segunda-feira, 13 de junho de 2022

ÁREAS ÚMIDAS







Você Sabia?

Importantes para o equilíbrio ecológico da Terra, as áreas úmidas são zonas de fronteira entre ambientes aquáticos e terrestres.

Ao todo, são classificados 42 diferentes tipos de áreas úmidas.

As áreas úmidas sofrem com vários problemas: drenagem, poluição, mineração, grandes obras de infraestrutura, exploração indevida de recursos naturais e desmatamento.



O que são áreas úmidas?

Áreas úmidas são zonas de fronteira entre ambientes aquáticos e terrestres, que possuem o solo encoberto por água periodicamente ou durante todo o ano, incluindo áreas de água doce ou marítima com menos de seis metros de profundidade.

Charcos, pântanos, várzeas, mangues, turfas, igapós e buritizais não são tão populares como as florestas tropicais, mas são ecossistemas tão importantes quanto para a vida em nosso planeta. Ao todo, são classificados 42 diferentes tipos de áreas úmidas.

A definição desse conceito surgiu na Convenção de Ramsar, tratado intergovernamental celebrado no Irã, em 1971, que marcou o início das ações nacionais e internacionais para a conservação e o uso sustentável das zonas úmidas e de seus recursos naturais. Atualmente, 150 países são signatários do tratado, incluindo o Brasil.

A Convenção também classificou as áreas úmidas de importância mundial, os chamados Sítios Ramsar. Existem 1.556 Sítios Ramsar reconhecidos mundialmente por suas características, biodiversidade e importância estratégica para as populações locais.

O Brasil possui a maior área alagável continental do mundo, o Pantanal.

Além do Parque Nacional do Pantanal Mato-grossense (MT), o país possui outras 23 áreas classificadas como Sítios Ramsar, como a Estação Ecológica Mamirauá (AM), Ilha do Bananal (TO), Reentrâncias Maranhenses (MA), Área de Proteção Ambiental da Baixada Maranhense (MA), Parque Estadual Marinho do Parcel de Manoel Luz (MA), Lagoa do Peixe (RS) e a Reserva Particular do Patrimônio Natural Sesc Pantanal (MT).


Qual a importância das áreas úmidas para o planeta?

Segundo o Relatório Ramsar 2018, as áreas úmidas oferecem lar para 40% das espécies de todo o mundo e fornecem água e alimento para mais de 1 bilhão de pessoas. Além disso, chegam a absorver e estocar 50 vezes mais carbono da atmosfera do que as florestas tropicais.

No mundo todo, as áreas úmidas somam aproximadamente 13,6 milhões de quilômetros quadrados. Ocupam quase 20% da América do Sul e quase o mesmo tanto do território brasileiro. Na Bacia Amazônica, são mais de 30% do território, totalizando mais de 2 milhões de quilômetros quadrados.

As áreas úmidas são importantes para o equilíbrio ecológico da Terra com papel fundamental nos ciclos de água, de nutrientes, na recarga dos lençóis freáticos e na manutenção da biodiversidade.

Nesses locais, geralmente há flora e fauna adaptadas às condições hídricas que resulta numa alta taxa de espécies endêmicas -ou seja, espécies que só existem ali. Essas formas de vida têm adaptações específicas, que lhes permitem sobreviver e coexistir nestes ambientes.

Como parte integrante desta biodiversidade, o ser humano também se beneficia da existência das áreas úmidas. A humanidade sempre procurou essas áreas para morar porque fornecem muitos recursos naturais, que podem ser considerados serviços ecossistêmicos ou ambientais.

Em biomas como Amazônia e Pantanal, tais serviços podem ser alimento para comunidades locais, como peixes e a caça de subsistência, mel e frutos nativos ou de manejo florestal como a madeira.

No caso das várzeas, que possuem solo rico em nutrientes, atividades como pecuária e agricultura normalmente se destacam.

Cursos fluviais servem como vias de acesso e mobilidade, além de formarem cenários paisagísticos que proporcionam experiências singulares para ecoturistas.


Que tipos de ameaças atingem as áreas úmidas?

As áreas úmidas sofrem com vários problemas. Um deles é a drenagem, pois há quem drene essas áreas para deixá-las mais secas e aproveitá-las para pecuária e agricultura.

Outras questões são: a poluição das águas pelos esgotos e resíduos domésticos; a mineração, que joga dejetos nesses espaços; a construção de hidrelétricas, que muda o regime hidrológico das áreas úmidas, causando mudanças nos ciclos de secas e cheias, acarretando grandes impactos nesses ambientes; a construção de hidrovias e diques; a exploração indevida de recursos naturais como peixes e madeiras; o desmatamento nas cabeceiras que também resultam na degradação desses ambientes.


De que maneira a população pode ajudar a conservar as áreas úmidas?

Ter cuidado com os resíduos e com o lixo é fundamental.

Além disso, é preciso combater o desmatamento, pois as áreas úmidas são muito sensíveis. Hoje parte delas são denominadas APP (Área de Preservação Permanente), como descrito no Código Florestal. Evitar o desmatamento das margens de rios ajuda a protegê-las e a manter a dinâmica saudável dos ambientes.
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GRILAGEM

 


Você Sabia?

Grilagem é a invasão de terras públicas para apropriação particular, por meio de desmatamento
e violência, com ou sem fraude documental.

Por ser um negócio altamente lucrativo, tem íntima relação com outros tipos de crime,
como garimpo e narcotráfico.

O termo "grilagem" vem da descrição de uma prática antiga, que consiste em envelhecer documentos forjados para conseguir a posse de determinada área de terra.



O que é grilagem?

"Grilagem" é a prática criminosa que envolve invadir, ocupar, lotear e obter ilicitamente a propriedade de terras públicas sem autorização do órgão competente e em desacordo com a legislação. Colocado de forma simples: é a invasão de terras públicas para apropriação particular, por meio de desmatamento e violência, com ou sem fraude documental.

No Brasil, o roubo de terras públicas ocorre principalmente na Amazônia, onde há uma grande área de terras que pertencem ao Governo Federal ou dos estados e que ainda não tiveram seu uso definido (como, por exemplo, a proteção ambiental ou a produção de madeira por meio de manejo sustentável).

Por ser um negócio altamente lucrativo, tem íntima relação com outros tipos de crime, como garimpo e narcotráfico, sendo quase sempre praticado por grupos organizados e bem capitalizados, que não raramente usam pequenos produtores como "laranjas", ou seja, como aqueles que aparecem como os invasores, como se estivessem reivindicando a terra para si, quando na verdade são apenas pagos para estar na linha de frente. Entre as principais consequências, estão o aumento do desmatamento, das queimadas, da concentração fundiária e da violência no campo.

O termo "grilagem" vem da descrição de uma prática antiga, que consiste em envelhecer documentos forjados para conseguir a posse de determinada área de terra. Os papéis falsificados eram colocados em uma caixa com grilos para que, com o passar do tempo, a ação dos insetos desse aos documentos uma aparência envelhecida e "autêntica".

Hoje, porém, as tecnologias mudaram e existe até mesmo a "grilagem digital", que se baseia na falsificação de cadastros e documentos virtuais. Mas o princípio é o mesmo: a ocupação ilegal de terras públicas continua fundamentada não só na violência, mas também no esforço para fazer documentos falsos parecerem verdadeiros.

Com um registro em cartório de títulos de imóveis, o grileiro repete o mesmo procedimento nos órgãos fundiários do governo: na esfera federal, junto ao Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), aos órgãos de controle estaduais e diante da Receita Federal. Através do cruzamento de registros, o grileiro tenta dar uma aparência legal à fraude.

Nesse contexto, o CAR (Cadastro Ambiental Rural) se torna parte do processo de grilagem. Como o CAR é um instrumento autodeclaratório, os grileiros desenham no sistema supostos imóveis rurais nas florestas públicas não destinadas -que são o principal alvo da grilagem no Brasil- para simular um falso direito sobre a terra.


Como funciona?

Na dinâmica da grilagem, em geral, o criminoso invade uma área pública não-destinada -ou até mesmo uma área protegida, como TIs (Terras Indígenas) ou UCs (Unidades de Conservação)- e a registra ilegalmente em seu nome ou no nome de laranjas. Os grileiros então expulsam quem vive naquela área -povos indígenas, quilombolas e populações tradicionais- muitas vezes de forma violenta, envolvendo a formação de milícias.

Em seguida, o grileiro desmata a área e coloca nelas algumas cabeças de gado a fim de se passar por um pecuarista. A partir daí, o criminoso procura regularizar a área, ou a vende para alguém, antes de recomeçar o processo invadindo outra área. Nesse tipo de processo, a Amazônia -e também outros biomas- tem perdido vastas extensões de florestas.

O principal estímulo à grilagem em florestas públicas na Amazônia tem sido a especulação imobiliária. O grileiro "investe" na ocupação ilegal da terra, sem ter que pagar por sua aquisição -roubo- e depois lucra com sua venda a produtores rurais, por valores muitas vezes superiores aos que foram investidos, mas ainda assim mais baixos do que terras regularizadas em outras regiões do país. Em alguns casos, há um ganho imediato com a venda ilegal da madeira de valor comercial ou com a venda de gado, mas o principal objetivo do negócio é a venda da terra.

Em geral, a grilagem é promovida por grandes empresários, fazendeiros, políticos e especuladores imobiliários que investem muitos recursos no processo de invasão, ocupação, desmatamento, corrupção de agentes públicos e fraude da documentação, além da contratação de jagunços armados e pistoleiros que ameaçam indígenas, ribeirinhos, posseiros e ambientalistas.

A apropriação de terras públicas por pequenos produtores é mais rara e ocorre em escala muito menor. Porém, algumas vezes os grandes grileiros formam milícias no meio rural, que invadem terras -se passando por membros de organizações de trabalhadores sem-terra-, e a repartem entre famílias pobres dispostas a pagar uma mensalidade pelo uso daquela área, tornando o cenário mais complexo.


Quais são os impactos ambientais?

A grilagem de terras é um dos principais vetores do desmatamento na Amazônia, favorece a concentração fundiária e agrava a violência no campo em todo o Brasil. Não há dados oficiais específicos sobre a contribuição direta da grilagem para o desmatamento e as queimadas, mas diversos estudos dão pistas sobre a magnitude da devastação causada pelo roubo de terras públicas.

Na Amazônia, as florestas públicas não destinadas somam 51 milhões de hectares -área do tamanho da Espanha-, segundo o Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia). De acordo com o instituto, até o fim de 2020, mais de 14 milhões de hectares dessas florestas (28% do total) estavam registrados ilegalmente como propriedade privada no CAR. O Ipam estima que 66% do desmatamento ocorrido até hoje na Amazônia está dentro do perímetro declarado ilegalmente como particular.

Nos primeiros três anos do governo Bolsonaro (de 2019 a 2022), a grilagem disparou. De acordo com o Ipam, o desmatamento anual de 2019 a 2021 foi 56,6% maior que entre 2016 e 2018 na Amazônia, sendo que as terras públicas concentraram 51% da derrubada. No mesmo período, o desmatamento em áreas protegidas subiu 80%, sendo que as TIs tiveram maior aumento proporcional (153%) e as UCs, alta de 63,7%.


Como combater a grilagem?

A grilagem ocorre porque existem grandes lacunas e deficiências no sistema de administração de terras, como o grande volume de terras públicas não destinadas, a precariedade dos registros de imóveis e atrasos na sua digitalização, a falta de transparência nos cadastros e de integração dos sistemas cadastrais.

Para combatê-la, é preciso destinar recursos humanos e financeiros para que órgãos fundiários, como o Incra, consigam fazer a fiscalização. Outra necessidade é qualificar o crime de invasão de terra pública para que haja punição efetiva aos criminosos. Além disso, é preciso criar regras modernas e eficazes para que a destinação de terras públicas seja feita de forma planejada, respeitando a vocação da área e fugindo do sistema de legalização do fato consumado.
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Camada de Ozônio



Você sabia?

A camada de ozônio protege animais, plantas e seres humanos dos raios ultravioletas emitidos pelo Sol.

A primeira vez que detectaram a existência de um buraco na camada de ozônio foi em 1977,
na Antártida.

A vida marinha também é seriamente afetada pela radiação dos raios ultravioletas.





O que é a camada de ozônio?

Em volta da Terra, há uma frágil camada de um gás chamado ozônio (O3), que protege animais, plantas e seres humanos dos raios ultravioletas emitidos pelo Sol.

O ozônio tem comportamentos distintos na atmosfera a depender da altitude. Na superfície terrestre, o ozônio contribui para agravar a poluição do ar das cidades e a chuva ácida. Mas, nas alturas da estratosfera (entre 25 e 30 quilômetros acima da superfície), é um filtro a favor da vida, já que a exposição direta aos raios ultravioletas é nociva aos seres vivos.

Na atmosfera, a presença da radiação ultravioleta desencadeia um processo natural que leva à contínua formação e fragmentação do ozônio, como na imagem abaixo:


O que está acontecendo com a camada de ozônio?

Há evidências científicas de que substâncias fabricadas pelo homem estão destruindo a camada de ozônio.

Em 1977, cientistas britânicos detectaram pela primeira vez a existência de um buraco na camada de ozônio sobre a Antártida. Desde então, acumulam-se registros de que a camada está se tornando mais fina em várias partes do mundo, especialmente nas regiões próximas do Polo Sul e, recentemente, do Polo Norte.

Diversas substâncias químicas acabam destruindo o ozônio quando reagem com ele. Essas substâncias contribuem também para o aquecimento do planeta.

A lista dos produtos com efeitos destrutivos sobre a camada de ozônio inclui clorofluorcarbono (CFC), hidroclorofluorcarbono (HCFC), tetracloreto de carbono (CTC), brometo de metila e halon.


Como essas substâncias destroem a camada de ozônio?

Depois de liberados no ar, os gases permanecem na atmosfera por anos e, ao chegarem na estratosfera, são atingidos pela radiação ultravioleta, se desintegram e liberam radicais livres que destroem o ozônio. Consequentemente, vamos perdendo a proteção contra os raios ultravioletas.

Os CFCs são as principais substâncias que destroem a camada de ozônio. Foram amplamente usados em condicionadores de ar, geladeiras, aerossóis e em inaladores usados por pacientes asmáticos. Quando a molécula do CFC se decompõe, ela libera seus átomos de cloro. Um átomo de cloro pode destruir cem mil moléculas de ozônio.

A redução acentuada na concentração de ozônio causa o fenômeno conhecido como "buraco na camada de ozônio".


O que é o buraco na camada de ozônio?

O chamado "buraco na camada de ozônio" é o afinamento da camada de ozônio que ocorre em diversos lugares da estratosfera, a segunda camada da atmosfera da Terra.

Quando descoberto, o fenômeno causou grande preocupação já que acarreta um futuro com aumento de doenças como câncer de pele e catarata, plantas e colheitas destruídas e ecossistemas danificados.

Por uma série de fatores climáticos a camada sobre a Antártida é especialmente suscetível à destruição do ozônio. Toda primavera, quando o sol nasce, reações com substância produzidas pelo homem destroem o ozônio, afinando a camada na região e causando o "buraco na camada de ozônio".

Segundo cientistas das agências governamentais americanas Nasa (National Aeronautics and Space Administration) e da Noaa (The National Oceanic and Atmospheric Administration), em 7 de outubro 2021 o buraco de ozônio antártico atingiu sua área máxima, ocupando o 13º lugar desde 1979.


Quais os problemas causados pelos raios ultravioletas?

A exposição à radiação ultravioleta causa riscos de desenvolvimento de envelhecimento precoce, câncer de pele, danos à visão e danos ao sistema imunológico, reduzindo a resistência humana a doenças.

Os seres humanos não são os únicos atingidos pelo aumento da radiação dos raios ultravioletas. A vida marinha também é seriamente afetada: o plâncton (plantas e animais microscópicos) que vive na superfície do mar e está na base da cadeia alimentar marinha, além de peixes nos estágios iniciais, camarões, entre outros.

Por que a Amazônia é importante?

© WWF-Brasil/Adriano Gambarini


O que liga a floresta Amazônica, o aquecimento mundial e você?
Há muito tempo a floresta Amazônica é reconhecida como um repositório de serviços ecológicos, não só para os povos indígenas e as comunidades locais, mas também para o restante do mundo. Além disso, de todas as florestas tropicais do mundo, a Amazônia é a única que ainda está conservada, em termos de tamanho e diversidade.
No entanto, à medida que as florestas são queimadas ou retiradas e o processo de aquecimento global é intensificado, o desmatamento da Amazônia gradualmente desmonta os frágeis processos ecológicos que levaram anos para serem construídos e refinados.

Ironicamente, enquanto as florestas tropicais úmidas diminuem continuamente, o trabalho científico realizado nas últimas duas décadas jogou um pouco de luz sobre os vínculos essenciais que existem entre a saúde das florestas tropicais e o resto do mundo.


Filtragem e reprocessamento da produção mundial de gás carbônico

As árvores desempenham um papel-chave na redução dos níveis de poluição. Para entendermos melhor como isso funciona, vamos tomar como exemplo o gás carbônico (CO2), cujas emissões provêm tanto de fontes naturais como da atividade humana. Nos últimos 150 anos, os seres humanos têm lançado quantidades enormes de CO2 no ar por meio da queima de combustíveis fósseis, carvão, petróleo e gás natural – e esta é uma das principais causas das mudanças climáticas no planeta.

Entra o gás carbônico, sai o oxigênio

Em condições naturais, as plantas retiram o CO2 da atmosfera e o absorvem para fazer a fotossíntese, um processo de produção de energia. Com a fotossíntese, as plantas obtêm:

Oxigênio, que é liberado novamente no ar, e
Carbono, que é armazenado para permitir o crescimento das plantas.Assim, sem as florestas tropicais úmidas e todas as suas plantas fazendo fotossíntese durante o todo o dia, o efeito estufa provavelmente seria mais pronunciado, e as mudanças climáticas podem vir a ser ainda mais graves.


Floresta Amazônica e o gás carbônico

O que as florestas retiram do ar elas podem devolver. Quando as florestas são queimadas, a matéria de carbono da árvore é liberada no ar, na forma de CO2, um gás que polui o ar e que já está presente numa quantidade excessiva na atmosfera.

Onde antes havia floresta tropical úmida e savanas, agora surgem pastagens para a criação de gado. Os pastos estão cheios de gado e também de cupins, e as atividades metabólicas desses dois animais também liberam CO2, embora sua contribuição para a poluição atmosférica ainda gere muita polêmica.

As culturas agrícolas que substituem as florestas absorvem apenas uma pequena fração do CO2 consumido pela floresta tropical úmida. Então, sem florestas, o CO2 deixa de ser transformado pela fotossíntese. Juntamente com a poluição industrial, o desmatamento descontrolado na América do Sul e em outros lugares aumentou significativamente a quantidade de CO2 na atmosfera.


A floresta amazônica pode curar você
Há uma ligação entre os remédios guardados nos armários de sua casa e a vida silvestre da Amazônia: plantas e animais servem como base para a fabricação de medicamentos.

Durante milênios, os seres humanos utilizaram insetos, plantas e outros organismos da região para várias finalidades, entre elas a agricultura, vestimentas e, claro, a cura para doenças.

Povos indígenas e outros grupos que vivem na floresta amazônica aperfeiçoaram o uso de compostos químicos encontrados em plantas e animais. O conhecimento sobre o uso dessas plantas geralmente fica nas mãos de um curandeiro, que por sua vez repassa a tradição para um aprendiz. Esse processo se mantém ao longo de séculos e compõe uma parte integral da identidade desses povos.

No entanto, com o rápido desaparecimento das florestas úmidas tropicais, a continuidade desse conhecimento para o benefício das futuras gerações encontra-se ameaçada.


O potencial inexplorado das plantas amazônicas

Os cientistas acreditam que menos de 0,5% das espécies da flora foram detalhadamente estudadas quanto ao seu potencial medicinal. Ao mesmo tempo em que o bioma Amazônia está encolhendo lentamente em tamanho, a riqueza da vida silvestre de suas florestas também se reduz, bem como uso potencial das plantas e animais que ainda não foram descobertos.
© WWF-Brasil/Adriano Gambarini
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Referências bibliográfica

1Laurance, W.F. 1999. Gaia's lungs: Are rainforests inhaling Earth's excess carbon dioxide? Natural History (abril), p. 96.
2Post et al, 1990, in Kricher 1997
3Vourlitis, G.L. et al, 2002. Seasonal variations in the evapotranspiration of a transitional tropical forest of Mato Grosso, Brazil. Water Resources Research, Vol. 38
4 Phillips et al, 1995, in Kricher 1997
5 Cox and Balick, 1994 in Kricher 1997
https://www.wwf.org.br/

domingo, 12 de junho de 2022

JOGOS DE ESTRATÉGIA DO MUNDO REAL E GEOPOLÍTICA

O conflito no leste europeu pode ser observado a partir de múltiplos pontos de vista, para cada um deles, a geografia pode fornecer elementos importantes de análise

CRÉDITO: FOTO ADOBE STOCK




A invasão da Ucrânia pela Rússia fez com que o mundo olhasse para as relações entre Estados-nação. Neste contexto, aprendemos mais sobre separatismos, identidade e a importância deles para a formação territorial de um país. Ao fundo, todos os noticiários passaram a falar da geopolítica, ou seja, da relação entre Estados soberanos.

O título da obra do geógrafo francês Yves Lacoste, A geografia, isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra, publicada em 1988, introduz a ideia de que a geografia, principalmente a geopolítica, é fundamental para entendermos conflitos armados de diferentes ordens.

Cabe então diferenciar a geografia política da geopolítica. De forma geral, podemos identificar a primeira como o campo de estudo das relações entre a política e o território, enquanto a geopolítica está preocupada com a relação entre Estados maiores, como definiu o cientista político sueco Johan Rudolf Kjellén (1864-1922).

Na realidade, a institucionalização da geografia política acompanhou a própria formação dos Estados e fronteiras como conhecemos atualmente. Para o geógrafo brasileiro Wanderley Messias da Costa (1950), este processo decorreu do contexto europeu na virada do século 19 para o século 20, com a emergência de grandes potências imperialistas. Assim, o campo passava a estudar a relação entre espaço e poder, através dos territórios.

Logo, para compreendermos a importância da geopolítica, remontamos ao expansionismo característico do imperialismo, que levou à partilha da África e à reorganização do poder entre nações, culminando no período de grandes guerras. O alemão Friedrich Ratzel (1844-1904), considerado o pai da geografia política e da geopolítica, foi um dos pensadores de maior influência no processo expansionista da Alemanha. Por isso, a geopolítica, e a própria geografia política, ficaram marcadas pelos horrores dos conflitos e, de certa forma, perderam o papel central nos debates geográficos.

Se por um lado o pós-Segunda Guerra Mundial marcou a geopolítica enquanto campo de estudos, a intensificação da globalização e dos aparatos técnicos jogou, nos últimos anos, o Estado-nação para o centro dos conflitos mundiais. Assim, contrariando a tese do cientista político estadunidense Francis Fukuyama sobre o fim da história e do próprio Estado, novos conflitos identitários, econômicos e até sanitários reavivam os debates sobre fronteiras, nações e nacionalismos.

Neste caso, é possível observar como o pertencimento dos diferentes grupos em relação ao território permeiam os interesses expansionistas de grandes potências até os dias atuais. Por isso, ao olhar o conflito entre Rússia e Ucrânia, podemos observar a importância da geopolítica enquanto campo de estudo centrado no Estado-nação.

Ao fundo, a relação entre o povo soberano e seu território, assim como a autonomia do Estado ucraniano fazem parte da lógica espacial que rodeia o conflito. Da mesma forma, a reação de outras potências e dos países vizinhos mostram como, no mundo globalizado, as relações geopolíticas se expandem para além dos conflitos bélicos, envolvendo relações econômicas e estratégicas, como no caso dos recursos naturais.

Os conflitos e as mudanças nas relações entre Estados que observamos com perplexidade reafirmam que a Geopolítica, focada no Estado-nação, ainda é central para compreendermos nosso mundo.



Tatiana Lemos dos S. Borges (convidada)
Departamento de Geografia
Instituto de Geociências
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Revista Ciência Hoje

quarta-feira, 8 de junho de 2022

PARA PREVER O FUTURO



Para compreender o que acontecerá com a costa brasileira se – ou quando – as previsões de aquecimento das águas e aumento da poluição se concretizarem, não é preciso usar uma bola de cristal. No sul da Bahia, um sistema experimental denominado mesocosmo marinho tem possibilitado a simulação de condições ambientais diversas para avaliar como a vida marinha se transformará a partir de mudanças relacionadas principalmente ao aquecimento global. Caso a temperatura dos oceanos aumente apenas dois graus Celsius, as consequências serão catastróficas para os recifes de corais.

Um dos principais objetivos do mesocosmo é servir como plataforma de testes das previsões do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), que reúne cientistas do mundo todo com contribuições em pesquisas sobre mudanças climáticas. “O sistema mesocosmo marinho foi concebido para ficar a céu aberto utilizando diversas variáveis para conseguirmos simular as previsões do IPCC para as próximas décadas. Dessa forma, houve um avanço nas pesquisas científicas realizadas sobre impactos futuros nos recifes de coral do Brasil, com espécies que somente ocorrem aqui, por exemplo”, afirma o biólogo marinho Gustavo Duarte, coordenador de políticas públicas do Projeto Coral Vivo, responsável pelo estudo.
As bactérias fixadoras de nitrogênio tiveram sua população aumentada em 27 vezes, demonstrando um claro desequilíbrio

Em um dos estudos conduzidos no mesocosmo, cientistas investigaram a relação simbiótica entre algas marinhas e alguns tipos de micro-organismos. Sob ação de uma temperatura 1°C mais elevada que o natural no oceano, não houve alterações significativas. Já com uma temperatura 2°C mais elevada, os impactos se mostraram maiores. As bactérias fixadoras de nitrogênio tiveram sua população aumentada em 27 vezes, demonstrando um claro desequilíbrio. “Também foram feitas simulações do impacto da temperatura em três cenários de aquecimento global na fotossíntese de corais, que apresentaram o mesmo limiar térmico, 2˚C, desencadeando a síndrome do branqueamento”, acrescenta o biólogo.


Baseado nos estudos até o momento, Duarte faz um alerta: “Nossos resultados são preocupantes, pois o Acordo de Copenhague prevê um limite de aumento de 2˚C na temperatura do planeta, e muitos países estão tentando aumentar este limite”, lembra. “Nossas simulações reforçam a tese de que mesmo este limite de aumento da temperatura poderá ser catastrófico para os oceanos, principalmente para os recifes de coral”, avisa o biólogo.Imagem de satélite mostra o mesocosmo marinho em terra e o local de onde a água é captada a 500 metros da costa. (foto: Projeto Coral Vivo)

O mesocosmo marinho está montado em Arraial d’Ajuda, na Bahia, desde 2012, e conta com dois módulos experimentais adaptáveis para uma grande variedade de testes. Ao todo, são quatro cisternas, com capacidade de 5 mil litros, que recebem água diretamente de um ponto no mar a 500 metros da costa. Os experimentos ocorrem em 16 tanques de 130 litros cada e em 48 aquários de dez litros cada, paralelamente. Esses dispositivos são separados em grupos de quatro e recebem as alterações definidas pelos pesquisadores, sendo que um tanque ou aquário do grupo sempre mantém as condições naturais como controle experimental – para depois ser comparado com as demais réplicas que têm as condições da água do mar manipuladas.

“Fazer pesquisa com impactos de temperatura, acidificação e contaminantes químicos, dentre outros estressores diretamente no ambiente natural, é arriscado e caro”, pondera Duarte. “Empregando o mesocosmo marinho, podemos reproduzir o ambiente natural e as variáveis que pretendemos testar do modo mais fiel possível, reduzindo custos e esforços em trabalhos de campo sem grande perda de qualidade dos resultados”, garante.
Complexo de tanques do mesocosmo marinho. (foto: Matheus Deocleciano)

Para a execução dos experimentos relacionados ao aumento da temperatura marinha, o mesocosmo conta com um sistema de aquecimento de alta capacidade especialmente desenvolvido para a iniciativa. O complexo conta ainda com reatores de dissolução de CO2 para testar as consequências da acidificação das águas. “Depois de bombeada do recife de coral, a água é dividida entre as quatro cisternas e não se misturará novamente. Nas cisternas, são instalados os equipamentos necessários a simulações de condições experimentais”, explica Duarte. A iniciativa teve seu funcionamento descrito na edição de outubro da revista Ecology and Evolution.
Quer falar sobre isso com uma criança? Clique aqui para ler o texto que a Ciência Hoje das Crianças preparou sobre este assunto.

Everton Lopes
Instituto Ciência Hoje/ RJ


ERA DO GELO E DA FLORESTA




Talvez seja o cinema: confesso que o famoso filme de animação da Fox teve forte influência sobre a imagem mental que faço da era do gelo, com aquelas enormes áreas esbranquiçadas, poucas espécies zanzando solitárias por aí e uma realidade tão distante quanto possível das florestas tropicais como a Amazônia ou a mata atlântica. Mas um trabalho brasileiro publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) desta semana veio para virar meus devaneios glaciais do avesso. Segundo o artigo, há cerca de 21 mil anos, nossa mata atlântica se expandiu, ocupando uma área maior do que aquela que lhe costumamos atribuir. Os resultados contrariam o que até agora se dava como certo na história das florestas tropicais.

Desde 1969, a teoria mais aceita pela comunidade científica para explicar a enorme biodiversidade das florestas tropicais é a “hipótese dos refúgios florestais”, publicada pelo geólogo alemão Jurgen Haffer na prestigiosa revista Science em julho daquele ano. Segundo o trabalho, as florestas da América do Sul, durante os períodos glaciais, teriam se retraído e fragmentado, criando “refúgios ecológicos” isolados – isto é, cercados de campos abertos e sem comunicação com as outras áreas de floresta – nos quais as espécies haveriam evoluído de forma independente, gerando a enorme diversidade de animais e plantas que vemos hoje.
Desde 1969, a teoria mais aceita pela comunidade científica para explicar a enorme biodiversidade das florestas tropicais é a “hipótese dos refúgios florestais”

Para elaborar sua hipótese, Haffer se baseou em estudos da distribuição geográfica de aves amazônicas, mas a teoria foi logo aceita como verdadeira também para outros grupos de plantas e animais e outras florestas tropicais. Ao tentar replicar o estudo com espécies de pequenos mamíferos da mata atlântica, no entanto, uma equipe da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) surpreendeu-se com o resultado.

“Nosso objetivo era testar se espécies de mamíferos que dependem de floresta, ou seja, que não ocorrem em áreas abertas e, portanto, sofrem com a fragmentação atual da mata atlântica (causada pelo homem) teriam também sofrido reduções populacionais no último período glacial em função da suposta fragmentação (causada pelo clima) apontada pela hipótese dos refúgios”, conta o biólogo Yuri Leite, da Ufes, que coordenou a pesquisa. “Ou seja, a hipótese dos refúgios era o ponto de partida do nosso trabalho, assumida como verdadeira. No entanto, os dados obtidos não mostraram reduções nas populações de mamíferos de floresta durante o período glacial, mas sim expansões”.
Nossa Atlântida particular

Pesquisa científica é assim: por vezes, o resultado obtido é exatamente o oposto do que se esperava – o que, neste caso, tornou as coisas ainda mais interessantes. Instigados pela sugestão de que a mata atlântica teria ocupado, no último período glacial, uma área ainda maior (estamos comparando, vale lembrar, com a área que atribuímos à mata atlântica antes da devastação do bioma pelo homem nos últimos séculos), os cientistas começaram a buscar uma explicação para isso.
Revista Ciência Hoje

Atmosfera Líquida



As primeiras medições sobre o impacto da cidade de Manaus no funcionamento do ecossistema amazônico trouxeram resultados surpreendentes. O experimento, fruto de uma colaboração internacional entre pesquisadores de Brasil, Estados Unidos e outros países constatou que partículas de aerossóis na atmosfera amazônica são constituídas majoritariamente por partículas líquidas, e não sólidas, como esperado. A natureza das partículas auxilia nos processos de formação de gotas de nuvens. Graças à descoberta, será possível fazer previsões mais precisas sobre as chuvas na região. A iniciativa trouxe ainda informações importantes sobre os impactos da urbanização da zona metropolitana de Manaus na atmosfera da floresta amazônica.

Partículas de aerossóis são componentes da atmosfera responsáveis pela formação de nuvens e parte do controle da radiação solar que chega à superfície terrestre. Com base em levantamentos anteriores realizados em florestas boreais, modelos climáticos consideravam que essas partículas eram sólidas na região amazônica. No entanto, o estudo publicado em dezembro na revista Nature Geoscience mostra que o estado físico dos aerossóis na Amazônia é 80% líquido.

Segundo o trabalho, a diferença deve-se a várias razões, entre elas a umidade relativa do ar, bastante elevada na região. Outros fatores que influenciam o estado das partículas são os compostos orgânicos voláteis que as formam. Em florestas boreais, os compostos orgânicos voláteis que formam as partículas são majoritariamente terpenos, enquanto, na Amazônia, as partículas são formadas a partir do isopreno.Estudo comprovou que a poluição resultante do processo de urbanização da Região Metropolitana de Manaus afeta composição atmosférica, com aumento de partículas sólidas.(foto: Ronald Woan/Flickr CC BY 2.0) <br />

A liquidez das partículas interfere diretamente na atmosfera amazônica e é responsável por um funcionamento mais dinâmico se comparado a locais com maior concentração de partículas sólidas, como as florestas boreais da Finlândia. “As reações químicas que acontecem entre uma partícula líquida e a atmosfera são mais eficientes do que em fase sólida. A dissolução dos compostos é mais rápida e, como os componentes são solúveis, são mais eficientes para formar gotas de nuvem”, explica o físico brasileiro Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), que participou do estudo.
Influência da urbanização

O levantamento sobre os aerossóis faz parte do projeto GoAmazon2014/15, voltado à compreensão dos efeitos da urbanização da zona metropolitana de Manaus na atmosfera amazônica. Para avaliar a composição física das partículas, foram realizadas coletas em diferentes pontos do estado do Amazonas: alguns em áreas remotas livres de poluição, entre 50 e 120 quilômetros ao norte de Manaus, outros no município de Manacapuru, área urbana localizada 110 quilômetros a sudoeste da capital. A conclusão foi que a fração de partículas sólidas aumentou quando houve contato com a poluição.
Para avaliar a composição física das partículas, foram realizadas coletas em diferentes pontos do estado do Amazonas. A conclusão foi que a fração de partículas sólidas aumentou quando houve contato com a poluição

Para chegar a este resultado, os especialistas utilizaram um jato de partículas com amostras de aproximadamente 50 a 150 nanômetros (tamanho aproximado de um décimo de um fio de cabelo) e dois detectores regulados de acordo com a umidade relativa do ar na região. Como as partículas líquidas têm maior aderência ao colidir com uma superfície, o estudo comparou as partículas que permaneceram na superfície do primeiro detector e aquelas que ricochetearam e bateram no segundo detector – sendo, portanto, sólidas. “O que medimos foi a razão entre as partículas que ricocheteavam versus as partículas originais [que aderiram ao primeiro detector]. Com isso sabemos qual fração das partículas originais eram efetivamente líquidas”, detalha Artaxo.

A explicação para a diferença de estado físico das partículas aerossóis dentro e fora do ambiente urbano está relacionada aos gases orgânicos envolvidos em sua emissão. “Como as fontes emissoras são distintas, várias propriedades das partículas são alteradas: composição química, tamanho, forma, fase, e, consequentemente, suas propriedades ópticas, isto é, como elas interagem com a radiação solar”, afirma a física Márcia Yamasoe, do Departamento de Ciência Atmosféricas da USP, destacando que a frota veicular movida a diesel é a principal fonte de emissão sólida destas partículas na atmosfera – um dado preocupante, já que o ritmo de urbanização na região amazônica não dá mostras de desaceleração. Se a poluição será grande o suficiente para alterar a formação de nuvens e a dinâmica das as chuvas? Só o tempo dirá.

Iara Pinheiro
Revista Ciência Hoje

HORMÔNIOS VEGETAIS NA AGRICULTURA

O entendimento da ação dos chamados hormônios vegetais (moléculas produzidas pelas plantas) tornou-se uma ferramenta importante para ter uma agricultura mais produtiva e menos danosa ao ambiente. Nas últimas décadas, aumentou a aplicação de reguladores de crescimento na produção agrícola, para melhorar desde a germinação de sementes e o crescimento de plantas até estimular ou retardar a maturação de frutos. O uso racional dos nossos recursos naturais é alternativa indispensável tanto para a produção de alimentos quanto para uma agricultura sustentável.


CRÉDITO: FOTO ADOBE STOCK




Os hormônios vegetais são moléculas produzidas em baixíssimas concentrações nos tecidos das plantas. Em combinação com outros fatores, afetam a expressão gênica (a cópia do DNA de um gene para fazer uma molécula de RNA e produzir proteínas) e definem diversas características da fisiologia do organismo, como germinação de sementes, alongamento do caule, ramificação, floração, frutificação, maturação de frutos, senescência (envelhecimento) de folhas e frutos. Existem várias classes hormonais, e as respostas fisiológicas dependem da relação entre as concentrações das moléculas presentes nos tecidos das plantas.

A síntese, a inativação e o transporte das moléculas hormonais dependem diretamente de fatores ambientais, como luz, água e temperatura, e nutricionais. Assim, em função da variação desses fatores, ocorre alteração na concentração das moléculas hormonais nos tecidos vegetais e, consequentemente, nas respostas fisiológicas de crescimento e desenvolvimento durante o dia e entre as estações do ano. Por exemplo, a floração de algumas espécies coincide com as alterações de fatores ambientais que regulam o balanço hormonal nos tecidos para induzir essa resposta fisiológica específica.

O entendimento da ação dessas moléculas tornou-se importante ferramenta para otimizar a produção vegetal, permitindo a expressão do potencial genético, mesmo quando as plantas são cultivadas em condições que não atendam a suas exigências.

Para induzir respostas estimuladas por moléculas hormonais, existem compostos químicos sintéticos capazes de interferir no crescimento e desenvolvimento das plantas, proporcionando resultados semelhantes aos hormônios vegetais. Esses compostos são denominados de reguladores de crescimento, fitorreguladores, entre outros.


Nas últimas décadas, aumentou o uso de reguladores de crescimento na agricultura, buscando melhorar a germinação de sementes, controlar o crescimento de plantas, induzir, inibir ou retardar a floração, induzir o enraizamento e/ou a brotação, estimular ou retardar a maturação de frutos, prolongar a vida útil de folhas e frutos, obter frutos sem sementes, frutos maiores, e até causar a morte de plantas


Moléculas com ação hormonal

Tradicionalmente, existem cinco grupos de moléculas com ação hormonal: auxina, citocinina, giberelina, ácido abscísico e etileno. No entanto, outros compostos, como poliaminas, ácido jasmônico, brassinosteroides e ácido salicílico, têm sido utilizados para explicar diversos comportamentos das plantas, incluindo a tolerância a estresses bióticos (provocados por seres vivos) e abióticos (causados por fatores ambientais).

Nas últimas décadas, aumentou o uso de reguladores de crescimento na agricultura, buscando melhorar a germinação de sementes, controlar o crescimento de plantas, induzir, inibir ou retardar a floração, induzir o enraizamento e/ou a brotação, estimular ou retardar a maturação de frutos, prolongar a vida útil de folhas e frutos, obter frutos sem sementes, frutos maiores, e até causar a morte de plantas.

Nas sementes que têm dormência fisiológica, em que os níveis hormonais endógenos (internos) limitam a germinação, a aplicação de reguladores de crescimento possibilita superar esse entrave e obter uniformidade e melhores resultados na germinação, assim como na produção de mudas dessas espécies. A aplicação de giberelina, citocininas e etileno favorece a germinação, enquanto a de ácido abscísico (ABA) a inibe.

O crescimento das plantas está associado à divisão e expansão celular, que são controladas pela combinação de moléculas hormonais. De forma geral, as citocininas são responsáveis pela divisão celular, enquanto a auxina e as giberelinas, pela expansão celular. Claro que essas respostas dependem da interação entre moléculas hormonais, fatores ambientais e genéticos da planta. Assim, torna-se possível estimular ou inibir o alongamento do caule das plantas, dando origem a plantas com porte e arquitetura desejada.


Responsáveis pela arquitetura vegetal

As duas principais classes hormonais responsáveis pela arquitetura das plantas são auxina e citocininas. Naturalmente, a produção das citocininas predomina no sistema radicular, enquanto a de auxina ocorre mais nos tecidos jovens da parte aérea da planta. Com isso, quando realizamos uma poda, com o intuito de otimizar a arquitetura, eliminar ramos indesejados e/ou estimular a formação de outros, ocorre alteração dos níveis hormonais endógenos nos tecidos.

Com a poda, retirada de ramos da planta, também se eliminam fontes de produção de auxina e, com isso, os níveis endógenos de citocininas prevalecem em relação aos de auxina, induzindo respostas fisiológicas que dependem de citocininas, como a ramificação. A busca de uma arquitetura desejada em plantas cultivadas em vasos, em cerca viva e até nas práticas adotadas na produção e no cultivo de bonsai deve-se às alterações da relação dos níveis hormonais nos tecidos da planta.

Em relação à floração, as plantas são divididas em três categorias. Algumas florescem no inverno, quando temos dias curtos (menor número de horas de luz no dia), e são denominadas plantas de dias curtos; outras, no verão, quando temos dias longos (maior número de horas de luz no dia) e outras que florescem independentemente do período de luz (fotoperíodo). Em cultivos extensivos, de grandes áreas, predomina a semeadura nas épocas do ano que proporcionam condições favoráveis à planta, da germinação à produção. Já nos cultivos intensivos, em pequenas áreas, é possível controlar fatores ambientais e otimizar o cultivo independentemente da época do ano.



CRÉDITO: FOTO ADOBE STOCK




Reguladores de crescimento

Quando deseja escalonar a produção ao longo do ano, o produtor precisa otimizar as condições ambientais, como o manejo do fotoperíodo na produção de flores, ou pode adotar o uso de reguladores de crescimento para obter as respostas desejadas com relação à floração. O exemplo mais típico é o cultivo de crisântemo, em que os produtores controlam a luminosidade nas plantas para induzir ou inibir a floração e obter flores em datas específicas, como no dia das mães, em finados e outras datas comemorativas. O uso de reguladores de crescimento permite substituir gastos com mão de obra, energia elétrica, e obter as mesmas respostas nas plantas.


Algumas práticas são utilizadas há muitos anos, sem serem associadas diretamente com as alterações hormonais nas plantas, para induzir a floração de algumas espécies



A aplicação de giberelina, citocinina, etileno e auxina pode induzir ou inibir a floração em plantas, dependendo da resposta da espécie ao fotoperíodo. Geralmente, dias longos incrementam o nível endógeno de giberelina nos tecidos vegetais. Assim, plantas classificadas como de dias longos precisam de maiores níveis endógenos de giberelina para florescerem. Mesmo em dias curtos, a aplicação de giberelina pode induzir a floração, evidenciando a substituição de condições climáticas por uma estratégia de manejo. A giberelina ou produtos que impedem sua ação podem ser usados em frutíferas de clima temperado, flores de corte e vaso e cana-de-açúcar na região central do país.

Algumas práticas são utilizadas há muitos anos, sem serem associadas diretamente com as alterações hormonais nas plantas, para induzir a floração de algumas espécies. No campo, é comum ouvir a “sova do abacateiro, da mangueira, da jabuticabeira”, entre outras plantas, para estimular a frutificação.

O termo ‘sova’, usado para causar lesões (cortes ou perfurações) nas plantas, aumenta a produção e liberação de etileno, o qual está envolvido diretamente na floração dessas espécies. Assim, quando se adota essa técnica, se estão alterando os níveis hormonais na planta e das respostas fisiológicas – é o caso da floração em algumas espécies. O ato de queimadas, com a liberação de fumaça, também aumenta a produção de etileno nas plantas.

A produção de mudas pode ocorrer com o uso de sementes, com a propagação sexuada, em que geralmente se obtêm grandes rendimentos. No entanto, o método não garante as características da planta matriz. Outra opção é o uso de fragmentos da planta (folhas, caule ou raízes), denominados estacas, consistindo na propagação vegetativa. Geralmente, não se consegue o mesmo rendimento do uso de sementes, mas a técnica apresenta algumas vantagens, como a obtenção de clones, população de plantas geneticamente idênticas. Quando se deseja manter as mesmas características da planta matriz e/ou as condições não são favoráveis à floração e obtenção de sementes, deve-se adotar a propagação vegetativa.


Na natureza, encontramos plantas com facilidade para a propagação vegetativa. Quando retiramos fragmentos de um galho, folhas ou raízes, e colocamos em recipiente com substrato, ou até com água, espontaneamente ocorre a formação de uma nova planta


Propagação vegetativa

A propagação vegetativa depende da expressão da totipotência celular (potência máxima que confere à célula a capacidade de dirigir o desenvolvimento total da planta) e da desdiferenciação e diferenciação celular, ambas influenciadas pelos hormônios vegetais. Esses processos, associados à divisão e expansão celular, garantem a formação de órgãos adventícios (que se desenvolvem num ponto onde não se encontra outro órgão da mesma natureza) e de uma nova planta.

Na natureza, encontramos plantas com facilidade para a propagação vegetativa. Quando retiramos fragmentos de um galho, folhas ou raízes, e colocamos em recipiente com substrato, ou até com água, espontaneamente ocorre a formação de uma nova planta. Isso é comum em muitas hortaliças, frutíferas, e flores ornamentais. No entanto, em algumas plantas, esses procedimentos não permitem a obtenção de novas mudas.

É comum ouvirmos algo como “essa roseira não pega por galho, não adianta retirar mudas/galhos”. Isso ocorre devido à falta da capacidade de desdiferenciação e diferenciação celular sem interferência. Em muitos casos, a aplicação de auxina, associada a estratégias de manejo, supera tal limitação e permite obter mudas dessas espécies que naturalmente não conseguem formar mudas a partir de estacas. Ressaltamos que esse comportamento pode variar entre as estações do ano e entre regiões de cultivo das plantas.

Assim, é possível induzir a diferenciação das células em órgãos vegetativos, radiculares, reprodutivos ou, simplesmente, a divisão celular. Com o uso da cultura de tecidos vegetais, é possível obter grande número de mudas, em pequeno espaço e curto período de tempo, superando os entraves da propagação por sementes.

A figura 1 mostra a formação de gemas vegetativas (1A) e raízes (1B) em bromélias cultivadas in vitro com o uso de reguladores de crescimento. A citocinina predomina em relação à auxina e proporciona a formação de gemas vegetativas, enquanto, na situação oposta, ocorre a formação de raízes.


Figura 1.Uso de auxina e citocinina para induzir a formação de gemas vegetativas ou de raízes de bromélia in vitro. CRÉDITO: LABORATÓRIO DE CULTURA DE TECIDOS VEGETAIS DO IF GOIANO – CAMPUS CERES.


Frutos, flores, sementes

Para ter uma oferta de frutos de qualidade nas diferentes regiões do país, permitindo que o produtor atenda às diferentes demandas do mercado, é preciso ter o controle da maturação dos mesmos. Existem dois tipos de frutos quanto à maturação: os climatéricos, que continuam o processo de maturação após a colheita, e os não climatéricos, que cessam a maturação após a colheita. Assim, para cada tipo de fruto, adota-se uma estratégia específica para otimizar sua qualidade.

Entre os hormônios vegetais, o etileno é o principal responsável pela maturação dos frutos. Assim, para acelerar a maturação, aplica-se etileno e, para retardar a maturação e permitir o transporte a longas distâncias, usam-se produtos – ou mantêm os frutos em condições específicas – que inibem a ação do etileno.

Nos supermercados e em casa, frutos, folhas e legumes são mantidos em ambientes refrigerados. Temperaturas mais amenas, diferentemente dos animais, retardam o metabolismo vegetal, reduzem a produção de etileno e, consequentemente, prolongam sua vida. As mesmas estratégias são adotadas para aumentar a conservação de flores de corte.

As sementes têm um papel fundamental na formação dos frutos. Entretanto, a presença de sementes em alguns frutos não é muito atrativa aos consumidores. E, sem sementes, os frutos não crescem.

Os frutos sem sementes despertaram interesse no mercado e podem ser obtidos por meio do melhoramento genético ou com a aplicação de reguladores de crescimento. A melancia e a uva sem sementes são exemplos consolidados e evidenciam a adoção de tecnologias e materiais genéticos para atender as demandas dos consumidores.



CRÉDITO: FOTO ADOBE STOCK


Apesar das tantas possibilidades de uso prático dos reguladores de crescimento na agricultura, considerando o volume de produtos aplicados, predomina o uso de herbicidas



A aplicação de auxina e giberelina possibilita a polinização e fecundação artificial, assim como a formação e o crescimento de frutos em algumas espécies. Na abóbora, permite a fecundação artificial e, no caso da uva, a formação de bagas maiores.

Apesar das tantas possibilidades de uso prático dos reguladores de crescimento na agricultura, considerando o volume de produtos aplicados, predomina o uso de herbicidas. O controle de plantas em ambientes indesejados com o uso de reguladores de crescimento apresenta algumas vantagens, como eficiência, rendimento e economia, mas há divergências quanto aos benefícios e impactos ambientais.


Impactos no ambiente

Apesar de os herbicidas liderarem as discussões sobre impactos ambientais, os reguladores de crescimento também podem provocar níveis residuais (tóxicos) nos tecidos vegetais e no ambiente, além de poderem ser ingeridos – ainda não há conhecimento suficiente do comportamento dessas moléculas no organismo humano.


Além da aplicação de reguladores de crescimento, a interação entre plantas e alguns microrganismos também pode alterar os níveis hormonais nos tecidos



Na agricultura, os reguladores de crescimento são usados na forma sólida, líquida ou gasosa. Teoricamente, as plantas podem reter na superfície dos tecidos porções dos produtos sólidos ou líquidos que podem ser degradados ou mantidos por períodos mais prolongados. Assim, o uso desses compostos deve ser realizado conforme as orientações técnicas, para evitar danos ao ambiente e à saúde humana.

Além da aplicação de reguladores de crescimento, a interação entre plantas e alguns microrganismos também pode alterar os níveis hormonais nos tecidos. Alguns ocasionam prejuízos às plantações, como a doença da vassoura-de-bruxa no cacaueiro, em que o fungo Moniliophthora perniciosa aumenta a produção de citocinina e, em níveis elevados, causa crescimento desordenado dos tecidos.

Por outro lado, outras interações são benéficas para as plantas, como o aumento da produção de hormônios, principalmente de auxina, citocininas e giberelinas, otimizando a formação do sistema radicular e da parte aérea. Além disso, ainda contribuem com a mineralização de nutrientes, solubilização de fosfatos e fixação biológica do nitrogênio, assim como o aumento da absorção de nutrientes pelas raízes.

Considerando as nossas diversidades das condições edafoclimáticas (clima, relevo, litologia, temperatura, humidade do ar, radiação, solo, vento, composição atmosférica e precipitação pluvial) no país, o uso de microrganismos na agricultura deve ser explorado de forma a proporcionar benefícios à produção de alimentos e buscando o melhor equilíbrio ecológico nos ecossistemas agrícolas. Ressaltamos que o uso racional dos nossos recursos naturais é a principal alternativa à produção de alimentos, assim como para uma agricultura sustentável.


Cleiton Mateus Sousa
Karolaine Sousa Alves Mello
Instituto Federal Goiano
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