sexta-feira, 10 de abril de 2009

Mas o que isso tem a ver com meio ambiente?

Colunista mostra o que o LHC, a crise econômica americana e o aquecimento global têm em comum


Um dos detectores de partículas do LHC, inaugurado este mês, quando ainda estava em fase de construção (reprodução).

Cena 1: A recente inauguração do LHC, o mega-acelerador de partículas da Organização Européia para Pesquisa Nuclear (CERN), na fronteira franco-suíça, provoca temores de formação de buracos negros que tragariam os incautos cientistas, seus equipamentos e, quem sabe, o mundo inteiro.

Cena 2: O governo americano – ou seja, o contribuinte americano – injeta centenas de bilhões de dólares no seu sistema financeiro para salvar bancos que apostaram alto com dinheiro alheio em operações duvidosas, provocando um efeito cascata mundial e expondo a ineficiência das agências reguladoras.

Mas... um momento. Esta não é uma coluna de física nem de economia, é de meio ambiente! O que essas cenas têm a ver com o assunto? Cadê as tartarugas, botos e outros representantes da chamada “fauna carismática”?

Vamos à cena 1: como reagimos aos temores ali expressos? Com um sorriso condescendente, lembrando de todas as seitas apocalípticas à espreita dos menores sinais de nosso fim, inevitável, embora sempre adiado. Mas talvez também com uma ponta de temor: não sou físico, o perigo parece improvável, mas... Já brincamos com fogo antes: e se os paranóicos estivessem certos?

Lembremos agora de como reagimos coletivamente aos primeiros avisos de que a Terra estava se aquecendo... Com descrença. Primeiro duvidou-se que o aquecimento fosse real, depois de que ele fosse imputável às atividades humanas. Agora se discute quanto vai custar fazer algo, qual seria o prejuízo de não fazer nada e quem vai pagar a conta em qualquer dos casos. Uma notável evolução, e em menos de duas décadas.

Previsões otimistas
Mas será que vai mesmo dar tempo de fazer alguma coisa? Já não teremos lançado buracos-negros bomba-relógio na biosfera em quantidade suficiente para ameaçar nossa própria sobrevivência? O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgou no inicio de setembro um novo estudo sobre as mudanças climáticas na Amazônia, em que prevê um aquecimento de até 7 graus até 2100. As primeiras previsões, na verdade, eram então demasiado otimistas...

E não estamos falando apenas de micos, bagres e posseiros semi-analfabetos. A produção de alimentos e energia no Sudeste do Brasil e, por extensão, no Mercosul, depende... da chuva. E a chuva no Sudeste depende do balanço hídrico da Amazônia. Simples assim. Os “ambientalistas radicais”, os “ecochatos” estavam certos: previram que a chapa ia esquentar, só erraram na estimativa do quanto. E toda semana pipocam novas evidências de que o bicho é mais feio do que parece.

Uma das últimas é o derretimento da calota do Pólo Norte, a ponto de abrir duas passagens navegáveis entre o Atlântico e o Pacifico – já disputadas por Canadá e EUA –, materializando ironicamente a sonhada passagem Norte, na busca da qual tantos exploradores pereceram inutilmente nos séculos 18 e 19.


Foto tirada pelo satélite Aqua mostra com detalhes inéditos a diminuição da cobertura de gelo no Pólo Norte. Essa cobertura atingiu este mês o segundo ponto mais baixo já registrado (foto: NASA/GSFC).

Mas o detalhe macabro não tira o sono do Sr. Mercado, que, ao contrário, festeja a notícia, enquanto recalcula, para baixo, os custos de frete. Que sorte incrível, acabamos de devolver o Canal de Panamá ao Panamá e abre-se uma opção ao norte que não exigiu nenhum investimento e, ainda por cima, não tem pedágio nem mosquitos!

A implacável lógica do mercado
E assim chegamos à cena 2. Quem decide, quem lucra, quem perde? E o que isso tem a ver com meio ambiente? Tudo. Quem vai decidir se o Brasil em dez anos será um grande canavial, um grande campo de soja ou um mosaico de culturas, cultivos e paisagens não é você, nem mesmo nosso presidente. É o Sr. Mercado e suas empresas: anônimas, multinacionais, mais fortes que os governos e regidas pela lógica implacável do crescimento do lucro a curto prazo.

O horizonte da empresa é a próxima reunião de acionistas. Seus diretores são até muito simpáticos, mas, embora saibam que promovem um estilo de vida insustentável, não querem ser as primeiras vitimas da próxima reestruturação. Assim, as empresas seguem seu caminho, abocanhando mercados e oportunidades antes que outras o façam, tentando lucrar com o veneno e com o antídoto, enquanto ainda for possível fabricar os dois. Depois... bem, o depois é tema para a próxima diretoria!

Mas e os governos e suas agências reguladoras? Eles não chegarão para nos salvar, no último momento, como a cavalaria nos filmes de bangue-bangue? Não. Não se seus postos-chave forem ocupados por ex ou futuros empregados das empresas em questão, no que se convencionou chamar de padrão das “portas giratórias”.


Lavoura de soja em Wisconsin, nos Estados Unidos, maior produtor mundial do grão. Em 2006, 89% da soja produzida ali era transgênica (foto: Wikimedia Commons).

Paranóia? Então explique como foi possível cobrir boa parte da superfície terrestre com plantas transgênicas patenteadas sem que qualquer estudo sério, reprodutível e independente atestasse previamente sua segurança para o meio ambiente e nossa saúde, ou até mesmo sua lucratividade em relação às alternativas convencionais.

Transgênica ou não, a agricultura hoje se faz cada vez mais sem agricultores. Investidores compram a terra que nunca pisaram, uma empresa cuida do plantio, outra se encarrega da fumigação aérea com herbicidas e pesticidas, uma terceira da colheita e assim por diante.

Impactos como erosão, redução da biodiversidade, efeitos tóxicos sobre os humanos e a biota, inchaço das cidades por êxodo rural e prejuízos caso a aventura comercial der errado não entram nas planilhas e contratos. São as chamadas externalidades, primas dos danos colaterais das guerras modernas. Quando os estudos acadêmicos, caros, longos e complexos, provarem finalmente que não valia a pena, as empresas estarão na terceira fusão, os políticos no enésimo mandato, e um longo processo judicial apenas começando. Nada contra a agricultura: foi só um exemplo.

Vai dar tempo?
Ficção cientifica? Quem dera. Assista a dois vídeos notáveis, The story of stuff e The corporation, ambos disponíveis na internet. O primeiro analisa de forma clara o ciclo infernal de produção, consumo e descarte do qual parecemos prisioneiros. O segundo investiga, com eloqüentes exemplos, a personalidade das empresas, “pessoas jurídicas”, concluindo que estas atendem os requisitos da Organização Mundial da Saúde (OMS) para classificação de pessoas físicas como psicóticas... Mesmo que seus funcionários sejam, individualmente, ótimos vizinhos.

Tentarei ser mais otimista nas próximas colunas e falar de borboletas, baleias e micos-leões-dourados. Como os arautos do apocalipse, também estou à espera dos menores sinais... mas dos sinais de que o bicho não seja tão feio quanto se pinta. Afinal, também quero conhecer a neve, e odiaria imaginar que meus netos talvez não cheguem a conhecê-la e ainda tenham que disputar ar, água e comida a tapa.

A cavalaria chegará a tempo? Ou os otimistas estão mal intencionados, ou mal informados? Talvez a redação desta conclusão dependa... de você. Se tudo se resume a uma questão de oferta e demanda, então vale a pena perguntar: você precisa mesmo trocar de carro, de calça ou de monitor? Você tem idéia de onde vem a sua comida? Ou de como foi produzido o carvão do seu churrasco, o chip do seu celular e aquele objeto irado que você acabou de comprar a R$ 1,99 numa promoção imperdível? O que pensa seu(sua) vereador(a) sobre tudo isso? Quem banca a campanha dele(a)?

E, de novo, o que isso tem a ver com meio ambiente? Tudo.

Jean Remy Guimarães
Universidade Federal do Rio de Janeiro
19/09/2008
Revista Ciência Hoje

Um comentário:

Guina Ramos disse...

Prof. Eduardo,
muito bons, o blog e seus textos!
Na falta de um e-mail, aproveito este espaço para convidá-lo a conhecer a série "2110, o ano que vai ser... o fim!", em http://www.2110ofim.blogspot.com, tudo a ver com suas preocupações.
Parabéns,
abs,
Guina Ramos

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