quinta-feira, 19 de maio de 2022

Andes em elevação na Patagônia




Geleiras na região do monte Fitz Roy, na divisa do Chile com a Argentina

Ben Tiger / Universidade de Washington em Saint Louis

Nas últimas décadas, à medida que as geleiras derretem, a cordilheira dos Andes vem se soerguendo mais rapidamente na Patagônia do que em outras regiões. Em alguns trechos, o ritmo de elevação supera os 4 centímetros por ano e não se deve apenas ao mergulho da crosta oceânica do Pacífico Sul sob a placa tectônica da América do Sul. A razão principal do soerguimento rápido é a existência de uma janela na placa que está submergindo. Usando dados de sismógrafos, geólogos da Argentina, do Chile e dos Estados Unidos trabalhando sob a coordenação de Douglas Wiens, da Universidade de Washington em Saint Louis, mapearam as profundezas do planeta naquela região e confirmaram a existência da tal janela. Situada a cerca de 150 quilômetros abaixo da superfície, ela permite que um material mais quente e fluido do manto circule sob essa região da América do Sul, erodindo a litosfera e a tornando mais fina e flexível (Geophysical Research Letters, 18 de janeiro). Acelerado nas últimas décadas, o derretimento dos glaciares remove uma grande massa de gelo que fazia a litosfera flexionar para baixo nessa região. Com menos carga, a litosfera sobe.
Revista Fapesp

Oceanos mais quentes e barulhentos com as mudanças climáticas





Tráfego intenso de navios, uma das causas de poluição sonora nos mares

Taikrixel / iStock / Getty Images Plus


Se a tendência atual de emissão de gases de efeito estufa não for bastante atenuada, até o final do século os oceanos deverão estar mais quentes e barulhentos. A previsão é do grupo coordenado pela especialista em bioacústica Alice Affatati, da Universidade Memorial de Newfoundland e Labrador, no Canadá. Ela e colaboradores calcularam o efeito que o aumento da temperatura previsto para ocorrer até 2100 deve provocar na velocidade de propagação do som na água, levando em consideração as diferenças de salinidade e profundidade dos mares ao redor do mundo. Segundo as projeções, as regiões mais afetadas devem ser o mar de Labrador, no Atlântico Norte, e o mar da Groenlândia, próximo ao Ártico. Nessas áreas, até a profundidade de 500 metros, a velocidade do som deve aumentar 1,5%, o equivalente a 90 quilômetros por hora. A velocidade do som deve subir também, ainda que um pouco menos, no noroeste do Pacífico, no Ártico, no oceano Austral, no golfo do México e na porção sul do mar do Caribe (Earth’s Future, 22 de março). Além de viajar mais rapidamente, as ondas sonoras, como as emitidas por navios, vibram por mais tempo em águas mais quentes e podem prejudicar animais marinhos – em especial os mamíferos – que usam o som para se comunicar, navegar, encontrar alimentos e parceiros para a reprodução.
Revista Fapesp

O afundamento das cidades costeiras





Imagem de satélite da Região Metropolitana de Tampa, na Flórida

USGS / Nasa

Várias cidades costeiras estão afundando mais rápido do que o nível do mar está subindo, segundo estimativas de pesquisadores da Universidade de Rhode Island, nos Estados Unidos. Sob coordenação do geocientista Meng Wei, eles analisaram a situação de 99 cidades em diferentes continentes. Usando imagens de satélites produzidas entre 2015 e 2020, os pesquisadores determinaram variações na altura do solo com precisão milimétrica. Eles constataram que muitas cidades estão sofrendo um processo chamado de subsidência, o afundamento da superfície por conta de deformações nas camadas subterrâneas. Em várias delas, a subsidência se deve à extração de água do subsolo. Pelo menos 33 cidades estão afundando mais de 1 centímetro por ano, cinco vezes a taxa de aumento do nível do mar – entre elas Houston, nos Estados Unidos, Querala, na Índia, e Kobe, no Japão (Geophysical Research Letters, 24 de março). Os autores alertam que, se o processo seguir no ritmo atual, os modelos de elevação do nível do mar não conseguirão prever adequadamente a intensidade das inundações que podem atingir essas cidades.


Área azul afunda mais de 2 milímetros por anoTaikri WU, P. C. et al. Geophysical Research Letters. 2022

Uma barreira no Atlântico


Água e sedimentos do rio Amazonas penetram milhares de quilômetros no oceano e separam parte das espécies marinhas brasileiras daquelas do Caribe




Foz do rio Amazonas na altura da ilha de Marajó, no Pará, onde a pluma de água doce rica em sedimentos alcança o oceano

Coordenação Geral de Observação da Terra / InpeRicardo Zorzetto


A cada instante, o rio Amazonas, o mais extenso e volumoso do mundo, despeja uma quantidade colossal de água doce e sedimentos na porção ocidental do oceano Atlântico. São 300 milhões de litros lançados a cada segundo em frente à ilha de Marajó, no Pará, quase 20% do que todos os rios do planeta levam para os mares. Tamanha torrente transfere da cordilheira dos Andes para o Atlântico, ao longo de um mês, uma quantidade de partículas em suspensão equivalente à massa de um morro como o Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro. Enriquecida com sedimentos e nutrientes arrastados pelos quase 7 mil quilômetros (km) do rio, essa água não se dilui imediatamente ao chegar ao oceano. Em vez disso, forma uma extensa pluma de água barrenta de quase 30 metros (m) de profundidade que desliza sobre a salgada por quase 200 km mar adentro. Empurrada por ventos e correntes marinhas, a pluma se estende 2,3 mil km em direção a noroeste e abriga uma fauna própria, em parte distinta da de outras regiões do oceano.

Essa grande massa de água doce rica em nutrientes funciona como uma barreira fluida e porosa. Ela separa várias espécies de organismos marinhos encontradas no Caribe daquelas que vivem ao sul da foz do Amazonas, mas permite a passagem de outras. Seu papel de barreira começou a ser notado no início dos anos 1970 por pesquisadores estrangeiros. Dois estudos liderados por biólogos brasileiros detalham agora como evoluiu a influência da pluma sobre a formação e a distribuição de espécies de peixes e de outros grupos de animais marinhos no Atlântico Ocidental.

“A pluma do Amazonas desempenha no oceano uma função semelhante à que o rio exerce no interior do continente, separando espécies ou populações de uma mesma espécie, localizadas em margens opostas”, explica o biólogo brasileiro Luiz Rocha, curador de ictiologia da Academia de Ciências da Califórnia, nos Estados Unidos. Ele estuda há mais de 20 anos a influência da pluma na diversificação e distribuição de peixes de recifes e é coautor de um artigo que será publicado no Journal of Biogeography. No trabalho, Rocha e colaboradores das universidades federais do Rio de Janeiro (UFRJ), de Santa Catarina (UFSC) e da Universidade Charles Darwin, na Austrália, mostram que o impacto da pluma aumentou progressivamente com a evolução do Amazonas. Nos últimos 2,4 milhões de anos, a capacidade de isolamento se tornou intensa a ponto de afetar populações de peixes de grande porte e aumentar a taxa de formação de novas espécies.

Os pesquisadores chegaram a essa conclusão ao comparar o tempo de separação entre espécies (ou populações de uma mesma espécie) que viviam em lados opostos da barreira com as mudanças no volume de água e sedimentos transportados pelo Amazonas. Análises de detritos depositados na foz do rio indicam que a pluma surgiu entre 9,4 milhões e 9 milhões de anos atrás. Sua chegada a essa região do Atlântico coincide com o soerguimento da porção norte dos Andes e o aparecimento de uma versão primitiva do Amazonas.

Em uma fase inicial, que durou até 5,6 milhões de anos atrás, a quantidade de água doce e sedimentos descarregada no oceano era pequena, suficiente para criar na foz do rio um depósito de 5 centímetros (cm) de espessura a cada milênio. Nos 3,1 milhões de anos seguintes, a carga de detritos aumentou seis vezes, gerando acúmulos de 30 cm no mesmo intervalo de tempo. A terceira e mais recente fase de evolução do rio iniciou-se por volta de 2,4 milhões de anos atrás, quando a concentração de material em suspensão aumentou outras quatro vezes e a coluna de sedimentos depositados a cada mil anos alcançou 120 cm. “À medida que as taxas de sedimentação aumentaram, a barreira se tornou menos permeável aos peixes de recifes rasos”, conta Rocha.




Nos últimos 9,4 milhões de anos, a pluma do rio Amazonas separou populações de peixes que ocorrem na costa brasileira daquelas achadas no Caribe, levando ao surgimento de espécies muito semelhantes nas duas regiõesJoão Paulo Krajewski | Frank Krasovec | Claudio Sampaio | Jim Lyle | Sergio Floeter / UFSC

Sob a orientação de Fabio Di Dario, da UFRJ, e Sergio Floeter, da UFSC, o doutorando Gabriel Araujo analisou 21 regiões do genoma de quase 150 espécies de peixes de recifes que ocorrem ao longo da costa brasileira e do mar do Caribe para estabelecer o tempo de separação entre elas. Eram peixes com tamanhos e características bem variados, desde Malacoctenus zaluari, um peixinho de 10 cm de comprimento e corpo prateado, com listras dorsais alaranjadas e manchas pretas, que não se distancia muito de onde nasce, até o mero (Epinephelus itajara), um grandalhão de 2,5 m, com corpo esverdeado coberto de manchas escuras.

As espécies foram depois realocadas em 110 duplas. Cada uma era formada por uma espécie que ocorria no Caribe e outra na costa brasileira, ou por populações distintas de uma mesma espécie separadas pela pluma. O efeito separador da torrente de água doce barrenta pôde ser observado para 60 dessas duplas, afetadas em um dos três momentos da evolução do Amazonas. Não houve impacto sobre as outras 50, que ocorrem em todo esse trecho do Atlântico Ocidental.

A influência da pluma foi proporcionalmente maior entre as espécies denominadas criptobênticas – peixes de menos de 10 cm que vivem no fundo e usam a paisagem dos recifes para se ocultar, como as do gênero Malacoctenus – do que entre as de peixes maiores. Das 23 espécies criptobênticas existentes hoje nessa porção do Atlântico, 20 (87%) surgiram provavelmente por influência da pluma, que dividiu populações únicas de uma mesma espécie ancestral. O mesmo efeito foi observado em 46% das 87 espécies de maior porte, entre elas a do budião-arco-íris (Scarus guacamaia), um peixe caribenho de 1,2 m de comprimento e corpo esverdeado, nadadeiras alaranjadas e boca azul, e a do budião-azul (Scarus trispinosus), de coloração uniforme e cerca de 90 cm, encontrado na costa brasileira.

“As espécies menores foram as primeiras a serem separadas pela pluma. Esse efeito só se torna evidente nas maiores nos últimos 2,4 milhões de anos”, conta Floeter, da UFSC. A torrente de água doce que separa as águas superficiais do Caribe das do litoral brasileiro levou ao surgimento de 16 espécies criptobênticas nos primeiros 4 milhões de anos de existência da pluma. Esses peixes enfrentam muita dificuldade para atravessar a barreira porque nadam por pequenas distâncias e suas larvas vivem pouco tempo na coluna de água.



Rodrigo Cunha

Inicialmente mais tênue sobre os peixes grandes, o efeito da pluma se intensificou com o aumento da carga de sedimentos e da turbidez da água. Dos 31 eventos de separação registrados nos últimos 2,5 milhões de anos, 13 envolveram espécies com mais de 50 cm. Um dos mais recentes ocorreu há apenas 100 mil anos e originou o budião-comum (Sparisoma viride), caribenho, e o budião-verde (Sparisoma amplum), do litoral do Brasil.

As mudanças nas propriedades químicas e físicas da pluma durante o Pleistoceno foram acompanhadas de oscilações mais frequentes no nível do mar, que esteve mais de 50 m abaixo do atual em pelo menos três períodos. Por causa de sua espessura restrita, a pluma afeta menos o trânsito de espécies entre a costa brasileira e o Caribe nos períodos em que o planeta está mais quente e o nível do mar elevado, como o atual. Vários desses peixes podem usar o grande recife de algas calcáreas, corais e esponjas que existe em frente à foz do Amazonas – e se estende do Pará à Guiana Francesa – como um corredor conectando o litoral nacional ao caribenho. Já nas eras glaciais, com o nível do mar mais baixo, a água doce da pluma cobre boa parte da plataforma continental, impedindo a formação de recifes e dificultando o trânsito dos organismos marinhos.

O que o grupo de Rocha e Floeter observou para os peixes de recifes parece valer para uma grande variedade de organismos marinhos. Em um estudo publicado em janeiro na revista Scientific Reports, o biólogo Everton Tosetto e pesquisadores das universidades federais de Pernambuco (UFPE), Rural de Pernambuco (UFRPE), da Paraíba (UFPB) e do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), na França, analisaram a influência da pluma sobre a distribuição de 8.375 espécies pertencentes a 17 grandes grupos (filos) de animais encontrados no Atlântico Ocidental, do mar do Caribe a Cabo Frio, no Rio de Janeiro.

A variedade é grande e inclui seres microscópicos que formam o plâncton, passivamente transportados pelas correntes oceânicas, animais que vivem no fundo do mar, como anêmonas e poliquetas, e outros com boa capacidade própria de deslocamento, por exemplo, crustáceos, peixes e até aves. “Trabalhos anteriores focaram em filos específicos. Mostramos que a pluma do rio Amazonas é uma barreira à dispersão dos principais grupos de animais marinhos”, afirma o biólogo, que faz um estágio de pós-doutorado no IRD.

O grupo constatou que a pluma é mais do que um divisor de duas áreas com faunas distintas. Ela, em si, é um ecossistema com uma diversidade biológica peculiar. Suas características físicas (maior turbidez) e químicas (menor salinidade e maior concentração de nutrientes) propiciam o crescimento de um número considerável de espécies que talvez não resistissem às condições da água do mar.

Estima-se que existam na pluma 1.929 das 8.375 espécies de animais marinhos do Atlântico Ocidental. Cerca de 27% delas (519) são encontradas ali, mas não no Caribe nem na costa brasileira. Já das 3.373 espécies que, estima-se, ocorrem no litoral brasileiro, 1.713 (51%) não são encontradas na pluma nem no mar do Caribe, onde o grau de exclusividade é ainda mais elevado: 69% das 5.590 espécies observadas lá não estão nas outras duas regiões.

A comparação do número de espécies compartilhadas entre as três regiões permitiu ainda confirmar que a costa do Brasil e a pluma são “exportadoras” de fauna: 45% das espécies brasileiras e 65% das encontradas na pluma também existem no Caribe, enquanto apenas 25% das caribenhas ocorrem no litoral do país e 21% na pluma. Esses dados sugerem que, em muitos casos, a pluma atua como um filtro semipermeável, que permite a passagem em um sentido preferencial”, conta Tosetto. O sentido privilegiado de dispersão é de sul para norte, provavelmente em consequência do transporte oceânico nessa área, dominado pela Corrente Norte do Brasil.

Em um estudo publicado em março deste ano na revista Science of the Total Environment, os oceanólogos Fabiano Thompson e Camille Leal, da UFRJ, e sua equipe analisaram as comunidades de microrganismos – bactérias e arqueias – que habitam duas espécies de esponja encontradas do Panamá ao Rio de Janeiro: Monanchora arbuscula e Xestospongia muta. Concluíram que a pluma do Amazonas não afetou a distribuição dessas esponjas nem dos microrganismos que vivem em seu interior e são importantes para a saúde delas.



Artigos científicos
ARAÚJO, G. S. et al. The Amazon-Orinoco barrier as a driver of reef-fish speciation in the Western Atlantic through time. Journal of Biogeography. No prelo.
LEAL, C. V. et al. Sponges present a core prokaryotic community stable across Tropical Western Atlantic. Science of the Total Environment. 13 abr. 2022.
Revista FAPESP

domingo, 15 de maio de 2022

O aprofundamento da fome no Brasil




José Dias Campos

Devido a vários aspectos originados pela pandemia e ao desgoverno, voltamos a presenciar a triste realidade da fome

As muitas crises vivenciadas tem levado grande parte da população brasileira a um maior estado de vulnerabilidade social, o tão conhecido estado de miséria.

É evidente que precisamos entender a fome não só a partir da escassez de alimentos sólidos, mas, também da água como alimento e tantas outras necessidades ao bem estar da vida que, ao aprofundar-se constituem-se espécies de fome. Por exemplo, fome de paz, fome de cultura, fome de tolerância, fome de bem estar, fome de amor ao próximo. São muitos os estados de fome por que passa a humanidade e particularmente o Brasil.

Talvez só os incessíveis, se é que eles existem, não conseguem vivenciar algum estado de fome ocasionada pela ausência de alguma necessidade fundamental para a vida.

Atualmente no Brasil vivenciamos um grande estado de fome, originado a partir dos impactos da pandemia e, agravado pelo aprofundamento do processo inflacionário e de desgoverno, que tem se refletido na ausência de políticas públicas eficazes de distribuição de renda, principalmente, para as camadas mais frágeis da população.

No passado foram vivenciados estados de miserabilidade muitos graves, nos quais famílias procuravam no lixo restos de alimentos. Infelizmente, essas cenas têm voltado ao cenário. É algo muito triste!

Só quem vivenciou períodos tristes de fome pode ter a dimensão do sofrimento por que passa grande parte da população brasileira, em estado de profunda fome.

No ano de 1970, ainda criança, pude experimentar o que é ter fome. Saia com minha irmã mais nova até os pés de umbu para comer as folhas, pois já não havia mais frutos.

Lembro-me que naquela época eu ia com meu pai para a feira e ele tinha o hábito de experimentar a farinha, seca, de mandioca, a venda a granel em caixotes no mercado central de Teixeira. Ele pegava um punhado com a mão e levava até a boca e, eu o acompanhava nesse ato porque tinha fome e não dispunha de dinheiro sequer para comprar um pão.

Os poucos recursos que meu pai reunia para a feira eram escassos, frutos da ação de cooperação dos meus irmãos mais velhos que trabalhavam alugado ou no sisal, uma vez que ele era doente e não podia trabalhar. Foi algo muito triste que ficou marcado na minha vida.


(Foto: Leonardo Henrique/ MST)

Naquela época, praticamente não se conseguia compra mistura, ou seja, proteínas para compor a dieta alimentar e nutricional. Então lembro que íamos nas sextas-feiras, véspera da feira livre até o matadouro para pedir o sangue de boi, algo que não era comercializado, para cozinha e servir de mistura.

Esse tempo passou, graças aos frutos da luta de muitos e muitas por melhores condições de vida e da sensibilidade de governantes ao apelo dos mais fragilizados, embora tenha ficado muito marcado na minha memória.

Hoje, infelizmente vejo voltar essa triste cena através da realidade de muitas famílias que passam fome e outras que não conseguem comprar nada de proteína e vão para filas em busca de ossos ou a procura de restos de alimentos no lixo. A que estado de fome chegamos e até aonde vamos! Precisarmos reagir!

O Centro de Educação Popular e Formação Social (CEPFS), organização social com mais de 35 anos de ação em busca da convivência com as adversidades do clima, no semiárido da Paraíba, por meio de sua equipe já vivenciou diversas realidades: os saques as feiras livres e supermercados na década de 1990 e o desenvolvimento das denominadas frentes de emergências, forma utilizada pelos governantes para combater a seca na época.

Posteriormente vivenciou e executou políticas publicas de convivência com as adversidades do clima semiárido, por meio da construção de reservatórios descentralizados de captação e armazenamento de água para o consumo humano e para a produção de alimentos saudáveis, a partir de parceria com governos mais sensíveis a causa dos camponeses(as).

Agora, devido a vários aspectos originados pela pandemia e o desgoverno volta a vivenciar essa triste realidade, na qual há agricultores e agricultoras que passam fome. Por isso lançou um apelo solidário através da campanha de arrecadação de alimentos e recursos para cesta básicas, buscando amenizar a situação daqueles que estão em estado de fome, em sua região de atuação: o remédio para a fome é dar de comer!



José Dias Campos é coordenador executivo do Centro de Educação Popular e Formação Social.
Le Monde Diplomatique

sexta-feira, 13 de maio de 2022

A morte é o dilema do nosso tempo




Vinícius Mendes


O que antes só se vivia na guerra, agora é a vida cotidiana. Morrer é tristeza, mas também resignação


Como desejo e como guerra, como horror e como cotidiano, como lamento e como vitória, a morte retorna ao nosso tempo como seu grande dilema. Agora morrer não é somente a consequência do método histórico dos estados, paridos dos seus próprios exércitos, mas é também parte da coleção de normalidades da vida ordinária. Se ditaduras, impérios e mesmo democracias sempre foram instituições que relativizaram o assassinato para sustentar seus objetivos, suas sociedades nunca deixaram de se chocar. Essa foi a história do último século em boa parte do mundo – mas algo aconteceu de lá para cá que ainda não compreendemos.

A resposta menos pior é a pandemia, que, com a rapidez dos fenômenos da natureza, recolocou a morte como fato incontrolável. Ela primeiro se vestiu de número, de seta, de planilha, de gráfico, de porcentagem, de manchete, numa matemática que os jornais pensavam ser possível usar para paralisar o mundo. À falta de corpos empilhados, porém, as pessoas seguiram frequentando bares e cafés – em detrimento às regras dos governos. Alguma filosofia chegou a argumentar que não havia outro jeito, que era tanta gente morrendo que a vida não poderia sentir todas as dores. Que era preciso uma nova atitude blasé para seguir existindo.

A resposta mais crua, porém, joga a explicação para o nosso tempo. Algo aconteceu nele que fez com que a morte, além de prática estatal, que sempre foi, também se encrustasse como um instrumento de resolução do ordenamento do dia a dia, das pessoas que tecem a sociedade, dos seus discursos morais, da percepção comum que têm da vida comum.

É assim, então, que a morte regressa a esse tempo como suplício. É mais um dos nossos atuais regressos àquele tempo que o Ocidente insiste em chamar de Idade Média: não porque nele a espera pelo momento de morrer — ou, antes, pelo cumprimento da promessa cristã de volta do messias ao mundo — dava o tom dos dias, mas porque ser morto em público voltou a ter uma aura de justiça. Na América Latina, na Ásia, nos confins do Hemisfério Sul, delitos são punidos com espancamentos, membros amputados e assassinatos gravados que, depois, viram mercadoria moral da população. Os sentenciadores não são instituições: são apenas outras pessoas.

Não é à toa: ao invés do choque, há uma sensação de providência. O bandido, uma vez bandido, não tem mais direitos. Ele deve pagar por toda sua condição – da sua escolha individual ao contexto que o forjou como tal – com a própria vida.

Essas mortes carregam a correlação de ideias que fez o suplício medieval existir. Ele era o pressuposto coletivo de que a morte — especialmente aquele jeito cruel de morrer — era a pior das experiências que um ser humano poderia ter. Mas ali morrer já era, em qualquer circunstância, um acontecimento, uma ruptura com o rotineiro, e por isso mesmo que era um suplício (de suplicar publicamente aos deuses), ou a única justiça que se tinha.

A morte volta agora como resignação não dos governos, mas dos governados. Morrer não é só inevitável como é aceitável. No horizonte histórico do Brasil, não se trata exatamente de uma grande novidade — este é o país que, não apenas como instituição, assassinou nativos, africanos, migrantes, e que ainda hoje o faz, como sociedade, com os sujeitos que rompem um suposto modelo tradicional, rígido, de existência. Mas o que irrompe como novo é justamente a amplitude dessa indiferença, a transformação dela em costume popular, em experiência cotidiana. Não é a necropolítica, mas a necrossociedade que a sustenta.

Diante de tanta morte, este país passou a topá-la, até mesmo comemorá-la — verdadeira mudança psíquica que ainda está por se compreender, já que revisita toda a lógica do luto. É assim que quando um funcionário estatal sugere que o aumento de óbitos de idosos alivia a folha de pagamentos da previdência, o que é bom para a nação, sabe-se mais sobre esta nação do que sobre o seu funcionário.

É assim também que um cadáver não incomoda os consumidores de um supermercado, ou os transeuntes de uma padaria, ou que ocupa, quando negro, a frieza de uma capa de jornal. É assim que o governante, diante da morte dos seus governados, responde que não é ele quem vai abrir as covas para enterrá-los. Se a pandemia foi, de fato, o estopim desse regresso do dilema da morte ao mundo, o Brasil bolsonarista adicionou a ele a questão da indiferença.

A morte retorna ainda como arma – mas agora em um ambiente que almeja a democracia e, portanto, a vida. Nesse sentido, também ganha um velho contorno de justiça. Quando alguém inconveniente morre, um adversário político, um inimigo de discurso, o suplício não acontece como na Idade Média porque uma parte da multidão ao contrário, comemora. Ela não percebe sua fraqueza: por um lado, ainda não entendeu que quando um dos seus também morre, há sempre outra parte da multidão, do lado de lá, a comemorar. É um ciclo sem fim. Por outro, não compreende o paradoxo da sua alegria: se a morte se tornou seu único instrumento para vencer, é porque todas as suas outras possibilidades de ganhar já foram derrotadas. É o símbolo do seu fracasso.

E, à justificativa de que se trata de uma verdadeira perversão romper com o desejo dos oprimidos em ver seus opressores morrendo, a resposta é parecida: trata-se do desespero de quem tem, na morte, a única possibilidade de acabar com a opressão. Tem-se, então, a receita do fim do mundo: à morte se responde com morte, sem se dar conta que o problema não está na morte do carrasco, mas, pesado no coração, o desejo de aniquilação como solução inequívoca. Novamente, ela fala mais sobre as nossas capacidades de acabar com qualquer opressão do que sobre a existência dos opressores.

Nesse tempo estranho, ainda não compreendido, morrer é relativo. É uma marca e um paradoxo dessa época – que ambiciona a democracia, a igualdade, a justiça, mas se conforta na morte. Quando ela acontece, sempre há de se perguntar antes se ela é digna de angústia ou de festa. Depois, de saber quem chora pelo cadáver e quem, ao contrário, regozija. Só então a morte é vivida, já filtrada, pelos dois lados. Eles sempre existem, inevitavelmente: uma hora se chora, na outra se comemora, mas nunca se trata de um acontecimento uníssono. O tempo das grandes comoções não existe mais.

Era assim só na guerra. Era.



Vinícius Mendes é jornalista e sociólogo.
Le Monde Diplomatique

A guerra que ninguém vê

Marina Colerato

Sob comando de Edorgan, a Turquia inicia uma nova ofensiva militar contra os curdos na Síria e no Iraque. Operação Claw Look fica às sombras dos acontecimentos na Europa e os curdos não encontram solidariedade internacional.

Enquanto a atenção segue totalmente voltada para o conflito Rússia e Ucrânia, a Turquia iniciou, no último dia 17 de abril, uma ofensiva militar contras os curdos, no sul do Curdistão, nas cidades de Zap e Avaşîn. Localizadas na fronteira da Síria com a Turquia, essas regiões estão amplamente sob o controle do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), fundado em 1978 como forma de organizar a histórica luta curda por um Curdistão independente. Atualmente, o partido é considerado terrorista pela Turquia, bem como por alguns de seus países aliados, como Estados Unidos, no que tem sido cada vez mais entendido como uma estratégia política internacional para enfraquecer o movimento de autodeterminação curdo.

O atual conflito se desdobra nesse cenário de luta secular e acontece alguns meses após o Newroz, o ano novo Curdo, cujas celebrações no dia 21 de março levaram milhares de pessoas às ruas e serviram também como manifestação política em apoio ao movimento de libertação curdo e ao próprio PKK. A chamada operação Claw Lock encontra resistência nas forças de defesa das regiões da Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria (ANF), formadas em 2014 sob liderança do Partido dos Trabalhadores do Curdistão. Recep Tayyip Erdoğan (Partido da Justiça e Desenvolvimento – AKP), atual presidente da Turquia, e seus militares turcos têm apoio de mercenários do Estado Islâmico que buscam aumentar seu controle na região. Ambos os lados já fizeram estimativas de baixa, que diferem entre si e não podem ser confirmadas por fontes independentes. Na análise publicada no site da ANF, Civaka Azad, do Centro Curdo de Relações Públicas, afirmou que o conflito deve se desenvolver ao longo dos próximos meses.

Após o início da operação diversas outras regiões curdas já foram atacadas pelas forças turcas por ar e por terra como Afrin, Til Temir, Metîna, Zirgan e recentemente, a cidade de Kobanê, em Rojava, importante espaço de resistência ao Estado Islâmico e do movimento de libertação curdo. O ataque à região estava sendo orquestrado desde o final do ano passado. À época, a Turquia não recebeu autorização dos outros países integrantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para concretizar os planos, o que não a impediu de iniciar ataques por drones em outras regiões no norte da Síria.

Dessa vez, não houve sinal vermelho por parte dos países membros, que permanecem mudos acerca da guerra em curso – até o momento, apenas a embaixada dos Estados Unidos na Síria emitiu um comunicado no Twitter solicitando que “as partes desescalem” o conflito. Apesar dos diversos crimes de guerra já cometidos pela Turquia ao longo dos últimos dias, inclusive a utilização de armas químicas, o país segue a ofensiva contra os curdos sem retaliações por parte das lideranças políticas globais. Há interesses políticos e econômicos em jogo: a Alemanha, por exemplo, é uma grande fornecedora de tecnologia bélica para o Estado turco e tem uma política de retaliação aos militantes alemães que demonstram apoio ao movimento curdo.




Os atuais ataques ao sul podem ser lidos dentro de um contexto amplo de ataques realizados pelo Estado turco em diversas partes do Curdistão, incluindo aqueles acontecendo em Şengal (Sinjar), na fronteira entre Iraque e Síria – onde um muro para isolar Rojava está sendo construído e a presença militar iraquiana já vinha sendo reforçada, aumentando as tensões entre o governo e a população local. No último dia 19, o exército iraquiano atacou as posições do YBS e YJS, grupos de autodefesa no Iraque ligados ao PPK. Os ataques do governo Iraquiano podem ser vistos como uma ofensiva crescente para expulsar os curdos, sobretudo as forças de autodefesa da região.

Os interesses turcos e iraquianos se alinham aos do Partido Democrático do Curdistão (KDP), sob liderança da família Barzani, recentemente exposta em esquemas de corrupção nos EUA. Desde o fim da Guerra do Golfo, o KDP divide a gestão do Governo Curdistão Iraquiano (KGR) com o Partido da União Patriótica (PUK). Além dos encontros frequentes entre as lideranças do KDP e o governo turco, os primeiros helicópteros da ofensiva militar turca contra o Curdistão saíram de uma região do Iraque controlada pelo KDP. Até o momento, o PUK permanece contrário à atual ofensiva militar ao Curdistão, tanto no Iraque quanto na Síria, e já emitiu uma série de comunicados condenando a tripla ofensiva militar da Turquia, Iraque e KDP.

A mobilização social contra a ofensiva turca foi rápida em acontecer. Desde o início da operação Claw Lock, milhares de pessoas em Sengal e Mexmur, no Iraque, e Kobanê e Qamlisho, em Rojava, foram às ruas para se mobilizar contra os ataques enquanto centenas de pessoas se reuniram para os funerais dos militantes das forças de autodefesa. Na Europa, manifestações aconteceram em dezenas de cidades, entre elas Berlim, Viena, Frankfurt e Paris. O silêncio da mídia internacional sobre o conflito, que já deixou centenas de mortes, era também o que Erdoğan esperava, e precisava, ao lançar a operação Claw Look às sombras dos acontecimentos na Europa.


(Creative Commons)

Motivação turca e o projeto neo-otomano

Além de uma clara retaliação às conquistas curdas, sobretudo o estabelecimento da Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria sob liderança do PKK e seu amplo apoio popular, o regime do AKP também tem interesses neo-otamos de retomada de territórios perdidos com a queda do Império, no início do século XX. Com a aproximação do fim do Tratado de Lausanne, responsável por definir as fronteiras modernas da Turquia, as tensões locais são amplificadas, a exemplo da ocupação de Afrin – assentada sobre poços de petróleo – e da faixa entre Serêkaniyê e Girê Spî no norte da Síria.

A Turquia também mantém numerosas estações militares no sul do Curdistão e quer ampliar sua influência no Iraque para retomar outros territórios ricos em petróleo e que considera seus por direito, como Kirkuk e Mosul. Outras questões políticas aparecem como motivadoras, como a crise econômica na Turquia e o papel da guerra em fortalecer um sentimento de união nacionalista turca (assentado no histórico racismo anti-curdo), distraindo a população do fracasso econômico atual.

As tensões entre turcos e curdos duram décadas. Logo após a assinatura do Tratado de Lausanne, que enterrou a possibilidade da criação oficial de um Estado Curdo, uma política de “turquificação” proibiu idiomas de minorias étnicas, as palavras “curdo” e “Curdistão” foram abolidas e os curdos passaram a ser chamados de “turcos das montanhas”. Nos anos 90, o genocídio se intensifica com a criação do Centro de Inteligência Policial e Contra o Terrorismo que, junto com o grupo islâmico ligado ao Estado Hezbollah Curdo (sem ligação com o grupo libanês de mesmo nome), assassinou membros do PKK e civis em plena luz do dia.


(Creative Commons)

Os curdos nunca aceitaram a perseguição turca de forma pacífica e vários levantes curdos aconteceram ao longo dos anos e das políticas de limpeza étnica, deixando dezenas de milhares de pessoas mortas, feridas ou deslocadas. Um dos fundadores do PKK e principal liderança curda contra o genocídio, Abdullah Öcalan foi condenado à morte e capturado em 1999. A sentença foi alterada para prisão perpétua (em isolamento) após a Turquia abolir a pena de morte em uma tentativa de ingressar na União Europeia. A prisão de Öcalan não foi suficiente para conter o movimento curdo e, por outro lado, não cessou a ofensiva turca. Sob a presidência de Erdogan, o país começou a implementar “leis antiterroristas” com definição tão ampla de terrorismo que até lançar uma pedra, caso você fosse curdo, poderia ser considerada uma infração terrorista. A lei antiterrorista também serve para reprimir apoiadores da revolução curda, sobretudo do PKK e aliados.

Porém a Turquia também tem se preocupado com o avanço curdo dentro da política institucional turca. Em 2009, o Partido da Sociedade Democrática (DTP), comprometido com o Confederalismo Democrático, projeto político do PKK, obteve grande êxito nas eleições. O que levou o Estado turco a prender representantes do partido e depois proibi-lo. De qualquer forma, outro partido, o Partido Paz de Democracia (BDP) foi criado na sequência, sucedendo tanto manifestações de massa como assassinatos. Em 2015, o PKK responde aos incessantes e pesados ataques dos turcos nas regiões onde o partido tem suas bases com expectativa de minar o crescente sucesso eleitoral do Partido Democrático dos Povos (HDP), que substituiu o DTP em 2014. Levantes curdos na Turquia contra Erdogan e a favor do PKK foram reprimidos com artilharia pesada, tanques e helicópteros. Com as eleições se aproximando e a popularidade do HDP em ascensão, Erdogan e aliados tentam um novo banimento ao partido curdo.

Para que a atual ofensiva turca seja bem-sucedida, é preciso derrotar as forças de guerrilha do PKK, que mesmo em clara desvantagem de recursos se considerarmos que a Turquia é o segundo maior exército da Otan, têm sido capazes de conter o Estado Islâmico bem como resistir às ofensivas do KDP e da Turquia nas regiões autônomas. A aposta é que vencendo os guerrilheiros e guerrilheiras curdos em Zap e Avaşîn, seja possível avançar em outras regiões administradas pelo autogoverno, não só na Síria, mas também em Şengal e Mexmur. Mas se a Turquia está obstinada em seu projeto neo-otomano também estão os curdos em manter seu projeto de autodeterminação.



Marina Colerato é jornalista dedicada a cobrir pautas de justiça social e ambiental. Atualmente está como diretora presidente no Instituto Modefica e é mestranda em ciências sociais pela PUC-SP onde pesquisa ecofeminismo, justiça climática e neoliberalismo. Você pode encontrá-la no twitter, instagram e na sua newsletter Lado B.
Le Monde Diplomatique

domingo, 10 de abril de 2022

Desaparecimento de lago expõe risco da privatização da água


Naomi Larsson


Estiagens e concessão sistemática de recursos hídricos a terceiros levam à extinção de lagos e agricultores ao desespero no Chile. Novo governo e Constituição são esperança para reverter esse cenário.



https://www.dw.com/pt-br/desaparecimento-de-lago-exp%C3%B5e-risco-da-privatiza%C3%A7%C3%A3o-da-%C3%A1gua/a-61084094

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Segundo uma antiga lenda, no fundo do lago de Aculeo, no centro do Chile, haveria uma grande riqueza de ouro dos incas. Os moradores das proximidades dizem que até se podia ver o ouro brilhando nas águas cristalinas da lagoa, que é cercada por colinas exuberantes e pela Cordilheira dos Andes.

Mas a lagoa, que já foi um dos maiores lençóis naturais do Chile, agora está completamente seca, sem sinais de vida. Isso revelou que ali nunca houve algum tesouro escondido. No entanto, os habitantes locais se deram conta da verdadeira riqueza da água.

"Ouvia pássaros cantando o dia inteiro porque a flora e a fauna da lagoa eram espetaculares. Era possível ver os peixes nadando, de tão clara que era a água", conta Viola Gonzalez Vera, que mora em Aculeo, a 70 quilômetros da capital, Santiago, há 30 anos.

O leito do lago agora está ressequido e rachado, desfigurado pelas frequentes secas. As antigas margens marcam onde o lago costumava estar, como fantasmas deixados para trás para lembrar aos habitantes locais o que este lugar foi um dia.
Em 2011, o lago de Aculeo ainda era atração turística para esportes aquáticosFoto: Martin Bernetti/AFP/Getty Images

O Chile enfrenta uma enorme estiagem nesta última década, com as regiões centrais recebendo 30% menos chuva do que o normal. Durante anos, acreditou-se que a mudança climática estava por trás do desaparecimento da laguna de Aculeo, que existiu por mais de 3 mil anos. Porém, no início deste ano, pesquisadores de hidrologia e gestão da água descobriram que o principal culpado foi a exploração excessiva da região.
Lagoa extinta e fim dos meios de subsistência

O estudo publicado na revista Sustainability em janeiro deste ano apontou que, embora tenha havido uma influência da quantidade de chuvas abaixo da média na última década, há "provas indiscutíveis" de que a laguna desapareceu graças à atividade humana, principalmente através do desvio dos rios e do bombeamento das águas subterrâneas dos aquíferos que a abasteciam.

Mesmo após quatro períodos de estiagem com poucas chuvas no século 20, a lagoa nunca chegou perto de secar, de acordo com o estudo. "Mas ao longo dos anos 90 as indústrias agrícolas começaram a desviar esses rios quando o Estado começou a ceder 100% dos direitos de água de um rio, e depois outro, depois outro", disse Pablo Garcia-Chevesich, professor chileno da Escola de Minas do Colorado e da Universidade do Arizona, e coautor do relatório.

Em 2010, o rio Pintue − um importante afluente − foi completamente desviado. Grandes fazendas produtoras de cerejas e abacates também cavaram poços profundos e bombearam água diretamente da lagoa. Como resultado, "não importava mais o quanto chovia; pela primeira vez a lagoa não pôde suportar uma seca", explicou Garcia-Chevesich, que também é membro do Programa Hidológico Intergovernamental da Unesco.

Quando a lagoa secou e a vida ao redor desapareceu, o mesmo aconteceu com os turistas. Ao mesmo tempo, os pequenos agricultores das redondezas viram suas colheitas encolherem e os animais morrerem.

Água potável está cada vez mais escassa no mundo



02:51


Ao longo dos anos, alguns na comunidade perderam o acesso à água potável, quando surgiram novas casas de verão com gramados e piscinas abastecidas com essa água. Mas nada se compara à exploração que ocorreu quando os produtores de abacate e cereja se mudaram para a região, dizem os moradores locais.

"Já vi pessoas chorando na rua porque não tinham água para escovar os dentes", conta Gonzalez Vera, que tem um tanque em seu quintal − a poucos metros de onde esteve o lago um dia – que é abastecido por um caminhão pipa que traz água ao vilarejo.

Garcia-Chevesich culpa o Estado pela perda da lagoa e pelo impacto resultante na população local. "É a concessão fora de controle dos direitos da água sem nenhum estudo ou avaliação que inclua mudanças climáticas ou danos sociais ou ecológicos". Esse problema ocorre em todo o país.
Quando a água é uma mercadoria e não um direito humano

A Constituição do Chile, escrita durante a ditadura militar de Augusto Pinochet, considera a água uma propriedade privada, tornando-a um bem econômico. O Código da Água de 1981 também permite ao governo conceder gratuitamente direitos permanentes e transferíveis sobre a água a terceiros.

Essa legislação criou um mercado para a água e dificultou a administração do abastecimento hídrico. Na Aculeo, por exemplo, não foram realizadas auditorias para administrar os níveis de consumo antes que o Estado entregasse os direitos sobre a água. "O problema da água no Chile é muito profundo. Ela é vista como mais um recurso a ser explorado", disse Estefania Gonzalez, coordenadora de campanhas do Greenpeace Chile.

Mais de 1 milhão de chilenos não têm acesso à água potável, enquanto algumas partes do Chile enfrentam secas mais frequentes e prolongadas devido à mudança climática. Apesar deste cenário, a água tem sido explorada em excesso por décadas. Indústrias extrativas sedentas, como a mineração de lítio e cobre, impulsionam a economia do país. Quase 80% da água doce é destinada à agricultura, especialmente para a produção de abacate, na qual cada fruta consome cerca de 70 litros de água.

A situação ficou tão ruim em Petorca, uma cidade da região chilena de Valparaíso cercada pela produção de abacate, que o governo declarou uma "emergência hídrica", permitindo a cada residente o uso de apenas 50 litros por dia.
Nova visão verde para o futuro

Atualmente, 155 delegados eleitos por representantes de toda a sociedade civil − majoritariamente independentes e de esquerda − estão reformulando a Constituição da era ditatorial do país. Uma nova carta magna foi a exigência central dos violentos protestos em todo o país contra a profunda desigualdade social que ocorreram em 2019.

É uma oportunidade rara para um país criar uma nova visão para o futuro, na qual o meio ambiente tenha prioridade máxima. Por exemplo, 81 dos membros da assembleia constituinte apoiaram uma campanha do Greenpeace para proteger os direitos da água e os ecossistemas no novo documento.
Violentos protestos no Chile em 2019Foto: Claudio Abarca Sandoval/NurPhoto/picture alliance

"Poremos um fim ao armazenamento de água, restringiremos a apropriação de terras e o estoque de água para acabar com a criação destas paisagens de vales secos", disse à DW Carolina Vilches Fuenzalida, membro da assembleia.

A ativista ambiental e outros delegados dizem que uma de suas prioridades é criar um estatuto para mudar a natureza legal da água, garantindo acesso seguro e saneamento para toda a população chilena. As propostas serão debatidas durante os próximos meses e cada projeto de lei precisará de uma maioria de dois terços para chegar ao documento final, antes de ir a um referendo público no final deste ano.

Durante a campanha eleitoral, o novo presidente do Chile, o esquerdistaGabriel Boric, prometeu impulsionar a mudança ambiental e apoiar a mudança constitucional

"O país inteiro está esperando por isso. Se ele não fizer nada [sobre as questões da água] estamos falando de enormes consequências sociais, com até uma nova onda de protestos", avalia Garcia-Chevesich, se referindo aomovimento de 2019.



Alguns dos recursos mais escassos no mundo

Embora pareçam intermináveis, reservas de elementos essenciais como água, carvão e areia estão ameaçadas. Uso excessivo, má distribuição e fatores climáticos tornam recursos naturais cada vez mais valiosos.Foto: AFP/S. Qayyum




Qual é o tamanho da sua pegada hídrica


Natalie Müller | Neil King

Água é um recurso precioso, que precisa ser preservado. Fechar a torneira enquanto se escova os dentes já ajuda. Porém até 30 vezes mais abundante é a água "virtual", oculta em tudo que se come, veste ou usa.

Quanta água é necessária para fazer uma xícara de café? Uma pista: muito mais do que uma xícara só. A Water Footprint Network, uma plataforma que advoga o uso sustentável desse recurso, calcula que, para produzir essa quantidade de bebida, são necessários 132 litros de água.

A estimativa leva em consideração toda a cadeia de produção, desde a irrigação do cafeeiro, processamento dos grãos e embalagem até o transporte ao supermercado. É o que se denomina água "oculta" ou "virtual": ela não é vista, mas desempenha um papel central em quase tudo o que se consome, incluindo energia, alimentos, roupas, telefones celulares, automóveis e café.

"Tudo precisa de água para ser produzido", explica à DW Ertug Ercin, pesquisador-chefe da Water Footprint Network. "Uma quantidade significativa é usada para produtos alimentares e bebidas, em particular. E essa, na verdade, é a sua pegada hídrica, a quantidade de água exigida pelos seus padrões de consumo."

No fim das contas, a água que sai das torneiras de casa – o consumo direto – só constitui uma parcela mínima da pegada hídrica pessoal, em comparação com a água "indireta" ou virtual.
Demanda crescente e estresse hídrico

A água doce é um recurso finito: dos 1,386 bilhão de quilômetros cúbicos de recursos líquidos estimados na Terra, apenas 3% é água doce, e cerca de 1% é disponível, estando o restante estocado em geleiras e calotas de gelo.

Essa reserva de água doce sofre pressão crescente da mudança climática e das necessidades de uma população humana global em expansão. O aumento da demanda hídrica agrária, industrial e residencial já desperta temores de escassez em algumas partes do mundo.

De acordo com a Organização das Nações Unidas, cerca de 2 bilhões de seres humanos não têm acesso a água potável segura, enquanto 2,3 bilhões vivem em países sob estresse hídrico – ou escassez hídrica física.

"Estamos numa crise. Isso é alarmante", afirma Ercin. "Ao mesmo tempo, os padrões de disponibilidade estão mudando: não vamos encontrar água onde mais precisamos dela, nem quando mais precisarmos." Portanto, só será possível evitar secas severas ou áreas sob estresse hídrico se a água for usada com mais cuidado e eficiência. O que leva de volta às pegadas hídricas.
Pegadas hídricas desiguais

As pegadas hídricas dos diversos países variam significativamente, dependendo de suas atividades industriais e agrárias, e dos padrões de consumo da população.

Existe água no espaço e dá para usá-la?



02:40


Nos Estados Unidos, por exemplo, ela é de 7.800 litros diários por indivíduo – o dobro da média global. O consumo direto doméstico é 3,5% desse volume, ou 270 litros por dia.

Na Alemanha, esse consumo direto pessoal é de 125 litros, mas chega-se a 3.900 litros se levar-se em consideração a água virtual. Na Índia, a pegada total é de 3 mil litros diários, na China, 2.934 litros.

Na Índia, por exemplo, a dieta se baseia menos em carne, enquanto "nos EUA, há um grande setor de carne, um grande setor de consumo, o poder aquisitivo é grande", observa Ercin, ressalvando que o consumo global pode subir drasticamente, caso chineses e indianos passem a consumir na mesma proporção que europeus e americanos.
15.400 litros para um quilo de carne, 12.760 para um smartphone

A agricultura é responsável por mais de 70% do consumo global de água. Produtos como vestuário e alimentos, oriundos da lavoura ou de animais que se alimentam de plantas cultivadas, necessitam muita água.

Derivados de carne e frutos secos contam entre os maiores "bebedores". A Water Footprint Network estima que sejam necessários mais de 15.400 litros para produzir um quilo de carne bovina, por exemplo; enquanto para um quilo de frutos secos são 9.063 litros. Legumes e verduras aparecem no outro extremo da escala, com 322 litros por quilo.

Plantações de algodão igualmente precisam de muita irrigação: um relatório de 2015 da companhia Trucost, que monitora recursos não sustentáveis, estipulava que uma camiseta de malha envolve 3.900 litros d'água; enquanto a Water Footprint Network calculava 8 mil litros para uma calça jeans, considerando a irrigação das safras, conversão em tecido e confecção final.

Além disso, quase 20% do gasto global de água serve a fins industriais. Para fabricar um smartphone, por exemplo, são precisos 12.760 litros – o equivalente a 160 banhos. Muita água vai para a produção e montagem de componentes, em grande parte a fim de diluir poluentes liberados durante o processo de manufatura.
Caso países como Índia adotem padrões de consumo ocidentais, consumo hídrico global crescerá drasticamenteFoto: Rajesh Kumar Singh/AP Photo/picture alliance
Como reduzir a pegada pessoal?

Apesar de o volume d'água usado individualmente seja ínfimo, comparado com o que vai para a indústria e agricultura, os consumidores têm algumas alternativas para reduzir suas pegadas hídricas.

Segundo Ertug Ercin, uma vez que a água está envolvida em todo processo de fabricação, a meta global deveria ser consumir menos, em geral. Isso inclui usar menos energia em casa, comprar produtos de segunda mão sempre que possível, reciclar, evitar desperdício de alimentos: "Toda comida que se desperdiça implica desperdiçar água indiretamente", frisa.

Susanne Schmeier, professora associada de direito e diplomacia hídrica do IHE Delft Institute for Water Education, acredita que estar ciente da pegada hídrica da comida que se compra já faz uma diferença: os 132 litros de água por trás de cada xícara de café "são definitivamente algo a considerar, e com que se pode fazer um impacto ainda maior na Europa do que fechando a torneira enquanto se escovam os dentes".

Beber menos café ou mudar para chá – que exige apenas 27 litros de água por xícara – é uma opção. Outra seria comer mais vegetais, em vez dos derivados de carne, cuja produção envolve muita água.
Selos de pegada hídrica e conexões tortuosas

Tem havido apelos para que as companhias adotem selos de pegada hídrica, semelhantes aos dados nutricionais dos itens alimentícios, a fim de aumentar a consciência pública sobre a água por trás de seus produtos, mas até agora não se chegou a um acordo.

"Acho que definitivamente faz sentido", opina Schmeier. "A rotulagem é certamente um passo adiante para tornar mais consciente o consumidor aqui na Europa e nos EUA, e também mais apto a fazer suas próprias escolhas."

No entanto, ressalva, a conexão da água com o comércio global e com os produtos que se compram é complicada, pois há outros fatores a se levar em conta quando se trata de bens envolvendo alto consumo d'água importados de outros países.

"Nós, na Europa, e também nos EUA, consumimos muita comida, assim como outros produtos, empregando recursos cultivados em outros países, inclusive regiões que sofrem escassez de água."

"Do ponto de vista hídrico, talvez não devêssemos estar mais consumindo uvas da África do Sul. Por outro lado, elas são um setor econômico importante para o país, desesperadamente necessário, por exemplo, para promover os serviços de educação e saúde. Então acho que temos que ver os dois lados da moeda."



Alguns dos recursos mais escassos no mundo

Embora pareçam intermináveis, reservas de elementos essenciais como água, carvão e areia estão ameaçadas. Uso excessivo, má distribuição e fatores climáticos tornam recursos naturais cada vez mais valiosos.Foto: AFP/S. Qayyum


Água, a fonte da vida



Em algumas partes do mundo, o acesso à água doce é considerado rotina, mas na verdade é um luxo. A água doce representa apenas 2,5% do volume total de água no mundo e mais da metade disso é gelo. A agricultura é responsável por 70% da água consumida no mundo. Até 2050, prevê-se que dois terços da população mundial sofram com escassez de água, o que afetará todos os aspectos da vida das pessoas.Foto: picture-alliance/Zumapress


Solo, o novo ouro



A disputa pela terra está aumentando mundo afora. À medida que a população mundial cresce, a terra disponível não aumenta. Pelo contrário, está cada vez mais degradada. Eventos climáticos extremos devido ao aquecimento global agravam estes problemas. Países muito populosos ou nações com pouca área para agricultura, como China e Arábia Saudita, já buscam terras na África. O solo é o novo ouro.Foto: Imago/Blickwinkel


Petróleo, ouro negro



A reserva de combustíveis fósseis no planeta é limitada, e, se eles se esgotarem, não poderão ser repostos. Se continuarmos com a atual taxa de consumo, isso levará ao esgotamento. Esse cenário seria um grande desafio para países como o Iraque e a Líbia, que têm grandes reservas de petróleo e gás natural.Foto: picture-alliance/dpaH. Oeyvind


Carvão, hora de repensar seu uso



O mesmo se aplica ao carvão. Mesmo que países como a Alemanha estejam relutantes em abandonar esta fonte de energia poluente, as reservas estão acabando. Na Polônia, as reservas de linhito das minas em funcionamento deverão esgotar-se até 2030. A hulha pode durar um pouco mais, mas não muito, dizem os especialistas. Por isso, é preciso criar alternativas ao carvão.Foto: picture alliance/PAP/A. Grygiel


Areia, recurso infinito?



Ao vermos um deserto, a areia parece infinita, mas sua produção natural é um processo bastante lento. É um recurso renovável, mas que está sendo usado em um ritmo tão rápido - na construção, por exemplo - que a natureza não tem tempo para a reposição. Em áreas em desenvolvimento como a África Oriental, onde a população deve duplicar até por volta de 2050, a areia pode tornar-se um recurso escasso.Foto: picture-alliance/ZB/P. Förster


Extinção de espécies



O descuido do ser humano em relação aos seres vivos está deixando várias espécies à beira da extinção. Os animais são amplamente vistos como recursos pelo ser humano, e como tal, pangolins (foto) podem ser incluídos na lista de recursos naturais escassos. Se esses recursos continuarem sendo explorados de forma insustentável, a vida humana estará em risco.Foto: picture-alliance/Zuma/I. Damanik


Qual o mais valioso dos recursos escassos?



Parece que está tudo desmoronando e que nada mais pode ser feito para evitar um futuro sombrio. No entanto, uma coisa ainda disponível é o tempo, um recurso escasso, mas extremamente valioso. Alguns dizem que a emergência climática ainda pode ser revertida se forem tomadas medidas ao longo dos próximos 12 anos. E este é um recurso que podemos explorar ao máximo. Não há tempo a perder.Foto: AFP/S. Qayyum


 
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