quinta-feira, 2 de junho de 2011

A febre climática

As conferências do clima têm gerado mais expectativas do que avanços. Embora tenha tomado decisões importantes, a COP-16, no México, não conseguiu limitar a emissão dos gases do efeito estufa que estão esquentando a temperatura do planeta. Diplomatas, cientistas e economistas estão descobrindo que o desafio de promover o desenvolvimento econômico sem gerar poluição é mais difícil do que parece

Por Ricardo Arnt


Ronaldo Schemidt/AFP

Mensagem na praia de Cancún: "Esperança?"

Depois de uma semana de negociações ansiosas, a 16a Conferência das Partes da Convenção sobre Mudanças Climáticas da ONU (COP-16), em Cancún, no México, decidiu atualizar as metas de redução de emissão dos gases de efeito estufa estabelecidas pelo Protocolo de Kyoto em 1997, que vence em 2012. Os delegados de 194 países criaram um Fundo Verde do Clima para financiar ações de adaptação às mudanças climáticas nos países pobres e um mecanismo para os países detentores de florestas obterem compensação financeira pela sua conservação, a Redução de Emissões por Desmatamento de Degradação (REDD). Entretanto, não conseguiram definir metas para limitar o aumento crescente da emissão de gases de efeito estufa na atmosfera. Para os especialistas o clima do planeta está com febre alta.

Talvez o excesso de publicidade contribua para a decepção com os resultados parciais das COPs. Em 2009, o fiasco da COP-15, em Copenhague, na Dinamarca, gerou frustração e desânimo. Ocorre que, em 1997, quando os compromissos do Protocolo de Kyoto foram acertados, a questão climática não era a arena de tantas expectativas, movimentos e programas de salvação do planeta. O acordo então assinado por 84 países adotou o princípio da "responsabilidade compartilhada, mas diferenciada", e determinou que 38 deles - as nações historicamente industrializadas mais cedo e que mais poluíram, como Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido e Rússia - assumissem a meta de reduzir 5,2% das suas emissões de gases de efeito estufa (GEE) até 2012. Os outros 46 países, entre os quais Brasil, Índia e China, foram liberados de metas.

Todos os signatários, entretanto, se comprometeram a reformar os setores de energia e de transporte dependentes de combustíveis fósseis, a promover as energias renováveis, a proteger as florestas que absorvem gás carbônico do ar e avançar na "descarbonização" das suas economias. Mas nem todos que assinaram o Protocolo o referendaram posteriormente. Os Estados Unidos, por exemplo, maior poluidor histórico mundial, ficaram de fora. Atualmente, Kyoto congrega 140 nações, mas o contexto que o inspirou mudou: os países emergentes estão em crescimento acelerado, emitindo muito GEEs, e a recessão econômica nos países industrializados travou os investimentos para a descarbonização. Essas são as verdadeiras razões da timidez do avanço do "espírito de Kyoto".

Na cerimônia de encerramento da COP-16, o presidente do México, Felipe Calderón, disse que a conferência rompeu a inércia e mudou o "sentimento de incapacidade coletiva" diante da crise climática.

Suando a camisa
Apesar de eventuais erros cometidos e das tentativas de desqualificação promovidas pelos setores contrariados pela agenda climática, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) - o órgão da ONU encarregado de estudar e fornecer dados sobre o assunto, formado por 2.500 cientistas - consolidou um consenso científico sobre o aquecimento global. Simultaneamente, a opinião pública vem se mostrando cada vez mais sensível a eventos climáticos perturbadores, como enchentes devastadoras no Paquistão e calores de 38ºC em Moscou.

Para o IPCC, o aquecimento do planeta é "inequívoco". No século 20, o mundo esquentou 0,7ºC em decorrência da atividade humana, afirma. A cultura contemporânea já vem antecipando, há anos, um futuro mais quente, como indicam filmes como Blade Runner. Diante do esquentamento, deve-se lembrar que desde o início dos tempos as criaturas se adaptaram às mudanças no ambiente e a evolução não foi interrompida. Certamente agora não será diferente. Mas os riscos em jogo são inéditos.

O último relatório do IPCC afirma que a temperatura está aumentando mais no Hemisfério Norte, onde há mais massa de terra e menos água profunda e fria, como nos oceanos do Hemisfério Sul. De 1970 a 2004, as emissões de GEEs aumentaram 70%. Atualmente estima-se que a atmosfera contenha 386 partes por milhão (ppm) de gás carbônico (CO2), contra 286 ppm antes de a Revolução Industrial decolar, em 1750 - um aumento de 40%.

A matemática climática registra que em 2008 o mundo emitiu 9,4 bilhões de toneladas de carbono, geradas sobretudo pelo transporte, pelo desmatamento, pela indústria e pela agricultura. Desse total, 5 bilhões foram naturalmente absorvidas pelos oceanos e florestas, e 4,4 bilhões de toneladas foram bombeadas para a atmosfera. Este é o total aproximado de CO2 que vem sendo adicionado, a cada ano, ao manto de gases que encobre a Terra e esquenta a temperatura.

Se o desenvolvimento econômico continuar enviando carbono para a atmosfera, o aquecimento aumentará. "Se ficarmos no cenário business as usual, será mais do que viável, neste século, a elevação da temperatura da Terra de 1,1 a 6,4 graus centígrados", diz o IPCC. A COP-14 e a COP-15 tentaram, em vão, limitar a elevação da temperatura em 2ºC até 2030. Além desse limiar, aumentam as chances de eventos extremos, como tempestades, furacões, inundações, escassez de água, secas e elevação do nível do mar. Mas os especialistas consideram que a quantidade de carbono já acumulada na atmosfera gerará um esquentamento maior. "Um aumento de apenas 2ºC é otimismo fantasioso", diz o cientista-chefe do Departamento de Ambiente, Comida e Assuntos Rurais da Grã-Bretanha, Robert Watson.

O efeito estufa segundo a Nasa
Nasa

Mapas do Instituto Goddard de Estudos Espaciais, da Agência Espacial Norte-Americana (Nasa), divulgados em dezembro, mostram a mudança de temperatura entre as décadas de 1970-1979 e 2000-2009. As imagens não registram temperaturas absolutas, mas o quanto as regiões se tornaram mais quentes ou frias na comparação com os padrões regionais registrados no período 1951-1980.