quinta-feira, 22 de setembro de 2022

A Interface entre Desmatamento e Urbanização na Amazônia Brasileira





A Interface entre Desmatamento e Urbanização na Amazônia Brasileira

Julia Corrêa CôrtesRoberto Donato da Silva Júnior

Abstract

The urban becomes fundamental in the reconciliation of environmental issues given the current global urbanization. This study aims to pursue guidelines for developing a methodological approach that enlightens the relations between deforestation and urbanization in the Amazon. Considering the intense urban transition undergoing in the region, a systematic review was conducted to understand the state of knowledge and challenges of this scope. The analysis highlighted four investigative perspectives with relevant contributions, which could be better articulated with adjustments in the analysis system, an urban conceptual reformulation, and also with variables sensitive to socio-spatial dynamics. Approaches to social theory of mobility and risk have supported the design of an urban critical theory in line with the multidimensionality and transscalarity of the urban fabric socio-landscapes. By adding analytical perspectives from the spatial demography field, the study presents a theoretical-methodological framework to approach the contemporary interface between deforestation and urbanization.

Keywords:
Urban fabric; land use and cover; critical social theory

Resumen

Lo urbano se vuelve fundamental en la reconciliación de los problemas ambientales dada la actual urbanización global. Este estudio tiene como objetivo buscar un enfoque metodológico que ilumine las relaciones entre la deforestación y urbanización en la Amazonía. Se realizó una revisión sistemática para comprender el estado del conocimiento y los desafíos de este alcance. El análisis destacó cuatro perspectivas de investigación con contribuciones relevantes, que podrían articularse mejor con ajustes en el sistema de análisis, una reformulación conceptual de lo urbano y con variables sensibles a la dinámica socioespacial. Los enfoques de la teoría social de la movilidad y el riesgo apoyan la concepción de una teoría crítica urbana consistente con la multidimensionalidad y transescalaridad de las configuraciones socio-paisajísticas del tejido urbano. Se presenta un marco teórico-metodológico con la perspectiva analítica de la demografía espacial para comprender la interfaz contemporánea entre la deforestación y la urbanización.

Palabras-clave:
Tejido urbano; uso y cobertura del suelo; teoría social crítica

Resumo

No atual processo global de urbanização, o urbano torna-se elemento central na reconciliação das questões ambientais. Neste estudo, objetivou-se trabalhar diretrizes para subsidiar uma abordagem metodológica que explicite as relações entre desmatamento e urbanização na Amazônia. Considerando intensa transição urbana na região, realizou-se uma revisão sistemática da literatura para compreender o estado de conhecimento e desafios deste escopo. Destacou-se quatro frentes investigativas com relevantes contribuições, mas que poderiam ser melhor articuladas entre si com ajustes no sistema de análise, reformulação conceitual de urbano e indicadores sensíveis às dinâmicas socioespaciais. Através das abordagens da teoria social das mobilidades e do risco refletiu-se sobre a concepção de uma teoria crítica urbana condizente com a multidimensionalidade e transescalaridade das configurações sociopaisagísticas do tecido urbano. Com a incorporação dos enquadramentos analíticos da demografia espacial, o artigo propõe um conjunto de direcionamentos teórico-metodológicos para abordar a contemporânea interface entre desmatamento e urbanização.

Palavras-chave:
Tecido urbano; uso e cobertura da terra; teoria social crítica

Introdução

O papel que a Amazônia desempenha na manutenção dos serviços ecológicos projeta este bioma à uma escala de relevância global (ALENCAR et al., 2004; BECKER, 2005; RAMOS, 2001). No âmbito nacional, sua dinâmica hidrológica influencia no regime de chuvas de outras partes do país, processo descrito pela teoria dos rios voadores (VIANA, 2011). No plano global, assume um papel preponderante no cenário das mudanças climáticas pelo estoque de carbono presente em sua cobertura vegetal e no solo (KISSINGER; HEROLD; DE SY, 2012; NOBRE; SAMPAIO; SALAZAR, 2007). Por estas, e outras razões de ordem ambiental e econômica, a Amazônia desperta interesses diversos e ganha espaço proeminente nas discussões mundiais que tangenciam os impactos causados pelas atividades humanas, com destaque o desmatamento florestal.

O desmatamento é, talvez, o desafio de maior relevância e complexidade no debate sobre conciliação entre conservação e desenvolvimento regional na Amazônia. Com a implementação do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento Legal (PPCDAm) pelo Governo Federal1, em 2004, a taxa de desmatamento na região caiu significativamente, segundo dados do Sistema de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal (PRODES/INPE). A principal redução ocorreu na primeira fase do programa (2004 - 2008) impulsionada pela criação de Unidades de Conservação e Terras Indígenas. Desde 2014, quando o desmatamento atingiu seu menor valor, especula-se uma retomada de crescimento nas taxas anuais, conforme indica os dados do PRODES/INPE ilustrados no gráfico na Figura 1 - e reforçados pelo balanço mensal de alerta de desmatamento pelo sistema Deter do INPE (INPE, 2020).

Assim como a contenção do desmatamento exigiu ações coletivas e em diferentes esferas de atuação, a intensificação das taxas de desmatamento resulta também de um amplo conjunto de forças e de contextos geográficos e históricos (BARRETO; ARAÚJO, 2012; BRASIL, 2009). O atual cenário político-governamental, algumas medidas legais (como a chamada lei da grilagem), a baixa atividade econômica geral do país, os preços de commodities (como soja e carne bovina) e a taxa de câmbio da moeda brasileira em relação ao dólar dos EUA foram alguns pontos sugeridos por Fearnside (2019) para explicar a recente retomada do desmatamento.

A compreensão sobre os fatores e atores envolvidos no desmatamento e as formas que sinergicamente agem requer distintas abordagens investigativas e fundamentações disciplinares, dada sua transescalaridade e interdisciplinaridade (GEIST; LAMBIN, 2001; MORAN; BRONDÍZIO, 1998; TURNER; LAMBIN; REENBERG, 2007). Os estudos científicos tendem a priorizar narrativas regionais pautadas em fatores político-econômicos (CÔRTES; D’ANTONA, 2014), ofuscando diferenças inter e intra regionais, assim como as motivações pessoais (MORAN; BRONDÍZIO; BATISTELLA, 2008). O fomento às ações de conservação florestal e controle do desmatamento requer um olhar abrangente do fenômeno, que seja sensível às questões socioculturais dos agentes envolvidos e que incorpore a percepção local onde as decisões se materializam, sem desconsiderar contextos estruturados pela urbanização.




Figura 1
Série temporal das taxas de desmatamento anual na Amazônia Legal (1994 - 2019), com destaque o período pós implementação do PPCDAm.




A condição urbana é o fator central em qualquer discussão ambiental na atualidade (SASSEN, 2009). Observar os processos transformativos rurais a partir de uma concepção autônoma de ruralidade é uma estratégia defasada, consentindo que são construções sociopaisagisticas interligadas às dinâmicas sociais e materiais situadas nos conglomerados urbanos (CÔRTES et al., 2020; SASSEN, 2009). Apesar de ser considerada uma floresta urbanizada (BECKER, 2013), há pouco consenso sobre as interações entre o processo de urbanização e as mudanças no uso e cobertura da terra na Amazônia.

Reconhecendo esta lacuna, o objetivo do estudo é buscar diretrizes teórico-conceituais que apontem para a construção de uma abordagem metodológica capaz de explicitar a interface entre urbanização e desmatamento. Para isso, realizou-se uma revisão sistemática da literatura para o levantamento do estado de conhecimento do tema, obtendo como resultado os avanços e concordâncias entre os campos de estudo, e destacando os desafios que são originários de uma concepção ainda antagônica do rural-urbano e das premissas nas construções do sistema de análise. A partir de uma reflexão teórica sobre a redefinição desses espaços e suas lógicas relacionais, construiu-se um conjunto de direcionamentos que entrelaça diálogos entre estudos urbanos e a teoria social crítica oferecendo uma orientação para novas investigações empíricas no âmbito do campo das mudanças no uso e cobertura da terra.
A floresta urbanizada: transição urbana na Amazônia

O Fundo de População das Nações Unidas, a agência de desenvolvimento internacional da ONU que trata de questões populacionais, tem reforçado que a urbanização é o componente de maior influência no desenvolvimento dos países atualmente (ONU, 2014). Segundo a teoria da transição urbana (SKELDON, 1990), a urbanização se processa pela passagem gradual da população de predominantemente rural para urbana, um fenômeno intrínseco das sociedades em desenvolvimento econômico e, portanto, previsto a ocorrer inexoravelmente de forma global (MARTINE; MCGRANAHAN, 2013; MONTGOMERY et al., 2003).

A análise nos diferentes contextos históricos e geográficos comprova que a urbanização se intensifica ao longo do tempo, encurtando o período de transição da sociedade rural-agrícola para urbana-industrial (ALPHAN, 2003; COHEN, 2004; MARTINE; MCGRANAHAN, 2010a; ONU, 2014). Ponderando as especificidades de cada país, a população mundial já é majoritariamente urbana desde 2007 (MARTINE; MCGRANAHAN, 2010a, 2010b). No Brasil, essa transição ocorreu durante a década de 1960 e conforme mostra os dados de 2017, 85% da população brasileira vive em áreas urbanas (PNAD, 2017). O país é reconhecido por uma transição urbana precoce e uma das mais aceleradas da história mundial (MARTINE; MCGRANAHAN, 2010a).

Na região Norte do país, a transição urbana iniciou-se mais tardiamente em comparação com o eixo sul-sudeste do país. Enquanto o Brasil atingiu o grau de urbanização superior à 50% ao longo da década de 1960 (impulsionada pela região Sudeste), a região em que se insere o bioma amazônico só se tornou majoritariamente urbana no fim da década de 1970 (Figura 2). Em 2010, a população urbana na região Norte representava 73% do total, a menor proporção no país ao lado da região Nordeste, entretanto, com a maior taxa de crescimento da população urbana (IBGE 2010). Este panorama evidencia a intensidade da urbanização na região e sugere haver uma trajetória significativa ainda a percorrer, fortalecendo a necessidade do planejamento urbano regional.

Para Corrêa (1987), a rede urbana na Amazônia pode ser descrita em sete momentos, tendo como caráter discriminatório as formações econômicas do contexto. São elas: 1) a fundação de Belém em 1616 pelos portugueses como início do controle defensivo do território; 2) a criação das aldeias missionários e o extrativismo das drogas do sertão com exploração do trabalho indígena (1655 a 1750); 3) introdução da agricultura comercial e a transformação de aldeia em vilas, como por exemplo Aveiro e Santarém (1755 a 1778); 4) estagnação econômica da região e da vida urbana (1778 a 1850); 5) o “boom” econômico da borracha e valorização da economia regional com introdução da navegação a vapor e migração nordestina (1850 a 1920); 6) crise da produção da borracha e consequente estagnação econômica da região (1920 a 1960); 7) redefinição do papel da região na divisão territorial do trabalho e sua incorporação ao processo geral de expansão capitalista no país (a partir de 1960).




Figura 2
Série temporal do grau de urbanização e do crescimento da população urbana segundo as Grandes Regiões do Brasil, 1950 - 2010




Até 1960 a urbanização se estruturava em uma rede dentrítica orientada por uma lógica fluvial, com cidades estrategicamente localizadas para conquista e defesa - remetendo ao processo de colonização. Neste período, a região continha duas importantes referências urbanas, Manaus e Belém, um elevado número de pequenos núcleos e a ausência de centros intermediários (KAMPEL; CAMARA; MONTEIRO, 2001; PEREIRA, 2006). A transição para uma rede complexa regional ocorreu após 1960, acompanhada por uma mudança de natureza e significado da rede urbana sendo, portanto, um marco temporal da urbanização amazônica (BECKER, 1985, 1995; BROWDER, 2003; BROWDER; GODFREY, 1997; HOGAN; D’ANTONA; CARMO, 2008; KAMPEL; CAMARA; MONTEIRO, 2001).

A urbanização foi parte dos planos de ocupação da fronteira agrícola na década de 1960, considerada uma das vertentes estratégicas para a rápida ocupação da região almejada pelo governo militar em vigência (BECKER, 2001, 2013). A presença definitiva do Estado através de um conjunto de intervenções, instituições e ideologias, compunham políticas de migração, atraindo pessoas principalmente da região Nordeste do país. Os projetos de colonização tinham como propósito promover os lotes individuais aos pequenos produtores, mas também a formação de agrovilas considerados núcleos urbanos (MELLO, 2006) - muitas assumindo posteriormente a função de centros regionais (HOGAN; D’ANTONA; CARMO, 2008; MELLO, 2006; MORAN, 1981).

Assim, a fronteira urbana promoveu inicialmente a dispersão de pequenas aglomerações e o isolamento destas da vida urbana nas capitais estaduais, e posteriormente, ao longo da década de 70, a formação das regiões metropolitanas e aparecimento de novos adensamentos populacionais (CASTRO, 2006; KAMPEL; CAMARA; MONTEIRO, 2001; MELLO, 2006; PEREIRA, 2006). De um lado, grandes centros antigos, como Manaus e Belém, cresceram em termos de volume populacional pelo adensamento e espraiamento do centro urbano, por outro, surgiram pequenos municípios em áreas antes com floresta ou vilas rurais isoladas, como Brasil Novo e Medicilândia (BECKER, 1985; HOGAN; D’ANTONA; CARMO, 2008).

Atualmente a estrutura urbana na Amazônia já é caracterizada pela predominância dos municípios médios, mas ainda mantêm a baixa conectividade e distribuição dispersa (PEREIRA, 2006). Num processo de convergência com os padrões nacionais, a região da Amazônia se torna cada vez mais um território urbano com predominância do tipo migratório urbano-urbano (HOGAN; D’ANTONA; CARMO, 2008). Apesar de expressiva característica, a compreensão do que a transição urbana significa no âmbito do desmatamento ainda é pouco esclarecida (CÔRTES; D’ANTONA, 2014; DEFRIES et al., 2010).
Desmatamento e urbanização: uma revisão sistemática da literatura

As áreas urbanas ainda são pouco abarcadas nos estudos de mudança no uso e na cobertura da terra, o que colabora com a compreensão ainda limitada das relações entre urbanização e desmatamento nas discussões no âmbito da Land Change Science (MORAN, 2010; CÔRTES, D’ANTONA, 2014). Com o propósito de apresentar o estado de conhecimento empírico deste escopo científico e identificar as lacunas e desafios inerentes à essas pesquisas, realizou-se uma análise qualitativa do assunto a partir de uma revisão sistemática da literatura.

O levantamento dos artigos científicos e trabalhos acadêmicos foi realizado na ferramenta de busca do Google Acadêmico, tendo como recorte temporal o período de 2000 a 2019. O critério primário de seleção foi a inserção no campo científico da Land Change Science, o que resultou na inclusão não só de estudos sobre a relação entre urbanização e desmatamento, mas também outros inseridos no escopo de mudança no uso e cobertura da terra que empregaram o “urbano” em algum componente analítico de sua metodologia. Ao final, foram selecionados 20 artigos publicados em revistas científicas indexadas, quatro trabalhos completos publicados em anais de eventos científicos e duas teses de doutorado, totalizando 26 estudos nacionais e internacionais.

O mecanismo de busca de palavras foi sequencial, em um primeiro momento utilizou-se como raiz de procura o sequenciamento de caracteres urban*, alternando o conjunto de palavras adicionais, por exemplo, desmatamento, floresta, Amazônia, uso da terra; e num segundo momento, a raiz de busca foram palavras do campo da Land Change Science, como uso da terra e desmatamento, tendo como conjunto adicional palavras pertencentes ao campo de estudos urbanos, como cidade, centro urbano e urbanidade - no idioma português e inglês. Em ambas as etapas, a definição para inclusão não foi restrita ao título do trabalho, sendo recorrente a pré-leitura do trabalho para avaliação de elegibilidade. A sistematização das informações decorreu da leitura dirigida desses trabalhos tendo como enfoque os seguintes parâmetros: campo disciplinar, objetivo da pesquisa, abordagem do tema urbano, fonte de dados, variáveis aplicadas e resultados. A análise resultou no agrupamento em quatro grandes grupos de estudos.

Um primeiro ponto observado deste exercício foi a multiplicidade de campos disciplinares. Esta constatação reforça a complexidade da dinâmica do uso e cobertura da terra, um fenômeno essencialmente interdisciplinar. A contribuição dessas frentes é profundamente valiosa na medida em que expõe o fenômeno sobre diferentes óticas, aportes teóricos e métodos de pesquisa específicos de cada disciplina (URIARTE; SCHNEIDER; RUDEL, 2010). No entanto, há pouca integração ou diálogo entre os campos, e quando elementos de outras disciplinas são empregados tem seu potencial de compreensão ou aplicação limitado (CÔRTES; D’ANTONA, 2014). Ainda nesta perspectiva, observou-se o interesse reduzido do campo dos estudos urbanos quanto à temática de uso e cobertura da terra. Quando se debruçam na questão ambiental, estes estudiosos costumam abordar a urbanização do ponto de vista da sustentabilidade e mudanças climáticas - ainda que o desmatamento e uso da terra estejam diretamente associados a estas dimensões.

A análise qualitativa final dos 26 estudos mostrou dois grandes grupos que divergem na tratativa do fenômeno urbano nos seus objetivos de investigação. O primeiro grupo estuda os efeitos das mudanças demográficas no uso e cobertura da terra na propriedade, na qual a urbanização é apenas um elemento secundário no sistema de análise para o ajuste dos modelos testados. Já o segundo grupo trabalha a urbanização como o objeto de estudo da pesquisa, explicitamente buscando estabelecer a relação entre urbanização e o uso e cobertura da terra na região de análise.

Com relação ao primeiro grupo, uma característica marcante refere-se ao nível micro da escala da análise. Estes trabalhos são resultados de pesquisas com aplicação de questionários na região da Pan-Amazônia e são conduzidos por pesquisadores inseridos principalmente na Demografia, variando suas formações de base. Por meio de levantamentos sociodemográficos, as mudanças ambientais que ocorrem no nível da propriedade rural são analisadas a partir de fatores correlatos ao ciclo de vida pessoal e domiciliar, que ajustados aos fatores contextuais político-econômicos, permitem abordar as tomadas de decisões do indivíduo e suas motivações pessoais e familiares.

Parte destes estudos propõe compreender como as mudanças na composição e estrutura populacional no domicílio afetam os padrões de uso e cobertura da terra na propriedade - Modelo do Ciclo de Vida Domiciliar2 . Buscando atender as múltiplas dimensões que se imbricam neste sistema, os modelos estatísticos são compostos pelas variáveis endógenas (características populacionais do domicílio) e as variáveis exógenas (contexto político e econômico). Uma das variáveis exógenas aplicadas é a integração com o mercado, sendo que o indicador construído para esta dimensão é “distância do centro urbano mais próximo”. Os resultados encontrados são bastante consistentes, todos os estudos que aplicaram essa variável mostraram que a proporção de floresta na propriedade aumenta quanto mais distante estiverem do centro urbano. Outras classes de uso da terra também indicaram relação significativa: positiva com as culturas anuais e negativa com as culturas perenes e pastagem (CALDAS et al., 2003; CÔRTES, 2017; GUEDES, 2010; GUEDES et al., 2011; PERZ, 2003; PERZ; WALKER; CALDAS, 2006; WALKER et al., 2002)

O outro segmento dos estudos microescalares busca compreender os efeitos das migrações na configuração paisagística da propriedade - para o propósito deste trabalho, apresentou-se os resultados correlatos ao tipo migratório rural-urbano apenas. Nestas abordagens investigativas a urbanização é uma narrativa que circunstância as motivações pessoais e familiares, sendo, portanto, tratada como uma zona de absorção populacional na qual os indivíduos ou grupos são aliciados pelo conjunto de fatores de atratividade migratória, como mercado de trabalho, acesso à educação e serviços, outros.

O trabalho na Amazônia peruana mostrou que a migração feminina para os centros urbanos estaria associada à redução de floresta na propriedade, enquanto que para os homens este tipo migratório estaria relacionado com a expansão da pastagem (BARBIERI; CARR, 2004). Na Amazônia brasileira, por sua vez, o estudo obteve relação significativa da migração rural-urbana com o sistema de produção de alto valor, como culturas perenes e pastagem (VANWEY; GUEDES; D’ANTONA, 2011). Em ambos estudos, há hipóteses quanto as forças de causalidade, que reforçam a existência de relação entre decisões migratórias e padrões paisagísticos da propriedade. Outros estudos, de maior interface com as Ciências Naturais, investigam a capacidade de regeneração florestal após o abandono da propriedade ou das atividades em detrimento da migração do grupo familiar para centros urbanos. Tendo como arcabouço teórico a Teoria da Transição Florestal3 , a regeneração florestal não mostrou estar associada com a migração do tipo rural-urbana, mas relacionada com as características sociodemográficas e ambientais da própria propriedade (BARBIERI; CARR; BILSBORROW, 2009; GRAY; BILSBORROW, 2014; PERZ; SKOLE, 2003; RUDEL et al., 2005; RUDEL; BATES; MACHINGUIASHI, 2002).

Com relação ao segundo tipo de frente investigativa, que busca a compreensão dos efeitos da urbanização nas florestas, as fontes de dados são secundárias e agregadas em nível municipal, regional ou continental. Com maior interface nas Ciências Naturais, os estudos correlacionais trabalham a associação entre o desmatamento e alguns indicadores sintéticos de urbanização, como grau de urbanização e taxa de crescimento populacional. Os resultados encontrados não são generalistas pelas variações no contexto regional, além de estatisticamente frágil, o que evidencia a complexidade eminente desta relação (ALPHAN, 2003; DAL´ASTA et al., 2012; DEFRIES et al., 2010; DENG et al., 2009; HIRYE; DAL´ASTA; MOREIRA, 2013; JORGENSON; BURNS, 2007; KALNAY; CAI, 2003).

O trabalho de DeFries e colegas (2010) analisou o efeito do crescimento da população urbana nos blocos continentais dos países em desenvolvimento. Embora tenham encontrado uma associação positiva entre a taxa de crescimento da população urbana e o desmatamento anual, há significativa variação entre as regiões de análise. Especificamente nos países latino-americanos, a associação mostra que o grupo de países que cresceu na faixa de 2 a 3,5% ao ano teve variação de 85% nos valores de desmatamento anual. Na discussão conclusiva, sugerem que o desmatamento estaria mais associado às demandas por agricultura no urbano e no mercado internacional do que pela dinâmica da população urbana.

Especificamente para a Amazônia brasileira, um estudo interdisciplinar confirmou que a relação entre desmatamento e urbanização não está bem definida (KAMPEL; CAMARA; MONTEIRO, 2001). A análise do desmatamento nos municípios Distrito Florestal Sustentável da BR1634 mostrou que dinâmica urbana reflete diretamente nas taxas de desmatamento, mas dada a heterogeneidade da área de estudo não é possível estabelecer uma relação causal (DAL´ASTA et al., 2012). Buscando padrões espaço-temporais da urbanização e do desmatamento no estado do Pará, um estudo multiescalar reafirmou a complexidade de se estabelecer relações conclusivas entre estes dois fenômenos (RIBEIRO et al., 2019).

Enquanto os estudos correlacionais com ênfase nos indicadores agregados buscam a relação causal entre urbanização e desmatamento, os estudos geoespaciais utilizam ferramentas computacionais para analisar as dinâmicas espaciais da expansão urbana, portanto, enfocando nos atributos físicos da caracterização do espaço urbano. Na comunidade de sensoriamento remoto a grande maioria das abordagens urbanas volta-se para uma discussão de planejamento urbano, abstendo do debate sobre desmatamento propriamente (MORAN, 2010). Um dos pontos trazidos para discussão é a constatação de que as zonas urbanas avançam nas áreas prioritárias para produção de alimentos (ALPHAN, 2003; DENG et al., 2009; HEROLD; GOLDSTEIN; CLARKE, 2003; TANG; WANG; YAO, 2007). Há uma associação entre aumento da área urbana e redução das áreas de agricultura e pastagem no seu entorno (HEROLD; GOLDSTEIN; CLARKE, 2003).

Na Amazônia brasileira, os estudos geoespaciais reforçam que a expansão urbana não tem um efeito significativo na cobertura florestal - mas sim em outros usos da terra. Em Altamira, a expansão urbana promoveu a fragmentação florestal e definiu o padrão espacial dos remanescentes ao longo das rodovias. Em Santarém, onde a urbanização é mais consolidada e antiga, o aumento da área urbana ocorreu pelo surgimento de adensamentos populacionais associados à expansão da soja em outras localidades do município - decorrência do rearranjo espacial interno da população (CÔRTES, 2012; DAL´ASTA et al., 2013; HIRYE; DAL´ASTA; MOREIRA, 2013). Outra análise realizada na região oeste do Pará reforçou que a proporção de floresta convertida em área urbana é baixa, e que a expansão da urbanização ocorre sobretudo em áreas de pastagem (CÔRTES, 2017).

A Figura 3 sintetiza como o urbano é tratado nos componentes teóricos e analíticos dos grupos de estudo considerados na revisão sistemática. Os estudos geoespaciais mostram-se importantes por realçar o urbano como uma classe de uso da terra, portanto, situando a urbanização também como um produto do sistema da mudança no uso e cobertura da terra. Ao mesmo tempo, mostra que o avanço desta classe não explica o desmatamento, tendo em vista que a urbanização avança sobretudo em áreas já desmatadas. Essas constatações revelam como a relação entre os dois fenômenos é complexa e impraticável de se compreender pela via do nexo causal. E por isso a dificuldade em se obter resultados satisfatórios nos estudos correlacionais, que buscam responder como a dinâmica populacional da urbanização promove o desmatamento, ao invés de concebê-los como resultantes de um único panorama demográfico, compartilhando dos mesmos fatores e processos.




Figura 3
Análise da revisão sistemática dos estudos sobre urbanização no âmbito da mudança no uso e cobertura da terra destacando como os componentes urbanos são tratados nas pesquisas e os seus resultados




As causas imediatas5 majoritárias do desmatamento estão correlatas às atividades agropecuárias - e não ao aumento da classe urbana. A interface entre a urbanização e desmatamento perpassa por este plano, tal que o grau de conexão com o urbano seja o elemento norteador da expansão das atividades agropecuárias - o tipo de cultura agrícola, a área cultivada, a intensidade de incremento. Os estudos do ciclo domiciliar provam que ocorre essa associação de maneira espacial, constatando que a proximidade da propriedade rural com o centro urbano reduz a área de floresta e aumenta o uso das classes agrícolas. Os estudos migratórios, por sua vez, dão complementariedade a este quadro ao explicitar como ocorrem esses fluxos de informação, capital e material. Esse panorama sugere que o urbano se propaga nas áreas rurais por meio de um processo amplo e flexível de urbanização capaz de perpetuar valores e práticas tendo como fio condutor os fluxos migratórios da população.

Nessa perspectiva, o urbano deixa de ser o adensamento de uma população abstrata e um território limitado, para ser compreendido como um espaço referencial de circulação social e material que conecta ruralidades em contextos de urbanidades num único plano sociopaisagístico. Com relação ao desmatamento, a urbanização atua por meio da propagação dos fatores subjacentes6, reproduzindo forças motoras que agem sinergicamente na tomada de decisão e, posteriormente, na materialização da ação, o que a médio-longo prazo pode vir a se converter em uma classe urbana de uso da terra. As conexões e dinamismos deste tecido integro de urbanidades é gerido pela mobilidade populacional e vínculos sociais, assim destacando a importância da dimensão socioespacial da urbanização no âmbito da mudança no uso e cobertura da terra.

A revisão sistemática da literatura destacou a contribuição das frentes investigativas e identificou três principais fragilidades metodológicas. Quanto ao sistema de análise, urbanização e desmatamento são tratadas a partir do nexo causa e efeito, o que parece ser incoerente tendo em vista que o espaço urbano é ao mesmo tempo força motora e produto da mudança no uso e cobertura da terra. Com relação as variáveis de referência urbana, os dados e indicadores empregados nos estudos são expressões excludentes dos espaços, reproduzindo a visão antagônica do rural e urbano. Por fim, quanto ao contexto conceitual de urbanização, são descrições que reproduzem o urbano unidimensionalmente, dando ênfase aos aspectos político-econômicos ou aos atributos físicos do espaço. Para o enfrentamento destas problemáticas propõe-se revisitar fundamentações teóricas clássicas e contemporâneas sobre produção do espaço urbano para subsidiar uma reconstrução da urbanização como objeto de análise empírico.
Reflexões teóricas e metodológicas: o urbano como objeto de análise

O arcabouço teórico da Transição Urbana oferece inúmeras vantagens para mensuração da urbanização pela facilidade de cálculo e sua comparabilidade no tempo e espaço. As análises se baseiam no tamanho populacional dos municípios, no crescimento da população urbana e no grau de urbanização, oferecendo um valioso panorama para compreender a evolução urbana, os diferenciais entre regiões e projetar cenários no âmbito da transição urbana (MARTINE; MCGRANAHAN, 2014). Entretanto, seus instrumentos analíticos consideram a população de maneira unidimensional e se baseiam em zoneamentos definidos por critérios administrativos. Assim, a concepção do espaço urbano passa a ser uma derivação de interesses político-econômico.

No Brasil, os perímetros urbanos são definidos por leis municipais e parâmetros singulares. A demarcação desses espaços são instrumentos fiscais que se orientam por questões político-administrativos, visando por exemplo a determinação das taxas de imposto sobre propriedade e parâmetros para construção de edificações (MOURA; OLIVEIRA; PÊGO, 2018). Esses critérios reduzem o urbano e rural à adjetivos territoriais (ENDLICH, 2006) e simplificam a multidimensionalidade do fenômeno ao adotar somente elementos macroestruturais - renegando outras faces do espaço urbano (CÔRTES, 2017). Essa construção, além de artificial, fomenta a antagônica percepção de rural versus urbano, reforçando a defasada percepção entre rural-campo e urbano-cidade (CÔRTES et al., 2020). As críticas a este modelo dicotômico são vastas e de diferentes frentes disciplinares, havendo pleno consenso científico de sua limitação na representação da complexidade dos espaços (CAIADO; SANTOS, 2003; CASTRO, 2006; CHAMPION; HUGO, 2003; SILVA, 2003; WANDERLEY, 2000; UNFPA, 2007).

A produção do espaço urbano resulta de processos sociais, das formas de organização social e econômica, e dos diferentes padrões culturais. Os conceitos, rural e urbano, são portadores de significados que vão além de uma diferenciação espacial da população, elas indicam modos de vida distintos entrelaçadas por relações identitárias com o espaço (“lugar onde se vive”) e com as esferas mais amplas da sociedade (“lugar onde se vê e vive o mundo”) (LEFEBVRE, 1999; WIRTH, 1997). A representação do urbano expressa um modo particular de utilização do espaço e de vida social (KAYSER, 1990), e portanto, o urbano não é uniforme em decorrência das diferentes possibilidades de interações, escolhas, contextos e intensidades. Tampouco é um recorte fixo, bem delimitado e com tipologias constantes, mas sim um espaço em pleno movimento, em contínua transformação (MOURA; OLIVEIRA; PÊGO, 2018).

O processo de urbanização ocorre por um conjunto de vetores que condicionam uma zona de transição entre o urbano e o rural onde se processam as transformações dos aspectos físicos e sociais - dissolvendo a nitidez de seus limites (SPOSITO, 2006). Da combinação das morfologias material (no sentido da cidade) e social (no sentido do urbano) surge uma nova configuração socioespacial da população (LEFEBVRE, 1999). Assim, o rural e o urbano se mesclam num processo de convergência de estilos de vida, que marca uma passagem gradual, sem ruptura e sim continua (CHAMPION; HUGO, 2003; WANDERLEY, 2000). Esta ideia se expressa também no conceito de continuum urbano-rural, na qual o polo urbano assume o papel de dissipador de valores e práticas integrando e conectado os extremos por meio de uma escala de intensidades e não de contrastes (MARQUES, 2002; WANDERLEY, 2003).

A distinção entre os espaços rural e urbano não deve ser eliminada, mas suas funções e conteúdos deixam de ser contraditórios para serem constituintes de um tecido urbano (LEFEBVRE, 1999). Assim, o urbano assume um caráter extensivo, fruto da dinâmica de explosão/implosão da cidade - sobre si e seu entorno imediato, mas também distante (BRENNER; SCHMID, 2015; CÔRTES et al., 2020; MONTE-MÓR, 2005). A urbanização se estende para além das cidades propagando-se em redes que penetram virtualmente os espaços, responsáveis por constituir o então tecido urbano (BRENNER; SCHMID, 2015; MONTE-MÓR, 1994). A urbanização extensiva, assim denominada (MONTE-MÓR, 1994), permite um retorno frutífero à discussão da urbanização que supera a visão dicotômica e retoma a relevância da temática espacial nos estudos urbanos (SILVA; MONTE-MÓR, 2016)

Pela ótica da urbanização extensiva, o urbano contemporâneo emerge como síntese de ambos, rural e urbano, redefinido pelas determinações novas da sociedade da era global, da informação rápida e em rede, do espaço/tempo comprimido (MONTE-MÓR, 2005). Não há um trajeto linear sucessivo com escalas urbanas de classificação, com destino ao que seria uma tipologia mais avançada. Cada escala cumpre uma especificidade na totalidade do processo (MOURA; OLIVEIRA; PÊGO, 2018). Desta perspectiva, a urbanização não é um fenômeno de homogeneização espacial e social, e sim um processo que desencadeia novos e distintos contextos urbanos (CÔRTES et al., 2020; MARQUES, 2002; WANDERLEY, 2000). Essas visões reforçam que a urbanização é expressivamente complexa e desigual (SANTOS, 2012), não havendo um determinismo parcial ou um saber disciplinar que esgote sua definição, o urbano este é ao mesmo tempo histórico, demográfico, geográfico, econômico, sociológico, psicológico, semiológico (LEFEBVRE, 1999).

Nesse sentido, há que se construir um novo enquadramento para o entendimento das relações entre urbanização e o desmatamento. Esse escopo passa também por uma reabsorção das diretrizes teórico-sociais modernas, de forma a se alcançar encaminhamentos metodológicos adequados ao desafio. Do ponto de vista teórico-conceitual da discussão urbana, propõe-se trabalhar a articulação entre os estudos urbanos com a teoria social crítica pela construção de uma teoria crítica urbana, como sugere Brenner (2009). O urbano-rural deve ser compreendido sob a relação entre risco e mobilidade da sociedade contemporânea, tendo em vista que os processos multidimensionais de efetivação da globalização passaram a interligar e reger as dinâmicas sociais em função das complexas condições sociomateriais situadas a partir dos conglomerados urbanos (SASSEN, 2009).

Nesta estratégia, tanto as diferentes dimensões de mobilidade (URRY, 2012) exercidas nas dinâmicas globais (compressão tempo-espaço, conformação de políticas transnacionais, fluxos econômicos, estruturas materiais de interligação, dentro outras), quanto a produção, reconhecimento e tratamento dos riscos contemporâneos (BECK, 2011) estão vinculados aos fluxos socioespaciais urbanos. Portanto, ao buscar explicitação da relação entre a urbanização e desmatamento no contexto amazônico, seria necessário pensar e mensurar os contextos de urbanidades em associação aos processos locais que coadunam e materializam as expressões concretas da produção urbana, concebendo que estão não apenas articuladas à dinâmica ampla de urbanização, mas também ao grau de articulação dessas dinâmicas às forças globalizantes.
Conclusões

A relevância em explicitar as relações entre urbanização e a mudança no uso e cobertura na Amazônia se insere num momento de retomada das taxas de desmatamento florestal em um cenário regional de intensa urbanização. A revisão sistemática da literatura sobre o assunto apresentou os diferentes esforços disciplinares, a amplitude de questionamentos investigativos e as variadas abordagens metodológicas conduzidos nos últimos anos. Há uma importante contribuição e avanço no conhecimento deste tema que consegue esclarecer determinados processos, embora ainda haja fraca integração dos grupos de estudo e pouca capacidade de amplificar os resultados, culminando na necessidade de novos norteamentos para a plena compreensão da interface entre urbanização e desmatamento.

Os estudos analisados mostraram que o espraiamento urbano ocorre majoritariamente em porções já desmatadas, especificamente em áreas de cultivo. Não sendo uma causa imediata de mudança na cobertura florestal, portanto não havendo nexo causal, a urbanização é ao mesmo tempo uma classe de uso da terra e um espaço propulsor de fatores subjacentes que circunstanciam a tomada de decisão, incitando dinâmicas multiescalares que se estruturam em um sistema cíclico e retroativo. As forças motoras urbanas são orientadas, de alguma forma, por uma relação espacial, diminuindo a intensidade e impacto com o distanciamento dos centros urbanos. Ao expor seu caráter expansivo, percebe-se que o efeito da urbanização não é restrito e delimitado ao núcleo urbano. Os valores e práticas urbanas propagam-se nos espaços rurais por meio dos fluxos de pessoas, que praticam uma mobilidade espacial capaz de estabelecer vínculos rural-urbano e promover a circulação de capital, de material, de conhecimento e de aspectos culturais.

O exercício de buscar pontes e construir um panorama integrado a partir dos resultados analisados traz à luz a complexidade do tema. Foram identificados três principais esforços metodológicos necessários para avançar este escopo, sendo eles a reformulação do sistema de análise como ponto de partida investigativo, a ressignificação conceitual do urbano e a adoção de indicadores e variáveis sensíveis aos processos socioespaciais. A sustentação teórica para o enfrentamento desses desafios foi proposta a partir da articulação dos estudos urbanos com a teoria social crítica em busca da construção de uma teoria crítica urbana.

A teoria crítica urbana equipara a disjunção entre o real e o possível, garantindo reflexividade epistemológica pela conformação de uma teoria transdisciplinar orientada por condições históricas específicas (BRENNER, 2009; BRENNER; SCHMID, 2015). A partir de abordagens da teoria social das mobilidades e do risco (BECK, 2011; URRY, 2012) concebe-se o processo de urbanização como uma articulação entre elementos globais e locais, que se perfazem por um conjunto de componentes redefinidores da lógica urbano-rural destas conexões escalares. Dentro deste escopo teórico são apresentadas cinco proposições fundamentais para refletir sobre as diretrizes de constituição que proporcionariam uma abordagem metodológica capaz de formular um olhar para as relações entre desmatamento e urbanização na Amazônia contemporânea.

Em primeiro lugar, a recusa de toda e qualquer abordagem que disponha “urbano” e “rural” com dimensões socioespaciais autônomas ou em posição dicotômica. Em segundo, pensar a problemática do desmatamento sob uma única configuração sóciopaisagística articulada entre as ruralidades e urbanidades - a constituição do tecido urbano. Em terceiro lugar, o referencial de transição urbana deve continuar como elemento conceitual mas reconsiderando seu sentido vetorial linear (do rural ao urbano) para abrir-se à multivetorialidade, no sentido de se conceber a mobilidade como passíveis de dinâmicas de translocalidade entre espaços urbanos e rurais. Nesse sentido, em quarto lugar, é preciso um adensamento explicativo que busque nas opções socialmente estabelecidas entre desmatamento e conservação um caráter multidimensional e transescalar de pesquisa. Ou seja, levando-se em consideração os processos locais de estímulo e repostas aos riscos e vulnerabilidades proporcionadas pelas dinâmicas de desmatamento. E por fim, em quinto lugar, essa articulação deve ser colocada em perspectiva a partir do destacamento do conjunto de forças econômicas, tecnológicas e políticas nacionais e globais que essas configurações sociopaisagísticas apresentam.

Destes novos norteamentos da fundamentação teórica emergem os desafios analíticos para que a empiria da relação urbanização e desmatamento seja praticável. Reconhecendo que o tecido urbano é determinado por uma reestruturação espacial e viabilizado pelos processos de mobilidade populacional, recorre-se as incursões da Demografia Espacial (VOSS, 2007; VOSS; WHITE; HAMMER, 2006; WACHTER, 2005) para consolidação de um método de pesquisa adequado com as questões e desafios apresentados neste trabalho. Ao considerar a mobilidade populacional como um complexo fenômeno social que ultrapassa dimensões físicas e econômicas para envolver dimensões culturais, afetiva, imaginária e individual (URRY, 2007), o olhar para configurações espaciais da população passa a ser uma perspectiva multidimensional do fenômeno urbano. Assim, a abordagem por via da dimensão socioespacial pode ser uma estratégia metodológica promissora para o enquadramento analíticao com pleno respaldo aos fundamentos teóricos da teoria crítica urbana.

Agradecimentos

Os autores agradecem o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) no desenvolvimento deste trabalho, através da concessão de bolsa de pesquisa de pós-doutoramento.

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1
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2
- O fundamento teórico do modelo é a relação trabalho x consumo e sua variação ao longo do tempo em resposta ao número de crianças, adultos e idosos. Cada estágio da trajetória domiciliar teria uma disponibilidade de força laboral e uma demanda de consumo influenciando na área cultivada da propriedade e no tipo de cultura (WALKER et al., 2002).
3
- A teoria prevê a recuperação da cobertura florestal à medida em que as sociedades passam por um desenvolvimento econômico caracterizado pela industrialização e urbanização - uma transição da econômica com base o setor primário (extrativismo, agropecuária e mineração) para a industrial com predomínio do setor de serviços (RUDEL et al., 2005).
4
- Complexo geoeconômico e social determinado em 2006 pelo Governo Federal com a finalidade de implantação de políticas públicas de estímulo ao desenvolvimento integrado com a atividade de base florestal. A área, localizada no oeste do Estado do Pará, abrange 190 mil km2, compreendendo integralmente ou parcialmente 13 municípios.
5
- No sistema de análise da Land Change Science as causas imediatas correspondem às ações locais que alteram o ambiente físico, sendo condições concretas de transformação (GEIST; LAMBIN, 2001).
6
- No sistema de análise da Land Change Science os fatores subjacentes, que operam nas diversas escalas, são as forças contextuais que determinam a direção e intensidade do uso da terra (GEIST; LAMBIN, 2001).

Saúde e Desenvolvimento na Amazônia que “queremos”





Saúde e Desenvolvimento na Amazônia que “queremos”

Franciclei Burlamaque MacielJúlio Cesar SchweickardtJéssica Burlamaque MacielKátia Helena Serafina Cruz Schweickard

Abstract

The purpose of the article is to discuss the functioning of the Genetic Heritage Management Council (CGen, acronym in Portuguese) from the enactment of Law No. 13,123 / 2015 until December 2019, to understand its role as coordinator of the benefit-sharing policy. CGen’s work context was presented and the theoretical framework of public policy coordination was discussed. The research was carried out based on the analysis of the minutes of the 24 meetings held by the Board, seeking to identify the frequency of full members, the participation of listeners, and the most discussed topics at the meetings. The CGen was found to be a leader in law enforcement, which seeks to use communication and standardization as mechanisms for its coordination. However, the low participation of beneficiaries of the policy and representatives of states and municipalities calls into question the effectiveness of the policy.

Keywords:
Development; Health; Amazon

Resumen

El objetivo de este estudio es analizar los aspectos teórico-empíricos del desarrollo de las Estaciones de Transbordo y Carga (ETC) y los desafíos para la salud. El sitio de estudio fue el Distrito de Miritituba en el municipio de Itaituba, Estado de Pará. Los datos primarios se obtuvieron en 2017 y 2018, con observación directa y aplicación de un guión de entrevista a representantes de la comunidad. El análisis de contenido se realizó en una perspectiva descriptiva, reflexiva y crítica, considerando los aspectos cualitativos del campo. Los resultados del estudio apuntaron a cuestiones teóricas y prácticas al preguntar sobre el tipo de desarrollo para la Amazonía. Se concluyó que la planificación para y en la Amazonía debe incluir a las poblaciones tradicionales de la región, así como señalar modelos alternativos de desarrollo, especialmente en lo que se refiere a la salud y supervivencia de culturas, ecosistemas y diversas formas de vida.

Palabras-clave:
Desarrollo; Salud; Amazonas.

Resumo

O objetivo do presente estudo é analisar os aspectos teóricos-empíricos do desenvolvimento com as Estações de Transbordo e Carga (ETC) e os desafios à saúde. O local do estudo foi o Distrito de Miritituba no município de Itaituba, Estado do Pará. Os dados primários foram obtidos nos anos de 2017 e 2018, com observação direta e aplicação de roteiro de entrevista aos representantes comunitários. Realizou-se análise do conteúdo na perspectiva descritiva, reflexiva e crítica, considerando os aspectos qualitativos do campo. Os resultados do estudo apontaram para as questões teórica e prática ao questionar sobre o tipo de desenvolvimento para a Amazônia. Concluiu-se que o planejamento para e na Amazônia necessita incluir as populações tradicionais da região, assim como apontar para modelos alternativos ao desenvolvimento, especialmente quando está em questão a saúde e a sobrevivência de culturas, ecossistemas e as várias formas de vida.

Palavras-chave:
Desenvolvimento; saúde; Amazônia

Introdução



A Amazônia foi convertida no obscuro objeto do desejo de muitos e segue sendo vista como emérita provedora mundial de espaços, bens e serviços in natura, tais como matérias-primas e energia extraídos de seu solo, subsolo, flora, fauna e fluidos - como água e ar - a suprir as forjas insaciáveis da economia nacional e mundial (Armando Mendes em palestra no BNDES, em 21 de julho de 2010 (SIFFERT, et al. 2014, p. 27)).

A dimensão da satisfação das necessidades humanas, tratadas por Celso Furtado (2000c) e Amartya Sen (2010), é uma preocupação quando relacionada ao conceito do desenvolvimento. Muitas vezes essa dimensão é conflitante ou ambígua, principalmente quando as aspirações de um grupo social não coincidem com as expectativas e necessidades da sociedade. As políticas para promover um padrão de desenvolvimento são implantadas nos territórios, sem necessariamente atender a essas expectativas (DALLABRIDA, 2017). Com essa preocupação buscou-se analisar uma dessas experiências de desenvolvimento de políticas públicas na Amazônia na região do médio rio Tapajós, no Estado do Pará.

As imagens imponentes das Estações de Transbordo de Cargas (ETC) são marcas dos empreendimentos graneleiros, caracterizadas pelas engrenagens dos silos e dos píeres que mudaram a paisagem do Rio Tapajós. São imagens impressionantes, principalmente no turno da noite, apontando para um tipo de desenvolvimento que parece não combinar com a geografia e/ou paisagem da região. As grandiosas estruturas metálicas vistas por terra e pelas águas do rio Tapajós, à noite refletindo luzes e de dia expelindo poeira dos intensos fluxos rodoviários, revela e esconde, ao mesmo tempo, as lógicas desse tipo de desenvolvimento. Para discutir com essa realidade, adotou-se o conceito de desenvolvimento de Sen (2010) para explicar o significado no âmbito da política pública, e na relação entre a saúde e a satisfação das necessidades humanas e as melhorias das condições de vida dos amazônidas.

Partimos da ideia de saúde no sentido amplo como proposto pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a saúde como um estado completo de bem-estar físico, mental e social, e não somente como a ausência de doenças. Esse conceito foi reforçado pelo Relatório da 8ª Conferência Nacional de Saúde no entendimento da saúde relacionada com a alimentação, habitação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade, acesso e posse da terra e acesso a serviços de saúde como condições necessárias para se garantir a saúde (RELATÓRIO FINAL, 1986).

Nesse sentido, definiu-se como objetivo desse estudo, analisar os aspectos teórico-empírico do desenvolvimento com as Estações de Transbordo e Carga e os desafios à saúde. O recorte do estudo centrou-se no município de Itaituba, no Estado do Pará, precisamente no Distrito Miritituba. Segundo o sistema de saúde local, até dezembro de 2017, residiam nesse Distrito mais de 5.534 habitantes (embora esses dados sejam frágeis, são importantes na ausência de dados oficiais do IBGE). Os dados primários foram obtidos nos anos de 2017 e 2018 por meio da observação direta e aplicação de roteiro de entrevista a nove representantes comunitários. Utilizou-se triangulação dos dados (MINAYO, ASSIS; SOUZA, 2005) na análise do conteúdo (BARDIN, 2011), na perspectiva qualitativa, descritiva, reflexiva e crítica.

O trabalho trata da experiência de dois anos de pesquisa com dados teóricos-empíricos, apresentando a dinâmica do aspecto teórico-conceitual do desenvolvimento no território amazônico, perpassando pela organização política para o desenvolvimento e apontando para as implicações na saúde e na satisfação das necessidades da população do lugar. Espera-se que os resultados deste trabalho possam contribuir com o debate sobre os tipos de desenvolvimento colocados em prática na e para a Amazônia.
Aspecto teórico-conceitual do desenvolvimento e saúde

Minayo (2002) admite que a “participação de diferentes sujeitos envolvidos em intervenções apropriadas pode promover o desenvolvimento equitativo” (p. 187). No presente trabalho a ideia de desenvolvimento deve ser entendida como o envolvimento de diferentes sujeitos nos processos decisórios e participativos para promover transformações socioambientais de forma sustentável. Sen (2010) compreende que o desenvolvimento como liberdade não deve ficar circunscrito a certas conquistas, quer sejam sociais, políticas ou econômicas. A expansão dessa liberdade é o principal meio do que poderia ser o chamado desenvolvimento, o qual deve ocorrer com o enlaçamento de parcerias ativas, como por exemplo, com a criação de oportunidades por meio de serviços de educação e saúde.

Sen (2010) também admite que a instalação e funcionamento dinâmico de empresas, que cumprem responsabilidades sociais podem influenciar o processo do desenvolvimento econômico. Mas não só isso, é preciso que ocorra um encadeamento empírico na sociedade, com participação dos governos para intensificar o crescimento da economia e a oportunidade social. Sen é enfático em apontar que o êxito das políticas públicas depende de uma relação mais próxima com a sociedade, produzindo resultados para a condição de vida em liberdade. O autor faz a crítica que “o desenvolvimento consiste na eliminação de privações de liberdade que limitam as escolhas e as oportunidades das pessoas de exercer ponderadamente sua condição de agente” (SEN, 2010, p. 10).

Com o estabelecimento desse conceito foi possível percorrer as trilhas das políticas públicas de desenvolvimento delineadas para a região da Amazônia, precisamente na região do médio Tapajós no estado do Pará, tendo em mente que “os fins e os meios do desenvolvimento exigem que a perspectiva da liberdade seja colocada no centro do palco” (SEN, 2010. p. 77). Nesse sentido, é preciso considerar que o desenvolvimento na escala local pode ser “um processo endógeno registrado em pequenas unidades [...] com participação de agrupamentos humanos, podem promover o dinamismo econômico e a melhoria da qualidade de vida da população” (BOISIER, 1999. p. 9).

Além disso, a tipologia de “desenvolvimento está inserida em uma realidade mais ampla e complexa com a qual interage e da qual recebe influências e pressões positivas e negativas” (BOISIER, 1999. p. 9), como a escala regional, por exemplo. Nessa escala o desenvolvimento envolve mudança estrutural associado a um processo permanente, da própria região e da sociedade que nela habita. Nesse sentido, o desenvolvimento é produto que emana das inter-relações e da capacidade dos sujeitos das sociedades locais, num contínuo movimento que se estrutura a partir de suas potencialidades, prioridades e especificidades (BOISIER, 1999).

No pensamento de Boisier está implícita a importância da remoção de barreiras que impedem a realização individual em termo de qualidade de vida. Qualquer influência no processo do desenvolvimento que resulte em dificuldades e riscos às melhorias das condições de vida, aponta para o que Massey (2008) chama de responsabilidade com o lugar. De modo que, esse processo de desenvolvimento está associado às etapas de mudança nas estruturas sociais, levando-se em conta as intervenções das políticas públicas que visam uma mudança na qualidade de vida das pessoas. Inclui-se nesse processo a participação dos sujeitos do local, no sentido de reverter essa estrutura a partir de uma determinada condição, buscando um envolvimento mais amplo que considere os aspectos relacionados ao bem-viver, ou seja, não necessariamente atrelados aos componentes da sociedade de consumo.

O desenvolvimento como condição de liberdade (SEN, 2010) e as suas relações com a saúde são mais complexas (PORTELA, 2013), em que tanto a saúde como a liberdade convergem para a autonomia dos sujeitos e a capacidade sobre os processos decisórios que envolvem sus vidas. As capacidades individuais dependem crucialmente, entre outras coisas, de disposições econômicas, sociais e políticas. Os papeis instrumentais da liberdade incluem vários componentes distintos, porém inter-relacionados, como facilidades econômicas, liberdades políticas, oportunidades sociais, garantias de transparências e segurança protetora.

O conceito de saúde humana trabalhado por Porto (2012, p. 94) aproxima-se do pensamento de Sen (2010) em relação ao desenvolvimento, quando admite que a saúde pode ser entendida como “[...] processos e condições que propiciam aos seres humanos os seus vários níveis de existência e organização para a realização de ciclos virtuosos de vida [...], perpassando pelas dimensões biomédicas, éticas, sociais, e culturais irredutíveis”. Esse conceito converge com o sentido dado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que define a saúde não limitada à funcionalidade biomédica, à ausência de doenças e à maior longevidade, ao contrário, “a saúde se realiza à medida que um indivíduo ou grupo é capaz, por um lado, de realizar aspirações e satisfazer necessidades e, por outro, de lidar com o ambiente” (PORTO, 2012, p. 95).

Nesse contexto epistemológico, as ciências da saúde e as ciências sociais aplicadas propõe um diálogo interdisciplinar que favorece o entendimento da temporalidade como parte constituinte desse processo. Nesse sentido, Sen (2010, p.77) argumenta que, “as pessoas têm que ser vistas como ativas - dada a oportunidade - na conformação do seu próprio destino, e não apenas beneficiárias passivas dos frutos de engenhosos programas de desenvolvimento”. Além disso “[...] o Estado e a sociedade têm papeis (de sustentação) amplos no fortalecimento e na proteção das capacidades humanas” (SEN, 2010, p. 77), o que demanda longo prazo e deve estar relacionado principalmente à melhoria de vida social e às liberdades de escolhas.

As questões apontadas por Sen (2010) que relacionam o desenvolvimento como liberdade, se associam ao pensamento de Boisier (1990), no que se refere ao desenvolvimento local e regional, por isso são relevantes para compreender os desdobramentos das políticas públicas planejadas para a região amazônica, desde a década de 1970. Segundo Castro (2005), nesse período os efeitos das políticas públicas voltadas para a promoção do desenvolvimento, apontavam para “os graves problemas ambientais emitentes em função do modelo de desenvolvimento que ignorava os impactos ambientais” (CASTRO, 2005, p. 12). Entretanto, afirma a autora que “foi preciso mais uma década para que os efeitos dessas políticas pudessem ser percebidos e tornar-se uma questão relevante”, para repensar a tipologia do desenvolvimento no âmbito das políticas públicas.

Os impactos provocados pelo tipo de desenvolvimento imposto estão relacionados ao que Boaventura de Souza Santos (2007) chama de ecologia da trans-escala, como resultado de articulações políticas e empresariais que deram origem a diferentes projetos de desenvolvimento ao longo dos últimos anos na Amazônia. Os efeitos ambientais desse modelo de desenvolvimento predatório são sentidos nos lugares mais remotos da região, como o que está acontecendo com os povos Yanomami pela atuação dos garimpeiros. Os resultados das políticas de desenvolvimento são contraditórios, especialmente porque prometem melhorias socioambientais que não se efetivam (CASTRO, 2005). O que é preocupante são os efeitos dessas políticas sobre as populações tradicionais e os territórios ancestrais. Assim, o significado de desenvolvimento, como uma prática social, é complexo e exige uma análise crítica.

A palavra desenvolvimento, segundo Buarque de Holanda (s/d) significa “ato ou o efeito de desenvolver”, isto é, fazer, crescer, progredir, avançar, entre outros sinônimos. Para Santos et al. (2012) o desenvolvimento carrega a ideia de progresso e crescimento. Em termos econômicos, o desenvolvimento tem o sentido tanto de progresso como de crescimento e se associa às melhorias das bases produtivas (SANDRONI, 2010). Por fim, a etimologia da palavra desenvolvimento (FIGURA 1) aponta para uma crítica, mostrando que o substantivo indica “sem movimento para reverter a ação, ou ainda, sem envolvimento” (DINIZ 2006 apud SANTOS et al., 2012, p. 46). Nesse sentido, a palavra traz em si, um descompromisso, “não envolvimento”, com o ambiente, produzindo uma dissociação entre os modos de vida e as questões do entorno.




Figura 1
Representação etimológica da palavra desenvolvimento.




Essa questão chama atenção pelo prefixo des no início da palavra desenvolvimento, referindo-se a falta de um movimento capaz de reverter ou mudar determinada ação. A ausência de um mover com qualidade, com consciência, “para dentro”, para reverter determinados cenários e situações que afetam a vida social e ambiental. Assim, é necessário “reverter” e “virar” a situação, de modo participativo, para que possamos refletir sobre novas formas de desenvolvimento, inclusive com a opção do “decrescimento” (AZAM, 2019) que indica a promoção do envolvimento como condição de mudanças nas condições sociais postas e impostas por um determinado modelo de desenvolvimento.

No sentido de Sen (2010), a categoria desenvolvimento pode ser entendida como expressão de melhorias junto a sociedade, a partir da inter-relação das liberdades políticas e oportunidades sociais, levando-se em conta o encadeamento empírico e as capacidades sociais. São aspectos considerados essenciais na escolha da vida desejada, ao mesmo tempo em que essas escolhas podem ser ampliadas pelas políticas públicas, podendo ser influenciadas pelas capacidades dos sujeitos sociais na promoção do estar-junto, como sugere Massey (2008), na responsabilidade com o lugar.

O desenvolvimento como liberdade, no sentido dado por Sen (2010), está associado às liberdades prevalecentes dos sujeitos no processo de fazer escolhas, não apenas as vitais, como a alimentação, educação, saúde, segurança, mas também como exercer sua cidadania de forma ampla, incluindo o direito de poder participar dos processos políticos, econômicos, culturais e sociais nas escalas temporal ou espacial. Assim, podemos inferir que o fluxo rodofluvial graneleiro provocado pelas ETC tem a capacidade de aquecer a economia direta e indiretamente no Distrito de Miritituba, mas paira a dúvida se terá efeito sobre as escolhas e as oportunidades sociais que promovam a dignidade da vida e a sustentabilidade.

Essa questão remete ao conceito de sustentabilidade associada a ideia de que o desenvolvimento pode possibilitar maior compreensão dos efeitos desejáveis para a região com as ETC. Esse conceito se fundamenta em Minayo (2002), Sen (2010), Tambellini; Miranda (2012), entendem a sustentabilidade como possibilidade relacionada a um desenvolvimento equitativo e equilibrado, a partir das liberdades de escolha e a participação social de forma integrada de diferentes sujeitos, valorizando os atributos de lugares específicos ou não, em sua totalidade. Dessa forma, as atitudes e práticas sustentáveis emergem de estratégias participativas que promovem a intraidade e alteridade, com ênfase nas relações de cuidado socioambiental que se desdobram na promoção da saúde.
Organização geopolítica para o desenvolvimento

Os aspectos geográficos e os atributos naturais de muitos lugares da Amazônia são atrativos para as demandas da economia (SIFFERT et al., 2014), uma espécie de rede de capilaridade que ganha vitalidade com os interesses do setor privado. Levando em conta essa realidade, o estado brasileiro estabelece recortes seletivos com viés organizacional para promover alterações na economia e na sociedade por meio de políticas públicas.

Segundo Becker (2010), os recortes seletivos assumem diferentes escalas e temporalidades que emergem em grande medida de ações planejadas pelo Estado, a partir da formulação de políticas públicas. Esse tipo de planejamento é radicalizado pela geopolítica, que coloca o território numa perspectiva geoestratégica para a implementação de políticas com fins de promover o chamado desenvolvimento. Nesse sentido, é necessário conhecer modos e intensidades da prática estratégica espacial, distinguindo a região, regionalização e o território como faces de um processo de organização política.

A região é considerada uma categoria geográfica que procura explicar os instrumentos e os elementos do espaço, enquanto processos resultantes de diferentes formas e conteúdos regionais na dimensão histórica espacial (LIMA, MACHADO; ALBUQUERQUE, 2012). Dito de outro modo por Becker (2005, p. 71), “a região é uma construção geopolítica considerada como um campo do conhecimento que analisa relações entre poder e espaço geográfico”. Segundo Milton Santos (2008, p. 160), a região também tem se tornado lugar funcional do todo, enquanto “espaços de conveniência”, principalmente dos interesses hegemônicos em relação aos recursos favoráveis à ampliação do capital, e com isso ocorre a aceleração do capital que transforma a forma e o conteúdo das regiões.

Embora o lugar não faça parte da organização política na esfera do planejamento do desenvolvimento como a região e território, é possível se verificar a unidade e a contiguidade dos acontecimentos históricos. Por essa razão, região e lugar “são subespaços às mesmas leis de evolução, onde o tempo empiricizado entra como condição de possibilidade, e a entidade geográfica entra como condição de oportunidade ” (grifo no original) (SANTOS, 2008, p. 161).

No âmbito do planejamento para o desenvolvimento, a regionalização é um importante “[...] instrumento que indica e desenha regiões no território com base em critérios técnicos, políticos, econômicos, sociais e culturais, conforme o projeto que se pretende implantar” (LIMA, MACHADO; ALBUQUERQUE, 2012, p. 824). De certo, a regionalização refere-se aos recortes regionais estabelecidos para organizar e articular o espaço territorial, a distribuição de poder e o estabelecimento de inter-relações entre diferentes sujeitos para um objetivo específico.

É o caso da regionalização do Estado do Pará, organizada no ano de 2007, justificado pela sua dimensão territorial de 1.247.954,67 km2, com 144 municípios (PARÁ, 2010), e a dimensão populacional, estimada no ano de 2017 com 8.366.628 pessoas (IBGE, 2018). Segundo o Instituto de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental do Pará (IDESP) (2014b, p. 6) essa dimensão territorial e populacional “impõe dificuldades com relação à aquisição de informações para apoiar a elaboração de políticas públicas que levem em consideração características pontuais de cada município”.

Por essa razão, para fins de planejamento estadual e visando melhorar a gestão interna no Estado, foram instituídas doze regiões de integração (RI): Araguaia, Baixo Amazonas, Carajás, Guamá, Lago de Tucuruí, Metropolitana, Marajó, Rio Caeté, Rio Capim, Tocantins, Xingu e Tapajós. Tal divisão é estratégica, tanto para o governo como para o setor privado, que uniram forças para atuar na direção de reduzir as desigualdades inter-regionais e valorizar os recursos naturais, as diversidades culturais das regiões e as atividades econômicas, gerando emprego e renda (IDESP, 2014a; PARÁ, 2010).

O governo federal, em parceria com os estados, empreende estratégias, desde o final do século XX e início do século XXI, voltado para a política de desenvolvimento regional. Segundo Castro (2012), a partir do ano de 2007, essas políticas foram intensificadas por meio de programas, políticas e projetos, cuja atenção voltou-se para atender regiões remotas na Amazônia, com menor presença do estado através das políticas públicas. Nesse sentido, foi planejado o sistema multimodal de transporte com a implementação de Eixos Nacionais de Integração e Desenvolvimento (ENID) para a região Amazônica. Segundo Becker (2007) esse tipo de eixo se associa ao conceito de grandes regiões, qualificadas como uma nova divisão territorial, com grandes áreas contíguas, estabelecidas pelos governos para atender as demandas políticas.

Dentre as doze Regiões de Integração (RI) no estado paraense, a RI Tapajós foi selecionada estrategicamente pelo ponto de vista da economia e de infraestrutura da política de desenvolvimento do Brasil e Estado do Pará. Segundo Siffert et al. (2014), essa política inclui um conjunto de obras de infraestruturas, contemplando hidrovias e rodovias, conectando as estações de transbordo e cargas, por meio do eixo logístico. A finalidade desse eixo é otimizar o escoamento dos produtos do agronegócio provenientes da região do Centro-Oeste e de outras regiões do Brasil, possibilitando a geração de emprego e renda para a população local e regional.

A estratégia inicial para a ampliação da matriz de transporte de grãos foi chamada de corredor logístico do Centro-Oeste, estabelecendo a pavimentação da rodovia BR-163 no trecho entre os municípios de Sinop, no estado do Mato Grosso, até o município de Itaituba localizado na RI Tapajós, estado do Pará. O corredor logístico da região de fronteira do “Arco Norte” teve o objetivo de facilitar a logística para a exportação de grãos. Becker (2007) criticou essa estratégia como não suficiente na promoção do chamado desenvolvimento, mesmo sendo uma estratégia da política econômica do país. Os resultados do presente estudo convergem com essa propositura, quando se constata uma contradição entre grandes investimentos de infraestrutura em detrimento dos investimentos em serviços básicos essenciais na região do médio Tapajós.

Em muitos casos o planejamento para o desenvolvimento por meio de políticas públicas gera certa apropriação e dominação de recursos e de espaços, como ocorre por exemplo no Distrito de Miritituba com as ETC, os portos e os retroportos graneleiros. Nesse sentido, o território pressupõe a compreensão dos processos de apropriação e dominação do espaço, mas num sentido stricto, esse território é um termo político (BECKER, 1988) utilizado para referir-se ao espaço geográfico (SANTOS; SILVEIRA, 2004), devendo o mesmo ser entendido como extensão de diversas formas de construção e apropriação, marcadas por relações de poder diversas e interligadas. Por isso, o território é um espaço onde ocorrem as manifestações do poder e o encontro das práticas e atividades historicamente construídas (HELLER, 2016). Por fim, o território é resultado não apenas da reprodução relacional da sociedade, como da territorialização e das temporalidades (MASSEY, 2008), mas também de processualidades históricas que se encontram no presente cotidiano.

Evidências empíricas apontam que no território ocorrem as relações sociedade-ambiente, e, portanto, a reprodução da vida em suas múltiplas dimensões (LEFEBVRE, 1991; CARLOS, 2007), envolvendo o poder econômico, político e cultural, que determinam a temporalidade histórica e a espacialidade. A organização política com fins de planejamento define a região e a regionalização como um papel exclusivo do Estado, ilustradas pelas regiões integradas de desenvolvimento, como a região de integração do Tapajós, e regiões de saúde (BRASIL, 2006) como resultados da ingerência governamental.
O desenvolvimento que “queremos” e as implicações à saúde

A preocupação com a promoção do desenvolvimento e a segurança da soberania nacional, planejado desde os anos de 1970, aconteceu com a implantação de grandes projetos na Amazônia. Os efeitos perpassaram por intensos processos migratórios, degradação ambiental, precárias condições de vida e infraestrutura, cenário agravado pelas queimadas e o avanço das fronteiras agrícolas nos últimos anos. De acordo com Lima (2016), a ausência de ordenamento territorial e condições para realizar fiscalização nas ações desses projetos, provocaram significativos impactos no ambiente vivido, com efeitos diretos na saúde humana.

Autores como Freitas; Giatti (2009) apontam para importância de realizar pesquisas para indicar a situação da saúde humana, relacionada ao cenário socioambiental com intervenção de empreendimentos de grande porte, dos quais seus efeitos comprometem a saúde e o bem-estar social, principalmente em regiões remotas na Amazônia. Durante a fase de planejamento desses empreendimentos, muitos impactos poderiam ser evitados ou mitigados, caso houvesse a participação de diferentes setores da sociedade, inclusive do setor da saúde. Silveira e Neto (2014) chamam atenção para as contribuições que os agentes do setor da saúde poderiam ter nos processos, desde o licenciamento e o desenvolvimento das obras de grande porte, na inserção de contribuição aos processos sociais para minimizar os efeitos dos empreendimentos à qualidade de vida e saúde da população humana.

Conforme Pereira (2014), a participação social e de diferentes setores, pode mitigar os impactos provocados pelos processos sociais ou econômicos no ambiente. O autor destacou a dinâmica cotidiana de localidades ribeirinhas da Amazônia Tocantina, suas ilhas, barrancos e várzeas do município de Cametá do Estado do Pará. Essas localidades passaram por grandes transformações desde a década de 1970, sendo intensificadas a partir da década de 1990. Ao longo desse período os moradores das margens dos rios, os chamados ribeirinhos, passaram a se expressar em movimentos de resistência, reorganizando e rearticulando, induzindo as novas territorialidades que configuravam e redefiniam a região a partir das relações de poder.

Transformações dessa natureza podem ser resultados da instauração do que Pereira (2014) classifica de “economia” do poder, do qual a sociedade é influenciada a viver processos que redirecionam o movimento da vida cotidiana. Massey (2008) chama o efeito desse evento de geometria do poder. Assim, o processo de transformação dos contextos de vivência das localidades amazônicas, como do Distrito de Miritituba, aponta para a questão da organização e as estratégias sociais e econômicas e sua interconexão com o ambiente, e as consequências destes.

As muitas especificidades da região amazônica, principalmente na escala local, deixam de ser prestigiadas em detrimento das particularidades econômicas. Essa especificidade impõe maior atenção para a implementação do chamado desenvolvimento. Celso Furtado (1957) destacou que as políticas de desenvolvimento, ao desconsiderarem as características do espaço territorial, incorrem no processo que pode contribuir para o agravamento de exclusões e disparidades, não só econômicas e políticas, como sociais e ambientais. Por outro lado, a questão da saúde humana nas áreas do entorno de grandes projetos de desenvolvimento ou processos sociais na Amazônia, tem sido historicamente repleta de reclamações dos movimentos sociais devido aos impactos e às externalidades (VICENTIN; MINAYO, 2003), pois afetam a qualidade de vida do lugar.

Os impactos que os grandes empreendimentos provocam no ambiente cotidiano dos sujeitos no Distrito de Miritituba são desanimadores. As consequências acirram tensões no ambiente, afetando a vida local. O movimento na estrutura econômica rodofluvial, registrado nos anos de 2017 a 2018, por certo não é o mesmo que está ocorrendo no outro lado do rio (FIGURA 2), onde se localiza a sede municipal de Itaituba (A), que é privilegiada com infraestrutura urbana, hospitais, unidades de serviço de saúde, entre outros serviços. Enquanto o Distrito de Miritituba (B), que abriga pelo menos cinco ETC e três grandes portos de combustíveis, não dispõe de unidades de serviços básicos como hospitais, bancos, nem mesmo uma infraestrutura portuária adequada aos intensos fluxos de pessoas e transportes na entrada portuária do Distrito.




Figura 2
Representação fotográfica da frente da cidade de Itaituba e do Distrito de Miritituba




O Distrito de Miritituba não é apenas um território, mas é um lugar que tem uma totalidade social (SANTOS, 2008), na medida em que as transformações ocorridas são determinadas por questões sociais, econômicas e políticas. Assim, a política rodofluvial graneleira nesse Distrito, imprime um tipo de desenvolvimento que desperta a atenção e instiga a população, como declara um morador de 65 anos, residente há mais de 30 anos no lugar: “Para quem é esse desenvolvimento? Que benefícios os moradores desse lugar terão, além de algumas vagas de emprego, a estação de captação de água, construção do ginásio, o Centro de Referência de Assistência Social, e doação de materiais didáticos e alimentação?” A resposta foi dada pelo próprio morador, “Mas nós sabemos para quem é esse desenvolvimento, para o grande capital, menos para a população desse lugar, essa é a verdade”.

Relatos dessa natureza mostram que as forças transformadoras da economia aumentam os impactos com a atividade rodofluvial na dimensão social e ambiental. No caso do Distrito de Itaituba (FIGURA 3), os portos graneleiros (A) aquecem a atividade rodofluvial (B), e, ao mesmo tempo, geram risco no ambiente cotidiano e expõem os sujeitos a condições adversas. Impõem restrição a atividade pesqueira (C), insegurança no trânsito com o fluxo de carretas graneleiras e impactam a qualidade do ar com a poeira intensa (D) na principal via, a Transportuária.




Figura 3
Representação fotográfica dos portos graneleiros e efeitos rodofluvial no Distrito de Miritituba, Itaituba -PA.




O impacto com a atividade rodofluvial no ambiente, no período do verão, ocorre pela grande quantidade de poeira gerada pelo movimento dos caminhões, afeta intensamente a vida dos moradores do bairro Nova Miritituba, não excluindo os demais bairros. No período chuvoso, a população enfrenta outros problemas como o lamaçal, os riscos de acidentes com a falta de acostamentos e calçadas. De acordo com os trabalhadores de saúde local, essa situação traz como problemas as doenças respiratórias e as consequências de acidentes com veículos e estresse, devido aos ruídos do trânsito dos caminhões. Os moradores questionam o tipo de desenvolvimento que percebem e sentem as consequências das transformações socioambientais.

De acordo com Sen (2010), o desenvolvimento como liberdade, pode ser construído a partir da participação local, embora distante da realidade da Amazônia. Esse desenvolvimento é um imperativo, quando outros efeitos sobressaem nos relatos dos moradores e dos trabalhadores da saúde. O intenso movimento da atividade rodofluvial no Distrito de Miritituba, com a presença de caminhoneiros e outros trabalhadores do transporte que circulam pela região, influencia no aumento do consumo de drogas ilícitas e álcool, somado à falta de perspectivas de trabalho, lazer e renda dos adolescentes e jovens. Essas questões produzem situações de vulnerabilidade social para diferentes grupos e pessoas do local.

Trabalhadores que chegam à região em busca de trabalho e não encontram, pode trazer como consequência o aumento do uso de álcool e drogas. Nos últimos quatro anos, conforme entrevistas, houve aumento da demanda por atendimento de saúde mental relacionados aos casos de depressão, tentativa de suicídio, álcool e drogas. No ano de 2013, com a chegada dos portos graneleiros, trabalhadores do transporte, entre outros, foram atraídos para a região. Os trabalhadores da saúde relataram que muitos dos sujeitos que foram para a região em busca de oportunidade de trabalho, e não tiveram suas expectativas atendidas, apresentaram quadro depressivo, tornando-se consumidores de álcool e drogas ilícitas. Fato que influenciou no aumento da demanda por serviços no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de Itaituba.

Segundo relatos dos trabalhadores da saúde e outros atores entrevistados, também confirmados pelas observações de campo, houve um aumento dos casos de crianças e adolescentes que se encontravam em situação de vulnerabilidade social, relacionados a gravidez e uso de álcool e drogas. Esses aspectos se tornam relevantes na análise sobre os efeitos dos empreendimentos graneleiros no Distrito de Miritituba. Nesse sentido, é relevante estudos que avaliem os impactos desse tipo de empreendimento sobre os grupos em situação de vulnerabilidade social na Amazônia.

Sob o ponto de vista dos determinantes sociais da saúde e do conceito amplo de saúde, é possível apontar que as consequências para a vida das pessoas não podem ser resumidas pela análise das doenças, mas para as questões relacionadas à violência, ao trabalho, à cultura, habitação e ao ambiente.

A atual experiência com as ETC no Distrito de Miritituba e as experiências passadas na região com as políticas de desenvolvimento, trazem à memória o clamor de Armando Mendes (apud ANDRADE et al., 2014, p. 29): “Os amazônidas já não suportam continuar invisíveis e assistir inertes ao uso espoliativo das amazoneidades, a Amazônia reduzida a objeto inerte [...]”. Associando-se ao Armando Mendes, lamenta-se ainda que os acontecimentos do passado continuam ativos na contemporaneidade.

As transformações na Amazônia, influenciadas por questões exógenas, continuam a existir devido às grandes demandas da economia, das elites políticas e dos empreendedores capitalistas. Segundo Mendes (1974) e Mahar (1978) essas transformações perduram desde a última década do século XIX, com a extração de produtos florestais, como a produção da borracha silvestre, a qual atendia o mercado nacional e internacional. Essa exploração alterou a região com diminutos efeitos na direção da qualidade de vida da população local, afirmam os autores.

O discurso de Armando Mendes, proferido em 21 de julho de 2010 no BNDES, revelou esse fato, ao declarar, “A Amazônia foi convertida no obscuro objeto do desejo de muitos e segue sendo vista como emérita provedora mundial de espaços, bens e serviços in natura [...]”, incluindo “[...] matérias-primas e energia extraídos de seu solo, subsolo, flora, fauna e fluidos - como água e ar - a suprir as forjas insaciáveis da economia nacional e mundial” (LASTRE et al, 2014, p.13; SIFFERT et al, 2014, p. 27). Por certo, muitos lugares na Amazônia, com seus elementos históricos de organização e de cotidianidade, embora esmaecidos permanecem como pano de fundo no cenário econômico global e local. Há necessidade de promover uma ruptura do paradigma dominante que produz um tipo de extrativismo predatório e excludente.
Conclusões

Neste artigo, a questão da saúde no Distrito de Miritituba associada ao desenvolvimento com as ETC resultou do diálogo interdisciplinar entre a Ciência da Saúde e a Ciência Social aplicada com a sociedade. A perspectiva da ideologia do desenvolvimento com as atividades rodofluvial graneleiras, acontecendo na concretude do tempo e lugar, frustra a expectativa sobre o bem-estar social local. Nesse processo foram investigadas as inter-relações com as atividades econômicas, o ambiente e a saúde, dos quais seus resultados apontaram para os frutos teóricos e práticos contraditórios. Questionou-se no estudo o tipo de desenvolvimento e sua estratégia para a Amazônia, visto que a lógica que tem prevalecido é um desenvolvimento econômico em detrimento do bem-estar físico, psíquico e social dos povos da região. Além de tudo, o estudo trata de uma economia de um grão que não tem conexão com a história, a vida e a cultura da Amazônia.

O desafio não está em pensar os desenvolvimentos alternativos para a Amazônia, mas pensar nas alternativas ao desenvolvimento (LANGE, 2016). O pensamento crítico tem como desafio colocar as opções de decrescimento (AZAM, 2019), desaceleração da economia e considerar os direitos da natureza (SOLÓN, 2019). Trata-se de reconhecer e investir em outras cosmovisões e práticas que foram tomadas como “subdesenvolvidas” para a construção de sociedades mais diversas. O exemplo do município de Itaituba mostra que a hegemonia de um modelo sobre outros tantos que convivem há séculos no lugar é um caminho que pode conduzir à destruição e à morte. Por outro lado, acredita-se no desafio de incluir as outras formas alternativas ao desenvolvimento da vida integral e de uma saúde ampla.

Por fim, a pergunta que permanece é pelas alternativas de desenvolvimento que “queremos” ou desejamos, com a escuta das outras cosmovisões, culturas, formas de vida, outros saberes, lógicas distintas de pensar e desenvolver a vida. Permanece o desafio de como co-existir com lógicas tão distintas de desenvolvimento num território rico de diversidade social, étnica, cultural e linguística. As amazônias são muitas, mas parece ter prevalecido uma delas: a do agronegócio e a do pasto. A alternativa ao desenvolvimento que “queremos” está nas relações mais equitativas e no amplo compartilhamento de epistemologias que permitam o “bem viver” e a felicidade de todas as pessoas.

Agradecimentos

Agradecimento ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CnPq) pelo financiamento e concessão de bolsa durante a pesquisa de doutorado da primeira autora.

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Nota
Este artigo resulta do trabalho de conclusão de curso, orientado pelo professor Dr. Júlio Cesar Schweickardt, no doutorado em Ciências Ambientais e Sustentabilidade na Amazônia da Universidade Federal do Amazonas de Manaus-AM.

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