quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Informações Gerais Sobre a Amazônia Brasileira




A Amazônia Legal Brasileira é formada pelos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e grande parte dos estados do Maranhão e Mato Grosso.

Características Gerais
A Amazônia brasileira constitui 60% de toda a região amazônica (Pan-Amazônia);
- possui o maior rio do mundo, o Amazonas, cuja extensão é de cerca de 6500 km;
- possui o ponto mais alto de todo o território brasileiro, o Pico da Neblina;
- abriga a maior diversidade de fauna e flora do planeta;
- abrange uma superfície equivalente a mais de 30 países da Europa;
- possui a maior reserva mineral do planeta;
- abriga mais de 20 milhões de habitantes

Território, Solo, Clima e Florestas

A Amazônia é uma floresta pluvial tropical latifoliada, concentrando uma fantástica diversidade biológica, cujo rio Amazonas e seus afluentes contém o maior volume de água doce, correspondendo, aproximadamente, a 20% de todas as águas continentais da superfície terrestre. Em uma área de mais de 370 milhões de hectares, o equivalente a 45% do território brasileiro, situa-se a Amazônia Clássica, abrangendo os setes Estados que compõem a Região Norte, ou seja, o Amazonas, Pará, Amapá, Acre, Rondônia, Roraima e Tocantins. A Amazônia Legal, instituída na época da SUDAM, tem aproximadamente, 4.978.247 Km2, incluindo além dos Estados da região Norte do Brasil, o Noroeste do Maranhão e o Norte do Mato Grosso. Limita-se ao N com a Venezuela, as Guianas e o Suriname; a NO, com a Colômbia; a O com o Peru e, a SO, com a Bolívia, cujas florestas tropicais formam juntas com a Amazônia Brasileira a chamada Pan Amazônica, com 7,5 milhões de Km2.


O clima apresenta condições peculiares da zona equatorial, faixa do globo terrestre onde dominam as altas temperaturas e baixas pressões atmosféricas. Portanto, prevalece o regime térmico com alta temperatura de ar acima de 25°C, oscilando suavemente durante o ano inteiro e o regime hídrico caracterizado por forte pluviosidade acima de 2000 mm e umidade elevada do ar. Por outro lado, durante o inverno do hemisfério Sul (junho a setembro) é possível ocorrer o fenômeno da friagem, devido à chegada da massa polar antártica que provoca a queda de temperatura no Sudoeste da Amazônia (Amazonas, Acre e Rondônia).


Como em geral no resto da Amazônia, as estações regulam-se, não pela temperatura, mas pelas chuvas, inverno na primeira parte com alta precipitação, e verão, na outra metade, com precipitação mais baixa, sendo esse regime responsável pelo desenvolvimento de uma exuberante vegetação, onde sobressaem dois tipos de florestas de significativo valor econômico:


· As matas de terra-firme, que equivalem a cerca de 330 milhões de hectares, onde se incluem as campinas, matas de cipó, bambus, destacando-se as matas densas com 306 milhões de hectares ou 3.063 mil Km2.. (Rev. Ciência Hoje e publ. Ecologia e Desen.: Maimon, Dália – Rio de Janeiro: APED, 1992)). Essas florestas são caracterizadas por árvores de grande porte, dispondo na sua grande maioria, de raízes radiculares e superficiais, dependentes fundamentalmente de chuvas freqüentes; possuem alta heterogeneidade de espécies, detendo as madeiras nobres, constituindo-se em 90 % da cobertura vegetal da Amazônia. (Sioli, Harald – Ecologia paisagística da Amazônia);


· As matas de várzea e igapó, perfazem, juntas, cerca de 7 milhões de hectares, sendo constituídas, geralmente, por árvores frutíferas e de madeira mole e pouco resistentes, que habitam faixas de solo ao longo dos grandes rios e cursos d´água, e por isso mesmo, sofrem influência das enchentes, ou em alguns casos, são permanentemente inundadas, sendo portanto, constantemente enriquecidas por nutrientes minerais;


Além das áreas florestadas, acima mencionadas, existem áreas “não florestal” , correspondendo a 32.600.000 há, dentre as quais incluem e predominam a vegetação dos campos de terra firme com o equivalente a 15.000.000 ha; as campinas abertas com 3.400.000 ha; a vegetação serrana com 2.600.000 ha; campos de várzeas com 1.500.000 ha e outros tipos. Somando todos os tipos de “florestas densas e vegetações rasteiras” têm-se 370 milhões de hectares. (Rev. Ciência Hoje e publ. Ecologia e Desenv. Maimon, Dália – Rio: APED, 1992).

Os solos de floresta de terra-firme são, extremamente, pobres em nutrientes. Análises de solos como de água de igarapés (que representam extratos de solos) revelam e comprovam tal situação (Engº Camargo, 1949; Sioli, 1956;Sombroek, 1666; Falesi, 1972; Furch. 1984 e outros que se seguiram). (Publ. Ecologia Paisagística da Amazônia.- 1985).


Segundo o cientista Harald Sioli, essas características ecológicas são as mais importantes, pois oferecem a base da vida atual, e da vida futura da região, formando, em parte, um sistema de re-alimentação de nutrientes criado pela cadeia trófica. A manutenção dessas características em perfeito equilíbrio é o requisito indispensável para o funcionamento e a continuidade do ecossistema amazônico, rico em diversidade, mas pobre em nutrientes.


É pois a partir de sérios estudos, levando em consideração as características ecológicas, que se devem examinar e julgar os fins e as tecnologias de quaisquer planos e projetos de desenvolvimento, sejam eles de intenções agropecuária, industriais ou infra-estruturais, se não se quiser incorrer em danos irreparáveis, dos quais alguns são hoje bastante visíveis. (Sioli, Harald).

Sem antes partir para um programa que incentive uma ampla pesquisa, visando criar uma tecnologia nacional para o manejo de solos de clima equatorial da Amazônia, muita coisa que se fizer nessa Região, poderá só conseguirá êxito a um custo altíssimo, mais alto do que em qualquer outra região do país. Isto a história nos têm demonstrado ao longos dos anos. Desse modo mesmo a pecuária tão elogiada, atualmente, só pode decolar ao estágio em que está hoje graças ao significativo volume de recursos alocados pelos governos militares, através dos Incentivos Fiscais. Mesmo assim, devido o alto custo com a derrubada de árvores de alto valor econômico, a correção dos desníveis dos solos, a mão- de-obra escassa, o combate as pragas e doenças, os custos de um boi em pé é por demais alto em comparação com os custos de produção das demais áreas. Dessa forma, é discutível se exportar o boi vivo é tão viável, em que pese o alto custo no mercado internacional. A exportação da carne industrializada e de outros derivados do gado bovino, pode agregar mais valor, e gerar mais renda e emprego na região.

http://www.istoeamazonia.com.b

Características marcantes no continente africano

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"ÁFRICA: INFELIZMENTE, ATÉ HOJE, A VIVER NA ERA DO ILUSIONISMO!


Escrevo hoje, 25 de Maio, não para festejar o dia de África, porque continuo a não ver (ter) motivos para festejar êxitos dignos do termo, numa abrangência continental que permita apontar exemplos de referência da relação entre investimento, crescimento económico e bem estar das populações africanas.

Continuamos a viver do ilusionismo que a Europa, os Estados Unidos e a China nos brindam, tal como quando se dá um rebuçado a um garoto, para que nos deixe à vontade, pelo incómodo da sua presença ou comportamento, quando queremos fazer algo sem que nos incomode.

Nunca vi tanto interesse na definição e marcação de "terrenos" em África, como tenho visto ultimamente, aliás, de forma descarada; quer os antigos colonizadores, como os novos candidatos a colonizadores, numa questão estratégica de conciliação de acções, têm feito pactos de conveniência que comprometem a sustentação dos princípios e valores que defendem nos grandes palcos onde a retórica predomina.

Hoje, iludem-nos com anúncios de grandes e variados investimentos em África.

Hoje, iludem-nos com falsos anúncios de crescimento económico em África.

Hoje, iludem-nos com sinais de riqueza que irresponsáveis governantes africanos (a maioria), exibem e que não passam de dívidas que os nossos países vão acumulando e terão que pagar de uma forma ou de outra, mais cedo ou mais tarde."
Fernando Casimiro (Didinho)- didinho@sapo.pt
Características Gerais:
* Aumento no processo de desertificação ao sul do Deserto do Saara (SAHEL)- causas: agropecuária, desmatamento, latifúndio, uso de praticas agrícolas primitivas como COIVARA, falta de conhecimento da população local com medidas preservacionistas, irrigação inadequada, agravamento da semi-aridez, etc...
* deficiência na rede de infra-estrutura agravado pela falta de investimentos externos no setor produtivo de geração de emprego;
* a criação de fronteiras artificiais pelos países europeus com o processo do neocolonialismo resulta em conflitos aparentemente eternos;
* avanço da AIDS diminuindo a expectativa de vida;
* aumento da fome e miséria causado pela desestruturação da economia de subsistência, má distribuiçao de terras, conflitos e má distribuiçâo de renda...etc
* atuação de grandes transnacionais que explora mão-de-obra barata e incentiva as divisões internas como forma de dominação dos recursos naturais;
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quarta-feira, 29 de outubro de 2008

PUC-RIO - 2000-2


Geografia
Prova discursiva realizada no dia 22/07/2000
1


Mudanças ocorridas na Volkswagen do Brasil nos últimos 30 anos:



1970
2000

1
número de empresas
5

23.000
número de funcionários
28.500

233.000
produção anual
420.000

47,5 horas
jornada de trabalho semanal
36 horas

170 dólares
salário médio
900 dólares

15 carros
produtividade anual por operário
38 carros

70 segundos
tempo para soldar um teto
40 segundos

55 horas
tempo para montar um carro
25 horas



VEJA, 8 de março de 2000.

Explique as razões dessas mudanças:



Resposta:


A micro-eletrônica e a informática, as indústrias chaves da Terceira Revolução Industrial, provocaram grandes mudanças no processo produtivo. Entre estas mudanças o candidato pode citar:


aplicação de novas tecnologias que possibilitaram a reestruturação da linha de montagem;


automação do processo produtivo, com a substituição da mão-de-obra por equipamentos automatizados;


maior velocidade na realização das etapas o que significa aumento da produtividade do trabalho ( just in time );


exigência de trabalho mais qualificado.




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2
Destruição do verde ameaça o Rio
"Se nada for feito, a Mata Atlântica que cobre o Maciço da Tijuca não resistirá por mais 40 anos [...] Nos últimos 20 anos o maciço perdeu 18 quilômetros quadrados da sua cobertura florestal [...] A destruição do verde ameaça a qualidade de vida da população do Rio de Janeiro." -

JB, 29 de junho de 2000

a) Cite dois fatores responsáveis pela diminuição da cobertura florestal do Maciço da Tijuca:

Resposta:


O candidato pode citar, entre outros fatores:


os incêndios provocados pela ação do homem ( balões, cultos religiosos, desatenção, etc. );


as invasões para construções tanto para segmentos de renda alta quanto para os setores mais pobres - expansão das favelas;


desobediência à lei que só admite o uso dos parques nacionais para visitação e para pesquisa científica.


b) Apresente duas conseqüências, para o espaço urbano carioca, da destruição da floresta:

Resposta:
Entre as conseqüências da destruição da floresta, o candidato pode citar:


a retirada da floresta diminui a infiltração da água no solo o que vai provocar o aumento do escoamento superficial e como conseqüência a diminuição dos mananciais e o aumento dos riscos de cheias ( principalmente nos bairros situados junto ao maciço );


a floresta é responsável pela retenção da água das chuvas. Sua destruição aumenta o risco de deslizamento das encostas;


a destruição da floresta da Tijuca significa a descaracterização de uma área de lazer e de turismo que assegura qualidade de vida à população ( o meio ambiente como bem comum de toda a população ).




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3
O gráfico abaixo mostra a evolução da taxa de fecundidade, no período 1950 - 2000, e faz uma projeção até 2020. A tendência declinante está promovendo mudanças na estrutura da população brasileira.



a) Indique duas razões que expliquem a queda da taxa de fecundidade:

Resposta:


O candidato pode indicar, entre as razões para o declínio da taxa de fecundidade, as seguintes:


a urbanização da população brasileira e a adoção de novos procedimentos quanto à natalidade;


o fácil acesso aos métodos anticonceptivos;


a difusão das informações graças aos meios de comunicação;


a participação da mulher no mercado de trabalho;


os padrões de modernização da sociedade ( difusão do consumismo, monetarização das relações sociais, etc. ).


b) Apresente duas mudanças na estrutura da população brasileira provocadas por esta queda acentuada da taxa de fecundidade:

Resposta:

Entre as principais mudanças na estrutura da população brasileira, o candidato pode citar:


a diminuição da taxa de crescimento demográfico;


a diminuição do percentual de jovens ( com menos de 15 anos ). Em 1960 este grupo de idade representava 42% da população total; em 2000 aproximadamente 30%;


aumento do percentual de adultos ( 15 a 59 anos ). Em 2000 deve chegar a 62% da população total;


aumento percentual significativo do contingente com idade acima de 50 anos ( em 2000, aproximadamente 9% da população total ).

PUC-RJ - 2000



Geografia
Prova discursiva realizada no dia 10/12/1999

1

Observe o mapa seguinte.


Fonte: Educação Ambiental. Rio de Janeiro: CEDI/CRAB, 1994.
IN GIANSANTI, Roberto. O Desenvolvimento sustentável. São Paulo: Atual, 1999.

a) A partir do mapa, apresente duas ações responsáveis pelo recuo das florestas tropicais.
b) Analise duas conseqüências resultantes do desmatamento destas áreas.

Resposta:

a. Expansão das fronteiras agrícolas com a instalação de projetos agropecuários; extração de madeira para fins comerciais; implantação de grandes projetos de extração mineral; grandes obras de infra-estrutura, como hidrelétricas.


b. Entre as conseqüências do desmatamento podemos apresentar: a perda da biodiversidade; empobrecimento/lixiviação dos solos; alteração na rede de drenagem; mudanças no regime de chuvas.




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2

A REABILITAÇÃO DO ESTADO
A conclusão da Carta do Rio de Janeiro, lançada no encerramento do 13o. Congresso de Economistas da América Latina e Caribe, é de que há necessidade de rompimento com o modelo econômico implantado nos países da América Latina na década de 90. O manifesto conjunto convida os cidadãos da região a "se recusarem à continuidade de um modelo que rouba a esperança, amplia a violência social e bloqueia o aproveitamento de suas potencialidades".


Trecho extraído do Jornal do Brasil.
Sábado, 18 de setembro de 1999.


A Carta do Rio de Janeiro se opõe ao modelo de desenvolvimento que vem realizando, entre outras, uma reestruturação do papel do Estado, nos países da América Latina.

a) Apresente duas formas de atuação do Estado que antecederam a fase de reestruturação.
b) Apresente dois procedimentos do Estado que caracterizam a atual fase de reestruturação.

Resposta:

a. O Estado, no Brasil, tinha uma forte participação na economia, no processo produtivo e na organização do território. Criou grandes empresas em setores estratégicos; foi responsável pela ampliação da rede de transportes e aumento da produção de energia; criou orgãos de desenvolvimento que tinham como objetivo a redução das desigualdades regionais.



b. Entre os procedimentos que reestruturam o Estado, podemos apresentar: a privatização das empresas estatais - produtivas e de serviços; a redução do número de funcionários públicos.




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3

O desenho representa a imagem do globo "encolhendo":


Analise duas conseqüências, para a organização do espaço mundial, das inovações tecnológicas surgidas com a 3ª Revolução Industrial.

Resposta:

A 3ª Revolução Industrial promoveu, na organização do espaço mundial, entre outras, as seguintes mudanças

– transmissão instantânea e simultânea das informações o que possibilita uma extraordinária agilidade para os fluxos financeiros.

– formação de redes que permitem a integração da "aldeia global" indiferente à divisão tradicional dos países.

- aumento significativo da velocidade e da capacidade de deslocamento de cargas e pessoas.

- desconcentração industrial devido à presença de novos fatores locacionais como, a proximidade de centros de produção do conhecimento e de novas tecnologias (tecno-polos).

PUC-RIO 1999-2


Geografia
Prova discursiva realizada no dia 03/07/99


1



O gráfico a seguir representa a devastação da floresta amazônica, um dos principais impactos ambientais no Brasil.



As colunas mostram a área desmatada em relação à área total


(Oxford Concise Atlas of the World, 1995)

a) Indique duas razões para o aumento do desmatamento expresso no gráfico.

Resposta:


a) O desmatamento ocorre, principalmente, como conseqüência da:

- extração da madeira para fins comerciais;
- instalação de projetos agropecuários;
- implantação de projetos de mineração;
- construção de usinas hidrelétricas;
- propagação do fogo resultante de incêndios.




b) Apresente duas situações que mostrem como a retirada da cobertura florestal causa graves danos ambientais.

Resposta:

b)
- destruição da biodiversidade;
- erosão e empobrecimento dos solos;
- enchentes e assoreamento dos rios;
- diminuição dos índices de chuva/elevação das temperaturas;
- proliferação de pragas e doenças.





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2

A globalização é vista, atualmente, como um imperativo histórico que condiciona a evolução da economia. Ela procura expandir os mercados, e portanto os lucros, que é o que de fato movimenta os capitais produtivos ou especulativos.
Apresente duas medidas do governo brasileiro, adotadas na década de 90, para se ajustar à nova ordem econômica mundial.

Resposta:

.





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3

O economista hindu Amartya Sen, o mais recente Prêmio Nobel de Economia, afirma que "para participar da distribuição da renda social é necessário estar habilitado por títulos de propriedade e/ou pela inserção qualificada no sistema produtivo".
Situe a afirmativa do economista hindu no atual quadro econômico-social brasileiro.

Resposta:

O trecho "estar habilitado por títulos de propriedade" relaciona-se com a histórica concentração de terras existente no Brasil, que impede/impossibilita o Entre as medidas podemos citar:

- desregulamentação da economia;
- privatização tanto no setor industrial quanto no financeiro;
- abertura da economia — livre circulação de bens e capitaisacesso à terra de milhões de agricultores.

O trecho "inserção qualificada no sistema produtivo" faz referência à baixa escolaridade da população brasileira/à deficiência do ensino fundamental
.

Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - 1999


Geografia
Prova discursiva realizada no dia 11/12/98


1

A partir de meados dos anos 50, as contradições da ocupação do solo da cidade do Rio de Janeiro intensificaram-se bastante. O aumento da densidade populacional, a concentração de atividades e a necessidade de diversificar as opções de investimento reduziram as questões urbanas a um problema viário e passaram a exigir soluções imediatas. As transformações da forma e do espaço urbano acabaram por privilegiar o transporte individual.


a) Apresente duas críticas à opção pelo transporte individual.


b) Indique duas intervenções no espaço urbano do Rio de Janeiro, realizadas nas décadas de 80 e 90, que facilitaram a circulação no seu interior.




Resposta

a) O candidato poderá apresentar suas críticas levantando os problemas resultantes da circulação diária de um enorme número de veículos individuais, tais como: consumo excessivo de combustível, aumento da poluição e intermináveis congestionamentos no trânsito.
O candidato poderá apresentar suas críticas apontando as questões resultantes da deficiência dos transportes coletivos que obrigam os grupos sociais de maior renda a optarem pelo transporte individual o que gera problemas como os acima levantados; por outro lado obrigam a população de baixa renda, dominante na cidade, a se sujeitar, em seu deslocamento diário para o trabalho e para casa, a transportes numericamente insuficientes, cheios demais, barulhentos , lentos, inconfortáveis, sem manutenção e muitas vezes dirigidos por profissionais despreparados para lidar com o público.

b) O candidato poderá indicar, entre outras, as seguintes intervenções: a construção da Linha Vermelha, a construção da Linha Amarela e o alargamento das vias de circulação na Zona Oeste.





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2


Entre os indicadores adotados para medir a "força" de um país no cenário internacional, podemos destacar:

1. as riquezas naturais e os recursos humanos;

2. o grau de participação nas decisões internacionais;

3. a importância da pesquisa, o avanço tecnológico e a capacidade de difusão cultural;

4. o valor do PIB, o valor do PIB por habitante, os resultados setoriais da atividade econômica e os indicadores de desenvolvimento humano;

5. a capacidade de mobilização em torno de valores comuns.


Tendo como referência a proposta acima:

a) cite e analise dois indicadores que permitem situar o Brasil como potência regional.


b) apresente dois indicadores que mostram o Brasil como um país periférico.



Resposta

A resposta dessa questão dependerá dos indicadores escolhidos pelo candidato.
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3


A partir de 1950, o turismo passou a ser um "fenômeno de massa" e, devido aos recursos que movimenta, uma atividade importantíssima na economia mundial.


a) Apresente dois fatores que expliquem a transformação do turismo em "fenômeno de massa".


b) Desenhe, no mapa, um importante fluxo turístico indicando o pólo de emissão e o de recepção. Analise a importância econômica, para o país de recepção, do fluxo turístico indicado.

Resposta

a) Os candidatos poderão apresentar entre outros fatores: transportes cada vez mais eficientes e relativamente mais baratos, que encurtam distâncias e viabilizam os deslocamentos de grandes massas de turistas; maior competitividade entre as empresas hoteleiras e de agências de viagens que oferecem os chamados "pacotes" vantajosos aos consumidores.

b) A resposta da primeira parte dessa questão dependerá do polo de emissão e do polo de recepção escolhidos pelo candidato.
Na segunda parte da questão é possível incluir de forma genérica, como importante: a melhoria da infra-estrutura; a melhoria na balança de pagamentos devido à entrada de divisas no país e o aumento do nível de emprego, destacadamente nos setores de comércio e serviços.

Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - 1998 - 2

Geografia
Prova discursiva realizada no dia 04/07/98

1

"O mangue, vegetação nativa do entorno da baía de Guanabara que filtra as águas dos rios e protege espécies animais, resiste. Ele retém os detritos que descem pelos rios que desembocam na baía, evitando o assoreamento. A vegetação, típica dos trópicos, forma uma barreira natural que protege a vida. Hoje, os manguezais não cobrem mais de 20% da margem da baía; antes da intervenção humana, ocupavam 90%."

Adaptado do JB, Domingo,14/06/98

Apresente dois fatores que expliquem o desaparecimento dos manguezais das margens da baía de Guanabara.

Resposta:

a) Os problemas decorrentes do desenvolvimento industrial: resíduos lançados nos rios que desaguam na baía; aterramentos realizados para a construção de rodovias ou de novas fábricas; os lançamentos de óleo por navios, no interior da baía de Guanabara, etc.

b) O crescimento associado à pobreza: destruição de extensas áreas de mangues para a construção de moradia por populações de baixa renda; derrubada da vegetação original para obtenção de lenha, etc.



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2

"O desenvolvimento do sistema de crédito rural, os subsídios diretos à tecnificação e os incentivos dados à exportação foram os instrumentos básicos para promover a expansão da propriedade capitalista no campo brasileiro. Esse processo articulou a grande empresa agrícola às indústrias química e mecânica.

Considerada em seu conjunto, grande parte da modernização da agricultura brasileira pode ser resumida na introdução e difusão do cultivo da soja. A rápida expansão da área cultivada, abrindo a fronteira ecológica dos cerrados para a agricultura, é explicada pela importância do chamado "complexo soja" - grãos, farelo, óleo -, que representa, hoje, aproximadamente 15% do valor das nossas exportações."

Brasil, uma nova potência regional na economia mundo. EGLER, C.A.G.

(com pequenas adaptações) Bertrand Brasil, RJ, 1993

A partir do texto, apresente duas características da grande empresa agrícola.

Resposta:

a) O grande emprego de equipamentos mecânicos e produtos químicos produz uma forte integração entre o setor agrícola e o industrial. Por isso a expressão "agricultura industrializada".

b)A crescente mecanização liberou mão-de-obra e tornou a atividade agrícola mais especializada. A mão-de-obra é mais qualificada e a relação de trabalho é o assalariamento.

c) O investimento na compra da terra exige lucros elevados. No Centro-Sul a grande empresa agrícola está associada às necessidades das indústrias e dependente dos fluxos financeiros.

d) A grande empresa agrícola se realiza em grandes propriedades. Observa-se uma concentração da propriedade agrícola.

e) A modernização da base técnica indica uma agricultura capitalizada, com elevada produtividade e uma margem de lucro mais segura.




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3

"A partir de 1960, a eliminação de vários ramais antieconômicos fez com que a extensão das ferrovias diminuísse de 38.280 km (1960) para 30.177 km (1991). Enquanto isso, no mesmo período, a extensão das rodovias passou de 476.938 km (1960) para 1.661.849 km (1991)."

Geografia do Brasil. Coelho, M.A.

Ed. Moderna, SP, 1995

O texto mostra que, na economia brasileira, ocorreu uma clara opção pelo rodoviarismo.

a) Apresente dois argumentos que mostrem vantagens da utilização das rodovias.

Resposta:

1º) Traçados mais racionais;

2º) maior rapidez;

3º) maior facilidade de obter frete de retorno devido a sua flexibilidade, etc;

4º) custos menores na implantação das rodovias.


b) Apresente duas razões que expliquem a diminuição das ferrovias.

Resposta:

1ª) As diferentes ferrovias não se integravam em rede devido às bitolas diferentes. A tarnsformação da economia - do modelo agrário-exportadora para o urbano-industrial - trouxe a decadência das ferrovias que, agora, não podiam atender às novas necessidades surgidas com a mudança da economia.

2ª) Traçados obsoletos, baixa velocidade de deslocamento, precariedade da prestação dos serviços devido ao equipamento antiquado, etc.

3ª) Supressão dos ramais anti-econômicos (ineficiência do serviço).

4ª) Política oficial: as ferrovias em segundo plano.

Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - 1998


Geografia
Prova discursiva realizada no dia 12/12/97


1

Crescem as queimadas na Amazônia


A fronteira do fogo se expandiu
no interior do Brasil. Dados de
satélite indicam que, este ano,
a quantidade de queimadas na
região amazônica é a maior da
década. Os focos de incêndio
se concentram em uma faixa
que corta o sul da Amazônia.
Jornal do Brasil, 27 de setembro de 1997.


A manchete acima denuncia uma prática de destruição da cobertura florestal dos trópicos úmidos, que, além de ser um importante banco genético de alimentos, remédios e numerosas outras matérias-primas, cria condições ambientais vitais.


Apresente três dessas condições ambientais.

Resposta:

Entre as condições ambientais criadas pela cobertura florestal podemos apresentar:

1) a estabilização do solo ao protegê-lo do impacto direto das chuvas e do escoamento acelerado das águas superficiais.

2) a regularização climática através da evapotranspiração que mantém constantes os índices pluviométricos e as temperaturas.

3) a manutenção da fertilidade dos solos através do fornecimento constante de material orgânico e da retenção de elementos nutrientes ao impedir a intensificação da lixiviação.

4) a depuração de diferentes formas de poluição.

5) a regulação da rede hidrográfica.

6) o abrigo da fauna.




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2

Observe os mapas que representam dois momentos da organização territorial mundial, ao longo do século XX.



Extraído de HAGNERELLE, M. ( Org.).
"Organisation de L'Espace Mundial".
Terminales. Paris: Ed. Magnard, 1995.


A partir da figura:

a) Explique a diferença entre o momento "before" (antes) e o momento "after" (depois).

Resposta:

a) Antes vemos uma Europa Ocidental fragmentada e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, como o próprio nome sugere, unida. Depois inverte-se a situação: a Europa Ocidental aparece como um espaço único, enquanto a URSS se fragmenta.


b) Apresente dois fatores que promoveram as mudanças entre os dois momentos.

Resposta:

· A crise do socialismo real que levou à desestruturação da URSS; esse processo teve início com as propostas de reforma - a perestroika e a glasnost - feitas por Gorbachev que demonstraram, na prática, a fragilidade do modelo de desenvolvimento adotado. A desestruturação da União Soviética deu origem a numerosos estados reunidos, posteriormente, na Comunidade dos Países Independentes (CEI).

· O avanço da formação da União Européia, inclusive com a adoção de uma moeda única, como ficou acordado pelo tratado de Maastricht.

· A atual organização territorial expressa a transformação do mundo bipolar da Guerra Fria num mundo multipolar, onde se destaca o bloco geo-econômico europeu. O papel da Rússia - o país mais poderoso da ex- URSS - nessa nova ordem mundial, ainda está indefinido devido aos problemas internos pelos quais vem passando.



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3

A partir de 1950, como resultado das condições em que ocorreu o processo de modernização da economia brasileira, acelerou-se o processo de urbanização da população.


A distribuição espacial da população é marcada pela metropolização. As cidades com mais de um milhão de habitantes, que eram duas em 1960, passaram a ser cinco em 1970, dez em 1980 e doze em 1991.



Os dados do recenseamento de 1991 parecem confirmar a tendência que os anos 70 já vinham registrando: o aumento do número de cidades médias, mas principalmente das grandes cidades médias.


Para o caso das metrópoles nacionais - Rio de Janeiro e São Paulo:


a) explique duas razões da aceleração do processo de urbanização.

Resposta:

· Os investimentos de capital feitos pelo Estado, pelas empresas transnacionais ou pelos grandes grupos privados nacionais se deu de forma concentrada no espaço, manifestando a dinâmica de uma economia monopolista que concentrava produção, força de trabalho e mercado no Rio de Janeiro e em São Paulo.

· A diversificação da base industrial, ocorrida a partir de 1950, com destaque para as indústrias de bens de consumo duráveis, criou uma situação de economia de aglomeração onde indústria atrai indústria. Essas por sua vez atraem serviços e força de trabalho.

· A modernização da produção agrícola expulsou grandes contingentes do campo, que procuravam Rio e São Paulo, que ofereciam maiores e melhores oportunidades de emprego.


b) apresente dois fatores responsáveis pela redução do ritmo relativo do crescimento das duas metrópoles.

Resposta:

· As economias de aglomeração que caracterizaram a concentração industrial, até 1980, se esgotaram, fazendo com que os investimentos produtivos migrassem para as médias cidades que ofereciam condições econômicas e sociais mais atraentes.

· Os Planos Nacionais de Desenvolvimento, implementados a partir dos anos 70, promoveram a desconcentração industrial, favorecendo o surgimento de novos polos industriais fora do eixo Rio - São Paulo.

· A redistribuição das atividades econômicas redimensiona os movimentos da população que buscam, agora, as cidades médias de maior importância.

Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - 1997

Geografia

1-) Os gráficos a seguir representam a composição da população brasileira, por faixas de idade, em dois momentos.




O candidato deverá encaminhar sua resposta tendo como idéia central que a forma da pirâmide de idades está associada ao grau de desenvolvimento socio-econômico de um país. Nos países subdesenvolvidos as pirâmides apresentam uma base larga, resultado d as altas taxas de natalidade, e um topo estreito, consequência da baixa espectativa de vida de sua população.
a) Explique dois fatores responsáveis pela redução do percentual do número de jovens (faixas de idade abaixo de 20 anos) entre 1970 e 1991. Entre os fatores responsáveis pela mudança temos:

- a diminuição das taxas de natalidade que resultou das mudanças de comportamento da população devido às transformações estruturais da economia brasileira no período considerado: O Brasil transformou-se num país urbano-industrial e a concentração da popul ação nas cidades alterou os comportamentos reprodutivos - as mulheres ingressam mais cedo no mercado de trabalho; ter muitos filhos na cidade significa acumular despesas; a infra estrutura de tele-comunicações permite a divulgação de novos valores e comportamentos.
- a diminuição das taxas de mortalidade que resultou da prevenção e controle de doenças epidêmicas graças ao uso de drogas que eliminam os seus agentes transmissores e às campanhas de vacinação em massa.


b) O aumento percentual do número de velhos exige alterações tanto na organização da economia quanto na organização social do país. Explique duas modificações que se tornam necessárias devido ao envelhecimento da população. O aumento do número de idosos exige, entre outras, as seguintes mudanças:
- a demanda por pensões e aposentadorias irá aumentar muito. Assim o nº de trabalhadores na ativa diminuirá em relação ao nº de aposentados o que inviabilizará o sistema de previdência que não será capaz de suportar estes gastos.
- o sistema de saúde terá que atender necessidades específicas principalmente nos seviços de atendimento às doenças da terceira idade (doenças crônicas e degenerativas).
- a necessidade de mudança na legislação previdênciária, como, por exemplo, retardar a idade limite para a aposentadoria, aceitar aposentadorias apenas por idade e não mais pelo tempo de serviço, fixação de valores máximos para as pensões e benefícios pag os pela previdência social, etc.
Extra
Na atualidade, o Brasil deixou de ser caracterizado por um país de jovens, pois predomina adultos e idosos no total de sua população. O país precisa resolver problemas urgente para melhorar a qualidade de sua população:
* uma política de geração de emprego de inclusão dos jovens ao mercado de trabalho;
* maiores inestimentos no sistema de saúde visando atendimento da terceira idade;
* maiores investimentos no sistema educacional preparando o trabalhador brasileiro para a nova era tecnológica;
* melhoria da qualidade nas grandes cidades, pois concentra mais de 80% da polução brasileira;
* constantes investimentos em qualificação e requalificação profissional visando diminuir as taxas de desemprego e subemprego, com objetivos claros de combate as desigualdades sociais e violência;
* outros.....

2-) A agricultura brasileira, a partir dos anos 70, é marcada por um aumento significativo da área cultivada e pela maior participação das propriedades com mais de 1000 ha. Essas duas afirmativas estão representadas nos gráficos a seguir.



O candidato deve encaminhar sua resposta tendo como idéia central: a modernização da agricultura está associada ao desenvolvimento urbano-indusrial. Essa relação é percebida no preço da terra. Nas áreas mais próximas aos mercados consumidores a ten dência é a elevação dos preços. Como a terra ficou mais cara é necessário, para torná-la rentável, investir em equipamentos, sementes, fertilizantes, etc.
a) As alterações acima apontadas significam uma maior democratização do uso da terra no Brasil ? Justifique sua resposta.
Não. O gráfico mostra que, na década de 60 os pequenos estabelecimentos aumentaram a sua participação na área agrícola total mas que, na dédada de 70, ocorreu um movimento inverso, de concentração de propriedades, devido à modernização agrícola do Centro- Sul e a ocupação das franjas amazônicas e dos cerrados do Centro-Oeste com grandes estabelecimentos agrícolas e pecuaristas. A valorização da terra impede que grande parte da população rural tenha condições de se tornar proprietária.


b) Explique qual a relação existente entre a modernização da agricultura do Centro-Sul brasileiro e a expansão da área agrícola entre 1960 e 1980.
O aumento do consumo interno e, em maior escala das exportações, acelerou o processo de modernização da agricultura que se iniciou pelo Centro-Sul. Essa área modernizada se expandiu em direção ao Centro-Oeste e às franjas amazônicas, tendo como padrão de ocupação a empresa agrícola. O aumento do espaço agrícola é o resultado do transbordamento da área modernizada do Centro-Sul, relacionado a ampliação da demanda interna/externa.
Extra
A incorporação de novas áreas a agricultura brasileira recebeu o nome de expansão das fronteiras agrícolas. As consequências dessa expansão são:
* aumento da produtividade com a incorporação de novas terras;
* desmatamento no Cerrado e nas bordas da Floresta Amazônica com a expansão agropecuária;
* aumento dos conflitos pela posse da terra entre sem terras, grileiros, indígenas, fazendeiros, latifundiários, posseiros, arrendatários e outros;
* aumento do processo de exploração de trabalhadores rurais através de formas análogas de traalho escravo;
* a queda da qualidades de vida na periferia urbana resultante da combinação - movimentos migratórios, baixos salários, desemprego, modernização das atividades produtivas e falta de qualificação de mão-de-obra.
* poluíção do solo e das águas com o uso de agrotóxicos;
* aumento nas ocorrencias de queimadas como forma de limpeza do terreno com a chegada da estação chuvosa;

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Paradoxo andante, por Eduardo Galeano


O paradoxo andante
Por Eduardo Galeano

Cada dia, ao ler os jornais, assisto a uma aula de história.
Os jornais ensinam-me pelo que dizem e pelo que silenciam.
A história é um paradoxo andante. A contradição move-lhe as pernas. Talvez por isso os seus silêncios digam mais que as suas palavras e muitas vezes as suas palavras revelam, mentindo, a verdade.
Dentro em breve será publicado um livro meu chamado Espejos [Espelhos]. É algo assim como uma história universal, e desculpem o atrevimento. "Posso resistir a tudo, menos à tentação", dizia Oscar Wilde, e confesso que sucumbi à tentação de contar alguns episódios da aventura humana no mundo, do ponto de vista dos que não apareceram na foto.
Pode-se dizer que não se trata de factos muito conhecidos.
Resumo aqui alguns, apenas uns poucos.
* * *
Quando foram desalojados do Paraíso, Adão e Eva mudaram-se para África, não para Paris.
Algum tempo depois, quando os seus filhos já se tinham lançado pelos caminhos do mundo, foi inventada a escrita. No Iraque, não no Texas.
Também a álgebra foi inventada no Iraque. Fundou-a Mohamed al Jwarizmi, há mil e duzentos anos, e as palavras algoritmo e algarismo derivam do seu nome.
Os nomes costumam não coincidir com o que nomeiam. No British Museum, por exemplo, as esculturas do Parténon chamam-se "mármores de Elgin", mas são mármores de Fídias. Elgin era o nome do inglês que as vendeu ao museu.
As três novidades que tornaram possível o Renascimento europeu, a bússola, a pólvora e a imprensa, tinham sido inventadas pelos chineses, que também inventaram quase tudo o que a Europa reinventou.
Os hindus souberam antes de todos que a Terra era redonda e os maias tinham criado o calendário mais exacto de todos os tempos.
* * *
Em 1493, o Vaticano presenteou a América à Espanha e obsequiou a África negra a Portugal, "para que as nações bárbaras sejam reduzidas à fé católica". Naquele tempo, a América tinha quinze vezes mais habitantes que a Espanha e a África negra cem vezes mais que Portugal.
Tal como ordenara o Papa, as nações bárbaras foram reduzidas. E muito.
* * *
Tenochtitlán, o centro do império asteca, era de água. Hernán Cortés demoliu a cidade pedra por pedra e, com os escombros, tapou os canais por onde navegavam duzentas mil canoas. Esta foi a primeira guerra da água na América. Agora, Tenochtitlán chama-se México DF. Por onde corria a água, correm agora os automóveis.
* * *
O monumento mais alto da Argentina foi erguido em homenagem ao general Roca, que no século XIX exterminou os índios da Patagónia.
A avenida mais longa do Uruguai tem o nome do general Rivera, que no século XIX exterminou os últimos índios charruas.
* * *
John Locke, o filósofo da liberdade, era accionista da Royal Africa Company, que comprava e vendia escravos.
No momento em que nascia o século XVIII, o primeiro dos bourbons, Felipe V, inaugurou o seu reinado assinando um contrato com o primo, o rei da França, para que a Compagnie de Guinée vendesse negros na América. Cada monarca ficava com 25 por cento dos lucros.
Nomes de alguns navios negreiros: Voltaire, Rousseau, Jesus, Esperança, Igualdade, Amizade.
Dois dos Pais Fundadores dos Estados Unidos desvaneceram-se na névoa da história oficial. Ninguém se recorda de Robert Carter nem de Gouverner Morris. A amnésia recompensou os seus actos. Carter foi a única personalidade eminente da independência que libertou os seus escravos. Morris, redactor da Constituição, opôs-se à cláusula que estabelecia que um escravo equivalia às três quintas partes de uma pessoa.
"O nascimento de uma nação" , a primeira super-produção de Hollywood, foi estreado em 1915, na Casa Branca. O presidente, Woodrow Wilson, aplaudiu-a de pé. Ele era o autor dos textos do filme, um hino racista de louvor ao Ku Klux Klan.
* * *
Algumas datas:
Desde o ano 1234, e durante os sete séculos seguintes, a Igreja Católica proibiu que as mulheres cantassem nos templos. As suas vozes eram impuras, devido àquele caso da Eva e do pecado original.
No ano de 1783, o rei da Espanha decretou que não eram desonrosos os trabalhos manuais, os chamados "ofícios vis", que até então acarretavam a perda da fidalguia.
Até ao ano de 1986 foi legal o castigo das crianças, nas escolas da Inglaterra, com correias, varas e cacetes.
* * *
Em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade, em 1793 a Revolução Francesa proclamou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. A militante revolucionária Olympia de Gouges propôs então a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã. A guilhotina cortou-lhe a cabeça.
Meio século depois, outro governo revolucionário, durante a Primeira Comuna de Paris, proclamou o sufrágio universal. Ao mesmo tempo, negou o direito de voto às mulheres, por unanimidade menos um: 899 votos contra, um a favor.
* * *
A imperatriz cristã Teodora nunca disse que era uma revolucionária, nem nada que se parecesse. Mas há mil e quinhentos anos o império bizantino foi, graças a ela, o primeiro lugar do mundo onde o aborto e o divórcio foram direitos das mulheres.
* * *
O general Ulisses Grant, vencedor da guerra do Norte industrial contra o Sul esclavagista, foi a seguir presidente dos Estados Unidos.
Em 1875, respondendo às pressões britânicas, respondeu:
- Dentro de duzentos anos, quando tivermos obtido do proteccionismo tudo o que ele nos pode proporcionar, também nós adoptaremos a liberdade de comércio.
Assim sendo, em 2075, o país mais proteccionista do mundo adoptará a liberdade de comércio.
* * *
"Lootie", ("Saquezinho") foi o primeiro cão pequinês a chegar à Europa.
Viajou para Londres em 1860. Os ingleses baptizaram-no assim porque era parte do saque extorquido à China no fim das longas guerras do ópio.
Vitória, a rainha narcotraficante, tinha imposto o ópio a tiros de canhão. A China foi convertida num país de drogados, em nome da liberdade, a liberdade de comércio.
Em nome da liberdade, a liberdade de comércio, o Paraguai foi aniquilado em 1870. Ao final de uma guerra de cinco anos, este país, o único das Américas que não devia um centavo a ninguém, inaugurou a sua dívida externa. Às suas ruínas fumegantes chegou, vindo de Londres, o primeiro empréstimo. Foi destinado a pagar uma enorme indemnização ao Brasil, à Argentina e ao Uruguai. O país assassinado pagou aos países assassinos pelo trabalho que tinham tido a assassiná-lo.
* * *
O Haiti também pagou uma enorme indemnização. Desde que em 1804 conquistou a sua independência, a nova nação arrasada teve de pagar à França uma fortuna, durante um século e meio, para expiar o pecado da sua liberdade.
* * *
As grandes empresas têm direitos humanos nos Estados Unidos. Em 1886, o Supremo Tribunal de Justiça estendeu os direitos humanos às corporações privadas, e assim continua a ser.
Poucos anos depois, em defesa dos direitos humanos das suas empresas, os Estados Unidos invadiram dez países, em diversos mares do mundo.
Então, Mark Twain, dirigente da Liga Anti-imperialista, propôs uma nova bandeira, com caveirinhas em vez de estrelas. E outro escritor, Ambroce Bierce, confirmou:
- A guerra é o caminho escolhido por Deus para nos ensinar geografia.
* * *
Os campos de concentração nasceram em África. Os ingleses iniciaram a experiência, e os alemães desenvolveram-na. Depois disso, Hermann Göring aplicou na Alemanha o modelo que o seu pai tinha testado, em 1904, na Namíbia. Os mestres de Joseph Mengele tinham estudado, no campo de concentração da Namíbia, a anatomia das raças inferiores. As cobaias eram todas negras.
* * *
Em 1936, o Comité Olímpico Internacional não tolerava insolências. Nas Olimpíadas de 1936, organizadas por Hitler, a selecção de futebol do Peru derrotou por 4 a 2 a selecção da Áustria, o país natal do Führer. O Comité Olímpico anulou o jogo.
* * *
Não faltaram amigos a Hitler. A Rockefeller Foundation financiou investigações raciais e racistas da medicina nazi. A Coca-Cola inventou a Fanta, em plena guerra, para o mercado alemão. A IBM tornou possível a identificação e a classificação dos judeus, e essa foi a primeira façanha em grande escala do sistema de cartões perfurados.
* * *
Em 1953, explodiu o protesto operário na Alemanha comunista.
Trabalhadores tomaram as ruas e os tanques soviéticos dedicaram-se a calar-lhes a boca. Então Bertolt Brecht sugeriu: Não seria mais fácil que o governo dissolvesse o povo e elegesse outro?
* * *
Operações de marketing. A opinião pública é o target. As guerras vendem-se mentindo, tal como se vendem os carros.
Em 1964, os Estados Unidos invadiram o Vietname, porque o Vietname tinha atacado dois navios dos Estados Unidos no Golfo de Tonkin. Quando a guerra já tinha trucidado uma multidão de vietnamitas, o ministro da Defesa, Robert McNamara, reconheceu que o ataque de Tonkin não existira.
Quarenta anos depois, a história repetiu-se no Iraque.
* * *
Milhares de anos antes da invasão norte-americana levar a civilização ao Iraque, nesta terra bárbara nasceu o primeiro poema de amor na história mundial. Na língua suméria, escrito no barro, o poema narrou o encontro de uma deusa e um pastor. Inanna, a deusa, amou nessa noite como se fosse mortal. Dumuzi, o pastor, foi imortal enquanto durou essa noite.
* * *
Paradoxos andantes, paradoxos estimulantes:
O Aleijadinho, o homem mais feio do Brasil, criou as mais belas esculturas da era colonial americana.
O livro de viagens de Marco Pólo, aventura da liberdade, foi escrito na prisão em Génova.
"Don Quixote de La Mancha", uma outra aventura da liberdade, nasceu na prisão de Sevilha.
Foram netos de escravos os negros que criaram o jazz, a mais livre das músicas.
Um dos melhores guitarristas de jazz, o cigano Django Reinhardt, só tinha dois dedos na sua mão esquerda.
Não tinha mãos Grimod de Reynière, o grande mestre da cozinha francesa. Com garfos escrevia, cozinhava e comia. Tradução de Luis Leiria

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Episódios da trajetória da imigração japonesa no Brasil

Folha de S.Paulo

Neste ano de 2008 é comemorado o centenário da imigração japonesa no Brasil. Conheça alguns episódios da trajetória dos japoneses no país:

O tratado e a viagem

Em 1907, o governo brasileiro publica a Lei de Imigração e Colonização, permitindo a migração entre os dois países. Em novembro daquele ano, o empresário Ryu Mizuno fecha acordo com o secretário de Agricultura de São Paulo, Carlos Arruda Botelho, para a introdução de 3.000 imigrantes japoneses.

Em 28 de abril de 1908, o navio Kasato Maru parte do porto de Kobe, no Japão, rumo ao Brasil. O navio chega ao porto de Santos (litoral de São Paulo) com 791 imigrantes a bordo, 52 dias depois. Foram percorridas 21 mil milhas. A viagem marca o início da imigração japonesa.


A adaptação

Recém-chegados, os imigrantes foram distribuídos em seis fazendas paulistas para trabalhar principalmente nas lavouras de café. A até então próspera cafeicultura passava por um momento de grave crise, provocada pela concorrência internacional.

Más condições de moradia e alimentação e dificuldade no entendimento com os fazendeiros em função da língua e da diferença de costumes são alguns dos motivos para o êxodo dos japoneses do campo para os centros urbanos

O êxodo

Após seis meses, dos 773 imigrantes enviados às fazendas, 430 já haviam deixado esses locais. Muitos foram trabalhar no cultivo de verduras e batatas em outras cidades, na capital e no interior paulista. Outros tentaram a sorte nas estradas de ferro da Noroeste, formando comunidades no Paraná e Mato Grosso, ou trocaram o Brasil pela Argentina.

A cidade

Após deixar as fazendas de café, uma parte dos imigrantes japoneses optou pela capital. Em 1912, os imigrantes japoneses passaram a residir na rua Conde de Sarzedas. O principal motivo era o preço baixo do aluguel e a localização central, o que permitia fácil locomoção aos locais de trabalho.

Na mesma época, começaram a surgir atividades comerciais, escolas e estabelecimentos voltados à comunidade nipo-brasileira, que formariam o que hoje conhecemos como o bairro da Liberdade.

Segunda Guerra

Com a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), os imigrantes sofrem uma série de restrições. O governo de Getúlio Vargas rompe relações diplomáticas com o Japão, fecha o consulado do país e ordena a suspensão da publicação dos jornais em língua japonesa.

Escolas são fechadas e a comunidade não pode ouvir a transmissão de rádio e nem mesmo falar seu idioma. Em 6 de setembro de 1942, o governo decreta a expulsão dos japoneses das ruas Conde de Sarzedas e Estudantes.

Somente em 1945, com a rendição do Japão, é que a situação se normaliza na comunidade.

Novos imigrantes

Com a derrota na Segunda Guerra, o Japão perdeu o domínio sobre Taiwan, Coréia e Manchúria. Mais de 6 milhões de japoneses tiveram que retornar ao arquipélago, agravando o cenário de miséria e destruição. A política migratória foi retomada em abril de 1952. O Brasil volta a receber nipônicos para atender às indústrias paulistas que necessitavam de mão-de-obra. Após a guerra, mais de 53,5 mil japoneses chegaram ao Brasil.

Dekasseguis

O termo dekassegui designa qualquer pessoa que deixa sua terra natal para trabalhar, temporariamente, em outra região. A crise brasileira e o crescimento da economia japonesa em meados dos anos 80 fazem com que muitos brasileiros nikkeis tentem a sorte no Japão. São os dekasseguis.

De acordo com o Banco Central, no terceiro trimestre de 2007, pessoas físicas enviaram do Japão para o Brasil US$ 159,4 milhões (aproximadamente R$ 279,9 milhões).

A Água



Introdução
Na composição da água entram dois gases: duas partes de hidrogênio (símbolo: H) e uma parte de oxigênio (símbolo: O). Sua fórmula química é H2O.

Três quartos da superfície da Terra são recobertos por água. Trata-se de quase 1,5 bilhão de km3 de água em todo o planeta, contando oceanos, rios, lagos, lençóis subterrâneos e geleiras. Parece inacreditável afirmar que o mundo está prestes a enfrentar uma crise de abastecimento de água. Mas é exatamente isso o que está para acontecer, pois apenas uma pequeníssima parte de toda a água do planeta Terra serve para abastecer a população.

Vinte e nove países já têm problemas com a falta d'água e o quadro tende a piorar. Uma projeção feita pelos cientistas indica que no ano de 2025, dois de três habitantes do planeta serão afetados de alguma forma pela escassez - vão passar sede ou estarão sujeitos a doenças como cólera e amebíase, provocadas pela má qualidade da água. É uma crise sem precedentes na história da humanidade. Em escala mundial, nunca houve problema semelhante.

Tanto que, até 30 anos atrás, quando os primeiros alertas foram feitos por um estudo da Organização das Nações Unidas (ONU), ninguém dava importância para a improvável ameaça.

A água e o corpo humano
Os primeiros seres vivos da Terra surgiram na água há cerca de 3,5 bilhões de anos. Sem ela, acreditam os cientistas, não existiria vida. A água forma a maior parte do volume de uma célula. No ser humano, ela representa cerca de 70% de seu peso. Uma pessoa de 65 kg, por exemplo, tem 45 kg de água em seu corpo. Daí sua importância no funcionamento dos organismos vivos. O transporte dos sais minerais e de outras substâncias, para dentro ou para fora da célula, é feito por soluções aquosas. Mesmo a regulagem da temperatura do corpo depende da água - é pelo suor que "expulsamos" parte do calor interno.

Dia Mundial da Água
A Organização das Nações Unidas instituiu, em 1992, o Dia Mundial da Água - 22 de março. O objetivo da data é refletir, discutir e buscar soluções para a poluição, desperdício e escassez de água no mundo todo. Mas há muitos outros desafios: saber usá-la de forma racional, conhecer os cuidados que devem ser tomados para garantir o consumo de uma água com qualidade e buscar condições para filtrá-la adequadamente, de modo a tirar dela o máximo proveito possível.

Os Direitos da Água
A ONU redigiu um documento intitulado Declaração Universal dos Direitos da Água. Logo abaixo, você vai ler os seus principais tópicos:

A água não é uma doação gratuita da natureza; ela tem um valor econômico: é rara e dispendiosa e pode escassear em qualquer região do mundo.
A utilização da água implica respeito à lei. Sua proteção constitui uma obrigação jurídica para todo homem ou grupo social que a utiliza.
O equilíbrio e o futuro de nosso planeta dependem da preservação da água e de seus ciclos. Estes devem permanecer intactos e funcionando normalmente para garantir a continuidade da vida sobre a Terra. Este equilíbrio depende da preservação dos mares e oceanos, por onde os ciclos começam.
Os recursos naturais de transformação da água em água potável são lentos, frágeis e muito limitados. Assim sendo, a água deve ser manipulada com racionalidade e precaução.
A água não é somente herança de nossos predecessores; ela é, sobretudo, um empréstimo a nossos sucessores. Sua proteção constitui uma necessidade vital, assim como a obrigação moral do homem para com as gerações presentes e futuras.
A água faz parte do patrimônio do planeta. Cada continente, cada povo, cada nação, cada região, cada cidade, cada cidadão é plenamente responsável pela água da Terra.
A água não deve ser desperdiçada, nem poluída, nem envenenada. De maneira geral, sua utilização deve ser feita com consciência para que não se chegue a uma situação de esgotamento ou de deterioração da qualidade das reservas atualmente disponíveis.
A água é a seiva de nosso planeta. Ela é condição essencial de vida de todo vegetal, animal ou ser humano. Dela dependem a atmosfera, o clima, a vegetação e a agricultura.
O planejamento da gestão da água deve levar em conta a solidariedade e o consenso em razão de sua distribuição desigual sobre a Terra.
A gestão da água impõe um equilíbrio entre a sua proteção e as necessidades econômica, sanitária e social.
Ciclo da Água
A água, na natureza, está sempre mudando de estado físico. Sob a ação do calor do Sol, a água da superfície terrestre se evapora e se transforma em vapor d'água. Este vapor sobe para a atmosfera e vai se acumulando. Quando encontra camadas frias, se condensa, formando gotinhas de água que juntam-se a outras gotinhas e formam as nuvens.

As nuvens formadas, quando ficam muito pesadas por causa da quantidade de água nelas contida, voltam à superfície terrestre em forma de chuva. Uma parte da água das chuvas penetra no solo e forma lençóis de água subterrâneos. Outra parte corre para os rios, mares, lagos, oceanos etc. Com o calor do Sol, a água volta a evaporar.



Água potável e água tratada
A água é considerada potável quando pode ser consumida pelos seres humanos. Infelizmente, a maior parte da água dos continentes está contaminada e não pode ser ingerida diretamente. Limpar e tratar a água é um processo bastante caro e complexo, destinado a eliminar da água os agentes de contaminação que possam causar algum risco para a saúde, tornando-a potável. Em alguns países, as águas residuais, das indústrias ou das residências, são tratadas antes de serem escoadas para os rios e mares. Estas águas recebem o nome de depuradas e geralmente não são potáveis. A depuração da água pode ter apenas uma fase de eliminação das substâncias contaminadoras, caso retorne ao rio ou ao mar, ou pode ser seguida de uma fase de tratamento completa, caso se destine ao consumo humano.

Água Contaminada
Um dos principais problemas que surgiram neste século é a crescente contaminação da água, ou seja, este recurso vem sendo poluído de tal maneira que já não se pode consumi-lo em seu estado natural. As pessoas utilizam a água não apenas para beber, mas também para se desfazer de todo tipo de material e sujeira. As águas contaminadas com numerosas substâncias recebem o nome de águas residuais. Se as águas residuais forem para os rios e mares, as substâncias que elas transportam irão se acumulando e aumentam a contaminação geral das águas. Isto traz graves riscos para a sobrevivência dos organismos.

Existem vários elementos contaminadores da água. Alguns dos mais importantes e graves são:

Os contaminadores orgânicos: são biodegradáveis e provêm da agricultura (adubos, restos de seres vivos) e das atividades domésticas (papel, excrementos, sabões). Se acumulados em excesso produzem a eutrofização das águas.
Os contaminadores biológicos: são todos aqueles microrganismos capazes de provocar doenças, tais como a hepatite, o cólera e a gastroenterite. A água é contaminada pelos excrementos dos doentes e o contágio ocorre quando essa água é bebida.
Os contaminadores químicos: os mais perigosos são os resíduos tóxicos, como os pesticidas do tipo DDT (chamados organoclorados), porque eles tendem a se acumular no corpo dos seres vivos. São também perigosos os metais pesados (chumbo, mercúrio) utilizados em certos processos industriais, por se acumularem nos organismos.
Mar
Desde a Antiguidade, os mares são os receptores naturais de grandes quantidades de resíduos. O Mediterrâneo, o mar do Norte, o canal da Mancha e os mares do Japão são alguns dos mais contaminados do mundo. Os agentes contaminadores que trazem maior risco ao ecossistema marinho são:

Os acidentes com barcos petroleiros que provocam grandes desastres ecológicos, poluindo a água do mar.
O petróleo, como conseqüência dos acidentes, descuidos ou ações voluntárias.
Os produtos químicos procedentes do continente, que chegam ao mar por meio da chuva e dos rios ou das águas residuais.
O problema já começou
A falta d'água já afeta o Oriente Médio, China, Índia e o norte da África. Até o ano 2050, as previsões são sombrias. A Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula que 50 países enfrentarão crise no abastecimento de água.

China - O suprimento de água está no limite. A demanda agroindustrial e a população de 1,2 bilhão de habitantes fazem com que milhões de chineses andem quilômetros por dia para conseguir água.

Índia - Com uma população de 1 bilhão de habitantes, o governo indiano enfrenta o dilema da água constatando oesgotamento hídrico de seu principal curso-d'água, o rio Ganges.

Oriente Médio - A região inclui países como Israel, Jordânia, Arábia Saudita e Kuwait. Estudos apontam que dentro de 40 anos só haverá água doce para consumo doméstico. Atividades agrícolas e industriais terão de fazer uso de esgoto tratado.

Norte da África - Nos próximos 30 anos, a quantidade de água disponível por pessoa estará reduzida em 80%. A região abrange países situados no deserto do Saara, como Argélia e Líbia.

Motivo para guerras
A humanidade poderá presenciar no terceiro milênio uma nova modalidade de guerra: a batalha pela água. Um relatório do Banco Mundial de 1995 já anunciava que as guerras do próximo século serão motivadas pela disputa de água, diferentemente dos conflitos do século XX, marcados por questões políticas ou pela disputa do petróleo. Uma prévia do que pode ocorrer num futuro próximo aconteceu em 1967, quando o controle da água desencadeou uma guerra no Oriente Médio.

Naquele ano, os árabes fizeram obras para desviar o curso do rio Jordão e de seus afluentes. Ele é considerado o principal rio da região, nasce ao sul do Líbano e banha Israel e Jordânia. Com a nova rota, Israel perderia boa parte de sua capacidade hídrica. O governo israelense ordenou o bombardeamento da obra, acirrando ainda mais a rivalidade com os países vizinhos.

Riqueza brasileira
Quando o assunto é recursos hídricos, o Brasil é um país privilegiado. O território brasileiro detém 20% de toda a água doce superficial da Terra. A maior parte desse volume, cerca de 80%, localiza-se na Amazônia.

É naquela região desabitada que está a maior bacia fluvial do mundo, a Amazônica, com 6 milhões de quilômetros quadrados, abrangendo, além do Brasil, Bolívia, Peru, Equador e Colômbia. A segunda maior bacia hidrográfica do mundo, a Platina, também está parcialmente em território brasileiro.

Mas a nossa riqueza hídrica não se restringe às áreas superficiais: o aqüífero Botucatu/Guarani, um dos maiores do mundo, cobre uma área subterrânea de quase 1,2 milhão de quilômetros quadrados, 70% dos quais localiza-se em território brasileiro. O restante do potencial hídrico distribui-se de forma desigual pelo país. Apesar de tanta riqueza, as maiores concentrações urbanas encontram-se distantes dos grandes rios, como o São Francisco, o Paraná e o Amazonas.

Assim, dispor de grandes reservas hídricas não garante o abastecimento de água para toda a população.

Seca no Nordeste
Este é um problema que tem solução. Desviar parte da água do rio São Francisco para a região semi-árida é uma idéia antiga. Na prática, seria construída uma rede de canais para abastecer açudes dos Estados atingidos pela falta d'água, como Pernambuco, Ceará e Paraíba. Especialistas calculam que um projeto desse seria capaz de levar água a 200 municípios e 6,8 milhões de brasileiros.

Como economizar água
Não demore muito tempo no chuveiro. Em média, um banho consome 70 litros de água em apenas 5 minutos, ou seja, 25.550 litros por ano.

Preste atenção ao consumo mensal da conta de água. Você poderá descobrir vazamentos que significam enorme desperdício de água. Faça um teste; feche todas as torneiras e os registros de casa e verifique se o hidrômetro - aparelho que mede o consumo de água - sofre alguma alteração. Se alterar, o vazamento está comprovado.

Você pode economizar 16.425 litros de água por ano ao escovar os dentes, basta molhar a escova e depois fechar a torneira. Volte a abri-la somente para enxaguar a boca e a escova.

Prefira lavar o carro com balde em lugar da mangueira. O esguicho aberto gasta aproximadamente 600 litros de água. Se você usar balde, o consumo cairá para 60 litros.

Cuidado: Nada de "varrer" quintais e calçadas com esguicho; use a vassoura!

Curiosidades
Cada brasileiro gasta 300 litros de água por dia. Apenas metade disso seria suficiente para suprir todas as necessidades. Além disso, grande parte dos reservatórios está contaminada, principalmente em regiões mais populosas.

Na maioria dos países, é no campo que ocorre o maior consumo de água: a agricultura intensiva consome mais de quinhentos litros por pessoa ao dia. De 1900 até os nossos dias, a superfície de cultivo irrigado triplicou. Os sistemas tradicionais de irrigação aproveitam apenas 40% da água que utilizam. O resto evapora ou se perde.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Como alimentar o mundo?



por Evaristo Eduardo de Miranda, agrônomo, com mestrado e doutorado em Ecologia na França, e pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite
O consumo de alimentos cresce no Brasil e no mundo. A produção também, em especial a nossa. Mas o preço não pára de subir


Sem alimentos, não há existência humana. Em 2008, a maioria dos 6,6 bilhões de habitantes do planeta vive nas cidades e depende do campo para a sua alimentação. A sustentabilidade da vida humana no planeta e nas cidades dependerá cada vez mais de um número menor de agricultores. Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o desafio dos próximos anos é o de produzir alimento suficiente para mais de 2 bilhões de pessoas e, fazê-lo de forma sustentável, preservando e melhorando a base de recursos naturais do planeta. Em face desse desafio de sustentabilidade existem boas e más notícias.


Os agricultores parecem preparados para o desafio. Nas últimas quatro décadas, a produção global de alimentos cresceu cerca de 170%. A população mundial segue crescendo, mas sua renda cresce mais ainda. As economias dos países em desenvolvimento estão aquecidas. Há uma década, a Índia cresce a 9% ao ano, a China a mais de 10%. Países produtores de petróleo como Nigéria e Angola (cujo PIB cresce a mais de 15% ao ano) se beneficiam de uma alta de preços do barril de 30 dólares para quase 130 dólares. Poucos se dão conta de que, na média, o PIB da África é o que mais cresce no mundo: 5% ao ano, seguido pelo da Ásia 4,5% e da América Latina 3,9%. Se antes, o mundo tinha fome, agora ele exige alimentos baratos.


O aumento da demanda por alimentos e de seus preços deve-se ao crescimento econômico global e ao incremento da renda das famílias. A ocidentalização do hábito alimentar de asiáticos e africanos prossegue de forma acelerada. As famílias buscam as proteínas animais: bovinos, frangos, suínos etc. Isso estimula a produção de carne e de vegetais, como soja, destinados à alimentação de gado, frangos e suínos. As exportações de soja do Brasil cresceram 22%, em 2007, e a de carnes 30%! O saldo do agronegócio na balança comercial atingiu um recorde no ano passado: 50 bilhões de dólares.


Contribui também com esse aquecimento da demanda por alimentos, o uso de matérias-primas agrícolas (milho e oleaginosas) para a produção de biocombustíveis. O aumento no uso de milho para a produção de etanol nos Estados Unidos, principal produtor agrícola mundial, passou de 54,6 milhões de toneladas na safra 2006/2007, para 86,4 milhões de toneladas na atual.

Há três grandes caminhos para atender à demanda por alimentos, nem todos com a mesma sustentabilidade: ampliar a área cultivada, aumentar a produtividade da agricultura e implementar novas opões de produção.



A disponibilidade de terras

O crescimento horizontal da agricultura pela ampliação da área plantada aumenta a produção, mas tem possibilidades muito limitadas na Ásia, na Europa, na América do Norte e parte da África. Quase todas as terras aráveis já foram ocupadas. A sobreexploração dessas áreas, sem tecnologias adequadas, pode ampliar ainda mais os problemas de degradação de solos e águas. O Brasil e a América Latina dispõem do maior estoque de terras aráveis do mundo: quase 600 milhões de hectares. Isso representa 30% de toda a terra arável do planeta. Incorporar novas áreas à produção agrícola é sinônimo de desmatamento e é uma forma pouco sustentável de atender à demanda crescente por alimentos. Infelizmente, ela é muito mais rentável e produtiva do que a utilização de pastagens ou áreas degradadas. Os solos sob floresta são ricos em matéria orgânica, a terra é barata e a simples venda da madeira derrubada financia boa parte do investimento. Instalar a agricultura em terras ou pastagens degradadas implica muitos investimentos para torná-las produtivas: subsolagem, análises químicas, trabalho do solo, calagem, adubação etc. Sem um incentivo econômico significativo e eficaz por parte dos governos, os agricultores atenderão à demanda por alimentos, ampliando suas áreas de lavouras e pastagens, expandindo a fronteira agrícola mundo afora e desmatando florestas e cerrados.



O crescimento vertical

A opção mais sustentável é ampliar a produtividade agrícola pela via tecnológica. Produzir mais no mesmo local, sem desmatar ou ocupar novas áreas. É o processo que predomina atualmente na agricultura brasileira. A produção de grãos cresceu 140% nos últimos 16 anos, com base na eficiência tecnológica e de gestão, graças aos avanços nas pesquisas. Em contrapartida, no mesmo período, a ocupação da área de plantio cresceu apenas 23% e essa área foi mantida nos últimos quatro anos. A utilização de insumos e tecnologias como mecanização, irrigação, fertilizantes, sementes e defensivos contribuiu para um novo recorde na safra de grãos do Brasil: 142 milhões de toneladas, quase 10% maior do que a do ano passado, de 133 milhões de toneladas. Ela, por sua vez, já fora 13,7% maior que a safra de 117 milhões de toneladas registrada em 2006. A safra de 2007 alimenta quase quatro vezes a população do Brasil.


Alguns fatores podem limitar a sustentabilidade dessa opção: a falta de investimentos em pesquisa, ciência e tecnologia (o que não está acontecendo), uma alta exagerada no preço dos insumos agrícolas (o que vem ocorrendo associada à alta do petróleo) ou impactos ambientais gerados pela mudança no uso de terras (por exemplo, a expansão das áreas ocupadas pela cana-de-açúcar, deslocamento espacial das culturas para situações ecologicamente marginais ou ainda o surgimento de novas pragas e doenças). Face ao esgotamento dos oceanos, dos estoques pesqueiros e dos impactos ambientais da aquicultura, o desafio da agricultura sustentável é incontornável: nos próximos 25 anos, 90% da produção de novos alimentos sairá das terras agrícolas já existentes.



Novas opções

Pelo menos duas novas opções emergem com força, mesmo que de forma excludente, para ampliar a sustentabilidade da agricultura: a produção orgânica e os organismos geneticamente modificados (OGMs).


Em países ricos e desenvolvidos, a busca por uma agricultura menos industrializada e limpa, reduzindo riscos para os consumidores após episódios como os da vaca louca e de outras enfermidades, fortaleceu a agricultura orgânica certificada. Cerca de 25% da área cultivada com orgânicos está na Europa. Essa área passou de 3 milhões de hectares, em 2000, para 7 milhões de hectares em 2007. Mas ela aumenta menos que a demanda e faz do Continente Europeu o maior importador desses produtos. Nos EUA, o mercado de produtos orgânicos deve passar de 40 bilhões de dólares para 70 bilhões de dólares até 2012. A agricultura orgânica passou de 7,5 milhões de hectares no mundo, em 2000, para 30,5 milhões de hectares em 2007.


Os OGMs ainda provocam controvérsia junto aos consumidos (riscos de reações alérgicas, falta de normas de etiquetagem etc.), mas são outra opção. São impressionantes os números publicados por Clive James, no estudo Situação Global das Lavouras OGMs Comercializadas: 2007. Neste ano, 23 países cultivaram 114,3 milhões de hectares com OGMs. Desses, 12 são emergentes, com 49,4 milhões de hectares (Argentina, Brasil, Índia e China, entre eles) e 11 industrializados, com 64,9 milhões de hectares. Os EUA são o maior produtor de OGMs: 57,7 milhões de hectares. Cerca de 63% do milho e 78% do algodão dos EUA são geneticamente modificados. Mais de 90% dos 12 milhões de agricultores que plantaram OGMs em 2007 são pequenos e com poucos recursos, a maioria na Índia e China. Isso reduziu seus custos e contribui para diminuir o impacto ambiental da agricultura desde 1996. Com o menor uso de combustíveis fósseis no caso de OGMs, até 2016 o acúmulo de áreas plantadas no Brasil resultará numa redução de 918,7 milhões de toneladas de CO2, o equivalente ao plantio de 6,8 milhões de árvores. A redução de princípios ativos de agrotóxicos, menos utilizados no caso de OGMs, será de 35,6 mil toneladas. Animais geneticamente modificados serão capazes de apresentar crescimento rápido (salmão), de produzir medicamentos (ovelhas), um esterco mais limpo (porco) ou um leite de melhor qualidade (cabras).

Produtos da agricultura orgânica e de OGMs obtêm maior resistência a pragas e a doenças, exigem menos agrotóxicos e produzem alimentos mais nutritivos. Caberá ao consumidor, ao cidadão informado e ao estudante bem formado, ciente de sua responsabilidade ambiental, indicar suas preferências e pagar o preço necessário para atender suas exigências e hábitos de consumo.

Sementes do poder


por Christina Palmeira, de Paris

Jornalista francesa narra, em livro e documentário, os desastres ambientais e sociais causados pela Monsanto. E sua influência sobre o governo dos Estados Unidos.

A Monsanto produz 90% dos transgênicos plantados no mundo e é líder no mercado de sementes. Tal hegemonia coloca a multinacional norte-americana no centro do debate sobre os benefícios e os riscos do uso de grãos geneticamente modificados. Para os defensores da manipulação dos genes, a Monsanto representa o futuro promissor da “revolução verde”. Para ecologistas e movimentos sociais ligados a pequenos agricultores, a empresa é a encarnação do mal.
Esse último grupo acaba de ganhar um reforço a seus argumentos. Resultados de um trabalho de três anos de investigação da jornalista francesa Marie-Monique Robin, o livro Le Monde Selon Monsanto (O Mundo Segundo a Monsanto) e o documentário homônimo são um libelo contra os produtos e o lobby da multinacional.

O trabalho cataloga ações da Monsanto para divulgar estudos científicos duvidosos de apoio às suas pesquisas e produtos, a exemplo do que fez por muitos anos a indústria do tabaco, relaciona a expansão dos grãos da empresa com suicídios de agricultores na Índia, rememora casos de contaminação pelo produto químico PCB e detalha as relações políticas da companhia que permitiram a liberação do plantio de transgênicos nos Estados Unidos. Em 2007, havia mais de 100 milhões de hectares plantados com sementes geneticamente modificadas, metade nos EUA e o restante em países emergentes como a Argentina, a China e o Brasil.


Marie-Monique Robin, renomada jornalista investigativa com 25 anos de experiência, traz depoimentos inéditos de cientistas, políticos e advogados. A obra esmiúça as relações políticas da multinacional com o governo democrata de Bill Clinton (1993-2001), e com o gabinete do ex-premier britânico Tony Blair. Entre as fontes estão ex-integrantes da Food and Drug Administration (FDA), a agência responsável pela liberação de alimentos e medicamentos nos EUA.

A repórter, filha de agricultores, viajou à Grã-Bretanha, Índia, México, Paraguai, Vietnã, Noruega e Itália para fazer as entrevistas. Antes, fez um profundo levantamento na internet e baseou sua investigação em documentos on-line para evitar possíveis processos movidos pela Monsanto. A empresa não deu entrevista à jornalista, mas, há poucas semanas, durante uma apresentação em Paris de outro documentário de Robin, uma funcionária da multinacional apareceu e avisou que a companhia seguia seus passos. Detalhe: a sede da Monsanto fica em Lyon, distante 465 quilômetros da capital francesa.

Procurada por CartaCapital, a Monsanto recusou-se a comentar as acusações no livro. Uma assessora sugeriu uma visita ao site da Associação Francesa de Informação Científica, onde há artigos de cientistas com críticas ao livro de Robin. A revista, devidamente autorizada pelo autor, reproduz na página 11 trechos do artigo de um desses cientistas, Marcel Kuntz, diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica de Grenoble.

Não é de hoje, mostra o livro, que herbicidas da Monsanto causam problemas ambientais e sociais. Robin narra a história de um processo movido por moradores da pequena Anniston, no Sul dos EUA, contra a multinacional, dona de uma fábrica de PCB fechada em 1971. Conhecida no Brasil como Ascarel, a substância tóxica era usada na fabricação de transformadores e entrava na composição da tinta usada na pintura dos cascos das embarcações. Aqui foi proibida em 1981.

A Monsanto, relata a repórter, sabia dos efeitos perversos do produto desde 1937. Mas manteve a fábrica em funcionamento por mais 34 anos. Em 2002, após sete anos de briga, os moradores de Anniston ganharam uma indenização de 700 milhões de dólares. Na cidade, com menos de 20 mil habitantes, foram registrados 450 casos de crianças com uma doença motora cerebral, além de dezenas de mortes provocadas pela contaminação com o PCB. Há 42 anos, a própria Monsanto realizou um estudo com a água de Anniston: os peixes morreram em três minutos cuspindo sangue.


Robin alerta que os tentáculos da Monsanto atingem até a Casa Branca. A influência remonta aos tempos da Segunda Guerra Mundial e ao período da chamada Guerra Fria. Donald Rumsfeld, ex-secretário de Defesa do governo Bush júnior, dirigiu a divisão farmacêutica da companhia. A multinacional manteve ainda uma parceria com os militares. Em 1942, o diretor Charles Thomas e a empresa ingressaram no Projeto Manhattan, que resultou na produção da bomba atômica. O executivo encerrou a carreira na presidência da Monsanto (1951-1960).

Na Guerra do Vietnã (1959-1975), a empresa fornecia o agente laranja, cujos efeitos duram até hoje. A jornalista visitou o Museu dos Horrores da Dioxina, em Ho Chi Minh (antiga Saigon), onde se podem ver os efeitos do produto sobre fetos e recém-nascidos.
Alan Gibson, vice-presidente da associação dos veteranos norte-americanos da Guerra do Vietnã, falou à autora dos efeitos do agente laranja: “Um dia, estava lavando os pés e um pedaço de osso ficou na minha mão”.

Boa parte do trabalho de Robin é dedicada a narrar as pressões sofridas por pesquisadores e funcionários de órgãos públicos que decidiram denunciar os efeitos dos produtos da empresa. É o exemplo de Cate Jenkis, química da EPA, a agência ambiental dos Estados Unidos.


Em 1990, Jenkis fez um relatório sobre os efeitos da dioxina, o que lhe valeu a transferência para um posto burocrático. Graças à denúncia da pesquisadora, a lei americana mudou e passou a conceder auxílio a ex-combatentes do Vietnã. Após longa batalha judicial, Jenkis foi reintegrada ao antigo posto.

Há também o relato de Richard Burroughs, funcionário da FDA encarregado de avaliar o hormônio de crescimento bovino da Monsanto. Burroughs diz ter comprovado os efeitos nocivos do hormônio para a saúde de homens e animais e constatou que, com o gado debilitado, os pecuaristas usavam altas doses de antibióticos. Resultado: o leite acabava contaminado. Burroughs, conta a jornalista, foi demitido. Mas um estudo recente revela que a taxa de câncer no seio entre as norte-americanas com mais de 50 anos cresceu 55,3% entre 1994, ano do lançamento do hormônio nos Estados Unidos, e 2002.


Segundo Robin, a liberação das sementes transgênicas nos Estados Unidos foi resultado do forte lobby da empresa na Casa Branca, principalmente durante o governo Clinton. Uma das “coincidências”: quem elaborou, na FDA, a regulamentação dos grãos geneticamente modificados foi Michael Taylor, que nos anos 90 fora um dos vice-presidentes da Monsanto.


A repórter se detém sobre o “princípio da equivalência em substância”, conceito fundamental para regulamentação dos transgênicos em todo o mundo. A fórmula estabelece que os componentes dos alimentos de uma planta transgênica serão os mesmos ou similares aos encontrados nos alimentos “convencionais”.

Robin encontrou-se com Dan Glickman, que foi secretário de Estado da Agricultura do governo Clinton, responsável pela autorização dos transgênicos nos EUA. Glickman confessou, em 2006, ter mudado de posição e admitiu ter sido pressionado após sugerir que as companhias realizassem testes suplementares sobre os transgênicos. As críticas vieram dos colegas da área de comércio exterior.

Houve pressões, segundo o livro, também no Reino Unido. O cientista Arpad Pusztai, funcionário do Instituto Rowett, um dos mais renomados da Grã-Bretanha, teria sido punido após divulgar resultados controversos sobre alimentos transgênicos. Em 1998, Pusztai deu uma entrevista à rede de tevê BBC. Perguntado se comeria batatas transgênicas, disparou: “Não. Como um cientista que trabalha ativamente neste setor, considero que não é justo tomar os cidadãos britânicos por cobaias”. Após a entrevista, o contrato de Pusztai foi suspenso, sua equipe dissolvida, os documentos e computadores confiscados. Pusztai também foi proibido de falar com a imprensa. No artigo reproduzido à página 11, Kuntz afirma que o cientista perdeu o emprego por não apresentar resultados consistentes que embasassem as declarações à imprensa.

Pusztai afirma que só compreendeu a situação, em 1999, ao saber que assessores do governo britânico haviam ligado para a direção do instituto no dia da sua demissão. Em 2003, Robert Orsko, ex-integrante do Instituto Rowett, teria confirmado que a “Monsanto tinha ligado para Bill Clinton, que, em seguida, ligou para Tony Blair”. E assim o cientista perdeu o emprego.

Nas viagens por países emergentes, Robin colheu histórias de falta de controle no plantio de transgênicos e prejuízos a pequenos agricultores. No México, na Argentina e no Brasil, plantações de soja e milho convencionais acabaram contaminadas por transgênicos, o que forçou, como no caso brasileiro, a liberação do uso das sementes da Monsanto (que fatura com os royalties).


De acordo com a jornalista, o uso da soja Roundup Ready (RR), muito utilizada no Brasil e na Argentina, acrescenta outro ganho à Monsanto, ao provocar o aumento do uso do herbicida Roundup. Na era pré-RR, a Argentina consumia 1 milhão de litros de glifosato, volume que saltou para 150 milhões em 2005. De lá para cá, a empresa suprimiu os descontos na comercialização do pesticida, aumentando seus lucros.


Um dos ícones do drama social dos transgênicos, diz o livro, é a Índia. Entre junho de 2005 (data da introdução do algodão transgênico Bt no estado indiano de Maharashtra) e dezembro de 2006, 1.280 agricultores se mataram. Um suicídio a cada oito horas. A maioria por não conseguir bancar os custos com o plantio de grãos geneticamente modificados.

Robin relata a tragédia desses agricultores, que, durante séculos, semearam seus campos e agora se vêm às voltas com a compra de sementes, adubos e pesticidas, num círculo vicioso que termina em muitos casos na ingestão de um frasco de Roundup.
A jornalista descreve ainda o que diz ser o poder da Monsanto sobre a mídia internacional. Cita, entre outros, os casos dos jornalistas norte-americanos Jane Akre e Steve Wilson, duramente sancionados por terem realizado, em 1996, um documentário sobre o hormônio do crescimento. No país da democracia, a dupla se transformou em símbolo da censura.


Os cientistas, conta o livro, são frequentemente “cooptados” pela gigante norte-americana. Entre os “vendidos” está o renomado cancerologista Richard Doll, reconhecido por trabalhos que auxiliaram no combate à indústria do tabaco. Doll faleceu em 2005. No ano seguinte, o jornal britânico The Guardian revelou que durante 20 anos o pesquisador trabalhou para a Monsanto. Sua tarefa, com remuneração diária de 1,5 mil dólares, era a de redigir artigos provando que o meio ambiente tem uma função limitada na progressão das doenças. Foi um intenso arquiteto do “mundo mágico” da Monsanto.

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