terça-feira, 26 de abril de 2011

São Paulo não é mais aquele

Aquecimento da economia e aumento de renda no nordeste alteram fluxo migratório

CELIA DEMARCHI


Arte PB

O Terminal Rodoviário Tietê é um dos principais pontos de saída e chegada de passageiros que viajam de São Paulo para o nordeste e vice-versa. Em suas plataformas, porém, há atualmente mais nordestinos embarcando de volta às suas pequenas cidades natais – que os ônibus, e não os aviões, alcançam – do que desembarcando para recomeçar a vida na megalópole, algo inimaginável há apenas poucos anos.

Esse movimento inverso se deve ao recente aquecimento da economia do nordeste, estimulada por ações do governo federal: as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o aumento do salário mínimo – que cresceu 44,5% em termos reais entre 2003 e 2010 – e a implementação de iniciativas como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Nacional (Pronaf) e o Bolsa Família, que distribuiu R$ 13,1 bilhões a 12,7 milhões de famílias em todo o país nos últimos sete anos.

Ainda assim, os efeitos dessas ações não se refletem de modo expressivo na diferença entre o aumento do Produto Interno Bruto (PIB) do nordeste – que desde a década de 1970 cresce um pouco mais que o do Brasil – e o nacional, já que a economia brasileira como um todo também deslanchou.

É consenso, porém, que as políticas públicas deram impulso à economia do nordeste. Os programas sociais representam de 4% a 5% da renda dos nordestinos – que são 28% da população do país –, enquanto equivalem a cerca de 1% da do brasileiro, explica o economista Raul Silveira Neto, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Dos trabalhadores nordestinos, além disso, quase metade recebe salário mínimo, assim como grande parte dos aposentados e pensionistas.

O aumento da renda atraiu para a região empresas fabris, do varejo e da construção civil, que criaram mais empregos e ampliaram a renda, propiciando a chegada de novos investimentos. “Passamos 50 anos em busca de melhorias, tentando atrair indústrias, mas a situação só começou a mudar com o aumento da renda”, diz Silveira Neto.

Um dos setores em evidência no país, a construção civil está abrindo mais vagas de emprego no nordeste do que nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro juntos. De acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), no período de 12 meses até setembro de 2010 foram criados na região 35,6% dos postos de trabalho que o setor abriu no país. O nordeste teve saldo positivo de 116,1 mil vagas, contabilizadas as admissões e as demissões, enquanto no Brasil esse total foi de 331,6 mil. Em São Paulo, os postos de trabalho remanescentes na construção civil somaram 55,9 mil e no Rio de Janeiro, 15,8 mil, no mesmo período.

O aquecimento do setor decorre das obras do PAC, de infraestrutura e de habitação, a maior parte relacionada ao programa Minha Casa, Minha Vida, e ainda de empreendimentos grandiosos em andamento, como a transposição do rio São Francisco e a construção da Ferrovia Transnordestina, que, juntas, devem consumir cerca de R$ 10 bilhões. Sozinho, o primeiro dos dois projetos deverá empregar 12 mil trabalhadores no pico da obra. Já a Transnordestina ocupará em torno de 7 mil em igual estágio.

Simultaneamente, a Petrobras constrói no nordeste duas refinarias e promete erguer uma terceira, em Bacabeira, no Maranhão. Nos três projetos, a companhia deverá investir cerca de R$ 90 bilhões ao longo dos próximos anos. A menor delas, localizada em Guamaré (RN), empregará mil pessoas, direta e indiretamente, durante as obras. A outra, denominada Abreu e Lima, situada em Ipojuca (PE), já ocupa alguns milhares de trabalhadores, cujo número deverá chegar a cerca de 20 mil no pico das obras, que pode ser alcançado até o fim deste ano. A construção da refinaria de Bacabeira ainda não começou, mas segundo a Petrobras dará emprego direto, indireto e por efeito renda (em decorrência do aumento do poder de consumo local) a 132 mil trabalhadores. Quando estiver em operação, a refinaria empregará 1,5 mil pessoas.

Os grandes grupos industriais também estão levando fábricas para a região. A multinacional Bunge, por exemplo, inaugurou em 2010 um moinho de trigo na área do Complexo Portuário de Suape, em Pernambuco, no qual investiu R$ 165 milhões, e que além de empregar 220 trabalhadores criou outros mil empregos indiretos, segundo a companhia. A Sadia investiu R$ 300 milhões na construção de uma unidade em Vitória de Santo Antão (PE), inaugurada em 2009, abrindo 1,5 mil postos de trabalho diretos e outros 4 mil indiretos. E a Perdigão instalou, no município de Bom Conselho (PE), com investimento de R$ 380 milhões, uma fábrica de lácteos, que gerou 3,8 mil vagas, entre empregos diretos e indiretos.

Em ambiente tão promissor, com a renda em ascensão, inúmeras empresas do varejo, pequenas e grandes, também começaram a apostar no nordeste. A região atraiu, por exemplo, as quatro maiores redes varejistas do Brasil. Em 2010, três delas – Walmart, Pão de Açúcar e Carrefour – anunciaram que priorizariam o nordeste em seus planos de investimento. O Walmart sozinho, que foi o primeiro grupo a apostar na região, ao comprar a rede Bom Preço há sete anos, prometeu investir nos estados nordestinos, até 2012, metade de todo o seu orçamento de R$ 2,2 bilhões. E as Casas Bahia, que em 2010 inauguraram dez lojas na região, anunciaram que abrirão mais seis em 2011, das dez previstas para todo o país.

Assim, percentualmente o varejo criou na maior parte dos estados nordestinos mais postos de trabalho nos 12 meses até setembro de 2010 do que no Brasil todo, que, de acordo com dados do Caged, registrou aumento de 6,7% em relação ao período anterior. Exceto na Bahia e em Alagoas, cujos índices ficaram abaixo, e em Sergipe, que obteve o mesmo desempenho, nos demais estados os índices de aumento superaram 7%. No Ceará, o varejo criou 10,11% mais postos de trabalho naquele período, na Paraíba, 9,11%, e no Piauí, 9,7%.

Retorno à origem

É nesse ambiente que a migração vem diminuindo, e uma fartura de dados demonstra isso. Com base em estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o economista Fábio Romão Silveira, da LCA Consultores, concluiu que a migração do nordeste para o sudeste caiu a cerca de metade nos últimos anos. Entre 1992 e 2002, o nordeste perdeu o equivalente a 1,5% de sua população por ano para o sudeste. Entre 2002 e 2007, porém, o índice baixou para 0,98% e chegou a 0,85% em 2008 e 2009, em média.

Outra pesquisa, esta coordenada pelo economista Marcio Pochmann, do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), condiz com esses resultados: o número de pessoas, de todo o Brasil, que chegaram ao sudeste nos anos de 2001 a 2004 é menor que o daquelas que deixaram a região. Nesse período, o resultado da migração ficou negativo em 215 mil pessoas. Nos últimos quatro anos da década anterior, o saldo foi positivo, ficando próximo de meio milhão de migrantes.

São Paulo pode ter sido o estado que mais perdeu habitantes para outras regiões nos últimos anos. Tomando como base a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a professora Liedje Siqueira, do Departamento de Economia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), calcula que das 862 mil pessoas que se instalaram no nordeste entre os anos 2002 e 2007, 47,5% (mais de 410 mil) estavam retornando à cidade natal. Dessas, a maior parte, 61%, havia partido de São Paulo, que perdeu mais população para outros estados do que ganhou naquele período: o saldo migratório paulista ficou negativo em 135 mil pessoas.

A queda da migração também se relaciona ao fato de o sudeste não ser mais a terra de oportunidades que já foi para o nordestino. A região continua detendo de longe a maior participação no PIB nacional (cerca de 56%), mas vem se expandindo em ritmo “haitiano”, de acordo com Pochmann: no período de 1990 a 2005, Rio de Janeiro e São Paulo cresceram menos de 2% ao ano, enquanto estados como Amazonas e Mato Grosso alcançaram taxas de 7% a 8% e a média nacional ficou em 2,4%.

No estudo já citado Pochmann diz que o sudeste, principalmente São Paulo, passou por um movimento forte de expulsão de mão de obra, em especial a desempregada, constituída, em sua maioria, por nordestinos que acabaram retornando à cidade de origem ou se dirigindo aos estados que mais crescem, sobretudo Amazonas e Mato Grosso.

Quanto ao nordeste, apesar do atual crescimento econômico, está bem longe de se tornar uma região desenvolvida. Atrai investimentos, mas de setores de baixa tecnologia, que não dependem de mão de obra qualificada e empregam trabalhadores com pouca escolaridade, como lembra Silveira Neto, da UFPE, citando a indústria têxtil e de confecção, de calçados e de alimentos, além do varejo: “Acho que essas políticas públicas melhoraram o bem-estar da população, mas não são capazes de mudar a realidade do nordeste. Não haverá solução sem aumento expressivo da escolaridade e da oferta de ensino técnico de qualidade”.

As empresas que se instalam na região em geral investem pesado em capacitação para contornar essa dificuldade, às vezes ainda antes de contratar os trabalhadores. É o caso da Petrobras, que treinará os candidatos aos postos de trabalho nas obras da refinaria de Bacabeira para habilitá-los a fazer a prova de seleção, segundo José Renato Ferreira de Almeida, coordenador executivo do Prominp (Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural), do governo federal. João Menezes, gerente geral de Recursos Humanos da Vale, diz que a procura por mão de obra especializada está aumentando demais, e a base no nordeste é muito restrita: “Se não fizermos capacitação, teremos problemas muito sérios”.

Segundo o economista Biágio de Oliveira Mendes Júnior, gerente de produtos e serviços do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), a região ainda precisa de volume muito mais expressivo de investimento em máquinas. Ele vê no nordeste atual o Brasil dos anos 1960 e 70, do milagre econômico e da concentração de renda. Em sua opinião, as vagas mais qualificadas já são distribuídas entre trabalhadores de fora da região e da classe média nordestina. “É provável que a desigualdade de renda tenda a aumentar”, diz, lembrando que hoje Pernambuco é “a bola da vez” em concentração de investimentos no nordeste.

Distribuição

De acordo com dados do IBGE citados no estudo “Nordeste: Necessidades de Investimentos e Convergência do PIB per Capita”, de autoria de Mendes Júnior, o PIB per capita do nordeste equivalia, em 2007, a menos de metade do PIB nacional – R$ 6.769 e R$ 14.328, respectivamente. No trabalho o economista procura estimar o volume anual de investimento necessário para o PIB do nordeste crescer de um a dois pontos percentuais acima do PIB nacional em 2010 e 2011, e ainda o volume requerido para promover a convergência das rendas per capita dessa região e do país. Os cálculos consideram um cenário com políticas econômica e fiscal eficientes e balanço de pagamentos equilibrado, e levam em conta as previsões do Banco Central (BC) para o crescimento do PIB nacional nos dois anos considerados, além de tendências de participação dos investimentos no PIB nordestino.

Mendes Júnior lembra, porém, que hoje não se sabe quanto é investido a cada ano no nordeste, porque esses dados não são contabilizados. Ele informa que, sozinho, o BNB aplicou aproximadamente R$ 20 bilhões na região em 2010. O valor equivale a 33% dos R$ 61,5 bilhões que seria desejável que o nordeste tivesse recebido em investimentos em 2010, para que seu PIB crescesse dois pontos percentuais acima do PIB brasileiro. “O nível de investimento tem de ser alto ou ficaremos falando em desigualdade regional durante muito tempo ainda”, diz o economista.

Enquanto esse almejado volume de recursos não chega, os nordestinos que retornam para casa podem não estar conseguindo melhorar de vida. Os salários do sudeste, por exemplo, continuam sendo bem mais altos que os do nordeste. Mesmo após a média salarial ter aumentado 28,8% na região entre 2004 e 2009, passando de R$ 570 para R$ 734, ainda equivale a 58,5% da verificada no sudeste (R$ 1.255), de acordo com dados da Pnad.

Mesmo assim, os salários de São Paulo também são baixos, em especial para os trabalhadores com pouca qualificação – que por isso começam a buscar outros rumos. Na opinião do baiano Gevanildo Pereira dos Santos, “São Paulo já foi bom para ganhar dinheiro”. No começo de novembro de 2010, ele embarcou num ônibus que o levaria de volta a sua cidade natal, Crisópolis. Aos 35 anos, Santos trabalhou como frentista durante a maior parte dos 15 anos que viveu na capital paulista, e não sabe bem o que fará na Bahia. Seu último salário era de R$ 912. Por que voltou? “Estou cansado. Se der certo fico por lá, talvez consiga alguma coisa em Salvador.”

O também baiano Antonio Almeida, de 25 anos, que há quatro mora na capital paulista, se queixa do salário de R$ 900 a R$ 1.000 que recebe hoje, dependendo das horas extras, como porteiro de um prédio no bairro do Morumbi. Ele quer voltar para sua cidade, Santo Estêvão, e já poderia estar lá, pois recebeu uma proposta para exercer a mesma função com salário um pouco melhor em agosto de 2010, quando foi visitar a família. Para não perder a indenização trabalhista teve, porém, de recusá-la. “O que aborrece aqui é o salário. Achava que ia melhorar de vida mais depressa. Agora na Bahia está muito melhor”.

Já o pedreiro pernambucano José Marcos da Silva Batista, de Garanhuns, cidade natal também do ex-presidente Lula, não se queixa do salário, de R$ 1.100 mais horas extras, que ganhava no último emprego, em uma construtora, onde trabalhou por dez meses no ano passado. Sem emprego porque a obra acabou, ele embarcou em novembro de volta para Garanhuns, pela terceira vez, onde tem mulher e quatro filhos, mas diz que ainda volta para a metrópole: “A firma me chama quando precisar”.


Histórias de sucesso

É grande o número de nordestinos com histórias duras, mas também é apreciável a quantidade daqueles que conquistam sucesso no sudeste. É o caso do baiano de Vitória da Conquista Renato Fernandes, de 27 anos, que há seis vive na cidade de São Paulo. Ele se mudou para trabalhar com um conterrâneo como frentista em um posto de gasolina do bairro do Butantã. Porém, como costuma “olhar para os lados”, como diz, percebeu que o posto tinha uma área pronta para funcionar como lava rápido. Propôs um acordo ao dono e começou a lavar carros, enquanto se mantinha como frentista. Quando a demanda aumentou, Fernandes contratou auxiliares. Hoje tem quatro funcionários, que o ajudam a atender a cerca de 40 clientes por dia, com um faturamento de R$ 12 mil brutos ao mês, dos quais embolsa, líquidos, de R$ 3 mil a R$ 4 mil. “Já me estabeleci. Não volto para a Bahia, a não ser a passeio”, diz.

O maranhense Luís Carlos Ribeiro, de 43 anos, também não pensa em sair de São Paulo, onde viveu por 16 anos, até dezembro de 2009, quando voltou à sua cidade, Pinheiro, para desembarcar novamente na megalópole seis meses depois: “Adoro São Paulo. Tem de tudo aqui, e o salário é melhor”, diz. No seu caso, de fato, os vencimentos são muito maiores: ele afirma que um encarregado de carpintaria na construção civil, sua profissão, recebe de R$ 4 mil até cerca de R$ 7 mil em São Paulo, enquanto no Maranhão ganha em torno de R$ 2 mil. “Mas também tem bastante emprego por lá”, ressalva.

Revista Problemas Brasileiros

Geração de renda, o desafio atual

O Bolsa Família não basta. A saída está nas atitudes criativas

SILVIA KOCHEN


Faltam alternativas para deixar a condição
de beneficiário

Na última década, cerca de 50 milhões de brasileiros saíram da miséria absoluta graças a programas como o Bolsa Família, que transfere renda a mais de 12 milhões de famílias. Além de favorecer os pobres, a iniciativa deu um grande impulso à economia brasileira, uma vez que os beneficiários passaram a comprar uma série de produtos essenciais, o que fortaleceu o mercado interno, atraindo investimentos e ampliando a oferta de empregos. O que, entretanto, se pode esperar daqui em diante?

Não há como negar que programas dessa natureza têm o mérito de interromper o círculo vicioso da miséria – a má alimentação, aliada à falta de saneamento, compromete a saúde das crianças, e as que sobrevivem dificilmente obtêm sustento digno ao chegar à vida adulta por não dispor de estudo e de oportunidades. O Bolsa Família não só permitiu a pais muito pobres alimentar e educar seus filhos, que assim têm melhores chances na vida, como ajudou a conter o trabalho infantil no país.

Por outro lado, populações sem renda alguma não carecem apenas de condições mínimas de vida; elas também precisam de acesso a meios que lhes permitam sair de sua situação, já que não há como garantir um futuro melhor nem inclusão social plena com base apenas nos programas de transferência de renda. “O desenho atual do Bolsa Família cria uma dependência permanente, já que falta uma porta de saída”, observa o economista Walter Barelli, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e ex-ministro do Trabalho. Ele faz coro com os que criticam o programa por criar uma massa de gente conformada com o recebimento de benefícios, sem iniciativa para buscar uma solução definitiva.

Barelli lembra que antes havia vários mecanismos de transferência de renda – como o Auxílio Gás, o Bolsa Escola e o Cartão Alimentação –, que foram unificados no Bolsa Família. Como todo programa de primeira geração desse tipo, no entanto, ele tem caráter assistencialista e limitado, já que não estimula a emancipação nem garante uma mudança efetiva caso a concessão de benefícios seja interrompida.

O professor da Unicamp explica que a segunda geração de programas dessa natureza, já adotada em outros países, inclui algum tipo de assistência temporária – como microcrédito, projetos de treinamento ou de desenvolvimento local. “O próprio governo chegou a adotar esse conceito e houve algumas iniciativas, mas pequenas e sem abrangência, principalmente para a capacitação de jovens, que não foram levadas adiante”, afirma.

“O que nos falta é um projeto claro para escapar da pobreza com dignidade”, diz Barelli. Segundo ele, esses programas deveriam ser repensados, uma vez que os problemas só serão resolvidos quando houver atores sociais que proponham soluções, como, por exemplo, a criação de microempreendimentos, embora seja muito difícil viabilizar esse tipo de coisa. “Falta uma cultura de empreendedorismo no Brasil”, afirma Barelli, ressalvando a existência de vários projetos de geração de renda levados a cabo por ONGs, mas de alcance limitado.

Em busca de apoio

Marcelo é um jovem que no início do ano morava nas ruas de São Paulo e se drogava constantemente. Há alguns meses, porém, sua vida mudou. Ele começou a trabalhar com origamis e agora consegue uma renda em torno de um salário mínimo, o que lhe permitiu voltar a andar de cabeça erguida e fazer amizades com pessoas que anteriormente nem mesmo o notavam. “Antes, eu dormia na calçada diante daquela loja; agora, a moça que trabalha ali me cumprimenta e mal acredita que fui um mendigo maltrapilho”, diz, orgulhoso.

O ex-morador de rua participa de um projeto de geração de renda do Clube de Mães do Brasil, uma ONG que apoia populações de baixa renda. Ele integra uma equipe de 16 membros que fazem origamis nas instalações da entidade, onde outras 24 pessoas excluídas do mercado de trabalho formal se ocupam com diversas atividades. Esse grupo se considera privilegiado por ter uma oportunidade de renda, mesmo sem carteira assinada ou outros benefícios.

Os origamis foram encomendados por uma grande rede de supermercados, que pretende colocar cerca de 200 mil unidades em cartões de felicitações enviados a clientes. Uma rede de fast food também fez uma parceria com a ONG para dar uma destinação ecologicamente correta aos banners que anunciam as promoções nas portas de suas lojas. Uma equipe de nove pessoas corta e costura o material plástico dos banners, que é transformado em porta-lápis,nécessaires e sacolas, destinados a distribuição em eventos da empresa. Outras pessoas confeccionam roupas, encomendadas à ONG por uma loja.

O caminho escolhido pelo Clube de Mães, no entanto, é cheio de obstáculos. Tudo começou de forma quixotesca, quando Maria Eulina Reis Hilsenbeck juntou um grupo de mulheres dispostas a fazer trabalho social em comunidades carentes e, há 17 anos, elas fundaram a ONG. A princípio, sem sede, realizavam projetos itinerantes, visitando favelas e levantando necessidades. Ofereceram cursos de capacitação em diversas áreas, como artesanato, culinária, ofícios de pedreiro e eletricista, entre outros, buscando reinserir pessoas no mercado de trabalho. Hoje, acreditam ter realizado um total de 70 mil atendimentos desde o início de suas atividades.

Em 1997, o Clube de Mães conseguiu uma sede, mas em um local de fama funesta. O Castelinho – como é conhecida a mansão tombada na Rua Apa, no bairro paulistano de Santa Cecília, hoje reduzida a ruínas – foi palco de um crime chocante. Em 1937, em meio a uma discussão familiar, um milionário matou o irmão e a mãe, suicidando-se em seguida. Ninguém mais quis se instalar no imóvel, que se tornou propriedade do governo. O Clube de Mães obteve a cessão do local e passou a focar seu trabalho no entorno, uma área degradada nas imediações do Minhocão, um imenso viaduto que liga as zonas leste e oeste da cidade de São Paulo e que serve de teto improvisado para inúmeros moradores de rua.

Com uma sede, o Clube de Mães pôde ampliar seu trabalho. Desde então, disponibiliza refeições e cursos de qualificação aos moradores de rua, que frequentemente apresentam problemas emocionais severos e se envolvem com drogas. A ONG buscou parcerias e passou a oferecer a empresas produtos de artesanato com o objetivo de ocupar essas pessoas e recuperá-las socialmente. Em certas épocas, como o fim de ano, por exemplo, consegue dar trabalho para muita gente, já que há uma grande quantidade de encomendas de brindes, mas a continuidade é difícil. Pagar as contas, que incluem gastos com água, luz, gás, alimentação para os assistidos etc., tampouco é tarefa fácil.

Sem condições de contratar profissionais de gestão, a ONG não consegue cumprir os requisitos que a habilitariam a ter acesso a verbas públicas, e por isso depende de parcerias com a iniciativa privada. “O mais difícil é fazer as pessoas acreditarem em nosso trabalho”, diz Maria Eulina, que se encarrega de procurar empresas para oferecer os serviços prestados pelo Clube de Mães. Como a situação financeira da entidade não permite arcar com o registro em carteira, a saída é buscar novas parcerias para custear algum tipo de assistência de saúde e também atender mais gente. “Damos café da manhã diariamente a uma média de cem pessoas e gostaríamos de poder oferecer oportunidade de trabalho a cada uma delas”, diz.

Segundo Maria Eulina, muitos acreditam que basta dar uma cesta básica ao pobre, mas isso não é verdade. Com sua longa experiência, ela sabe que os que estão na miséria têm problemas de autoestima, que os levam à depressão e às drogas. Por isso, afirma que é preciso investir em educação, no ser humano em si, além de oferecer oportunidades para que eles saiam da pobreza.

Hoje, o Clube de Mães também procura patrocínios para reformar o Castelinho. O projeto de restauração, assinado pelo arquiteto Paulo Bastos, prevê a ampliação do anexo – onde funciona um centro de formação profissional e uma oficina – e a recuperação do casarão, que deverá abrigar um centro de artesanato, com exposição e venda de produtos de todo o Brasil.

Sustentabilidade e dignidade

Em 1979, a Fazenda Santa Fé, localizada no bairro de Perus, foi dividida. De um lado, foi criado um aterro sanitário; do outro, o Parque Ecológico Tietê. Conhecido como “lixão de Perus”, o Aterro Sanitário Bandeirantes parecia uma montanha de lixo e seus primeiros bolsões não foram devidamente impermeabilizados. Em 1983, a degradação da região se acelerou ainda mais, com o fechamento da fábrica da Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus, a pioneira do setor no país, que deixou mil trabalhadores sem emprego. Perus, que fica no limite da cidade de São Paulo, tornou-se um bairro-dormitório, com o solo contaminado pelo lixo, o que levava seus moradores a ter vergonha do lugar onde viviam.

Com o esgotamento dos demais aterros sanitários instalados na cidade de São Paulo, em 2001 a prefeitura cogitou de construir mais um em Perus, que, com uma população de cerca de 140 mil pessoas, ainda tinha imensas áreas livres. Os moradores, porém, se reuniram no movimento intitulado “Fora, Lixão”, e um grupo deles começou a elaborar um projeto alternativo. Em vez de enterrar o lixo, a proposta era reciclá-lo e, com isso, promover a inclusão social. Foi assim que nasceu a Cooperativa Peruense de Reciclagem de Resíduos Sólidos (Coopercose). “A ideia veio de todos do bairro”, conta Luzia Maria Honorato, sócia fundadora e diretora encarregada de relações externas da entidade. O nome esquisito, que lembra xarope, foi sugerido em meio a um debate, a partir da ideia de que o lixo era algo ruim, e a Coopercose, como um remédio, ofereceria a cura para as doenças ambientais.

Em 2002, o grupo encampou a luta dos catadores de lixo da região. “Vimos que aquela gente puxava carroças na rua e vendia no ferro-velho o que coletava”, conta Luzia. “Fomos até o lugar e ficamos lá até juntar um grupo grande o bastante para registrar a cooperativa, em 2004.”

O primeiro passo foi dar qualificação adequada aos catadores, que eram pessoas excluídas do mercado de trabalho devido a problemas decorrentes de vícios, ao analfabetismo ou à idade avançada. Foi criada uma regra, explica Luzia. “Não temos preconceito contra dependentes de drogas, mas a condição para entrar na cooperativa é se afastar do vício.” Com normas claras e qualificação, os eventuais conflitos puderam ser resolvidos.

Apenas isso, porém, não bastava. “Percebemos que para gerar renda de forma digna era preciso ter uma estrutura da qual os catadores não dispunham. Havia necessidade de um local que pudesse abrigar equipamentos, como uma balança, uma prensa e uma máquina picadora de papel, além de um caminhão para a coleta do material”, explica Luzia.

De início, a saída foi dividir espaço com o ferro-velho. Porém, uma série de disputas (membros da cooperativa acusavam o dono do estabelecimento de se apropriar de materiais deles durante a noite) tornou a convivência insuportável, e a ONG acabou se mudando para um pequeno galpão alugado, onde ficou por oito meses. Após esse período, conseguiram um espaço coberto dentro do Aterro Sanitário Bandeirantes, cedido pela prefeitura, onde havia uma prensa e uma balança. Mais tarde, com o apoio de outra ONG, obtiveram a doação de uma caminhonete – que foi roubada em 2006 – e uma empilhadeira, além de outros equipamentos.

Surgiu, então, outro problema. Eles perceberam que, para tornar o projeto viável, era preciso garantir uma quantidade de material suficiente para oferecer às indústrias que trabalham com resíduos recicláveis e, também, manter a regularidade da oferta. Aos poucos, foram criando alternativas, como o contato com empresas e condomínios para a doação de resíduos. O projeto foi crescendo e os participantes tinham ganhos de pouco mais de um salário mínimo, quando uma tragédia aconteceu. Em setembro de 2008, um incêndio destruiu o local em que estavam instalados.

Hoje, a Coopercose divide um galpão com outra cooperativa e busca meios de recuperar o que o fogo destruiu. O mais urgente é conseguir um novo espaço para continuar trabalhando. “No momento, preparamos a documentação para que a prefeitura nos ceda um novo terreno”, diz Luzia. Também está sendo encaminhado um pedido de verba para a reforma da empilhadeira e a recuperação da prensa. O que se espera é que os ganhos dos cooperados, que diminuíram muito, voltem a subir quando a ONG conseguir um local e tornar a operar a todo vapor.

Financiamento

Entre as várias alternativas apontadas pelos economistas para incentivar a geração de renda, destaca-se o microcrédito, que hoje recebe atenção especial em todo o mundo devido ao sucesso da experiência pioneira, em Bangladesh, de usar empréstimos como instrumento para impulsionar a renda de populações miseráveis (ver texto abaixo). Inspirado por experiências internacionais, o governo brasileiro instituiu em abril de 2005 o Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado (PNMPO), com o objetivo de incentivar a criação de trabalho e renda em pequenos empreendimentos.

Financiado por recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e gerido pelo Ministério do Trabalho e Emprego, o programa concede o crédito de valores que vão de R$ 250 a R$ 15 mil a juros módicos, desde que destinados a atividades produtivas. O PNMPO cresceu bastante nos últimos anos. Em 2005, totalizou R$ 602 milhões em empréstimos, em 632 mil operações. No ano passado, foram R$ 2,28 bilhões, em 1,6 milhão de financiamentos. Ainda faltam, porém, estudos que avaliem o impacto de programas desse tipo no Brasil, diz o professor Gabriel Madeira, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP).

“Sou cético quanto ao uso de projetos de expansão de crédito para promover a inclusão econômica”, diz Madeira. A seu ver, talvez o Bolsa Família tenha um impacto positivo maior sobre a economia. “Quando o microcrédito é direcionado em excesso, pode-se acabar gerando uma situação da qual as pessoas não consigam sair, fica artificial”, diz o economista.

Ele cita como exemplo alguns programas amplos de microcrédito que têm entre seus beneficiários grupos de agricultores do nordeste. Há uma grande dificuldade de extrair informações sobre esses clientes, e a taxa de pagamento é muito baixa. “No Brasil, o vínculo comunitário nem sempre tem bons resultados”, explica, pois um inadimplente acaba convencendo os vizinhos a não pagar também. Na opinião do economista, o problema é fazer com que o financiamento chegue às pessoas certas, que necessitam dele.

Apesar disso, Madeira afirma que o crédito é importante como instrumento de expansão da economia. No Brasil, o volume de empréstimos ainda é muito reduzido, pois equivale a 45% do Produto Interno Bruto (PIB). No sudeste asiático, esse índice é de 80% e na Europa e nos Estados Unidos, de 100%. Lembrando que “alguns programas de microcrédito funcionam bem e outros, não”, o professor destaca a importância de realizar estudos sobre o assunto no Brasil.


Microcrédito: pioneirismo e exemplo em Bangladesh

Muhammad Yunus é um economista bengali que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2006 por um empreendimento ousado: criou um banco, particular, para combater a pobreza. Em 1972, após o doutoramento nos Estados Unidos, Yunus voltou a Bangladesh, onde constatou as dificuldades das pessoas carentes em obter crédito para poder produzir e vender artesanato e, assim, garantir a sobrevivência. Surgiu então a ideia do Banco Grameen, fundado em 1976 para emprestar pequenas quantias aos pobres. Desse modo nasceu o maior programa de microcrédito que o mundo já conheceu.

O banco de Yunus empresta dinheiro de forma diferente da dos bancos tradicionais. Sem garantias, o crédito é concedido a um grupo em que as pessoas se responsabilizam solidariamente. O Banco Grameen tem hoje uma carteira de cerca de 6,6 milhões de clientes, dos quais 97% são mulheres, e a inadimplência é praticamente inexistente, já que 98,85% dos empréstimos são quitados. O lucro é reinvestido para expandir o negócio, gerando assim um círculo virtuoso.

Yunus acredita que não é a falta de habilidade que torna as pessoas pobres, mas a ausência de iniciativas públicas. “Para eliminar a pobreza, tudo o que temos de fazer é implementar mudanças apropriadas nas instituições e políticas ou substituí-las”, diz.

Revista Problemas Brasileiros

De olho no mar

País amplia investimentos em estudos sobre o oceano, mas ainda há muito a conhecer e explorar

EVANILDO DA SILVEIRA


Arte PB

Não há como negar a importância do mar ao longo da história do Brasil. Foi por ele que chegaram seus descobridores e, mais tarde, os invasores, franceses e holandeses. Hoje, é a via de acesso de 95% de seu comércio exterior e o lugar de onde provêm 85% do petróleo que move a economia do país – 1,9 milhão de barris por dia, volume que deve aumentar com a produção da camada pré-sal. Não é de estranhar, portanto, que essa porção do território nacional venha recebendo cada vez mais atenção, tanto do governo como das instituições de pesquisa e de órgãos militares. Na verdade, nunca foram investidos tantos recursos em estudos oceanográficos – insuficientes ainda, vale ressaltar, uma vez que o Brasil pouco conhece e explora suas águas territoriais e as riquezas potenciais que elas comportam.

A 62ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), um dos maiores eventos científicos do país, realizada em julho de 2010 em Natal, teve como tema central “Ciências do Mar: Herança para o Futuro”. De 25 a 30 daquele mês, dezenas de pesquisadores de instituições de todo o Brasil e agentes governamentais, entre eles representantes dos ministérios da Ciência e Tecnologia (MCT) e do Meio Ambiente (MMA), além de militares da Marinha, apresentaram e discutiram os mais diversos aspectos relacionados ao mar.

Um amplo estudo sobre o oceano brasileiro e seus recursos naturais realizado em 2007 pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) e pelo então Núcleo de Assuntos Estratégicos (NAE) da presidência da República é outro indicativo da importância que o país vem dando à questão. O trabalho resultou no relatório em forma de livro Mar e Ambientes Costeiros, lançado recentemente. Realizado sob a coordenação de três pesquisadores das áreas de oceanografia física, biológica e geológica e com a participação de mais de 50 especialistas nessas e em ciências afins, o estudo teve como objetivo apontar prioridades “para orientar o estabelecimento de estratégias governamentais relativas ao desenvolvimento científico e tecnológico em temas ligados ao mar”.

Além de apresentar indicações sobre a melhor maneira de explorar de forma sustentável os recursos marinhos existentes em áreas de interesse para o Brasil no Atlântico Sul e Equatorial, o trabalho traz subsídios à pesquisa necessária para elucidar o papel de regiões oceânicas no clima do território nacional em terra. Para dar uma finalidade prática ao estudo, seus realizadores fazem, no final, três recomendações: criação de uma rede nacional de ciências e tecnologia marinha, manutenção e melhoria da infraestrutura laboratorial dos centros existentes e implantação de um instituto nacional de oceanografia operacional.

Pelo menos parte dessas sugestões deverá se tornar realidade em breve. Durante a reunião da SBPC em Natal, o ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, anunciou o lançamento ainda neste ano de editais para a criação de dois institutos nacionais de ciência e tecnologia voltados para pesquisas do mar. Segundo Rezende, uma das instituições se dedicará a estudos sobre os litorais norte e nordeste e a outra às regiões costeiras do sul e sudeste. A princípio, ambas receberão R$ 30 milhões para financiar sua implantação e o início das pesquisas.

Tímida fração

O país vem, sistematicamente, destinando recursos a estudos sobre o oceano. “A crescente preocupação com as mudanças climáticas, as descobertas de valor biotecnológico de organismos marinhos e a presença de petróleo na plataforma continental são exemplos de motivações para o financiamento de pesquisas oceanográficas”, diz Maria Cordélia Machado, coordenadora para Mar e Antártica do MCT. “Os investimentos do ministério e seus parceiros vêm crescendo ao longo do tempo e tiveram elevação significativa nos dois últimos anos. Em 2008, por exemplo, houve um aumento de 50% em relação a 2007. Já 2009 foi um marco para as ciências do mar no Brasil, com um crescimento dos recursos financeiros de 122% em relação ao ano anterior.”

Em números absolutos, o valor aplicado passou de R$ 5,5 milhões em 2004 para R$ 23 milhões em 2009, ano que teve o maior número de editais lançados para projetos em oceanografia. Além dos recursos provenientes do MCT, há outros, dispersos e, por isso, difíceis de mensurar. “Ainda não contamos com um programa de ciências do mar, que permita centralizar os investimentos da área e garantir periodicidade no que se refere ao lançamento de editais”, explica Maria Cordélia.

Segundo o pesquisador Fábio Hazin, diretor do Departamento de Pesca e Aquicultura da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e um dos coordenadores do estudo do CGEE, é preciso reconhecer que as pesquisas na área de ciências do mar no país tiveram um grande impulso nas duas últimas décadas, com alguns projetos estruturadores importantes, entre os quais o Programa de Avaliação do Potencial Sustentável de Recursos Vivos na Zona Econômica Exclusiva (Revizee) e o Programa de Avaliação da Potencialidade Mineral da Plataforma Continental Jurídica Brasileira (Remplac). Paralelamente, vem ocorrendo uma ampliação dos cursos de nível superior com vocação na área, como engenharia de pesca, oceanografia e biologia marinha.

Ainda assim, as necessidades são maiores que os recursos para uma exploração eficiente das águas territoriais brasileiras. “Infelizmente, diante das dimensões do mar nacional e, acima de tudo, do potencial de benefícios que ele pode trazer ao país, é preciso reconhecer também que o que já foi feito é uma tímida fração do que ainda resta por fazer”, diz Hazin. De acordo com ele, um dos grandes problemas para o desenvolvimento das ciências do mar no Brasil é a falta de infraestrutura, em particular de embarcações de pesquisa e treinamento, sem as quais os estudos pesqueiros e oceanográficos, em grande parte dos casos, simplesmente não podem ser realizados.

O físico Edmo Campos, da Universidade de São Paulo (USP), Ph.D. em meteorologia e oceanografia física, concorda. Segundo ele, o Brasil está muito atrasado, na comparação com várias outras nações. “Historicamente, a pesquisa oceânica no país tem se limitado às zonas costeiras, onde não é necessário o uso de embarcações oceanográficas de grande porte”, explica. “O pouco que se sabe sobre regiões do Atlântico mais ao largo é fruto do esforço de estudos empreendidos pelo Instituto de Oceanografia da Universidade de São Paulo (IO-USP), a bordo do navio Professor Besnard, e da grande contribuição da Marinha do Brasil, que fornece embarcações para pesquisas em águas mais profundas.”

Recursos variados

Hazin, que também é presidente da Associação Brasileira de Engenharia de Pesca, lembra outro aspecto no qual o país tem deficiências. “Conhecemos pouco e exploramos mal nossas águas territoriais, tanto na pesca costeira como oceânica, por razões diversas”, diz. “No caso da primeira, a maioria dos recursos pesqueiros já se encontram sobre-explorados e muitos deles estão em declínio, principalmente pela degradação dos ecossistemas devido à poluição urbana (esgoto doméstico não tratado), agrícola (fertilizantes e defensivos) e industrial, além da pesca excessiva e desordenada.”

Em relação à pesca oceânica, a participação brasileira na captura de atuns e espécies afins, por exemplo, é ainda tímida. Segundo Hazin, isso acontece, em grande parte, devido ao fato de o país não dispor de uma frota capaz de explorar economicamente esses recursos – uma deficiência agravada pela falta de tecnologia e de mão de obra especializada.

As riquezas que podem ser extraídas do oceano, no entanto, vão muito além de petróleo, gás e pescados. Há outros recursos minerais e vivos que podem ser aproveitados. Um exemplo são as imensas reservas dos chamados granulados marinhos, que nada mais são que areia e cascalho. “Esses depósitos cada vez mais despertam interesse, tendo em vista sua utilização na construção civil”, explica o oceanólogo Lauro Calliari, da Universidade Federal do Rio Grande (Furg). “Esse material, cuja importância aumenta à medida que escasseia no continente, é também empregado na recuperação de praias, especialmente aquelas próximas a centros urbanos ou locais turísticos que estão sofrendo erosão acelerada.”

Entre os recursos minerais, há ainda os chamados nódulos polimetálicos, que são bolotas com altas concentrações de metais como óxidos de ferro e manganês, além de outros elementos metálicos economicamente importantes, como níquel, cobre e cobalto. Eles estão espalhados pelo solo marinho, mas ainda não existe tecnologia para sua exploração sustentável e economicamente viável. Vários países, no entanto, inclusive o Brasil, estão estudando formas de aproveitar esse material.

De acordo com a Marinha, o oceano conta ainda com depósitos de minerais pesados valiosos, derivados da erosão de rochas continentais, como ouro, platina, magnetita, óxidos de titânio e mesmo diamantes, além de outros, que já são explorados em diversas partes do mundo. “Tailândia, Malásia e Indonésia, por exemplo, extraem cassiterita em suas plataformas continentais há mais de um século”, informa o Centro de Comunicação Social da Marinha. “Japão e Nova Zelândia retiram magnetita do mar. No Alasca e no Oregon, nos Estados Unidos, a exploração do ouro é feita nas praias.”

Além dos minerais

A par dos recursos energéticos (petróleo e gás), minerais e pesqueiros, Hazin lembra que o mar é uma importantíssima fonte de renda baseada no turismo e no lazer para a população. Além disso, não se pode esquecer seu potencial em termos de recursos vivos. “A vida surgiu no oceano e ainda é lá que reside a maior parte da biodiversidade do planeta”, diz. “É algo que não só tem um valor intrínseco incalculável como pode se traduzir em riquezas para o país por meio da biotecnologia.”

As perspectivas são amplas. Muitos organismos marinhos, como algas e esponjas, podem fornecer substâncias para a produção de cosméticos e novos medicamentos. A primeira droga para tratamento eficaz da aids, o AZT, por exemplo, teve origem numa substância extraída de uma esponja. Entre as algas, além das espécies usadas na fabricação de produtos de beleza, há outras que servem como suplementos alimentares.

Edmo Campos faz questão de ressaltar outro aspecto: “Para o Brasil, com seus mais de 8 mil quilômetros de costa, entender os impactos de mudanças no Atlântico Sul em decorrência das variações do clima é de fundamental importância”, explica. É por essa razão também que o físico do IO-USP Belmiro Mendes de Castro, um dos coordenadores do estudo do CGEE, diz que o país deve começar a fazer a chamada oceanografia operacional, que se caracteriza pela coleta contínua e automática de dados do mar. “Para isso, seria necessário implantar uma rede de equipamentos como a que já existe na área de meteorologia. Entre as informações colhidas estariam, por exemplo, temperatura da água, salinidade, correntes, parâmetros químicos, oxigenação e o nível do oceano.”

Amazônia Azul

Com a finalidade de realçar a importância estratégica do oceano, a Marinha designou como Amazônia Azul a região compreendida pelas águas jurisdicionais brasileiras. Como alerta Hazin, não se trata de termo científico. “É uma expressão de conotação política, que tem como objetivo chamar a atenção da sociedade, por meio de uma analogia com a Amazônia em terra, para a imensidão e a riqueza do mar”, explica o pesquisador. “Nesse sentido, acho que é mais do que adequada.”

Até 3 de setembro deste ano, a Amazônia Azul tinha cerca de 3,6 milhões de quilômetros quadrados. Nesse dia, por meio de uma resolução da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (Cirm), o Brasil colocou sob sua proteção mais 960 mil quilômetros quadrados – área um pouco maior que a do estado de Mato Grosso –, que vinham sendo pleiteados na Comissão de Limites da Plataforma Continental (CLPC) da Organização das Nações Unidas (ONU). Com base nessa decisão, nenhuma empresa ou estado estrangeiro poderá explorar essa área da plataforma continental sem autorização do governo brasileiro. Dessa forma, as águas jurisdicionais do Brasil passam a ter 4,5 milhões de quilômetros quadrados – o que corresponde a 52% da área continental do país. Para efeito de comparação, a Amazônia Legal tem aproximadamente 5,2 milhões de quilômetros quadrados, equivalentes a 61% do território terrestre nacional, que é de 8,5 milhões de quilômetros quadrados.

A história da delimitação da extensão das águas jurisdicionais dos países litorâneos começou na metade do século passado. Até então, todos aceitavam a existência do denominado mar territorial, com 3 milhas náuticas ou marítimas de largura (1 milha marítima equivale a 1.852 metros), a contar da linha da costa. Esse limite correspondia ao alcance dos canhões da época, instalados nas fortificações que existiam no litoral de cada nação. Aos poucos, no entanto, os Estados costeiros começaram a perceber que o oceano continha muitas riquezas e passaram a discutir formas de ampliar seus domínios nessa massa líquida.

Por isso, no final da década de 1950, a ONU iniciou a elaboração do que viria a ser, mais tarde, a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM). O Brasil participou de todas as reuniões, com representantes do Ministério das Relações Exteriores e da Marinha. Em 1982, a CNUDM ficou pronta, mas só passou a vigorar para o Brasil em novembro de 1994, quando o país a ratificou. Até hoje, 156 nações fizeram o mesmo. Entre os que ainda não a assinaram estão os Estados Unidos.

Expansão

Entre outras determinações, a convenção estabeleceu que o mar territorial dos Estados costeiros teria 12 milhas de largura a contar da costa, mais uma zona contígua do mesmo tamanho, a partir do limite externo do primeiro. A maior novidade da convenção, porém, foi o estabelecimento da zona econômica exclusiva (ZEE), com 200 milhas de largura, englobando, portanto, as duas primeiras áreas. Os direitos que o país tem sobre cada uma dessas regiões são diferentes, no entanto. No mar territorial e no espaço aéreo a ele sobrejacente a soberania é plena.

O mesmo não ocorre em relação à zona contígua e à ZEE. A primeira funciona como uma área de proteção ao mar territorial e, embora nesse caso a soberania do Estado não seja plena, ele tem a obrigação de fiscalizá-la para evitar e reprimir infrações a normas sanitárias, de imigração e outras vigentes em seu território. Na ZEE, é prerrogativa do país que a detém a exploração científica e econômica dos recursos vivos e não vivos do subsolo, do solo e das águas. Se não tiver condições de fazer isso, no entanto, não pode impedir que outras nações o façam. Tanto na zona contígua como na ZEE, é obrigatória a permissão para trânsito de navios, inclusive de guerra, de outras bandeiras.

A CNUDM estabeleceu ainda que no prazo de dez anos, a partir de sua ratificação, todo país poderia solicitar o aumento da área jurisdicional de sua plataforma continental até um limite máximo de 350 milhas. Nessa nova extensão, o Estado costeiro tem o direito de explorar os recursos do solo e subsolo, mas não os vivos da camada líquida. De olho nessa potencial riqueza, o Brasil foi o segundo a apresentar uma proposta de expansão de suas águas – o primeiro foi a Rússia –, em setembro de 2004.

Para elaborá-la e embasá-la, foi criado em 1989 o Plano de Levantamento da Plataforma Continental (Leplac), que durante mais de dez anos reuniu dados para justificar a pretensão do país. Depois de analisá-la, a CLPC não concordou com a reivindicação relativa a cerca de 190 mil quilômetros quadrados dos 960 mil pretendidos. O Brasil, por sua vez, não aceitou a decisão da comissão e tem o direito de apresentar nova proposta, com mais dados e informações sobre a área que pleiteia. A previsão é de que isso ocorreria ainda neste ano, e a CLPC deverá se pronunciar até 2012. Por ora, com a resolução de 3 de setembro, o Brasil não permitirá explorações estrangeiras nesses 960 mil quilômetros quadrados, até que saia a decisão final da ONU.

Revista Problemas Brasileiros

domingo, 24 de abril de 2011

Notícias Geografia Hoje


Canadá explora areias pesadas em Moçambique
O Canadá vai passar a investir em Moçambique através da empresa Rock Forage Titanium, empresa constituída por capitais moçambicanos e canadianos que ganhou o concurso para exploração das areias pesadas do Chibuto.

Segundo o Ministério dos Recursos Minerais de Moçambique, a Rock Forage Titanium ganhou o concurso para exploração das areias pesadas do Chibuto.
Na corrida à concessão estavam ainda os sul-africanos da MOD Chibuto Sands, ao obter quase o dobro dos pontos na sua candidatura.
O projecto, relativo a uma área de 10,840 hectares na província de Gaza, no sul de Moçambique, era explorado pela australiana BHP-Billiton mas, em 2009, o Governo retirou-lhe a concessão por incumprimento.
Segundo estudos realizados, o local contém cerca de 72 milhões de toneladas de ilmenite (óxido de ferro e titânio), utilizado para a produção de dióxido de titânio, um componente essencial para as indústrias de tintas, papel e plástico.

Fonte: Diário Digital /Lusa
http://www.africatoday.co.ao

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Notícias Geografia Hoje

Astrônomos descobrem o maior anel planetário do Sistema Solar
Um anel difuso circunda Saturno a uma distância de 12,5 milhões de quilômetros
por John Matson
Nasa/JPL-Caltech/Keck
Anel distante: Concepção artística do fraco anel recém observado em torno de Saturno. O anel torna irrisória a dimensão dos anéis familiares próximos ao planeta.
Uma busca especulativa por um cinturão de destroços criado por uma das luas externas de Saturno resultou no que parece ser o maior anel planetário conhecido do Sistema Solar.

O anel recém-descoberto, associado à distante lua Phoebe, encontra-se a aproximadamente 12,5 milhões de quilômetros de Saturno ─ se não mais ─, de acordo com o artigo publicado na Nature, na semana passada, anunciando a descoberta. Para se ter uma ideia, a borda externa do maior anel mais próximo de Saturno, conhecido como anel E, está a menos de meio milhão de quilômetros do planeta. O gigante gasoso tem sete anéis principais ─ denominados de A a G, na ordem em que foram descobertos ─ formados por gelo, rochas e poeira, com espaços e divisões ainda maiores entre eles.

Usando um instrumento infravermelho a bordo do Telescópio Espacial Spitzer da Nasa, a cientista planetária Anne Verbiscer da University of Virginia, juntamente como o astrônomo Michael Skrutskie, da mesma universidade e Douglas Hamilton, também astrônomo, mas da University of Maryland College Park, esquadrinharam parte da região entre Saturno e Phoebe, que orbita o planeta a uma distância de aproximadamente 13 milhões de quilômetros. Nos dados coletados pelo Spitzer, os pesquisadores detectaram emissão térmica de um anel extremamente grande de destroços, que se estende por quase 5 milhões de quilômetros. (Apesar da cobertura incompleta, Verbiscer e colaboradores também analisaram observações feitas por outros pesquisadores para ampliar o escopo do levantamento, mas o anel pode se estender muito além dos limites das imagens que dispõem).

“Ele é enorme”, comenta Verbiscer. Se fosse suficientemente brilhante para ser visto da Terra, ele tornaria desprezível o tamanho de outros objetos no céu noturno. “Daria para colocar uma lua cheia de cada lado de Saturno”, comenta.

Dois especialistas em sistemas planetários com anéis que participaram na semana passada da Reunião Anual da Sociedade Astronômica Americana ─seção sobre Ciências Planetárias ─ em Fajardo, Porto Rico, onde Verbiscer e colegas apresentaram sua descoberta, consideram a explanação convincente. “Ver para crer, e não resta nenhuma dúvida, quando se observam as fotos de que esse anel gorducho esteja realmente lá”, observa Mark Showalter, astrônomo planetário do Instituto SETI, em Mountain View, California. “A detecção foi perfeita.”

Linda Spilker, especialista em anéis planetários do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, em Pasadena, Califórnia, acredita que a combinação entre os dispositivos de imageamento do Spitzer e a modelagem numérica de como seria o anel é convincente. Como cientista vice-líder do projeto para a exploração de Saturno com a sonda Cassini, Spilker avalia que não é de surpreender que a Cassini, equipada com um analisador de poeira cósmica, não tenha detectado o anel difuso durante seu encontro com Phoebe, em 2004. Ela considera que o anel “não é um conjunto completo de partículas”, destacando que seria fácil atravessá-lo, sem que fosse notado.

No artigo, os autores especulam que impactos meteóricos na superfície escura e fortemente craterada de Phoebe liberaram as partículas que formam o anel. Essa afirmativa pode explicar a superfície com duas tonalidades de Iapetus, uma lua de Saturno interna à órbita de Phoebe. Partículas menores do anel criado por Phoebe podem ter migrado para dentro, onde finalmente foram varridas por Iapetus, depositando em sua face dianteira, uma película de material escuro ─ uma previsão criticada durante décadas, mas que concorda com as observações. A presença do anel de destroços significa que esse processo está em andamento.

Anéis fracos como esse criado por Phoebe são relativamente comuns, embora seja difícil detectá-los, porque a maioria dos pequenos satélites está sujeita a impactos que podem levantar poeira e destroços. Anéis semelhantes formados por poeira de luas foram encontrados em outros locais do Sistema Solar. “Este é um fenômeno bastante comum, só que nunca tinha sido observado na escala do anel de Phoebe”, avalia Showalter. Spilker observa que “sempre que um a lua é encontrada e houver bombardeio de micrometeoritos, haverá uma fonte de poeira, e é bem possível que a poeira possa se expandir e formar um anel”.

O grupo de Verbiscer teve muita sorte de poder fazer a pesquisa perto de Phoebe: em maio, a espaçonave Spitzer teve uma perda do liquido de refrigeração criogênica, exatamente três meses depois de a investigação de Phoebe ter sido feita. Na nova condição “mais aquecida” do telescópio (mas ainda bem abaixo de -200º C), vários instrumentos do Spitzer não funcionaram com a sensibilidade total, incluindo o escâner infravermelho de 24 mícrons do Fotômetro de Imageamento Multibanda que foi usado para detectar o novo anel. Esse desvio da missão significa que as observações posteriores terão de ser conduzidas com outros instrumentos ou espaçonaves, provavelmente não tão bem preparadas para a tarefa.

O pedido de tempo para observação de anéis eventuais com o Spitzer foi submetido há vários anos, mas não teve prioridade alta, observa Verbiscer ─ talvez porque fosse “completamente especulativo” sair por aí procurando um provável anel.

“Só é possível observar com o Spitzer de seis meses em seis meses, e em cada período há uma janela de observação de cerca de 20 dias”, revela a especialista em planetas. “Nós quase perdemos o trem durante aquelas janelas de observação, e isso realmente aconteceu na última janela para Saturno, enquanto o telescópio ainda dispunha de refrigeração criogênica”.
Scientific American Brasil

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Pragas resistentes são sério problema para a agricultura no Brasil
O uso indiscriminado de inseticidas e acaricidas pode levar as pragas a desenvolverem resistência aos produtos químicos
por Mário Sato
©ISTOCKPHOTO.COM
Um dos problemas associados ao uso de pesticidas é que as pragas acabam desenvolvendo resistência aos compostos químicos, tornando-se invulneráveis. Para alguns tipos de pragas essa resistência chega a milhares de vezes.

No caso de ácaro-rajado (Tetranychus urticae), que é praga séria de culturas de morango, crisântemo, rosa, pêssego, algodão e mamão, observou-se resistência de aproximadamente 3 mil vezes para o acaricida fenpiroximato; de 350 vezes, para abamectina; e de 570 vezes, para clorfenapir, após algumas aplicações do acaricida.

Para fenpiroximato, a concentração necessária para se matar os ácaros resistentes a esse acaricida foi 200 vezes maior que a concentração recomendada para o controle do ácaro-rajado em morangueiro no Brasil. Nesse caso, um aumento na concentração do produto, mesmo que da ordem de dezenas vezes, não seria suficiente para aumentar a eficiência do produto no campo, caso a população de ácaros se torne resistente.

Algumas populações desse ácaro-praga mostram-se resistentes a quase todos os produtos disponíveis no mercado, o que dificulta seu controle. Para algumas culturas, como a de morango, há poucos acaricidas registrados, e os agricultores não conseguem controlar o ácaro-praga nos meses finais da cultura, sendo forçados a elimina-la antecipadamente, implicando em consideráveis prejuízos econômicos.

Uma consequência da evolução da resistência é o aumento do número de aplicações, devido à redução da eficiência dos produtos químicos. Esse uso intensificado de agrotóxicos favorece ainda mais a evolução da resistência. Além disso, provoca outros problemas como o desequilíbrio biológico, devido à eliminação de inimigos naturais; contaminação ambiental; risco de intoxicação dos agricultores; maior contaminação de alimentos e aumento do custo de produção.

Uma das principais estratégias de manejo da resistência de pragas a produtos químicos está relacionada à redução na frequência de aplicação de inseticidas e/ou acaricidas. A realização do monitoramento populacional de pragas pode ser uma ferramenta valiosa para o manejo da resistência. A utilização de produtos somente quando as densidades populacionais da praga estão acima do nível de dano econômico pode reduzir consideravelmente o número de aplicações contra as pragas, reduzindo assim a pressão de seleção com os agroquímicos.

Outra estratégia fundamental é a preservação de inimigos naturais nas áreas agrícolas. Os inimigos naturais podem manter a população da praga em baixas densidades por longos períodos no campo, não havendo necessidade de intervenções químicas durante esse período. Os inimigos naturais podem se alimentar tanto de insetos (ou ácaros) suscetíveis como dos resistentes, diminuindo assim o número de organismos resistentes no campo.

Em um estudo com ácaro-rajado em morangueiro, no Estado de São Paulo, o Instituto Biológico (IB-APTA), órgão da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, promoveu a liberação de ácaros predadores da espécie Neoseiulus californicus propiciando um bom controle da praga.

Isso permitiu que a população do ácaro-rajado se mantivesse em níveis baixos na cultura, não havendo a necessidade de aplicações de acaricidas após o estabelecimento dos predadores no campo. Dessa forma, foi possível evitar pelo menos dez aplicações de acaricidas, o que levou a uma diferença significativa na frequência de resistência a abamectina (e outros produtos), que foi significativamente menor na área de liberação dos predadores, na fase final da safra agrícola.

Quando o controle biológico é pouco viável, por falta de inimigos naturais eficientes, e são necessárias várias aplicações de inseticidas para o controle de uma praga, deve-se evitar aplicações repetidas de um mesmo produto ou com mesmo princípio ativo. Aplicações repetidas de um mesmo inseticida favorecem rápida evolução de resistência. Nesse caso, a alternância de produtos químicos pode ser uma boa alternativa para retardar a evolução da resistência.

Para minimizar o problema é necessário um esforço em conjunto, entre produtores rurais, instituições de pesquisa e extensão rural, para a criação e implantação de estratégias efetivas para o manejo da resistência a defensivos agrícolas.

* Mário Sato é pesquisador do Instituto Biológico (IB-APTA)

Scientific American Brasil

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Plantação de árvores nem sempre estimula a liberação do carbono contido no solo
Nova análise alerta que as plantações de pinheiro podem depletar o solo de nutrientes e carbono, reduzindo os benefícios da mitigação desse elemento
por Brendan Borrell
iStockphoto
Florestas de pinheiro: redução de 15% no carbono do solo e de 20% no nitrogênio
Como florestas acumulam carbono em seus troncos, plantar vastas áreas de árvores em terras estéreis pode fornecer meios para os países reduzirem suas emissões de carbono. Mas uma ampla e recente análise adverte que plantações de pinheiro podem rapidamente depletar o solo de seus nutrientes – e de carbono – reduzindo assim os benefícios.

“É um ato de equilíbrio difícil”, avalia o ecólogo Sean Berthrong, da Duke University. “As plantações são ferramentas utilizáveis, porém imperfeitas, para o seqüestro de carbono.”

Desde 2005, 140 milhões de hectares de terra foram convertidos em florestas ao redor do globo, e uma média de 2 milhões de novos hectares de florestas são adicionados a cada ano. Essas áreas aflorestadas respondem por apenas 4% das florestas da Terra, mas já fornecem 35% da dos produtos de madeira mundiais, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação.

A equipe de Berthrong analisou os dados de 153 plantações de árvores – a maioria de eucalipto e pinheiro – para entender como influenciavam os nutrientes e o carbono do solo. Em média, as novas florestas reduziram o carbono do solo em 6,7% e o nitrogênio em 15%. As plantações de pinheiro, as mais comuns, são também as piores, causando uma redução de 15% no carbono do solo e de 20% no nitrogênio. Essas plantações também causam outros problemas ao solo, por como torná-lo mais ácido.

Para minimizar a perda de carbono e de nutrientes, Berthrong recomenda que os florestadores deixem os resíduos de madeira no local após a colheita, e também que reduzam a aragem, o que aumenta a erosão e decomposição da matéria orgânica que está enterrada. Ele também afirma que qualquer programa que dê créditos de carbono aos projetos de aflorestamento, deve levar em conta o carbono do solo.

Scientific American Brasil

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Afinal, há um método confiável para se avaliar os níveis atmosféricos de dióxido de carbono?
As emissões de CO2 estão aumentando, mas seus repositórios naturais, saturando-se. Como os cientistas podem avaliar de forma precisa a presença desse gás causador do efeito estufa?
por David Biello
iStockphoto
Mesmo com a grande recessão do ano passado, emissões não diminuíram
O planeta se livra do excesso de dióxido de carbono via oceanos, plantas e solo (dentre outros sistemas naturais), que absorvem uma parte dos gases causadores do efeito estufa emitidos pela queima de combustíveis fósseis. Na verdade, a cada ano esses “repositórios” naturais absorvem montantes cada vez maiores de gases – mas graças à crescente quantidade de CO2 e outros gases de efeito estufa jogados na atmosfera pela atividade humana, a proporção reabsorvida está começando a diminuir, segundo novos estudos.

Como estão em andamento esforços para se chegar a um acordo global, com a pretensão de começar a reduzir as emissões humanas dos gases geradores de efeito estufa, tornam-se cada vez mais importantes medições precisas dessas emissões, bem como de suas fontes e repositórios. As tecnologias de ponta e as novas tentativas da ciência estão contribuindo para esse projeto – ainda que a recente perda do Observatório Orbitante de Carbono da Nasa tenha representado um retrocesso.

Primeiro e mais importante, as emissões de gases de efeito estufa continuam a crescer em todo o mundo, de acordo com um novo relatório do Projeto Carbono Global (GCP, em inglês), publicado na edição on-line da Nature Geoscience, em 17 de novembro (a Scientific American norte-america faz parte do Nature Publishing Group). Segundo Corinne Le Quéré, oceanógrafa da University of East Anglia (Inglaterra), de 2000 a 2008 essas emissões aumentaram em 29% e, mesmo com o advento da Grande Recessão, ainda tiveram a capacidade de crescer mais 2% somente em 2008 (embora se espere que, neste ano, voltem ao nível de 2007). De fato, as emissões globais de CO2 decorrentes da queima de combustíveis fósseis e do desmatamento estão próximas dos 37 bilhões de toneladas por ano – um aumento de 47% em relação a 1990.

A pesquisa de Le Quéré e seus colegas também sugere que a proporção de CO2 restante na atmosfera também esteja crescendo – subindo lentamente dos cerca de 40%, em 1959, para perto de 45%, em 2008. Isso corresponde a aproximadamente 14 bilhões de toneladas de CO2 por ano, ou um aumento anual de 1,8ppm em sua concentração atmosférica.

Pode-se explicar parte desse aumento pela redução na quantidade de CO2 absorvida pelos oceanos do planeta, em especial o Oceano Austral – que circunda a Antártida –, cujas águas geladas absorveram 40% das quase 9 bilhões de toneladas de CO2 sequestradas pelos mares no último ano. De acordo com um artigo recente publicado em 19 de novembro, na Nature, o oceanógrafo Samar Khatiwala, do Obervatório da Terra Lamont-Doherty (pertencente a Columbia University), e seus colegas reavaliaram os dados existentes desde 1765 e estimaram que a proporção de emissões de combustíveis fósseis absorvidas pelo oceano já diminui 5% nos primeiros cinco anos do século 21.

Isso pode indicar que os repositórios oceânicos naturais – que começaram a capturar mais CO2 na década de 1950 – são incapazes de acompanhar o aumento de emissão dos gases de efeito estufa produzidos pela atividade humana. “Quanto mais dióxido de carbono, mais ácido ficará o oceano, reduzindo sua capacidade de sequestrar esse gás,” declarou Khatiwala, em nota. O pH médio das águas marinhas – uma medida de acidez – passou de 8,1 para quase 8,2, no século 19.

Em parte, essa mudança é balanceada por um aparente aumento de cerca de 4 bilhões de toneladas de CO2 absorvidas pelos repositórios terrestres, possivelmente em razão do uso desse gás pelas plantas em crescimento. Mas, de novo, a estimativa dos pesquisadores para a retenção terrestre de carbono é suspeita, uma vez que se baseia no que não é absorvido pelos oceanos e nos resquícios atmosféricos.

Esse tipo de estimativa é próprio da pesquisa climática e, talvez, mais bem exemplificado pelos inventários de emissão americanos, que geralmente se baseiam nos fatores de emissão – fórmulas matemáticas para a quantidade de CO2 produzida, obtidas a partir da queima de um tipo qualquer de carvão, por exemplo. A estimativa da contribuição dos gases de efeito estufa para o problema é feita, pelos Estados Unidos e por outros países, primariamente a partir da simples multiplicação da quantidade consumida desse carvão pelos seus fatores de emissão.

“Essas estimativas de emissão não são muito precisas, se comparadas com os aparelhos de alta calibragem,” categoriza Michael Woelk, presidente da Picarro, uma fabricante desses dispositivos medidores de emissões de CO2, localizada na Califórnia (EUA). “Atualmente, nenhum país utiliza instrumentos científicos para monitorar e avaliar os efeitos de suas políticas,” nem mesmo a União Europeia, que desenvolveu um Esquema de Comércio de Emissões para os gases de efeito estufa.

Uma tecnologia similar é usada pelos Estados Unidos para monitorar de forma precisa emissões de dióxido de enxofre, que provoca chuva ácida, e óxidos nítricos, formadores de smog; esse monitoramento faz parte dos programas de comércio norte-americanos para esses poluentes. E a Organização Meteorológica Mundial decidiu empregar a tecnologia de “espectroscopia com cavidade em anel” da Picarro – um aparelho semelhante ao computador que mede os isótopos, determinando tanto a quantidade quanto as fontes dos gases de efeito estufa, sejam estes de origem natural ou humana −, no intuito de assegurar que as medições globais estejam precisas.

Os aparelhos se aproveitam do fato de que o CO2 gerado pelo consumo de combustível fóssil apresenta uma quantidade menor do isótopo conhecido como carbono 13 que as outras formas do gás; isto porque as plantas têm uma preferência por absorver sua forma menos complexa, denominada carbono 12. Ao medir essa proporção, os cientistas conseguem determinar de um modo mais preciso a contribuição humana para a emissão dos gases causadores do aquecimento climático.

Porém, há uma grande variação isotópica. Por exemplo, a relação desses isótopos pode variar de forma significativa no gás natural, pondo em conflito essas medições. E um artigo da edição de 7 de novembro das Geophysil Research Letters, escrito pelo geocientista Wolfgang Knorr, da Universidade de Bristol (Inglaterra), argumenta que a captação de CO2 pelo oceano em nada diminuiu nos últimos 150 anos, sendo possível que os sistemas naturais tenham compensado as emissões humanas.

Ultimamente, o mais importante é o quanto da contribuição humana ao problema, proveniente da queima de combustíveis fósseis, podem os oceanos e outros repositórios naturais reter. Segundo Le Quéré, se as emissões dos gases do efeito estufa continuarem no ritmo atual, as temperaturas médias mundiais podem aumentar 6°C até o fim do século.

Como observou o oceanógrafo Richard Feely, do Laboratório do Habitat Marinho do Pacífico, ligado à Administração Atmosférica e Oceânica Nacional (que contribui com o GCP): “Nossa preocupação é se os repositórios naturais não puderem acompanhar o aumento das emissões de CO2. Ato contínuo, os impactos biológicos e físicos do aquecimento global acelerarão no próximo século.”

Scientific American Brasil

Notícias Geografia Hoje

Mudanças climáticas levarão a uma menor formação de nuvens?
Novo estudo se concentra na relação misteriosa entre nuvens e clima e descobre que um planeta mais quente pode resultar em menos nuvens
por Katherine Harmon
NASA
Céu limpo pela frente? Pesquisadores ainda investigam qual a função das nuvens na mudança climática
Não é tão fácil encontrar vestígios passados de nuvens quanto de dióxido de carbono. Mas, assim como o CO2, as nuvens desempenham um papel importante na mudança climática: podem tanto reter calor na atmosfera, aumentado o efeito estufa, quanto refletir a luz solar de volta para o espaço, resfriando o planeta.

Então, as nuvens contribuirão para a mudança climática ou ajudarão a atenuá-la? “Neste momento, não entendemos qual é essa relação,” explica Anthony Del Genio, cientista atmosférico da Nasa, que trabalha no Instituto Goddard de Estudos Espaciais, na cidade de Nova York.

Mas um novo estudo, publicado na revista Science, dá mais um passo adiante para a compreensão dessa complicada dinâmica, que será vital para se entender detalhadamente como nosso planeta será daqui décadas e séculos.

Quando se trata de prever as mudanças climáticas, nem todas as nuvens são formadas igualmente, ressalta a principal autora da pesquisa, Amy Clement, da Escola Rosentiel de Ciência Marinha e Atmosférica, da University of Miami. Segundo a cientista, as nuvens mais altas, como as cumulonimbus, produzem um efeito estufa (gerando umidade e re-emitindo radiação para a superfície), ao passo que as mais baixas agem de forma semelhante a um guarda-chuva, protegendo a Terra dos quentes raios solares.

Clement e sua equipe examinaram as nuvens estratiformes de baixa altitude sobre o nordeste do Oceano Pacífico. Pela comparação de conjuntos independentes de dados observacionais, acumulados durante os últimos 50 anos por navegantes e satélites, eles esperam entender como os relatos de cobertura de nuvens se relacionam com a temperatura e circulação do vento – e vice-versa. Para a surpresa desses pesquisadores, as observações marinhas e espaciais eram incrivelmente semelhantes, o que contribuiu para o crédito dessas fontes de dados, tachadas por muitos como não confiáveis.

A equipe sistematizou um modelo de clima (no Centro Hadley de Mudanças Climáticas, localizado no Reino Unido) que complementou muito bem seus dados. Esse modelo mostrou que o aquecimento das temperaturas da superfície e a diminuição da circulação de ar – tendências que devem ser mantidas num clima em mudanças – levam a uma menor quantidade de nuvens de baixas altitudes. E isto quer dizer temperaturas ainda mais altas na superfície terrestre.

Mas há ainda muito mais trabalho ainda a ser feito. “Acho que é um fragmento muito impressionante de análise observacional”, afirma Del Genio, que não integrou o estudo. “É a primeira vez que se demonstram essas mudanças através das décadas.” No entanto, complementa, o único modo de sustentar essas conclusões experimentais é a identificação de mais modelos.

É difícil estabelecer um modelo para as nuvens de baixa altitude, admite Clement. “São formadas em uma escala microfísica.” Segundo a pesquisadora, o modelo do Hadley provavelmente foi o mais bem-sucedido, pois continha o maior número de informações sobre os complexos processos ocorridos na atmosfera inferior, onde há contato com a superfície terrestre (uma região, explica Clement, para a qual é muito mais difícil de se construir um modelo do que para a circulação em larga escala presente na atmosfera superior).

E, como sempre, há a questão de como relacionar os eventos climáticos cotidianos às tendências climáticas a longo prazo. Como Clement ressaltou, “ao observar hora a hora os processos que acontecem nas nuvens, obtém-se um quadro muito complexo”. Porém, “os dados, ao serem analisados em uma escala de tempo de décadas, parecem resultar neste quadro muito simples: quando a superfície oceânica está quente e a circulação, pouca, a cobertura de nuvens é reduzida”.

Scientific American Brasil

Notícias Geografia Hoje

Moradores urbanos causam desmatamento no século 21
Dados de satélites revelam que a demanda por áreas urbanas pode ser a principal causa da perda de árvores – uma mudança nos padrões do passado
por David Biello
Nasa
Padrão “espinha de peixe” do desmatamento, substituído por grandes blocos de clareiras
No mundo todo, aproximadamente 13 milhões de hectares de florestas perecem sob lâminas ou fogo todos os anos. Esse desmatamento há muito tempo vem sendo causado por fazendeiros que sobrevivem pormeio do corte e queima ou por madeireiros usando novas estradas para invadir florestas virgens. Mas novos dados parecem mostrar que, pelo menos nos primeiros cinco anos do século 21, os grandes blocos de clareiras, que refletem o desmatamento industrial, agora dominam, ao contrário dos esforços de pequena escala que deixam atrás de si faixas longas e estreitas de terra nua.

A geógrafa Ruth DeFries da Columbia University e seus colegas usam imagens de satélite do Landsat, junto com o instrumento Modis (Espectroradiômetro de Resolução Moderada de Imagens, em inglês) em Aqua para analisar o desmatamento nos países que circundam os trópicos, o que representa 98% de toda a floresta tropical remanescente. Em vez da clássica assinatura “espinha de peixe” do desmatamento causado por operações em pequena escala, grandes e densos blocos de terra nua revelam uma mudança nos agentes causadores da derrubada de árvores: grandes empresas atendendo à demanda urbana, de acordo com um novo artigo recentemente publicado na Nature Geoscience. (Scientific American é parte do Nature Publishing Group.)

Na verdade, uma análise estatística de 41 países revelou que a taxa de perda de florestas tem uma ligação mais estreita com o crescimento da população urbana e com exportações agrícolas de 2000 a 2005 – nem mesmo o crescimento total da população foi um agente tão forte nesse quesito. “Nas décadas passadas, o desmatamento esteve associado com colonização planejada, projetos de reassentamento e fazendeiros locais limpando a terra para conseguir alimentos para subsistência”, afirma DeFries. “O que estamos observando é uma mudança: antes eram os fazendeiros de pequena escala que causavam o desmatamento e, agora, os maiores agentes causadores são as distantes demandas do crescimento urbano, comércio agrícola e exportações.”

Em outras palavras, a crescente urbanização dos países em desenvolvimento – bem como um aumento constante no consumo, nos países desenvolvidos, de produtos que têm impacto em florestas, sejam móveis, couro para sapatos ou frangos alimentados com farelo de soja – está causando o desmatamento, mais do que contendo o mesmo, conforme a população deixa as áreas rurais para se concentrar nas cidades em crescimento. “Uma das características mais marcantes deste século é a urbanização e o rápido crescimento urbano dos países em desenvolvimento”, informa DeFries. “As pessoas nas cidades precisam comer.”

“Não é surpresa nenhuma”, observa Scott Poynton, diretor executivo do Tropical Forest Trust, organização com base na Suíça que ajuda homens de negócios a implementar e gerenciar silviculturas sustentáveis em países como Brasil, Congo e Indonésia. “O problema não são pessoas pobres cortando árvores. O problema são as pessoas em Nova York, na Europa e em outros lugares querendo produtos baratos, principalmente comida”.

Para ajudar a sustentar essa crescente demanda urbana e global, a produtividade agrícola terá que ser aumentada em terras que já foram limpas, como muitas terras degradadas e abandonadas dos trópicos, argumenta DeFries, seja por meio de melhores variedades de cultura ou melhores técnicas de administração. E o Tropical Forest Trust está criando melhores sistemas de gerenciamento para evitar que a madeira retirada ilegalmente acabe em, por exemplo, espreguiçadeiras, bem como expandindo seus esforços para ver como reduzir as “pegadas na floresta” dos produtos agrícolas, como o óleo de palma. “É nas coisas agrícolas que o desmatamento ocorre”, afirma Poynton. “A idéia é dar valor às florestas enquanto florestas: mantê-las como florestas e dar-lhes uso dessa forma. Não vão transformá-las em Parques Nacionais, isso simplesmente não vai acontecer”.

É claro que o desmatamento florestal permitiu que florestas crescessem novamente em outras áreas, incluindo terras tropicais anteriormente limpas. E o desmatamento florestal na Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, caiu de cerca de 1,9 milhão de hectares por ano na década de 1990 para 1,6 milhão de hectares por ano na última década, de acordo com o governo brasileiro. “Nós sabemos que a velocidade de desmatamento diminuiu pelo menos na Amazônia brasileira desde a época dos dados do nosso estudo”, observa DeFries. “Observamos 41 países. Cada lugar é diferente. Cada país tem sua própria situação, circunstâncias e agentes causadores”.

Apesar disso, o desmatamento é uma das maiores causas das emissões de gases causadores do efeito estufa gerados pela atividade humana – um golpe duplo, que tanto elimina um sistema biológico que absorve CO2 quanto cria uma nova fonte de gases estufa na forma de plantas em decomposição. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente estima que retardar esse desmatamento poderia recuperar cerca de 50 bilhões de toneladas métricas de CO2, ou mais de um ano de emissões globais. Além disso, as negociações internacionais continuam a tentar conseguir um sistema para atingir esse objetivo, conhecido como fundo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento para reduzir emissões causadas pelo desmatamento e por degradação florestal em países em desenvolvimento (REDD, na sigla em inglês).

“Se é para políticas [como o REDD] serem eficientes, precisamos entender o que está comandando as forças por trás do desmatamento”, comenta DeFries, e há novas pressões iminentes. “A competição para usar terras para outros produtos, como biocombustíveis, aumentará ainda mais a pressão sobre as florestas tropicais”, escreveram os pesquisadores.
Mas, de acordo com uma nova análise, milhões de hectares de floresta virgem permanecem potencialmente a salvo– 60% das florestas tropicais restantes estão em países ou áreas com pouco comércio agrícola ou crescimento urbano.

“A quantidade de áreas florestais em locais como a África central, Guiana e Suriname”, nota DeFries, é enorme. “Há muitas florestas que ainda não encontraram esse tipo de pressão.”
Scientific American Brasil

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