segunda-feira, 2 de setembro de 2019

PÃES DE AÇÚCAR: REFÚGIOS DE ALTA BIODIVERSIDADE



Ao visitar o arquipélago de Galápagos, no oceano Pacífico, em 1835, o naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882) maravilhou-se com a biodiversidade local. Foram essas ilhas que o inspiraram a escrever A origem das espécies, livro que é um marco da teoria da evolução e que aborda a variação, a adaptação e o papel da seleção natural sobre a vida na Terra.

Durante muitos anos, as ilhas oceânicas chamaram a atenção de diversos pesquisadores por se tratarem de um ótimo modelo para estudos biogeográficos e evolutivos (ver ‘A regra da ilha’, em CH 336). Nas últimas décadas, sabendo desse potencial de estudo de ambientes isolados, cientistas mudaram o foco para outro tipo de ilha, as terrestres, como as montanhas e os afloramentos rochosos. De modo semelhante às ilhas oceânicas, elas também diferem da matriz onde estão inseridas e apresentam baixo intercâmbio de espécies, tanto da fauna quanto da flora.

No Brasil, não é difícil chegar a essa conclusão. Basta lembrar do Pão de Açúcar, da Pedra da Gávea, dos morros Dois Irmãos e do Corcovado para perceber que o Rio de Janeiro é dominado por ilhas terrestres (ver ‘Origem do nome’). Essas formações rochosas são elementos naturais que se destacam entre as praias mais famosas, como Copacabana e Ipanema, e, seguramente, são responsáveis por todo o encantamento da ‘cidade maravilhosa’ e por ela receber o título, em 2012, de Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco): ‘Rio de Janeiro, paisagens cariocas entre a montanha e o mar’.

Origem do nome

O nome ‘Pão de Açúcar’ dado ao famoso conjunto de morros da cidade do Rio de Janeiro data da época da colonização portuguesa, em que blocos de açúcar eram transportados do Brasil para a Europa. Durante o processo de fabricação do açúcar, os cristais aglutinados eram retirados de fôrmas cônicas em blocos, que tomavam o formato delas (veja a foto). Esse processo guardava semelhança com a produção do pão, que também era assado em fôrmas, e, assim, por analogia, passou­se a chamar de ‘pão de açúcar’ o cristal obtido.


Posteriormente, o afloramento foi batizado de Pão de Açúcar por causa da semelhança de seu formato com o dos cones de cristais de açúcar. Mais adiante, diversos geólogos, geógrafos e biólogos estenderam o uso do termo – pães de açúcar – para se referirem aos afloramentos rochosos arredondados, de composição especialmente granítica e gnáissica, inseridos no domínio da floresta atlântica.

No ano em que o mundo se volta para os jogos olímpicos no Rio de Janeiro, os autores deste artigo gostariam de sugerir um olhar biológico para os pães de açúcar da mata atlântica. Suas plantas vencem barreiras de um ambiente extremo e sobrevivem perfeitamente adaptadas nesse geossistema tão antigo. Nos jogos olímpicos da natureza, a vegetação desses afloramentos rochosos, com certeza, já está no pódio.

(foto: Leandro Cardoso)


Ícone das olimpíadas

Sem dúvida, o afloramento mais famoso no Brasil é o Pão de Açúcar, ícone das Olimpíadas deste ano, cartão postal e protagonista de várias marcas. Um complexo de rochas inseridas em matriz florestal e urbana, e uma das atrações turísticas mais procuradas no país. Desde 1912, mais de 40 milhões de pessoas já visitaram o local, atraídas pela vista espetacular da baía de Guanabara, das praias e das outras montanhas que se destacam.

No meio científico, esses afloramentos rochosos que surgem abruptamente na paisagem, de composição principalmente granítica e gnáissica, são denominados inselbergs, termo de origem alemã (insel = ilha e berg = montanha). Quando apresentam formato arredondado e estão inseridos em uma matriz florestal, são chamados ‘pães de açúcar’. Essas formações datam de mais de 550 milhões de anos e estão distribuídas em escudos cristalinos por todos os continentes, sendo, nos trópicos, centros de diversidade biológica.

No Brasil, pães de açúcar ocorrem em grande concentração nas regiões Nordeste e Sudeste, especialmente em áreas de caatinga e floresta atlântica. Entretanto, com exceção do Rio de Janeiro, diversos aglomerados magnificentes desses afloramentos são desconhecidos por grande parte da população, como ocorre no nordeste de Minas Gerais e no norte do Espírito Santo. Em termos florísticos e ecológicos, os inselbergs têm relações comuns com outros tipos de afloramentos rochosos no país, como os campos rupestres e as cangas, que enfrentam condições ambientais muito adversas (ver ‘Cangas – ilhas de ferro estratégicas para a conservação’, em CH 295).

Aglomerado de pães de açúcar no nordeste de Minas Gerais. No primeiro plano, se destacam populações de bromélias (do gênero Encholirium) e cactos (do gênero Coleocephalocereus) crescendo diretamente sobre a rocha.
(foto: Luiza F. A. de Paula)

Apesar de essas formações serem frequentes no território brasileiro, estudos biológicos nos pães de açúcar são escassos. Os poucos inventários florísticos disponíveis na literatura apontam para elevada diversidade de espécies vegetais, muitas delas raras e endêmicas.

Nos últimos anos, várias espécies novas para a ciência vêm sendo descobertas nessas áreas, algumas restritas a poucos afloramentos. Esse é o caso de uma gramínea (Axonopus graniticola), um antúrio (Anthurium mucuri) e duas bromélias (Alcantarea longibracteta e A. simplicisticha) encontrados recentemente na divisa dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Outros exemplos são uma espécie da família das violetas (Sinningia bragae) e uma begônia (Begonia ibitiocensis), descritas para áreas menos conhecidas do norte do estado do Rio de Janeiro.


Pães de açúcar ocorrentes no norte do Espírito Santo, região conhecida como Pontões Capixabas.
(foto: Luiza F. A. de Paula)


Estratégias de sobrevivência

De forma geral, os inselbergs apresentam condições ambientais extremas, como altas temperaturas, fina (ou nenhuma) camada de solo e baixa retenção de água. Por essas razões, é comum termos a impressão de que as encostas desses afloramentos são simplesmente rochas nuas. Entretanto, um olhar mais detalhado revela uma diversidade a que poucos estão familiarizados.

Várias espécies de cianobactérias – parte dos primeiros grupos de organismos que colonizaram os ecossistemas terrestres há mais de 400 milhões de anos – formam crostas em toda a extensão da superfície rochosa, conferindo a coloração acinzentada que visualizamos, por exemplo, no Pão de Açúcar e na Pedra da Gávea. Portanto, não existem rochas realmente nuas, mas superfícies cobertas por um manto de micro-organismos capazes de suportar temperaturas que atingem mais de 60°C!

Plantas com diferentes adaptações conseguem crescer sobre os
pães de açúcar, como as bromélias, cactos, palmeiras e
canelas-de-ema, formando verdadeiros tapetes sobre a rocha.
As bromélias são as que mais se destacam, crescendo geralmente
na ausência de solo, em encostas muito íngremes, como a espécie
destacada na foto de baixo, pertencente ao gênero Encholirium.
Os inselbergs são considerados um dos centros de diversidade da
família Bromeliaceae. (fotos: Luísa O. Azevedo)

Os seres vivos capazes de sobreviver nesses locais apresentam diferentes tipos de adaptações. É notável a presença de plantas capazes de se aderir diretamente à rocha, por meio de raízes especializadas, formando extensas populações que se assemelham a tapetes. No Brasil, principalmente na região Sudeste, bromélias, orquídeas e cactos compõem essa ‘malha’ em encostas muito íngremes, desafiando a lei da gravidade.

Diversas também são as estratégias adotadas por esses grupos de plantas para armazenar água. Bromélias pertencentes ao gênero Encholirium e orquídeas do gênero Epidendrum, por exemplo, acumulam água nos seus tecidos vegetais, apresentando folhas suculentas. Já outras bromeliáceas, como Alcantarea e Vriesea, conseguem estocar água como tanques por possuírem uma arquitetura foliar em formato de roseta, o que mantém a umidade das plantas e acaba atraindo uma fauna variada. É importante salientar que a água acumulada nos ‘tanques’ das bromélias não são redutos de larvas do mosquito transmissor da dengue, e, portanto, não devem ser vistas como uma ameaça à população.

Os cactos, por sua vez, não só acumulam água, como apresentam espinhos (folhas modificadas) e pilosidades (revestimentos de finos pelos), especialmente em suas bases, evitando o superaquecimento do contato direto com a rocha, o que pode ser visto em espécies pertencentes ao gênero Coleocephalocereus.

Espécies de cactos, como Coleocaphalocereus buxbaumianus, possuem pilosidades em suas bases para evitar as altas temperaturas da rocha exposta. (foto: Luiza F. A. de Paula)

Outra estratégia espetacular de algumas plantas formadoras de ‘tapetes’ é a tolerância à dessecação (secura extrema). Durante a estação seca, algumas espécies entram em um estado desidratado, como se estivessem mortas. Suas folhas tornam-se enegrecidas e enroladas, chegando a perder mais de 90% de água. Após as chuvas, elas se reidratam, ficando verdes novamente, sem qualquer prejuízo estrutural ou fisiológico. Por essa característica única são chamadas pelos botânicos de ‘plantas de ressurreição’.


A tolerância à dessecação é uma estratégia desenvolvida
por diversas espécies que habitam os pães de açúcar. Em
períodos de seca, elas perdem água e suas folhas ficam
com aspecto ressecado, mas sem perder a viabilidade, como
é possível verificar acima, na população de Barbacenia
tomentosa, da família das velloziáceas (popularmente
conhecidas como canelas-de-ema). Após as chuvas, elas
conseguem se hidratar novamente, e retomam seu vigor
(abaixo). Por esse motivo, as plantas com essa estratégia
são conhecidas como ‘plantas de ressurreição’.
(foto: Luiza F. A. de Paula)

Muitas espécies conseguem sobreviver a esses ciclos, destacando-se as samambaias e licófitas dos gêneros Cheilanthes, Doryopteris e Selaginella. Entre as plantas com flores, as ornamentais canelas-de-ema (pertencentes aos gêneros Barbacenia e Vellozia, da família Velloziaceae) são as que, sem dúvida, mais chamam a atenção. Alguns exemplares de diferentes espécies de Velloziaatingem idades superiores a 500 anos, mostrando a eficácia dessa estratégia para sua sobrevivência.

Diante do aquecimento global, pesquisas recentes vêm dando foco aos genes dessas ‘plantas de ressureição’ envolvidos na tolerância à dessecação. Elas são usadas como modelo para melhor entender esse mecanismo, visando, posteriormente, a sua aplicação em plantas cultivadas.


Por que preservar?

O que poucos sabem é que, quando os portugueses chegaram ao Brasil, a primeira porção de terra avistada foi um inselberg, como relatou Pero Vaz de Caminha na sua famosa carta enviada ao rei de Portugal: “Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome o Monte Pascoal e à terra – a Terra da Vera Cruz”.

Haviam chegado a uma região exuberante da mata atlântica, que se estendia por aproximadamente 3.300 km ao longo da costa brasileira, e que à época era habitada por numerosas tribos indígenas. Tanto a floresta quanto os primeiros habitantes sucumbiram quase que inteiramente diante dessa paulatina ocupação do litoral brasileiro. Foram os ciclos do ouro, da cana e do café, além da exploração madeireira, os principais responsáveis pela destruição de uma das mais ricas formações vegetais do planeta. Restam somente 11% da cobertura vegetal original, representada por fragmentos pequenos e cada vez mais empobrecidos biologicamente.

Nesse contexto, os inselbergs se destacam por servirem de refúgio para fragmentos florestais praticamente intactos e pouco acessíveis ao ser humano, e por apresentarem plantas altamente especializadas que só ocorrem sobre a rocha exposta. O resultado são ilhas terrestres detentoras de alta diversidade biológica.

Devido ao seu isolamento, os pães de açúcar são considerados ilhas terrestres, abrigando espécies altamente especializadas e servindo de refúgio para fragmentos florestais praticamente intocados. (foto: Leandro Cardoso)

No entanto, nosso panorama atual não é animador. Em diversas regiões do Brasil, esses aforamentos, por não serem considerados áreas prioritárias para conservação, sofrem sérias ameaças. A coleta ilegal de plantas ornamentais, o fogo, as trilhas de turismo e a invasão de espécies exóticas (não originárias desses locais) têm contribuído para a destruição da vegetação natural desses ambientes.

A retirada da cobertura vegetal que ocorre sobre a rocha favorece o deslizamento de terra e enchentes nas áreas vizinhas, o que pôde ser observado em eventos recentes, nos últimos anos, no estado do Rio de Janeiro. O fator complicador é que a regeneração da flora dos inselbergs é muito lenta e ela provavelmente nunca poderá ser recuperada da mesma maneira.

Outro agravante é a crescente exploração do granito. Em diversos locais, o mineral passou a ser usado no lugar da madeira em bancadas, paredes, pisos, entre outros utensílios. Em estados como o Espirito Santo, o ciclo destrutivo de supressão das florestas capixabas foi substituído pela destruição de suas rochas, alimentando um comércio desenfreado e nada sustentável.


Mineradora de granito no estado do Espírito Santo. Grandes blocos são retirados diariamente, levando à extinção diversos pães de açúcar da região. (foto: Luiza F. A. de Paula)

Apesar de óbvio, o importante papel das plantas no nosso dia a dia tem sido negligenciado. Elas são fontes de alimentos, combustíveis, fibras, matérias-primas para a indústria, medicamentos, além de tornarem nossa atmosfera respirável – motivos que bastariam para dedicar mais investimentos e atenção para estudá-las e compreendê-las melhor. Um país como o Brasil, que abriga a maior diversidade de plantas do planeta, deveria ser capaz de preservar minimamente suas espécies.


Sugestões para leitura

DE PAULA, L.F.A.; FORZZA, R.C.; NERI, A.V.; BUENO, M.L.; POREMBSKI, S. Sugar Loaf land in south-eastern Brazil: a centre of diversity for mat-forming bromeliads on inselbergs. Botanical Journal of the Linnean Society, v.181, p.459-476, 2016.

DE PAULA, L.F.A.; VIANA, P.L; MOTA, N.; AUGSTEN, M.; LEITE, F. E STEHMANN, J.R. Plantas Saxícolas em Inselberg no Vale do Mucuri. In: Rapid Color Guides. Chicago: The Field Museum, 2013.

DE PAULA, L.F.A.; FORZZA, R.C.; NERI, A.V.; BUENO, M.L.; POREMBSKI, S. Sugar Loaf land in south-eastern Brazil: a centre of diversity for mat-forming bromeliads on inselbergs. Botanical Journal of the Linnean Society, 2016.

MAUAD, L.P.; BUTURI, F.O.S.; SOUZA, T.P.; NASCIMENTO, M.T. & BRAGA, J.M.A. New distribution record and implications for conservation of the endangered Wunderlichia azulensis Maguire & gm Barroso (asteraceae: Wunderlichieae). Check List, v. 10, p. 706, 2014.

POREMBSKI, S. E BARTHLOTT, W. (org.). Inselbergs – Biotic diversity of isolated rock outcrops in tropical and temperate regions. In: Ecological studies, v. 146. Berlim:Springer-Verlag, 2000.


Luiza F. A. de Paula
Stefan Porembski
Instituto de Biociências, Botânica Especial e Geral
Universidade de Rostock (Alemanha)

Luísa O. Azevedo
João Renato Stehmann
Departamento de Botânica
Instituto de Ciências Biológicas
Universidade Federal de Minas Gerais

Luana Paula Mauad
Rafaela Campostrini Forzza
Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Revista Ciência Hoje

domingo, 1 de setembro de 2019

A arte de deturpar George Orwell

Resultado de imagem para George Orwell

Thierry Discepolo

As referências ao autor de 1984 multiplicaram-se nos últimos vinte anos. Enquanto seu engajamento político o ancora à esquerda, é cada vez mais um pensamento neoconservador que reivindica sua obra. Recuperação de ambiguidades plausível ou deturpação?

Tudo e o contrário dele foi dito sobre George Orwell. Sobretudo o contrário. Condenar o colonialismo britânico e dar testemunho da vida dos trabalhadores pobres e dos vagabundos; converter-se a um socialismo radicalmente igualitário após uma pesquisa sobre os operários ingleses; abandonar a negligência social-democrata e ser internacionalista até combater durante a guerra da Espanha nas fileiras do Partido Operário de Unificação Marxista (Poum); desejar que a resistência do povo britânico à Alemanha nazista desencadeasse uma revolução; juntar-se à ala esquerda do Partido Trabalhista; e, enfim, morrer cedo para ser paparicado pelo sucesso de Nineteen Eighty-Four (1984): não só tudo isso não foi suficiente para que uma parte da esquerda o considere um dos seus, como também não impediu seu apoderamento pelos neoconservadores. Como isso aconteceu?

Sucesso popular no Reino Unido e nos Estados Unidos desde sua publicação, em 1949, Nineteen Eighty-Four é amplamente exaltado pela imprensa. Mas Orwell (1903-1950) desde aquela época era muitas vezes mal compreendido, particularmente na América, onde seu itinerário de homem de esquerda é pouco conhecido e seu romance é lido como uma crítica ao socialismo – a ponto de ele se sentir obrigado a esclarecer suas intenções para o sindicato dos trabalhadores norte-americanos da indústria automobilística.


Na França, ainda em dezembro de 1949, o colunista do Le Monde, Robert Escarpit, qualificou o romance de “divertido, mas simples caricatura do regime soviético”. Em junho de 1950, quando publicada a tradução francesa, o escritor Marcel Brion a saudou como uma história “escrita em grande estilo e na melhor linguagem dos melhores romancistas ingleses”. Sessenta e oito anos depois, para a recepção da segunda tradução francesa, a imprensa literária navegou entre banalidades e contrassensos, ao reproduzir docilmente o release do editor. No entanto, Orwell não é mais o autor cuja morte foi noticiada apenas no Le Monde, em 51 palavras.


Em meados dos anos 1950, seus principais livros foram todos (mais ou menos mal) traduzidos, umas vinte edições de 1984 foram vendidas, mas lhe consagraram apenas dois ensaios e a imprensa fez relativamente poucas referências a eles. Mais tarde, tudo mudou: dos anos 1980 aos 2000, Orwell foi alvo de uns quarenta ensaios, e sua obra (exceto 1984) foi retraduzida pelas Éditions Champ Libre, incluindo nove textos inéditos. O Le Monde (o que mais fez referências à sua obra) escreveu tanto sobre Orwell, em 1982 e 1983, quanto durante os trinta anos anteriores. O ritmo diminuiu durante um tempo, mas a partir de 1995 ele foi novamente citado de forma abundante pela imprensa – e mais do que nunca a partir dos anos 2010. Muitas coisas mudaram então: o “bloco do Leste” não existe mais, e a alternância entre o neoliberalismo dos “socialistas” e dos “republicanos” legitimou uma confusão entre esquerda e direita, facilitando a tarefa para os neoconservadores, como Alain Finkielkraut. Desde então, é o Le Figaro que menciona Orwell com mais frequência; e ele é muito apreciado por uma imprensa pouco ligada ao socialismo revolucionário, de Limite a Causeur, passando por Marianne e até pelo Journal de Béziers, cidade cujo prefeito, Robert Ménard, foi eleito com o apoio da Frente Nacional. Como essa esfera de influência adotou um autor cuja vida e obra lhe foram tão hostis?


A “redescoberta” de Orwell é atribuída a Jean-Claude Michéa, filósofo que se prevalece do marxismo e autor, em 1995, de Orwell, anarchiste tory [Orwell, anarquista do Partido Conservador], fadado ao sucesso. A expressão “anarquista tory” só foi utilizada por Orwell a respeito de Jonathan Swift, que ele admirava como escritor e satírico do mesmo modo que criticou sua personalidade e suas posições políticas. E, se falou de si próprio em termos análogos, foi somente quando, em 1937, teve um olhar crítico sobre o jovem esnobe que ele era ao sair do Eton. Quanto às relações de Orwell com o Partido Conservador britânico, ele se recusou a se tornar membro dele até mesmo para lutar contra o stalinismo: “Sou de esquerda e devo trabalhar entre ela, qualquer que seja meu ódio do totalitarismo russo e de sua influência nefasta sobre nosso país”.1

Fica claro, em Michéa, que o rótulo de “anarquista tory” serve de antinomia, se não de antídoto, para o “liberal libertário” e outros “progressistas” da burguesia letrada que ele combate – os mesmos para os quais Orwell jamais usou palavras tão duras. Mas vê-se também muito bem que esse rótulo pode incitar uma recuperação pela direita.


A ideia de que Orwell seria, por “temperamento político”, um anarquista conservador já tinha sido sugerida por Simon Leys, autor de um ensaio determinante, Orwell ou l’horreur de la politique [Orwell ou o horror da política] (1984). Leys toma todos os cuidados – falando da “profundidade e da sinceridade do engajamento de Orwell no ideal socialista” e do fato de seu “apoderamento pela nova direita refletir menos o potencial conservador de seu pensamento que a persistente estupidez [da] esquerda”.2 Mas seu título obscurece as pistas. Orwell, que se preocupou “em fazer da escrita política uma arte”,3 não expressa um “desgosto da política”, mas uma crítica da política autoritária e, em particular, da política imperial da União Soviética.

Enfim, é a noção de common decency [decência universal], a honestidade habitual defendida outrora por Charles Dickens, que teria levado à adoção de Orwell pela nova direita. Emblemática de valores associados à classe operária, retidão moral, generosidade, senso de solidariedade, ódio dos privilégios, sede de igualdade e ligação à ideia de uma verdade objetiva, o conjunto de disposições que constituem a common decency é, para Orwell, herdado do cristianismo e da Revolução Francesa. Se essa “moral social e econômica” perdura mais na relação de pessoas de condição modesta com a vida e com os outros, não seria por ser inata, mas por terem um tipo de vida que facilita sua perenidade e transmissão. Assim, todas as classes sociais abrigam mais ou menos esses valores. Mas as relações de dominação que estruturam nossas sociedades as ultrajam permanentemente. Por isso, segundo Orwell, é preciso fazer a revolução: para abolir a divisão em classes que impede a instauração de uma ordem social justa, da qual a common decency se tornaria o fundamento moral comum.4 Isso ecoa na análise do historiador inglês Edward P. Thompson sobre as mobilizações populares relacionadas à “economia moral” das multidões punindo as elites que transgridem as normas comuns não escritas; e na do cientista político norte-americano Barrington Moore, concernente à ideia de que os dominados se revoltam quando o poder despreza o “pacto social implícito” e suas “obrigações morais”.


Como os neoconservadores podem, então, se prevalecer da common decency? É simples. Retire “generosidade, senso de solidariedade, ódio de privilégios, sede de igualdade”. Esqueça a Revolução Francesa e a “abolição da divisão em classes”. Guarde “retidão moral” e “cristianismo”. Afirme que o operário (branco) pertence às classes médias pauperizadas pela chegada de um subproletariado insensível à “nossa” common decency. E pronto.

E isso ainda mais porque, junto aos intelectuais de esquerda, a common decency é muito malvista: qualificada de moral “burguesa” ou “idealista” e até mesmo “de direita”, ela é suspeita de descartar a política e de alimentar o anti-intelectualismo. Reação que é possível compreender, Orwell concebia a common decency como uma virtude deficitária da “intelligentsia moderna”: desprovido do fundamento histórico e relacional que lhe teria permitido ter valores da honestidade universal, o intelectual seria, mais que qualquer outro ator social, permeável aos desvios autoritários de uma ordem que garante sua posição –mesmo quando ele mantém um discurso de emancipação.

A blasfêmia de “anti-intelectualista” poderia muito bem ter sido menos perdoada do que o engajamento póstumo e injusto de Orwell na cruzada anticomunista, ardente a invocar o stalinismo para desqualificar os ideais socialistas do movimento operário: se lermos bem 1984, nele encontraremos menos uma “caricatura do regime soviético” que a sátira da utopia que ele atribui aos intelectuais.


Essa utopia, “paródia das consequências intelectuais do totalitarismo”,5 é revelada por uma cena de tortura conduzida por um filósofo e dirigente do partido, que discute a natureza da verdade, defendendo concepções bem menos marxistas6 que pós-modernas. Na filosofia do partido, assim como na filosofia pós-moderna, a verdade, resultado de um consenso social, é construída, é relativa a um período, a uma cultura. O torturador não impõe tanto à sua vítima que ela reconheça que “dois mais dois são cinco” como uma verdade quanto ele lhe inflige uma lição de “pensamento duplo”, técnica de ajuste ao consenso do momento. Essa “competência” não é apanágio apenas dos “totalitarismos”; ela se encontra também em Donald Trump e suas “verdades alternativas”: “Tento dizer a verdade sempre, e quero sempre dizer a verdade. Mas, às vezes, acontece algo e há uma mudança, mas quero sempre ser sincero”.7

Uma vez que as referências à crítica do totalitarismo, feita por Orwell, estão mais associadas desde 1995 à internet e à vigilância de massa, sua inteligência política é, por assim dizer, vivificada, o que não foi útil para a nova edição de 1984 lançada pela Gallimard.

A primeira tradução padecia de certa falta de precisão, de escolhas que envelheceram, de faltas de detalhes, de alguns contrassensos importantes e de um grande número de frases ausentes. No entanto, ela implementou suas principais noções na língua francesa. Em 2018, para “fazer justiça [a 1984] de um ponto de vista literário”, a nova versão traduziu no presente uma narrativa escrita no passado, o que diz mais sobre a consideração da obra pelo editor do que sobre a “justiça”. E porque Newspeak não seria uma língua, novilínguatornou-se neofalar. No entanto, o romance dá a estrutura e a etimologia da “língua oficial da Oceania” com a qual seus habitantes são fadados a falar e a (não mais poder) pensar. No impulso, a polícia do pensamento tornou-se mentopolice, e o crime de pensamento, mentocrime.


De onde vêm “liberdades” como essas? Do direito de cada um de construir em cada leitura, em cada tradução, o sentido de um texto, afirma a tradutora. Mas não é justamente desse relativismo que o panfleto satírico de Orwell revela os perigos? Para seu herói, é a existência de uma verdade externa que torna a liberdade individual possível: limitando nosso privilégio e, sobretudo, o do poder, de decidir o que é. Não é o último subterfúgio da novilíngua nada mais que seguir as vias da literatura para substituir termos precisos por “novas palavras” vazias?

Thierry Discepolo fundou as Éditions Agone, que deu origem à nova tradução de 1984 publicada pelas Éditions de la rue Dorion (Montreal).

1 “Lettre à la duchesse d’Atholl” [Carta à duquesa de Atholl], 15 nov. 1945. In: George Orwell, Essais, articles et lettres [Ensaios, artigos e cartas], v.IV, Ivrea/Encyclopédie des nuisances, Paris, 2001.

2 Simon Leys, Orwell ou l’horreur de la politique [Orwell ou o horror da política] [1984], Plon, Paris, 2006.

3 George Orwell, “Pourquoi j’écris?” [Por que escrevo?], 1946. In: Essais, articles et lettres [Ensaios, artigos e cartas], v.I, Ivrea/Encyclopédie des nuisances, Paris, 1995.

4 Jean-Jacques Rosat, Chroniques orwelliennes [Crônicas relativas a Orwell], Collège de France, Paris, 2013.


5 “Lettre à Roger Senhouse” [Carta a Roger Senhouse], 26 dez. 1948. In: George Orwell, Essais, articles et lettres, v.IV, op. cit.

6 James Conant, Orwell ou le pouvoir de la vérité [Orwell ou o poder da verdade], Agone, Marselha, 2012.

7 Donald Trump’s wacky approach to truth, explained in 7 words [Abordagem excêntrica de Donald Trump sobre a verdade, explicada em sete palavras], CNN, 1º nov. 2018.
Le Monde Diplomatique Brasil

sábado, 31 de agosto de 2019

A nova rota da seda


Ela não é uma estrada: é o maior conjunto de obras da história da humanidade, e grande cartada da China para ultrapassar os EUA
Tiago Cordeiro e Bruno Garattoni

(nikolos/Superinteressante)

Liu Bang nasceu pobre, mas teve uma chance na vida. Apareceu tarde, aos 54 anos. O imperador chinês morreu e Liu, que era policial, montou um exército rebelde e tomou o poder. Ele trocou de nome e passou a ser conhecido como Gaozu de Han – o primeiro líder de uma dinastia poderosíssima, que duraria quatro séculos. Tudo porque Liu teve uma sacada genial: abriu a China, criando rotas e acordos de comércio que conectaram o país aos demais. Resultado, as exportações dispararam e a economia chinesa bombou. Mais ou menos como acontece hoje; só que no século 2 a.C. A iniciativa ficou conhecida como Rota da Seda (porque era esse o principal produto exportado), e os chineses aproveitaram a onda de comércio para dominar a Ásia, espalhando sua influência e negócios pelo continente. Agora, mais de 2 mil anos depois, eles querem fazer isso de novo – só que, desta vez, incluindo o mundo inteiro.

No mês passado, o governo chinês anunciou o One Belt One Road (“um cinturão, uma rota”, em inglês), o maior plano de investimentos da história da humanidade. Ele inclui uma quantidade astronômica de dinheiro: nada menos do que US$ 5 trilhões. Isso é três vezes o PIB do Brasil, e quase 40 vezes o valor atualizado do Plano Marshall, que os EUA criaram para reconstruir a Europa após a 2a Guerra Mundial. Esse tsunami de dinheiro será investido em 65 países, que juntos concentram 63% da população global, ao longo dos próximos 40 anos. O objetivo é nítido. “A China quer ser a nova potência mundial, e para isso precisa se tornar o maior player do comércio internacional”, diz Peter Dutton, diretor do US Naval War College e especialista em sinologia. O megaprojeto inclui portos, rodovias, ferrovias, gasodutos, oleodutos e centros de distribuição, tudo para favorecer as exportações chinesas.

É exatamente a mesma estratégia adotada pelas duas últimas superpotências. Nos séculos 18 e 19, os ingleses construíram ferrovias e portos no mundo inteiro, do Paraguai à Índia. Assim, eles ocupavam a capacidade ociosa de suas indústrias, davam emprego a seus trabalhadores e abriam novos mercados para seus produtos e serviços – de quebra, emprestavam dinheiro aos outros países, gerando dependência econômica e ganhando com juros. Os americanos fizeram exatamente a mesma coisa nas décadas de 1940 e 1950. Agora é a vez da China, que pretende concluir todas as obras de seu megaprojeto até 2049 – quando a revolução popular chinesa, liderada por Mao Tse-Tung em 1949, completará cem anos.
(Marcus Penna/Superinteressante)

O pulo do dragão

Pensou em produto importado, pensou na China. Hoje ela fabrica grande parte das coisas que o mundo consome, e sua economia cresce a taxas altíssimas (tanto que o PIB chinês poderá superar o dos Estados Unidos já em 2026). Mas nem sempre foi assim. Durante boa parte do século 20, o governo de Pequim apostou num socialismo focado na população interna. “A China deu início a sua economia de mercado em 1978”, explica o economista André Nassif, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV). O país começou criando as chamadas “zonas especiais de exportação”, áreas onde empresas estrangeiras poderiam montar fábricas. Deu certo, e na década de 1990 a China passou a ter grande superávit na balança comercial. Entrava mais dinheiro do que saía, e os chineses foram acumulando uma gigantesca poupança. Até que decidiram investir esse dinheiro fora do país. Em 1991, seus investimentos no exterior eram de apenas US$ 3 bilhões. Hoje, passam de US$ 170 bi. Muita coisa – mas, para uma economia do tamanho da chinesa, ainda pouco (corresponde a apenas 1,5% do PIB). 


Um dos principais projetos da nova rota da seda é a melhoria da rede ferroviária. Os chineses já têm 20 linhas de carga que conectam o país a vários centros econômicos da Europa e da Ásia, mas querem converter tudo em ferrovias de alta velocidade. A viagem de trem de Pequim a Moscou, por exemplo, passaria a demorar apenas 30 horas – hoje, leva cinco dias. Tudo graças a trens-bala que ficarão prontos até 2025. A parceria com a Rússia também está levando os chineses até o Ártico: um projeto de US$ 40 bilhões vai apostar na construção e na reforma de portos, ferrovias e gasodutos. Ao todo, somados os projetos em estudo e em andamento, a China pretende construir 175 mil km de ferrovias nos próximos dez anos – isso dá sete vezes toda a malha ferroviária brasileira. O megaprojeto também tem obras no Oriente Médio e na África (veja no infográfico as principais). Mas há uma ausência notável: ele não inclui o Brasil.
A polêmica da Bioceânica

Hoje pode parecer difícil de lembrar, mas o Brasil já viveu uma era de tranquilidade política. E foi justamente aí, em 2010, que os chineses nos procuraram para falar sobre uma obra gigantesca: a Ferrovia Bioceânica, que atravessaria o Peru e o Brasil, ligando o Oceano Pacífico ao Atlântico. Eles se propuseram a construir a ferrovia e emprestar dinheiro para o Brasil pagar a conta – que ficaria em torno de US$ 10 bilhões. Ao mesmo tempo, começaram a escavar um canal que atravessa a Nicarágua, com o mesmo objetivo – para que os navios chineses tenham trânsito livre e não precisem passar pelo Canal do Panamá, controlado pelos EUA.

Em ambos os casos, deu errado. Na Nicarágua, as obras mal começaram e já estão paradas. A Ferrovia Bioceânica, por sua vez, nem saiu do papel. Há quem acredite que o problema é econômico. “Ao apostar no crescimento de outros países, a China acredita no crescimento da demanda por produtos dela”, diz André Nassif. Como a nossa economia vai mal, estamos comprando menos da China, e por isso não valeria a pena investir.

Mesmo com a crise, a China continua sendo nosso maior parceiro comercial. Ela é o principal destino das nossas exportações, US$ 37,4 bilhões por ano, e o país de onde nós mais importamos coisas (US$ 23,8 bilhões). Em abril, os chineses enviaram representantes ao Senado para tentar fazer a obra deslanchar. Mesmo com todo o caos político no Brasil, eles querem a ferrovia. Mas há quem diga que ela jamais vai sair do papel.
(nikolos/Superinteressante)

“Eu gostaria de ver acontecer a obra, mas há alguns estudos mostrando que a Ferrovia Bioceânica é inviável”, afirma Félix Alfredo Larrañaga, professor de comércio exterior da Faculdade Anchieta. Ele dá um exemplo. Transportar uma tonelada de soja do cerrado brasileiro até a China passando pelo porto de Santos, como é feito hoje, custa US$ 120. Já fazer isso usando a Ferrovia Bioceânica sairia por aproximadamente US$ 167. Bem mais caro.

Ou seja: na prática, o maior objetivo da obra seria gerar mercado para as construtoras chinesas, e não necessariamente beneficiar o Brasil. Porque essa é a outra face do One Belt One Road: a tentativa de estabelecer domínio absoluto. Tanto é que, ao mesmo tempo em que faz megainvestimentos em outros países, a China tem ampliado fortemente seu aparato militar, em especial a Marinha. Segundo um levantamento do Instituto Internacional para Estudos Estratégicos, sediado em Londres, no ano 2000 a China tinha 163 embarcações militares de grande porte (somando porta-aviões, cruzadores, destróieres e submarinos), contra 226 dos EUA. No ano passado, já eram 183 contra 188, um empate técnico. E, em 2030, deverão ser 260 dos chineses contra 199 dos americanos. O país também está investindo em bases marítimas no estrangeiro – a começar por uma no Djibuti, país africano com menos de 1 milhão de habitantes que está entre os principais alvos da nova rota da seda. Ou seja: junto com as obras civis, os chineses pretendem fazer uma expansão militar também. 

Os EUA não se manifestaram oficialmente sobre o megaprojeto chinês, mas várias empresas americanas estão tentando abocanhar uma parte das obras. É o caso da General Electric, que em 2016 conseguiu triplicar suas vendas de equipamentos de engenharia e construção na China.

Os investimentos militares e civis são bancados em grande parte pelo Estado chinês, mas não só. O país organizou uma plataforma de suporte financeiro para a iniciativa, que inclui um fundo para captar investimentos privados, com capital inicial de US$ 40 bilhões. Grandes empresários chineses aderiram, como já tinham aderido a projetos anteriores – a tentativa de construir o canal da Nicarágua, por exemplo, é bancada por um magnata chinês das telecomunicações, Wang Jing. No caso específico do One Belt One Road, até agora 47 corporações da China participam de 1.676 diferentes programas vinculados ao projeto. O China Communications Construction Group, sozinho, assumiu a responsabilidade de construir 95 portos, 10 aeroportos, 152 pontes e 10.320 km de estradas.

“São investimentos arriscados. Alguns podem não dar lucro ou não ser concluídos nos prazos”, diz David Wijeratne, analista da consultoria PricewaterhouseCoopers e autor de um estudo detalhado sobre a nova rota da seda. O Paquistão, por exemplo, vai chegar a 2022 devendo US$ 5 bilhões para os chineses, sem nenhuma garantia de que tudo vá mesmo ser construído. Os países africanos também podem acabar se enrolando em dívidas. É com dinheiro chinês que estão sendo construídas diferentes ferrovias, incluindo a que liga as capitais da Etiópia e do Djibuti e a estrada de ferro que vai conectar Mombassa e Nairobi, as duas cidades mais importantes do Quênia. A mesma pista deverá ser expandida até outros três países, Uganda, Ruanda e Congo. Para os africanos, por mais que as obras representem uma bela melhoria na infraestrutura, o investimento pode representar uma dependência econômica perigosa. “Quase todos os países envolvidos [no One Belt One Road] têm estabilidade política e condições mínimas de pagar pelo dinheiro emprestado pelos chineses. Não é o caso dos africanos”, afirma Peter Dutton. “Eles correm o risco de se tornar politicamente dependentes de Pequim.”

Talvez esse seja justamente um dos objetivos da nova rota da seda. Afinal, ela abre novos mercados, mas também espalha dívidas. Gera desenvolvimento, mas também cria relações de influência e poder. É assim que a economia global funciona. Sempre foi assim. E, ao que tudo indica, vai continuar a ser.


(Marcus Penna/Superinteressante)

1 – Ferrovia Londres (Inglaterra)/ Yiwu (China)
Custo não divulgado
Em abril, um trem com 30 contêineres fez a viagem inaugural no primeiro trecho da linha, que vai passar por sete países no caminho entre China e Inglaterra: Cazaquistão, Rússia, Bielorrússia, Polônia, Alemanha, Bélgica e França.

2 – Ferrovia Kunming (China)/Vientiane (Laos)
US$ 5,9 bilhões
Será usada para transporte de passageiros, com trens de alta velocidade que farão todo o percurso em apenas 10 horas. Terá 33 estações, com início de operações previsto para 2020.

3 – Túnel Kamchiq (Uzbequistão)
US$ 1,9 bilhão
É o túnel mais longo da Ásia Central, e passa por sete falhas geológicas. Uma obra complicadíssima. Mas que já está pronta: o túnel foi aberto em 2016. Nos próximos anos, ele será conectado à malha ferroviária que os chineses estão construindo.

4 – Ferrovia Moscou (Rússia) / Kazan (Rússia)
US$ 16,7 bilhões
Deve ficar pronta em 2020. Seus trens de passageiros vão alcançar 400 km/h e passar por 15 estações. Além de ligar as duas cidades russas, faz parte de um projeto maior: uma estrada de ferro de 7 mil km, ligando Moscou a Pequim.

5 – Ferrovia Kunming (China) / Bangkok (Tailândia)
US$ 12 bilhões
Vai levar pessoas entre os dois países, por um terço do preço da passagem aérea para o mesmo trecho. Deverá ficar pronta em 2020, e será conectada a uma nova linha entre Tailândia e Singapura.

6 – Corredor de gasodutos e oleodutos da Ásia Central
US$ 7,3 bilhões
Os EUA sempre desejaram fazer essa obra – mas os chineses parecem mais perto de dobrar a resistência da Rússia e do Irã. Vai levar gás do Turcomenistão e do Cazaquistão para a China e a União Europeia.

7 – Corredor de infraestrutura Kashgar (China) / Khunjerab (Paquistão)
US$ 54 bilhões
Engloba rodovias, ferrovias, gasodutos, oleodutos e redes de telefonia e internet. Os chineses terão acesso direto à Caxemira (região atualmente disputada por Índia e Paquistão).

8 – Ferrovia Addis Abeba (ETIópia) / Golfo de Aden (DjibuTI)
US$ 4 bilhões
Parcialmente inaugurada em outubro de 2016, a estrada Já leva cargas e, este ano, começará a transportar passageiros. A viagem, que de carro demora três dias, agora será percorrida em 12h.

9 – Ferrovia Budapeste (Hungria) / Belgrado (Sérvia)
US$ 2,9 bilhões
Será o primeiro pedaço de uma estrada maior, que deverá chegar a Atenas. A obra tem gerado polêmica na Europa, pois os chineses não divulgaram os detalhes do contrato que assinaram com o governo húngaro.
Revista Superinteressante

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Cinco novas ilhas foram descobertas na Rússia – e isso não é um bom sinal


Entre 2015 e 2018, 30 novas ilhas, cabos e baías surgiram entre as regiões de Nova Zembla e Terra de Francisco José.
Rafael Battaglia



(Ansgar Walk/Wikimedia Commons)

500 anos já se passaram desde as Grandes Navegações, período no qual os europeus foram ao mar e chegaram em terras antes desconhecidas por eles – a América, por exemplo. Mas acredite: mesmo com toda a tecnologia existente em pleno 2019, ainda há lugares inéditos na Terra sendo descobertos ou, no caso que contamos abaixo, aparecendo “do nada”.

Na última semana, a Rússia confirmou a existência de cinco novas ilhas em Novaya Zemlya (ou Nova Zembla), um arquipélago no mar de Kara, na região norte do país, próxima ao Oceano Ártico.

Elas foram identificadas pela primeira vez em 2016 pela estudante Marina Migunova. Isso aconteceu durante uma expedição do curso de uma academia naval em São Petersburgo do qual Marina fazia parte. Contudo, de acordo com o Ministério da Defesa russo, para que os locais fossem adicionados aos mapas, foi preciso que especialistas visitassem o local o comprovassem a descoberta.
(Google Maps / Andy Faria/Montagem sobre reprodução)

As ilhas estão localizadas na baía de Vize e têm tamanhos diferentes: variam de 900 a 54,5 mil metros quadrados. O arquipélago em que elas estão, Novaya Zemlya, era usado para testes nucleares durante a Guerra Fria. Foi lá que, em 1961, a União Soviética testou a Tsar Bomba, a arma nuclear mais potente da história.


Pela descoberta, Marina recebeu um diploma honorário da Sociedade Hidrográfica Russa. Hoje, ela trabalha como engenheira naval nas frotas da Marinha no norte do país.

Mas antes de bancar o Cristóvão Colombo e sair por aí como um explorador, saiba que o surgimento dessas novas ilhas não é um bom sinal. Pelo contrário: o fenômeno ilustra os efeitos do aquecimento global. Tudo indica que elas apareceram como consequência do derretimento acelerado de geleiras.


Russia confirms discovery of 5 new Arctic islands which emerged as climate change accelerates glacial meltinghttps://www.themoscowtimes.com/2019/08/28/russia-discovers-5-arctic-islands-as-glaciers-melt-a67051 …



As porções de terra que agora formam as ilhas estavam escondidas sob a geleira Nansen, também conhecida como Vylka, que cobre boa parte de Nova Zembla e que integra a maior calota de gelo da Europa. Com o aumento das temperaturas na região do Ártico, o gelo derreteu – e elas apareceram.

Não foi um caso isolado. Entre 2015 e 2018, 30 novas ilhas, cabos e baías surgiram entre as regiões de Nova Zembla e Terra de Francisco José (Franz Josef Land), outro arquipélago dali. O monitoramento é feito via satélite pelo serviço hidrográfico da Rússia, e espera-se que mais locais assim sejam encontrados.
Revista Superinteressante

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Aumento da obesidade no Brasil chega a nível alarmante


O Brasil é líder mundial em sedentarismo e tem índices alarmantes de aumento da obesidade, segundo o Ministério da Saúde. A simples adoção de um estilo de vida mais saudável pode evitar doenças como hipertensão e diabetes




Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, abre o debate, alertando que é necessário balancear o gasto calórico com a ingestão de alimentos(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Com índices alarmantes de aumento da obesidade, sobretudo entre crianças, o Brasil está prestes a conquistar a incômoda liderança como o país mais sedentário do mundo em estudo que ainda será divulgado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). O alerta é do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, ao chamar a atenção para a necessidade de a população brasileira buscar o equilíbrio entre gasto calórico e ingestão de alimentos.

Ao abrir o Correio Debate Desafios da Alimentação Saudável, Mandetta ressalta que a obesidade avança de forma preocupante no país. Segundo dados do Ministério da Saúde, 12,9% das crianças entre 5 e 9 anos são obesas e 17% das menores de 5 anos estão com excesso de peso. “Isso provoca, no longo prazo, aumento de diabetes, hipertensão, acidentes cardiovasculares, doenças oriundas do padrão alimentar”, sentencia.


O aumento da obesidade, avisa o ministro, não é um problema só no Brasil. “O fenômeno é global”, afirma. México e Estados Unidos têm índices ainda mais alarmantes, assim como na Europa. “Países africanos que não tinham nada de obesidade experimentam aumento significativo de peso da população. A China, após a migração do campo para a cidade, está fazendo investimentos enormes por conta da preocupação com o estilo de vida”, afirma.

Fórmula

Mandetta ressalta que a fórmula para reduzir o problema da obesidade é simples. “Usar o tempo de maneira útil, saudável e com qualidade de vida está embasado em dois pilares: alimentação e atividade física. Desde sempre, a humanidade vem se utilizando do que a natureza lhe oferta”, destaca. No entanto, pontua, quando o equilíbrio entre ingestão e o gasto é desfeito, são percebidas inúmeras situações e problemas de saúde. “As pessoas consomem, cada vez mais, alimentação industrializada com excesso de açúcar e de sódio. Somado a isso, temos o tempo medido por hora-tela (que representa o sedentarismo em frente ao computador) aumentando significativamente.”


Apesar de ter alta incidência solar e grande parte da população estar próxima da costa, o que deveria propiciar a prática de exercícios, o Brasil caminha para a liderança em sedentarismo, revela Mandetta. “As pessoas trabalham sentadas, vão de carro para o escritório, chegam em casa e vão para o computador. Estudo da OMS, que ainda deve sair, vai mostrar que o Brasil conquistou essa posição incômoda”, antecipa. “Somos mais sedentários do que países que passam meses sob neve, que tiveram que criar verdadeiros bunkers indoors e desenvolver esportes de inverno”, compara.

O ministro lembra hábitos de consumo de gerações passadas para mostrar que as mudanças recentes levaram à evolução da obesidade no país. “O Brasil vem do arroz com feijão, do carboidrato com proteína vegetal. Tem uma terra extremamente generosa com frutas e verduras e, nessa base, atravessamos 500 anos de história com bom ponto de equilíbrio. Hoje há uma ruptura”, alerta.

Numa volta ao passado, Mandetta conta um pouco da própria história para ilustrar as mudanças de hábitos. “Nasci em Campo Grande, na minha infância, a cidade devia ter 200 mil habitantes. A porta da casa era aberta, com bicicletas no jardim. As famílias dos vizinhos tinham vários filhos, a minha mãe teve cinco. Então, era uma verdadeira praça de atividades físicas com todas brincadeiras típicas de uma infância do interior do Brasil, todas envolvendo corrida, saltos, pulos, árvore, futebol. Toda uma socialização em torno da atividade física”, recorda.


Perfil

Além da valorização do esporte no colégio e na rua, a seleção de alimentos era mais criteriosa, diz o ministro. “Minha mãe era dona de casa, selecionava os alimentos da família. Nosso almoço era feito dentro de casa, o pão era caseiro, o jantar feito em casa. Meu avô era fabricante do Guaraná Tupi, mas só tomávamos o refrigerante nos aniversários ou dias extremamente selecionados”, conta. O perfil das gerações passadas, portanto, era de atividade física e base alimentar saudável.

Quando o país entra na década de 1980, recorda Mandetta, as pessoas se tornam mais dependentes dos automóveis, há popularização dos alimentos industrializados. “O que antes era uma exceção, uma criança obesa, agora é uma constelação”, diz. Paralelamente ao aumento de peso, o país experimenta expansão das doenças ligadas aos padrões alimentares, como hipertensão, diabetes e problemas cardiovasculares. “Há uma correlação, que precisamos combater. Por isso, o debate sobre alimentação saudável é fundamental”, acrescenta. 


Mudança de hábito

Para reverter o avanço da obesidade no país, é preciso travar estratégias. No âmbito da indústria, é necessário reduzir o padrão hipercalórico dos alimentos. No campo dos hábitos de vida, a saída é estimular alimentação saudável e prática de exercícios. “O Ministério da Saúde está desenvolvendo políticas de saúde, sobretudo, voltadas para as crianças, população na qual a educação é capaz de reverter hábitos”, diz o titular da pasta, Luiz Henrique Mandetta.

Ao olhar as políticas públicas, o ministro reconhece que, dentro do sistema de saúde, um dos profissionais menos aproveitados na caminhada de construção do SUS foi o profissional de educação física. “A saúde se utilizou muito da enfermagem, muito dos médicos, psicólogos e dentistas, mas praticamente não se utilizou do educador físico. Nossa população de meia-idade desperta, a um ritmo muito baixo, para as praças e parques, para a caminhada, quase por orientação médica”, ressalta.

Programas

Alguns números, sublinha o ministro, apontam que a estratégia de focar nas crianças está no caminho certo. “Mais de 4 mil municípios, de 5,5 mil, aderiram ao programa Crescer Saudável, que visa intensificar ações de controle, prevenção e tratamento da obesidade infantil, levando a um padrão alimentar mais saudável”, sustenta. “Este ano, vamos fazer, pela primeira vez, o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enane), que consiste em pesquisas para entender como o mãe atua como provedora alimentar”, explica.

O objetivo é trabalhar 15 mil domicílios em 123 municípios selecionados, para avaliar o consumo alimentar, antropometria e indicadores bioquímicos. “Vamos fazer questionário sobre consumo alimentar, medir peso e altura. Saber o que essas crianças comem, como comem, qual a periodicidade. Entender se a propaganda dos alimentos na hora dos programas infantis tem o padrão que o Conar (Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária) exige e se há ou não relação com os hábitos alimentares das crianças”, detalha.

O foco na atenção básica também faz parte da estratégia do ministério. “A atenção básica é espinha dorsal de qualquer programa de saúde que queira trabalhar o modo de vida, promoção de saúde, medidas de prevenção. E estamos promovendo uma reestruturação no nosso sistema de saúde, vindo da atenção primária. Começamos com aumento de horas de porta aberta das nossas unidades básicas de saúde, de 40 horas semanais para 75 horas”, conclui.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Pastagens malcuidadas elevam emissões de metano


Estudo feito na Amazônia indica que áreas com falhas na cobertura de pasto emitem mais metano, um dos principais gases de efeito estufa


Pasto de pequeno proprietário nas imediações da Floresta Nacional do Tapajós, Pará, com a área de preservação ao fundo; na região amazônica, 60% a 80% das áreas desmatadas são ocupadas por pastagens – Foto: Leandro Fonseca de Souza/Cena-USP

Recuperar a cobertura vegetal de áreas degradadas utilizadas como pastagem tem potencial de reduzir o impacto da atividade pecuária na emissão de gases de efeito estufa, em especial o metano. A conclusão é de pesquisa do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP, em Piracicaba, realizada na Amazônia, região onde é comum a substituição da floresta por pastos. O estudo traz indícios de que áreas com a vegetação degradada, com falhas na cobertura de pasto, emitem mais metano e mostra que medidas adotadas para melhorar a qualidade do solo favorecem o crescimento das plantas usadas para pastagem e reduzem a presença de micro-organismos que produzem metano.

O metano é um dos gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global. “Quando há a floresta, esse gás é retirado da atmosfera e retido abaixo das árvores, por meio de micro-organismos presentes no solo”, afirma o biólogo Leandro Fonseca de Souza, que realizou a pesquisa. “Com o desmatamento e a substituição da floresta por pastos, há emissão de metano para a atmosfera, produzido inclusive por micro-organismos, o que agrava o efeito-estufa”.

O biólogo foi até a região amazônica para medir as emissões e o fluxo de gases no solo, comparando o que acontece na floresta e nas áreas de pastagem. “Os solos amazônicos são naturalmente ácidos. A queima da floresta e incorporação das cinzas no solo reduzem essa acidez”, relata. “A medição aconteceu em áreas diferentes, no Pará e em Rondônia. Foram feitas várias medições ao longo do ano, para avaliar os períodos de seca e de chuva. Ao mesmo tempo, houve a coleta de amostras de solo para analises microbiológicas, que serviram para entender o comportamento dos micro-organismos em cada uma das áreas.”

A análise das emissões de gases confirmou que a floresta retira o metano da atmosfera, o qual é retido por micro-organismos que ficam no solo, e também demonstrou a importância dos micro-organismos junto às raízes das gramíneas neste processo. “O estudo identificou quais são esses micro-organismos e como muda sua abundância com as mudanças no ambiente”, explica Fonseca de Souza. “O objetivo é entender como o manejo da pastagem pode reduzir as emissões de metano.”

.Ao fundo, área vizinha à propriedade de pastagem, com uma mata secundária, já explorada; recuperação de áreas degradadas exige melhoria da qualidade do solo e recolocação de plantas – Foto: Leandro Fonseca de Souza/Cena-USP

Manejo de pastagem

A pesquisa avaliou duas dimensões do manejo de pastagem: a correção da acidez do solo e o efeito dos micro-organismos ligados às raízes das gramíneas, plantas usadas para pasto. “Corrigir a acidez afeta a capacidade do solo de incorporar metano e a presença das plantas é positiva”, ressalta o biólogo. “Os solos de pastagem na Amazônia apresentam altos níveis de degradação, ou seja, não têm boa cobertura de pasto. Melhorar a cobertura vegetal pode reduzir as emissões de metano dessas áreas.”

Solos muito ácidos são ruins para a pastagem, observa o pesquisador. “As plantas não se desenvolvem bem, então é preciso corrigir a acidez. Após a correção, em geral, as plantas de desenvolvem mais, com mais raízes e, em consequência, há menos micro-organismos que produzem metano no solo”, diz. Normalmente, a correção acontece como um subproduto das queimadas, por meio das cinzas, mas em cultivos como o de soja, que não tolera solos ácidos, é feita com a adição de calcário. “Reduzir a acidez é um passo inicial para recuperar áreas degradadas e melhorar a qualidade do solo, recolocando plantas e não deixando o solo descoberto.”

O biólogo aponta que 60% a 80% das áreas desmatadas da Amazônia são utilizadas como pasto, e 40% a 60% delas estão degradadas em algum nível. “A pesquisa trouxe indícios de que as áreas degradadas, com falhas na cobertura de pasto, emitem mais metano”, destaca. “Desmatar aumenta o impacto das emissões, mas manter um pasto bem cuidado reduz esse impacto.” A pesquisa é descrita em tese de doutorado defendida no Cena, com orientação da professora Siu Mui Tsai, e faz parte de um projeto temático financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) em parceria com a National Science Foundation (NSF), que conta com a participação de quatro universidades dos Estados Unidos.

O trabalho do grupo foi apresentado na Rhizosphere 5.0 Conferencerealizada entre os dias 7 e 11 de julho, em Saskatoon (Canadá), com o título “Gramineae roots affect CH4 sequestration in tropical grassland soils”. O estudo foi um dos cinco trabalhos premiados com o Poster Award 2019, escolhidos entre 202 pôsteres apresentados por pesquisadores de 31 países.


Infografia: Jornal da USP

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Mais informações: e-mail leandro_fonseca@usp.br, com Leandro Fonseca de Souza
Jornal USP

Estrutura geológica e mineração


Marcus Vinicius Castro Faria
Mestre em Geografia pela Universidade Federal Fluminense


ESTRUTURA GEOLÓGICA

O território brasileiro fica sobre a placa tectônica sul-americana e tem estrutura rochosa antiga e estável, livre de tremores intensos. Embora apresente estrutura geológica diversificada, não conta com dobramentos modernos em suas terras.

Denomina-se processo geológico o conjunto de ações que promovem modificações da crosta terrestre, seja em sua forma, estrutura ou composição. Os processos geológicos que ocorrem dentro do planeta (endógenos) e sobre o planeta (exógenos) podem ser reunidos num ciclo de processos que agem continuamente sobre o material rochoso. 

São processos geológicos endógenos: vulcanismo, terremotos, orogênese, epirogênese, etc. 




Processos geológicos endógenos ou dinâmica interna (Foto: Colégio QI)

Nas terras emersas, a crosta terrestre é formada por três tipos de estruturas geológicas, caracterizadas pelos tipos de rochas, processo de formação e idade geológica. São os dobramentos modernos, os maciços antigos e as bacias sedimentares.

Estrutura geológica da Terra (Foto: Reprodução/IBGE)


A estrutura geológica do Brasil compõe-se de maciços antigos e bacias sedimentares, não ocorrendo a existência de dobramentos modernos. O território brasileiro está distante de zonas de instabilidade tectônica – a mais próxima fica junto ao oceano Pacífico, nos países andinos – e localiza-se ao centro da placa sul-americana. 


Os maciços antigos (ou escudos cristalinos) são os terrenos mais antigos da crosta terrestre, sendo constituídos por rochas magmáticas e metamórficas. Nos maciços apareceram as jazidas minerais metálicos (ferro, ouro, manganês, prata, cobre, alumínio e estanho). No Brasil, representam 36% da superfície territorial. 


A epirogênese corresponde ao movimento vertical que ocorre em regiões afastadas das zonas de contato entre as placas e em áreas de rochas mais sólidas e estáveis. A pressão das forças internas provoca a fratura (ou a formação de falhas) nos blocos rochosos e o soerguimento ou rebaixamento do terreno na superfície.

Os principais tipos de falhas (Foto: Reprodução/ARRIBAS, San Miguel. Atlas de geologia.)

As bacias sedimentares resultam do acúmulo de sedimentos provenientes do desgaste das rochas, de organismos vegetais, animais ou de camadas de lava vulcânica solidificada. Podem conter grande quantidade de material fossilizado em suas camadas. Nessas estruturas se formam importantes recursos minerais energéticos como o petróleo, o gás natural e o carvão mineral. A estrutura geológica brasileira é constituída predominantemente por bacias sedimentares, que recobrem 64% do território. 


Os dobramentos modernos são trechos da crosta de formação geológica recente composto de rochas menos rígidas, situadas relativamente próximas às zonas de contato entre placas (zonas convergentes). Devido à pressão de uma placa sobre a outra, essa parte da crosta dobra-se num processo lento (orogênese), dando origem às cadeias montanhosas como a Cordilheira do Andes, do Himalaia e a Cadeia dos Alpes, que apresentam elevadas altitudes e forte instabilidade tectônica. 

Estrutura geológica do Brasil (Foto: Reprodução/IBGE, Atlas do Brasil, 1966)



MINERAÇÃO E PETRÓLEO

O Brasil é um dos grandes produtores mundiais de minérios (todo mineral com valor econômico). As principais reservas brasileiras localizam-se nos maciços antigos (escudos cristalinos) e, por essa razão, tem evidência a extração dos minérios metálicos. Nas bacias sedimentares são explorados, entre outros, o petróleo e o carvão mineral. Diversas empresas brasileiras se destacam nesses setores, como é o caso da Petrobrás e da antiga Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). 


As jazidas minerais estão distribuídas nas diferentes regiões do Brasil. No entanto, em alguns estados a produção mineral se destaca:


- Pará e Minas Gerais: ferro, manganês, cobre e alumínio.
- Rio de Janeiro, Espírito Santo, Rio Grande do Norte e Bahia: petróleo. 
- Estados da região Sul do Brasil: carvão mineral.
- Vários estados da Amazônia brasileira: ouro.

Distribuição da atividade petrolífera no Brasil (Foto: Reprodução/Colégio Qi)



CAIU NO ENEM

(Enem): As plataformas ou crátons correspondem aos terrenos mais antigos e arrasados por muitas fases de erosão. Apresentam uma grande complexidade litológica, prevalecendo as rochas metamórficas muito antigas (Pré-Cambriano Médio e Inferior). Também ocorrem rochas intrusivas antigas e resíduos de rochas sedimentares. São três as áreas de plataforma de crátons no Brasil: a das Guianas, a Sul-Amazônica e a do São Francisco.
ROSS, J. L. S. Geografia do Brasil. São Paulo: Edusp, 1998.


As regiões cratônicas das Guianas e a Sul-Amazônica têm como arcabouço geológico vastas extensões de escudos cristalinos, ricos em minérios, que atraíram a ação de empresas nacionais e estrangeiras do setor de mineração e destacam-se pela sua história geológica por: 

A) apresentarem áreas de intrusões graníticas, ricas em jazidas minerais (ferro, manganês).
B) corresponderem ao principal evento geológico do Cenozoico no território brasileiro.
C) apresentarem áreas arrasadas pela erosão, que originaram a maior planície do país.
D) possuírem em sua extensão terrenos cristalinos ricos em reservas de petróleo e gás natural.
E) serem esculpidas pela ação do intemperismo físico, decorrente da variação de temperatura.


Comentário: Letra A. As regiões cratônicas das Guianas (no norte do território nacional) e a Sul-Amazônica destacam-se pela presença de ricas jazidas minerais, como o manganês explorado na Serra do Navio (AP) e o ferro na Serra dos Carajás (PA) dentre outras províncias mineralógicas exploradas na região.http://educacao.globo.com

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Serra Pelada: entenda a saga do ouro nos anos 1980


Garimpeiros de todo o Brasil exploraram 30 toneladas do metal precioso

Serra Pelada, no Pará, ficou conhecida nos anos 80 como o maior garimpo a céu aberto do mundo. Pela grande quantidade de ouro, a região atraiu milhares de pessoas e se transformou em um formigueiro humano. A busca pelo ouro teve início no Brasil em uma época e local bem diferentes, foi em Minas Gerais, no século XVII, que a exploração começou sob o controle de Portugal.

A minissérie "Serra Pelada - A Saga do Ouro", que estreia na Globo no dia 21 de janeiro, revisita a exploração do ouro no Brasil. Com nomes de peso no elenco, como Sophie Charlotte, Wagner Moura, Juliano Cazarré, Júlio Andrade e Matheus Nachtergaele, a série conta a história de dois amigos de infância que se mudam para o Pará por causa da “febre do ouro”. O garimpo começa no final da década de 1970 e vive seu auge nos anos 80, a exploração em Curionópolis, no Pará, durou aproximadamente 11 anos.

O garimpo em Serra Pelada retratado na minissérie 'Serra Pelada - A Saga do Ouro'. (Foto: Paulo Wainer - Divulgação/Globofilmes)


A Fazenda Três Barras era mais uma das centenas de propriedades da Bacia Amazônica, até que a notícia da descoberta de ouro atraiu garimpeiros de todo o Brasil para o local, a 800 km de Belém. A região foi desmatada - dando lugar ao garimpo - e dividida em barrancos de dois por dois metros. Cada unidade era ocupada por um garimpeiro, que tentava a sorte enquanto cavava: era possível encontrar apenas lama ou enriquecer com grandes quantidades de ouro.

Em pouco tempo a Serra Pelada - um complexo mineral que abrange uma área de aproximadamente 5 mil hectares - se tornou o maior garimpo do mundo, com 80 mil homens trabalhando ao mesmo tempo. Durante o auge da produção aurífera, o governo federal decidiu intervir na área. Todos os garimpeiros e os barrancos foram registrados junto à Receita Federal. Todo metal precioso encontrado na área deveria ser vendido à Caixa Econômica Federal. De acordo com o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) foram extraídas, de forma oficial, 30 toneladas de ouro no local.

Com o passar dos anos, o a extração de ouro foi se tornando cada vez mais perigosa, já que a área do garimpo ficava cada vez mais profunda. Deslizamentos de terra eram constantes e mortes também. No decorrer da década de 1980, a produção entrou em declínio e, em 1992, o governo Collor fechou o garimpo através de um decreto.

Hoje, a área do garimpo deu lugar a um lago de 200 metros de profundidade, utilizado como fonte de lazer pela população local. No entanto, há sinais de que o ouro voltará a sair de Serra Pelada. A Cooperativa de Mineração dos Garimpeiros de Serra Pelada (Coomigasp) e a mineradora canadense Colossus Minerals Inc. fecharam um acordo para explorar o complexo mineral de forma mecanizada.

sábado, 24 de agosto de 2019

Grandes espécies de animais de água doce estão ameaçadas, aponta estudo


Declínio de 88% se deu entre 1970 e 2012 e equivale a duas vezes a perda de vertebrados em terra ou no oceano, segundo estudo alemão. Grandes répteis e peixes estão entre os animais mais atingidos

Paloma Oliveto



O comércio de animais e a construção de barragens são os principais causadores da redução da megafauna de rios e lagos(foto: Jay Directo/AFP)Embora cubram apenas 1% da superfície da Terra, rios e lagos abrigam um terço de todas as espécies de vertebrados do mundo. Ao mesmo tempo, a vida na água doce está altamente ameaçada. Cientistas do Instituto Leibniz de Ecologia de Água Doce e Pesca Interior (IGB), na Alemanha, quantificaram o declínio global de grandes animais desse habitat. De 1970 a 2012, as populações da megafauna fluvial e lacustre diminuíram 88% — duas vezes a perda de vertebrados em terra ou no oceano. As espécies grandes de peixes são particularmente afetadas. E, segundo alertam os pesquisadores, ainda existem grandes lacunas nas ações de monitoramento e conservação desses animais, particularmente em áreas com altos níveis de biodiversidade.

A megafauna de água doce inclui todos os animais fluviais e lacustres que pesam 30kg ou mais, como golfinhos, crocodilos, tartarugas gigantes e esturjões. Os cientistas coletaram dados de séries temporais disponíveis para 126 espécies em todo o mundo, bem como os dados de distribuição geográfica históricos e contemporâneos de 44 espécies na Europa e nos Estados Unidos. “Os resultados são alarmantes e confirmam os temores dos cientistas envolvidos em estudar e proteger a biodiversidade de água doce”, diz Sonja Jähnig, autora sênior do estudo e especialista em efeitos de mudanças globais nos ecossistemas fluviais.

De 1970 a 2012, as populações globais de megafauna de água doce diminuíram 88%, mais notavelmente nos reinos Indomalaya (99%) e Palearctic (97%) — a primeira cobrindo sul e sudeste da Ásia, além do sul da China, e a última referente à Europa, ao norte da África e à maior parte da Ásia. Espécies grandes de peixes, como esturjões, salmonídeos e bagres gigantes estão particularmente ameaçadas, com um declínio de 94%; seguidas por répteis, com 72%.

Há duas principais ameaças, explicam os pesquisadores. “A superexploração é a mais grave delas, uma vez que os animais de água doce são frequentemente alvo do comércio de carne, pele e ovos. Além disso, o declínio de grandes espécies de peixes também é atribuído à perda de rios de fluxo livre, pois o acesso às áreas de desova e de alimentação é frequentemente bloqueado por barragens”, Fengzhi He, especialista em padrões de diversidade e conservação da megafauna de água doce no IGB.

Embora os grandes rios do mundo já estejam altamente fragmentados, outras 3,7 mil grandes barragens estão em fase de planejamento ou em construção — isso exacerbará ainda mais a fragmentação fluvial. “Mais de 800 dessas barragens estão localizadas em regiões de diversidade de megafauna de água doce, incluindo as bacias dos rios Amazonas, Congo, Mekong e Ganges”, afirma He. Um artigo publicado no ano passado por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa) destacou que, na bacia do Amazonas, em 10 anos, as populações do boto rosa (Inia geoffrensi) e do tucuxi (Sotalia fluviatilis) caíram pela metade.

ConservaçãoO estudo alemão também destaca a importância de ações de conservação direcionadas às espécies de água doce. Populações de 13 megafaunas, incluindo o esturjão verde (Acipenser oxauris) e o castor americano (Castor canadensis), mantiveram-se estáveis ou até aumentaram nos Estados Unidos. Na Ásia, a população do golfinho do Rio Irrawaddy (Orcaella brevirostris), na bacia do Mekong, aumentou pela primeira vez em 20 anos.

Na Europa, estratégias de conservação eficientes e de grande escala parecem ser mais difíceis de se implementar, diz He, possivelmente devido a fronteiras políticas e a diferenças na consciência ambiental entre os países. No entanto, o castor da Eurásia (Fibra de Castor), por exemplo, foi agora reintroduzido em muitas regiões em que havia sido extirpado. Na Alemanha, o IGB está trabalhando com parceiros internacionais para reintroduzir as duas espécies de esturjão anteriormente nativas: o europeu (Acipenser sturio) e o atlântico (Acipenser oxyrinchus) nas águas europeias.

Algumas das atuais ações de conservação são inadequadas para muitas espécies, alertam os pesquisadores. “De acordo com a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza, mais da metade de todas as espécies de megafauna estão ameaçadas de extinção. No entanto, elas recebem menos atenção de pesquisa e conservação do que a megafauna em ecossistemas terrestres ou marinhos”, lembra Jähnig.

O agora quantificado declínio global da megafauna de água doce destaca a necessidade urgente de ações de conservação para a biodiversidade, alerta o pesquisador. “É importante melhorar o monitoramento das tendências populacionais e distribuições de espécies de água doce em regiões como o Sudeste da Ásia, África e América do Sul. Afinal, mudanças na abundância e distribuição são melhores indicadores da condição dos ecossistemas e de seus organismos vivos”, alega.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

OMS estuda os impactos dos microplásticos na saúde humana


Em relatório inédito, agência das Nações Unidas afirma que há informações limitadas sobre os riscos à saúde humana em decorrência do contato com essas micropartículas e defende a adoção de medidas que reduzam a poluição ambiental

Paloma Oliveto



Os sistemas de tratamento de água residual eliminam mais 90% dos microplásticos, segundo o estudo(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)Grande vilão da vida marinha e considerado pela Organização das Nações Unidas (ONU) o principal desafio ambiental do século, o excesso de plástico descartado na natureza de forma indiscriminada também pode colocar em risco a saúde humana. Pela primeira vez, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou um relatório sobre a presença de microplástico na água potável. As primeiras análises não conseguiram identificar os potenciais efeitos no organismo provocados pelas micropartículas, mas o documento ressalta que as pesquisas disponíveis sobre o tema são limitadas e insuficientes para se chegar a uma conclusão sólida.

“Precisamos urgentemente saber mais sobre o impacto dos microplásticos na saúde porque eles estão em toda parte, inclusive em nossa água potável”, disse, em uma coletiva de imprensa, Maria Neira, diretora do Departamento de Saúde Pública, Meio Ambiente e Determinantes Sociais da Saúde da OMS. “Com base nas informações limitadas que temos, os microplásticos na água potável não parecem representar um risco para a saúde nos níveis atuais, mas precisamos descobrir mais. Também precisamos parar com a poluição por plásticos em todo o mundo para beneficiar o meio ambiente e reduzir a exposição humana”, afirmou.

Microplásticos são uma grande variedade de materiais compostos por diferentes substâncias e densidades, além de composição química, formato e tamanho diversos. Não há um consenso científico sobre a definição do termo, mas, frequentemente, é definido como partículas plásticas com menos de 5mm de comprimento. Porém, a OMS destaca que esse é um significado “arbitrário e tem valor limitado no contexto da água de beber, uma vez que é improvável que partículas superiores em tamanho sejam encontradas na água tratada”. A falta de padronização de conceito é apontada pela organização como um dos motivos pelos quais, no relatório divulgado, os resultados dos estudos não são considerados suficientemente de confiança.
Controle de qualidadeO estudo da OMS conclui que a maior parte das 52 pesquisas analisadas — as mais recentes a respeito da associação — não são “totalmente confiáveis” porque os métodos “carecem de controle de qualidade suficiente”. “Por exemplo, em duas delas, nenhuma análise espectroscópica (que examina a composição química) foi realizada para confirmar que as partículas identificadas (nas amostras de água) eram plástico”, diz a publicação. Além de uma definição consensual de microplástico, a OMS ressalta a necessidade de serem desenvolvidos métodos padronizados para medição na água, pede mais estudos sobre as fontes e a ocorrência dessas partículas em água doce e a avaliação da eficácia de diferentes processos de tratamento.

O relatório recomenda que os fornecedores e as agências reguladoras priorizem a remoção de patógenos microbianos e de produtos químicos que têm riscos conhecidos para a saúde humana, como aqueles que causam doenças diarreicas que podem levar à morte. “Isso tem uma dupla vantagem: os sistemas de tratamento de águas residuais e de água potável que tratam o conteúdo fecal também são eficazes na remoção de microplásticos”, afirma a publicação, segundo a qual mais de 90% das micropartículas plásticas podem ser eliminadas nesse processo. Contudo, uma parte significativa da população global atualmente não tem acesso à água potável nem a tratamento de esgoto, observa a OMS.

Produção em altaA produção mundial de plástico aumentou de 322 milhões de toneladas em 2015 para 348 milhões dois anos depois. Considerando a taxa de crescimento populacional e os hábitos de consumo e descarte de lixo, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estima que a produção de plástico deve dobrar em 2025 e mais que triplicar até 2050.

O relatório da OMS destaca que, embora faltem informações para se tirarem conclusões sólidas sobre a toxicidade de partículas plásticas, especialmente as nano (com menos de 150 micrômetros), estudos com ratos e camundongos indicaram alguns impactos, como inflamação do fígado. “Porém, esses poucos estudos têm índice de confiança e relevância questionáveis, e os níveis de exposição foram muito acima da que ocorre na água potável”, pondera.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Fumaça vinda da África pode ser um importante fertilizante para Floresta Amazônica e Oceano Atlântico


Novo estudo aponta que incêndios no continente africano fornecem fósforo, um nutriente essencial, para esses ecossistemas


A fumaça dos incêndios que ocorrem na África pode ser uma importante fonte de fósforo, um nutriente essencial que serve como fertilizante para a floresta Amazônia, o Atlântico tropical e o Oceano Antártico. É o que sugere um estudo liderado por pesquisadores da Faculdade Rosenstiel de Ciências Marinhas e Atmosféricas da Universidade de Miami, nos Estados Unidos.

Os nutrientes encontrados em partículas atmosféricas, chamados aerossóis, são transportados pelo vento e depositados tanto em oceanos como em terra firme, onde estimulam a produção de fitoplâncton marinho e de plantas terrestres capazes de sequestrar dióxido de carbono atmosférico.

“Anteriormente, supunha-se que a poeira do Saara era o principal fertilizante para a Bacia Amazônica e para o Oceano Tropical Atlântico, fornecendo fósforo a ambos esses ecossistemas”, conta a autora sênior do estudo, Cassandra Gaston, professora assistente no Departamento de Ciências Atmosféricas da Faculdade Rosentiel. “Nossos resultados revelam que a biomassa transportadas da África por emissões de incêndios são uma fonte potencialmente mais importante de fósforo para esses ecossistemas do que a poeira.”

Para conduzir o estudo, os pesquisadores analisaram aerossóis coletados por filtros no topo de um monte da Guiana Francesa, no norte da Bacia Amazônica, estudando as concentrações de massa de poeira trazida pelo vento e o total de fósforo solúvel presente. Depois, eles monitoraram a fumaça que se movia através da atmosfera, usando ferramentas sensoras de telescópios, para entender o transporte de longo alcance da fumaça da África em períodos em que foram detectados níveis elevados de fósforo solúvel . Usando um modelo de transporte, eles conseguiram estimar a quantidade de fósforo depositado na Bacia Amazônica e nos oceanos globais proveniente de aerossóis da queima de biomassa na África.

A análise concluiu que a fumaça da queima desenfreada de biomassa na África, em sua maioria resultado de limpeza de terrenos, incêndios de vegetação e emissões de combustão industrial, é potencialmente uma fonte mais importante de fósforo para a floresta Amazônica, o Atlântico Tropical e o Oceano Antártico do que a poeira do Deserto de Saara. 

“Para nossa surpresa, descobrimos que o fósforo associado à fumaça da África Austral pode ser soprado até a Amazônia e, potencialmente, até o Oceano Antártico, onde pode impactar a produtividade primária e a diminuição do dióxido de carbono em ambos os ecossistemas”, conta a estudante de pós-graduação Anne Barkley, principal autora do estudo.

“Os aerossóis desempenham um papel importante no clima da Terra, mas há muita coisa que não entendemos, por exemplo, como eles afetam a radiação, as nuvens e os ciclos biogeoquímicos. Isso impede nossa capacidade de prever com precisão futuros aumentos na temperatura global”, diz Gaston. “Essas novas descobertas têm implicações sobre como esse processo pode ser no futuro, quando os padrão de emissões e incêndios na África e os quantidades de transporte de poeira mudarem, devido a mudança climática e o aumento da população humana.”

Universidade de Miami
Scientific American Brasil

Como a alta no preço do ouro alimenta os temores de uma recessão global


Cristina J. Orgaz
BBC News Mundo


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Cotação do ouro superou os US$ 1,5 mil pela primeira vez em seis anos

Guerra comercial, mercados financeiros em queda e, em última análise, medo de uma recessão. Essa combinação de fatores tem levado investidores ao redor do mundo a tirar seu dinheiro das ações cotadas nas bolsas e a colocá-lo no ouro.

O raciocínio por trás disso seria de que as empresas com ações nas bolsas não vão dar o lucro esperado e o temor de uma mudança no panorama econômicoglobal. Assim, esses investidores preferem limitar seus riscos buscando ativos que consideram mais seguros, como o próprio ouro e o dólar, o franco suíço, o iene, os títulos de dívida emitidos por países como Alemanha e EUA.

Outros fatores, como as tensões geopolíticas e as baixas no mercado de títulos de dívidas, reforçaram essa incerteza.

Diante disso, o preço da onça do ouro superou, pela primeira vez em mais de seis anos, o valor de US$ 1,5 mil, maior nível desde março de 2013.

Apenas nos últimos três meses e meio, seu valor passou de US$ 1.270 a US$ 1.516, cotação da última sexta-feira (16/8). É uma alta de quase 20%.


"O mercado está se preparando para uma mudança de ciclo e isso tem feito (o preço do) ouro disparar", diz Javier Molina, porta-voz da plataforma de negociação de moedas eToro.

Como acontece em todas as crises, o precioso metal segue sendo uma das pistas a serem analisadas com cuidado quando o cenário econômico global se deteriora – que parece ser o caso agora.


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Em tempos turbulentos, investidores deixam as ações na bolsa em busca de ativos seguros, como o ouro
De que os mercados têm medo?

O principal temor é a desaceleração do crescimento. A escala mundial da economia pode ter já entrado em uma fase de recessão.

O primeiro sinal disso vem de um indicador-chave: a curva de rentabilidade.

Pela primeira vez desde 2007, um ano antes da grande crise financeira mundial, essa curva mudou.

Isso significa que, para os governos de EUA e Reino Unido, sai mais barato emitir dívida para daqui a dez anos do que para dois anos (embora o risco seja maior quanto mais tempo durar o empréstimo).

Esse fenômeno é incomum e costuma prenunciar uma recessão ou, ao menos, uma significativa desaceleração do crescimento econômico em escala global.

"Sem dúvida, durante este trimestre, o colapso da rentabilidade dos títulos de dívida tem sido o principal impulsor da alta do ouro", diz à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC) Ole Hansen, chefe de estratégias em matérias-primas do banco dinamarquês Saxo Bank.
Alemanha e China

A essa conjuntura se somam os dados recém-divulgados da economia alemã: o PIB do país no segundo trimestre caiu 0,1%, puxada para baixo pela queda nas exportações e na produção industrial – seus dois grandes pilares –, em meio à guerra comercial entre EUA e China e ao caótico processo do Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia, cujos termos ainda não estão definidos).


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Fábrica de automóveis alemã; economia do país se contraiu no segundo trimestre do ano

Ao mesmo tempo, a China publicou seus dados de vendas ao varejo e de produção industrial – o que, segundo analistas, evidenciou a debilidade de sua demanda interna e freio no consumo.

Para Mark Haefele, chefe de investimentos do banco suíço UBS, esses dados "dão sequência a uma tendência de crescimento global baixo que já dura vários meses".

As expectativas de que a economia mundial siga claudicante vão puxar para baixo as taxas de juros de muitos países, como forma de os bancos centrais estimularem o crescimento internamente.

Mas, desta vez, não está claro que os bancos centrais vão contar em seu arsenal com políticas eficazes para levar a cabo essa tarefa, algo que também colabora para gerar ainda mais incerteza.

"Todos os olhos estão sobre o Fed (banco central americano). Qualquer corte adicional (na taxa de juros) em uma conjuntura de incerteza geopolítica pode fazer subir ainda mais o preço do ouro", opinam especialistas da M&G Investments.
Segundo fator

Em segundo lugar, os mercados têm medo da escalada da guerra comercial entre Estados Unidos e China.

Muitos analistas creem que essa disputa não vai arrefecer tão cedo.


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China desvalorizou sua moeda, para tornar suas exportações mais competitivas

"A disputa comercial se intensificará nas próximas semanas, já que nenhuma das partes têm interesse em recuar, o que deve alimentar a inquietação atual dos mercados e respaldar (a busca por) ativos seguros, como o ouro", explica Norbert Rücker, chefe de Economia do banco suíço Julius Baer.

De fato, o que começou como uma guerra tarifária entre EUA e China agora é cambial, uma vez que a China decidiu desvalorizar o yuan para tornar suas exportações mais competitivas, com impactos na economia de todo o mundo.

"Não acreditamos que as autoridades chinesas vão deixar cair ainda mais sua moeda, mas tampouco vemos uma solução rápida" para a guerra comercial, diz a equipe de análise global do Bank of America Merrill Lynch.
Terceiro fator

Por fim, a demanda pelo ouro tem se mantido forte, em uma busca pela diversificação de ativos.

Em âmbito global, bancos centrais aumentaram sua compra do metal precioso no primeiro semestre de 2019, para o maior nível em seis anos, totalizando reservas de US$ 15,7 bilhões.

No total, suas reservas subiram 145,5 toneladas de ouro no período, uma alta de 68% em comparação com o primeiro trimestre de 2018.


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Bancos centrais aumentaram sua compra de ouro, particularmente os de países atingidos por sanções americanas

Os principais países compradores de ouro são Rússia, China e Irã, que respondem às sanções impostas pelos EUA vendendo dólares e comprando ouro para suas reservas.
Reino Unido e Argentina

A situação no Reino Unido, que está politicamente paralisado pelo Brexit, e na Argentina, cujo mercado despencou depois das primárias das eleições presidenciais, também contribui para esse cenário.

"Alguns mercados emergentes, como a Argentina, estão em crise", afirma Nitesh Shah, analista da empresa de investimentos WisdomTree. "Historicamente, quando eventos similares ocorreram na economia argentina, houve um efeito de contágio em outros países emergentes."

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