segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Nanotecnologia no dia-a-dia

13 DE AGOSTO DE 2008.
Não é exatamente uma novidade o emprego de nanotecnologia
na indústria química ou na de eletrônicos. Mais recente – e menos conhecido – é seu uso na produção de roupas, cosméticos, brinquedos e até no creme dental.

Monica Weinberg
mweinberg@abril.com.br


Hoje já são mais de 600 itens desenvolvidos com nanotecnologia, todos eles compostos, em maior ou menor grau, de partículas tão minúsculas quanto 1 bilionésimo de metro. É algo como um grão de areia diante do litoral brasileiro inteiro. A escala tão reduzida oferece uma vantagem fundamental: ela viabiliza o rearranjo de átomos de modo a que formem materiais com novas e diferentes funções. Também propicia a criação de aparelhos mais leves e com maior capacidade de memória – uma vez que, em proporções nano, passam a caber mais recursos no mesmo lugar. A pedido de VEJA, um grupo de especialistas analisou os efeitos da nanotecnologia nos produtos em que ela passou a ser usada mais recentemente. A seguir, os comentários.

Remédios

Efeito da nanotecnologia: reduz os efeitos colaterais e aumenta a eficácia dos medicamentos
Como funciona: os princípios ativos do remédio são manipulados de modo a caber em cavidades minúsculas – localizadas naquelas substâncias que vão transportar tais princípios para a célula. O fato de tudo se passar em escala tão reduzida oferece duas vantagens: o remédio chega antes ao destino final e é liberado na corrente sanguínea aos poucos, o que é decisivo para diminuir eventuais efeitos colaterais
Diferença no rótulo: a presença das substâncias betaciclodextrina ou HDL, típicas de medicamentos fabricados com nanotecnologia, como antiinflamatórios, antialérgicos, antiácidos e remédios para o tratamento de certos tipos de câncer.

Cremes hidratantes e antienvelhecimento

Efeito da nanotecnologia: contribui para que o creme chegue às camadas mais profundas da pele, sem que perca suas propriedades pelo caminho
Como funciona: os princípios ativos dos cosméticos são transformados em nanopartículas – e é justamente essa escala que facilita sua travessia das camadas mais superficiais para as mais profundas da pele. Constituídos de moléculas relativamente grandes, muitos cremes comuns não conseguem chegar lá ou, mesmo quando atingem esse ponto, não o fazem em concentração suficiente para proporcionar o efeito completo.
Diferença no rótulo: referência à nanotecnologia.

Creme dental
Efeito da nanotecnologia: reconstitui o esmalte, o que aumenta a proteção do dente
Como funciona: durante a escovação, cristais em escala nano, adicionados à pasta, aderem aos dentes e ajudam na reposição do esmalte – cujas irregularidades são bastante freqüentes, mas pouco visíveis. Daí a maior proteção. A propaganda também sugere que os dentes ficam mais limpos, uma vez que a pasta elimina algo como 650 tipos de germe. Mas é o que faz qualquer outro creme dental
Diferença no rótulo: menção à hidroxiapatita (um tipo de mineral) e a nanocristais de prata



Brinquedos
Efeito da nanotecnologia: torna-os mais resistentes e imunes à proliferação de germes
Como funciona: durante a fabricação de algumas das matérias-primas dos brinquedos, como plástico ou borracha, adicionam-se nanopartículas de argila. São elas que aumentam a elasticidade do material, o que o torna cerca de 25% mais resistente. Outro avanço se deve à presença de nanopartículas de prata. Elas ajudam a repelir os germes que proliferam nos brinquedos
Diferença no rótulo: "produto resistente à ação de germes" ou "inquebrável"

Roupas

Efeito da nanotecnologia: acrescenta funções aos tecidos. Eles podem se tornar bacteriostáticos, repelentes a insetos ou impermeáveis
Como funciona: as nanopartículas são adicionadas às fibras durante a fabricação do tecido. Nessas partículas ficam as substâncias encarregadas das diferentes propriedades. Elas proporcionam o efeito esperado, mas desaparecem depois de até cinqüenta lavagens
Diferença no rótulo: "ação bacteriostática" ou "íons de prata"

Elas também estão nos vidros
Duas características dos vidros constituídos de nanopartículas.

Autolimpeza

Cristais em escala nano se instalam nas minúsculas irregularidades do vidro e deixam a superfície totalmente deslizante. Desse modo, partículas de pó e de sujeira não conseguem aderir a ele.

Anti-reflexo
As nanopartículas de dióxido de silício são capazes de absorver a luz.
http://veja.abril.com.br/130808/p_142.shtml

O mesmo homem que transforma, reduz o espaço-tempo e emprega o uso intensivo da tecnologia no dia-a-dia precisa resolver problemas urgentes:

A FOME NA ÁFRICA


MELHORAR A QUALIDADE DE VIDA DO IDOSO


REDISTRIBUIÇÃO DE RENDA

COMBATER A VIOLÊNCIA CONTRA A CRIANÇA

COMBATER A INDÚSTRIA DA SECA NO SERTÃO

DIMINUIR AS DESIGUALDADES SOCIAIS NOS PAÍSES PERIFÉRICOS

USAR A ONU COMO INSTRUMENTO DE MANUTENÇÃO DA PAZ MUNDIAL

RESOLVER OS GRANDES PROBLEMAS AMBIENTAIS

REALIZAÇÃO DE REFORMA AGRÁRIA

DAR ESPERANÇA A QUEM AINDA NÃO DESISTIU

A exploração do petróleo...

20 DE AGOSTO DE 2008


...do pré-sal já começou no campo político muito antes
de que se tenha extraído das jazidas um único barril.
Superar essa fase de especulação e encarar a exploração
a sério tem de ser o próximo passo


Ronaldo Soares e Giuliano Guandalini
O Brasil despertou, no ano passado, para uma potencial riqueza depositada nas profundezas de seu litoral: as reservas petrolíferas existentes na chamada camada do pré-sal, situada a 300 quilômetros da costa e a 7 000 metros abaixo da linha d’água. Não se sabe ao certo quanto petróleo existe na região. Nem se sabe com precisão a viabilidade econômica de extrair o produto a uma profundeza equiparável a um Monte Everest abaixo da linha d’água – e em mar alto. Alguns especialistas estimam que possa haver 80 bilhões de barris, quantidade suficiente para alçar o país ao posto de sexta maior potência petrolífera do mundo, à frente da Venezuela. Seria muito petróleo. E muito dinheiro. Pela cotação atual, de 112 dólares por barril, as reservas do pré-sal, se comprovadas, valeriam 9 trilhões de dólares, ou sete vezes o PIB brasileiro. Até pouco tempo atrás, a perspectiva de tamanha riqueza vinha atiçando todo tipo de devaneio nacionalista. Sugeriu-se que o Brasil antecipe seu ingresso na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Falou-se ainda na necessidade de acelerar o projeto do submarino nuclear nacional para defender o tesouro submerso da ganância das potências estrangeiras.

Na semana passada, o presidente Lula saiu do campo da especulação e mostrou as idéias em estudo dentro do governo para fazer dessa dádiva uma riqueza para todos. Em um discurso na União Nacional dos Estudantes (UNE), Lula defendeu mudanças na Lei do Petróleo, que em 1997 quebrou o monopólio da Petrobras e prevê a participação de investidores privados – inclusive estrangeiros – na prospecção e exploração. Para o presidente, a riqueza do pré-sal não pode ficar "na mão de meia dúzia de empresas" e deve ser usada para "resolver o problema de milhões de pobres que estão aí". A frase traduz duas propostas que estão sendo estudadas pelo governo: queimar parte dos recursos das novas descobertas de petróleo em programas sociais; e afastar os investidores privados das megarreservas ainda não licitadas no campo do pré-sal. Lula pediu o apoio estudantil para sua causa e conclamou a população a reeditar a campanha do "petróleo é nosso", do fim dos anos 1940, que culminou na criação da Petrobras, em 1953.


O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, logo interpretou as declarações do presidente como um apoio à sua idéia de criar uma estatal para gerir as reservas descobertas. Desvinculada da Petrobras, a nova estatal (a "Petrosal" ou "Petrossauro", como vem sendo apelidada) seria dona das reservas. Ela não se envolveria diretamente na exploração. Apenas contrataria outras companhias para extrair petróleo em troca de uma remuneração, uma parcela definida do produto obtido. Segundo ele, o modelo seria similar ao utilizado na Noruega (veja o quadro). "Nesse mundo de Deus nada se cria. Na Noruega já funciona assim e está dando certo", disse ele a VEJA. Lobão acredita que é a modalidade na qual o governo mais se beneficiaria. Em sua visão, os recursos a que o governo teria direito seriam transferidos para um fundo que financiaria investimentos sociais. "Não tenho idéia fixa na criação de uma estatal, mas acho, sim, que esse seria o melhor caminho para pagar o lucro devido ao povo." Pela proposta, os contratos de áreas do pré-sal já leiloadas seriam respeitados

Em princípio, o governo tem razão ao tentar adequar o modelo atual de exploração de petróleo a um cenário novo, de abundância. As regras atuais foram pensadas para estimular o investimento de risco de prospectar em condições adversas, nem sempre rentáveis. Portanto, se as megarreservas da camada do pré-sal forem tão ricas como se imagina, faz sentido fortalecer os ganhos de caixa do Tesouro, evitando, com isso, o desequilíbrio dos contratos de exploração. O problema é que a plataforma encampada pelo presidente Lula e por seus ministros ressuscita um nacionalismo extemporâneo que se julgava estar enterrado no baú da história. A atual legislação já dispõe de mecanismos que fazem com que a tributação seja progressiva. Ou seja, quanto mais rentável um poço, maior o volume de taxas recolhido pela empresa que o explora. Se, mesmo assim, o governo julgar que as atuais alíquotas são insuficientes, bastaria aumentá-las. "O atual regime, de contrato de concessão, é perfeitamente adequado à exploração de novas reservas", afirma o geólogo Saul Suslick, do Centro de Estudos do Petróleo da Unicamp. "Não vamos alcançar a eficiência necessária se alterarmos o marco regulatório a todo momento. Isso afugenta investimentos."
Com o fim do monopólio da Petrobras no setor de exploração – um direito que era da estatal desde que ela foi criada, em 1953, por Getúlio Vargas –, o país passou a adotar um sistema de concessão pública que estimulou a concorrência. Isso atraiu investimentos bilionários na última década, sem os quais não teria alcançado a auto-suficiência. Para explorarem o petróleo as empresas pagam atualmente uma série de taxas e contribuições:

• Bônus de assinatura: valor pago à Agência Nacional do Petróleo no leilão de licenças dos blocos de exploração.

• Retenção de área: um aluguel pelo uso do subsolo.

• Royalties: se a empresa consegue retirar petróleo dos poços, paga ao governo um porcentual sobre o valor produzido. O dinheiro arrecadado é dividido entre o governo federal, o estado em que se encontra o poço e os municípios.

• Participação especial: é a compensação financeira que se paga nos casos de grande volume de produção ou de grande rentabilidade dos campos sob exploração.

Juntos, esses tributos e pagamentos especiais deram ao governo, apenas no primeiro semestre deste ano, 12 bilhões de reais, valor equivalente ao gasto com o Bolsa Família em 2007. Se as reservas do pré-sal se tornarem uma realidade, tudo leva a crer que, mesmo sem mudar o modelo (ou nem sequer elevar as alíquotas dos impostos já existentes), esses valores cresceriam exponencialmente a partir de 2010 com o início da exploração desses poços. Mas o governo sonha em antecipar, para já, parte das receitas futuras do pré-sal. Uma das idéias é emitir títulos no exterior lastreados nessas reservas. O dinheiro seria usado para financiar programas sociais. É aqui que a proposta do governo brasileiro se distancia do tão propagado modelo da Noruega. No país nórdico, os dividendos auferidos com o petróleo são depositados em um fundo soberano. Para impedir a valorização excessiva da moeda do país, esse fundo aplica os recursos apenas no exterior. A lógica não é torrar o dinheiro no presente, mas irrigar as gerações futuras com os benefícios de um ativo do país.

Já no Brasil, o desejo de alguns é fazer o inverso: antecipar ao máximo os lucros que serão obtidos com a exploração dessas jazidas para gastá-las logo, o mais depressa possível. Levando em conta o abismo social entre os dois países, isso pode até fazer sentido. O diabo está nos detalhes. A simples gastança não torna os programas sociais necessariamente mais eficientes. E pode ser pequena a distância entre a simples preocupação social de um país em desenvolvimento rico em petróleo e o populismo autoritário da Venezuela de Hugo Chávez ou da Rússia de Vladimir Putin. A história tem exemplos de sobra de como recursos podem ser desperdiçados sem que a sociedade tire benefício algum. A Venezuela já teve um fundo como o norueguês, mas todo o patrimônio foi espoliado em esquemas de corrupção. Na semana passada, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, disse não temer esse risco. "Não seremos vítimas da maldição do petróleo", afirmou, referindo-se ao fato de que países excessivamente ricos em recursos minerais tendem a desperdiçar prodigamente essa bênção, sem investir no desenvolvimento futuro da sociedade. Espera-se que a ministra tenha razão. O país só se livrou da dependência energética e alcançou as jazidas ultraprofundas depois de ter sepultado o nacionalismo obtuso e o monopólio estatal. Voltar ao estatismo, sem que nenhuma racionalidade técnica nem uma lógica financeira o sustentem, significa apenas e tão-somente satisfazer um dogma esquerdizante. Isso nada tem a ver com o interesse da maioria dos brasileiros.




http://veja.abril.com.br/200808/p_058.shtml

Uma guerra no fim da história


A Geórgia invadiu a Ossétia, que pediu ajuda à Rússia, que
invadiu a Geórgia. É assim mesmo no Cáucaso, há eras


Duda Teixeira
O romancista americano William Faulkner escreveu que o passado nunca está morto. De fato, nem sequer é passado. Ele se referia a outro lugar e outra situação, mas a definição se aplica bem ao Cáucaso. Essa cadeia de montanhas nos extremos de dois continentes, a Europa e a Ásia, é o lar de uma variedade de povos que convivem aos trancos uns com os outros. Alguns de seus pequenos estados estão entre os mais longevos. A Armênia foi o primeiro país a adotar o cristianismo como religião oficial, em 314. A Geórgia, que tinha sido súdita do Império Romano, atingiu seu esplendor entre os séculos X e XIII. A profundidade das raízes nacionais pode ser aferida pela exclusividade do idioma georgiano, que não pertence a nenhum dos grandes troncos lingüísticos, como o indo-europeu, que inclui o português. O isolamento pode ser exemplificado por uma excentricidade: enquanto na maioria das línguas a palavra para mãe reflete o "mama" balbuciado pelo bebê, em georgiano é o pai que atende por "mama". Mãe é "deda".


Os ossetas, que falam uma língua aparentada ao persa e nunca formaram um reino poderoso, acreditam-se descendentes diretos dos alanos. Em parceria com os vândalos, esses nômades devastaram a Península Ibérica e o norte da África (daí o adjetivo "vândalo"). Os alanos que permaneceram no Cáucaso se alistaram nas hordas de Átila, o Huno. Em homenagem a tais ancestrais, a Ossétia do Norte quer ser chamada de Alânia. Todas essas populações têm em comum a submissão centenária a vizinhos grandalhões. Não é difícil entender por que esses povos ciosos de sua identidade vivem em contínua ebulição nacionalista. A região é um barril de pólvora. Desde o início dos anos 90, a Rússia luta para submeter os chechenos, um povo muçulmano vizinho à Geórgia. Depois de penar nas mãos de tártaros, persas e otomanos, a Geórgia foi incorporada ao Império Russo no início do século XIX. A Ossétia do Sul foi riscada do mapa como uma região autônoma em território georgiano por decisão de Josef Stalin. Um túnel construído sob uma montanha é sua única conexão com a Ossétia do Norte, na Rússia. São obscuras as razões do ditador para a criação de duas entidades de um mesmo povo em países diferentes. Stalin era georgiano, mas tinha bisavô osseta. O que não pegava bem, pois os russos consideram os georgianos uns bandidos e os georgianos vêem os ossetas como bárbaros semipagãos.
Essa perambulação pela história tem por finalidade ajudar na compreensão dos acontecimentos recentes: a invasão russa que esmagou o pequeno exército da Geórgia. O estopim da crise foi o separatismo dos sul-ossetas, que a Geórgia não aceita. Um cessar-fogo precário existe desde 1992. A soldadesca russa também garante outro grotão separatista, a Abkházia, no sul da Geórgia. O presidente Mikhail Saakashvili elegeu-se prometendo restabelecer a soberania georgiana nessas regiões. Saakashvili, que estudou e morou nos Estados Unidos, quer transformar o país num exemplo de democracia e capitalismo moderno, numa região que nunca viu nada parecido. Também quer entrar para a Otan, a aliança militar do Ocidente. Na sexta-feira 8, ele perdeu a paciência e mandou seu minúsculo exército atacar a capital da Ossétia do Sul. A reação russa foi brutal. A curta guerra foi facilmente vencida pela Rússia, que ocupou várias cidades no interior da Geórgia. A explicação do presidente russo, Dimitri Medvedev, e do primeiro-ministro Vladimir Putin, que é quem realmente governa, é a obrigação moral de ajudar um povo amigo ameaçado. Não é tão simples, evidentemente.


Ao defender seus clientes separatistas, a Rússia mandou basicamente três mensagens ao mundo. A primeira é que o Kremlin, vitaminado pelo lucro da venda de gás natural e de petróleo, tem músculos e não hesita em usá-los para defender seus interesses estratégicos. A segunda é que a influência americana e européia nas áreas vizinhas à Rússia é vista como ameaça e pode levar à punição dos países que se aliarem ao Ocidente. A Ucrânia, que também quer entrar para a Otan, que se cuide. A terceira mensagem é que a Europa não vai se livrar com facilidade da dependência energética em relação à Rússia. O único oleoduto entre o Mar Cáspio e o Negro que não passa pela Rússia atravessa a Geórgia.

Que Putin preparou o cenário da guerra e Saakashvili caiu na armadilha está fora de dúvida. Nos últimos meses, a pretexto de manobras militares, a Rússia concentrou tropas na Ossétia do Norte. Nas últimas semanas, as milícias ossetas atacaram aldeias georgianas. Numa tentativa de contornar a crise, Saakashvili telefonou para Putin para lembrá-lo de que o Ocidente garantia a integridade territorial da Geórgia. Adepto da linguagem direta, o russo disse ao georgiano onde deveria enfiar as garantias ocidentais. No final, Saakashvili ficou mesmo sozinho. Quanto ao presidente americano, George W. Bush, o máximo de auxílio que deu à Geórgia, um de seus raros aliados na Guerra do Iraque, foi mandar alguns aviões de ajuda humanitária.

A indiferença russa em relação ao que pensa a comunidade internacional ficou evidente nos dias que se seguiram ao cessar-fogo costurado pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy, na quarta-feira passada. No texto do acordo, Moscou reconheceu a independência da Geórgia, mas não a unidade de seu território. "Os georgianos podem esquecer quaisquer negociações sobre a integridade territorial do país", avisou o chanceler russo, Sergei Lavrov. É a primeira vez que a Rússia invade um estado soberano desde o colapso da União Soviética. Apesar do que parece, não se trata de um recomeço da Guerra Fria. O conflito entre as duas superpotências era balizado por ideologias opostas. Isso não existe mais, ainda que a nostalgia pelo império soviético domine os corredores do Kremlin.

Como escreveu a americana Samantha Power, historiadora cotada para ser secretária de Estado caso Barack Obama vença as eleições, Tucídides (460 a.C.-404 a.C), o cronista da Guerra do Peloponeso, disse que os povos vão à guerra por "honra, temor e interesse". Putin parece ver o conflito no Cáucaso principalmente como uma questão de honra. Ou, na opinião de Samantha, como uma oportunidade para expurgar o sentimento de humilhação existente em Moscou. Depois do colapso do império soviético, a Rússia viu-se forçada a engolir o avanço da Otan em países da Europa Oriental que por décadas foram seus satélites. A independência do Kosovo foi a última afronta ao orgulho soviético. O fato de a Geórgia ser apoiada pelos Estados Unidos torna o ataque uma espécie de revanche à atitude ocidental nos Bálcãs. A derradeira mensagem parece ser "se vocês podem, eu também posso". É a lógica do Cáucaso.

20 DE AGOSTO DE 2008
http://veja.abril.com.br/200808/p_066.shtml

domingo, 5 de outubro de 2008

Aos trancos e barrancos


José Murilo de Carvalho
"O pouco de democracia que conquistamos
terá de servir como método de navegação para os
novos tempos. O combate à violência, à corrupção
e à degradação da representação política exige profundas
reformas na lei, nas instituições e nas mentalidades"


O Brasil é um país sem revolução. Não houve revolução na Independência. Boa parte da elite que comandou o processo a partir do Rio de Janeiro tinha sido educada em Coimbra e quase toda a alta burocracia era luso-brasileira. Não houve, naquela conjuntura, alteração na sociedade. Manteve-se a escravidão e até mesmo aumentou o tráfico de africanos. As revoltas do Primeiro Reinado e, sobretudo, da Regência eram provinciais e foram sufocadas com relativa facilidade, à exceção da Farroupilha, que durou dez anos. Não houve revolução na abolição da escravidão, votada pelo Congresso quando já era reduzido o número de escravos. Não houve revolução na proclamação da República. Antes, como observou Sérgio Buarque de Holanda, o que se deu foi a implantação do império dos fazendeiros. Não houve revolução em 1930, apenas uma troca de guarda. Em 1964, o movimento que se auto-intitulou revolução foi o oposto do proclamado.

O Brasil é um país de drásticas e cada vez mais rápidas mudanças, sobretudo a partir da segunda década do século XX. Mudanças demográficas. Os 30 milhões de habitantes de 1920 dobraram em 1960 e chegaram a 170 milhões em 2000 e a 187 milhões hoje, um crescimento de mais de 500%. A mobilidade geográfica foi profunda. Em 1920, 80% da população morava no campo; em 1960, 55%; em 2000, apenas 19%. O Sudeste era 90% urbano nesse último ano. Uma virada completa. E mudanças na ocupação. De um país agrícola em 1920, tornou-se uma economia de indústria e serviços. O que restou da agricultura rapidamente se transforma em moderno agronegócio.

Mesmo na educação, em que sempre fomos lentos, chegamos ao fim do século XX com 16% de analfabetos, quando a porcentagem era de 75% em 1920. A inclusão social fez progressos a partir de Vargas. A cobertura previdenciária hoje atinge quase todas as categorias sociais. A esperança de vida passou de 43 anos em 1950 para 68 em 2000. Na última década, a telefonia celular e a internet têm incorporado rapidamente milhões de brasileiros ao mundo da mídia eletrônica. Mudança radical também se deu na incorporação do povo na política. Até 1945, votavam 5% da população; em 1960, votaram 22%; em 2002, 66%. Hoje quase 70% dos brasileiros estão alistados. A República, afinal, ganhou o povo que lhe faltava.
Grandes mudanças sem revolução, eis nosso predicamento, que é nosso mérito e nosso drama. Nosso mérito, na medida em que as mudanças se fizeram sem os imensos custos sociais que em geral as acompanham. Nossa independência causou poucas mortes, enquanto a dos Estados Unidos e a das colônias espanholas da América custaram anos de luta e milhares de mortos. Nosso movimento abolicionista quase não produziu baixas; a Guerra Civil Americana matou 600 000 pessoas. Nosso dramático processo de urbanização das décadas de 70 e 80 foi comparado ao da União Soviética sob Stalin, que ceifou milhões de vidas.

Nosso drama. As mudanças fizeram-se sem alterar as bases da sociedade e criaram problemas tão sérios quanto os que resolveram. O campo despovoou-se, mas em pleno século XXI ainda há movimentos sociais reclamando terra para trabalhar, e partes do norte do país vivem clima de faroeste. O crescimento explosivo das cidades produziu imensos bolsões de pobreza e facilitou tal expansão da violência que inviabiliza a convivência civilizada. Os avanços recentes não impediram que ainda haja 11 milhões de pobres e 3 milhões de indigentes só nas regiões metropolitanas, que mais da metade dos trabalhadores permaneça no setor informal da economia, que apenas 25% da mão-de-obra seja sindicalizada. A massiva e rápida democratização do voto, boa parte dela feita durante a ditadura, não levou à criação nem de um eleitorado reivindicante, nem de uma classe política competente e responsável. Várias práticas corruptas minam o corpo político como um câncer. As instituições, sobretudo as representativas, perderam a credibilidade que um dia tiveram. Como coroamento dos males, as grandes mudanças não eliminaram, antes agravaram, nossa dificuldade de viver sob o governo da lei, uma condição indispensável a qualquer República que mereça o nome.

Não tivemos uma revolução capitalista que nos levasse a uma República democrática pela redução da desigualdade dentro da liberdade, graças ao dinamismo do mercado. O crescimento econômico não eliminou desigualdades e a liberdade por duas vezes foi suprimida. Nossos empresários fogem da competição e do risco e não dispensam a proteção do estado. Nossos operários ainda recorrem ao guarda-chuva corporativo da legislação do Estado Novo, encarnado no sindicato único e no imposto sindical. Não tivemos uma revolução socialista que também nos transformasse em uma República democrática, como sucedeu com países da antiga União Soviética, que reduziram fortemente a desigualdade pela ação autoritária do estado e depois restauraram a liberdade. Nossos avanços sociais deram-se entre nós em períodos ditatoriais, e os mais recentes ainda guardam fortes traços paternalistas. Sobretudo, foram insuficientes para produzir uma República democrática em que a liberdade fosse garantida pela redução da desigualdade. Forjamos um híbrido social que não peca por ser híbrido, mas por não ser social.

Mudança aos trancos e barrancos, como foi a nossa, não é mais um processo aceitável para os tempos de hoje, se algum dia o foi. Os cenários externo e interno colocaram o país, neste começo de século, diante de horizontes nunca antes realisticamente divisados. Não por acaso, ressurgiu, sob o impacto das descobertas de grandes reservas de petróleo, nosso quase bissecular sonho de grandeza. Para que o sonho não se frustre mais uma vez, a mudança terá de ser mais consciente, mais negociada entre governo e sociedade. O pouco de democracia que conquistamos terá de servir como método de navegação para os novos tempos. A desigualdade exige políticas de correção. O combate à violência, à corrupção e à degradação da representação política exige profundas reformas na lei, nas instituições e nas mentalidades. Até mesmo as grandes promessas do petróleo poderão tornar-se maldição na ausência de um adequado planejamento da distribuição de seus benefícios. O potencial para a grandeza, a natureza sempre nos deu e nos dá de novo no pré-sal. Cabe ao país ser capaz de torná-lo real, a começar pelo respeito à própria natureza.

José Murilo de Carvalho é professor titular de história da Universidade Federal do
Rio de Janeiro e doutor em ciência política pela Universidade Stanford (Estados Unidos).
Sua obra inclui, entre outros títulos, Os Bestializados, ensaio sobre o nascimento
da República, e a biografia D. Pedro II. É membro da Academia Brasileira de Letras.

http://veja.abril.com.br/especiais/veja_40anos/p_194.html

As grandes obras

O "Brasil Grande Potência" preconizado pelos governos militares baseava-se na construção, com dinheiro público, de projetos grandiosos de infra-estrutura. Nesse período, começaram as obras da Ponte Rio–Niterói, da usina de Itaipu e da Rodovia Transamazônica. Um dos objetivos dessa última era estimular a ocupação da floresta. A estrada foi aberta, mas nunca recebeu asfalto no trecho de selva. Quando chove (o que não é raro por lá), a travessia fica impraticável. Por causa da enorme complexidade do projeto, o governo desistiu da idéia inicial de levar a rodovia até o Peru. De qualquer forma, nunca antes neste país se pensou tanto em infra-estrutura.
http://veja.abril.com.br/especiais/veja_40anos/p_170.html


Com o objetivo de levar "os homens sem terra, a terra sem homens", a Transamazônica apresentou graves consequências econômicas e ecológicas para toda sociedade brasileira.


* desmatamento - através da expansão das fronteiras agrícolas, projetos de colonização e mineração foram incentivados como parte do processo de ocupação populacional a região;
* Endividamento externo contribui para "DÉCADA PERDIDA" nos anos 80, significando faltas de investimentos nos setores de eduacação, saúde, habitação, saneamento básico e geração de emprego;
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O maior patrimônio vivo do planeta

Edward Osborne Wilson

"A diversidade biológica brasileira integra o patrimônio
natural do país e, por ser maior que a de qualquer
outra nação, deve ser cuidadosamente protegida"



O Brasil encontra-se diante do dilema de ter de escolher entre cuidar da preservação ambiental e estimular o desenvolvimento econômico. Essa é uma dúvida que aflige todo o planeta, inclusive os Estados Unidos, mas tem desdobramentos especialmente importantes nos países em desenvolvimento que se localizam nas zonas tropicais. Nessas áreas está concentrada a maior parte da diversidade biológica do planeta, mas os recursos necessários para protegê-la são muito escassos. Nesse sentido, o Brasil, com suas dimensões continentais e vastíssima riqueza biológica, deve ser visto como um dos países mais importantes do mundo.

O território brasileiro abriga a maior variedade de habitats e o maior número de espécies animais e vegetais do globo. Na bacia do Amazonas está a mais extensa e intocada das três florestas tropicais remanescentes (as outras duas pertencem ao Congo e à Nova Guiné). A Mata Atlântica, embora esteja fragmentada e mantenha 7% de sua cobertura original, ainda é uma das grandes reservas globais de biodiversidade. Ela foi designada por organizações ambientais como uma das áreas mais ameaçadas entre dezenas de outras em situação semelhante e tidas como fundamentais – aqueles ambientes naturais que abrigam o maior número de espécies ameaçadas de plantas e animais e que estão sob risco de degradação ainda mais intensa, ou mesmo de aniquilamento. Isso vale também para o cerrado, a vasta e biologicamente riquíssima savana tropical.

A diversidade biológica brasileira integra o patrimônio natural do país e, por ser maior que a de qualquer outra nação, deve ser cuidadosamente protegida. O Brasil, claro, colheria os benefícios desse gesto, mas o restante da humanidade também o faria. Quando se contabilizam os pequenos animais, fungos e microrganismos, constata-se que apenas uma pequena minoria – provavelmente menos de 10% – já foi descoberta pelos estudiosos e descrita com um nome científico. Desses, apenas uma fração foi estudada o suficiente para que se conheçam em profundidade todas as suas características e propriedades biológicas.

Há uma necessidade urgente de manter a Amazônia tão intacta quanto possível. Sua vastidão talvez pareça sem limites e indestrutível. Representa, afinal de contas, dois terços do tamanho dos Estados Unidos. Mas a imensa floresta está sendo erodida, num ritmo acelerado. Suas fronteiras diminuem especialmente por causa da expansão agrícola, a partir do sul, e da infiltração de assentamentos na mata virgem, a partir das margens de novas estradas. Não cabe a mim defender posições políticas, mas parece lógico que, se um plano nacional de longo prazo fosse estabelecido, em colaboração com governos estaduais, a Amazônia poderia ser salva em sua maior parte. Mais que isso, tal objetivo pode ser alcançado ao mesmo tempo em que se melhora a qualidade de vida de milhões de pessoas que habitam a bacia do Amazonas. Estudos demonstram que renda adequada para essas populações pode ser obtida pela coleta, sem grande impacto no ambiente, de produtos com finalidade medicinal, combinada à derrubada e ao replantio de várias espécies de árvore com alto valor econômico.

A produtividade agrícola também pode ser muito aumentada pela utilização das terras férteis disponíveis, no lugar dos solos frágeis e pobres em nutrientes que resultam do desmatamento e da queimada. O ecoturismo pode desempenhar um papel muito mais relevante do que acontece hoje. Ampliar o estudo da biodiversidade brasileira certamente trará riqueza econômica, na forma de novos medicamentos, fontes de biocombustível e sementes geneticamente aperfeiçoadas que permitam melhorar a produtividade das lavouras. O resultado dessas inovações será o crescimento econômico. Se seus frutos forem distribuídos com sabedoria, também poderá haver a redução da pobreza.

O aprofundamento das pesquisas vai produzir ainda o conhecimento necessário para preservar as regiões agrestes remanescentes. Para ilustrar essa perspectiva, pode-se tomar como exemplo um dos vegetais candidatos a se tornar fonte de biocombustíveis no futuro: a palma. Estudos realizados na Indonésia (outro país que tem enorme potencial biológico) mostram que, além de ser uma fonte de energia de alta qualidade, a palma pode ser cultivada em florestas tropicais sem causar alterações significativas no ecossistema. A planta pode, inclusive, ajudar a recuperar áreas desmatadas.

A preservação dos habitats presentes nas zonas tropicais e das espécies animais que vivem neles é importante também para estabilizar o seu entorno. A conservação dessas áreas ajuda a manter os cursos d’água e a purificá-los, restaura o solo e diminui o impacto das mudanças climáticas. No entanto, além das preocupações econômicas e ambientais e da necessidade de investir em desenvolvimento sustentável, há uma razão espiritual para a defesa da natureza. Os brasileiros foram abençoados com o maior patrimônio vivo do planeta. É claro que a população do país vai se esforçar para salvar essa maravilhosa herança.

Edward O. Wilson, americano, é biólogo da Universidade Harvard. Uma das maiores autoridades
mundiais em biodiversidade, escreveu os livros Sociobiologia e Diversidade da Vida
http://veja.abril.com.br/especiais/veja_40anos/p_228.html

REBELIÃO NA GALÁXIA VERMELHA



A todo custo, a Rússia pretende ser, ainda e sempre, o sol

Durante os últimos vinte anos, o mundo comunista pretendeu ser uma grande galáxia, unida e brilhante, onde um sol poderoso e infálivel deveria dirigir o movimento de todos os planêtas. Essa galáxia, formada depois da explosão que foi a última guerra, estende-se desde as costas orientais do Pacífico até a cortina de ferro que divide a Europa ao meio. Ela sai mesmo dos seus limites naturais, chega até as Caraíbas, onde gravita um meteoro — Cuba. No seu centro, está a URSS, Moscou, o Kremlin. Dentro dela, catorze países, mais de 1 bilhão de habitantes — quase um têrço da humanidade.

Desde que a galáxia foi formada, o Kremlin tem-se esforçado, por diversas maneiras, em ser o sol único e incontestado. Aos países que lhe giram em volta, nem sequer foi reconhecido até hoje o papel de planêtas: de fato, no Ocidente, êles são chamados de satélites. Entretanto, nem tudo tem corrido de acôrdo com os planos do Kremlin: os satélites, ora um, ora outro, ensaiam há tempos sua rebelião. E o sol, a cada vez, fica menos luminoso.

Navios naufragados — Quando Berlim Ocidental se rebelou em 1953, quando Budapeste resistiu à invasão soviética em 1956, o mundo comunista sofreu sérios arranhões, mas o Oriente se fechou sôbre os acontecimentos que comoviam o Ocidente como o mar sôbre navios naufragados — e o sol do Kremlin ficou apenas um pouco menos brilhante. Quando a China, a partir de 1960, começou a se afastar da URSS, a cisão foi mais grave — eram 700 milhões de pessoas escapando à direção de Moscou — mas a galáxia continuou poderosa. Muito antes, em 1948, um satélite mais orgulhoso e distante — a Iugoslávia — já havia rompido com o centro do sistema. A partir de 1966, a Romênia começou a seguir o mesmo caminho. A última rebelião, entretanto, foi bastante forte para abalar tôda a estrutura do mundo comunista. A invasão da Checoslováquia rebelde, ainda que muito menos sangrenta que as repressões de Berlim e Budapeste, põe em xeque um dos pontos altos da retórica comunista: o "bloco monolítico" — como se autodefinia a compacta e afinada galáxia vermelha —, já não é mais monolítico.

Nem uma palha — A primeira prova dessa cisão geral está dentro da própria Checoslováquia: os tanques soviéticos vieram "salvar o socialismo", mas não encontraram nenhum socialista checoslovaco que os apoiasse — ao contrário da Hungria, onde houve Janos Kadar e seus burocratas ajudando os russos a eliminarem Imre Nagy e seus rebeldes. Nem as famosas "milícias operárias" — guarda pretoriana formada em 1947 nos modelos stalinistas, com o objetivo de sustentar os governantes impostos por Moscou — chegaram a mexer uma palha em apoio dos invasores. A segunda prova está na condenação quase geral feita à invasão pelo comunismo internacional.

Ao lado dos checoslovacos estão a Iugoslávia de Tito, aos 76 anos patriarca do comunismo europeu; a Romênia, que há anos escolheu o caminho do "comunismo nacional"; todos os grandes partidos comunistas da Europa ocidental, começando pelo italiano, o mais importante do mundo depois do soviético e do chinês, e passando pelo francês, freqüentemente acusado de fidelidade excessiva ao Kremlin. Na esteira dos partidos, grande número de personalidades de extrema esquerda — por exemplo o inglês Bertrand Russell, o filósofo que pretendia julgar Johnson por causa da guerra do Vietnam ou o francês Jean-Paul Sartre — estão do lado dos checoslovacos. Os cinco signatários do Pacto de Varsóvia, que determinou a invasão da Checoslováquia — URSS. Polônia, República Democrática Alemã, Hungria e Bulgária —, só conseguiram a aprovação de Fidel Castro, surpreendentemente disposto a louvar os tanques soviéticos, depois de ter, por muito tempo, definido uma posição bem próxima à da China — que, naturalmente, aproveita a situação para liberar mais um dos seus tradicionais ataques contra o Kremlin.

Entre os próprios invasores, chegou a haver divergências sérias. Janos Kadar, o húngaro, talvez atormentado pelos fantasmas de Budapeste, opunha-se francamente à intervensão armada. Êle ameaçou mesmo não entregar tropas húngaras para a operação e, na "reunião dos cinco", em Varsóvia, travou uma tempestuosa discussão com o mais duro entre os duros, Walter Ulbricht — e provocou a suspensão dos debates, pois o líder alemão oriental, 75 anos de idade, acabou se sentindo mal. Kadar só veio a concordar com a invasão mais tarde, por um acidente pessoal: exasperou-se com a publicação na imprensa checoslovaca de um artigo assinado por alto funcionário do Ministério do Exterior, louvando Imre Nagy e condenando sua execução — ordenada, ou permitida, pelo próprio Kadar.

Policentrismo, teoria e prática — A indignação de tantos comunistas exprime, na verdade, um sentimento que não chega a ser nôvo em fôlha. Pouco antes de morrer, em agôsto de 1964, o líder do PC italiano Palmiro Togliatti lançou uma palavra que no momento está muito na moda: policentrismo. Uma palavra difícil, aparentemente mais apropriada para resumir a teoria astrônomica de uma rebelião de planêtas. Mas, de certa maneira é isso mesmo: ela significa que Moscou deixou de ser o centro da verdade; o comunismo se torna plural e deve ser adaptado às condições, tradições e aspirações de cada povo. A teoria do policentrismo teve confirmação prática no fim de fevereiro dêste ano, na reunião dos partidos comunistas convocada na mesma Budapeste que em 1956 viu afogado em sangue o seu breve sonho de liberdade. Doze anos depois, ausentes os tanques vencedores, e os heróis derrotados. Moscou sofreu um abalo mais grave. Desde o início de 1964 — Kruschev ainda estava no poder — , a URSS vinha propondo uma conferência. Ela deveria, nos planos do Sr. K., condenar a China herética de Mao Tsétung. Tratava-se evidentemente de uma idéia muito pouco sedutora, mesmo para os partidos que menos simpatia manifestavam por Mao, como o italiano e o polonês. Condenar o comunismo nacionalista de Mao seria o mesmo que condenar o policentrismo.

O humor dos romenos — Caiu Kruschev, em setembro de 1964: o Kremlin não desistiu da conferência, porém mudou de tática. Passou a propô-la para discutir métodos de luta antiimperialista, usando o argumento da guerra do Vietnam. As negociações no caminho da conferência se arrastaram por anos. Finalmente, as delegações de 65 partidos comunistas — o total dos PCs espalhados pelo mundo é de noventa — apareceram em Budapeste. Na lista dos ausentes havia seis dos catorze PCs no poder: iugoslavo, chinês, coreano do norte, albânes, vietnamita do norte e cubano. Dos PCs da Ásia, presente só o indiano. Entre os europeus, não apareceram os suecos e os holandeses. E os romenos foram a Budapeste de rostos amarrados. Numa das primeiras sessões da Conferência de Budapeste, o delegado do PC Sírio, Kaled Bagdache, acusou a Romênia de praticar uma política "bairrista". Foi a deixa: os romenos levantaram-se com grande ruído e gestos mediterrâneos — êles tem sangue latino e sua língua é parecida com o italiano — e, diante da platéia atônita, retiraram-se para não mais voltar. Em casa, abriram as expressões em sorrisos e comentaram: "Depois de 1957, as conferências dos PCs são cada vez menos freqüentadas. Continuando assim, aonde chegaremos?" O sangue eslavo, que também corre nas suas veias misturado com o latino, lhes permite um certo humor amargo e impiedoso.

Quem invoca a liberdade — Apesar do incidente, o comunicado final da Conferência de Budapeste fala em "debates cordiais". Mas não anuncia "decisões unânimes". Nas intenções soviéticas, haveria de ser a conferência da unidade — foi a conferência das diferenças. Dois meses depois, as manifestações de 1º de Maio nas várias capitais comunistas mostravam ainda mais claramente essas diferenças. Em Moscou o tema das manifestações era "a luta pela disciplina e contra a subversão ideológicas": em Varsóvia, "a luta anti-sionista"; em Praga, "socialismo com liberdade". Ludvik Vaculik, escritor e jornalista checoslovaco, de 41 anos, dizia: " A liberdade só existe onde não é invocada". Do Mar Negro ao Mar Báltico a humanidade vive de privações, leva uma existência apertada, sem as pequenas satisfações cotidianas e as comodidades do Ocidente, que, no entanto, os países da Europa oriental já conheceram. Quem vive assim sonha com facilidade, e nos sonhos mescla o essencial ao frívolo. O nôvo comunismo que muitos comentaristas de política internacional viram surgir em Budapeste, cristalizado no malôgro da Conferência, é apenas a projeção dêsses sonhos num futuro que depende da eficiência do Estado. Ao mesmo tempo é a afirmação de um nacionalismo reencontrado.

Queda brutal — Êsses sonhos têm uma base real: se Marx estivesse vivo, provàvelmente diria que a crise provocada por êles no socialismo europeu é fundada em contradições sociais. Contradições que são negadas pelos países socialistas, mas que nem por isso deixam de existir. Provas: a crise econômica nesses países, os projetos de reforma para superá-la e a luta que desde então se desenvolve entre beneficiados e prejudicados por essas reformas. Desde 1948, as "democracias populares" do leste europeu aplicavam fielmente, em suas economias, o rígido sistema de planificação e gestão instaurado na URSS por Stálin na década de 30. Acontece que êsse sistema entrou em crise, com a diminuição do ritmo de produção. Se de 1948 a 1955 tudo foi bem — a renda nacional aumentava de 8 a 14 por cento em média, por ano, de 1956 em diante a queda foi brutal: os níveis baixaram até 3 por cento.

Aos olhos dos economistas do regime, êsses resultados assumiam proporções de catástrofe: com efeito, o objetivo de todos os países socialistas era alcançar e superar a produção e o nível de vida dos países capitalistas do Ocidente. Nada disso tinha acontecido: e se as coias continuassem no mesmo ritmo, nada aconteceria nunca. A URSS, por exemplo, progride, mas num ritmo muito inferior ao do Japão; seu progresso se aproxima ao dos Estados Unidos — o que significa que os americanos, que partiram na frente, se distanciam cada vez mais.

Preços arbitrários — Diante da catástofre, surgiram os gritos de reforma. O sistema stalinista não se adaptava à economia moderna: planificação muito rígida, produção determinada por métodos administrativos e não econômicos, sistema arbitrário de preços — 1 tonelada de carvão, por exemplo, era vendida na URSS a 24 rublos, enquanto seu preço de custo era de 62 rublos. Em compensação, o preço das roupas era altíssimo. Com a reforma — que da URSS saiu para os outros países do bloco — abrandava-se a planificação, descentralizava-se a gestão, dava-se maior autonomia às emprêsas, substituía-se a arbitrariedade pelas leis do mercado, reformava-se o sistema de preços.

Essas medidas pareciam puramente técnicas, mas traziam um grande significado políticos. Isso porque a reforma veio atingir em cheio os "apparatchiki", funcionários do PC engarregados de promover, administrar e fiscalizar a produção. Com a economia funcionando por si mesma, êles perdiam suas funções e, imediatamente, começou a luta entre os homens do aparelho e os dirigentes de emprêsas. Nessa luta, êsses últimos se aliaram aos intelectuais e aos estudantes: uma aliança natural, pois todos queriam mais liberdade de ação diante dos burocratas. Dessa luta nasceu a crise, e, quando, num dos países do bloco, os liberais venceram a batalha contra os "apparatchiki", a crise explodiu em interversão armada — em Moscou, são os burocratas que mandam, os liberais estão neutralizados, e a experiência da Checoslováquia poderia inverter essa situação.

Até onde o tempo parou — O visitante ocidental (no ano passado 2 milhões de ocidentais estiveram em países de além-cortina, 15 por cento a mais que em 1964) encontra às vêzes nas capitais comunistas da Europa o clima dos anos 30. Para os violinos que acompanham o jantar no Hotel Athenée Palace, de Bucareste, para os imponentes táxis prêtos de Budapeste (são Pobedas russos, na linha lembram o Plymouth de antes da guerra), ou para os casacos de pele que os homens vestem nas ruas de Varsóvia, o tempo parou. Um jornalista americano surpreendeu-se — e se comoveu — ao ouvir tocar, além-cortina, os velhos sucessos de Eddy Duchin, um pianista cuja vida foi filmada há muito tempo, na interpretação de Tyrone Power (morto em 1958). São as sombras do passado, em vago, irreal combustível para os sonhos. A realidade é outra. Em Bucareste há taxis lustrosos — e, na Romênia, 10 mil carros ao todo, para uma população de 19 milhões. (No Brasil circulam cêrca de 2 milhões de carros.) Nas ruas das cidades húngaras, romenas, polonesas, checoslovacas, o comércio é pobre, as vitrinas tristes, os preços de tudo muito altos.

Ainda as idéias do Sr. K. — Há as lembranças do passado — e há as experiências do presente, realizadas por quem teve coragem de livrar-se na medida do possível, das diretrizes do Comecon — o mercado comum vermelho. Fundado em 1949, como resposta ao Plano Marshall, que revigorou a Europa ocidental depois da II Guerra Mundial, o Comecon (Conselho para a Assistência Econômica Mútua) atualmente é formado pela URSS, Bulgária, Checoslováquia, Alemanha Oriental, Hungria, Polônia, Romênia e também a Mongólia Exterior. Objetivos: coordenar os planos de desenvolvimento econômico e comércio exterior dos países membros, promover a ampliação da ajuda econômica e encorajar os projetos de investimento conjunto. O Comecon é uma sociedade que atribui à URSS a parte do leão. Por exemplo, ela fornece aos demais países cêrca de 70 por cento do material bruto, a preços muito mais elevados do que os do mercado internacional. Desculpa usada pelos russos: as nossas minas mais próximas ficam a mais de 3.000 quilômetros das fronteiras dos nossos aliados. A URSS vende caro seu minério de ferro e seu petróleo, mas compra barato — e em rublos — os produtos mais sofisticados das indústrias checoslovacas, alemãs orientais e polonesas. E enquanto os países do Comecon não possuem divisas suficientes para comprar os equipamentos avançados dos países do Ocidente, sua evolução tecnológica vai sendo freada. As motocicletas checoslovacas são excelentes, seus caminhões Tatra aprovaram como nenhum outro nas trilhas norte-vietnamitas, mas a indústria química e eletrônica é rudimentar: os medidores de voltagem húngaros são ótimos, mas os telefones péssimos: a indústria de conservas polonesas é avançada, mas a indústria automobilística medíocre.

O mercado, uma descoberta — Onde o comunismo nacional deitou raízes mais profundas, os caminhos da autonomia atravessaram também o terreno econômico. O Vice-Primeiro-Ministro romeno Georges Gaston Morin fala num "aperfeiçoamento da economia". E admite: "Vamos levar em conta, em certa medida, as leis do mercado". No dia 1º de janeiro de 1968 entrou em vigor na Hungria a Nova Gestão Econômica, isto é, nova maneira de produzir e vender, muito mais próxima dos padrões ocidentais. A previsão é fácil: ela acabará provocando uma nova maneira de viver. A Nova Gestão se baseia nos seguintes pontos: a produção, livre dos moldes muito apertados dos planos, deve atender às exigências do mercado; a autonomia do chefe de emprêsa é muito ampliada: a concorrência entre as emprêsas é livre. Na emprêsa húngara, que não vende satisfatòriamente, os diretores têm os seus salários descontados em proporção direta à queda nas vendas. Podem ser até despedidos sumàriamente. Alguém começa a reconhecer que "o consumidor manda". E um dos economistas húngaros responsáveis pela Nova Gestão, Lazlo Imre, declara: "Procuramos nos convencer de que a introdução do mercado não destrói a planificação". Em Praga, o Professor Ota Sik, responsável pela linha econômica do Govêrno checoslovaco depois da deposição do stalinista Novotny, aplicou, desde janeiro até a véspera da invasão russa, novos modelos que condenam tudo o que foi feito no mundo comunista nos últimos vinte anos. Sik defende a descentralização da economia e o incentivo da produção, através de estímulos ao operário, como prêmios em dinheiro e redução das horas de trabalho.

Um símbolo: a Pepsi-Cola — Enquanto nas boates de Praga os jovens começam a dançar ao som dos Beatles, os governos de alguns países da Europa oriental pensam em abrir suas fronteiras também aos investimentos estrangeiros. Já foram abertas pela Romênia. Emprêsas alemãs, entre as quais a Siemens e a Krupp, chegaram com 50 milhões de dólares; a Pechiney francesa, com uma fábrica de alumínio. Chegaram também locomotivas suecas, chocolate italiano e carros (Renault) franceses. A Pepsi-Cola logo será engarrafada em terra comunista. Num lance de pura ironia, a Pepsi torna-se o símbolo de uma revolução. Sem grandes dificuldades, ela pode ser, para um comunista, o símbolo do capitalismo — mas entre o comunismo e o capitalismo existe há tempo uma coexistência oficialmente consagrada; o problema é a coexistência entre comunistas. "No campo ideológico, tôda coexistência pacífica é excluída", dizia o "Pravda", órgão do PC soviético, nas vésperas da invasão da Checoslováquia. É por isso que a experiência checoslovaca — nem "democracia burguesa", nem socialismo modêlo soviético, mas uma terceira fórmula criando o livre debate e a participação democrática em tôrno do PC — horrorizou os russos. Da mesma forma que "aventureiros" e "anarquistas" de Paris haviam feito o Kremlin tremer de indignação em maio. Anos atrás, Kruschev dizia a Maurice Thorez, então líder do PC francês (morto em junho de 1964): "Se não há unidade entre os PCs, não há mais unidade no PC". Kruschev enxergava longe. Pouco antes da invasão soviética, um dos dirigentes do PC checoslovaco, Joseph Sabata, afirmava: "Ao Govêrno cabe mandar. O Partido não representa todo mundo". Para o Kremlin, frases como essa e atitudes como a de Dubcek, o líder checoslovaco que pretende "um socialismo com liberdade", trazem riscos demais. Por isso, enquanto o teórico do PC russo Mikhail Suslov disserta em Moscou sôbre o verdadeiro marxismo, os tanques russos moem as ruas de Praga.

A fôrça do nacionalismo — Em outros tempos, através do Comintern antes, do Cominform depois, o PC Soviético — até o imediato pós-gerra o único Partido Comunista no poder — controlou tranqüilamente os demais PCs. Foram tempos em que ninguém ousaria duvidar do caráter internacional do comunismo, movimento global que recebia as senhas e as cadências diretamente de Moscou. Fundado em 1919 sôbre as cinzas da Primeira Internacional (organizada em Londres por Karl Marx, em 1864) e da Segunda (moderada, em 1889), o Comintern, também conhecido como Terceira Internacional, tinha como fim "promover revoluções contra os regimes capitalistas". Foi dissolvido no fim da II Guerra Mundial, como prova de boa vontade oferecida aos aliados ocidentais. Veio a "guerra fria", e êle renasceu com o nome de Cominform e funções mais amplas. Coordenava as atividades subversivas do comunismo internacional, mas era também uma arma usada por Stálin para dominar a Europa oriental. Por intemédio do Cominform, Tito foi excomungado como "revisionista", em 1948. Depois da morte de Stálin (1953) e da reaproximação de Tito ao Kremlin, o Cominform foi extinto, em 1956. O fim dêsse instrumento de poder, a morte do ditador e a liquidação do seu mito — anunciada por Kruschev em 1956, no XX Congresso do PC Soviético — e, ainda, as atitudes cada vez mais independentes de Mao Tsé-tung, advogado de caminhos diferentes para o socialismo, roeram as bases do internacionalismo comunista.

Hoje o nacionalismo é a grande fôrça no mundo comunista. Êle é mais forte que os próprios partidos, e mais forte que a ideologia. Ainda é mais fraco, entretanto, que o Pacto de Varsóvia — oficialmente, um instrumento de defesa externa contra os países capitalistas, mas, na prática, um meio de pressão interior nos países socialistas da Europa, uma fôrça de polícia que faz reinar a ordem moscovita dentro dêles.

Marx: a hora
dos trabalhadores

Além do leque, os tanques — A ideologia é, no mundo comunista atual, um leque manuseado com dicutível habilidade por Suslov — não chega a esconder os tanques, por exemplo. Muito mais que no Oriente, é no Ocidente que as idéias marxistas mobilizam intelectuais, excitam cientistas, engajam sentimentos. Pensadores como Herbert Marcuse, Ernst Bloch e Erich Fromm — todos de origem alemã — desencandearam com suas obras, inspiradas em Marx, embora modificadas por idéias psicanalíticas ou religiosas, o único movimento marxista espontâneo desde os tempos da Revolução Russa: a rebelião dos estudantes.

Em fins de março, o Partido Socialista-Comunista Unificado da Alemanha Oriental promoveu um congresso de filósofos, com o propósito de salvar a imagem comunista ortodoxa de Marx diante da investida dos inovadores marxistas ocidentais. A tentativa acabou em penosos acidentes, nos protestos checoslovacos e no mau humor húngaro. No entanto, Suslov repete que "o leninismo e o marxismo do século XX e a experiência soviética são a única encarnação do marxismo". Enquanto em Varsóvia o Professor Kolakowski, da faculdade de Filosofia, marxista convicto, aceita que os seus alunos discutam abertamente quaisquer ideologias, Suslov distribui rótulos de "revisionista" (para Tito), de "nacionalistas" (para romenos e checoslovacos) e "revisionistas e nacionalista" (para Mao). (Nas declarações de Mao, revisionistas são os soviéticos.) É a fórmula que o Kremlin elabora para justificar excomunhões ou "operações saneadoras", como na Checoslováquia.

De Marx a De Gaulle — Marx partia da idéia de que o mundo sòmente poderia ser transformado pela violência. Escrevia em 1848: "Os comunistas declaram que os fins sòmente poderão ser atingidos pela subversão violenta de tôda a ordem social preexistente". Contudo, Marx imaginava que o capitalismo criaria um mundo de pouquíssimos ricos e de uma multidão infinita de pobres. Assim, a maioria seria proletária, e a revolução, proletária e democrática. A previsão não se confirmou: o proletariado hoje deseja integrar-se numa classe média cada vez mais numerosa. A França fornece um exemplo recente. Em junho passado, diante da incerteza de uma revolta começada nas universidades e que poderia arrastar a nação para o caos, o proletariado optou pela solução "burguesa" e reelegeu o General De Gaulle. "O curso da história foi diferente do que Marx havia imaginado", constatou recentemente Max Horkheimer, diretor da Escola de Sociologia de Frankfurt, êle próprio, outrora, seguidor de Marx. O problema da falta de uma maioria disposta a fazer uma revolução já havia sido de Lênin. Foi êle quem forneceu uma solução sucedânea, mas também fatal, proclamando a revolução dos "revolucionários profissionais", organizados num partido chamado a substituir a massa sem consciência revolucionária. Êsse partido representava a consciência personificada, nêle manifestava-se a vontade de Lênin de ensinar "consciência de classe" a operários e camponeses. "A emancipação dos trabalhadores poderá ser sòmente obra dos próprios trabalhadores", dizia Marx. "Sòmente de fora a consciência política de classe pode ser introduzida no meio dos operários", dizia Lênin. Stalin apresentou a sua versão: o regime dos intelectuais, que pensavam pelos trabalhadores, foi depurado com o sangue e transformado no regime da burocracia.

As estrêlas vivas — As rebeliões de intelectuais, em todo o mundo comunista, são agora o reflexo tardio da tentativa de Lênin de obrigar os homens a encontrarem a sua consciência revolucionária. Mas o terreno das idéias é muito perigoso. Na própria URSS, o ponto de vista oficial de Kremlin é constestado. O grande físico Andrei Sakharov, 47 anos, membro da Academia de Ciências Soviética, divulgou recentemente um manifesto dizendo que a "divisão da humanidade provocará sua destruição" e que o socialismo deveria se aproximar do capitalismo numa tarefa fundamental para a sobrevivência dos homens. "Todo teórico marxista — dizia Sakharov — deveria compreender o significado profundo dos progressos econômicos realizados pelo capitalismo." Êsse afirma também que "nada permite sentenciar que os métodos de produção capitalistas conduzam a um impasse ou uma produção inferior a dos países socialista, nem à pauperização da classe operária". Dêsses princípios, êle parte para a pregação de uma coexistência profunda entre os dois sistemas: "Tanto o capitalismo como o socialismo são capazes de se desenvolver entre êles a longo prazo, emprestando-se mùtuamente elementos positivos e aproximando-se um do outro sôbre um certo número de problemas, entre os quais a liberdade intelectual". Há muitos intelectuais russos que hoje procuram essa liberdade. O homem não pode ser um parafuso do mecanismo social, êle tem direito à felicidade privada, à ética individual: é o que se lia num artigo publicado recentemente na revista "Questões de Filosofia", a mais importante publicação filosófica da URSS. O leque ideológico de Suslov é evidentemente hipócrita. A URSS de Brezhnev, Podgorny e Kossiguin, no momento de soltar os tanques, não é diferente da Rússia santa e dos czares que soltava a cavalaria. Ela não renega a sua vocação imperialista. A URSS pretende apenas salvar o que pode do seu império para ser, ainda, o sol da sua galáxia.

http://veja.abril.com.br/numero1/p_086.html

O milagre da Sibéria

Preocupado com a necessidade de desenvolver outros setores econômicos o petróleo responde por 90% da economia da capital , Filipenko convenceu cerca de 80 pesquisadores de Akademgorodok, um renomado centro de pesquisas científicas, a se mudar para a sua capital regional e ali estabelecer um instituto especializado em tecnologia da informação. O instituto fornece serviços de consultoria para as empresas petroleiras, mas também desenvolve projetos em outras áreas, como a de nanotecnologia.

Este é o início de uma "Taiga do Silício", como diz Alexander Sherbakov, um matemático de 60 anos, em referência ao Vale do Silício, na Califórnia. Quando chegar ao fim a era da riqueza fácil do petróleo, ele afirma, "estaremos produzindo nossos próprios especialistas", criando postos de trabalho na economia da informação para a geração mais jovem. Ao contrário do que ocorre no setor petroleiro, o investimento em ciência, diz Sherbakov, pode assegurar um futuro promissor para a economia e os habitantes da região.

Embora a riqueza do petróleo ainda não tenha feito da Sibéria um ímã para os tecnólogos de ponta da Rússia, ela já vem atraindo muitos outros forasteiros, sobretudo imigrantes empobrecidos vindos do exterior. Esses indivíduos são chamados pelos russos, que tomaram o termo emprestado do alemão, de gastarbeiters, "trabalhadores convidados". Eles estão por toda parte em Khanty-Mansi. A maioria é formada por muçulmanos do Tadjiquistão, a ex-república soviética na Ásia Central cuja economia acabou destroçada pela guerra civil em meados da década de 1990. Os tadjiques chegam na primavera e voltam para casa antes do começo do inverno. Não é todo dia que encontram trabalho, mas quando isso ocorre conseguem ganhar cerca de 20 dólares por dia carregando sacos de cimento em uma obra ou fazendo faxina em casas.

Os homens deveriam ter documentos comprovando o local em que residem, e no entanto acabam ficando em lugares não autorizados, como garagens sem aquecimento alugadas à margem da lei. Um capataz um tipo mafioso consegue documentos mediante suborno das autoridades competentes, mas tais registros, nos quais constam endereços falsos, deixam os gastarbeiters à mercê da polícia. Quando surpreendidos, às vezes eles são obrigados a pagar no ato uma multa (leia-se "suborno"), e os reincidentes estão sujeitos à deportação. Recentemente, o governo da Rússia transferiu para os empregadores a responsabilidade de registrar os trabalhadores e verificar se seus documentos são genuínos, mas é pouco provável que tais medidas tenham resultado, pelo menos enquanto prosseguir a febre do petróleo.

As cidades petroleiras da Sibéria Ocidental também estão atraindo uma onda de russos oriundos das cidades economicamente deprimidas situadas a oeste dos montes Urais. Quarenta anos atrás Surgut não passava de um aglomerado de barracos de madeira em um lugar cujas temperaturas podem chegar a 50 graus negativos e onde, no inverno, há apenas algumas horas de luz por dia. Hoje, com 300 mil habitantes, é uma das maiores cidades da Sibéria Ocidental.

O brilho e a prosperidade evidentes em Surgut eram antes inconcebíveis no interior da Rússia. Uma instituição que é tanto creche como pré-escola, reformada pela prefeitura ao custo de 5,2 milhões de dólares, agora conta com piscina interna aquecida e outra de hidromassagem. Quando o tempo não permite exercícios ao ar livre, as crianças podem se divertir com carros de brinquedo em um salão envidraçado com temperatura controlada. Depois, os pequenos se aquecem com bebidas quentes na cafeteria. Sei muito bem que, na condição de "estrangeiro", estão me mostrando o melhor jardim-de-infância da cidade, mas a verdade é que não dá para simular tanta riqueza. Presos nos congestionamentos, lá estão os incontáveis Hondas, Toyotas e Nissans, assim como os baratos Ladas produzidos no país.

Na Rússia, a principal forma de habitação nas cidades são os imensos (e horrendos) conjuntos com prédios de concreto. Surgut, porém, exibe subúrbios com casas unifamiliares, destinadas à nova classe média alta formada por gerentes das petroleiras, funcionários de bancos e empresários. De tijolos vermelhos, as casas, com jardim e quintal, custam em média 400 000 dólares.

Surgut poderia muito bem ter se desintegrado, tal como ocorreu com outras cidades russas, durante o caos subseqüente ao colapso da União Soviética. O fato de isso não ter acontecido é uma prova da estabilidade de sua liderança política e empresarial. "Eu nasci em Surgut, tal como meus filhos e meus netos", declara orgulhoso Alexander Sidorov, que acumula vários mandatos como prefeito da cidade cuja âncora econômica é a companhia petroleira Surgutneftegas, a quarta maior empresa do setor na Rússia. E, ao contrário da maioria dos grandes barões do petróleo que controlam seus impérios de Moscou, o diretor-geral da companhia, o bilionário Vladimir Bogdanov, continua a viver em Surgut.

A Surgutneftegas vem aproveitando o surto petrolífero para implantar um programa de modernização de sua atividade. No centro administrativo do campo, engenheiros informáticos projetaram e construíram um enorme mapa digital para monitorar o desempenho dos poços.

O mapa exibe dados das estações de bombeamento, dos poços em operação e dos oleodutos transmitidos por sinais de rádio codificados. Com base nessas informações, os administradores podem dizer quanta energia elétrica está sendo consumida, ou se um poço necessita de reparos.

À medida que passaram a atuar em âmbito global, as companhias petroleiras russas também se tornaram mais receptivas às preocupações internacionais com o ambiente. Os elevados preços do petróleo são um incentivo para reduzir o desperdício, assim como os contratos de exploração que prevêem multas substanciais para qualquer vazamento. Lubov Malyshkina, responsável pelo departamento ambiental da Surgutneftegas, é membro eleita do Parlamento regional. No período soviético, o Ministério da Energia, em Moscou, indiferente às condições locais, costumava enviar produtos químicos ineficazes contra vazamentos de petróleo. Agora o departamento de Lubov dispõe de orçamento de quase meio bilhão de dólares. Entre suas aquisições está o veículo anfíbio Truxor, fabricado na Suécia, dotado de lagartas e capaz de romper pedaços de turfa impregnados de petróleo, tornando possível assim a limpeza dos derramamentos.

Mas uma característica do setor petroleiro aqui não mudou em nada: o trabalho do neftyaniki continua a ser duro e perigoso. Em um poço que fica a cerca de uma hora de carro de Surgut, os moradores de um vilarejo, enquanto colhem cogumelos, parecem anões ao lado das imensas bombas cujo movimento ritmado sugere um gigantesco pássaro bicando o solo. Escadas metálicas escorregadias por causa do petróleo levam a uma plataforma em que uma perfuratriz está atravessando a camada de rocha com uma broca cuja ponta tem quase 30 centímetros de diâmetro e é revestida de diamantes. Há muito barulho, e o ar cheira mal, mas dizem que é um bom lugar para estar no inverno, já que a plataforma fica envolta em vapor dágua. Os homens trabalham em turnos de oito horas por até 30 dias seguidos, dormindo em trailers, e depois tirando folgas de até 30 dias. O álcool é proibido. Bebam quanto quiserem durante as folgas, mas voltem sóbrios para o trabalho é a orientação recebida pelos neftyaniki. Apesar das dificuldades, tais empregos abrem caminho para uma prosperidade inimaginável poucos anos atrás. Os trabalhadores menos experientes ganham salário mensal equivalente a 1 000 dólares, ao passo que os mais habilitados chegam a receber quatro vezes mais.

Tudo isso é impressionante. Mas a questão mais importante para a Surgutneftegas e para todas as outras companhias petroleiras em Khanty-Mansi é saber se estarão à altura dos desafios políticos, econômicos e técnicos que despontam no horizonte. Acredita-se que a Sibéria Ocidental será a principal fonte de petróleo russo pelo menos nas próximas duas décadas, mas os campos da região estão envelhecendo. A taxação excessiva toda renda bruta superior a 25 dólares por barril vai para os cofres federais e os jogos de poder promovidos pelo Kremlin tornam o ambiente inóspito para investimentos. Para sentir isso, basta visitar Nefteyugansk, cidade de 114 mil habitantes à margem do rio Ob e a uma hora de carro de Surgut.

Um mar de lama negra foi o que o petróleo proporcionou a Nefteyugansk, que tem a aparência de um parque industrial em decadência. Na praça principal se acumulam canos de ferro e, mais abaixo, vê-se boiando no rio um barril amassado da Shell junto do cais deteriorado.

A poucos passos do portão de entrada do cemitério da cidade está a sepultura de seu mais famoso morador: Vladimir Petukhov. Em 1996, os habitantes locais colocaram Petukhov à frente da prefeitura. Dois anos depois, ao seguir para o trabalho em uma manhã de junho, o prefeito foi assassinado por uma dupla de pistoleiros.

Por mais de uma década o petróleo esteve no centro de uma violenta luta pelo poder na cidade. As dificuldades tiveram início nos anos 90, quando um banqueiro novo-rico de Moscou arrematou uma das principais petroleiras russas e a única grande empregadora na cidade em um leilão de privatização. O banqueiro, Mikhail Khodorkovsky, transformou a unidade de Nefteyugansk em principal subsidiária de sua nova empresa petroleira, batizada de Yukos. Mas ele se indispôs com a cidade ao deixar de pagar impostos, provocando com isso atrasos de meses nos salários dos funcionários municipais. O prefeito Petukhov, um ex-neftyaniki, liderou os protestos públicos contra os novos donos da empresa, que, nas palavras dele, haviam "cuspido no rosto da gente, no rosto dos petroleiros". O assassinato de Petukhov, então com apenas 48 anos, enfureceu os moradores, que associaram o crime à sua postura contra a Yukos. "Este sangue mancha a mão de vocês", diziam os cartazes contra a Yukos exibidos no velório de Petukhov.

Durante cinco anos ninguém respondeu pelo crime. Nesse período, a cidade foi governada por um sujeito corrupto que acabou preso por ludibriar petroleiros com um esquema de aposentadoria na amena região russa à beira do mar Negro. Enquanto isso, os preços do barril de petróleo subiam, aumentando o valor da empresa de Khodorkovsky. Mas aí a Justiça se manifestou.

Em junho de 2003, promotores de Moscou detiveram o chefe de segurança da Yukos sob a acusação de organizar a execução de Petukhov. E, quatro meses depois, prenderam o próprio Khodorkovsky por fraude fiscal. As autoridades assumiram o comando da subsidiária em Nefteyugansk e depois o transferiram para a Rosneft, uma empresa controlada pelo Kremlin. Khodorkovsky foi enviado a uma prisão no sudeste da Sibéria, onde teve o rosto cortado por outro preso. Nesse ínterim, o chefe de segurança foi condenado. Os promotores anunciaram em fevereiro de 2008 que o co-proprietário da Yukos, Leonid Nevzlin, também seria acusado do assassinato de Petukhov.

Seja como for, o resultado é que uma galinha dos ovos de ouro até hoje o sustento econômico da cidade passou das mãos de um oligarca moscovita para as mãos do pessoal do Kremlin. Quando visitei Nefteyugansk, Sergey Burov ocupava o cargo de prefeito havia quatro meses. Antes fora vice-diretor da Rosneft e, antes disso, alto funcionário da Yukos. Também ele não escapou à violência: em 2005, ao caminhar em direção a seu carro pela manhã, foi alvejado com um tiro na barriga. Aquilo tinha todo o jeito de um trabalho sob encomenda, mas os promotores encerraram o processo sem incriminar ninguém.

Burov demonstra interesse em falar do futuro da cidade, mas não de seu passado sanguinolento. Em parceria com a Rosneft, conta ele, a prefeitura tem planos para reconstruir Nefteyugansk. Não é o que pensam os moradores. "Talvez a Rosneft esteja confortável aqui", comenta Vasily Voroshilov, técnico de poços de petróleo de 52 anos. "Mas nós não sentimos isso."

A despeito de toda a riqueza proporcionada pelo petróleo, ele pode ser uma bênção ou uma maldição para países como a Rússia. No início da década de 90, antes do surto petrolífero, Boris Yeltsin insistiu em que as províncias conquistassem a maior autonomia possível. Foi o auge do aparente potencial da Rússia para o pluralismo político e a democracia de estilo ocidental. Quando os preços do petróleo dispararam, no fim daquela década, o Kremlin deu-se conta de que essa fonte de riqueza poderia sustentar o ressurgimento de uma Rússia humilhada. Hoje, as reservas russas se prestam a exaltações patrióticas que adquirem tom quase místico. Nas festividades do Dia do Petroleiro, uma das canções, que saudava a força dos neftyaniki, proclamava que "somos os dedos fechados em um punho forte".

"Hoje a Rússia deve sua condição de superpotência aos recursos energéticos, e não aos militares", diz Julia Nanay, diretora da PFC Energy, empresa de consultoria com sede em Washington, DC "Nas mãos do Kremlin está o destino do petróleo da Sibéria Ocidental. O objetivo deles é controlar a produção e as exportações de modo a ampliar a relevância geopolítica da Rússia."

Assim como no passado os czares detinham o monopólio de produtos valiosos como peles e sal, o Kremlin quer manter o controle direto sobre o petróleo e sobre os oligarcas que o produzem. Sobrevivem aqueles que se mantêm na linha.

Os outros correm o risco de ter o mesmo destino de Khodorkovksy, ou um fim ainda pior.

Um desses sobreviventes é Vagit Alekperov, presidente da maior empresa petrolífera particular da Rússia, a Lukoil. Tendo iniciado sua carreira nos poços de petróleo próximos a sua cidade natal, Baku, Alekperov foi enviado à Sibéria no fim da década de 70 como chefe de uma equipe de petroleiros. Notório pela postura rígida e paternalista, enfureceu seus homens ao proibir o comércio de bebidas alcoólicas no vilarejo. Vários deles chegaram a agarrar seus rifles de caça e disparar contra o barraco de Alekperov este, com sua sorte de sobrevivente, não estava lá no momento. Nos derradeiros dias da União Soviética, Alekperov criou a Lukoil com valiosos ativos petrolíferos na Sibéria Ocidental. Hoje a companhia é uma multinacional com reservas de hidrocarbonetos que ficam atrás apenas das da ExxonMobil e possui cerca de 2 mil postos de gasolina só nos Estados Unidos. Embora grande parte das reservas da Lukoil esteja na Sibéria Ocidental, Alekperov controla seus negócios em um edifício localizado a apenas 3 quilômetros do Kremlin. Tal como outros sobreviventes, ele conhece bem o valor de se manter atento a qualquer mudança política capaz de afetar, para o bem ou para o mal, as perspectivas da Lukoil.

Alekperov sempre está vestido com ternos impecáveis. Acostumado ao jogo duro, também é capaz de se mostrar encantador. Quando insisti em perguntar se os consumidores poderiam ficar tranqüilos agora que a Rússia domina grande parte do suprimento mundial de petróleo, ele abriu um sorriso e perguntou: "Você me acha com cara de urso?" Não pude deixar de rir. "Tudo o que queremos é ganhar dinheiro."

Depois de ter absorvido a Yukos, o pessoal do Kremlin não passaria agora a ficar de olho na Lukoil? "Não creio que o governo tenha interesse em uma companhia como a Lukoil", replicou Alekperov. Naquele momento, achei melhor não mencionar que Khodorkovsky havia me dito a mesma coisa pouco antes de ser detido.

A base das operações da Lukoil em Khanty-Mansi é a cidade de Kogalym. Um canteiro de flores à beira da estrada ostenta o nome da empresa não muito longe das cúpulas douradas de uma catedral ortodoxa russa e do minarete esverdeado de uma mesquita. Em uma maternidade reformada uma instituição conhecida na Rússia pelo termo roddom , a doutora Galina Pustovit exibe orgulhosa seus avançados equipamentos médicos. Em um país em que a maioria das mulheres ainda dá à luz em edifícios da época soviética, horrorosos e malcheirosos, essas instalações reluzentes são de fato excepcionais.

Quando menciono à doutora Pustovit que o setor petroleiro russo é famoso por ser corrupto, ela me lança um olhar de censura. "Tudo isso veio do petróleo", diz. "Os petroleiros ergueram este hospital. Tudo que há nesta cidade foi feito com dinheiro do petróleo." Não nos julgue com tanta severidade, diz o olhar dela: nesta região, nunca as condições de vida foram tão boas.



Por: Paul Starobin Foto: Gerd Ludwig
Matéria publicada na Revista National Geographic

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Crise global aponta era de intolerância

Pela primeira vez no século, a classe média parece incapaz de garantir aos filhos o mesmo nível de vida
LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO
Especial para a Folha

1645. Munster, província de Wesphalia, oeste da Alemanha. Começam as negociações para pôr fim ao conflito generalizado -verdadeira primeira guerra mundial- que ensanguentava há décadas a Europa e suas colônias ultramarinas. Quase duas centenas de plenipotenciários, agindo em nome de outros tantos grandes e pequenos governos europeus, punham sobre a mesa os assuntos do planeta.
Em pauta, lá no fim da lista, estavam também Pernambuco e Bahia, onde se engalfinhavam luso-brasileiros e holandeses. De Amsterdã e Paris, a figura glauberiana do padre Antônio Vieira seguia os eventos com o mapa na cabeça e um ábaco na mão. Enojado pelas guerras e pela intolerância cultural, Vieira, como a maioria dos diplomatas ocidentais, fazia uma leitura pragmática da religião e da política internacional. Estava disposto a entregar Pernambuco aos hereges holandeses em troca de um acordo que garantisse as fronteiras européias de Portugal contra a ameaça espanhola.
Laboriosas discussões desembocam em 1648 nos Tratados de Wesphalia. Terminava a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Acaba a hegemonia católica na Europa. Três religiões cristãs -a luterana, a calvinista e a católica- foram institucionalizadas no Ocidente. Criava-se o Direito Internacional, o concerto de negociação diplomática permanente das nações. Nasciam os países que, com remodelagens diversas, marcam a história contemporânea da Europa. Vingava uma concepção mais contraditória, tolerante, racional da cultura e dos direitos políticos.
Até bem recentemente, até os meados da década passada, a grande maioria dos historiadores ocidentais pensava que o mundo inteiro havia entrado, depois dos Tratados de Westphalia, numa evolução contínua. As sociedades e o poder político conheciam um processo irreversível de laicização. As nações acabariam por se entender e se reincorporar no seio de entidades supranacionais, como a ONU, e, mais concretamente no caso do Velho Mundo, a União Européia. Enfim, as forças da natureza estavam definitivamente domadas: graças ao progresso científico, as epidemias e as doenças contagiosas regrediam pelo mundo afora.
De uns anos para cá, tudo desandou. Retornaram epidemias antigas e surgiu uma nova, imbatível, a Aids. Se estraçalharam alguns países. O nacionalismo vesgo, paroquial, se exarcebou a ponto de ressurgir em plena Europa, na antiga Iugoslávia, a política asquerosa da "faxina étnica". Enfim, voltam as formas intolerantes de religiosidade. Aqui e acolá surgem aventureiros brandando que o remédio de todos os males -a salvação da nacionalidade, da saúde pública, da religião- repousa sobre a crença integral, integrista da liturgia e dos textos sagrados.
O integrismo, como o fundamentalismo, se baseia na interpretação literal dos textos sagrados e das supostas tradições. Ora, uma das vias essenciais do progresso ocidental se concretizou através da liberdade de reflexão que levou ao afastamento do sentido literal dos textos canônicos.
Como lembra em boa hora o historiador Jacques Le Goff, desde a Idade Média, autores, escolas, correntes filosóficas e políticas avançaram outras interpretações possíveis -além daquela de caráter estritamente literal- às Escrituras, aos costumes, às tradições religiosas. Nesse sentido, a leitura tapada, formalista e linear dos textos sagrados cristãos, judaicos ou muçulmanos se apresenta hoje como uma perigosa regressão. Como um estímulo constante e intolerância e ao enfrentamento cultural.
Das grandes religiões, o fundamentalismo do Islã é, sem dúvida, o que conhece hoje em dia o maior destaque. Durante muito tempo se achou que a decadência do Império Otomano trazia de cambulhada o declínio do islamismo. O próprio ressurgimento da Turquia, nos anos 1920, sob a direção do movimento republicano kemalista (de Mustafá Kemal Ataturk), parecia confirmar essas análises.
Laica, reformista, a república turca rejeitava o fanatismo religioso e reconhecia, desde 1934, o direito de voto às mulheres. Raiaram, entretanto, outros pólos regionais de proselitismo que trouxeram o fundamentalismo de volta à Turquia. Evento altamente simbólico, no último mês de março os muçulmanos radicais ganharam as eleições em Istambul, um centro do kemalismo histórico.
Novos países árabes, como a Argélia, são engolfados pelo fanatismo religioso. Dois milhões de lares argelinos que dispõem de antenas parabólicas -ou "paradiabólicas", na expressão dos radicais muçulmanos- estão ameaçados de represálias. Por um efeito de ricochete, estes acontecimentos criam tensões em outros países.
Assim, o avanço do integrismo islâmico na Turquia acentua a rivalidade entre esse país e o Irã xiita, no Azerbaijão e nas zonas muçulmanas do Cáucaso, onde o refluxo do domínio exercido pela ex-União Soviética abriu espaço à influência conflitante de Teerã e de Ancara. Assim, o êxodo para a França de argelinos perseguidos pelos fanáticos islamistas açula ainda mais o racismo antiárabe dos franceses.
Sobretudo quando aparece que o Islã já se apresenta como a segunda religião mais importante no país de Voltaire. Dando azo à paranóia galopante que toma conta da Europa ocidental, um diplomata francês, num artigo recente da revista oficiosa "Défense Nationale", aponta o Islã como o inimigo principal das democracias no século 21, da mesma forma que o comunismo o terá sido no decurso do nosso século. Com uma diferença: como o Islã conta com múltiplos focos de propagação, o avanço muçulmano será ainda mais ameaçador que o do comunismo engendrado pela Revolução de 1917.
Noutra escala, noutros lugares, o integrismo judaico e o católico também assustam. Preso a um desenho bíblico, mitológico, das fronteiras internacionais na Palestina, o fundamentalismo judaico torna totalmente inviável a paz na região, como o próprio governo de Israel já se deu conta.
Na Europa oriental, todo um bando de gente assustada com os novos ricos e com os novos pobres embarca na canoa de demagogos racistas. Nesse quadro, a palavra de ordem do Vaticano, que pretende reevangelizar aquela parte do mundo, fazendo do catolicismo o cimento espiritual dos países ex-comunistas, suscita inquietações. Tal política ignora as realidades de uma laicidade que data do Iluminismo setecentista, como também fatos religiosos muito mais antigos, muito mais consistentes, enraizados nos territórios onde reina a Igreja ortodoxa.
Tudo seria mais fácil, mais propício ao entendimento dos diplomatas e às práticas democráticas se os problemas econômicos que envolvem o Ocidente fossem um desses destrambelhos passageiros do capitalismo, ou mesmo uma crise cíclica violenta, mas bem demarcada, como a do final dos anos 20. Na verdade, duas características distinguem a crise iniciada em 1974 da que estourou em 1929.
Em primeiro lugar, ao contrário do que ocorreu em 1929, a crise desencadeada em 1974 não parou tudo. O comércio internacional continuou aumentando. Os "tigres asiáticos" e depois a Indonésia, a Tailândia, a Índia e a China conheceram em vinte anos um forte desenvolvimento, penetrando em mercados antes dominados pelos velhos países industriais.
Nesse sentido a crise atual se assemelha àquela do século 17, que os Tratados de Westphalia procuraram colmatar: um país se retrai, seu rival logo aparece: quando Espanha e Portugal recuavam, a Holanda avançava; quando a Holanda falhava, a Inglaterra ocupava os vazios no comércio do Oriente e do Ocidente. Num contexto destes, a guerra comercial é para valer. Não há mais aliados perpétuos nem amigos definitivos.
No último mês de maio, o presidente Clinton, renegando uma série de promessas eleitorais, renovou as franquias alfandegárias americanas concedidas à China. Além disso, prometeu que os EUA não condicionariam mais as relações comerciais sino-americanas aos progressos realizados pelo governo de Pequim no campo dos direitos humanos. No mesmo dia, a indústria de aviões Boeing, concorrendo contra o consórcio europeu Airbus, anunciava a conclusão iminente de um contrato de US$ 5 bilhões com a China.
Sabe-se que as trocas entre os Estados Unidos e a China dão emprego a 200 mil americanos. Entretanto, os dirigentes chineses continuam executando "marginais" com um tiro na nuca, não prometem nenhuma "transição para a democracia" e, mais ainda, põem banca de truculentos. Um deles, um desses patifes que -vem ditadura, vai ditadura- sempre ficam por cima da carne seca não trepidou em declarar recentemente ao semanário "Newsweek" a respeito dos supliciados pelo regime: "Quando as famílias não vêm procurar os corpos, usamos as cinzas deles como adubo".
Além da desbragada guerra comercial que a caracteriza, a crise atual também se distingue daquela dos anos 1920 num segundo ponto essencial. Malgrado o fato de que os países avançados não dispusessem na época de mecanismos adequados de proteção social, o ritmo de contratações na indústria retomou logo, em meados dos anos 1930, derrubando os índices de desempregados para perto dos níveis anteriores a 1929.
Ao inverso, hoje em dia o desemprego estrutural e de longa duração veio para ficar. Nos grandes países industriais, o desemprego não recuou mais para os níveis registrados antes de 1974 e a tendência destes três últimos anos desenha um novo movimento de alta. Centenas de milhares de postos de trabalho nas indústrias foram definitivamente destruídos. Segundo os especialistas, a chegada dos novos computadores de comando vocal vai ainda aumentar o subemprego e o desemprego no setor de serviços.
Jovens sem acesso ao mercado de trabalho, adultos ameaçados de aposentadoria antecipada ou de desemprego. Nos anos 1940, muita gente acreditava que os Planos Quinquenais da União Soviética romperiam o círculo fatal da estagnação em certas partes do mundo, enquanto as políticas keynesianas de investimentos e gastos públicos fariam outro tanto no Ocidente. Agora não há mais nada disso. Apesar da arrogância dos economistas oficiais, principalmente em países crédulos como o nosso, espalhou-se a crença de que as políticas econômicas não dão mais conta do recado, não conseguem analisar a extensão da crise e propor soluções para resolvê-la.
Pela primeira vez neste século, vastos setores das classes médias ocidentais não conseguirão efetivar a proeza social -cimento da democracia e do capitalismo- realizada pelas gerações precedentes: garantir a seus filhos um nível de vida igual ou superior ao que seus pais haviam desfrutado. Ensino universitário, contas de poupança nos bancos, investimentos em ações e imóveis não asseguram a transmissão do patrimônio familiar dos pais para os filhos.
Esse quadro de inseguranças e de incertezas que já dura há duas décadas contribui para transformar o integrismo, o racismo, a intolerância política num formidável desafio ao sistema democrático neste nosso fim de século.
LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO, historiador, é pesquisador do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e professor do Instituto de Economia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

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