qual a radiação móvel foi incluída com outros 310 agentes, como extrato de folhas de aloe vera (sim, realmente), gasolina, melanina, talco ou naftaleno .
No Grupo 3 aqueles agentes que não são classificáveis como cancerígenos em seres humanos estão incluídos. Os agentes que não pertencem a nenhum outro grupo geralmente são colocados nessa categoria. Por exemplo, os agentes para os quais existem evidências sólidas de que o mecanismo de carcinogenicidade em animais experimentais não funciona em humanos. Inclui 500 agentes, como café, campos elétricos e magnéticos estáticos ou polietileno.

Os termos em itálico determinam o nível dos testes existentes: limitado, suficiente ou sólido e é isso que permitirá a classificação de um agente em um grupo ou outro.
Os celulares do grupo 2B

Em vista da definição de grupos da IARC, em particular a do grupo 2B, afirma que “a OMS classificou a radiação móvel como cancerígena” é absolutamente falsa. E o anúncio da IARC indicou que as evidências eram limitadas para usuários de telefones sem fio com glioma (um tipo de câncer no cérebro) ou neuroma acústico (do nervo auditivo) e inadequadas em exposições ambientais ou em trabalhadores (radiação de as antenas)

Os resultados de um estudo de 2011 , que encontrou um risco aumentado de glioma em usuários móveis que relataram um uso de mais de 30 minutos por dia nos 10 anos anteriores, justificaram sua inclusão nesse grupo.

Essa decisão foi muito criticada no campo do bioeletromagnetismo, uma vez que nenhum dos critérios necessários para tomar essa decisão foi atendido. Até os autores do estudo disseram nas conclusões: "As incertezas em torno desses resultados exigem que eles sejam replicados antes que possam ser considerados reais e uma interpretação causal possa ser feita".
E desde então, o que aconteceu?

Em junho passado, participei do congresso BIOEM2019 em Montpellier (França). É o congresso internacional mais importante sobre bioeletromagnetismo organizado pelas duas sociedades científicas mais importantes do mundo, BEMS e EBEA .

Uma das sessões plenárias foi intitulada “Os testes de carcinogenicidade do CEM-RF mudaram desde a avaliação da IARC?” E foi ministrada por Maria Feychting, pesquisadora, professora e diretora da unidade de Epidemiologia do Instituto Karolinska e que Eu transmito quase ao vivo no Twitter:

As principais evidências da possível relação entre câncer e celulares vêm do pesquisador Lennart Hardell , aclamado entre os movimentos anti-antena, mas conhecido no campo do bioeletromagnetismo por sua posição e publicações altamente questionadas. Todos conhecemos sua presença em ensaios que fornecem estudos que supostamente apóiam sua tese ou outros que foram criticados pela comunidade científica por conter inúmeros defeitos de design e análise.

A revisão de Feychting em sua palestra mostrou que apenas Hardell obtém relacionamentos positivos, mas que, além disso, são fracos e que todos os estudos subsequentes, conduzidos por equipes diferentes em diferentes partes do mundo, não corroboram esse relacionamento.

Nem o estudo de coorte dinamarquês, que incluiu mais de 350.000 pessoas em 2011 a longo prazo, nem o milhão de mulheres no Reino Unido em 2013 sob o Cancer Research UK e o National Health Service (NHS), mostram maiores riscos de Câncer por uso de telefone celular. O último conclui: "Não havia grandes riscos de tumores do sistema nervoso central, o que fornece poucas evidências de uma associação causal".

Fleychting chamou a atenção para outro estudo de Hardell (2013), no qual avaliou gliomas de 2007 a 2009 com pacientes expostos ao EMF-RF por "mais de 25 anos". O curioso é que, na época do estudo e no intervalo de anos analisados, a telefonia móvel tinha no máximo 23 anos na Suécia e não na maioria. Como isso foi possível?

Dois outros trabalhos de 2012 ( Deltour e Little ) compararam os aumentos de incidência previstos anos atrás por Hardell com as observações reais, verificando que o aumento anunciado não ocorreu e que, pelo contrário, segue uma tendência semelhante à anterior. a aparência de telefones celulares ou mesmo o impressionante caso dos Estados Unidos, onde caiu. Apenas uma incidência mais alta foi observada em adultos acima de 75 anos e não em jovens que seriam os que mais usariam o celular, o que é atribuído a uma melhora no diagnóstico e maior longevidade. Todos esses dados contradizem o que Hardell concluiu e previu, que recomenda evitar o uso de telefones celulares em crianças menores de 20 anos.

Portanto, poderíamos dizer que a Epidemiologia ainda não endossa as descobertas que levaram a IARC a tomar essa decisão. Além disso, as evidências mais recentes contradizem as descobertas de Hardell e seus colaboradores, cujos estudos devemos questionar.
E o estudo recente de ratos?

Fleychting se concentrou em estudos epidemiológicos e, depois, a cientista Florence Poulletier De Gannes interveio com uma apresentação destinada a atualizar dados em animais e em laboratório.

Em 2018, dois estudos muito poderosos foram publicados em ratos que associaram a exposição ao EMF-RF a um tipo de câncer de coração (extremamente raro em humanos), mas apenas em ratos machos. Um dos Programa Nacional de Toxicologia dos EUA (NTP) e outro do Instituto Ramazzini na Itália .

Ambos os estudos apresentam inconsistências e limitações que afetam a utilidade e aplicabilidade de seus resultados para estabelecer padrões ou limites de exposição e, acima de tudo, a sua possível extrapolação para os seres humanos.

Portanto, permanecemos sem evidências robustas para apoiar essa possível relação entre câncer e uso de telefones celulares . A epidemiologia não suporta esta hipótese e os resultados em animais permanecem fracos e questionáveis.


Alberto Nájera López , Doutor Contratado em Radiologia e Medicina Física, Universidade de Castilla-La Mancha

Este artigo foi publicado originalmente na The Conversation . Leia o original .

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Sobrepeso na terceira idade pode impactar na longevidade


Carmen Souza


(foto: Paulinho Miranda/CB/D.A Press)

O brasileiro nunca viveu tanto tempo. Também tem exibido pesos e formas corporais cada vez mais avantajados. É fato que a longevidade e a obesidade ganham lugar de destaque em dados oficiais e impressões corriqueiras. Mas há problemas quando elas se encontram, alertam especialistas e estudiosos da área.

Pesquisas mostram que viver mais e melhor não concilia com pesar muito. Se há conflito com a balança, doenças se acumulam e limitações físicas e psicológicas podem comprometer as relações sociais. Tem-se, então, uma velhice pesada, em que a qualidade e a expectativa de vida estão significativamente comprometidas.

O fenômeno já é constatado em estatísticas de países de alta renda. Comparando a expectativa de vida ao nascer na Austrália, nos Estados Unidos e em 18 países da Europa entre 1980 e 2016, pesquisadores da Universidade de Melbourne concluíram que a média de anos vividos tem diminuído nessas populações.

Para Tim Adair, a obesidade exerce papel-chave nessa transformação. “As tendências na longevidade são amplamente impactadas por fatores de risco que ocorrem muitos anos, ou mesmo décadas, antes. Portanto, as tendências futuras de longevidade serão bastante impactadas pelos esforços atuais para reduzir a obesidade”, explica ao Correio o pesquisador da universidade australiana e coautor do estudo, divulgado, em maio, no 

A equipe observou que, de 2002 a 2016, a diferença na expectativa de vida subiu 2,5 anos para homens na Austrália e dos outros países avaliados. No caso das mulheres, 1,6 ano e 1,8 ano, respectivamente. Analisando períodos anteriores, os cientistas constataram uma desaceleração nos anos a mais de vida. Por exemplo, entre 1991 e 2004, o ganho foi de 3,4 anos para os australianos e de 2,7, para europeus e norte-americanos. “Somados à alta prevalência da obesidade, esses números sugerem que a expectativa de vida no futuro poderá ter médias ainda menores”, frisa Tim Adair.

Para Alexandre Kalache, gerontólogo e presidente do Centro Internacional de Longevidade – Brasil, há motivos para acreditar que o Brasil enfrentará problema semelhante. “A epidemia da obesidade e todas as suas consequências vêm fortes. Nos Estados Unidos, por exemplo, o excesso de peso é a segunda causa de morte de adultos. Estima-se que, na Europa, 15% das mortes prematuras, antes dos 70 anos, são por sobrepeso e obesidade. Não há nenhuma razão para acreditarmos que aqui não seguiremos o mesmo caminho”, diz.

Segundo Kalache, a maioria das vítimas está morrendo prematuramente: tem entre 35 e 59 anos e perde a vida por complicações associadas à obesidade. O risco de ter uma doença cardiovascular aumenta 49% em indivíduos obesos, ilustra o especialista em longevidade. O de ter uma complicação respiratória, 38%, e o de ser acometido por cânceres, principalmente de mama e de intestino, cerca de 20%.

De acordo com o Ministério da Saúde, a obesidade tem crescido justamente em adultos jovens e na meia-idade. De 2006 a 2018, o avanço foi de 81,1% entre brasileiros com 35 a 44 anos, e de 84,2% na faixa de 25 a 34 anos. Considerando a população em geral, a taxa foi de 67,8%. “Isso está muito ligado ao estilo de vida, marcado por dietas pouco saudáveis e sedentarismo. As pessoas ingerem muitas calorias e não conseguem queimá-las”, resume Kalache.

Doença social

O gerontólogo frisa que, no caso do Brasil, é preciso avaliar a faceta socioeconômica do problema. “Aqui, a obesidade tem um caráter bastante cruel. É uma doença social, que atinge principalmente os mais pobres. Para fazer atividade física de forma adequada e regular, a pessoa precisa de um lugar iluminado, com calçada, que não tenha bala perdida, onde as mulheres possam ir sem serem atacadas. Para muitos brasileiros, comer brócolis todo dia é ficar sem dinheiro antes do fim do mês”, ilustra.

No caso de quem passou dos 60 anos, mudanças esperadas com o envelhecimento, como a perda da massa muscular e o aumento da gordura corporal, podem deixar a situação ainda mais delicada. “Dores no joelho e na perna, além das questões vasculares, já dificultam a mobilidade. Com o excesso de peso, não ser um idoso sedentário fica ainda mais difícil”, diz Rosa Chubaci, coordenadora do curso de gerontologia da Universidade de São Paulo (USP).

A especialista também chama a atenção para o impacto negativo da falta de orientação especializada. Segundo ela, isso é muito comum em questões ligadas à alimentação. “O idoso conta que só come três biscoitinhos de maisena e toma um copo de leite e, ainda assim, está engordando. Ele está ingerindo só carboidratos e não sabe as consequências disso”, exemplifica.

Apesar de menos expressivo que a média geral, o avanço do excesso de peso entre os brasileiros mais velhos também preocupa. Em 2006, 11% dos homens e 19,7% das mulheres com mais de 65 anos eram obesos. Em 2017, as taxas haviam subido para 15,3% e 23,4%, respectivamente. Rosa Chubaci destaca que, além de desencadear doenças que podem ser fatais, a obesidade impacta negativamente nas condições de vida. “Devemos dar mais qualidade aos anos que viveremos mais, não viver por viver, de forma restrita, dependente. É claro que não temos o controle total, mas viver bem é viver cuidando de si”, reforça.

Pior que o tabagismo

A piora na taxa de mortalidade de norte-americanos é registrada há três décadas. Ao analisarem dados da Pesquisa Nacional de Exame de Saúde e Nutrição desde 1988, cientistas da Universidade da Pensilvânia concluíram que o aumento da obesidade é culpado pelo fenômeno. Em 2011, por exemplo, o excesso de peso já reduzia a expectativa de vida aos 40 anos em 0,9 ano. “Estimamos que o impacto do aumento da obesidade seja duas vezes mais significativo para as tendências de queda da mortalidade do que o impacto do declínio do tabagismo”, compara Samuel Preston, um dos autores do estudo, divulgado, em 2018, na Pnas, o jornal da academia americana de ciências.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

PÃES DE AÇÚCAR: REFÚGIOS DE ALTA BIODIVERSIDADE



Ao visitar o arquipélago de Galápagos, no oceano Pacífico, em 1835, o naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882) maravilhou-se com a biodiversidade local. Foram essas ilhas que o inspiraram a escrever A origem das espécies, livro que é um marco da teoria da evolução e que aborda a variação, a adaptação e o papel da seleção natural sobre a vida na Terra.

Durante muitos anos, as ilhas oceânicas chamaram a atenção de diversos pesquisadores por se tratarem de um ótimo modelo para estudos biogeográficos e evolutivos (ver ‘A regra da ilha’, em CH 336). Nas últimas décadas, sabendo desse potencial de estudo de ambientes isolados, cientistas mudaram o foco para outro tipo de ilha, as terrestres, como as montanhas e os afloramentos rochosos. De modo semelhante às ilhas oceânicas, elas também diferem da matriz onde estão inseridas e apresentam baixo intercâmbio de espécies, tanto da fauna quanto da flora.

No Brasil, não é difícil chegar a essa conclusão. Basta lembrar do Pão de Açúcar, da Pedra da Gávea, dos morros Dois Irmãos e do Corcovado para perceber que o Rio de Janeiro é dominado por ilhas terrestres (ver ‘Origem do nome’). Essas formações rochosas são elementos naturais que se destacam entre as praias mais famosas, como Copacabana e Ipanema, e, seguramente, são responsáveis por todo o encantamento da ‘cidade maravilhosa’ e por ela receber o título, em 2012, de Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco): ‘Rio de Janeiro, paisagens cariocas entre a montanha e o mar’.

Origem do nome

O nome ‘Pão de Açúcar’ dado ao famoso conjunto de morros da cidade do Rio de Janeiro data da época da colonização portuguesa, em que blocos de açúcar eram transportados do Brasil para a Europa. Durante o processo de fabricação do açúcar, os cristais aglutinados eram retirados de fôrmas cônicas em blocos, que tomavam o formato delas (veja a foto). Esse processo guardava semelhança com a produção do pão, que também era assado em fôrmas, e, assim, por analogia, passou­se a chamar de ‘pão de açúcar’ o cristal obtido.


Posteriormente, o afloramento foi batizado de Pão de Açúcar por causa da semelhança de seu formato com o dos cones de cristais de açúcar. Mais adiante, diversos geólogos, geógrafos e biólogos estenderam o uso do termo – pães de açúcar – para se referirem aos afloramentos rochosos arredondados, de composição especialmente granítica e gnáissica, inseridos no domínio da floresta atlântica.

No ano em que o mundo se volta para os jogos olímpicos no Rio de Janeiro, os autores deste artigo gostariam de sugerir um olhar biológico para os pães de açúcar da mata atlântica. Suas plantas vencem barreiras de um ambiente extremo e sobrevivem perfeitamente adaptadas nesse geossistema tão antigo. Nos jogos olímpicos da natureza, a vegetação desses afloramentos rochosos, com certeza, já está no pódio.

(foto: Leandro Cardoso)


Ícone das olimpíadas

Sem dúvida, o afloramento mais famoso no Brasil é o Pão de Açúcar, ícone das Olimpíadas deste ano, cartão postal e protagonista de várias marcas. Um complexo de rochas inseridas em matriz florestal e urbana, e uma das atrações turísticas mais procuradas no país. Desde 1912, mais de 40 milhões de pessoas já visitaram o local, atraídas pela vista espetacular da baía de Guanabara, das praias e das outras montanhas que se destacam.

No meio científico, esses afloramentos rochosos que surgem abruptamente na paisagem, de composição principalmente granítica e gnáissica, são denominados inselbergs, termo de origem alemã (insel = ilha e berg = montanha). Quando apresentam formato arredondado e estão inseridos em uma matriz florestal, são chamados ‘pães de açúcar’. Essas formações datam de mais de 550 milhões de anos e estão distribuídas em escudos cristalinos por todos os continentes, sendo, nos trópicos, centros de diversidade biológica.

No Brasil, pães de açúcar ocorrem em grande concentração nas regiões Nordeste e Sudeste, especialmente em áreas de caatinga e floresta atlântica. Entretanto, com exceção do Rio de Janeiro, diversos aglomerados magnificentes desses afloramentos são desconhecidos por grande parte da população, como ocorre no nordeste de Minas Gerais e no norte do Espírito Santo. Em termos florísticos e ecológicos, os inselbergs têm relações comuns com outros tipos de afloramentos rochosos no país, como os campos rupestres e as cangas, que enfrentam condições ambientais muito adversas (ver ‘Cangas – ilhas de ferro estratégicas para a conservação’, em CH 295).

Aglomerado de pães de açúcar no nordeste de Minas Gerais. No primeiro plano, se destacam populações de bromélias (do gênero Encholirium) e cactos (do gênero Coleocephalocereus) crescendo diretamente sobre a rocha.
(foto: Luiza F. A. de Paula)

Apesar de essas formações serem frequentes no território brasileiro, estudos biológicos nos pães de açúcar são escassos. Os poucos inventários florísticos disponíveis na literatura apontam para elevada diversidade de espécies vegetais, muitas delas raras e endêmicas.

Nos últimos anos, várias espécies novas para a ciência vêm sendo descobertas nessas áreas, algumas restritas a poucos afloramentos. Esse é o caso de uma gramínea (Axonopus graniticola), um antúrio (Anthurium mucuri) e duas bromélias (Alcantarea longibracteta e A. simplicisticha) encontrados recentemente na divisa dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Outros exemplos são uma espécie da família das violetas (Sinningia bragae) e uma begônia (Begonia ibitiocensis), descritas para áreas menos conhecidas do norte do estado do Rio de Janeiro.


Pães de açúcar ocorrentes no norte do Espírito Santo, região conhecida como Pontões Capixabas.
(foto: Luiza F. A. de Paula)


Estratégias de sobrevivência

De forma geral, os inselbergs apresentam condições ambientais extremas, como altas temperaturas, fina (ou nenhuma) camada de solo e baixa retenção de água. Por essas razões, é comum termos a impressão de que as encostas desses afloramentos são simplesmente rochas nuas. Entretanto, um olhar mais detalhado revela uma diversidade a que poucos estão familiarizados.

Várias espécies de cianobactérias – parte dos primeiros grupos de organismos que colonizaram os ecossistemas terrestres há mais de 400 milhões de anos – formam crostas em toda a extensão da superfície rochosa, conferindo a coloração acinzentada que visualizamos, por exemplo, no Pão de Açúcar e na Pedra da Gávea. Portanto, não existem rochas realmente nuas, mas superfícies cobertas por um manto de micro-organismos capazes de suportar temperaturas que atingem mais de 60°C!

Plantas com diferentes adaptações conseguem crescer sobre os
pães de açúcar, como as bromélias, cactos, palmeiras e
canelas-de-ema, formando verdadeiros tapetes sobre a rocha.
As bromélias são as que mais se destacam, crescendo geralmente
na ausência de solo, em encostas muito íngremes, como a espécie
destacada na foto de baixo, pertencente ao gênero Encholirium.
Os inselbergs são considerados um dos centros de diversidade da
família Bromeliaceae. (fotos: Luísa O. Azevedo)

Os seres vivos capazes de sobreviver nesses locais apresentam diferentes tipos de adaptações. É notável a presença de plantas capazes de se aderir diretamente à rocha, por meio de raízes especializadas, formando extensas populações que se assemelham a tapetes. No Brasil, principalmente na região Sudeste, bromélias, orquídeas e cactos compõem essa ‘malha’ em encostas muito íngremes, desafiando a lei da gravidade.

Diversas também são as estratégias adotadas por esses grupos de plantas para armazenar água. Bromélias pertencentes ao gênero Encholirium e orquídeas do gênero Epidendrum, por exemplo, acumulam água nos seus tecidos vegetais, apresentando folhas suculentas. Já outras bromeliáceas, como Alcantarea e Vriesea, conseguem estocar água como tanques por possuírem uma arquitetura foliar em formato de roseta, o que mantém a umidade das plantas e acaba atraindo uma fauna variada. É importante salientar que a água acumulada nos ‘tanques’ das bromélias não são redutos de larvas do mosquito transmissor da dengue, e, portanto, não devem ser vistas como uma ameaça à população.

Os cactos, por sua vez, não só acumulam água, como apresentam espinhos (folhas modificadas) e pilosidades (revestimentos de finos pelos), especialmente em suas bases, evitando o superaquecimento do contato direto com a rocha, o que pode ser visto em espécies pertencentes ao gênero Coleocephalocereus.

Espécies de cactos, como Coleocaphalocereus buxbaumianus, possuem pilosidades em suas bases para evitar as altas temperaturas da rocha exposta. (foto: Luiza F. A. de Paula)

Outra estratégia espetacular de algumas plantas formadoras de ‘tapetes’ é a tolerância à dessecação (secura extrema). Durante a estação seca, algumas espécies entram em um estado desidratado, como se estivessem mortas. Suas folhas tornam-se enegrecidas e enroladas, chegando a perder mais de 90% de água. Após as chuvas, elas se reidratam, ficando verdes novamente, sem qualquer prejuízo estrutural ou fisiológico. Por essa característica única são chamadas pelos botânicos de ‘plantas de ressurreição’.


A tolerância à dessecação é uma estratégia desenvolvida
por diversas espécies que habitam os pães de açúcar. Em
períodos de seca, elas perdem água e suas folhas ficam
com aspecto ressecado, mas sem perder a viabilidade, como
é possível verificar acima, na população de Barbacenia
tomentosa, da família das velloziáceas (popularmente
conhecidas como canelas-de-ema). Após as chuvas, elas
conseguem se hidratar novamente, e retomam seu vigor
(abaixo). Por esse motivo, as plantas com essa estratégia
são conhecidas como ‘plantas de ressurreição’.
(foto: Luiza F. A. de Paula)

Muitas espécies conseguem sobreviver a esses ciclos, destacando-se as samambaias e licófitas dos gêneros Cheilanthes, Doryopteris e Selaginella. Entre as plantas com flores, as ornamentais canelas-de-ema (pertencentes aos gêneros Barbacenia e Vellozia, da família Velloziaceae) são as que, sem dúvida, mais chamam a atenção. Alguns exemplares de diferentes espécies de Velloziaatingem idades superiores a 500 anos, mostrando a eficácia dessa estratégia para sua sobrevivência.

Diante do aquecimento global, pesquisas recentes vêm dando foco aos genes dessas ‘plantas de ressureição’ envolvidos na tolerância à dessecação. Elas são usadas como modelo para melhor entender esse mecanismo, visando, posteriormente, a sua aplicação em plantas cultivadas.


Por que preservar?

O que poucos sabem é que, quando os portugueses chegaram ao Brasil, a primeira porção de terra avistada foi um inselberg, como relatou Pero Vaz de Caminha na sua famosa carta enviada ao rei de Portugal: “Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome o Monte Pascoal e à terra – a Terra da Vera Cruz”.

Haviam chegado a uma região exuberante da mata atlântica, que se estendia por aproximadamente 3.300 km ao longo da costa brasileira, e que à época era habitada por numerosas tribos indígenas. Tanto a floresta quanto os primeiros habitantes sucumbiram quase que inteiramente diante dessa paulatina ocupação do litoral brasileiro. Foram os ciclos do ouro, da cana e do café, além da exploração madeireira, os principais responsáveis pela destruição de uma das mais ricas formações vegetais do planeta. Restam somente 11% da cobertura vegetal original, representada por fragmentos pequenos e cada vez mais empobrecidos biologicamente.

Nesse contexto, os inselbergs se destacam por servirem de refúgio para fragmentos florestais praticamente intactos e pouco acessíveis ao ser humano, e por apresentarem plantas altamente especializadas que só ocorrem sobre a rocha exposta. O resultado são ilhas terrestres detentoras de alta diversidade biológica.

Devido ao seu isolamento, os pães de açúcar são considerados ilhas terrestres, abrigando espécies altamente especializadas e servindo de refúgio para fragmentos florestais praticamente intocados. (foto: Leandro Cardoso)

No entanto, nosso panorama atual não é animador. Em diversas regiões do Brasil, esses aforamentos, por não serem considerados áreas prioritárias para conservação, sofrem sérias ameaças. A coleta ilegal de plantas ornamentais, o fogo, as trilhas de turismo e a invasão de espécies exóticas (não originárias desses locais) têm contribuído para a destruição da vegetação natural desses ambientes.

A retirada da cobertura vegetal que ocorre sobre a rocha favorece o deslizamento de terra e enchentes nas áreas vizinhas, o que pôde ser observado em eventos recentes, nos últimos anos, no estado do Rio de Janeiro. O fator complicador é que a regeneração da flora dos inselbergs é muito lenta e ela provavelmente nunca poderá ser recuperada da mesma maneira.

Outro agravante é a crescente exploração do granito. Em diversos locais, o mineral passou a ser usado no lugar da madeira em bancadas, paredes, pisos, entre outros utensílios. Em estados como o Espirito Santo, o ciclo destrutivo de supressão das florestas capixabas foi substituído pela destruição de suas rochas, alimentando um comércio desenfreado e nada sustentável.


Mineradora de granito no estado do Espírito Santo. Grandes blocos são retirados diariamente, levando à extinção diversos pães de açúcar da região. (foto: Luiza F. A. de Paula)

Apesar de óbvio, o importante papel das plantas no nosso dia a dia tem sido negligenciado. Elas são fontes de alimentos, combustíveis, fibras, matérias-primas para a indústria, medicamentos, além de tornarem nossa atmosfera respirável – motivos que bastariam para dedicar mais investimentos e atenção para estudá-las e compreendê-las melhor. Um país como o Brasil, que abriga a maior diversidade de plantas do planeta, deveria ser capaz de preservar minimamente suas espécies.


Sugestões para leitura

DE PAULA, L.F.A.; FORZZA, R.C.; NERI, A.V.; BUENO, M.L.; POREMBSKI, S. Sugar Loaf land in south-eastern Brazil: a centre of diversity for mat-forming bromeliads on inselbergs. Botanical Journal of the Linnean Society, v.181, p.459-476, 2016.

DE PAULA, L.F.A.; VIANA, P.L; MOTA, N.; AUGSTEN, M.; LEITE, F. E STEHMANN, J.R. Plantas Saxícolas em Inselberg no Vale do Mucuri. In: Rapid Color Guides. Chicago: The Field Museum, 2013.

DE PAULA, L.F.A.; FORZZA, R.C.; NERI, A.V.; BUENO, M.L.; POREMBSKI, S. Sugar Loaf land in south-eastern Brazil: a centre of diversity for mat-forming bromeliads on inselbergs. Botanical Journal of the Linnean Society, 2016.

MAUAD, L.P.; BUTURI, F.O.S.; SOUZA, T.P.; NASCIMENTO, M.T. & BRAGA, J.M.A. New distribution record and implications for conservation of the endangered Wunderlichia azulensis Maguire & gm Barroso (asteraceae: Wunderlichieae). Check List, v. 10, p. 706, 2014.

POREMBSKI, S. E BARTHLOTT, W. (org.). Inselbergs – Biotic diversity of isolated rock outcrops in tropical and temperate regions. In: Ecological studies, v. 146. Berlim:Springer-Verlag, 2000.


Luiza F. A. de Paula
Stefan Porembski
Instituto de Biociências, Botânica Especial e Geral
Universidade de Rostock (Alemanha)

Luísa O. Azevedo
João Renato Stehmann
Departamento de Botânica
Instituto de Ciências Biológicas
Universidade Federal de Minas Gerais

Luana Paula Mauad
Rafaela Campostrini Forzza
Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Revista Ciência Hoje

domingo, 1 de setembro de 2019

A arte de deturpar George Orwell

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Thierry Discepolo

As referências ao autor de 1984 multiplicaram-se nos últimos vinte anos. Enquanto seu engajamento político o ancora à esquerda, é cada vez mais um pensamento neoconservador que reivindica sua obra. Recuperação de ambiguidades plausível ou deturpação?

Tudo e o contrário dele foi dito sobre George Orwell. Sobretudo o contrário. Condenar o colonialismo britânico e dar testemunho da vida dos trabalhadores pobres e dos vagabundos; converter-se a um socialismo radicalmente igualitário após uma pesquisa sobre os operários ingleses; abandonar a negligência social-democrata e ser internacionalista até combater durante a guerra da Espanha nas fileiras do Partido Operário de Unificação Marxista (Poum); desejar que a resistência do povo britânico à Alemanha nazista desencadeasse uma revolução; juntar-se à ala esquerda do Partido Trabalhista; e, enfim, morrer cedo para ser paparicado pelo sucesso de Nineteen Eighty-Four (1984): não só tudo isso não foi suficiente para que uma parte da esquerda o considere um dos seus, como também não impediu seu apoderamento pelos neoconservadores. Como isso aconteceu?

Sucesso popular no Reino Unido e nos Estados Unidos desde sua publicação, em 1949, Nineteen Eighty-Four é amplamente exaltado pela imprensa. Mas Orwell (1903-1950) desde aquela época era muitas vezes mal compreendido, particularmente na América, onde seu itinerário de homem de esquerda é pouco conhecido e seu romance é lido como uma crítica ao socialismo – a ponto de ele se sentir obrigado a esclarecer suas intenções para o sindicato dos trabalhadores norte-americanos da indústria automobilística.


Na França, ainda em dezembro de 1949, o colunista do Le Monde, Robert Escarpit, qualificou o romance de “divertido, mas simples caricatura do regime soviético”. Em junho de 1950, quando publicada a tradução francesa, o escritor Marcel Brion a saudou como uma história “escrita em grande estilo e na melhor linguagem dos melhores romancistas ingleses”. Sessenta e oito anos depois, para a recepção da segunda tradução francesa, a imprensa literária navegou entre banalidades e contrassensos, ao reproduzir docilmente o release do editor. No entanto, Orwell não é mais o autor cuja morte foi noticiada apenas no Le Monde, em 51 palavras.


Em meados dos anos 1950, seus principais livros foram todos (mais ou menos mal) traduzidos, umas vinte edições de 1984 foram vendidas, mas lhe consagraram apenas dois ensaios e a imprensa fez relativamente poucas referências a eles. Mais tarde, tudo mudou: dos anos 1980 aos 2000, Orwell foi alvo de uns quarenta ensaios, e sua obra (exceto 1984) foi retraduzida pelas Éditions Champ Libre, incluindo nove textos inéditos. O Le Monde (o que mais fez referências à sua obra) escreveu tanto sobre Orwell, em 1982 e 1983, quanto durante os trinta anos anteriores. O ritmo diminuiu durante um tempo, mas a partir de 1995 ele foi novamente citado de forma abundante pela imprensa – e mais do que nunca a partir dos anos 2010. Muitas coisas mudaram então: o “bloco do Leste” não existe mais, e a alternância entre o neoliberalismo dos “socialistas” e dos “republicanos” legitimou uma confusão entre esquerda e direita, facilitando a tarefa para os neoconservadores, como Alain Finkielkraut. Desde então, é o Le Figaro que menciona Orwell com mais frequência; e ele é muito apreciado por uma imprensa pouco ligada ao socialismo revolucionário, de Limite a Causeur, passando por Marianne e até pelo Journal de Béziers, cidade cujo prefeito, Robert Ménard, foi eleito com o apoio da Frente Nacional. Como essa esfera de influência adotou um autor cuja vida e obra lhe foram tão hostis?


A “redescoberta” de Orwell é atribuída a Jean-Claude Michéa, filósofo que se prevalece do marxismo e autor, em 1995, de Orwell, anarchiste tory [Orwell, anarquista do Partido Conservador], fadado ao sucesso. A expressão “anarquista tory” só foi utilizada por Orwell a respeito de Jonathan Swift, que ele admirava como escritor e satírico do mesmo modo que criticou sua personalidade e suas posições políticas. E, se falou de si próprio em termos análogos, foi somente quando, em 1937, teve um olhar crítico sobre o jovem esnobe que ele era ao sair do Eton. Quanto às relações de Orwell com o Partido Conservador britânico, ele se recusou a se tornar membro dele até mesmo para lutar contra o stalinismo: “Sou de esquerda e devo trabalhar entre ela, qualquer que seja meu ódio do totalitarismo russo e de sua influência nefasta sobre nosso país”.1

Fica claro, em Michéa, que o rótulo de “anarquista tory” serve de antinomia, se não de antídoto, para o “liberal libertário” e outros “progressistas” da burguesia letrada que ele combate – os mesmos para os quais Orwell jamais usou palavras tão duras. Mas vê-se também muito bem que esse rótulo pode incitar uma recuperação pela direita.


A ideia de que Orwell seria, por “temperamento político”, um anarquista conservador já tinha sido sugerida por Simon Leys, autor de um ensaio determinante, Orwell ou l’horreur de la politique [Orwell ou o horror da política] (1984). Leys toma todos os cuidados – falando da “profundidade e da sinceridade do engajamento de Orwell no ideal socialista” e do fato de seu “apoderamento pela nova direita refletir menos o potencial conservador de seu pensamento que a persistente estupidez [da] esquerda”.2 Mas seu título obscurece as pistas. Orwell, que se preocupou “em fazer da escrita política uma arte”,3 não expressa um “desgosto da política”, mas uma crítica da política autoritária e, em particular, da política imperial da União Soviética.

Enfim, é a noção de common decency [decência universal], a honestidade habitual defendida outrora por Charles Dickens, que teria levado à adoção de Orwell pela nova direita. Emblemática de valores associados à classe operária, retidão moral, generosidade, senso de solidariedade, ódio dos privilégios, sede de igualdade e ligação à ideia de uma verdade objetiva, o conjunto de disposições que constituem a common decency é, para Orwell, herdado do cristianismo e da Revolução Francesa. Se essa “moral social e econômica” perdura mais na relação de pessoas de condição modesta com a vida e com os outros, não seria por ser inata, mas por terem um tipo de vida que facilita sua perenidade e transmissão. Assim, todas as classes sociais abrigam mais ou menos esses valores. Mas as relações de dominação que estruturam nossas sociedades as ultrajam permanentemente. Por isso, segundo Orwell, é preciso fazer a revolução: para abolir a divisão em classes que impede a instauração de uma ordem social justa, da qual a common decency se tornaria o fundamento moral comum.4 Isso ecoa na análise do historiador inglês Edward P. Thompson sobre as mobilizações populares relacionadas à “economia moral” das multidões punindo as elites que transgridem as normas comuns não escritas; e na do cientista político norte-americano Barrington Moore, concernente à ideia de que os dominados se revoltam quando o poder despreza o “pacto social implícito” e suas “obrigações morais”.


Como os neoconservadores podem, então, se prevalecer da common decency? É simples. Retire “generosidade, senso de solidariedade, ódio de privilégios, sede de igualdade”. Esqueça a Revolução Francesa e a “abolição da divisão em classes”. Guarde “retidão moral” e “cristianismo”. Afirme que o operário (branco) pertence às classes médias pauperizadas pela chegada de um subproletariado insensível à “nossa” common decency. E pronto.

E isso ainda mais porque, junto aos intelectuais de esquerda, a common decency é muito malvista: qualificada de moral “burguesa” ou “idealista” e até mesmo “de direita”, ela é suspeita de descartar a política e de alimentar o anti-intelectualismo. Reação que é possível compreender, Orwell concebia a common decency como uma virtude deficitária da “intelligentsia moderna”: desprovido do fundamento histórico e relacional que lhe teria permitido ter valores da honestidade universal, o intelectual seria, mais que qualquer outro ator social, permeável aos desvios autoritários de uma ordem que garante sua posição –mesmo quando ele mantém um discurso de emancipação.

A blasfêmia de “anti-intelectualista” poderia muito bem ter sido menos perdoada do que o engajamento póstumo e injusto de Orwell na cruzada anticomunista, ardente a invocar o stalinismo para desqualificar os ideais socialistas do movimento operário: se lermos bem 1984, nele encontraremos menos uma “caricatura do regime soviético” que a sátira da utopia que ele atribui aos intelectuais.


Essa utopia, “paródia das consequências intelectuais do totalitarismo”,5 é revelada por uma cena de tortura conduzida por um filósofo e dirigente do partido, que discute a natureza da verdade, defendendo concepções bem menos marxistas6 que pós-modernas. Na filosofia do partido, assim como na filosofia pós-moderna, a verdade, resultado de um consenso social, é construída, é relativa a um período, a uma cultura. O torturador não impõe tanto à sua vítima que ela reconheça que “dois mais dois são cinco” como uma verdade quanto ele lhe inflige uma lição de “pensamento duplo”, técnica de ajuste ao consenso do momento. Essa “competência” não é apanágio apenas dos “totalitarismos”; ela se encontra também em Donald Trump e suas “verdades alternativas”: “Tento dizer a verdade sempre, e quero sempre dizer a verdade. Mas, às vezes, acontece algo e há uma mudança, mas quero sempre ser sincero”.7

Uma vez que as referências à crítica do totalitarismo, feita por Orwell, estão mais associadas desde 1995 à internet e à vigilância de massa, sua inteligência política é, por assim dizer, vivificada, o que não foi útil para a nova edição de 1984 lançada pela Gallimard.

A primeira tradução padecia de certa falta de precisão, de escolhas que envelheceram, de faltas de detalhes, de alguns contrassensos importantes e de um grande número de frases ausentes. No entanto, ela implementou suas principais noções na língua francesa. Em 2018, para “fazer justiça [a 1984] de um ponto de vista literário”, a nova versão traduziu no presente uma narrativa escrita no passado, o que diz mais sobre a consideração da obra pelo editor do que sobre a “justiça”. E porque Newspeak não seria uma língua, novilínguatornou-se neofalar. No entanto, o romance dá a estrutura e a etimologia da “língua oficial da Oceania” com a qual seus habitantes são fadados a falar e a (não mais poder) pensar. No impulso, a polícia do pensamento tornou-se mentopolice, e o crime de pensamento, mentocrime.


De onde vêm “liberdades” como essas? Do direito de cada um de construir em cada leitura, em cada tradução, o sentido de um texto, afirma a tradutora. Mas não é justamente desse relativismo que o panfleto satírico de Orwell revela os perigos? Para seu herói, é a existência de uma verdade externa que torna a liberdade individual possível: limitando nosso privilégio e, sobretudo, o do poder, de decidir o que é. Não é o último subterfúgio da novilíngua nada mais que seguir as vias da literatura para substituir termos precisos por “novas palavras” vazias?

Thierry Discepolo fundou as Éditions Agone, que deu origem à nova tradução de 1984 publicada pelas Éditions de la rue Dorion (Montreal).

1 “Lettre à la duchesse d’Atholl” [Carta à duquesa de Atholl], 15 nov. 1945. In: George Orwell, Essais, articles et lettres [Ensaios, artigos e cartas], v.IV, Ivrea/Encyclopédie des nuisances, Paris, 2001.

2 Simon Leys, Orwell ou l’horreur de la politique [Orwell ou o horror da política] [1984], Plon, Paris, 2006.

3 George Orwell, “Pourquoi j’écris?” [Por que escrevo?], 1946. In: Essais, articles et lettres [Ensaios, artigos e cartas], v.I, Ivrea/Encyclopédie des nuisances, Paris, 1995.

4 Jean-Jacques Rosat, Chroniques orwelliennes [Crônicas relativas a Orwell], Collège de France, Paris, 2013.


5 “Lettre à Roger Senhouse” [Carta a Roger Senhouse], 26 dez. 1948. In: George Orwell, Essais, articles et lettres, v.IV, op. cit.

6 James Conant, Orwell ou le pouvoir de la vérité [Orwell ou o poder da verdade], Agone, Marselha, 2012.

7 Donald Trump’s wacky approach to truth, explained in 7 words [Abordagem excêntrica de Donald Trump sobre a verdade, explicada em sete palavras], CNN, 1º nov. 2018.
Le Monde Diplomatique Brasil

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