sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A água que vem do fundo da terra

As necessidades cada vez maiores de água para as pessoas, a indústria e a agricultura estimulam a exploração das reservas existentes no subsolo. Mas boa parte dos cuidados exigidos para esse aproveitamento ainda não é adotada

A vida e o sustento da humanidade dependem da água, e o crescimento populacional impõe uma busca contínua por esse líquido precioso. No entanto, muitas pessoas vivem em áreas onde falta água potável. Para suprir com qualidade a raça humana, além da agricultura e da indústria, é indispensável aproveitar a água subterrânea, a maior e mais segura de todas as fontes de água potável. É ela que responde por 80% da água potável consumida na Europa e na Rússia, e mais ainda no norte da África e no Oriente Médio.
A água subterrânea existe em todo o mundo. A possibilidade de extraí-la varia muito de lugar para lugar, dependendo das chuvas e da distribuição dos aqüíferos (as formações geológicas em que a água pode ser armazenada e que possuem permeabilidade suficiente para permitir que ela se movimente). Em geral, a água subterrânea é renovada apenas numa época do ano, mas pode ser extraída o ano inteiro. Desde que o reabastecimento seja adequado e a fonte esteja protegida da poluição, essa extração pode ser feita indefinidamente.
A água subterrânea integra o ciclo da água (ver pág. 50) e, portanto, está intimamente ligada a processos atmosféricos ou climáticos, ao regime de rios e lagos e às nascentes e às terras úmidas que essa água alimenta ao chegar à superfície. Todos esses recursos se complementam, estendendo-se das regiões áridas até os trópicos.
Os recursos de água doce da Terra são, principalmente, o gelo, a neve e as águas subterrâneas (os rios e lagos constituem apenas uma pequena parte desse total). O volume de água subterrânea fresca gira em torno de 10 milhões de quilômetros cúbicos - mais de 200 vezes o total dos recursos de água doce renovados anualmente pela chuva.
Nas zonas áridas, a escassez de água doce força as populações locais a usar a água subterrânea disponível. Mas a extração muito intensiva não é sustentável e pode originar riscos como subsidência (afundamento abrupto ou gradativo da superfície terrestre) e fissuração dos solos. A captação de água subterrânea só é praticável em casos (raros) nos quais a reserva estática do líquido é, proporcionalmente, muito maior do que a população.

Nos climas úmidos, as chuvas fazem com que grandes quantidades de água se infiltrem no solo e nas rochas, contribuindo para alimentar os rios nos períodos mais secos.

EMBORA FIQUEM atrás dos rios no que se refere à distribuição de toda a água doce existente, as águas subterrâneas são o maior regulador desse recurso. Elas constituem a parte invisível do ciclo da água, em que evaporação, precipitação, infiltração e descarga são os principais componentes. Os componentes "visíveis" são fortemente afetados pelas condições climáticas. Podem ser poluídos rapidamente, mas também podem recuperar-se em pouco tempo. Já os processos subterrâneos duram de anos a milênios. Porém, com uma gestão cuidadosa, todos podem ser usados para criar um sistema de fornecimento que faça frente a condições de seca.

O risco da poluição

Se poluída, a água pode transmitir doenças e transportar substâncias químicas venenosas. A água não contaminada é, assim, um importante tema transversal no âmbito dos Objetivos do Milênio para o Desenvolvimento da ONU (www.un.org/ milleniumgoals/).
Em geral, a água subterrânea é menos poluída, pois está protegida da contaminação na superfície proveniente dos solos e da cobertura rochosa. No entanto, o aumento da população, as mudanças observadas no uso da terra e a industrialização acelerada ameaçam as reservas. Por isso, a qualidade dessa água deve ser controlada antes, durante e após sua utilização.


OS REGIMES DE água subterrânea diferem de região para região (ver ilustrações da página ao lado). Em climas úmidos, as chuvas levam grandes volumes de água a infiltrar-se no solo e nas rochas, contribuindo ativamente para alimentar rios, fontes e zonas úmidas nos períodos de menor precipitação. Já nos climas áridos e semi-áridos quase não há trocas entre a água de superfície e a subterrânea, pois o reduzido volume de chuva raramente penetra nos solos espessos e secos. Nessas áreas, a recarga das reservas é mínima.
A disponibilidade de água subterrânea varia muito de acordo com a região. As condições climáticas - em especial a chuva - determinam o volume recarregado, que é controlado pelas características das rochas- reservatório. Os recursos hídricos apenas podem ser utilizados de forma sustentável se sua extensão espacial e sua variação ao longo do tempo forem bem compreendidas. Mas essa informação é em geral desconhecida, mesmo nos países desenvolvidos.
Cerca de 30% da área continental (exceto a Antártica) tem aqüíferos relativamente homogêneos com reservas importantes. Por volta de 19% envolve regiões geologicamente complexas bem providas de água subterrânea. Metade da área continental contém, em geral, reservas menos significativas, mas muitas vezes suficientes para sustentar cidades pequenas e médias.
Quinze por cento das terras do planeta recebem, em média, menos de 200 mm de chuvas por ano (cerca de 200 litros por m2). Nessas regiões há, normalmente, uma recarga muito baixa da água subterrânea; por isso, a quantidade usada não será reposta por centenas (ou milhares) de anos. Assim, a extração de água nessas áreas deve ser vista como a exploração de um recurso limitado.
A renovação dos estoques disponíveis de água é uma questão crucial no atual momento. Segundo a ONU, o volume médio anual de água renovável é de 43 mil quilômetros cúbicos - cerca da metade da água doce existente em todos os lagos naturais da Terra. A recarga de água subterrânea é de 10 mil km3 anuais (cerca de 0,1% de todas as reservas) - ou seja, uma pequeníssima proporção do volume total desses estoques é reposta a cada ano.
Nascidos sob climas muito mais úmidos, alguns sistemas de água subterrânea situados nas zonas áridas do mundo não são renováveis nas condições atuais, mas estão sendo explorados de forma cada vez mais intensa. Um deles é o Sistema Aqüífero do Arenito Núbio, cujos mais de 2 milhões de km2 estendem-se sob terras do Chade, do Egito, da Líbia e do Sudão, na África. Ele conteria cerca de cem vezes o atual valor anual do consumo de água no mundo.

O ciclo da água tem diferenças nas várias zonas climáticas do mundo. Acima, os exemplos da Alemanha (esquerda) e da Namíbia.
Sem fronteiras

A água subterrânea não pára à porta das fronteiras políticas. Explorá-la em determinado país pode afetar dramaticamente a água de outro. Por esse motivo, sua gestão requer cooperação internacional e instituições governamentais e legais apropriadas. Uma vez que a água subterrânea se desloca obedecendo a leis físicas, as estruturas hidrogeológicas devem ser investigadas, exploradas e geridas na sua totalidade. Isso significa que a investigação deve atravessar, igualmente, fronteiras nacionais - um fato muito importante em regiões áridas sensíveis, nas quais as áreas de captação da água dos rios à superfície podem ser bastante diferentes das ocorrências de água subterrânea, localizadas a profundidades maiores.


IMAGINA-SE QUE existam depósitos com dimensões idênticas a essas e recarga limitada em quase todos os continentes, mas a quantidade de água utilizável neles é desconhecida. É necessário obter informações sobre aspectos como idade, tempo de permanência e fluxo da água no subsolo, características geológicas e químicas e processos envolvidos. Duas iniciativas da Unesco colaboram nesse sentido: 1) O Programa Mundial de Avaliação e Cartografia Hidrogeológica (WHYMAP, Unesco - www.whymap.org), em cooperação com a Associação Internacional de Hidrogeólogos, a Agência Internacional de Energia Atômica e o Instituto Federal Alemão para as Geociências e os Recursos Naturais. 2) O Centro Internacional de Avaliação de Recursos de Água Subterrânea (Igrac - www.igrac.nl), co-patrocinado pela World Meteorological Organization.
A procura de água cresce à medida que aumentam a população, a atividade econômica e a irrigação. Mas as reservas mundiais acessíveis de água diminuem devido a sua superutilização e poluição. Mais de 30 países sofrem de uma séria e crônica falta d'água e recorrem cada vez mais à água subterrânea.
A agricultura é a maior consumidora de água no mundo (70%), seguida da indústria (20%) e das residências (10%). Esforços consideráveis têm sido feitos para reduzir o consumo na indústria e nos lares, mas ainda há muito a fazer quanto à irrigação.
A proporção de água usada nesses setores varia de região para região, em sintonia com a economia. Na Europa e na América do Norte, o principal consumidor é a indústria; na Ásia e na África, a agricultura. Em muitas regiões áridas e semi-áridas, cerca de 30% da água subterrânea é extraída para irrigação, e a tendência tem aumentado. Em boa parte dessas áreas, as atuais políticas de gestão da água agravaram o problema. Embora seja essencial reduzir a exploração dos aqüíferos não recarregados, muitos países em climas secos a subsidiam. O reúso de efluentes tratados oferece uma solução parcial para o problema.

Os temas-chave

Embora a extração da água subterrânea tenha crescido nas últimas décadas, ainda se sabe pouco sobre esse recurso e seu uso sustentável, uma vez que a hidrogeologia é uma área científica jovem. Em 2005, a ONU proclamou a Década para a Água a fim de encorajar temas transversais relativos à água implicados nos Objetivos do Milênio para o Desenvolvimento. A água subterrânea terá um papel significativo nesta Década.
Ações em desenvolvimento no âmbito desse programa:
*Cartografar e quantificar os recursos de água doce subterrânea, incluindo a identificação de bacias transfronteiriças partilhadas por vários países.
*Investigar os processos de recarga, fluxo e descarga em sistemas de água doce subterrânea e seu papel nos ecossistemas.
*Minorar os impactos ambientais oriundos da extração e degradação das águas subterrâneas, protegendo zonas úmidas afetadas, prevenindo a deterioração dos estoques em termos de quantidade e qualidade e monitorando seus sistemas a longo prazo.
*Reconhecer o valor da água em diversos ambientes e implementar estratégias para conservar e salvaguardar os recursos hídricos.
Questões-chave:
Quanta água subterrânea existe e como pode ser usada de forma sustentável?
Como a exploração inadequada das reservas "fósseis" de água pode ser identificada e gerida a fim de minimizar seu esgotamento e suas desastrosas conseqüências humanas/ecológicas? Isso requer um entendimento melhor da recarga em geral.
Como as reservas vulneráveis de água subterrânea podem ser protegidas da poluição? Como os recursos vitais poluídos podem ser recuperados?

INDEPENDENTEMENTE das medidas de conservação adotadas, a extração de água subterrânea é quase inevitável. Esses estoques significam, muitas vezes, o único fornecimento de água a um preço justo. Como os fluxos de água subterrânea são muito lentos, as conseqüências da superexploração só poderão ser visíveis daqui a alguns anos ou décadas. Assim, as estratégias futuras deverão incluir um monitoramento bem planejado da extração e da qualidade desse líquido.
A água subterrânea é o mais aproveitado recurso natural. Sua produção em 2004 ficou entre 600 e 700 bilhões de toneladas - no mesmo ano, o consumo mundial de areia e brita foi de aproximadamente 18 bilhões de toneladas. O caráter essencial desse recurso o torna, inclusive, propriedade pública em muitos países. Para manter o abastecimento sustentável, porém, os custos de exploração, tratamento e fornecimento precisam ser cobertos via pagamento de taxas.
A discussão sobre o fornecimento público, os lucros, a irrigação, a liberalização do mercado hídrico e o investimento privado continua em todos os níveis da sociedade. O Objetivo do Milênio para o Desenvolvimento, formulado pela ONU a fim de reduzir em 50% o número de pessoas sem acesso a água potável até 2015, será atingido apenas com um investimento hoje estimado em torno de R$ 38 bilhões anuais.
Se a sociedade continuar a usar a água subterrânea sem assegurar o necessário reabastecimento, a crise da água só se agravará. Estratégias de uso sustentável devem ter em conta as características de todos os reservatórios do ciclo da água e garantir que seu pleno uso seja feito segundo bases científicas.

Autores: William Struckmeier (Alemanha), com Yoram Rubin (Estados Unidos) e J.A.A. Jones (Grã-Bretanha).

PARA SABER MAIS
Site: www.yearofplanetearth.org

Revista Planeta

Os segredos do fundo da terra

Nos últimos 15 anos houve um notável progresso nas pesquisas sobre o que acontece no interior do nosso planeta, mas os cientistas ainda esperam novos avanços. Deles poderão surgir, por exemplo, maneiras de prever terremotos ou de programar o uso sustentável dos recursos naturais

Cratera com lava no Parque Nacional dos Vulcões, no Havaí.

A sociedade tem grande interesse nos progressos feitos pelos cientistas no estudo do interior da Terra. A expectativa se explica: há necessidades urgentes de fornecimento de água, recursos minerais, proteção contra desastres naturais e controle ambiental. A área teve enormes avanços nos últimos 15 anos, particularmente em termos de técnicas de visualização remota, mas ainda é preciso ir além.

De qualquer modo, o que foi obtido nos últimos anos merece destaque. Nesse período, os geólogos começaram a compreender a geosfera em termos mais mensuráveis (quantitativos). Técnicas sísmicas mais avançadas levaram a um melhor conhecimento da estrutura tridimensional do manto (camada de rochas em estado sólido ou pastoso que representa 80% do interior do planeta, entre a crosta e o núcleo da Terra) e da litosfera (a região mais exterior da Terra, composta pela crosta terrestre e pela camada de placas tectônicas do manto). Pode-se descrever, em termos numéricos, como funcionam as profundezas do sistema Terra; ao mesmo tempo, a análise quantitativa de bacias em que os sedimentos se acumulam permitiu ligar o interior do planeta ao registro das alterações gravadas nesses sedimentos ao longo do tempo.

Formas melhores de "ver" através da rocha possibilitaram aos geocientistas compreender a estrutura da litosfera e de que modo a pressão exercida pelos movimentos das placas tectônicas a leva a deformar-se. Progressos recentes na datação permitiram descobrir a velocidade desses processos, com a precisão necessária para distinguir entre as diferentes forças que moldam a paisagem.

A modelagem da forma como o relevo muda ao longo das eras atingiu um estágio em que se podem reunir, no tempo e no espaço, estudos relativos à deposição de sedimentos e à sua erosão. Numa escala muito menor, técnicas de detecção que utilizam ondas sísmicas ou eletromagnéticas possibilitam o exame de problemas de arquitetura sedimentar (a maneira como diferentes sedimentos se estruturam).

A maneira como as rochas são erodidas em certas áreas da crosta terrestre e redepositadas em outras - e, ainda, como o interior plástico da Terra reage às correspondentes mudanças de pressão - recebe o nome de transferência de massa. Esse tópico se apresenta como uma nova fronteira nas atuais Ciências da Terra - ou seja, a tentativa de compreender quantitativamente tais processos.

O passo essencial rumo a uma abordagem em quatro dimensões (envolvendo, simultaneamente, espaço e tempo) precisa da modelagem dos processos da geosfera, de forma a incorporar dados em escalas menores com as técnicas atuais, de elevada qualidade, de visualização sísmica. É preciso explorar a Terra para obter uma imagem de alta resolução da estrutura e dos processos do seu interior.

Esse estudo passará por alguns temas-chave, apresentados a seguir.

Relevo - O relevo terrestre resulta da interação entre os processos que ocorrem no interior, na superfície e na atmosfera. Ele influencia a sociedade, não apenas em termos dos processos lentos da mudança da paisagem, mas também através do clima. Sua evolução (mudanças de nível nos continentes, na água doce e no mar) pode afetar seriamente a vida humana, animal e vegetal. Quando há uma subida dos níveis de água doce ou do mar, ou quando o continente sofre subsidência (afundamento abrupto ou gradativo da superfície), aumenta o risco de cheias, afetando diretamente ecossistemas locais e aglomerados humanos. Por outro lado, a queda dos níveis de água doce e o levantamento do continente podem levar a um maior risco de erosão ou mesmo de desertificação.

Essas alterações provêm tanto de processos naturais como de atividades humanas, embora a contribuição absoluta e relativa de cada fator ainda seja mal compreendida. O estado atual e o comportamento do Sistema Terra na superfície são consequência de processos que ocorrem em escalas de tempo bem abrangentes. Eles incluem:

>>Efeitos tectônicos a longo prazo no levantamento, na subsidência e nos sistemas fluviais;
>>Efeitos residuais das épocas glaciais nos movimentos da crosta terrestre (o peso do gelo acumulado pressiona a crosta, que leva milhares de anos para recuperar-se depois do degelo);
>>Alterações climáticas e ambientais ao longo dos últimos milênios;
>>Os poderosos impactos antropogênicos do século 20.

Compreender o atual estado do Sistema Terra, tanto para predizer o futuro quanto para programar o uso sustentável dele, implica entender melhor esse espectro de processos (operando simultaneamente, mas em diferentes escalas de tempo). O desafio para as Ciências da Terra é descrever o estado do sistema, monitorar suas alterações, prever sua evolução e, em parceria com outras ciências, avaliar diferentes modelos para seu uso sustentável por parte dos seres humanos.

A investigação deverá concentrar-se na interação entre a tectônica ativa, a evolução do relevo e as alterações do nível do mar a elas relacionadas, assim como o desenvolvimento do padrão de drenagem dos rios. Isso significa desenvolver uma estratégia integrada de observação e análise que enfatize as mudanças em grande escala em zonas vulneráveis do globo.

Atividades vulcânicas, com a emissão de gases, remodelam constantemente as características ambientais da crosta terrestre.

Atividades vulcânicas, com a emissão de lava , remodelam constantemente as características ambientais da crosta terrestre.
Geoprevisão - A crescente pressão que estamos fazendo sobre o ambiente nos torna cada vez mais vulneráveis. Temos necessidade urgente de "sistemas de geoprevisão" cientificamente avançados que possam, de forma precisa, localizar recursos no subsolo e prever a altura e a magnitude de terremotos, erupções vulcânicas e a subsidência de terrenos. A concepção desses sistemas coloca um desafio científico multidisciplinar bem grande. A previsão dos processos que ocorrem na Terra também condiciona a previsão em outras ciências, como as oceanográficas e as atmosféricas.

Prever o comportamento dos sistemas geológicos requer um amplo entendimento dos processos e dados de alta qualidade. Espera-se que ocorra progresso nas previsões quantitativas relativas à interface entre a modelagem e a observação. É aqui que as hipóteses científicas são confrontadas com a realidade observável. Na sua versão mais avançada, a sequência integrada "observação, modelagem, quantificação dos processos, otimização e previsão" é levada a cabo de forma periódica (tanto no espaço como no tempo) e os resultados obtidos são vitais para a criação de novos desenvolvimentos conceituais.

Observar o presente - A informação sobre a atual estrutura do subsolo e do interior da Terra é um aspecto fundamental da ciência relativa à geosfera. Esse aspecto diz respeito ao estudo dos processos ativos e dos que já terminaram, mas que podem ter contribuído para as estruturas atuais. O estudo dos processos ativos é importante porque as observações a eles relacionadas (que envolvem, por exemplo, a atividade sísmica, a deformação superficial e o campo gravitacional da Terra) podem ser realizadas (e utilizadas) como condicionantes da modelagem desses processos. A compreensão relativa aos processos adquirida com esses exercícios é muito valiosa, pois permite guiar a reconstrução de processos passados.

Reconstruir o passado - Embora tenha mudado continuamente ao longo do tempo, a geosfera ainda possui vestígios da sua evolução inicial. Revelar os papéis desempenhados pelos processos litosféricos internos e externos no controle das taxas de erosão e da sedimentação representa um grande desafio.

A cobertura sedimentar da litosfera fornece um registro em alta resolução das mudanças ambientais, assim como da deformação e da transferência de massa à superfície e a diferentes profundidades da crosta, da litosfera e do manto. Nas últimas décadas, a análise sedimentar de bacias tem estado na vanguarda na integração dos componentes sedimentares e litosféricos dos campos (anteriormente separados) da geologia e da geofísica.

Um grande objetivo é integrar a tectônica ativa, os processos superficiais e a dinâmica da litosfera na reconstrução do antigo relevo das bacias e de suas áreas circundantes. Uma abordagem integrada é igualmente importante, considerando-se o papel social que essas bacias desempenham na localização de recursos, como hidrocarbonetos. Além disso, uma vez que a maioria das pessoas mora atualmente dentro ou perto de bacias sedimentares (em zonas costeiras e deltas), tanto as populações como os aglomerados onde elas vivem permanecem vulneráveis a riscos geológicos colocados pela atividade do sistema Terra.

Chaminés vulcânicas no fundo do oceano criam ecossistemas únicos, repletos de formas de vida que não existem em nenhum outro lugar, como essas estrelas-do-mar
Deformação da litosfera - A forma como as rochas do manto terrestre "fluem" exerce controle sobre a espessura e a resistência das placas litosféricas, a extensão do acoplamento entre os movimentos das placas e o fluxo no interior da Terra e o padrão e a taxa de convecção na astenosfera (região de 700 quilômetros de profundidade que fica abaixo da litosfera), assim como sobre processos mais localizados. A fim de compreender o comportamento dinâmico da parte exterior da geosfera, é essencial um conhecimento detalhado da forma como "fluem" diferentes zonas do manto.

Modelagem e validação de processos - A modelagem dos processos da geosfera é um estágio transitório entre a modelagem cinemática (relativa aos movimentos mecânicos no interior do planeta) e a dinâmica. Esse desenvolvimento não pode ocorrer sem a interação com subdisciplinas relativas à estrutura e à cinemática da Terra ou à reconstrução de processos geológicos. A informação estrutural é um pré-requisito para a modelagem dos processos da geosfera. De modo semelhante, a informação sobre movimentos horizontais e verticais, tanto atuais como passados, é utilizada para formular e verificar hipóteses relativas a processos dinâmicos. Inversamente, os resultados obtidos a partir da modelagem motivam e conduzem a pesquisa na observação do presente e na reconstrução do passado.


As movAs movimentações originárias do fundo da Terra trazem à tona substâncias que podem ser fonte de saúde, como a lama desse vulcão colombiano extinto.

Desafios e desenvolvimentos - Apesar do grande sucesso da teoria da tectônica de placas nas Ciências da Terra, ainda existem problemas fundamentais no que diz respeito à evolução dos continentes e a seu papel na dinâmica da litosfera e do manto. O processo de crescimento dos continentes, sua espessura e a associação dinâmica com o manto são tópicos a que uma série de subdisciplinas precisa prestar atenção.

Questões igualmente importantes ainda por resolver se referem ao mecanismo de controle da tectônica continental e a seus efeitos nos movimentos verticais, na dinâmica topográfica e na formação de bacias sedimentares. Nesse aspecto, é vital a dinâmica da separação dos continentes, de que forma as placas mergulham por baixo de outras, como as montanhas se erguem e são desgastadas pela erosão e seus efeitos na evolução da plataforma continental e nos processos de fronteira entre oceanos e continentes. Igualmente importantes são as taxas e as escalas em que esses processos operam.

Para quantificar os processos essenciais envolvidos no estudo da geosfera, é essencial associar forças internas e externas. O trabalho feito sobre as estruturas e os processos da crosta, a dinâmica da topografia e as bacias sedimentares registra progressos em escalas cada vez mais reduzidas.

Um Ano Internacional dedicado ao planeta

A União Internacional das Ciências Geológicas (IUGS), que representa cerca de 250 mil geocientistas de 117 países, proclamou um Ano Internacional do Planeta Terra 2007-2009 com o subtítulo "Ciências da Terra para a Sociedade". Os propósitos salientam a relação entre a humanidade e o planeta, e demonstram quanto os geocientistas são importantes na criação de um futuro equilibrado e sustentável.

Proclamado através da ONU, o Ano Internacional foi considerado atividade central pela Divisão das Ciências da Terra da Unesco. Ele também é apoiado por organizações congêneres da IUGS, como a União Internacional de Geodesia e Geofísica (IUGG) e a União Geográfica Internacional (IGU), além do Conselho Internacional para a Ciência (ICSU).

Pelas diretrizes da ONU para a proclamação de anos internacionais, os assuntos elegíveis devem corresponder a uma "preocupação prioritária de direitos políticos, sociais, econômicos, culturais, humanitários ou humanos", envolvendo "todos os países (ou a maioria deles), independentemente do sistema econômico e social", e deve "contribuir para o desenvolvimento da cooperação internacional na resolução de problemas globais", dando especial atenção aos temas que afetam os países em desenvolvimento.


Autores: Sierd Cloetingh (ISES, Holanda), com Rolf Emmermann (GFZ, Alemanha), John Ludden (CNRS, França), Hans Thybo (Copenhague, Dinamarca), Mark Zoback (Stanford, EUA) e Frank Horvath (ELTE, Hungria).

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Galeria de arte no coração do Saara

No sudeste do Deserto do Saara encontra-se um dos maiores acervos mundiais de arte rupestre. Desenvolvido pelas populações locais ao longo de sete milênios, essa arte testemunha a grande mudança climática ocorrida na região. Tassili-n-Ajjer entrou na lista do Patrimônio Cultural e Natural Mundial da Unesco em 1982

Equipe Planeta

Teremos descoberto a Atlântida enterrada?”, escreveu cheio de entusiasmo Henri Lhote em seu caderno de notas, em 1933. Ao tomar conhecimento do conteúdo do relatório de uma patrulha do exército francês na bacia do “oued” (curso d’água) Djerat, esse explorador e etnólogo francês correu para o sudeste do Saara argelino. O que deveria ser uma simples visita científica se converteu logo numa longa exploração arqueológica que durou 18 meses. O que Lhote descobriu nas montanhas de Tassili-n-Ajjer superou todas as suas expectativas: as paredes rochosas desse desfiladeiro de 30 quilômetros de extensão estavam literalmente cobertas de inscrições e, sobretudo, de pinturas rupestres.

As IMAGENS mostram um Saara verdejante e cheio de vida, antes que uma mudança radical do CLIMA desse fim a um período de ABUNDÂNCIA na região

Essas pinturas dão testemunho de um mundo único. Nelas, girafas, elefantes, antílopes, leões, bovídeos e cavalos narram a vida dos caçadores e dos pastores de outrora. Tais imagens documentam um Saara verdejante, cheio de vida animal e humana, antes que uma mudança radical do clima na região pusesse fim a um período de abundância sobre esse planalto de 700 quilômetros de extensão por 100 quilômetros de largura. É simplesmente impressionante o contraste entre o que se observa nessas pinturas e a paisagem de deserto árido na qual a região se tornou desde então.

Lhote identificou quatro estilos sucessivos na execução dessas pinturas e inscrições, cujas datações e características foram depois aperfeiçoadas por outros especialistas. O primeiro período é o das “cabeças redondas”, caracterizado por desenhos inteiramente cor violeta de seres humanos nus, sem diferenciação de sexo. Após a descoberta de tons ocres, as pinturas se tornam mais detalhadas: já é possível distinguir-se a musculatura das pernas e dos braços. Pinturas e inscrições de animais como o búfalo gigante, já extinto, também se encontram entre esses primeiros trabalhos.


As formações geológicas do Parque Nacional Tassili-n-Ajjer (nas fotos acima) são de uma beleza impressionante, com suas imponentes montanhas de arenito compondo verdadeiras “florestas” rochosas. Ao lado, beduínos contemporâneos e seus dromedários descansam em pleno deserto esculpido por rochas do Tassili.


As primeiras populações de pastores sedentários do Tassili descobriram então novas cores. A mistura do vermelho e do branco com o ocre, já conhecido, possibilitou uma vasta paleta de nuances, do amarelo claro ao chocolate. Já as pinturas do “período dos bovídeos” correspondem à chegada de bovinos à África do Norte, ao redor de 4500 a.C., e que durou até meados do terceiro milênio antes de Cristo.

Nessa fase, as proporções da pessoa representada são bem exageradas: parece que o importante era o tamanho, e não a beleza. Ao mesmo tempo, homens e animais ganham em termos de realismo. Rebanhos e pastores parecem correr com a velocidade do vento. Perto dessas imagens, nas mesmas paredes de pedra, outras pinturas mostram homens que se banham nas águas de um rio.

O apaixonado Lhote

Durante os 16 meses em que durou sua expedição ao Tassili, Henri Lhote não limitou seu trabalho a simples levantamentos do material encontrado na área. Indo muito mais além, ele classificou as pinturas, estabeleceu grupos e conjuntos com características bem definidas, procurou atribuir a eles um lugar no tempo. Nasceu assim a primeira classificação das pinturas do Saara central, da qual as linhas principais se ajustam perfeitamente às classificações de arte rupestre estabelecidas por outros estudiosos como Flamand e Monod.

Os primeiros croquis das pinturas e inscrições rupestres do Tassili foram feitos, no fim da década de 1930, pelo tenente Brenans, eminente especialista em pré-história que acompanhou Lhote na região de Djanet. O sonho de ambos era tornar conhecidos no mundo os misteriosos desenhos do Tassili. Eles foram finalmente apresentados ao mundo científico no congresso de pré-história, realizado em Argel, em 1952.

Em 1956, o Museu do Homem, de Paris, na França, chamou Lhote para dirigir uma grande campanha destinada a inventariar o acervo rupestre do Tassili. A descoberta desses desenhos constitui o acontecimento mais importante no setor das pesquisas sobre pré-história naquela época.

A seguir, representações de cavalos mostram um progressivo desenvolvimento cultural dos habitantes do Tassili. É o “período dos cavalos”, que corresponde à introdução desses animais no norte da África, segundo atestam descobertas arqueológicas, em cerca de 2000 a.C.

Finalmente, ao redor dos anos em que Jesus Cristo viveu, tem início no Tassili um “período dos camelos”, também correspondendo aos tempos em que esses animais (na verdade dromedários) surgiram na África do Norte. Pouco a pouco, os dromedários se tornam os animais de carga por excelência na região, ao mesmo tempo que, curiosamente, a pintura rupestre perde sua importância na vida das comunidades humanas.

No Tassili, o período dos camelos assinala o retorno ao desenho rudimentar. As descrições de cenas do cotidiano tornam-se cada vez menos realistas. Ao mesmo tempo, as pinturas começam a apresentar outros elementos, tais como carruagens e escudos, além dos já citados dromedários.

Embora próxima da Península Ibérica – onde também há abundância de arte rupestre primitiva –, acredita-se que essa arte na Argélia e sobretudo no Tassili se desenvolveu de forma independente dos estilos da Europa.

Quanto às pinturas do período das “cabeças redondas”, Lhote observou um importante paralelo estilístico com os desenhos da antigüidade egípcia. Ele descobriu inclusive seis desenhos de barcos de um modelo de uso corrente no Nilo.

“Os pastores do Tassili mantinham uma relação com a civilização egípcia. Eles provavelmente vieram do leste e se fixaram aqui”, conclui o arqueólogo. Ao mesmo tempo, vários elementos de outros desenhos sugerem que parte dos habitantes do Tassili não era originária do Egito, e sim da África Negra.

“Não descobrimos a Atlântida”, admitiu Lhote ao final de sua viagem, “mas aprendemos algo muito mais importante. Podemos provar que o Saara central é, desde o Neolítico, um dos mais importantes sítios de colonização da pré-história. Há muito tempo, o deserto estava recoberto por gigantescos prados verdejantes e povoado por numerosas civilizações que nos deixaram o testemunho de sua existência.”

As pinturas rupestres do Tassili-n-Ajjer

Patrimônio cultural e natural: no parque nacional de 80 mil quilômetros quadrados do “Vale do Rio Djerat” (Oued al Djerat) existem mais de 15 mil pinturas e inscrições rupestres. Elas representam sobretudo hipopótamos, búfalos, elefantes, rinocerontes e girafas e retratam as tremendas mudanças climáticas ocorridas na região. Elas não apenas modificaram a fauna e a flora, mas também influenciaram os rumos da evolução humana no local. Parcialmente protegido desde 1972, o planalto do Tassili e o Maciço do Adrar se situam no sudeste do Deserto do Saara, entre 1.150 e 2.158 metros de altitude. O clima da região é seco, com pluviosidade média de 30 mm por ano.

Continente: África
País: Argélia, na fronteira com o Níger e a Líbia.
Lugar: Parque Nacional do Tassili-n-Ajjer, a noroeste de Djanet.
Inscrição no Patrimônio: 1982
Interesse: um dos mais importantes sítios de arte rupestre do mundo, situado dentro de uma “floresta de arenito”.
Flora e fauna: 28 espécies de plantas indígenas raras, como o Ficus ingens e, no Vale dos Ciprestes, 100 ciprestes da espécie Cupressus dupreziana, da qual restam apenas 240 espécimes no mundo todo, oliveiras, murtas e várias espécies endêmicas. Composta ainda por 23 espécies de mamíferos, como a gazela dorca, o carneiro “com mangas”, o guepardo, o caracal (gato selvagem), e pássaros migratórios como a garça púrpura e a cegonha branca, além de vários rapaces.

Cronologia
7500 ou 6000 a.C.: o habitat mais antigo e as mais velhas pinturas rupestres naturalistas, do “período das cabeças redondas”.
5000 a 2500 ou 2000 a.C.: pinturas rupestres do “período dos bovídeos”.
Cerca de 1500 a.C.: pinturas e inscrições do “período dos cavalos”.
Cerca de 200 a.C.: representações de caravanas de camelos.
1847: descoberta do sítio por um oficial das forças coloniais francesas.
1933: viagem do arqueólogo Henri Lhote ao sudeste do Saara argelino.




Figuras rupestres do Tassili-n-Ajjer, um dos maiores museus de arte ao ar livre do mundo, com um invejável acervo de mais de 15 mil desenhos e gravações de arte rupestre. Acima, em sentido horário, uma pintura rupestre do período das “cabeças redondas” e pintura pertencente ao período “dos bovídeos”.

Revista Planeta

Baixo carbono - Ciência e Política em Descompasso


Ciência e Política em Descompasso
Entre os países emergentes, somente o Brasil poderia fazer a transição para o baixo carbono rapidamente
por Sérgio Abranches
Há uma brecha talvez intransponível no curto prazo entre a ciência e a política global do clima. Ela contrapõe o ritmo em que a ciência diz estar ocorrendo o aquecimento global à velocidade e profundidade das soluções políticas factíveis. O prazo e as metas de redução das emissões de CO2 capazes de nos manter na zona de segurança climática são dados pela ciência, mas dependem da política. O necessário, cientificamente, não parece politicamente viável no curto-médio prazo. O viável politicamente nesse prazo não é suficiente do ponto de vista científico. Nunca foi tão dramática essa distância entre o cálculo da ciência e o cálculo político.

A estrutura econômico-energética e a forte dependência ao carvão de países como China e Índia indicam que a transição para o padrão de baixo carbono, com as tecnologias disponíveis, levará décadas. Só o Brasil, entre os grandes emergentes, poderia fazer essa conversão com mais rapidez. Tem a vantagem da matriz energética. A moratória do desmatamento reduziria signifi cativamente nossas emissões. O necessário investimento na insuficiente e sucateada infraestrutura de transportes poderia ser orientado para uma logística sustentável do ponto de vista do carbono. Isso eliminaria o viés a favor de rodovias no transporte a longa distância e na Amazônia. É caminho sem sacrifícios, com ganhos de governança e qualidade de vida.

A defasagem entre ciência e política do clima significa que a agenda global terá de incluir como item prioritário pesado investimento em adaptação, sem abandonar o esforço de mitigação máxima possível das emissões. O princípio da precaução manda continuar buscando modos de manter o aquecimento médio global em 2ºC até o final do século e atenção ao alerta de cientistas de que esse aquecimento pode resultar em mudanças climáticas significativas, com efeitos violentos em várias partes do planeta. Mais, recomenda considerar a eventualidade de ultrapassarmos esse limite. Mesmo que seja possível manter esse limite, o volume de investimento em adaptação necessário será de grande magnitude. E aumentará quanto mais nos afastarmos desse teto de 2ºC.

O governo Obama iniciou uma nova ofensiva na política global do clima, após a frustrada conclusão do G8+5 em L’Aquila, na Itália. Intensificou negociações bilaterais com o objetivo de obter o melhor acordo possível em Copenhague e para o futuro imediato. Por isso liderou o recuo em relação à menção explícita a metas quantitativas, vetada pela China, Índia e Brasil. Quis manter o ambiente propício ao entendimento. Difi cilmente esses países serão persuadidos a mudar de posição e assumir metas cientificamente recomendadas de redução de emissões, até dezembro. Obama certamente está informado disso. Provavelmente está apostando em um avanço mais gradual, investindo para quebrar o impasse em Copenhague, mas esperando progressos mais signifi cativos em 2010 e 2011. Se for esse, realmente, o caso, é uma estratégia diplomática realista, em sintonia com esse risco de contrariedade entre a ciência e a política do clima.

Nos encontros bilaterais que o governo americano tem promovido, um dos temas centrais tem sido a parceria tecnológica. Na China, as negociações estão em andamento. O secretário de Energia americano, Steven Chu, em viagem recente e posterior à de Hillary Clinton a Pequim, anunciou que os dois países lançarão conjuntamente um Centro de Pesquisa sobre Energia Limpa, com o objetivo de promover P&D em efi ciência energética, sequestro de carbono e veículos de baixa emissão. Na Índia, a visita da secretária de Estado, não teve resultados concretos, mas há indicações de que os dois países podem vir a negociar parceria semelhante. O encontro entre os governos dos Estados Unidos e do Brasil ficou por último. Há sinais de que a parceria tecnológica pode ser também o melhor resultado dessas conversações.

Acordos bilaterais e “negociações em clube” têm melhores chances de pavimentar o caminho rumo a um pacto climático global mais efetivo. Chamo “negociações em clube” entendimentos políticos e diplomáticos formais, em pequeno grupo, reunindo os maiores emissores e detentores de recursos estratégicos, como florestas tropicais.

Dois pontos que não avançaram na agenda de discussões e que contribuem para o veto a metas de emissões são a transferência de tecnologia e os investimentos em adaptação. Claramente, parcerias reais em pesquisa e desenvolvimento fazem mais sentido para países como China, Índia e Brasil que a surrada ideia de transferência de tecnologia. Um sério e significativo arranjo que viabilize ações concretas e eficazes de adaptação nos países mais pobres e nas economias emergentes é também questão prioritária. É preciso reduzir essa brecha entre ciência e política no enfrentamento do aquecimento global. O processo na Natureza não vai mudar. A política terá de se ajustar ao ritmo recomendado pela ciência o mais rapidamente possível. Esse é o objetivo estratégico.

Sérgio Abranches é mestre em sociologia pela Universidade de Brasília (UnB); M.A. e Ph.D. em ciência política pela Cornell University. Diretor e colunista de O Eco (www.oeco.com.br); comentarista de ecopolítica da rádio CBN

Scientific American Brasil

Rompendo os Limites do Planeta

Matt Collins

Rompendo os Limites do Planeta
Desafios do controle populacional e da produção de alimentos precisam ser vencidos de forma conjunta
por Jeffrey Sachs
Estamos nos expulsando de nos so próprio planeta. Recentemente, na edição de setembro de 2009 da revista Nature, Johan Rockström e colegas propuseram os dez “limites planetários”, para definir os níveis seguros da atividade humana (a Scientific American faz parte do Nature Publishing Group). Nesses limites se incluem emissões críticas de gases causadores do efeito estufa; perda de biodiversidade; troca, em todo o mundo, da vegetação natural por plantação; e outros grandes impactos sobre os ecossistemas terrestres. A humanidade já ultrapassou vários desses marcos e caminha para extrapolar a maior parte dos restantes. E a demanda crescente por alimento contribui ainda mais para essas transgressões.

A revolução verde, responsável pelo aumento da produtividade dos grãos, deu à humanidade um certo tempo para respirar, mas o crescimento populacional contínuo e a demanda maior por carne abreviam essa fase. O pai dessa revolução, Norman Borlaug, morto em setembro do ano passado, aos 95 anos, ressaltou em 1970 exatamente essa ideia, ao aceitar o Prêmio Nobel da Paz: “Não haverá progresso duradouro na batalha contra a fome se as agências que lutam pelo aumento da produção alimentar e aquelas pró-controle populacional não unirem forças”.

Porém, essa união de forças é, na melhor das hipóteses, inconsistente e, por vezes, inexistente. Desde 1970, a população saltou de 3,7 bilhões para 6,9 bilhões e continua a crescer a uma
taxa anual de 80 milhões de pessoas. A produção de alimentos por habitante do planeta diminuiu em algumas grandes regiões, especialmente na África subsaariana. Na Índia, a duplicação
populacional absorveu quase totalmente o aumento da produtividade dos grãos.

A produção alimentar é responsável por um terço de toda a emissão de gases do efeito estufa; isso inclui os poluentes gerados pelos combustíveis fósseis utilizados na preparação e transporte dos alimentos, o dióxido de carbono liberado pela aragem da terra para a agricultura e pastagem, o metano produzido pelos arrozais e rebanhos de ruminantes, bem como o óxido nitroso proveniente do uso de fertilizantes.

Por devastar as matas, a produção de alimentos também responde por muito da perda de biodiversidade. Os fertilizantes químicos formam grandes depósitos de nitrogênio e fósforo, que agora destroem esteiros – trecho de rio ou mar que adentra na terra – de centenas de sistemas fluviais e ameaçando a química oceânica. Cerca de 70% do consumo mundial de água é destinado à produção alimentar, causando o esgotamento dos lençóis freáticos e uso ecologicamente predatório de água doce, desde a Califórnia até a planície indo-gangética, passando pela Ásia central e norte da China.

A revolução verde, em suma, não neutralizou os perigosos efeitos colaterais de um boom populacional humano, que se potencializarão ainda mais quando a população ultrapassar os 7 bilhões em 2012 e não parar de crescer, prevendo-se chegar aos 9 bilhões, em 2046. O consumo per capita de carne também aumenta. A carne bovina é uma das maiores ameaças, pois o gado
precisa consumir até 16 kg de grãos para produzir 1 kg de carne e emite grandes quantidades de metano. Além disso, o fertilizante utilizado nas plantações destinadas à alimentação desses animais contribui em muito para a produção de óxido nitroso.

Não basta somente produzir mais alimentos; devemos, ao mesmo tempo, estabilizar a população mundial e reduzir as consequências ecológicas da produção alimentar – um desafio triplo. Uma queda brusca e voluntária nas taxas de fertilidade de países subdesenvolvidos e em desenvolvimento - proporcionada por um maior acesso ao planejamento familiar, diminuição do índice de mortalidade infantil e educação de meninas – poderiam, em 2050, firmar a população em cerca de 8 bilhões de pessoas.

Incentivos financeiros a comunidades carentes, a fim de impedir o desmatamento, poderiam salvar hábitats de espécies. Sistemas de plantio direto e outros métodos preservariam não só o solo, mas também a biodiversidade. O uso de fertilizantes mais eficientes reduziria o transporte excessivo de nitrogênio e fósforo. Aperfeiçoamentos na irrigação e nas variedades de sementes poupariam água e reduziriam outras premências ecológicas. E uma dieta pobre em carne bovina conservaria os ecossistemas ao mesmo tempo em que melhoraria a saúde humana.

Essas mudanças exigirão um grande empenho (ainda a ser instigado) não só do setor público como do privado. Ao rememorarmos as grandes conquistas de Borlaug, devemos também redobrar nossos esforços para solucionar suas premonições. Está passando a oportunidade de alcançarmos um desenvolvimento sustentável.

Jeffrey Sachs é diretor do Earth Institute da Universidade de Columbia (www.earth.columbia.edu).

Scientific American Brasil

Sistemas de informação geográfica


Sistemas de informação geográfica
A maneira como o Google vai dominar as geotecnologias mostra como esta área evoluiu
por Eduardo Freitas
Quem nunca entrou no Google Earth ou Google Maps e foi direto fazer uma busca pelo próprio endereço, ou bisbilhotar o quintal do vizinho? Em contrapartida, quem ainda se dá ao trabalho de abrir uma pesada lista telefônica, pesquisar um endereço (geralmente em letras minúsculas), gravar o número e quadrante da página e verificar sua posição no mapa?

Esses dois lados de uma mesma moeda mostram como a geotecnologia evoluiu nos últimos anos, passando do uso restrito de alguns milhares de especialistas para o acesso diário
por milhões de pessoas. Só o Google Earth tem, hoje, mais de 500 milhões de usuários do globo virtual para visualização e análise geográfica, o que demonstra a popularidade desse tipo de ferramenta.

Mas nem sempre o uso de Sistemas de Informação Geográfica (SIG) foi popular. O primeiro exemplo de análise espacial corresponde à experiência do epidemiologista inglês John Snow (1813-1858). Para identificar o foco responsável pelo surto de cólera que afetou Londres em 1854, Snow cartografou as residências dos doentes e as sobrepôs aos poços de captação de água da cidade. Outro exemplo é o mapa de Charles Minard, de 1861, que representa a campanha de Napoleão na Rússia e exibe um conjunto de elementos gráficos associado ao modo como as tropas se deslocavam. Esses dois modelos são importantes marcos na história dos SIG, pois refletem a existência de uma base cartográfica de qualidade que permita operações de sobreposição de dados.

Existe um campo muito maior de estudo que vai além do SIG. A expressão “ciência da informação geográfica” (CIG) foi introduzida em 1992. Essa definição consta em um artigo do pesquisador Michael Goodchild, que posteriormente trabalhou com o ex-vice-presidente americano, Al Gore, no projeto Terra Digital. O estudo deu origem ao filme Uma verdade inconveniente, que expôs de forma incontestável os efeitos do aquecimento global com base em análises geoespaciais.

Entre a comunidade científica que estuda a CIG existe um consenso de que o grande salto evolutivo da própria ciência e dos sistemas de informação geográfica foi o Google Earth, em junho de 2005, que revolucionou a forma com que as pessoas se relacionam com mapas e imagens de satélites. Depois que a Google colocou geoinformação no cotidiano, o mundo nunca mais foi o mesmo.

Em 2004, a empresa Keyhole desenvolvia um globo virtual chamado Earth Viewer, que poderia ser acessado por qualquer internauta com banda larga, mas sua base de imagens de satélites e mapas ainda era pequena para o ambicioso projeto de cartografar todo o mundo. Foi quando o Google entrou em cena, comprou a empresa e lançou o Google Earth para o grande público, alcançando o esperado ganho de escala.

Mas, mesmo depois da massificação da tecnologia ainda existe muita confusão sobre o Google Earth. Afinal, as imagens são em tempo real? Quando o Google atualiza os mapas? É possível usar tudo de graça? As versões corporativas têm mapas mais recentes?

O principal mito sobre as imagens online deve muito a séries televisivas como 24 horas e a filmes como Inimigo de Estado, que mostram agências governamentais. As imagens do Google Maps e Earth são obtidas por satélites em órbita da Terra e por aviões equipados com câmaras digitais, geralmente de propriedade particular. Após a aquisição dessas fotos, o Google faz parcerias comerciais com as empresas e então oferece as imagens aos usuários.

Quanto à atualização dos dados, o Google nunca oferece uma previsão de quais áreas terão melhores informações. Só é possível saber que uma cidade ou área rural tem dados novos após a publicação das imagens de satélites ou fotos aéreas. Já os dados vetoriais, como ruas e limites de bairros, são obtidos por meio de parcerias com empresas que produzem mapas, mediante levantamentos em campo, por exemplo.

Outro mito das ferramentas de mapas online é que tudo está lá de graça. A versão free realmente está disponível para qualquer usuário. Mas, caso um aplicativo precise de login e senha para ser acessado é necessário uma licença profissional.

Com milhões de usuários em todo o mundo, o Google aproveita sua experiência com o mapeamento colaborativo e com o acesso simultâneo a dados para oferecer ferramentas corporativas do Google Earth e Maps. As opções para empresas têm alguns diferenciais, como a possibilidade de imprimir imagens de melhor qualidade ou suporte técnico; porém a base de dados com mapas e imagens de satélites é a mesma da versão free.

Os Serviços Baseados em Localização (LBS, na sigla em inglês) são a nova fronteira das ferramentas geoespaciais. A própria Google já lançou um navegador e o sistema operacional Android, para instalação em dispositivos móveis, mirando o uso de geotecnologia em tempo real. Definitivamente, a geoinformação saiu do gueto dos profissionais e agora está na palma da mão.

Eduardo Freitas é técnico em edificações, engenheiro cartógrafo, mestrando em CIG, editor do portal MundoGEO e autor do blog GeoDrops

Scientific American Brasil

A água e seus diferentes domínios


A água e seus diferentes domínios
Gestão dos recursos hídricos no Brasil exige mudanças fundamentais
por Wilson José Figueiredo Alves Junior
Bem físico quase sempre em movimento, a água pode assumir, em momentos distintos, domínios diferentes dentro de uma mesma bacia hidrográfica, o que explica a dificuldade enfrentada pelo gestor público para conciliar os interesses conflitantes de diferentes esferas de poder. Ao estabelecer dois diferentes domínios dos recursos hídricos no Brasil, a Constituição Federal de 1988 criou um modelo que cria dificuldades para a gestão do uso das águas de mananciais do país centrado na bacia hidrográfica.

A Política Nacional de Recursos Hídricos (Lei 9.433/97) veio para atender ao desafio constitucional de fazer o gerenciamento dos recursos hídricos – processo que ainda requer mudanças, pois a lei não considerou a estrutura federativa e a União não pode ser considerada como o estado grande, que engloba outros estados menores.

Se um aquífero transcende os limites estaduais, isso basta para ser considerado de domínio federal. Além disso, eventuais contaminações que podem ocorrer no meio hídrico não ficam restritas ao local do dano, o que é conseqüência da própria dinâmica das águas. Assim, a poluição de um rio pode atingir as águas subterrâneas interestaduais ou internacionais.

A principal dificuldade no aspecto da gestão dos recursos hídricos no Brasil é o fato de que a extensão dos aquíferos não coincide estruturalmente com a delimitação das bacias hidrográficas superficiais, pois onde termina a formação estrutural de um recurso começa a do outro, o que leva ao desconhecimento da ocorrência e do potencial dos aquíferos.

Em outro ponto, é impossível o gerenciamento de bacia interestadual ou federal sem a participação dos estados, já que sobre o território da bacia hidrográfica incidem também as leis estaduais e municipais, o que demanda a mobilização das forças políticas, institucionais, administrativas, técnicas e financeiras desses entes federativos.

Certamente, a dependência interespacial da água, um quadro legal ineficiente, sobreposição e lacunas institucionais contribuíram para a confusão de situações técnicas e jurídicas, tal como fez a Constituição Federal ao proteger a água superficial como bem da União, atribuindo aos estados e ao Distrito Federal as águas superficiais e subterrâneas.

Com o objetivo de reformular a titularidade das águas subterrâneas no Brasil foi proposta ao Senado a Emenda à Constituição (EC) no 43 de 2000, visando atribuir à União as águas subterrâneas, de lagos, rios e correntes de águas em terrenos de seu domínio, ou que banhem mais de um estado, sirvam de limites com outros países ou se estendam a território estrangeiro ou dele provenham (artigo 20).

Entretanto, é visível que a redação original da EC-43 ainda precisa de alterações, defendendo- se, portanto, a submissão de todas as águas subterrâneas ao domínio e titularidade da União. Assim, a nova proposta passaria a ter a seguinte redação: Art. 20 – São bens da União: III – Os lagos, rios, quaisquer correntes de águas superficiais e as águas subterrâneas, em terrenos de seu domínio, ou que banhem mais de um Estado, sirvam de limites com outros países, ou se estendam a território estrangeiro, ou dele provenham, bem como os terrenos marginais e as praias fluviais. Podem parecer mínimas as alterações previstas, mas elas transferem a dominialidade das águas subterrâneas dos estados para a União Federal, a qual exerceria sua soberania sobre todos os aquíferos, inclusive os interestaduais.

Assim, torna-se claro que a gestão dos recursos hídricos no Brasil exige mudanças. No caso, é necessária uma modificação na Constituição Federal por meio de um novo arranjo constitucional, pois, além de recente a discussão, esta oferece sustentação em suas eventuais mudanças.

Ao seguir um sistema calcado na bacia hidrográfica, o Brasil aderiu a um modelo ultrapassado e não compatível com as características territoriais, sociais e econômicas do país. Além disso, é evidente que o atual modelo passa por crises, o que claramente abre oportunidades para mudanças, que se refl etem em novas alternativas de gestão dos recursos hídricos, com a finalidade do melhor aproveitamento possível deles.

O Aquífero Guarani, grande reservatório que abrange os quatro países do Mercosul, por exemplo, assume enorme importância socioeconômico-estratégica por causa da falta de disponibilidade hídrica superficial, tanto quantitativa como qualitativa.
Dessa forma, a EC-43 se constitui como o grande desafio da proteção jurídica das águas subterrâneas, já que o posicionamento adotado na Constituição, ao atribuir a dominialidade das águas subterrâneas aos estados e ao Distrito Federal, impede que providências imediatas sejam adotadas em relação à proteção das águas do aquífero, que percorrem o subsolo de oito estados brasileiros e mais três países.

A partir disso, a identificação das novas tendências de gestão, relacionadas com os objetivos dessa proposta (mudança constitucional e gestão compartilhada das bacias hidrográficas e hidrogeológicas), apresentase mais condizente com a realidade de um aquífero transfronteiriço, como o caso do Sistema Aquífero Guarani.

Wilson José Figueiredo Alves Junior Wilson José Figueiredo Alves Junior é assessor jurídico do Ministério Público Federal. Doutor e mestre do Departamento de Geologia e Recursos Naturais da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp (wilson@ige.unicamp.br)

Scientific American Brasil

Exploração na Calha Norte (PA) renderia R$ 4,4 bi até 2030, diz pesquisa

Exploração na Calha Norte (PA) renderia R$ 4,4 bi até 2030, diz pesquisa
Relatório estima que atividade na região geraria quase 9 mil empregos.
Se padrão fosse aplicado na Amazônia, receita seria de R$ 26,4 bilhões.


O Globo Amazônia - 19/08/10
O manejo sustentável de madeira e a coleta de castanha-do-Pará em unidades de conservação estaduais e nacionais da Calha Norte (PA) têm potencial econômico para gerar R$ 4,4 bilhões no período de 20 anos, entre 2011 e 2030. A previsão é de estudo coordenado pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e divulgado nesta quinta-feira (19).

A análise do potencial econômico na região, localizada em um dos maiores corredores de biodiversidade do mundo, considera valores mínimos de geração de receita, uma vez que baseia-se na área disponível atualmente para concessão florestal. Apenas 12% do território, ou 850 mil hectares, foi destinada a esse fim até o momento. Se a área for duplicada para 24%, segundo o relatório, a geração de receita bruta poderá ser de R$ 8,6 bilhões no mesmo

A acumulação de capital por meio do manejo controlado na área, localizada no noroeste do Pará, superaria a economia atual da região, segundo a análise, excluindo a renda gerada pela atividade mineral de extração de bauxita.

Apenas 12% da região, área equivalente a 850 mi hectares, é destinada à concessões florestais. (Foto: MPEG/ Divulgação)

A pesquisa também estima que a exploração adequada de madeira e a coleta de castanhas-do-Pará possam criar 8.986 empregos diretos e indiretos, a partir de 2013. Segundo o relatório, também é possível incorporar outras atividades econômicas na região, como o turismo, a mineração e o pagamento de ativos ambientais por meio do mecanismo de Redd (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação)

Se o mesmo padrão de exploração econômica projetado para a Calha Norte fosse aplicado em outras unidades de conservação na Amazônia, a receita bruta gerada chegaria a R$ 26,4 bilhões entre 2011 e 2030, de acordo com o Imazon.

A previsão foi calculada considerando que 20% da área coberta por florestas estaduais e nacionais na Amazônia, equivalente a 5,4 milhões de hectares, pudessem ser destinadas à exploração sustentável de madeira.


Entenda o que é Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação (Redd)
Criação de mecanismo de compensação financeira para proteção das florestas tropicais será debatida em Copenhague.
Da BBC

Uma das discussões mais esperadas entre os países presentes na reunião da ONU, em Copenhague, será o estabelecimento de mecanismos de incentivo à preservação ambiental. Uma das propostas prevê o pagamento por parte de empresas e países industrializados aos países pobres, visando o desenvolvimento de projetos de preservação ambiental. Um desses mecanismos é o Redd, que como as outras propostas, é cercado de polêmica.
O que significa Redd?
Redd é uma sigla inglês: Reducing Emissions from Deforestation and Forest Degradation in Developing Countries (Reduzindo as Emissões geradas com Desmatamento e Degradação Florestal nos Países em Desenvolvimento)
O que é o Redd?
É um mecanismo de compensação financeira para os países em desenvolvimento ou para comunidades desses países, pela preservação de suas florestas. O Redd é visto como uma forma fundamental de redução da quantidade de CO2 lançada na atmosfera por conta do desmatamento em todo o mundo, causadora do aquecimento global. Nos últimos anos, o Redd se tornou ponto central das negociações de um novo acordo sobre o clima.
Por que o Redd é tão importante?
Estima-se que o desmatamento seja responsável por quase 20% do total das emissões anuais globais dos gases causadores do efeito estufa (GHG na sigla em inglês). Para a maioria dos especialistas o volume das emissões deste tipo é comparável às emissões de todos os países da União Europeia, e supera o total emitido globalmente pelo setor de transporte (incluindo todos os carros, caminhões, aviões, navios e trens em todo o mundo). Para alguns especialistas, incluindo Nick Stern, o Redd representa a maior oportunidade isolada de redução imediata, e de maior custo efetivo, da emissão de GHG. Eles argumentam que outras opções mais tecnológicas, como a captura e armazenamento de carbono, são muito mais caras e poderiam levar muitos anos para serem implementadas em larga escala.
Quais são os países-chave do Redd?
Segundo o World Resources Institute (WRI), na década de 90 o Brasil e a Indonésia eram responsáveis por cerca de metade das emissões geradas pelo desmatamento. Atualmente, o ranking global de emissões do WRI coloca o Brasil em quarto e a Indonésia em terceiro lugar, imediatamente atrás da China e dos EUA, incluídas as emissões de GHG geradas pelo desmatamento. A República Democrática do Congo também é um dos maiores emissores. Vários dos chamados países com áreas florestais são membros da Coalizão de Nações com Florestas Tropicais, que tem participação importante nas negociações do Redd (especialmente Papua Nova Guiné).
Os projetos do Redd já existem na prática?
Sim, vários projetos pilotos já estão em operação em diversas partes do mundo.
Na Indonésia existem mais de 10 projetos, incluindo o Ulu Masen na província de Aceh, que é financiado parcialmente pelo banco americano Merrill Lynch. O Brasil tem vários projetos em andamento, incluindo o projeto da Reserva Juma no Estado do Amazonas. O governo da Noruega anunciou recentemente que vai pagar US$ 250 milhões à Guiana para que suas florestas tropicais sejam preservadas. O Banco Mundial está implementando projetos de REDD em 35 países. Como esses projetos funcionam?
De maneiras diferentes. A ideia do projeto Ulu Masen da Indonésia, é que inicialmente seja calculado o quanto de lançamento de carbono na atmosfera é evitado por não se derrubar a floresta. Estas economias são convertidas nos chamados "créditos de carbono", que em seguida são vendidos aos países ricos ou a empresas dispostas a pagar a outros pela redução de emissões de GHG que não estão fazendo. O dinheiro gerado na venda desses créditos é então investido na proteção das florestas e na melhoria da condição de vida das comunidades localizadas nas regiões florestais. O objetivo é dar aos moradores locais incentivo suficiente para que deixem de derrubar árvores.
No Brasil, as famílias que vivem na Reserva de Juma recebem um cartão de débito, e caso as inspeções feitas regularmente confirmem que as árvores permanecem intocadas, eles recebem um crédito na conta de US$ 30 por mês. A Coca-Cola e a cadeia de hotéis Marriott participam do projeto.
Como funcionará o Redd no futuro?
Existem várias propostas de como o mecanismo deve funcionar e como deve ser financiado. Elas estão divididas em três grandes categorias:
Mecanismos de mercado: Os países que reduzirem o desmatamento ganhariam créditos pela diminuição do nível de emissão de carbono, que seriam então vendidos nos mercados internacionais de carbono; Fundos governamentais: seria criado um fundo que receberia verba internacional e que funcionaria de modo semelhante aos programas de ajuda oficial que é dada pelos países ricos aos países pobres. Um bom exemplo é o Fundo para a Amazônia, criado pelo Brasil com o qual a Noruega prometeu colaborar com US$ 1 bilhão. Uma combinação dos dois acima. Nas negociações ainda se debate se os projetos Redd deveriam ser administrados e financiados num nível nacional ou 'sub-nacional'.
Que volume de dinheiro está envolvido no mecanismo?
Segundo o Relatório Stern, inicialmente serão precisos pelo menos US$ 5 bilhões por ano para os oito países responsáveis por 70% das emissões de GHG geradas a partir do desmatamento. Já o Relatório Eliasch (encomendado pelo primeiro-ministro britânico Gordon Brown) sugere que serão necessários entre US$ 18 e US$ 26 bilhões por ano para reduzir pela metade o nível atual de desmatamento até 2020.
É viável?
A ONU acredita que os diversos mecanismos a serem implementados poderão levantar até US$ 30 bilhões por ano a serem direcionados para projetos em países em desenvolvimento. O resultado da votação do Congresso Americano do projeto de lei que regulamenta o mercado de carbonos é crucial para determinar o nível de fundos que serão gerados pelo mecanismo de Redd. A atual proposta para estabelecimento do mercado de carbono inclui a possibilidade de empresas e outras entidades de deduzir uma porcentagem da redução de emissões de carbono através dos mecanismos de Redd.
Existem diversos mercados de carbono em operação em todo mundo (como o da União Europeia) e outros cuja proposta de criação está sendo debatida (EUA, Austrália, Nova Zelândia, Japão, Coreia do Sul), mas a difícil tarefa será harmonizar o funcionamento deles.
Quais são os maiores problemas do Redd?
Os principais problemas são:
Mecanismos de mercado : Os críticos afirmam que os mecanismos de dedução darão às empresas e governos de países ricos a oportunidade de cumprir as metas internacionais sem que tenham que cortar suas emissões. Diversos países, como o Brasil, China e Bolívia, já disseram que o Redd não pode vir a ser usado pelos grandes emissores de CO2 como forma de evitar suas obrigações de cumprir as metas de redução internas.
O Greenpeace argumenta que a adoção de um mecanismo de créditos florestais vai inundar o mercado com deduções baratas, reduzindo o preço do carbono e diminuindo o incentivo aos países industrializados e empresas a cortar suas emissões.
Monitoramento : Como poderá ser medido o nível de desmatamento para saber se houve redução? Interromper o desmatamento em uma determinada área poderá deslocar os madeireiros para outra (fenômeno conhecido como 'vazamento').
Medição das emissões de carbono: Como quantificar o carbono armazenado numa floresta, e quanto em emissões de carbono está sendo evitado com a preservação de determinada floresta?
Corrupção : Alguns dos países com áreas florestais extensas estão entre os mais corruptos do mundo. Como pode se garantir que o dinheiro vai ser aplicado nas comunidades que dependem da floresta para sobreviver, ao invés de acabar nas mãos de políticos corruptos ou empresas que operam no setor de agronegócio? Várias comunidades indígenas estão preocupadas achando que acabarão não sendo beneficiadas.
Propriedade da terra : Atribuir um valor às florestas pode acabar incentivando invasões e grilagem, especialmente se considerarmos que em vários países a definição da propriedade rural é vaga e altamente questionável.
Então por que se preocupar?
Os que defendem a implantação do Redd argumentam que não será fácil mas que esses problemas poderão ser resolvidos ou pelo menos amenizados. O Brasil, por exemplo, já possui um sofisticado sistema de satélite para monitorar o desmatamento e o governo está disposto a partilhá-lo com outros países. A Noruega, que é um dos principais países financiadores do REDD, afirma que um país só se qualificará a receber o dinheiro se comprovar que foram criados mecanismos eficazes anticorrupção.
Sairá algum acordo da reunião de Copenhague?
O Protocolo de Kyoto, atualmente em vigor, não permite que países em desenvolvimento vendam créditos gerados por programas que evitem desmatamento. O plantio de novas árvores é levado em conta mas não o fato de não se derrubar as árvores já existentes. É provável que em Copenhague se decidam as linhas gerais de um acordo que mude a posição atual e reconheça a importância do Redd, mas muitos detalhes ainda terão que ser negociados. Entre eles, formas de garantir que as comunidades locais sejam beneficiadas, que as florestas não serão transformadas em plantações, e a inclusão de projetos que protejam a biodiversidade (conhecidos como Redd-plus).

Estados com mais incêndios estão entre os que mais desmataram em 2010


Estados com mais incêndios estão entre os que mais desmataram em 2010
PA e MT lideram desmatamento e são os que mais sofrem com incêndios.
Em RO, Porto Velho é a que mais teve focos de queima em 2010.


Líderes de ocorrências de incêndio no país desde o início do ano, Mato Grosso e Pará também aparecem como os estados que mais desmataram áreas na Amazônia Legal em 2010. Em Rondônia, nono estado com mais incêndios no país neste ano, a situação mais complicada está na capital Porto Velho, que aparece como uma das cidades que mais desmatou desde janeiro.

O Mato Grosso é o estado em que houve mais registros de incêndios em 2010, segundo o Banco de Dados de Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), considerando a medição com todos os satélites disponíveis. No total, foram 63.148 focos. O Pará é o segundo na lista, com 47.717 focos de queima desde o início do ano.

Os dois estados também são líderes nos índices de desmatamento divulgados pelo Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter) do Inpe. Desde o início do ano, Mato Grosso já devastou uma área de 308,2 km², equivalente a oito vezes o tamanho do Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro. Já o Pará derrubou 232,7 km², semelhante ao tamanho do mesmo parque, multiplicado por seis.

Rondônia devastou 30,5 km² e também está entre os que mais desmataram em 2010. Porto Velho é líder na ocorrência de incêndios desde o início do ano - foram mais de 3.000 focos até esta sexta-feira (20). A capital do estado apareceu por três vezes entre as cidades que mais desmataram a Amazônia neste ano, segundo relatórios do Deter divulgados periodicamente.

No Pará, a terceira cidade mais atingida pelo fogo no ano, Altamira, com 3.892 focos de queima, também foi a campeã do desmatamento em junho (62,3 km²), em maio (19,12 km²) e a sexta que mais derrubou florestas em março (1,56 km²). Outras cidades do estado aparecem entre as que mais tiveram incêndios e também que mais desmataram neste ano, como Itaituba, Marabá e Redenção.

Em Mato Grosso, a cidade de Feliz Natal, quinta mais atingida por incêndios no ano, segundo o Inpe, foi a terceira que mais desmatou a Amazônia entre março e abril (8,5 km²). Caso semelhante ocorre com São Félix do Araguaia e Porto dos Gaúchos, ambas na região norte do estado.

O Globo

Transamazônica, uma estrada do tamanho do Brasil




Transamazônica, uma estrada do tamanho do Brasil
Inaugurada há 30 anos para servir de vitrine do governo, a Transamazônica transformou-se em uma idéia derrotada pela floresta.
por Fernando Granato
O presidente Emílio Garrastazu Médici, o terceiro a dirigir o Brasil durante a ditadura militar, voava de Manaus a Recife num avião da Força Aérea Brasileira, em seu primeiro ano de governo, 1969, quando a aeronave sobrevoou uma extensa área completamente retorcida pela seca. Obcecado com a idéia de integração nacional e querendo projetar para o exterior uma imagem grandiosa do país, o presidente olhou pela janela, virou-se para seu ministro da Fazenda, Antônio Delfim Netto, que o acompanhava no vôo, e afirmou: “Quero abrir uma estrada que leve os homens sem terra para a terra sem homens”. Médici se referia ao excesso populacional do Nordeste, na época estimado em cerca de 5 milhões de pessoas, e aos baixos índices de ocupação da Amazônia, considerada o “deserto molhado brasileiro”.

Essa cena foi descrita décadas depois pelo próprio Delfim. A estrada que o presidente pretendia fazer – e que de fato fez, a um custo de cerca de 1 bilhão de dólares, segundo estimativas do ex-ministro – é a Transamazônica. Nos seus 4 083 quilômetros, ela liga João Pessoa, na Paraíba, a Lábrea, no Amazonas. Foi inaugurada há exatos 30 anos e jamais ficou completamente pronta, já que seu projeto inicial previa uma saída para o oceano Pacífico, atravessando o Acre.

A idéia de Médici, de promover um povoamento épico da Amazônia com os nordestinos castigados pela seca, não tinha nada de original. Em várias ocasiões da história do país já se havia tentado o mesmo, com pouco sucesso, como na colonização do Acre e na construção da ferrovia Madeira–Mamoré, em Rondônia. Mas, como vontade presidencial não se discute, logo que desceu do avião Delfim Netto começou a realocar recursos para o Ministério dos Transportes.

Sem consultar governadores e prefeitos da região, o governo cortou metade dos subsídios que eram destinados à Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e à Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). O dinheiro foi imediatamente transferido para o Ministério dos Transportes, dirigido por outro fanático defensor da tese da unidade nacional, o ministro Mário Andreazza. “Precisamos fazer a estrada e chegar aos grotões mais distantes”, disse Andreazza, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, em 1970. “Do contrário, o estrangeiro chega primeiro. É uma questão de segurança nacional.”

Com dinheiro em caixa e vontade política, as obras foram iniciadas sem preocupações com questões técnicas e estudos detalhados sobre seu impacto ambiental e social. Máquinas pesadas foram transportadas para a selva, içadas por helicópteros, em operações dignas de filmes de ação. De um dia para o outro, centenas de engenheiros e milhares de operários desembarcaram na mata.

Entre 1970 e 1973, o governo levou para a Amazônia cerca de 4 mil homens com a missão de rasgar a selva, abrir a estrada e colonizar as terras desertas. Com seus parentes, a população imigrante chegou a 42 mil pessoas nos primeiros anos. A idéia original era oferecer um pedaço de terra para cada família e estabelecê-las nas chamadas agrovilas – pequenos núcleos habitacionais dotados de infra-estrutura básica, como posto de saúde, escola e comércio.

Na prática, não foram criados mais de 20 núcleos habitacionais com a infra-estrutura prometida ao longo de toda a rodovia. Os colonos tiveram de se virar como puderam. A ocupação das cidades já existentes foi desorganizada e o processo de aproximação dos habitantes mais antigos – os índios – também não aconteceu como o previsto. A Fundação Nacional do Índio (Funai) pensava que cerca de 10 mil índios, a maioria isolados e arredios, viveriam na região da estrada. Não encontrou nem 3 mil e não conseguiu atraí-los.

Pelo menos dois grupos – os araras e uma facção kararaô – recusaram-se a aceitar os contatos propostos pelos sertanistas. Infiltraram-se ainda mais na mata, não responderam aos chamados e se negaram a receber os brindes deixados. Apesar disso, não houve nenhum atrito sério entre os índios e os peões das construtoras e apenas um incidente de maiores proporções foi registrado: um grupo de parakanãs parou um caminhão que trafegava pela rodovia e obrigou o motorista a seguir com eles para Marabá (PA). Lá, os índios saquearam lojas e bares e assustaram a população andando nus pelas ruas.

Em outro caso, a aproximação resultou numa surpresa aos integrantes da Funai: depois de viajar oito dias de barco, uma expedição de sertanistas topou com uma tribo de índios de olhos azuis da margem do igarapé Ipixuna, afluente do rio Iriri, na região de Altamira (PA).

Com menos índios e colonos do que imaginava, o governo inaugurou a estrada em 1974, alojando menos de 1% dos 5 milhões de desabrigados nordestinos. E nem esses poucos moradores receberam o prometido: o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) só conseguiu dar terra e infra-estrutura a 900 famílias. No ano da inauguração da estrada, existiam cerca de 5 mil famílias de colonos vivendo precariamente em barracos de palha e pau-a-pique na beira da Transamazônica.

A péssima conservação da estrada – que só seria asfaltada em cerca de 10% de sua extensão – também contribuiu para isolar eternamente aqueles moradores e dificultar a chegada de novos investimentos. A obra mais ambiciosa do governo militar não passava de uma via de terceira categoria, com 20 centímetros de cascalho e pontes de madeira que desabavam nos meses de chuva (ou seja, metade do ano).

Oásis de progresso

Apesar do abandono e da dificuldade de acesso, algumas cidades às margens da rodovia, como Altamira, se desenvolveram com a chegada da estrada. Praticamente um lugarejo de 5 mil habitantes no início das obras, Altamira pulou para 18 mil habitantes em quatro anos. Pela sua localização, a cidade foi escolhida pelo governo para ser a capital da Transamazônica. Ali foi instalado o mais completo projeto de colonização. Os investimentos públicos – cerca de 50 mil cruzeiros por família de colono nos primeiros cinco anos da estrada, o equivalente hoje a 35 mil reais– superaram todos os outros da região. Ruas foram asfaltadas e ganharam iluminação de mercúrio. Bares, restaurantes e hotéis foram abertos. O número de estabelecimentos comerciais passou em quatro anos de seis para 480, incluindo aí casas de tecidos, empórios, lojas de calçados, bebidas, ferragens e materiais de construção. Os preços dos aluguéis triplicaram, assim como as novas construções. O poder aquisitivo da população de Altamira aumentou dez vezes com a chegada da Transamazônica. Mas, quando as empreiteiras foram embora, o dinheiro deixou de circular e a cidade mergulhou novamente no ostracismo, com dificuldade em retomar sua vocação tradicional em atividades como extração de castanha, borracha e minério.

O mesmo aconteceu com a pequena Medicilândia, também no Pará, que foi criada para ser uma das agrovilas às margens da estrada e recebeu esse nome em homenagem ao general presidente Médici. Conhecido por ter as melhores terras para agricultura ao longo da estrada, o lugarejo teve 3 mil hectares cobertos com o plantio de cana-de-açúcar.

O Incra descobriu que a média de produtividade canavieira de Medicilândia era três vezes maior que a de Pernambuco, o maior produtor de cana da América do Sul. Uma grande usina açucareira, a Abraham Lincoln, foi construída pelo governo. O Incra esperava dar emprego direto a pelo menos 550 colonos com a usina, que colocaria no mercado, anualmente, 3,5 milhões de litros de álcool. A previsão deu certo. A usina funcionou por quase três décadas, garantindo a subsistência da população local. No final de 1990, entretanto, foi desativada. Era muito difícil escoar o produto, em função das barreiras e crateras da estrada. Privados daquela que era praticamente a única fonte de renda do município, os habitantes ganharam o mesmo destino dos demais povoados ao longo da rodovia: o retrocesso.

Engolidos pela selva

Três décadas depois da inauguração, a Transamazônica permanece um esboço mal acabado de uma estrada, que trouxe no seu rastro, pela falta de planejamento, uma história de subdesenvolvimento. Em sua margem, hoje moram pequenos colonos, que vivem da agricultura de subsistência. Os excedentes das pequenas plantações de cacau, pimenta-do-reino e café não chegam aos grandes centros consumidores.

“Nos meses de chuva tudo tem que vir de avião para cá, até mesmo um comprimido. Esse desprezo das autoridades federais com a manutenção da estrada tem condenado nossa região ao total isolamento”, afirma Cincinato Pereira da Costa, secretário municipal de Saúde da cidade de Medicilândia. A mesma queixa faz Gerson Campos, prefeito de Porto de Moz, no Pará, e vice-presidente da Associação dos Municípios da Transamazônica, entidade que congrega 21 cidades. “O governo federal não injeta um centavo e cada um aqui se vira como pode, contratando máquinas e operários com seus próprios recursos”, diz.

Durante as chuvas, quando a estrada vira um rio de lama, as prefeituras contratam tratores para rebocar os poucos caminhões que se arriscam no trajeto, que pode levar até 15 dias de viagem para transpor o pior trecho, os 1569 quilômetros dentro do estado do Pará, dos quais apenas 180 são asfaltados.

Em seu gabinete na cidade de Belém, Evandilson Freitas de Andrade, coordenador da Unidade de Infra-Estrutura Terrestre do Ministério dos Transportes, não esconde os problemas da Transamazônica. “Quando não há chuvas, a estrada é trafegável com dificuldades em alguns pontos. Na estação chuvosa, a situação se complica e não há verba que consiga dar jeito.”

Sentado à margem da estrada, vendo os poucos carros passarem, Luís Augusto Melo, dono do hotel em Altamira que recebia ministros e presidentes 30 anos atrás, faz um balanço do feito dos militares. “Fizeram tudo isso para dar uma oportunidade aos nordestinos e hoje não se vê ninguém por aqui. Todos foram embora”, diz.

Do começo ao fim da picada
Em sete estados brasileiros, mais de 4 mil quilômetros de pura lama
Rurópolis (PA)

Este vilarejo, no encontro da Transamazônica com a Santarém–Cuiabá, já teve um hotel de luxo, erguido pelo Incra na década de 70, que recebia ministros e presidentes da República durante a construção e inauguração da rodovia. Com o passar dos anos, o hotel virou um bordel e hoje está desativado. Restaram suas ruínas

Lábrea (AM)

Às margens do rio Purus, é nesta cidade do Amazonas que acaba a Transamazônica. Lugar isolado do restante do país, tinha uma escola que, na época da construção da estrada, servia aos alunos leite em pó fabricado na Nova Zelândia, fornecido pelo governo dos Estados Unidos.

Assaré (CE)

Quando entra no Ceará, no meio do sertão, a Transamazônica ganha sua verdadeira feição: uma picada e não uma rodovia. Passa perto de pequenas cidades, como Assaré, terra do poeta Patativa do Assaré, morto em 2002. Quando era perguntado sobre os benefícios da estrada, o poeta dizia: “Lugar de nordestino é no Nordeste”

João Pessoa (PB)

Já está quase tudo tomado pelo mato, mas os mais atentos poderão perceber o obelisco de concreto, a 10 quilômetros de João Pessoa, na Paraíba, onde fica o marco zero da Transamazônica. No início, parece de fato uma rodovia: há asfalto, sinalização e movimento, sobretudo de caminhões

Medicilândia (PA)

Esse pequeno lugarejo, uma das tantas instituições batizadas com o nome do presidente Médici, nasceu para ser uma das agrovilas de colonos e depois virou município. Conhecida por ter a terra mais fértil de toda a região, ótima para o plantio de cana, a cidade não tem acesso fluvial e fica isolada nos meses de chuva

Altamira (PA)

Depois de atravessar o Nordeste, a “rodovia da integração nacional” entra no Pará, onde percorre 1569 quilômetros, (só 180 asfaltados). Nos anos 70, na região de Altamira, uma expedição da Funai deparou com uma tribo de índios de olhos azuis que jamais haviam tido contato com a civilização

Carga pesada
O jornalista Fernando Morais e o fotógrafo Alfredo Rizzuti foram os primeiros a cruzar Transamazônica
Antes mesmo de a estrada ficar pronta, o jornalista e hoje escritor Fernando Morais (autor de bestsellers como Olga e Chatô – O Rei do Brasil), foi o primeiro repórter a trafegar pela Transamazônica. Destacado pelo Jornal da Tarde, onde trabalhava em 1970, percorreu com o fotógrafo Alfredo Rizzutti, de avião, barco e até em lombo de burro, o caminho que depois viraria estrada.

Nessa primeira viagem, os dois foram presos confundidos com guerrilheiros do Araguaia. Depois da ajuda do jornal, acabaram soltos e puderam levar aos incrédulos colonos da região a notícia da construção que mudaria suas vidas. Em 1974, quando o governo anunciou a conclusão das obras, os dois voltaram até lá. Fizeram a primeira viagem para relatar ao Brasil como era a estrada. Dessa vez foram num jipe Gurgel Xavante e toparam com 4 mil quilômetros de obstáculos.

O jipe foi colocado em uma carreta e enviado para Belém (PA). Os jornalistas foram de avião para a capital do Pará e, de lá, seguiram no carro pela Belém-Brasília até Estreito (cerca de 700 quilômetros à frente). Nessa cidade, partiram de fato para a aventura de desbravar a Transamazônica. Quase 4 mil quilômetros à frente, os dois chegaram a Rio Branco com o carro praticamente intacto, não fosse um amortecedor quebrado. “Como me disse um caboclo, à entrada de Rio Branco, um amortecedor quebrado não é nada para o primeiro carro a percorrer a Transamazônica inteira, de ponta a ponta”, diz Fernando.

O jornalista conta que fazer a viagem em duas etapas – antes e depois da conclusão da obra – possibilitou uma visão ampla dos impactos causados. “Em 1970, havíamos percorrido 5296 quilômetros em cima de uma promessa e de um projeto que só existia nos mapas. Partimos de João Pessoa, na Paraíba, e chegamos a Cruzeiro do Sul, na fronteira do Acre com o Peru. Vimos índios, onças, quatis, pássaros em profusão. Quatro anos depois, só a pesca abundante lembrava a aventura anterior. Os pássaros haviam se refugiado no interior da mata, a estrada espantara os animais selvagens e os índios estavam confinados em reservas.”Depois de transpor 136 rios, em seis balsas, e cruzar 130 pontes de madeira, os repórteres chegaram ao final da estrada sem a certeza de que ela traria os benefícios prometidos à região. Alfredo e eu ainda tínhamos dúvidas e nos perguntávamos: valeu a pena?”, diz Fernando. A reportagem, com a íntegra da viagem, foi publicada no Jornal da Tarde, em setembro de 1974, em 20 páginas distribuídas em cinco edições do jornal.

Saiba mais
Livros

Cem Quilos de Ouro e Outras Histórias de Um Repórter, Fernando Morais, Companhia das Letras, 2003 - O livro reúne 12 reportagens do autor. Entre elas está “O Sonho da Transamazônica”, de 1974, quatro anos depois de Morais ganhar o Prêmio Esso com uma matéria sobre a rodovia

Transamazônica, a Redescoberta do Brasil, Flávio Alcaraz Gomes, Cultura, 1972 - Livro-reportagem que aborda a abertura da rodovia no meio da floresta Amazônica

Revista Aventuras na História

terça-feira, 17 de agosto de 2010

A Holanda e o aquecimento global

Com boa parte de seu território abaixo do nível do mar, os holandeses já se empenham para defender-se da elevação dos oceanos.

Por Eduardo Araia



Trecho de praia em Monster no qual a construção de uma nova duna já está em estágio mais avançado. A areia é extraída do leito do mar a 15 quilômetros de distância da costa e levada até ela por tubulações.

Com boa parte do território abaixo do nível do mar, a Holanda é um dos países vulneráveis à elevação do oceano. Mas seu governo está atento à questão e já começa a implementar projetos para manter suas terras intactas

Na noite de 31 de janeiro para 1º de fevereiro de 1953, ventos e ondas gigantes derivadas de um ciclone no Mar do Norte causaram imensos estragos em países banhados por ele. Na costa leste da Grã- Bretanha, mais de 300 pessoas perderam a vida, 100 mil hectares de terra foram inundados e os prejuízos materiais passaram de R$ 14 bilhões, em valores atualizados. Bélgica, França e Dinamarca também foram bastante afetadas, mas a catástrofe maior ocorreu na Holanda. Naturalmente vulnerável por ter boa parte de seu território abaixo do nível do mar, o país viu 50 de seus diques se romperem, o que permitiu o avanço das águas sobre 200 mil hectares nas províncias meridionais de Zeeland, Noord Brabant e Zuid- Holland. Mais de 1.830 holandeses morreram afogados na ocasião e cerca de 72 mil tiveram de ser evacuados às pressas de suas residências.

Escaldado por essa trágica experiência, o governo da Holanda desenvolveu e implementou um grandioso sistema anti-inundações, elaborado para proteger as desembocaduras dos rios Reno, Meuse e Scheldt. Os trabalhos desse projeto foram concluídos com êxito em 1998, mas a tranquilidade que ele proporcionou até hoje não deixou os holandeses invigilantes. Uma comissão organizada pelo governo para estudar o aquecimento global e suas consequências anunciou em setembro de 2008 que o fenômeno poderia elevar o nível do mar entre 0,65 metro e 1,3 metro até 2100. De olho nessas previsões, o país já está pondo em prática diversas iniciativas para manter intacto o território que conquistou do mar a tão duras penas.

Uma das obras que exemplificam esse esforço contínuo está sendo desenvolvida na praia de Monster, 20 quilômetros ao sul de Haia. Ali, tubulações com várias centenas de metros de extensão expelem areia retirada do fundo do mar, a qual é transformada em dunas por grandes escavadeiras. Iniciada em 2008, a ação deverá estar concluída em 2011, ao custo total de 130 milhões de euros (cerca de US$ 200 milhões). Até lá, mais de 18 milhões de metros cúbicos de areia - suficientes para encher 7.200 piscinas olímpicas - serão despejados na praia a fim de compor as novas dunas litorâneas.

"Como é um delta baixo, a Holanda é muito sensível à mudança climática", declarou à AFP a vice-ministra de Transportes, Obras Públicas e Administração da Água, Tineke Huizinga, em novembro do ano passado. "Se os níveis do mar e dos rios subirem, a Holanda estará ameaçada. Afortunadamente, o litoral é seguro hoje, mas estamos investindo na segurança do povo que viverá aqui nos próximos 50 anos."
A matéria-prima para a montagem dessas defesas anti-inundações vem de um ponto a aproximadamente 15 quilômetros da costa. Ali, a areia é extraída do leito marinho por duas embarcações especializadas nessa atividade, que trabalham em turnos, dia e noite; em seguida, ela é enviada por meio das tubulações para a praia, onde as escavadeiras a amoldam para criar as dunas, alargar a praia e aumentar gradualmente a área do país.

Em princípio, desafiar o mar pode não parecer uma atitude sensata, mas é a única saída vislumbrada pelos holandeses, inclusive por um fortíssimo aspecto socioeconômico: as terras localizadas abaixo do nível do mar servem de moradia para aproximadamente 9 milhões dos 16 milhões de habitantes do país e são responsáveis por 65% do Produto Interno Bruto do país. Michiel van Haersma Buma, chefe de prevenção de inundações da área sob a qual está afeta a obra de Monster, explicou à AFP: "Não temos escolha, a não ser estender o litoral rumo ao mar. Nosso litoral é relativamente estreito. As casas e as estufas estão localizadas justamente além das dunas. Essa área é tão densamente povoada que não tínhamos nenhum espaço para construir mais dunas e diques no território."

As novas dunas - com largura entre 30 e 60 metros e altura de até 10 metros acima do nível do mar - estão sendo erguidas perto de outro grupo de dunas já existente. Para fixá-las ao solo, elas estão recebendo um tipo especial de grama com raízes longas. Uma vez concluida, a obra de Monster será composta por dunas que se estenderão por 20 quilômetros ao longo do litoral e terão 200 metros de largura - atualmente, a largura atinge no máximo 180 metros. "Quanto mais dunas há, menos água do mar pode se infiltrar", afirmou Haersma Buma. Desse modo, segundo o especialista, diminui o risco de contaminação da água doce no interior do país.
"Queremos poder viver e trabalhar em segurança", declarou Tineke Huizinga. "É um grande investimento", reconheceu ela a respeito da obra em Monster. "Mas o custo de proteger essa área é uma fração do custo que uma inundação causaria à economia - e que nem leva em consideração a desordem social e a perda de vidas."

Diante das mudanças climáticas, a epopeia dos holandeses contra o mar promete um sem-número de novas iniciativas. A comissão organizada pelo governo para estudar a questão já havia alertado em 2008 que o país deverá investir mais de 100 bilhões de euros no próximo século para modernizar diques e expandir a costa. As autoridades devem anunciar ainda este ano um novo programa para proteger o país das consequências do aquecimento global relacionadas à água. Custo da encrenca para o Estado, segundo o que a porta-voz do Ministério de Transportes, Obras Públicas e Administração da Água, Marie-Christine Lansen-Reusken, afirmou à AFP: aproximadamente 1 bilhão de euros (US$ 1,5 bilhão) por ano a partir de 2020.

Revista Planeta

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