quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Galeria de arte no coração do Saara

No sudeste do Deserto do Saara encontra-se um dos maiores acervos mundiais de arte rupestre. Desenvolvido pelas populações locais ao longo de sete milênios, essa arte testemunha a grande mudança climática ocorrida na região. Tassili-n-Ajjer entrou na lista do Patrimônio Cultural e Natural Mundial da Unesco em 1982

Equipe Planeta

Teremos descoberto a Atlântida enterrada?”, escreveu cheio de entusiasmo Henri Lhote em seu caderno de notas, em 1933. Ao tomar conhecimento do conteúdo do relatório de uma patrulha do exército francês na bacia do “oued” (curso d’água) Djerat, esse explorador e etnólogo francês correu para o sudeste do Saara argelino. O que deveria ser uma simples visita científica se converteu logo numa longa exploração arqueológica que durou 18 meses. O que Lhote descobriu nas montanhas de Tassili-n-Ajjer superou todas as suas expectativas: as paredes rochosas desse desfiladeiro de 30 quilômetros de extensão estavam literalmente cobertas de inscrições e, sobretudo, de pinturas rupestres.

As IMAGENS mostram um Saara verdejante e cheio de vida, antes que uma mudança radical do CLIMA desse fim a um período de ABUNDÂNCIA na região

Essas pinturas dão testemunho de um mundo único. Nelas, girafas, elefantes, antílopes, leões, bovídeos e cavalos narram a vida dos caçadores e dos pastores de outrora. Tais imagens documentam um Saara verdejante, cheio de vida animal e humana, antes que uma mudança radical do clima na região pusesse fim a um período de abundância sobre esse planalto de 700 quilômetros de extensão por 100 quilômetros de largura. É simplesmente impressionante o contraste entre o que se observa nessas pinturas e a paisagem de deserto árido na qual a região se tornou desde então.

Lhote identificou quatro estilos sucessivos na execução dessas pinturas e inscrições, cujas datações e características foram depois aperfeiçoadas por outros especialistas. O primeiro período é o das “cabeças redondas”, caracterizado por desenhos inteiramente cor violeta de seres humanos nus, sem diferenciação de sexo. Após a descoberta de tons ocres, as pinturas se tornam mais detalhadas: já é possível distinguir-se a musculatura das pernas e dos braços. Pinturas e inscrições de animais como o búfalo gigante, já extinto, também se encontram entre esses primeiros trabalhos.


As formações geológicas do Parque Nacional Tassili-n-Ajjer (nas fotos acima) são de uma beleza impressionante, com suas imponentes montanhas de arenito compondo verdadeiras “florestas” rochosas. Ao lado, beduínos contemporâneos e seus dromedários descansam em pleno deserto esculpido por rochas do Tassili.


As primeiras populações de pastores sedentários do Tassili descobriram então novas cores. A mistura do vermelho e do branco com o ocre, já conhecido, possibilitou uma vasta paleta de nuances, do amarelo claro ao chocolate. Já as pinturas do “período dos bovídeos” correspondem à chegada de bovinos à África do Norte, ao redor de 4500 a.C., e que durou até meados do terceiro milênio antes de Cristo.

Nessa fase, as proporções da pessoa representada são bem exageradas: parece que o importante era o tamanho, e não a beleza. Ao mesmo tempo, homens e animais ganham em termos de realismo. Rebanhos e pastores parecem correr com a velocidade do vento. Perto dessas imagens, nas mesmas paredes de pedra, outras pinturas mostram homens que se banham nas águas de um rio.

O apaixonado Lhote

Durante os 16 meses em que durou sua expedição ao Tassili, Henri Lhote não limitou seu trabalho a simples levantamentos do material encontrado na área. Indo muito mais além, ele classificou as pinturas, estabeleceu grupos e conjuntos com características bem definidas, procurou atribuir a eles um lugar no tempo. Nasceu assim a primeira classificação das pinturas do Saara central, da qual as linhas principais se ajustam perfeitamente às classificações de arte rupestre estabelecidas por outros estudiosos como Flamand e Monod.

Os primeiros croquis das pinturas e inscrições rupestres do Tassili foram feitos, no fim da década de 1930, pelo tenente Brenans, eminente especialista em pré-história que acompanhou Lhote na região de Djanet. O sonho de ambos era tornar conhecidos no mundo os misteriosos desenhos do Tassili. Eles foram finalmente apresentados ao mundo científico no congresso de pré-história, realizado em Argel, em 1952.

Em 1956, o Museu do Homem, de Paris, na França, chamou Lhote para dirigir uma grande campanha destinada a inventariar o acervo rupestre do Tassili. A descoberta desses desenhos constitui o acontecimento mais importante no setor das pesquisas sobre pré-história naquela época.

A seguir, representações de cavalos mostram um progressivo desenvolvimento cultural dos habitantes do Tassili. É o “período dos cavalos”, que corresponde à introdução desses animais no norte da África, segundo atestam descobertas arqueológicas, em cerca de 2000 a.C.

Finalmente, ao redor dos anos em que Jesus Cristo viveu, tem início no Tassili um “período dos camelos”, também correspondendo aos tempos em que esses animais (na verdade dromedários) surgiram na África do Norte. Pouco a pouco, os dromedários se tornam os animais de carga por excelência na região, ao mesmo tempo que, curiosamente, a pintura rupestre perde sua importância na vida das comunidades humanas.

No Tassili, o período dos camelos assinala o retorno ao desenho rudimentar. As descrições de cenas do cotidiano tornam-se cada vez menos realistas. Ao mesmo tempo, as pinturas começam a apresentar outros elementos, tais como carruagens e escudos, além dos já citados dromedários.

Embora próxima da Península Ibérica – onde também há abundância de arte rupestre primitiva –, acredita-se que essa arte na Argélia e sobretudo no Tassili se desenvolveu de forma independente dos estilos da Europa.

Quanto às pinturas do período das “cabeças redondas”, Lhote observou um importante paralelo estilístico com os desenhos da antigüidade egípcia. Ele descobriu inclusive seis desenhos de barcos de um modelo de uso corrente no Nilo.

“Os pastores do Tassili mantinham uma relação com a civilização egípcia. Eles provavelmente vieram do leste e se fixaram aqui”, conclui o arqueólogo. Ao mesmo tempo, vários elementos de outros desenhos sugerem que parte dos habitantes do Tassili não era originária do Egito, e sim da África Negra.

“Não descobrimos a Atlântida”, admitiu Lhote ao final de sua viagem, “mas aprendemos algo muito mais importante. Podemos provar que o Saara central é, desde o Neolítico, um dos mais importantes sítios de colonização da pré-história. Há muito tempo, o deserto estava recoberto por gigantescos prados verdejantes e povoado por numerosas civilizações que nos deixaram o testemunho de sua existência.”

As pinturas rupestres do Tassili-n-Ajjer

Patrimônio cultural e natural: no parque nacional de 80 mil quilômetros quadrados do “Vale do Rio Djerat” (Oued al Djerat) existem mais de 15 mil pinturas e inscrições rupestres. Elas representam sobretudo hipopótamos, búfalos, elefantes, rinocerontes e girafas e retratam as tremendas mudanças climáticas ocorridas na região. Elas não apenas modificaram a fauna e a flora, mas também influenciaram os rumos da evolução humana no local. Parcialmente protegido desde 1972, o planalto do Tassili e o Maciço do Adrar se situam no sudeste do Deserto do Saara, entre 1.150 e 2.158 metros de altitude. O clima da região é seco, com pluviosidade média de 30 mm por ano.

Continente: África
País: Argélia, na fronteira com o Níger e a Líbia.
Lugar: Parque Nacional do Tassili-n-Ajjer, a noroeste de Djanet.
Inscrição no Patrimônio: 1982
Interesse: um dos mais importantes sítios de arte rupestre do mundo, situado dentro de uma “floresta de arenito”.
Flora e fauna: 28 espécies de plantas indígenas raras, como o Ficus ingens e, no Vale dos Ciprestes, 100 ciprestes da espécie Cupressus dupreziana, da qual restam apenas 240 espécimes no mundo todo, oliveiras, murtas e várias espécies endêmicas. Composta ainda por 23 espécies de mamíferos, como a gazela dorca, o carneiro “com mangas”, o guepardo, o caracal (gato selvagem), e pássaros migratórios como a garça púrpura e a cegonha branca, além de vários rapaces.

Cronologia
7500 ou 6000 a.C.: o habitat mais antigo e as mais velhas pinturas rupestres naturalistas, do “período das cabeças redondas”.
5000 a 2500 ou 2000 a.C.: pinturas rupestres do “período dos bovídeos”.
Cerca de 1500 a.C.: pinturas e inscrições do “período dos cavalos”.
Cerca de 200 a.C.: representações de caravanas de camelos.
1847: descoberta do sítio por um oficial das forças coloniais francesas.
1933: viagem do arqueólogo Henri Lhote ao sudeste do Saara argelino.




Figuras rupestres do Tassili-n-Ajjer, um dos maiores museus de arte ao ar livre do mundo, com um invejável acervo de mais de 15 mil desenhos e gravações de arte rupestre. Acima, em sentido horário, uma pintura rupestre do período das “cabeças redondas” e pintura pertencente ao período “dos bovídeos”.

Revista Planeta

2 comentários:

Mirze Souza disse...

Maravilhosa arte rupestre!

Uma das mais difíceis de se encontrar em exposição.

Henri Lhote, descobriu sim, uma Atlântida, uma verdadeira floresta de pedras, de igual forma em beleza mineral.

Aprendi também sobre os camelos, que pensava que sempre tivessem existido.

Muito boa postagem!

Um abraço!

Mirze

Silvana disse...

Que ótima postagem... informações interessantes. Parabéns pelo seu blog!

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