sábado, 6 de junho de 2009

A arara e o quetzal: reflexões sobre as relações entre o Brasil e os países centro-americanos


Carlos Federico Domínguez Avila
Entre 1o e 4 de junho de 2009 o presidente Luiz Inácio Lula da Silva realiza visita de trabalho a três países centro-americanos: El Salvador, Guatemala e Costa Rica. Assim, o mandatário brasileiro reitera, novamente, o considerável interesse e relevância por uma região que ele, pessoalmente, conhece desde 1980, quando participou das comemorações do primeiro aniversário do triunfo da revolução sandinista na Nicarágua. Desde então, o fundador do Partido dos Trabalhadores e do Foro de São Paulo – entidade que agrupa aos principais partidos e organizações políticas de centro-esquerda da América Latina – retornou aos países centro-americanos em múltiplas oportunidades. Em conseqüência, ele é o primeiro governante brasileiro que logra visitar a todos os países centro-americanos – com exceção do peculiar caso de Belize.

Em El Salvador o presidente Lula participa da cerimônia de posse de Mauricio Funes, da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional – FMLN. A organização em questão foi criada em 1980, e na época se erigiu em uma das mais importantes, eficientes e combativas forças guerrilheiras do continente e do mundo. Não é incorreto afirmar que a atual democracia salvadorenha é resultado da luta armada, do sacrifício e do martírio de mais de 75 mil cidadãos contra uma das mais fechadas oligarquias latino-americanas – não por acaso El Salvador foi chamado durante muitos anos como “o país das 14 famílias”. O conflito salvadorenho culminou com o histórico acordo de Chapultepec (México, 1992). A FMLN se reorganizou como partido político de esquerda e passou a participar na política local de forma institucionalizada. A vitória presidencial de Mauricio Funes permite que, por primeira vez na história salvadorenha, um partido de centro-esquerda assuma a Presidência da República.

Adicionalmente, durante a campanha e após o triunfo da FMLN o novo presidente salvadorenho manifestou seu interesse por aproximar-se da experiência brasileira – isto é, um governo de esquerda reformista. Observe-se que, simbolicamente, o primeiro país que o presidente-eleito visitou foi o Brasil. E, à revelia dos setores “efemelistas” mais próximos do eixo castrista-chavista-orteguista, não se cogita, por enquanto, a entrada de El Salvador na Alternativa Boliviariana para as Américas (ALBA) – assunto de interesse geopolítico no contexto das relações hemisféricas.

Na Guatemala, o presidente Lula tem encontro marcado com o mandatário Álvaro Colom. É ilustrativo lembrar que o governante brasileiro também prestigiou, em janeiro de 2008, a posse do colega guatemalteco. Segundo fontes de imprensa, os mandatários têm agendado avaliar a evolução das relações bilaterais e temas multilaterais. Afirma-se que o governo do Brasil pode oferecer créditos para a aquisição de aviões militares da Embraer e para a construção de pequenas centrais hidroelétricas. Cumpre acrescentar que a Guatemala é a mais importante economia do istmo. O atual governo daquele país é de orientação centrista-reformista. Assim, a aproximação entre Brasília e a Cidade de Guatemala tem relevância tanto bilateral quanto hemisférica.

Finalmente, o presidente Lula visita a Costa Rica. Após as visitas dos ex-presidentes Sarney e Cardoso, será a terceira vez que um governante brasileiro chega ao país. Atualmente a Costa Rica é governada pelo presidente e premio Nobel da Paz Oscar Arias Sanchez – do Partido Liberação Nacional, de orientação centrista-reformista. Em São José, o diálogo Lula-Arias explorará, além de assuntos estritamente bilaterais, o processo de aproximação entre o Mercado Comum do Sul e o Sistema da Integração Centro-Americana. As partes acreditam que no segundo semestre de 2009 – isto é, durante a presidência costarriquenha do SICA – se lograrão avanços mais significativos, verificáveis e mutuamente vantajosos nas relações entre os blocos.

Em síntese, e levando-se em consideração as metáforas da arara e do quetzal, que identificam e referem ao Brasil e aos países centro-americanos, cumpre ponderar as seguintes colocações: (i) existem claras e evidentes afinidades eletivas entre os povos e os governos do Brasil e dos países centro-americanos, (ii) desde 2003 o presidente Lula logrou elevar a um novo e mais elevado patamar as relações econômicas, políticas e culturais com os países do istmo centro-americanos, (iii) a comum pertença das partes à região latino-americana é fundamental para compreender e avaliar a boa conjuntura das relações brasileiro-centro-americanas, e (iv) parece evidente que o presente e o futuro do relacionamento entre as partes é sumamente alentador, construtivo e cooperativo.

Carlos Federico Domínguez Avila é Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília. Docente e pesquisador do Mestrado em Ciência Política do UNIEURO (cdominguez_unieuro@yahoo.com.br).

Boletim Meridiano 47

Um comentário:

Matheus Blach disse...

Muito legal o blog!!! Parabéns!

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