quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Saturno se torna o planeta com mais luas em órbita; são 82 agora


A novidade foi descoberta pelo Minor Planet Center ao usar algoritmos para comparar imagens de uma década, tiradas em série, que distinguiam estrelas estacionárias, luas e galáxias ao redor de Saturno




Saturno é o planeta com mais luas do sistema solar(foto: Divulgação/ Nasa)Júpiter perdeu o posto de planeta com maior número de luas em órbita. De acordo com a União Astronômica Mundial, o número de luas que orbitam Saturno chegou a 82, superior às 79 do planeta jupteriano. 


A novidade foi anunciada pelo Minor Planet Center ao usar algoritmos para comparar imagens de uma década, tiradas em série, que distinguiam estrelas estacionárias, luas e galáxias ao redor de Saturno. 


Desde a criação do sistema solar, grandes quantidades de gás e poeira orbitam o Sol e, assim, se fundiram aos oito planetas conhecidos. À vista disso, astrônomos acreditam que, no caso de Saturno, asteroides e cometas próximos foram capturados pela gravidade do planeta e o circulam desde então.


Segundo Scott Sheppard, astrônomo da Carnegie Institution for Science, em entrevista ao The Guardian, a maior parte das luas externas que circundam Saturno estão em órbita retrógrada, o que significa que orbitam o planeta para trás e, por isso, podem pertencido a uma lua-mãe muito maior que se separou há bilhões de anos.


"Esse tipo de agrupamento de luas externas também é visto em torno de Júpiter, indicando colisões violentas ocorridas entre luas no sistema saturniano ou com objetos externos, como asteróides ou cometas", contou Sheppard ao jornal The Guardian.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

BRASIL ‘MESTIÇO’

Resultado de imagem para brasil mestiço
“O Brasil é um país mestiço.” Essa afirmação, tão comum ao se falar da composição da população brasileira, e que tem seu lado de verdade, é generalizante demais – razão por que é muito perigosa. A ideia que vem associada é a de que somos um país de ‘mistura de raças’, e, por sua vez, deriva de um entendimento que não apenas reconhece a existência de raças, como quase sempre vem acompanhado do ‘mito das três raças’, que apresenta como base para a formação da população brasileira componentes indígenas, negros e brancos. Isso pode até dar letra de samba – mas será que faz sentido para nossa história?

Raça como conceito científico não existe. Também é errôneo pensar que o povo brasileiro é resultado da miscigenação de africanos, europeus e populações indígenas. Mesmo quando se incluem outras contribuições ‘raciais’, como japoneses e libaneses, nesse caldo, erramos ao afirmar que essa ‘mistura’ teria ocorrido de forma natural e quase sempre harmoniosa.

No século 19 e nas décadas iniciais do século 20, o cruzamento de ‘raças’ era considerado um perigo de degeneração, e o ‘embranquecimento’ da população, um alvo a alcançar. O pensamento dominante na época via o desaparecimento da herança cultural e biológica de negros e indígenas como fator de progresso.

 

‘A Redenção de Cam’, pintura de Modesto Brocos y Gomes, retrata uma família miscigenada: avó negra, mãe mulata, pai e filho brancos. No século 19, o ‘embranquecimento’ da população era um alvo a alcançar. (imagem: Wikimedia Commons)

Mas, ao longo do século 20, o Brasil se transformava: cresciam as lutas sociais, surgiam novas ideias e aumentava a presença popular na vida política. E esse povo que saía às ruas e passava a votar não era ‘puro e branco’ como no Velho Mundo, muito pelo contrário. Pouco a pouco, foram aparecendo novas formas de se referir aos brasileiros e, entre elas, fortaleceu-se a ideia de povo mestiço como um valor positivo e característico da nossa população.

O artigo ‘Das moscas aos humanos: a genética e a questão da ‘mistura racial’ no Brasil’ na CH 326 mostra como a questão da ‘formação racial brasileira’ era vista no século 19 – um dilema para a construção da nação e da identidade nacional – e revela o interesse dos cientistas, já em meados do século 20, no estudo da variabilidade genética da população brasileira.


Povo cordial?

Junto com a construção da ideia de que a mistura entre povos de diferentes origens sempre foi tranquila e natural por aqui, veio aquela sobre a índole pacífica e cordial do povo brasileiro. Seríamos uma combinação perfeita de gente de pele morena, sorriso nos lábios, muita simpatia, sempre vivendo em paz, mesmo em condições muito difíceis. Trata-se de uma bonita imagem para ser assumida internamente e vendida como mercadoria atraente ao exterior. Mas teria isso um fundo de verdade?
O Brasil foi o país que mais recebeu africanos escravizados na história da humanidade

Se pesquisarmos a história do Brasil, a resposta é não. Uma longa trajetória de lutas e resistência de africanos e seus descendentes escravizados, assim como de guerras promovidas contra grupos indígenas que lutavam para permanecer nas suas terras ancestrais, mostra totalmente o contrário. O Brasil foi o país que mais recebeu africanos escravizados na história da humanidade: foram quase quatro séculos e mais de 4 milhões de africanos chegando aos portos brasileiros pelo comércio escravista. Somos o segundo país do mundo em população de origem africana, e o primeiro fora da própria África. E, hoje, mais da metade dos brasileiros se declara negro ou pardo.

Muitos de nós, entretanto, desconhecem o legado cultural dos povos africanos para o país. A história dos nossos antepassados até há bem pouco tempo não entrava nos livros didáticos e nas salas de aula brasileiras, onde predominava uma história europeia e ‘branca’. Isso vem mudando, embora devagar; ainda se vê muito preconceito e intolerância. Desde 2003, vigora uma lei que tornou obrigatório o ensino dessa parte da história. Conhecer a memória da África e dos negros no Brasil, assim como das culturas indígenas, significa mudar a perspectiva, e fazer com que os brasileiros possam se ver de outra maneira.


Ajustes necessários

É preciso repensar a ideia de africano como um todo único. A África é um continente e, mesmo ao sul do deserto de Saara, onde habitam em sua maioria povos de pele escura, há, e desde há muito tempo, uma enorme variedade de línguas, culturas, religiões, costumes e aparências entre os diferentes grupos humanos. Esses grupos interagiram e disputaram espaços e o domínio sobre produtos e rotas de comércio. Alguns se misturaram e deram origem a outros povos, como ocorreu em outros continentes e regiões do mundo.


Origens dos africanos escravizados no Rio de Janeiro no século 19 (no mapa, fronteiras do século 20). Grupos étnicos: 1. Bacongo; 2. Nsundi; 3. Tio, Monjolos; 4. Bobange; 5. Bundo; 6. Quissama; 7. Libolo; 8. Ovimbundo; 9. Ganguela; 10. Iaô; 11. Macua;12. Tumbuca; 13. Achanti; 14. Daomé; 15. Iorubá; 16. Ibo; 17. Fulani; 18. Hauçá; 19. Bornu; 20. Nupe. (imagem: Adaptada de KARASH, Mary. ‘A vida dos escravos no Rio de Janeiro, 1808-1850. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p .53.)

A ideia de ‘africano’ surgiu apenas no século 19, vinculada à luta contra o tráfico e a escravidão. É, ao mesmo tempo, uma resposta e um novo significado ao tratamento dado pelos europeus aos nativos do continente. Por trás da generalização do termo, estava o objetivo da dominação europeia e uma justificativa para exercê-la. É difícil precisar a origem dos africanos trazidos para o Brasil. Muitos eram capturados longe do litoral, apesar de receberem o nome do local de partida. Outros – ao longo da travessia e em sua inserção na sociedade brasileira, no universo de outros nativos da África escravizados –, assumiam uma identidade que fazia referência ao seu local de origem. Outros, ainda, integravam-se a grupos da mesma região de procedência, ainda que pertencessem a povos diferentes.

Assim, os chamados ‘cabindas’ no Brasil, trazidos da região da baía de Cabinda (hoje em Angola), poderiam ser nsundis, tekes e gabões. Incluíam-se entre eles muitas vezes os anjicos e monjolos. Os ‘congos’ seriam originados de diversos grupos situados na vasta rede comercial do rio Zaire (Congo). E os ‘angolas’ podem ter sido trazidos do entorno da cidade de Luanda, mas também da área de Cassange ou do vale do rio Cuanza.

Esses grupos formaram a maioria dos cativos transportados para o Brasil, originários da grande região Congo­Angola. Mas houve muitos outros. Os ‘moçambiques’ poderiam ser macúas, ou senas, ou mujaus, entre outras origens, capturados em uma ampla área que abrangia o que é hoje o sul da Tanzânia, o norte de Moçambique, o Malauí e o nordeste da Zâmbia. Os africanos embarcados na África Ocidental (região do golfo da Guiné ou sua subdivisão, a Costa da Mina) poderiam ser todos incluídos no grande grupo que ficou conhecido como mina aqui no país, sendo, por sua vez, iorubas (também conhecidos como nagôs), hauçás, ibos, daomeanos ou mahís.
Havia escravos cristãos, muçulmanos e aqueles que acreditavam em religiões nativas. Eram povos com histórias, modos de vida e saberes distintos

Alguns entre os africanos escravizados eram cristãos, outros muçulmanos – tinham inclusive os que liam e escreviam em árabe – e, em sua maior parte, acreditavam em deuses de suas religiões nativas. Eram povos com histórias, modos de vida e saberes distintos – alguns trouxeram conhecimentos sobre técnicas agrícolas em clima tropical, outros eram mineradores experientes, outros artesãos ou conhecedores de práticas curativas.


Retratos da diversidade

Jean­Baptiste Debret (1768­1848), artista francês estudioso da natureza no Brasil, retratou os diferentes tipos de mulheres africanas que pôde observar na cidade do Rio de Janeiro. Nem na própria África seria possível encontrar tantos representantes de povos daquele continente como aqui. Debret produziu aquarelas que mostravam a diversidade de origens das mulheres que haviam sido trazidas e escravizadas no nosso país.

Com seus trajes e penteados, adornos e marcas faciais e de estética própria – como a prática de limar os dentes – essas mulheres afirmavam suas diferenças, também percebidas em suas tradições culturais e idiomas. Nada mais distante de suas vidas que a ideia de uma África no singular ou de características de comportamento e crença que unissem todas elas em um denominador comum. Essas africanas eram tão diferentes entre si como homens e mulheres europeus de países distintos.

Conhecer essas histórias africanas é uma maneira de desmascarar essa uniformidade inventada, e reconhecer o rico mapa da diversidade ‘negra’ que faz parte de nossas origens.

E de que vale saber essas diferenças todas e questionar uma imagem idealizada de país mestiço? Serve para nos aproximar de outras histórias que nos pertencem e nos darão a chance de chegar mais perto de entender que o tanto que nos diferencia nos aproxima, e nos faz mais humanos. Afinal, o racismo que se vê e percebe no Brasil é como uma mosca na sopa dos estudos sobre a nossa miscigenação.
Revista Ciência Hoje

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

THANOS: AMBIENTALISTA OU TIRANO ULTRAPASSADO?


Assim como Malthus fez no século 18, vilão do filme Vingadores: ultimato acredita que o excessivo crescimento populacional pode esgotar os recursos do planeta e que a solução é reduzir o número de humanos.


Em uma lua pacata e tecnológica chamada Titã, nasce Thanos, irmão de Eros e filho de Mentor, governador do satélite. Devido a uma crise de falta de alimentos, Thanos viu sua terra natal quase entrar em colapso. Quando ficou mais velho, obstinado em evitar o mesmo destino para outros astros, iniciou uma jornada a inúmeros planetas com o objetivo de aniquilar metade da população do universo e, assim, restabelecer o equilíbrio cósmico entre população e recursos. Apesar de uma ação obviamente reprovável, a intenção do supervilão de Vingadores: ultimato era acabar com a fome, as guerras e todo tipo de desigualdade, melhorando a qualidade de vida da população sobrevivente.



Diferentemente de Thanos, a solução de Malthus para superar o problema não era matar, mas sim a abstinência sexual voluntária e o casamento tardio, principalmente nas classes mais baixas


No final do século 18, um pastor anglicano e economista britânico chamado Thomas Malthus teve uma leitura de mundo similar à do personagem da Marvel. Para ele, a população estava crescendo em uma progressão geométrica (1, 2, 4, 8, 16, 32…), enquanto a produção de alimentos só conseguia crescer em uma progressão aritmética (1, 2, 3, 4, 5, 6…). Assim, era questão de tempo até a quantidade de gente no mundo superar a quantidade de comida. Quando isso acontecesse, haveria fome, doenças e guerra, que matariam várias pessoas, restabelecendo um equilíbrio na natureza.

Polêmico, Malthus defendia que os culpados pela possível crise de recursos eram as pessoas pobres, porque tendiam a ter mais filhos, sem condição de criá-los. Diferentemente de Thanos, a solução de Malthus para superar o problema não era matar, mas sim a abstinência sexual voluntária e o casamento tardio, principalmente nas classes mais baixas.


Efeito Malthus

Embora Malthus não tenha matado ninguém diretamente, suas ideias inspiraram uma série de desastres. Alguns exemplos são: a Leis dos Grãos, em 1815, que levou a um período de fome, doenças e emigração em massa na Irlanda; a Lei dos Pobres, em 1834, que resultou na criação das ‘casas de trabalho’ na Inglaterra, espécies de campos de concentração para indigentes; a recusa do vice-rei da Índia, Lord Lytton, em enviar ajuda humanitária depois da morte de 10 milhões de indianos vítimas de fome entre 1876 e 1878; o Darwinismo Social, que defendeu a existência de humanos superiores a outros; o Holocausto; a esterilização forçada que mulheres de vários países sofreram; e a política do filho-único na China.

Apesar de Thanos ter matado um sem-número de pessoas, sua visão de mundo não carregava preconceito e elitismo, como se vê em Malthus e seus seguidores. Sua proposta era matar metade da população aleatoriamente, sem escolher entre pobres ou ricos. Assim, Thanos atuaria quase como uma força cega – e inevitável – da natureza, o que não minimiza o problema de sua decisão.


Visões equivocadas do mundo

O grande erro de Malthus foi não prever que a tecnologia avançaria a tal ponto que alimentos seriam produzidos em escalas industriais, crescendo muito mais do que em uma progressão aritmética. Outra importante crítica que se faz à teoria malthusiana é baseada no conceito de transição demográfica, proposto já no século 20 pelo demógrafo norte-americano Warren Thompson (1887-1973).

Segundo ele, os países passam por quatro principais fases de transição demográfica: a primeira, com baixo desenvolvimento e pouco crescimento populacional; a segunda, em que a sociedade evolui e há explosão demográfica; a terceira, marcada pela industrialização e modernização do país, com queda no aumento da população; e a quarta, onde está a maioria dos países desenvolvidos, com taxas de natalidade e mortalidade baixas e crescimento populacional próximo a zero.



Thanos e os neomalthusianos

É curioso que um ser de inteligência sobre-humana possa defender uma teoria econômica tão ultrapassada como a de Malthus. Podemos compreender seu erro de leitura olhando para os neomalthusianos. Segundo esse grupo, mesmo com toda a tecnologia do mundo, a fome e a pobreza resistiriam. Para eles, o excesso populacional ainda é causa não só da fome e da pobreza, como também de gastos excessivos do governo com educação e saúde, afetando negativamente a economia. Até hoje existem correntes derivadas do malthusianismo.

Os ecomalthusianos, por exemplo, colocam a culpa do esgotamento dos recursos naturais da Terra no excesso de pessoas. Há não muito tempo, ouvimos políticos brasileiros propondo o controle de natalidade da população pobre, por meio de cirurgias de laqueadura e vasectomia, como solução para a economia, a miséria e a violência. E há aqueles que reúnem o pior de Thanos e Malthus: a crença de que a causa da fome e da pobreza é o excesso de pessoas e de que a pena de morte para aqueles de comportamento desviante é solução que garantirá maior qualidade de vida para os cidadãos de bem. Seriam esses os MalthusiThanos?

O erro dessas pessoas está em desconsiderar informações cruciais da teoria de Thompson. Como fica claro no conceito de transição demográfica, é justamente a educação, a saúde e o desenvolvimento da ciência e tecnologia que ajudam na regulação do crescimento da população. Da mesma forma, a causa do possível esgotamento de recursos energéticos e das mudanças climáticas globais não é o crescimento populacional, mas o uso de combustíveis fósseis, o desperdício e a poluição dos recursos hídricos e da atmosfera com gases do efeito estufa etc.


Apesar de Thanos ter matado um sem-número de pessoas, sua visão de mundo não carregava preconceito e elitismo, como se vê em Malthus e seus seguidores



O fato é que há comida e dinheiro para que todos vivam com dignidade. Há recursos renováveis na natureza (como etanol, biomassa, biodiesel) e fontes energéticas que não poluem tanto o meio ambiente. Portanto, culpar quaisquer outras coisas por esses problemas é uma forma de criar justificativas para a manutenção da desigualdade no planeta, onde 1% da população concentra 87% de toda a riqueza global (segundo estudo de 2017 da ONG britânica Oxfam).

Portanto, se Thanos tivesse investido em melhorar saúde, educação e redução da desigualdade, teria usado uma estratégia mais eficiente para salvar o planeta e não precisaria encarar os Vingadores.

Lucas Miaranda
Editor do blog Ciência Nerd
Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo
Universidade Estadual de Campinas
Revista Ciência Hoje

TODO UM ECOSSISTEMA AMEAÇADO


Desde a industrialização, os corais vêm sofrendo as consequências das ações humanas em nível global e local. A resposta desses seres vivos ao estresse que lhes é imposto é seu branqueamento, o que pode causar mortalidade em massa e a sua extinção. A boa notícia é que a recuperação pode ser viável, se os impactos a que os corais são submetidos forem controlados e fortemente reduzidos. Mas, para isso, é preciso começar agora.



Simples e sofisticados

Os corais são seres vivos exclusivamente marinhos, parentes das águas-vivas e anêmonas. Vivem principalmente em regiões tropicais do mundo onde a água é quente, clara e pobre em nutrientes, permitindo uma boa penetração da luz. Ao mesmo tempo em que estão entre os animais mais simples do planeta, por apresentarem apenas uma fina camada de tecidos recobrindo um esqueleto de carbonato de cálcio, são também bastante sofisticados e, muitas vezes, sensíveis a mudanças ambientais.



Os corais são animais simples, que apresentam uma fina camada de tecidos recobrindo um esqueleto de carbonato de cálcio. Eles vivem em regiões tropicais, de água quente, clara e pobre em nutrientes, permitindo uma boa penetração da luz. A imagem mostra um coral da espécie Siderastreastellata
Créditos: Jéssica Bleuel/ #DeOlhoNosCorais



Uma das sofisticações mais interessantes dos corais é seu modo de alimentação. Alguns corais podem obter energia a partir do consumo de pequenos animais que vivem na coluna d´água, conhecidos como plâncton, mas também por meio de uma associação de benefício mútuo com microalgas que vivem em seus tecidos. Essa associação é conhecida como simbiose: enquanto a microalga ganha abrigo nos tecidos do coral e recebe as condições necessárias para fazer a fotossíntese, ela provê ao coral hospedeiro açúcares produzidos durante a fotossíntese.


Estresse e branqueamento

Mudanças ambientais podem desencadear respostas de estresse, em que os corais expulsam essas microalgas dos seus tecidos. Como a cor dos corais muitas vezes depende dos pigmentos dessas algas, ao expulsá-las, o coral perde a cor, e seu esqueleto branco abaixo do seu tecido transparente torna-se visível. Por isso, essa resposta ao estresse é conhecida como branqueamento de corais, processo que deixa os animais mais susceptíveis a doenças, podendo, inclusive, causar a sua morte

Microalgas que vivem associadas aos corais
Créditos: Paula Laurentino/ #DeOlhoNosCorais



Coral em processo de branqueamento
Créditos: Edson Vieira Filho/ #DeOlhoNosCorais


A hipótese fisiológica para explicar esse fenômeno é baseada no estresse oxidativo. O aumento de temperatura estimula a reprodução das algas, que se tornam mais numerosas nos tecidos dos corais, e a alta incidência de luz aumenta a taxa de fotossíntese. Como um dos produtos da fotossíntese é o oxigênio, ocorre uma maior liberação dessa molécula nos tecidos dos corais, o que lhes causa irritação, e o excesso de oxigênio funciona como um gatilho para a expulsão das microalgas. Além disso, a competição com outros organismos, como macroalgas, eventos de soterramento, salinidade reduzida e infecções por organismos que causam doenças (patógenos), também podem resultar em branqueamento.


Ameaças e consequências

Com mais de 7 bilhões de pessoas vivendo no planeta, a atividade humana tem causado fenômenos de branqueamento de corais com uma frequência e intensidade jamais vistas. Em 2016, por exemplo, o branqueamento chegou a atingir 80% dos corais na Austrália, trazendo consequências que vão muito além da morte desses organismos. Recifes de coral inteiros branquearam em poucos meses e morreram em menos de um ano.



Com a morte dos corais, os recifes perdem complexidade estrutural e deixam de ser abrigos importantes para peixes e outros organismos, resultando em uma enorme perda de diversidade(figura 4). Além das espécies, perdem-se também os benefícios que elas proveem à humanidade, como segurança alimentar, turismo e proteção costeira.


Peixes juvenis nadando ao redor de coral da espécie Milleporaalcicornis. Os recifes de coral são um importante abrigo para peixes e outros organismos
Créditos Jéssica Bleuel/ #DeOlhoNosCorais



Desde a industrialização, passamos a emitir enormes quantidades de gases que aumentam a intensidade do efeito estufa na atmosfera, provocando o aquecimento da terra e dos oceanos. É como se esses gases formassem um enorme cobertor sobre o planeta que retém o calor, processo popularmente conhecido como aquecimento global.

Um dos principais gases causadores desse fenômeno é o dióxido de carbono, que, além de aumentar o efeito estufa, se dissolve na água do mar, tornando-a mais ácida. Esse processo, conhecido como acidificação dos oceanos, prejudica o crescimento dos corais, devido ao seu esqueleto de carbonato de cálcio, e pode ter efeitos negativos também sobre outros animais, como os moluscos que fazem conchas.

Além de sofrerem os impactos globais derivados da emissão de gases estufa na atmosfera, os corais ainda estão sob forte pressão de atividades humanas em escala local. Entre elas, estão a coleta ilegal, o turismo desordenado e a poluição por resíduos sólidos e químicos, como no caso do simples uso de um protetor solar.

No início do século 19, era comum utilizar esqueletos de coral na construção civil, fosse para obter cal dos seus esqueletos ou para uso direto na construção de paredes e muros. Mesmo que esse costume tenha sido praticamente extinto no Brasil, a coleta ilegal de corais para aquarismo ou fins decorativos ainda é um problema. Já imaginou o que aconteceria se todo mundo resolvesse levar um coral para decorar sua casa? Além de causar a morte da colônia coletada, essa atividade resultaria na diminuição da complexidade estrutural dos recifes, prejudicando diversos organismos que dela dependem.

Embora o turismo possa ser um grande aliado da conservação marinha, quando é feito de maneira desordenada pode gerar danos severos aos corais e espécies que vivem nos recifes. Os corais têm um tecido muito fino sobre um esqueleto duro, e um turista desavisado pode facilmente confundi-lo com uma pedra. Às vezes, um simples toque já é suficiente para causar lesão no tecido do coral, deixando-o mais susceptível a doenças e à morte.


Bons e maus exemplos

Existem alguns bons exemplos de ordenamento de turismo em ambientes recifais no Brasil, onde condutores são capacitados para orientar os turistas a não tocarem ou pisarem nos corais. Há outros locais onde o turismo ocorre em áreas menos sensíveis, ou onde o uso de nadadeiras é restrito. O turismo de mergulho autônomo, quando mal ou pouco orientado, também pode causar toque e revolvimento do fundo, podendo trazer consequências negativas não apenas aos corais, mas ao recife como um todo. Portanto, a melhor saída para evitar esses impactos é a conscientização. Existem evidências científicas de que uma explicação clara antes da atividade de turismo aquático e mergulho reduz a quantidade de toques nos organismos e melhora significativamente a conduta dos mergulhadores embaixo d’água.

Outra questão relacionada com o turismo e que frequentemente vem à tona em discussões é a relacionada ao uso de protetor solar. Algumas substâncias presentes nesses produtos podem causar branqueamento, afetar a formação e o desenvolvimento das larvas dos corais, e até provocar alterações no DNA do animal, reduzindo seu tempo de vida e comprometendo seu desenvolvimento e reprodução. Os protetores que contêm oxibenzeno foram indicados como os mais nocivos aos corais. O curioso é que a maior parte das evidências para o efeito negativo do protetor solar e de seus componentes químicos sobre a saúde dos corais vem de experimentos em laboratório. A grande questão agora é determinar qual é a concentração necessária desses compostos na água para que eles tenham tantos efeitos negativos sobre os corais. Onde e como atingimos essa concentração em situação natural? Ou seja, quantos banhistas cobertos de protetor solar seriam necessários para atingir a concentração que prejudica esses animais?

Enquanto os cientistas buscam respostas para essas perguntas, o melhor a fazer é escolher as marcas menos tóxicas disponíveis no mercado e evitar usar protetor solar quando entrar em pequenas poças ou piscinas de maré, comuns em diversas praias do Nordeste, por exemplo. Se a quantidade de água for muito pequena, o efeito negativo sobre os corais pode ser mais intenso e rápido. Existem camisetas, calças e bonés com ótima proteção solar para usar nessas ocasiões, em vez de abusar desses produtos.

Os corais também podem ser afetados por resíduos sólidos, como o agora famoso microplástico. Apesar de ainda ser uma área de pesquisa em desenvolvimento, há evidências de que a maioria dos corais pode ingerir microplásticos, sendo que alguns ficam tentando digeri-los por algum tempo, enquanto outros rapidamente rejeitam essas partículas por reconhecerem sua indigestibilidade.

Outras espécies, quando entram em contato com microplástico, mas sem ingeri-lo, aumentam sua produção de muco, como forma de limpeza dos seus tecidos. O fato é que, na maior parte dos casos, os corais que tiveram contato com microplásticos exibiram branqueamento pontual ou necrose de tecido.


Ameaças de larga escala

Outras ameaças de maior escala, como a exploração de petróleo ou a construção de portos nas proximidades de bancos coralíneos, também trazem bastante preocupação. Recentemente, a liberação do leilão de áreas de exploração de petróleo no entorno do banco dos Abrolhos, arquipélago do oceano Atlântico, no sul da Bahia, causou apreensão, uma vez que potenciais acidentes de derramamento afetariam diretamente o maior banco de corais do Atlântico Sul.

De maneira similar, a construção de portos exige uma grande modificação do hábitat, podendo gerar sérios danos aos corais e ambientes recifais no entorno desses empreendimentos. A melhor solução é um bom planejamento, que leve em conta impactos e benefícios ambientais, sociais e econômicos desses empreendimentos em zonas marinhas e costeiras.


O futuro dos corais

Será que um coral consegue se recuperar depois de um evento de branqueamento? A resistência a esses eventos e a recuperação dos corais dependem muito da intensidade e da frequência dos impactos, mas também de quantos impactos simultâneos os corais estão sofrendo.

Se há, por exemplo, um aumento brusco de temperatura por um período curto em um local protegido de poluição, os corais provavelmente terão uma boa chance de resistir, ou mesmo de se recuperar após um branqueamento. Mas, se além do estresse de temperatura, os corais ainda estiverem sob influência de poluição intensa, isso pode reduzir bastante tais possibilidades. Ou seja, a recuperação após o branqueamento é ainda viável se conseguirmos controlar os demais impactos em escala local.

Trabalhos científicos apontam que, embora tenha havido um grande evento de branqueamento em Abrolhos em 2016, a mortalidade foi relativamente baixa, indicando que os corais podem se recuperar dentro de uma área protegida, como é o caso desse parque nacional. Mesmo na Austrália, diversos recifes conseguiram se recuperar após um evento de branqueamento massivo.

Apesar da boa resposta desses casos, é importante ressaltar que, se a frequência e intensidade dos impactos aumentarem, os corais podem passar a não reagir tão bem. Então, o que podemos fazer efetivamente é reduzir impactos locais, como esgoto, poluição, pisoteio, coleta, sobrepesca etc., além de diminuir nossas emissões de gases estufa. Essas ações darão pelo menos uma chance melhor aos corais.

Por outro lado, a ciência já está correndo em paralelo, criando técnicas, por exemplo, para remediar o branqueamento de corais por meio de probióticos que auxiliam na recuperação, ou por meio da reprodução de corais mais resistentes. Embora promissoras, essas ações ainda estão um pouco distantes de se concretizar. Precisamos agir agora.

Existem esforços e tratados internacionais, como o Acordo de Paris, em que diversos países se comprometeram a reduzir suas emissões de gases estufa. O Brasil, por exemplo, se comprometeu a reduzir, até 2025, as emissões a níveis 37% menores do que aqueles que tínhamos em 2005. Para isso, os países devem adotar práticas de produção mais sustentáveis, como reduzir o uso de combustível fóssil, mudando a matriz energética. É um longo caminho, mas possível e necessário.


Qualquer um pode ajudar

Todos os dias, milhares de pessoas estão em contato com o mar e observam corais ao longo de toda a costa brasileira. Já imaginou quanta informação seria gerada se essas pessoas pudessem compartilhar o que viram com cientistas? Pois hoje elas podem! Basta compartilhar as fotos ou vídeos dos corais nas redes sociais, indicando a data e localização da foto e marcando #DeOlhoNosCorais.

Essas fotos são compiladas pela nossa equipe, que faz a identificação da espécie e um diagnóstico de saúde do coral. Com a data e o local da foto, conseguimos também acessar dados oceanográficos de temperatura da água, por exemplo. Esses registros passam a fazer parte de um banco de dados que nos permite avaliar a saúde dos corais em toda a costa brasileira e, praticamente, em tempo real!

Temos recebido informações de branqueamento em diversos estados (RN, PB, PE, AL, SE, BA, RJ, SP, PR e SC). Agora, além do branqueamento, o projeto #DeOlhoNosCorais está focado também em encontrar e registrar histórias de recuperação da saúde dos corais. E você? Já compartilhou sua foto com a gente?

Qualquer pessoa pode compartilhar fotos ou vídeos dos corais com os cientistas e participar do monitoramento desses organismos na costa brasileira
Créditos: Edson Vieira Filho/ #DeOlhoNosCorais


Com a ajuda das informações enviadas pelos cidadãos, o projeto#DeOlhoNosCorais já conseguiu monitorar a saúde desses organismos em 10 estados do litoral do Brasil
Créditos: Edson Vieira Filho/ #DeOlhoNosCorais


Guilherme Ortigara Longo
Departamento de Oceanografia e Limnologia,
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Revista Ciência Hoje

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Iceberg de 315 bilhões de toneladas se desprende da Antártida


Jonathan Amos
BBC


Direito de imagemCOPERNICUS DATA/SENTINEL-1/@STEFLHERMITTEImage caption
Sistema de satélite Sentinel-1 da União Europeia capturou essas imagens para fazer a comparação antes e depois

A plataforma de gelo Amery, localizada na na Antártida, acaba de produzir seu maior iceberg em mais de 50 anos.

O bloco tem uma área de 1.636 km² — um pouco maior que a cidade de São Paulo — e foi batizado de D28.

Assim que começa a se deslocar, um iceberg desse tamanho passa a ser monitorado e rastreado, pois no futuro pode se tornar um risco para o transporte marítimo. A Amery não produzia um iceberg tão grande desde a década de 1960.

Amery é a terceira maior plataforma de gelo da Antártida e um importante canal de escoamento para o leste do continente.

A plataforma é a extensão flutuante de várias geleiras que fluem na direção do mar. Perder icebergs para o oceano é a maneira como essas correntes de gelo mantêm o equilíbrio diante dos acúmulos de mais neve.


Mas os cientistas já previam esse acontecimento. O interessante é que boa parte da atenção sobre a área foi focada no leste do trecho que se separou.


Direito de imagemNAS
AImage caption'Dente mole' retratado no início dos anos 2000; D28 é vista se formando à esquerda

'Dente' vizinho

Este é um segmento da Amery que ficou carinhosamente conhecido como Dente Mole, devido à sua semelhança em imagens de satélite com a dentição de uma criança. Ambas as áreas de gelo tinham o mesmo sistema de fendas.


Mas, embora pendente, o Dente Mole ainda continua preso. O D28 é que foi "extraído".

"É um molar quando comparado a um dente de leite", disse à BBC a professora Helen Fricker, da Scripps Institution of Oceanography.

Fricker havia previsto em 2002 que o Dente Mole se descolaria em algum momento entre 2010 e 2015.

"Estou empolgada em ver esse evento após todos esses anos. Sabíamos que isso aconteceria eventualmente, mas, para ficarmos mais espertos, não aconteceu exatamente quando esperávamos", disse ela.

A pesquisadora do Scripps enfatizou que não havia ligação entre este evento e as mudanças climáticas.

Dados de satélite capturados desde a década de 1990 mostraram que a Amery está em equilíbrio com o ambiente, apesar de sofrer forte derretimento da superfície durante o verão.

Direito de imagemRICHARD COLEMAN/UTASImage caption
Amery, 3ª maior plataforma de gelo da Antártida, não produzia um iceberg tão grande como esse desde a década de 1960

"Embora haja muito com o que se preocupar na Antártida, ainda não há motivo de alarde em relação a essa plataforma de gelo em particular", acrescentou a professora Fricker.

Entretanto, a Divisão Australiana da Antártida vai observar a Amery de perto para ver como ela reage. Os cientistas da divisão têm instrumentos na região.

É possível que a perda de um iceberg tão grande mude o equilíbrio na plataforma de gelo. Isso pode influenciar o comportamento das rachaduras e até a estabilidade do Dente Mole.

Calcula-se que o D28 tenha cerca de 210 metros de espessura e cerca de 315 bilhões de toneladas de gelo.

O nome vem de um sistema de classificação administrado pelo Centro Nacional de Neve e Gelo dos Estados Unidos, que divide a Antártida em quadrantes.

O quadrante D cobre as longitudes de 90 graus Leste a zero grau, o Meridiano de Greenwich. O tamanho do D28 é ofuscado pelo poderoso iceberg A68, que rompeu com a plataforma de gelo Larsen C em 2017. Atualmente, ele cobre uma área três vezes maior.

As correntes e ventos costeiros levarão o D28 para o oeste. É provável que demore vários anos para que se desmanche e derreta completamente.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

A dura realidade dos refugiados sírios que escapam da guerra civil





Após oito anos da guerra civil síria , parece que o fim do conflito ainda está longe. E eles são os civis que permanecem no meio, os mais afetados pela crise.


Desde o início da guerra, em 15 de março de 2011, a Síria se envolveu em uma espiral de atraso de várias décadas, com danos irreparáveis ​​a curto prazo na infraestrutura mais importante para a vida e o desenvolvimento de qualquer nação, como hospitais, escolas , sistemas de água e saneamento e serviços públicos em geral.

Por outro lado, o conflito gerou uma mudança vertiginosa na vida dos cidadãos sírios, que sofreram separação do núcleo familiar, causada pelas vítimas que caíram no meio dos confrontos e deslocamentos que fizeram os sobreviventes refugiados .

Atualmente, mais de 12 milhões de sírios precisam de assistência humanitária, onde 6,2 milhões são deslocados no país e outros 6,7 milhões são refugiados em países vizinhos, como a Turquia. A situação mais grave é que metade das pessoas afetadas são crianças.


Dezenas de refugiados sírios, incluindo muitas crianças, carregam seus pertences para a fronteira iraquiana a um passo perto da cidade de Sahela, nos arredores de Dahouk, no Curdistão iraquiano. Foto: ACNUR / S. Baldwin
8 anos após a guerra, a tensão é maior

As recentes batalhas no território sírio entre o exército nacional e os insurgentes aumentaram, com uma ofensiva na qual 3 milhões de sírios permanecem e acumulam 2.500 mortos, 300.000 deslocados e destruição de casas, locais históricos e mercados, segundo o Observatório Sirius pelos Direitos Humanos.

Apenas os bombardeios da Rússia e do governo mataram 570 civis. Por outro lado, os atentados insurgentes deixaram 45 mortos.
Escapar da guerra também traz seus desafios

Diante de uma situação de conflito tão séria, a escolha de muitos sírios se resume em escapar. Mas tornar-se refugiado significa enfrentar outros desafios.

Os refugiados sírios foram distribuídos por toda a Europa, mas a maioria está na Turquia.

Sendo este país o maior beneficiário desse fenômeno, torna-se muito mais difícil para os sírios conseguir um emprego que lhes permita ter uma vida decente, sendo forçados a trabalhar na agricultura, uma das ocupações que não exigem permissões ou status legal dentro País.


Um sírio ferido chega à fronteira com a Jordânia. Foto: ACNUR / O. Laban-Mattei

Sendo a Turquia um dos maiores produtores
 de avelãs do mundo, pelo menos 20.000 refugiados sírios encheram esses campos, realizando tarefas pesadas em dias de 12 horas sem folgas e pagando US $ 10 por dia.

Sem dúvida, estamos falando de casos de exploração do trabalho em que os sírios arriscam suas vidas em condições muito precárias.
Refugiados sírios precisam de ajuda

Pessoas que escapam de conflitos e deixam suas casas para trás precisam de apoio, mesmo daqueles que encontram empregos pesados ​​e com baixos salários a única maneira de sobreviver.

Todos eles precisam garantir condições mínimas básicas para levar suas vidas e as de suas famílias, como cuidados médicos, alimentos, roupas, itens de higiene pessoal e doméstico, moradia, água potável e eletricidade.

Além de cobrir suas necessidades básicas, os adultos precisam de oportunidades de emprego decentes e as crianças precisam da proteção de um ambiente seguro, além de poder ir à escola.

Os deslocados sírios estão esperando por sua ajuda. Como você pode contribuir? Além de aprender e conscientizar sobre a crise deixada pelo conflito na Síria, uma boa maneira de colaborar é através de doações a organizações sem fins lucrativos que apóiam essa causa.

Uma excelente alternativa é colaborar através do ACNUR, uma ONG criada após a Segunda Guerra Mundial, que já tem 67 anos como agência operacional em 130 países.

O ACNUR trabalha com ênfase especial na crise de refugiados na Síria, transformando doações em água potável, alimentos, assistência médica, educação e serviços básicos para centenas de milhares de pessoas deslocadas.

domingo, 29 de setembro de 2019

Cinco falsos mitos sobre mudanças climáticas





A ciência das mudanças climáticas tem mais de 150 anos e é provavelmente a área mais estudada de todas as que compõem a ciência moderna . No entanto, o setor de energia e os grupos de pressão política, entre outros, vêm semeando dúvidas sobre as mudanças climáticas há 30 anos, onde não há. A pesquisa mais recente estima que as cinco maiores empresas de petróleo e gás do mundo gastam cerca de 200 milhões de dólares por ano para manter lobbies que controlam, atrasam ou impedem o desenvolvimento de políticas climáticas obrigatórias.


A negação organizada das mudanças climáticas contribuiu para a estagnação na redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE), levando ao estado global de emergência climática em que nos encontramos. Como conseqüência, os negadores usam certos mitos (na melhor das hipóteses, notícias falsas; na pior mentira sem vergonha) para proibir a ciência da mudança climática e fazer com que as pessoas a pé não saibam o que esperar . Aqui estão cinco desses mitos e as evidências científicas que os desacreditam.
1. As mudanças climáticas são apenas parte do ciclo natural

O clima da Terra nunca parou de mudar, mas o estudo da paleoclimatologia ou, o que é o mesmo, o “clima antigo” mostra que as mudanças ocorreram nos últimos 150 anos (desde o início da Revolução Industrial) Eles não podem ser naturais por causa de sua excepcionalidade. Os resultados dos modelos indicam que o aquecimento planejado para o futuro pode não encontrar precedentes nos últimos cinco milhões de anos.


As temperaturas globais dos últimos 65 milhões de anos e o possível aquecimento global do futuro, que depende da quantidade de GEE que emitimos. Burke et al. (2018)

O argumento da "naturalidade das mudanças" feitas pelos negacionistas baseia-se no fato de que o clima da Terra ainda está se recuperando das baixas temperaturas da Pequena Idade do Gelo (1300 AD-1850 DC), e que temos no Atualmente, são os mesmos do período medieval quente (900 dC-1300 dC). A lacuna nessa avaliação é que os dois estágios não envolveram mudanças globais, mas regionais , que afetaram o noroeste da Europa, leste da América, Groenlândia e Islândia.

Um estudo com 700 registros climáticos mostrou que a única vez em que o clima mudou ao mesmo tempo e da mesma maneira em todo o mundo nos últimos 2.000 anos foi nos últimos 150 anos, nos quais mais de 98% dos A superfície do planeta sofreu um aumento de temperatura.
2. As mudanças são devidas a manchas solares ou raios cósmicos

As manchas solares são regiões da superfície do sol que abrigam uma actividade magnético intenso e pode ser acompanhada por erupções solares. Embora esses pontos tenham a capacidade de modificar o clima da Terra, desde 1978 os cientistas usam sensores em satélites para obter um registro de energia solar que chega ao planeta e não observam a existência de uma tendência ascendente. Eles não podem ser a causa do recente aquecimento global.


Comparação das mudanças globais de temperatura na superfície da Terra (linha vermelha) e energia solar recebida pela Terra (linha amarela) em watts (unidades de energia) por metro quadrado desde 1880. NASA , CC BY

Os raios cósmicos são elevados - a radiação de energia proveniente de fora do sistema solar surgiu, talvez em galáxias distantes. Em alguma ocasião , foi apontado que esses raios poderiam ser uma das razões pelas quais as nuvens são "fabricadas"; portanto, se a quantidade de raios que chegasse à Terra fosse reduzida, o número de nuvens diminuiria, o que os levaria a menos luz solar refletida no espaço e, como conseqüência, o planeta aqueceu.

No entanto, essa teoria tem duas armadilhas. Em primeiro lugar, a ciência mostra que os raios cósmicos não são muito eficazes ao criar nuvens e, em segundo lugar, nos últimos 50 anos, a quantidade de radiação cósmica que chega à Terra aumentou para estabelecer novos recordes durante os últimos anos. Se a hipótese estivesse correta, os raios cósmicos deveriam esfriar o planeta , mas a verdade é que o contrário está acontecendo.
3. CO₂ é apenas uma pequena parte da atmosfera, por isso não pode aquecer muito


O artigo de Eunice Newton Foote, Circunstâncias que afetam os raios solares , publicado em 1857 pelo American Journal of Science .

Quanto ao argumento atribuído à escala do "senso comum" de que uma pequena parte de algo não pode gerar um efeito significativo, basta lembrar que apenas 0,1 gramas de cianeto são necessários para matar uma pessoa adulta, ou seja, 0,0001% do seu peso corporal. Esses dados podem ser comparados com a presença de dióxido de carbono na atmosfera ( 0,04% ), ao qual se acrescenta o fato de ser um potente gás de efeito estufa. Por outro lado, o nitrogênio compõe 78% da atmosfera e dificilmente reativa.É uma tentativa de jogar uma carta de bom senso, mas erra o tiro. Em 1856, a cientista americana Eunice Newton FooteEle conduziu um experimento com uma bomba de ar, dois cilindros de vidro e quatro termômetros com os quais mostrou que um cilindro exposto à luz solar que contém dióxido de carbono retém mais calor e por mais tempo do que um cilindro que hospeda ar normal. Desde então, a ciência repetiu esse experimento tanto em laboratórios quanto na atmosfera, chegando repetidamente à mesma conclusão: o dióxido de carbono emite mais gases de efeito estufa.
4. Os cientistas manipulam os dados para mostrar a tendência de aumento da temperatura

Não apenas isso não é verdade, mas é uma manobra simplista usada para atacar a credibilidade dos cientistas que estudam o clima. Para que uma conspiração dessas dimensões seja possível, seria necessário que milhares de cientistas de mais de 100 países concordassem ao mentir sobre os dados obtidos.

Os cientistas corrigem e validam continuamente as informações coletadas. Por exemplo, entre nosso trabalho está a correção dos registros históricos de temperatura , uma vez que os sistemas de medição variaram ao longo do tempo.

Entre 1856 e 1941, a maioria das medições da superfície do mar foi realizada levantando a água com um balde do convés do navio. Este método não oferecia garantias, uma vez que no início eram utilizados cubos de madeira e depois eram usados ​​de lona. Da mesma forma, a mudança de barcos à vela para barcos a vapor alterou a temperatura da água da mesma maneira, uma vez que a diferença de altura entre os navios tornava a evaporação maior ou menor em cada caso, quando a água chegava ao convés. Desde 1941, a maioria das medições é feita através do sistema de entrada de água dos navios, para que você não precise se preocupar com o resfriamento produzido pela evaporação.

Por outro lado, devemos levar em conta que muitas cidades cresceram em tamanho, de modo que as estações meteorológicas que antes estavam em áreas rurais agora são integradas em áreas urbanas que geralmente têm temperaturas mais altas do que as áreas circundantes. .

Se os cientistas não tivessem modificado as medidas originais, os números do aquecimento da Terra nos últimos 150 anos teriam sido ainda maiores do que realmente são. Atualmente, o aumento da temperatura é de 1˚C .


Reconstrução da temperatura global de 1880 a 2018 por cinco grupos internacionais de cientistas independentes. NASA , CC BY
5. Os modelos climáticos não são confiáveis ​​e são sensíveis demais ao dióxido de carbono

Essa afirmação está incorreta e demonstra um entendimento insuficiente sobre a operação dos modelos, enquanto prejudica a extensão das mudanças climáticas. Existe uma grande variedade de modelos climáticos , desde aqueles que lidam com mecanismos específicos, como ciclos de nuvens, até modelos de circulação geral (CGM), que são usados ​​para prever o clima futuro do nosso planeta.

Existem mais de 20 centros em todo o mundo, onde algumas das pessoas mais inteligentes do planeta moldaram e executam modelos de circulação geral que contêm milhões de linhas de código que representam a vanguarda do que se sabe sobre o sistema climático. Esses modelos são testados continuamente com dados históricos e paleoclimáticos, bem como com eventos climáticos independentes, como grandes erupções vulcânicas, para confirmar que eles reconstroem o clima corretamente (como é de fato).


Reconstrução a partir de um modelo de temperatura global desde 1970. As diferentes séries e a média dos modelos são representadas em cinza e preto, respectivamente, para compará-las com os registros de temperatura observados pela NASA, NOAA, HadCRUT, Cowtan e Way e Berkeley Earth. Resumo do carbono , CC BY

Um modelo, por si só, não deve ser considerado correto, pois representa um sistema climático global extremamente complexo. No entanto, ao ter tantos modelos diferentes construídos e calibrados de forma independente, podemos confiar em sua confiabilidade quando eles correspondem aos seus resultados.

Ao estudar os resultados de todos os modelos, observamos que a duplicação das emissões de dióxido de carbono poderia aumentar a temperatura entre 2 ° C e 4,5 ° C , com uma média de 3,1 ° C. Todos os modelos mostram aquecimento significativo quando é adicionado dióxido de carbono extra à atmosfera. Embora a complexidade dos modelos tenha aumentado, a escala de aquecimento esperada permaneceu em escalas semelhantes nos últimos 30 anos, demonstrando sua eficácia.

Após combinar o conhecimento científico sobre o aquecimento e o resfriamento do clima a partir de fatores naturais (energia solar, vulcânica, aerossóis e ozônio) e fatores artificiais (gases de efeito estufa e mudanças no uso da terra), podemos garantir que 100% do aquecimento observado nos últimos 150 anos se deve a seres humanos.


Influências naturais e a mão do homem nas temperaturas globais desde 1850. Carbon Brief , CC BY

Não existe um argumento científico único para negar sistematicamente as mudanças climáticas. O Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima ( IPCC ), criado pelas Nações Unidas para aproximar a ciência do clima dos cidadãos, oferece seis evidências irrefutáveis ​​sobre a mudança climática . À medida que mudanças climáticas extremas se tornam cada vez mais comuns, as pessoas percebem que não precisam de cientistas para lhes dizer que o tempo está mudando, uma vez que o estão experimentando na primeira pessoa.


Mark Maslin , Professor de Ciências do Sistema Terrestre, UCL

Este artigo foi publicado originalmente na The Conversation . Leia o original .

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Mudanças climáticas ameaçam pesca e vida marinha na corrente de Humboldt, diz FAO


O aquecimento global ameaça a pesca no Chile, Equador e Peru, aponta um novo informe da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Divulgado nesta semana (5), o relatório mostra que a elevação da temperatura global põe em risco o ecossistema formado pela corrente marítima de Humboldt, responsável em grande medida por sustentar a atividade pesqueira nos três países sul-americanos.


Cardume de peixes em Belize. Foto: Flickr (CC)/Alex Bennett

O aquecimento global ameaça a pesca no Chile, Equador e Peru, aponta um novo informe da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Divulgado nesta semana (5), o relatório mostra que a elevação da temperatura global põe em risco o ecossistema formado pela corrente marítima de Humboldt, responsável em grande medida por sustentar a atividade pesqueira nos três países sul-americanos.

Segundo a agência da ONU, a disponibilidade de peixes no sistema da corrente de Humboldt é controlada principalmente pelo clima e seus efeitos sobre a produção de fitoplâncton, a base de toda a cadeia alimentar marinha. Durante as últimas décadas, o ecossistema criado por esse fluxo marítimo produziu mais peixes por unidade de área do que qualquer outro sistema no mundo.

Mas com uma clima mais quente, os eventos conhecidos como El Niño e La Ninã poderão ocorrer mais frequentemente, provocando uma diminuição na abundância de plâncton. Os efeitos de ambos os fenômenos são mais notáveis justamente ao longo do sistema da corrente de Humboldt.

De acordo com a FAO, estima-se uma redução geral no volume de fitoplâncton e zooplâncton para o ecossistema, como resultado de um esgotamento em larga escala dos nutrientes em águas subterrâneas. O fenômeno está associado ao aquecimento do planeta. A extensão média da área rica em zooplâncton deverá encolher em 33% nas zonas norte e central do sistema de Humboldt e em 14% na região ao sul da corrente.

Em média, 9,35 milhões de toneladas de peixes marinhos, moluscos e crustáceos foram capturados a cada ano no Chile e no Peru, de 2005 a 2015. Nesses dez anos, a agência da ONU identificou uma notável tendência decrescente do volume de pescado, principalmente devido à aplicação de planos de manejo mais rigorosos, mas também por conta de variações climáticas e, em alguns casos, da superexploração.

A região Norte-Centro do Peru registrou 75% do total de capturas, o sul do Peru e o norte do Chile responderam por quase 20%, e a região central do Chile contribuiu com menos de 5%.

A publicação da FAO mostra que modelos globais preveem, para 2050, uma redução moderada no potencial de captura do Chile e do Peru. Isso porque as mudanças climáticas podem impedir significativamente o sucesso da desova de pequenos peixes pelágicos, visados pelo setor industrial.

Estudos coletados pelo organismo das Nações Unidas antecipam ainda uma maior estratificação — quando massas de água com diferentes propriedades formam camadas que atuam como barreiras para a mistura de nutrientes. Outra consequência das mudanças climáticas incluem um forte aquecimento da superfície das águas peruanas e, em menor grau, das águas chilenas.

O sistema da corrente de Humboldt também é caracterizado pela presença de uma zona estendida de oxigênio mínimo. Trata-se de uma espessa camada de água a algumas dezenas de metros abaixo da superfície, onde a concentração de oxigênio é tão baixa que, com exceção das bactérias, apenas algumas espécies podem sobreviver temporariamente. Essa camada também pode se expandir em um mundo mais quente.
Recomendações para garantir a sustentabilidade da pesca

Embora essas projeções tenham um alto nível de incerteza, o informe da FAO elenca diferentes medidas para evitar que o aquecimento global prejudique o ecossistema marinho da corrente de Humboldt. Entre as orientações propostas, estão a institucionalização de modelos de governança participativos, a realização de estudos científicos especializados e melhorias no monitoramento.

A agência da ONU indica também que aumentar o controle da pesca, reduzindo a atividade para níveis sustentáveis, poderia ter um efeito social negativo a curto prazo, mas é uma estratégia indispensável para proteger a sustentabilidade nas próximas décadas.

Outra política sugerida é crescer a proporção de peixes para consumo direto humano, o que promoveria a segurança alimentar e, ao mesmo tempo, a aquicultura sustentável. A FAO ressalta a necessidade de reduzir os descartes e o desperdícios de peixe. O estudo destaca ainda que o uso de gás natural renovável, no lugar de combustíveis pesados, diminuiria a pegada de carbono do setor pesqueiro.

Acesse a publicação Impactos das mudanças climáticas na pesca e na aquicultura: Síntese do conhecimento atual, opções de adaptação e mitigação clicando aqui (em inglês).

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

O que é 'cegueira vegetal' e por que ela é vista como ameaça ao meio ambiente


Christine Ro


Direito de imagemGETTY IMAGESImage caption
Dada a importância das plantas à nossa sobrevivência, como os humanos se tornaram 'cegos vegetais'?

Qual foi o último animal que você viu? Você consegue lembrar de sua cor, tamanho e forma? Você consegue distingui-lo com facilidade de outros animais?

Agora, e quanto à última planta que você viu?

Se as suas imagens mentais de animais são mais precisas que as das plantas, você não está sozinho. As crianças reconhecem que os animais são seres vivos antes de entender que plantas também são vivas. Testes de memória também mostram que voluntários de pesquisas lembram-se de figuras de animais melhor que imagens de plantas.

Por exemplo, um estudo americano testou a "piscada da atenção", ou seja, a habilidade de perceber uma ou duas imagens rápidas, usando fotos de animais, plantas e objetos não relacionados. Isso mostrou que os participantes detectavam melhor imagens de animais do que plantas.

Essa tendência é tão comum que Elisabeth Schussler e James Wandersee, uma dupla de botânicos e educadores americanos, criaram um termo para isso em 1998: "cegueira vegetal". Eles descreveram isso como "a inabilidade de ver ou perceber as plantas no seu ambiente".





Direito de imagemAMANDA RUGGERI/BBCImage caption
A 'cegueira para plantas' é 'a inabilidade de ver ou perceber as plantas no seu ambiente'

Não é de se admirar que a cegueira vegetal resulte em uma subapreciação das plantas - e um interesse limitado na conservação delas. Cursos de biologia das plantas estão fechando ao redor do mundo em uma velocidade impressionante e o investimento público para a ciência das plantas está diminuindo.

Por mais que ainda não tenham sido feitos estudos sobre a dimensão da cegueira vegetal e sua mudança com o tempo, a crescente urbanização e o tempo gasto com aparelhos eletrônicos indica que há uma maior "desordem de déficit de natureza" (o prejuízo causado a humanos por se alienar da natureza). E menos exposição a plantas significa mais cegueira vegetal. Como explica Schussler, "os humanos só conseguem reconhecer (visualmente) o que eles já conhecem".

Isso é problemático. A conservação de plantas importa para a saúde ambiental. E também importa para a saúde humana.

A pesquisa sobre plantas é essencial para muitas descobertas científicas, desde colheitas de alimentos até remédios mais eficazes. Mais de 28 mil espécies de plantas são usadas na medicina, incluindo drogas anticâncer derivadas de plantas e anticoagulantes.




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A vinca de Madagascar contém dois alcalóides que são usados para combater leucemia e doença de Hodgkin's

Fazer experimentos com plantas também oferece uma vantagem ética sobre o teste em animais: técnicas versáteis de áreas como alteração de genoma podem ser refinadas usando plantas, que são fáceis e baratas para reproduzir e controlar. Por exemplo, a sequência do genoma da Arabidopsis, uma planta com flores importantes para a pesquisa da biologia, foi um marco não apenas na genética das plantas, mas no sequenciamento de genoma em geral.

Dada a importância das plantas à nossa sobrevivência, como os humanos se tornaram "cegos vegetais"?
Vendo verde

Há motivos cognitivos e culturais pelos quais animais, até mesmo de espécies não importantes objetivamente para os humanos, sejam mais fáceis de distinguir.

Parte disso é porque categorizamos o mundo. "O cérebro é fundamentalmente um detector de diferenças", explicam Schussler e Wandersee.

Porque as plantas mal se movem, crescem perto uma das outras, e muitas vezes têm cores parecidas, nossos cérebros tendem a agrupá-las juntas. Com cerca de 10 milhões de bits de dados visuais transmitidos por segundo pela retina humana, o sistema visual humano filtra coisas não ameaçadoras, como plantas, e as coloca no mesmo grupo.


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Nossos cérebros tendem a agrupar as plantas por elas terem cores parecidas (Foto: Amanda Ruggeri)

Isso não se restringe a humanos. Uma capacidade de atenção limitada pode afetar até a forma como pássaros veem plantas e insetos ao seu redor.

Há também nossa preferência por similaridade biocomportamental: como primatas, tendemos a perceber criaturas que são mais parecidas conosco.

"Pela minha experiência com grandes primatas, eles geralmente estão mais interessados em criaturas mais parecidas com eles em termos de aparência", diz Fumihiro Kano, da Universidade de Kyoto, no Japão. Nos humanos, há um elemento social nessa preferência visual.

"Primatas criados entre humanos se interessam mais em imagens de humanos do que de não humanos, incluindo de sua própria espécie", diz Kano.

Nas sociedades humanas, a ideia de que animais são fundamentalmente mais interessantes e visíveis que plantas é constantemente reforçada. Nós damos nome a muitos deles, os descrevemos com características humanas.

E prestamos atenção inclusive a variações individuais entre eles: a personalidade de um cachorro, por exemplo, ou a paleta de cores única de uma borboleta.

Ver os animais como parecidos - ou mais parecidos - conosco provoca uma certa empatia. Isso é chave para as decisões sobre conservação.

A maioria de nós sente propelida a querer proteger ursos polares, por exemplo, não porque temos uma lista racional de motivos pelos quais precisamos deles, mas porque eles tocam nossos corações, diz a psicóloga ambiental Kathryn Williams, da Universidade de Melbourne, na Austrália.

Até mesmo dentro da conservação animal, alguns bichos carismáticos (especialmente mamíferos grandes que olham para a frente) recebem muito mais atenção. A pesquisa de Williams mostrou que as pessoas apoiam muito mais a conservação de espécies com características parecidas com a de humanos.


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Uma orquídea em extinção na Reserva de Fakahatchee em Copeland, Flórida - as plantas representam 57% das espécies em perigo de extinção dos EUA

O desafio é muito maior para as plantas. Em 2011, as plantas representavam 57% das espécies em perigo de extinção nos EUA - mas receberam menos de 4% do investimento público em espécies em extinção.

"Construir essas conexões emocionais com ecossistemas e espécies de plantas é crucial para a preservação de plantas", diz Williams.


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Construir conexões emocionais com ecossistemas e espécies é crucial para a preservação de plantas

É claro que a Ciência não é um jogo de soma zero em que mais interesse e mais recursos aplicados em alguma coisa signifique menos investimento em outra. Mas, assim como qualquer outro tipo de preconceito, reconhecê-lo é o primeiro passo para reduzi-lo.
Tornando-se 'menos cego'

Um fator chave para reduzir a cegueira vegetal é aumentando a frequência e variedade de maneiras através das quais vemos as plantas.

Isso pode começar cedo - como diz Schussler, que é professor de biologia da Universidade de Tennessee (EUA) - "antes dos estudantes começarem a dizer que estão entediados com as plantas". Um projeto de ciência cidadã que tenta mudar isso é o TreeVersity, que pede para pessoas comuns ajudarem a classificar imagens de plantas do Arbóreo Arnold, da Universidade Harvard.

Interações diárias com plantas é a melhor estratégia, diz Schussler. Ela também cita falar sobre conservação de plantas em parques locais e jardinagem.


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É importante envolver crianças com as plantas cedo, como em caminhadas na natureza, como nessa foto tirada nos Jardins Botânicos Reais, Kew, em Londres

As plantas também podem ser mais enfatizadas na arte. Dawn Sanders, da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, que colaborou em projetos de arte e meio ambiente no Jardim Botânico de Gotemburgo, descobriu que imagens e histórias são importantes para conectar os alunos com as plantas.

O trabalho de Sanders também indica variações culturais. "A cegueira vegetal não é aplicada a todas as pessoas da mesma maneira", diz ela. Comparado ao estudo inicial com estudantes americanos, diz ela, "nós temos descoberto que nossos alunos suecos se conectam com as plantas através de memória, emoção e beleza, especialmente durante o verão ou os primeiros dias da primavera".

Por exemplo, a vitsippa (Anemone nemorosa) é valorizada como mensageira da primavera.

Na Índia, a ligação entre humanos e plantas pode ter mais a ver com religião e medicina. "Seu valor certamente é vivido em um nível visceral", diz Geetanjali Sachdev, que pesquisa arte e educação botânica na Escola Srishti de Arte, Design e Tecnologia em Bangalore.

"Nós não podemos escapar disso porque as plantas estão muito interligadas com vários aspectos da vida cultural indiana".





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Geetanjali Sachdev notou desenhos em referência a plantas em todos os cantos nas cidades indianas (Foto: Geetanjali Sachdev)

Sachdev tem documentado a presença dos motivos vegetais nas cidades indianas: desde flores de lótus pintadas em tanques de água até desenhos botânicos no chão.

Essas imagens vão além das flores, que tão frequentemente dominam a ligação com plantas nos países ocidentais. "De uma perspectiva mitológica, árvores, folhas e flores poderiam todas ser significativas, mas, com as perspectivas medicinais da ayurveda (uma forma indiana de medicina tradicional), muitas outras partes das plantas têm valor - folhas, raízes, flores e sementes", diz ela.

Portanto, a cegueira vegetal não é universal nem inevitável. "Apesar de nossos cérebros humanos serem programados para não ver as plantas, podemos superar isso com uma percepção maior", diz Schussler.


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Um mural no primeiro bairro de arte pública na Índia, a Colônia Lodhi de Nova Déli, é mais um exemplo de motivos botânicos

Williams também está otimista quanto ao aumento da empatia pelas plantas. "É plausível, tem a ver com imaginação", diz ela.

Até mesmo personagens fictícios de plantas estão aparecendo. Dois do mundo dos quadrinhos são McPedro, o cactus escocês que aparece na série webcomic Girls with Slingshots, e o super herói da Marvel Groot.

A oferta global de alimentos está enfrentando mais desafios do que nunca hoje devido a uma combinação de aumento populacional, escassez de água, diminuição de terras para agricultura e mudanças climáticas. Pesquisas com biocombustíveis mostram que as plantas também são importantes fontes em potencial de energia renovável. Isso significa que é necessário saber detectar, aprender e inovar com nossos amigos verdes. Nosso futuro depende disso.
BBC Brasil

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