terça-feira, 21 de junho de 2022

Ócio, lazer e tempo livre na sociedade do consumo e do trabalho



Cássio Adriano Braz AquinoI; José Clerton de Oliveira MartinsII

IDoutor em Psicologia Social pela Universidad Complutense de Madrid. Professor Adjunto da Universidade Federal do Ceará. End.: Rua Artur Façanha 75/502, Mucuripe. Fortaleza, CE. CEP: 60175-130. E-mail: braz.aquino@uol.com.br
IIDoutor em Psicologia pela Universidad de Barcelona. Pós-doutor em Estudios de Ócio pela Universidad de Deusto. Professor Titular da Universidade de Fortaleza. End.: Av. Santos Dumont, 6915, apt. 502. Fortaleza, CE. CEP: 60190-800. E-mail: clerton@unifor.br





RESUMO

O período Pós-Revolução Industrial foi marcado por uma profunda referência ao trabalho, tanto na estruturação social como na produção do sujeito moderno. Com a crise da sociedade centrada no trabalho, alguns valores e categorias são resgatados e demandam uma nova caracterização. O domínio do trabalho na estruturação social passa a ser questionado e surgem idéias que colocam o tempo livre, o ócio e o lazer no papel de elementos estruturantes do novo contexto social. Antes de posicionar-se sobre essa passagem de domínio, o texto discute e reflete sobre tais categorias, abrindo uma possibilidade clara de sua territorialização no campo das ciências sociais, e, de forma especial, na sua contribuição a uma nova forma de produção subjetiva.

Palavras-chave: ócio, lazer, tempo livre, trabalho, sociedade.

ABSTRACT

The Post-Industrial Revolution period was labeled by a profound reference to work, in social structure as well as on the construction of modern individuals. With the crisis of the work centered society, some values and categories are rescued and demand a new characterization. The domain of work on the construction of social structure is then questioned and new ideas are born that bring free time, leisure and relaxation as roles on the structural elements of a new social context. Before positioning ourselves about this domain passage, this study discuss and reflects upon such categories, opening a clear possibility of its territorialization on the field of social sciences, and in a special way, on its contribution to a new form of subjective production.

Keywords: laze, leisure, free time, work, society.


Introdução

A importância de pensar a articulação entre os conceitos de ócio, tempo livre e lazer no contexto atual se deve, principalmente, ao fato de o trabalho - que ocupou o lugar de atividade central na inserção social e constituir fator fundamental da produção subjetiva ao longo da sociedade moderna - ser questionado como atividade dominante. Essa referência de dominância está caracterizada, principalmente, por ser a atividade laboral o elemento que demarca a estruturação dos quadros temporais das sociedades Pós-Revolução Industrial, tal como afirma a sociologia do tempo1 e, de forma destacada, os teóricos contemporâneos dos tempos sociais (Roger Sue, Gilles Pronovost, Giovanni Gasparini, Ramos Torre, dentre outros).

A partir das teorias dos tempos sociais, surge, então, uma pergunta que parece crucial para reiterarmos a importância de caracterizar esses três conceitos, que dão título ao artigo, a saber, ócio, tempo livre e lazer. Considerando que, ao longo da sociedade industrial, foi o trabalho a atividade que ocupou a centralidade na organização da temporalidade social, seria o ócio a atividade que ocuparia na sociedade pós-industrial o lugar que foi ocupado pelo trabalho na sociedade industrial? A atividade social e o tempo que a demarca precisam ser postos em discussão para que tenhamos elementos para a formulação de uma análise crítica do contexto social em que hoje vivemos.

O fator temporal passa por metamorfoses significativas, iniciadas no momento em que o homem resolve medir o tempo cotidiano e quantificar o tempo social na sociedade industrial, chegando à comercialização do próprio tempo, que se torna uma mercadoria e passa a ter valor econômico.

Neste espaço, surge a pressa como um fenômeno típico da atualidade e como mola mestra para os avanços tecnológicos que fabricam equipamentos para se poder ganhar mais tempo.

Os telefones celulares, o fax, o pager, a internet, entre outros, são mecanismos que marcam essa busca incessante por mais tempo, porém, paradoxalmente, o homem termina por preencher esse tempo disponível com mais atividades e afazeres.

No caos entre necessidades econômicas e existenciais, o homem contemporâneo se vê dividido entre as obrigações impostas por suas atividades laborais e o desejo de libertar-se dessas tarefas e, assim, poder usufruir um tempo para si.

No entanto todo processo de educação/formação/orientação da sociedade moderna gerou os valores da atual sociedade do consumo, não contempla a orientação para ser/existir num tempo de "nada fazer"2.

A maior ou a menor variação desse tempo na vida dos indivíduos organiza-se e estrutura-se de acordo com padrões assimilados sobre como se deve dispor o tempo para as diversas atividades, além de como o sujeito valora o sentido do tempo cotidiano para si. Desta maneira, as diferentes formas de sentir, pensar, agir e estabelecer o tempo seguem padrões culturais que se refletem na ação do sujeito.

Munné (1980) apresenta uma tipologia do tempo social, que se revela através de quatro tipos fundamentais: o primeiro é o tempo psicobiológico, que é ocupado e conduzido pelas necessidades psíquicas e biológicas elementares, o que engloba o tempo de sono, nutrição, atividade sexual etc. Esse tempo se condiciona endogenamente, é um tempo individual.

A segunda tipologia seria o tempo socioeconômico, que diz respeito ao tempo empregado para suprir as necessidades econômicas fundamentais, constituídas pelas atividades laborais, atividades domésticas, pelos estudos, enfim, pelas demandas pessoais e coletivas, sendo que esse tipo de tempo está quase que inteiramente heterocondicionado, somente sendo autocondicionado nas circunstâncias que visam à realização pessoal.

A terceira tipologia seria o tempo sociocultural, sendo aquele dedicado às ações de demandas referentes à sociabilidade dos indivíduos que se refere aos compromissos resultantes dos sistemas de valores e pautas estabelecidos pela sociedade e objeto maior de sanção social. Esta categoria de tempo tanto pode ser heterocondicionado como autocondicionado, podendo existir um equilíbrio entre os dois pólos.

Finalmente, o autor apresenta a quarta categoria, o tempo livre, que se refere às ações humanas, realizadas sem que ocorra uma necessidade externa. Neste caso, o sujeito atua com percepção de fazer uso desse tempo com total liberdade e de maneira criativa, dependendo de sua consciência de valor sobre seu tempo.

O tempo livre deveria ser um tempo máximo de autocondicionamento e mínimo de heterocondicionamento, isto é, ser constituído por aquele aspecto do tempo social, em que o homem conduz com menor ou maior grau de nitidez a sua vida pessoal e social.

No entanto, neste tempo que poderia ser um tempo voltado para o ócio mais verdadeiro, o consumismo termina por deteriorá-lo, mercantilizá-lo, coisificando-o e empobrecendo-o de significados.

Encontra-se na literatura que é preciso educar os sujeitos não só para perceber os meandros do trabalho, mas também para os mais diversos e possíveis ócios, significa ensinar como se evita a alienação que pode ser provocada pelo tempo vago, tão perigoso quanto a alienação derivada do trabalho (De Masi, 2000, p. 326).

Segundo Muller (2003), a educação costuma sonegar o direito ao ócio; observa-se que as escolas tendem a preparar a criança para a importância da profissão e do trabalho no futuro, isto é, preparam crianças e jovens para a vida adulta moldada pelo trabalho, porém não há orientação nesse processo para o uso adequado do tempo de ócio, um fator de vital importância para a edificação de um indivíduo equilibrado. Isso porque a escola, dentro de uma concepção moderna, está profundamente demarcada pelo paradigma da produção industrial, reiterando que atividade social dominante e determinante da configuração social é o trabalho.

O aspecto educativo também se volta para a qualificação do trabalhador, mais dirigido para a questão de execução de tarefas, limitando seu potencial criativo, submetendo-o ao limite de suas habilidades, àquela ou a esta função.

Em Elogio ao Ócio, Russell critica de forma categórica a concepção estritamente utilitária da educação, afirmando que esta ignora as necessidades reais dos sujeitos e que os componentes culturais na formação do conhecimento se ocupam em treinar os indivíduos com meros propósitos de qualificação profissional, esquecendo, desta maneira, os pensamentos e desejos pessoais dos indivíduos, levando-os a ocuparem boa parte de seu tempo livre com temas amplos, impessoais e sem sentido (2002: 37).



Sobre ócio, tempo livre e lazer.

A compreensão do conceito de ócio surge na contemporaneidade, um pouco obscura, haja vista a amplitude que o termo possibilita pelos sentidos diversos que toma, de acordo com as realidades de abordagens e interesses intrínsecos.

Em nossas investigações, encontram-se três termos que, cotidianamente, aparecem como sinônimos, inclusive, muitas vezes, especialistas os utilizam como equivalentes. No entanto, sabe-se que tais termos possuem diferentes sentidos e, para seguir em frente, melhor esclarecer. Os termos são: ócio, tempo-livre e lazer.

Como se pode observar, no Brasil, no sentido corriqueiro, as palavras ócio e lazer aparecem como semelhantes. O termo tempo livre também está carregado dos mesmos sentidos, embora fique evidente, já nas primeiras aproximações, que os fenômenos lazer e ócio necessitam de um tempo liberado ou livre e resguardam relação com liberdade.

Estudos atuais evidenciam que ambos são muito diferentes pelo contexto de liberdade que invocam. No caso, um se apresenta na dinâmica social brasileira carregado dos valores do capital, relacionando-se diretamente com tempo de reposição de energia para o trabalho. O outro envolve um sentido de utopia por orientar a uma liberdade supostamente, longe de ser alcançada, haja vista a própria dinâmica socioeconômica preponderante.

Em Munnè (1980) e Gómez (1992), encontra-se que existe uma relação forte da palavra ócio em espanhol com a palavra grega scholé, carregada do sentido de um lugar para o livre desenvolvimento individual. Remonta ao processo educativo daquela civilização. Gómez (1992) sugere que nesta palavra grega está a origem etimológica e sentido primeiro da palavra "escola" em vários idiomas modernos, como: school no inglês, école no francês, escuela no espanhol e "escola" no português.

O termo lazer é atualmente utilizado de forma crescente, podendo ser empregado em sua concepção real ou ser associado a palavras como entretenimento, turismo, divertimento e recreação, porém o sentido do lazer é tão polêmico quanto a origem e o sentido do termo ócio.

Compreende-se que a palavra lazer, no Brasil, resguarda seu sentido relacionado à sociologia do lazer de Dumazedier (1972; 1979), que levou à vulgarização da teoria dos três "D's".3

Por outro lado, a palavra ócio resguarda valores negativos apregoados pela influência religiosa puritana, pela própria história da industrialização e modernização brasileira, ao longo da qual se pode observar, claramente, o surgimento de uma nova ordem entre empresários e empregados, operários e patrões e a necessidade de controle social no tempo fora do trabalho, para garantir a ordem numa sociedade elitista, herdeira de valores colonialistas.

Faz-se necessário declarar outra fonte de equívocos na compreensão dos referidos termos no Brasil. Trata-se das traduções de obras originadas da produção científica espanhola e italiana que trazem a utilização do termo ócio com o mesmo sentido atribuído ao termo lazer, basta observar a obra de Domenico de Masi (2000; 2001), difundida no Brasil intensivamente, a partir da década de 90. E ainda outras, como Puig e Trilla (2004), De Gracia (1966), apenas para citar algumas.

Sabe-se que, nas sociedades pré-industriais, as atividades lúdicas, hoje atribuídas ao lazer, estavam ligadas ao culto, à tradição, às festas e não existia de fato o lazer em si, pois as atividades de trabalho envolviam ludicidade e prazer criativo.

O trabalho e o lazer se intercalavam no cotidiano do indivíduo. O trabalho e o tempo subjetivo eram difíceis de serem percebidos separadamente, pois ambos possuíam intrínsecas relações. É curioso perceber que, em sociedades onde a industrialização não foi hegemônica, essa relação do caráter lúdico e criativo, que hoje se associa ao lazer, está presente em atividades laborais, que não compõem o modelo industrial de produção.

Elungu (1987), ao discorrer sobre a estrutura temporal em algumas sociedades africanas, fala da dificuldade de adaptação de tribos ao modelo de divisão do tempo imposto pela organização produtiva industrial, e, conseqüentemente, a resistência dos indivíduos a desvincular sua atividade produtiva dos prazeres lúdicos. Em algumas dessas sociedades, não há categorias distintivas entre o trabalho e o lazer.

O ócio é tão antigo quanto o trabalho, porém, somente após a Revolução Industrial, com o surgimento do chamado tempo livre, que representa uma conquista da classe operária frente à exploração do capital, é que foi evidenciado, ocorrendo a nítida separação entre tempo-espaço de trabalho (produção) e lazer (atividades contrárias ao trabalho) enquanto tempo para atividades que se voltam para a reposição física e mental.

Lazer é uma palavra muito presente na realidade brasileira e percebe-se, a partir da literatura investigada, a influência marcante do sociólogo francês Dumazedier, como já se evidenciou. Assim, lazer tomou o sentido de


[...] um conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se e entreter-se, ou ainda, para desenvolver sua informação ou formação desinteressada, sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora, após livrar-se ou desembaraçar-se das obrigações profissionais, familiares e sociais (Requixa, 1976 p. 33).

De acordo com Dumazedier (1972,1979), o lazer é exercido à margem das obrigações sociais em um tempo que varia segundo a forma de intensidade de engajamento do mesmo em suas atividades laborais. O lazer encontra-se submetido a um lugar de destaque, com funções de descanso, desenvolvimento da personalidade e diversão. Por outro lado, o ócio, representa algo mais do que essas categorias, ele está no âmbito do liberatório, do gratuito, do hedonismo e do pessoal, sendo estes fatores não condicionados inteiramente pelo social e sim pelo modo de viver de cada um, relacionado com o prazer da experiência.

O sociólogo Renato Requixa compreendeu "lazer como uma ocupação não obrigatória, de livre escolha do indivíduo que a vivencia e cujos valores propiciam condições de recuperação e de desenvolvimento pessoal e social" (1977, p. 11). O autor ressalta que o ambiente urbano industrial permitiu que o trabalhador fosse dispondo de um tempo verdadeiramente livre e com tendência a aumentar. Entende-se que seu estudo se faz importante para o pensamento sobre o lazer no Brasil, pois orienta rumo à compreensão de que o tempo livre é um elemento indispensável para o desenvolvimento do lazer e do homem.

Outro pesquisador brasileiro de destacada produção e que leva sua linha de pensamento a partir das teorias de Dumazedier é Marcelino (1983). Este pesquisador mostra o lazer como uma atividade desinteressada, sem fins lucrativos, relaxante, sociabilizante e liberatória. Para Marcellino, a democracia política e econômica é condição básica, ainda que não suficiente, para uma verdadeira cultura popular; para a eliminação das barreiras sociais que inibem a criação e práticas culturais.

Ainda a partir de Dumazedier, Camargo (1989) conceitua o lazer como um conjunto de atividades que devem reunir certas características: devem ser gratuitas, prazerosas, voluntárias e liberatórias centradas em interesses culturais, físicos, manuais, intelectuais, artísticos e associativos, realizadas num tempo livre, subtraído ou conquistado, historicamente, da jornada de trabalho profissional e doméstica e que interferem no desenvolvimento pessoal e social dos indivíduos.

Observa-se, nas definições citadas, que o caráter liberador do lazer é resultado da livre escolha, embora esta não exista de forma absoluta, uma vez que a livre escolha está marcada por condicionamentos diversos, sobretudo os socioeconômicos.

Novos investigadores surgem aportando abordagens críticas aos estudos do lazer no Brasil, explicitando a necessidade de visualizar o fenômeno como fruto de um processo econômico social específico brasileiro, chamando atenção para a necessidade de observar o fenômeno enquanto elaboração social, orientado pela dominação, alienação produzida pela relação capital-trabalho da qual, segundo suas afirmações, não se deve fugir.

Nesse sentido, ressalta-se o trabalho de Mascarenhas (2005) e Marcassa (2002), em que se observam colocações como esta:


[...] sobre o que é o lazer, é comum ainda encontrarmos respostas que o associam à participação e ao desenvolvimento, dentre outras possibilidades que evidenciam seu potencial formativo, mas o fato é que tendencial e predominantemente o que ele constitui mesmo é uma mercadoria cada vez mais esvaziada de qualquer conteúdo verdadeiramente educativo, objeto, coisa, produto ou serviço em sintonia com a lógica hegemônica de desenvolvimento econômico, emprestando aparências e sensações que, involucralmente, incitam o frenesi consumista que embala o capitalismo avançado. (...) o que estamos querendo dizer é que num movimento como nunca antes se viu o lazer sucumbe de modo direto e irrestrito à venalidade universal. A mercadoria não é apenas uma exceção no mundo do lazer como antes, mas sim a regra quase geral que domina a cena histórica atual (Mascarenhas, 2005, p.141).

No trabalho de Mascarenhas (2005), encontra-se referência ao trabalho de Marcassa (2002) sobre a invenção do lazer no Brasil, em que relaciona o fenômeno com a internacionalização do capital,


[...] quando, em fins do século XIX, início do XX, o incipiente projeto de modernização e industrialização promove a supressão do trabalho compulsório, fincando bases sobre a exploração do trabalho livre. Vincula-se, além disso, ao impulso dado à urbanização das cidades e às iniciativas de racionalização da política. Associado à tradição colonial, o lazer vai sofrer todo o tipo de intervenção e controle, submetido a um tipo de condenação moral que buscava ajustar o antigo modo de vida às exigências da produção capitalista. Como esclarece a autora, o lazer constituía-se como expressão de uma ação deliberada de amoldamento da subjetividade proletária, um processo de institucionalização da vida cultural que atingiu em cheio a formação social dos trabalhadores na direção do aburguesamento da sociedade, banindo assim experiências não alinhadas à nova disciplina do trabalho (em Mascarenhas, 2005, p. 230-231).

A palavra ócio, derivada do latim otium, significa o fruto das horas vagas, do descanso e da tranqüilidade, possuindo também sentido de ocupação suave e prazerosa, porém, como ócio, abriga a idéia de repouso, confunde-se com ociosidade.

Com a Revolução Industrial, um novo conceito de ócio se torna evidente, um conceito oposto ao de ócio contemplativo grego, impregnado da mentalidade puritana, "pai de todos os vícios". Desta forma, o trabalho se torna a fonte de todas as virtudes, e a jornada de trabalho aumenta de maneira assustadora, gerando, assim, descompensações psicossomáticas na grande maioria das pessoas, conforme defendem Paul Lafargue e Bertrand Russell (em De Masi, 2001), ferrenhos críticos da mistificação do trabalho e de seu excesso desnecessário.

O ócio, na atualidade, tem sido fonte de polêmica. Sabemos que a redução da jornada de trabalho gerou o tempo livre, assim como a problemática com relação a sua utilização adequada.

Para Herbert Marcuse (1975), o ócio foi manipulado de tal maneira que se tornou um mecanismo gerador de idéias consumistas, ou seja, ócio foi utilizado para a criação de falsas necessidades materiais. Devido a este fato, temos, hoje, a preponderância do Ter sobre o Ser, que gera uma desmedida ambição por prosperidade.

A década de 90 coloca a palavra ócio em moda no Brasil, fruto das publicações do sociólogo Domenico de Masi, que apregoa sua idéia de ócio criativo como um modelo a ser perseguido por pessoas e organizações, na busca de um modo de viver e trabalhar criativamente, a partir da redução do tempo de trabalho, descentralização da empresa enquanto lugar de trabalho e do surgimento de uma nova economia centrada no novo tempo livre.

Em nota da investigação de Mascarenhas (2005), encontra-se que


[...] no campo do lazer, a razão instrumental implícita à noção de ócio criativo é pioneiramente percebida em pesquisa realizada por Marcellino. Para este autor, a abordagem de De Masi é marcada por valores utilitaristas e compensatórios. Ocorre que De Masi não concebe o ócio criativo nem como compensação escapista às insatisfações do trabalho e nem como instrumento para a recuperação da força de trabalho, mas, sim, como o próprio trabalho, supostamente, colonizado pelo ócio, isto é, o trabalho criativo que, ao mesmo tempo, confunde-se e iguala-se ao ócio criativo (p. 216).

Não se quer, aqui, defender ou atacar este ou aquele pensamento. Pretende-se demonstrar as principais idéias sobre o fenômeno ócio e lazer que interferem na compreensão geral do tema no Brasil.



O ócio é livre, o "tempo livre", não.

O tempo livre e o ócio são tomados, muitas vezes, como fazendo referência a um mesmo fenômeno social. Não obstante, são conceitos que têm naturezas distintas. O tempo livre, especificamente, é um conceito que remete a muitos equívocos, pois, ao referir-se ao qualificativo 'livre', pressupõe diretamente uma alusão a um tempo de 'não-liberdade' ao qual se opõe. Tempo livre de quê? Poderíamos perguntar. Em realidade, a denominação de tempo livre, apesar de ser considerada desde os antigos gregos, adquire relevo a partir de sua oposição à concepção moderna de trabalho. Essa noção de um tempo livre do trabalho conduz a uma concepção negativa deste último, ou seja, faz sobressair o caráter impositivo da atividade laboral. Há que reconhecer que o tempo livre, no contexto atual, é uma referência temporal e implica uma divisão da 'unidade' do tempo que se opõe ao tempo de trabalho.

Ainda que para muitos o tempo livre seja tomado como uma atividade, ele, a diferença do ócio, é uma referência temporal, que adquire, pelo qualificativo 'livre', uma complexidade que o faz confundir-se com ação.

Essa concepção é importante, pois, se a partir da modernidade a idéia de tempo livre passa a ser mais difundida, a referência anterior, mais genérica, era de ócio. Historicamente e pelo critério de atividade, é o ócio que se opunha ao trabalho.

O tempo livre, tal como o concebemos hoje, adveio da natureza cronológica que atinge o apogeu pós-revolução industrial. É da liberação do tempo que devia ser dedicado ao trabalho, que emerge a noção do tempo livre. Aí estão implicadas algumas variáveis. A primeira delas é que a liberdade, tomada como exercício temporal, não podia ser exercida no trabalho, pelo menos na concepção de trabalho industrial, uma vez que a organização produtiva pressupunha uma sincronização, que ainda não havia sido experimentada de forma generalizada em outros momentos da história. A segunda é que a liberdade de constituir-se como sujeito estava limitada pelo processo de alienação imposto pela produção capitalista. Como destaca Bacal (2003), o tempo livre surge da liberação de parcelas de tempo do trabalho, quando poderiam ser desenvolvidas atividades relacionadas à sobrevivência física e social do indivíduo, mas, ainda assim, atreladas à noção do trabalho.

Na Antiga Grécia, trabalho e ócio figuravam como conceitos antagônicos e com valores muito distintos dos que se conhecem hoje. Se, hoje, a temporalidade é o recurso da cisão entre trabalho e 'não-trabalho', ali, segundo Aristóteles, o ócio era um estado, ou seja, era uma condição de liberdade relativa à necessidade de trabalhar. O tempo livre, a partir do seu viés industrial, dá passo também ao surgimento da compreensão do lazer, que passa a ser concebido como uma atividade que tem sua base ancorada na existência de um tempo livre, fomentado e reconhecido legalmente, e que poderia ser exercido autonomamente pelos trabalhadores, tendo por base sua condição socioeconômica e seus valores sociais.

É na articulação do lazer ao contexto da sociedade industrial, que há uma forma de 'subversão' de valor da atividade. Se há, para alguns, uma identidade absoluta entre a noção de lazer e ócio, talvez se instaure no elemento da autonomia o diferencial entre essas duas categorias, pelo menos na mediação do tempo como elemento articulador. Não há no ócio qualquer conotação de atividade que persiga outro fim. O ócio é a atividade que traz em si a própria razão do seu fim.

Na contemporaneidade, a noção de tempo se vê bastante alterada. Nós, que estávamos profundamente acostumados ao tempo como constante objetiva, somos instados a pensá-lo também como categoria relativa e subjetiva, daí o desafio que se nos apresenta de refletir sobre categorias como tempo livre, ócio e lazer, principalmente, quando estas, na modernidade, elegeram, na firmeza de um conceito determinista de tempo, sua segurança conceitual.

Com certeza, a história vai seguir registrando o que se vai experimentando na realidade e tornando-se teoria. Talvez seja importante recuperar, aqui, a idéia de Elias (1997), que discorre sobre elementos de síntese complexa, no sentido de que algumas idéias se acumulam, não perdendo tradições, mas incorporando sentidos e se reconfigurando.



Ócio: uma abordagem a partir da experiência subjetiva

Segundo Cuenca (2003), o ócio constitui uma experiência gratuita, necessária e enriquecedora da natureza humana. Desde Aristóteles e, até hoje, filósofos e teóricos, ao tentarem precisar a natureza do ócio, relacionaram este a percepção de felicidade. Na sua compreensão, o ócio, do ponto de vista individual, tem relação com a vivência de situações e experiências prazerosas e satisfatórias.

O ócio, na visão do referido pesquisador, pode ser estudado e analisado sob duas perspectivas


do ponto de vista objetivo se confunde com o tempo dedicado a algo, com os recursos investidos ou, simplesmente, com as atividades. Do ponto de vista subjetivo, é especialmente importante considerar a satisfação que cada um percebe na experiência vivida (Cuenca, 2003:15).

Em termos subjetivos, a palavra ócio é sinônimo de ocupação desejada, apreciada e, é claro, resultado da escolha livre. É interessante ressaltar a atenção posta no significado atribuído por quem vivencia a experiência de ócio.

O ócio integra a forma de ser de cada pessoa sendo expressão de sua identidade, sendo que a vivência de ócio não é dependente da atividade em si, nem do tempo, do nível econômico ou formação de quem a vivencia, mas sim está relacionada com o sentido atribuído por quem a vive, conectando-se com o mundo da emotividade.

A subjetividade adquire, assim, um papel importante nesse desafio proposto de (re)significar e dar sentido a conceitos como o de ócio, lazer e tempo livre. Parece importante ressaltar que o conceito de subjetividade surge de forma mais clara a partir da modernidade e, como destaca Figueiredo (1994), deve sua aparição às grandes rupturas, ao final do século XV, e às intensificações das diversidades. Isso levou às tentativas de ordenação sob o domínio da razão e à construção do que se denomina sujeito moderno. No final do século XIX, esse 'sujeito moderno' começa a sofrer as primeiras descentrações que levam ao princípio da sua derrocada. Como acentua Figueiredo (1994), a percepção por parte dos homens de que não são tão livres nem singulares os leva a refletir sobre as causas e significados de tudo que pensam, fazem e sentem. Esse é também o momento da reconfiguração de uma série de conceitos que haviam sido construídos, ao longo desses quase quatro séculos, e o ressurgir de conceitos praticamente abandonados, foi assim com o tempo, o ócio e o lazer.

Para se compreender o ócio, é necessário recuperar algumas informações sobre aspectos relacionados à sua essência: o jogo (lúdico), a festa, a criatividade, a participação voluntária, a satisfação, a felicidade, o autodesenvolvimento, a integração solidária etc. É também interessante refletir sobre as possibilidades práticas de ócio: cultural, esportiva, recreativa, turística, a partir de sua concepção e valorização através do tempo.

Sugere-se , para a compreensão do ócio, uma leitura unificada de todas estas dimensões. Segundo Cuenca (2003), o caminho disciplinar não é o único meio de acesso ao conhecimento; sabe-se que as disciplinas acadêmicas que aparecem, hoje, como clássicas e tradicionais nas universidades e dentro do universo científico em um tempo passado não existiam como tais.

Os estudos sobre o ócio representam a afirmação de um modelo aberto com aproximações epistemológicas e metodológicas múltiplas baseadas em contínuas e diversas análises, métodos e recursos de diversas disciplinas que compartem seu objetivo de conhecimento sobre o ócio. No entanto, trata de esclarecer o que na interdisciplinaridade, que envolve o ócio, compete ao campo específico de cada disciplina, na explicação e compreensão do fenômeno (op. cit).

O ócio faz parte da reflexão específica das ciências sociais que se caracterizam por disciplinas não consensuais. Isso quer dizer que nunca se encontrará uma conceituação de ócio por meio de acordos entre investigadores.

Assim, uma das características dos estudos de ócio é a carência de consensos generalizados em suas abordagens básicas. No entendimento de Cuenca (2003), tal fato não representa um problema, quando se trata da reflexão teórica do ócio, que, por si, representa um objeto numa realidade complexa e mutável com vínculos no social, no subjetivo e no tradicional.

Atualmente, falar em ócio é algo complexo e nos remete a muitas possibilidades:


[...] Para uns o problema se reduz aos usos do tempo ou ocupação. Para outros vem a ser práticas de atividades não obrigatórias, desejadas e queridas. Outros, por fim, falam do ócio a partir dos parâmetros das cifras econômicas. Os jovens entendem que viver o ócio é um direito democrático, semelhante a outros cada vez mais utópicos, como é o direito ao trabalho. Um cidadão de um país desenvolvido não saberia viver sem televisão, esporte, cultura, viagens, música moderna ou férias. O século XX desenvolveu um novo tempo social centrado no ócio, cuja transcendência está ainda, por ser descoberta (Cuenca, 2003, p. 31).

Falar em ócio obriga a ressaltar sua importância social e econômica a partir de suas práticas, atividades e vivências. Da mesma forma, sobre a incidência que sua prática tem na destruição e construção de valores e comunidades. Certamente, deve-se estar consciente dos malefícios que uma política econômica centrada apenas no lucro da exploração de atividades consumistas e esvaziadas de valor, fruto da ausência de uma educação para utilização e escolha de ócios positivos, pode levar a práticas consideradas como "negativas" de ócio.


[...] Diante do mundo de evasão, distração espetáculo que nos rodeia, o ser humano se torna cada vez mais limitado, cada vez mais dependente das máquinas, menos ator e mais espectador de uma realidade irreal. Falar de ócio se transforma neste contexto, num questionamento de cada um consigo mesmo, de como ser um pouco mais livre para fazer o que se quer. (...) a vivência de ócio é uma experiência que nos ajuda a nos realizar, nos conhecer, nos identificar, nos sentir melhores, sair da rotina, fantasiar e recuperar o equilíbrio das frustrações e desenganos (Cuenca, 2003, p. 32).

O conceito de ócio atual revisa o que a produção européia resguarda a partir da experiência grega, ressaltando outras funções do ócio, como a libertadora, a criadora e a contestadora.

A partir da década de 80, os estudos de Roger Sue contribuem com a idéia de que, independente das teorias que possam existir, há uma série de funções que se manifestam como conseqüência da experiência de ócio.

Sue (em Cuenca, 2003) organiza as funções do ócio em três grupos: psicológicas, sociais e econômicas. No grupo das funções psicológicas, inclui as funções de desenvolvimento, diversão e descanso já tratadas em Dumazedier, compreendendo que tais funções atendem, parcialmente, à compensação das perdas humanas pelo trabalho, no entanto, possibilitam equilíbrio psicológico ao indivíduo. As funções sociais estariam relacionadas com a integração social, o simbolismo e a terapia.

Com relação à socialização, coloca que as condições de trabalho, na atualidade, a urbanização intensa e as novas formas de viver geraram um empobrecimento da comunicação interpessoal e, conseqüentemente, um isolamento que, no ócio, encontra um contraponto.

A função simbólica sinaliza que o ócio oferece a percepção de identidade, pertencimento a uma categoria social, além de uma afirmação pessoal com relação aos demais, através da escolha de atividades de diversão. A função terapêutica considera que o ócio oferece a possibilidade de contribuir para a manutenção da saúde física e mental.

Dentro do grupo das funções econômicas, ressalta a crescente observação de gastos pessoais, familiares com atividades de ócio, bem como a incidência do ócio na economia e vice-versa. Assim, Sue pergunta diante de toda a possibilidade que o ócio oferece: o que é o ócio? Consumo ou alienação?

Nas formas de divertimento moderno, o ócio está completamente colonizado pelo consumo, o que caracteriza uma experiência alienada. Por este motivo, a função econômica do ócio é ambígua. Os gastos ativam o sistema produtivo, mas as práticas que não implicam custo, não são amparadas pela política econômica (Sue em Cuenca, 2003).



Ócio: vivência humanista e experiência integral

Uma das relações mais observadas no fenômeno do ócio é atribuí-lo ao tempo. Para Cuenca (2003), o ócio jamais pode ser identificado com tempo, uma vez que o tempo, em si, não define a ação humana. A identificação que se produziu entre ócio e tempo livre é um produto dos estudos da sociologia, difundidos a partir da segunda metade do século XX e até os anos 80 do mesmo século. Tal fato dificultou a compreensão do ócio, por não incluir a percepção psicológica.

Apenas com o tempo livre não se pode falar do que seria uma experiência de ócio, o tempo constitui uma coordenada vital para qualquer ato humano, a expressão tempo livre se torna importante nesta relação, pela palavra livre que sugere relação com o exercício humano de identidade, reconhecimento, auto-reconhecimento e vontade. A partir destes enfoques psicológicos, o ócio vem sendo definido como "liberdade de escolha" (op. cit).

Desta forma, o tempo e a atividade em si não podem determinar uma experiência de ócio. A ação é uma referência que, com a percepção de quem a realiza, pode ou não ser uma vivência de ócio.


[...] a vivência humanista do ócio é ou deveria ser uma experiência integral e relacionada com o sentido da vida e os valores de cada um. Isso pode ocorrer graças à formação. A pessoa formada é capaz de converter cada experiência de ócio numa experiência de encontro. Cada encontro é uma re-criação que proporciona vontade de viver (Kriekemanns em Cuenca, 2003 p. 63).

Infere-se, então, que a vivência de ócio possibilita contextos experienciais que podem ser âmbitos para a recriação ou não. Porém, o ócio humanista se diferencia de outras vivências por sua capacidade de sentido e potencialidade de encontros criativos que levam ao desenvolvimento pessoal.

Na conjuntura atual, compreender o ócio como um valor torna-se difícil sem um processo de informação. Desta forma, a compreensão do ócio humanista não é algo que se desenvolve sozinho, tratando-se, pois, de uma vivência que se desenvolve pela aquisição de conhecimentos. Quanto mais informação sobre o ócio e seus valores para a pessoa e para a sociedade, mais capacidade de compreendê-lo, buscá-lo e vivê-lo.

O pensamento sobre ócio humanista encontra-se refletido no pensamento dos anos 1990. Como reflexo desse pensamento, citam-se as declarações mundiais realizadas pela World Leisure and Recreacion Association (WLRA), como a Declaração de Educação para o Ócio e a Declaração de São Paulo de 1998. Nestas referencias, o ócio se define como um direito do ser humano, área específica da experiência, âmbito da liberdade, recurso do desenvolvimento pessoal e social, fonte de saúde e bem-estar (Cuenca, 2003, p. 70).

O ócio como experiência humana está relacionado a valores e significados profundos, apenas assim pode o ócio ter sentido enquanto experiência significativa positiva, fonte de desenvolvimento e prevenção à ociosidade negativa, ou ócios nocivos.

É possível distinguir uma experiência comum e a verdadeira experiência. Dewey (1949, em Cuenca, 2003) acrescenta que a experiência comum se relaciona com qualquer ação da vida; trata-se de um fato que se toma como corrente, banal.

A experiência de viver está repleta de experiências. Por outro lado, algumas experiências fogem dessa percepção cotidiana e vulgar pelo sentido da subjetividade envolvida, escolha desejada, encontro permitido. Esses detalhes mudam todo o sentido da experiência e estas provocam transformações em quem as vivencia, estas são as experiências chamadas verdadeiras.

Csikszentmihalyi (1998 em Cuenca, 2003), pesquisador da Universidade de Chicago, em suas pesquisas, chama a este mesmo fenômeno de "experiência ótima", acrescentando que, quando uma pessoa passa por uma vivência como essa, uma das metas centrais do self será seguir experimentando-a ou voltar a buscar outras semelhantes, convertendo-a em uma influência tão significa quanto a cultura ou a genética.



Reflexões finais

A evolução dos tempos nos leva a muitas possibilidades de compreensão do ócio. Entre tempo voltado para o restabelecimento da força e as várias experiências possíveis na compreensão multidisciplinar de Cuenca, o ócio reaparece como estudo importante, representando um pensamento alinhado ao desejo do sujeito contemporâneo, um ser exausto de consumir sem um sentido seu, levado pela mídia, pela moda, pelos outros, para o material.

Encontramo-nos entre movimentos atuais como o "Slow Food" no âmbito internacional e a "Simplicidade voluntária" no Brasil, em que as pessoas questionam suas opções e travam lutas de cunho ecológico em prol de "um tempo mais tranqüilo", na busca de um tempo para si, novos hábitos, novas formas de consumir etc. Essa idéia de tempo substitui a lógica linear e cronológica e abre espaço para a compreensão da duração, que é plural.

A centralidade do tempo contemporâneo, ainda no tempo de trabalho, dá vez a um sujeito longe de sua liberdade, criação e desejo, convocando a continuidade da atenção em um tempo a ser conquistado para a expressão das subjetividades contemporâneas diluídas em tempos de vazio.



Referências

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Notas

1. A sociologia do tempo, tal como discorre Pronovost (1996), é compreendida como um campo de estudos da sociologia que visa ao estudo da estruturação do tempo nas sociedades, tomando-o como referente de organização social e não apenas como dimensão onipresente.
2. O tempo de "nada fazer", expresso neste texto, representa, na compreensão dos autores, o tempo verdadeiramente livre que se pode dispor. Neste tempo, o sujeito experimenta a sensação de vivenciá-lo sem nenhum tipo de pressão ou compromisso com produtividade. É um tempo de compromisso consigo mesmo, pleno de autocondicionamento.
3. Em linhas gerais, Dumazedier, em sua elaboração sobre o que é lazer, o coloca como âmbito do Descanso, da Diversão e do Desenvolvimento num tempo liberado de obrigações, daí a relação a 3 "D's".
Revista Mal Estar e Subjetividade

A Era do Descobrimento do Oceano


Em uma época de mudanças climáticas tão profundas no planeta, preencher esse vazio do conhecimento é absolutamente mandatório


CRÉDITO: IMAGEM CORTESIA DE BRITISH ANTARCTIC SURVEY



Pouco tempo após os primeiros exploradores europeus chegarem ao Novo Mundo, novos mapas atualizados começaram a ser produzidos. Cartas de navegação descrevendo a costa das novas colônias, assim como novos mapas-múndi, proliferaram e se tornaram documentos acessíveis. A era das descobertas foi moldada pela evolução nas teorias e tecnologias de produção de mapas, que continuou a sustentar as grandes expedições nos séculos subsequentes. Nas primeiras décadas do século 20, os grandes rios, como o Nilo e o Amazonas, tiveram seus cursos determinados; as expedições polares ao Ártico e a Antártida mapearam as últimas áreas realmente inexploradas do planeta; toda a topografia do subcontinente indiano foi cartografada em uma resolução sem precedentes através de um grande projeto chamado ‘Grande Mapeamento Trigonométrico’. Atualmente, com o desenvolvimento das tecnologias de imageamento e posicionamento por satélites, conseguimos acessar qualquer canto do planeta através de uma simples consulta ao celular. Pouco nos atentamos, no entanto, ao fato de que dois terços da superfície do planeta, ou seja, todas as áreas oceânicas, ainda são conhecidas em níveis similares ao dos continentes na Idade Média.

O motivo mais óbvio para isso é o fato de que o oceano é completamente inacessível à presença humana. Mesmo com pesados equipamentos de mergulho autônomo, só é possível chegar a algumas centenas de metros de profundidade. Submersíveis ou robôs de operação remota podem alcançar profundidades maiores, mas são equipamentos extremamente caros e de complexa operação. Ademais, a luz quase não se propaga em ambientes aquáticos, desta forma, os satélites não são muito úteis para se quisermos “ver” o que há nas regiões mais profundas do oceano. O principal instrumento de mapeamento dessas regiões é o sonar, que utiliza som, e não luz, para “ver” através do meio aquoso emitindo ondas sonoras através de uma fonte acústica e captando seu eco no fundo do mar, determinando, assim, a profundidade em determinado local.

Os primeiros mapas mais precisos do fundo do oceano foram elaborados com base em sonares nos anos 1940 e 1950, na carona do desenvolvimento de métodos acústicos impulsionados pela tecnologia militar da Segunda Guerra Mundial. Descobrimos que o assoalho oceânico é uma região coberta por gigantescas cadeias de montanhas, vulcões, vales e fossas abissais. Obtivemos dados para construir os primeiros grandes mapas globais dos fundo oceânico, informação que sustentou o desenvolvimento da grande teoria da Tectônica de Placas.

No início do século 21, além dos mapas de escala global, gerados a partir dos levantamentos por sonares, a maior parte da informação sobre o oceano vinha apenas de poucos dados sobre a água, substrato e de seres vivos, adquiridos através de amostragens diretas através de coleta de material em grandes projetos de pesquisa, restritos a poucos institutos e universidades com capacidade para bancá-los. As informações geradas eram, desta forma, restritas a publicações científicas, bibliotecas e banco de dados restritos de acesso limitado.

Mas o desenvolvimento de novas técnicas na coleta e distribuição de dados marinhos e oceânicos vem propiciar a disseminação de informações. Atualmente, boa parte dos barcos pesqueiros ao redor de todo o planeta, pressionado por rígidas regulamentações, envia dados a centros de informação sobre vida marinha; boias e sensores flutuantes captam informações a cada segundo de características físico-químicas da água; robôs autônomos navegam próximo ao fundo coletando dados sobre o substrato; novos sonares conseguem realizar levantamentos 3D da topografia em resolução centimétrica; sensores conectados a organismos marinhos obtêm informações sobre movimentação e comportamento de animais; satélites transmitem dados importantes como teor de clorofila e temperatura da água. Tudo isso com do apoio de centenas de navios oceanográficos que navegam através do planeta financiados por empresas, universidades e institutos de pesquisa.

Todo este esforço tem gerado um volume imensurável de informações que, em grande parte, são compartilhadas e distribuídas livremente. Apesar de todos esses avanços, há muito mais a ser feito. Ainda estamos entrando na “era do descobrimento” das regiões oceânicas e grande parte das áreas sobre as águas ainda aparecem como regiões incógnitas nos mapas. Em uma época de mudanças climáticas tão profundas no planeta, preenchermos este vazio do conhecimento é absolutamente mandatório e somente com coordenação e empenho em nível global isso será possível. Neste sentido, a “Década do Oceano” pode ser uma incrível oportunidade.


Luis Américo Conti
Escola de Artes Ciências e Humanidades
Universidade de São Paulo

*A coluna Cultura Oceânica é uma parceria do Instituto Ciência Hoje com a Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano da Universidade de São Paulo.
Revista Ciência Hoje

Vazios Cartográficos


OS DESAFIOS DA AUSÊNCIA DE MAPEAMENTO OFICIAL
Os vazios cartográficos, grandes áreas do território que não foram mapeadas oficialmente, podem ter seus dados geográficos conhecidos em detalhes por meio de mapeamentos colaborativos. O uso de programas que permitem a realização desse tipo de mapeamento, feito em rede por agentes públicos ou voluntários, ajuda a promover a participação popular e a inclusão social na gestão pública do território e em outras atividades que utilizam dados geográficos, como monitoramento de áreas de floresta, levantamento de recursos minerais e planejamento de ações de resgate.




Mapas são documentos muito úteis para localização e orientação no espaço geográfico em que estamos inseridos. Aplicativos e outras ferramentas de todo tipo têm utilizado mapas digitais para ajudar as pessoas a encontrar destinos diversos – teatros, escolas, hospitais, praias etc. – ou para guiá-las em seu deslocamento diário.

Mas nem sempre foi assim. Até meados do século passado, os mapas oficiais eram confeccionados apenas por especialistas, a serviço dos governos. Havia uma natural limitação – tecnológica e/ou provocada pelo tamanho da área a ser mapeada – na quantidade de dados e informações que um mapa poderia conter.


ATÉ MEADOS DO SÉCULO PASSADO, OS MAPAS OFICIAIS ERAM CONFECCIONADOS APENAS POR ESPECIALISTAS, A SERVIÇO DOS GOVERNOS



A escala, um elemento obrigatório do mapa, mostra a relação entre o que está desenhado e o que existe no espaço real. Então, se o mapa possui uma escala de 1:250.000, significa que cada 1 cm corresponde a 250.000 cm (2.500 m ou 2,5 km) na realidade.

Portanto, quanto maior a escala do mapa (quanto menor o denominador), mais detalhado ele será, representando mais elementos pela mesma unidade de área, como nomes de ruas, localização de praças, escolas, travessas, vielas.


Mapeamento que empodera

Com o surgimento dos sistemas de informação geográfica (SIG) – programas para processamento de dados geográficos –, muito do trabalho de mapear foi facilitado. Esse avanço também foi favorecido pelo aumento do poder computacional e pelo armazenamento de grandes volumes de dados em nuvem, que podem ser acessados e trabalhados colaborativamente via internet.

Toda essa revolução tem sido acompanhada pelo aumento da participação popular nos mapeamentos. O aporte de dados tornou-se mais diversificado, contando com a visão daqueles que conhecem bem os locais. E esse tipo de informação contribui para o empoderamento das comunidades, que passaram a participar das ações de planejamento, monitoramento e avaliação, levando as questões que lhe são importantes para o mapeamento.

Em regiões que não foram contempladas em mapeamentos oficiais – os chamados vazios cartográficos –, como áreas com aglomerados subnormais (favelas) ou de proteção ambiental, o mapeamento colaborativo pode auxiliar o aporte de dados relacionados a elas.

O uso de programas como o OpenStreetMap (OSM), a maior base cartográfica colaborativa da atualidade, tem permitido a realização de mapeamentos por grupos organizados em torno de um objetivo comum. O OpenStreetMap apresenta-se como ótima solução para suprir dados ausentes nos grandes vazios cartográficos ainda existentes no Brasil, por possuir uma enorme rede de usuários, que colaboram com grande volume de dados e realizam a validação da sua qualidade (ver ‘O mapeamento colaborativo no OpenStreetMap’).


O MAPEAMENTO COLABORATIVO NO OPENSTREETMAP

O OSM é o projeto que disponibiliza uma base cartográfica colaborativa, com dados de diferentes partes do mundo, incluídos e validados por uma comunidade voluntária de mapeadores, de utilização livre (desde que citada a autoria) e que têm como característica comum possuir uma localização na superfície terrestre (dados geoespaciais).

O OSM baseia-se no mapeamento colaborativo do terreno (ou de outros ambientes, como o mar), que atende a diferentes fins, valorizando o conhecimento local de quem contribui.

Criado em 2004 pelo empreendedor britânico Steve Coast, o OSM teve como foco inicial o Reino Unido. Desde 2006, o site e serviços relacionados são geridos pela Fundação OpenStreetMap, abrangendo todo o mundo. Até junho de 2021, existiam mais de sete milhões de usuários cadastrados globalmente, com mais de sete bilhões de elementos já mapeados.

As contribuições podem ser realizadas por qualquer pessoa, bastando um cadastro prévio na página da plataforma. Para inserir os dados geográficos e editar os mapas do OSM, os usuários têm à disposição programas que foram desenvolvidos com a linguagem de programação Java, como o editor iD, disponível na própria página web do OSM, ou programas autônomos como o JOSM.

Essas contribuições são apoiadas em pesquisas próprias, dados de GPS e imagens de satélite ou fotografias aéreas, de domínio público. Os dados podem ser inseridos no OSM como pontos, linhas ou polígonos (representando áreas), desenhados sobre imagens de satélite de fundo, fornecidas pelas empresas BingⓇ, ESRIⓇ, MapboxⓇ, dentre outras. Os elementos inseridos são descritos com detalhes em etiquetas.

O OSM fornece dados geoespaciais para milhares de sites, aplicativos móveis e dispositivos de computador. Esse mapeamento colaborativo é muito útil também para os gestores das pequenas cidades brasileiras, que geralmente não possuem uma base cartográfica própria, devido aos custos de geração dessas informações.
Modo de edição on-line do OSM para uma área do município de São José dos Campos, São Paulo FONTE: CONTRIBUIDORES DO OPENSTREETMAP (2021)



Aliado durante grandes tragédias

O trabalho de mapeamento colaborativo local vem ganhando destaque, em diversas partes do mundo, principalmente a partir de eventos de grande magnitude e impacto na mídia, como o terremoto ocorrido em 2010 no Haiti e que devastou a capital, Porto Príncipe, causando a morte de aproximadamente 300 mil pessoas e deixando mais de um milhão de desabrigados. Em um esforço internacional, a cidade teve todo o seu território mapeado em dias. Esse trabalho foi fundamental no planejamento das ações de resgate e salvamento das vítimas.


O TRABALHO DE MAPEAMENTO COLABORATIVO LOCAL VEM GANHANDO DESTAQUE, EM DIVERSAS PARTES DO MUNDO, PRINCIPALMENTE A PARTIR DE EVENTOS DE GRANDE MAGNITUDE, COMO O TERREMOTO OCORRIDO EM 2010 NO HAITI




No Brasil, situação semelhante aconteceu após o rompimento da barragem de rejeitos da mina Córrego do Feijão, pertencente à mineradora Vale S.A., em janeiro de 2019, no Município de Brumadinho, em Minas Gerais. As principais vias de locomoção na área foram mapeadas em curto espaço de tempo, por colaboradores locais e internacionais, o que contribuiu para que as equipes alcançassem as regiões atingidas com maior rapidez, auxiliando o socorro às vítimas e a busca de desaparecidos.


Referências nacionais

Exemplo relevante de mapeamento colaborativo é o trabalho realizado no Município de Jaraguá do Sul (SC), coordenado pelo engenheiro civil Hélio Cesar Tomio, que utilizou acervo de imagens aéreas e dados de GPS da Secretaria Municipal de Urbanismo. Colaboradores e voluntários realizaram a atualização de toda a base cartográfica municipal.

Já em Laranjal Paulista (SP), o mapeamento foi elaborado de forma independente pelo mapeador voluntário, arquiteto e urbanista Igor Eliezer, utilizando informações do levantamento de campo e de uma pesquisa bibliográfica de dados municipais. Os dados compilados foram disponibilizados no Atlas de Laranjal Paulista, utilizado como fonte de pesquisas sobre o local.

Esses casos são referências nacionais de como o uso das informações detalhadas mapeadas por diversos tipos de colaboradores (agentes públicos ou voluntários) pode se tornar uma base de dados cartográfica confiável e amplamente utilizada. Equipes de planejamento do poder público local e de empresas privadas têm a possibilidade de usá-las para diferentes finalidades, como a definição de linhas de transportes de passageiros, a distribuição de cargas, a localização de uma via de transporte, a construção de escolas ou ciclovias e a construção ou abertura de unidade fabril ou comercial.

Em nível estadual, destacamos o trabalho de mapeamento colaborativo realizado no Espírito Santo, onde o Governo do Estado disponibiliza a sua base de dados geográficos – o Sistema Integrado de Bases Geoespaciais do Estado do Espírito Santo (Geobases). Os mapeadores voluntários locais, coordenados por Luc Freitas, atualizam esses dados diretamente na plataforma do OSM.


Desafiadores vazios brasileiros

Mesmo com o avanço do mapeamento colaborativo e voluntário no Brasil, ainda há grande carência de colaboradores. Nas regiões Norte e Nordeste, onde existem grandes vazios de informações geográficas e cartográficas no OSM, essa situação fica mais nítida.


MESMO COM O AVANÇO DO MAPEAMENTO COLABORATIVO E VOLUNTÁRIO NO BRASIL, AINDA HÁ GRANDE CARÊNCIA DE
COLABORADORES



Entre os poucos colaboradores dessas regiões, estão os mapeadores voluntários Francisco Marques e Miguel Qualhano, que realizam, no extremo sul piauiense, onde se localizam os municípios de Bom Jesus e Corrente, um trabalho muito relevante. Essas localidades vêm se tornando, nos últimos anos, uma nova e importante fronteira agrícola, que integra a região denominada de MATOPIBA, formada pelos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Novos migrantes, principalmente oriundos do Sul do Brasil, estão transformando o Cerrado piauiense em imensas lavouras comerciais de soja, algodão e milho. E a dupla de mapeadores percebeu a necessidade de melhorar a base de dados cartográficos da região.



Mapeamento colaborativo e ações governamentais

O conhecimento mais detalhado das características territoriais é condição essencial para o planejamento, pelos governos, de grandes obras de infraestrutura, como construção de rodovias, ferrovias, usinas hidrelétricas e gasodutos, e também para a implantação de diversos empreendimentos da iniciativa privada.

Outras atividades relevantes, de interesse do poder público, de empresas e da sociedade, como monitoramento de áreas de floresta, levantamento de recursos minerais e demarcação de áreas indígenas, também necessitam dessas informações. E, considerando-se escalas maiores do que 1:10.000, mapeamentos de zoneamentos urbanos, de rede viária, de acessibilidade, de distribuição espacial de equipamentos urbanos e de áreas suscetíveis a movimentos de massa ou a inundações são outros exemplos de demanda de geração de dados geoespaciais cada vez mais detalhados e atualizados.

Em todas essas situações, é fundamental que órgãos públicos – das esferas federal, estadual, distrital e municipal – além de universidades, empresas, organizações não governamentais e mapeadores voluntários possam avançar no levantamento, na geração, na organização e no acesso a dados geoespaciais de qualidade e compatíveis com as escalas de análise e cartográfica do mapa final.

Ações do governo federal, em parceria com os governos estaduais, estão contribuindo para reduzir os vazios cartográficos de áreas que contavam com mapeamentos em pequenas escalas apenas, como as diversas cartas temáticas na escala de 1:1.000.000 produzidas no âmbito do Projeto RadamBrasil, na década de 1970. Até 2010, quase 1,8 milhão de km² da Amazônia Legal (correspondente a 35% dessa área) não possuía informações detalhadas da sua cartografia. Buscando reduzir esse vazio cartográfico, o governo brasileiro, por meio do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), lançou o Projeto Radiografia da Amazônia.


ATÉ 2010, QUASE 1,8 MILHÃO DE KM² DA AMAZÔNIA LEGAL (CORRESPONDENTE A 35% DESSA ÁREA) NÃO POSSUÍA INFORMAÇÕES DETALHADAS DA SUA CARTOGRAFIA




É realmente fundamental o desenvolvimento de novas iniciativas de mapeamento colaborativo para suprir os dados ausentes nos demais vazios cartográficos do Brasil. Diante dos grandes vazios cartográficos ainda existentes no país, fica evidente como os mapeamentos colaborativos são extremamente relevantes e urgentes para a gestão pública e para a iniciativa privada.


Raquel Dezidério Souto
Laboratório de Cartografia,
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Jocilene Dantas de Barros
Laboratório de Análises e Desenvolvimento de Indicadores para a Sustentabilidade,
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais

Marta Foeppel Ribeiro
Departamento de Geografia Física,
Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Miguel Ângelo Lima Qualhano
Departamento de Tributação e Cadastro Imobiliário,
Prefeitura de Jerônimo Monteiro/ES
Revista Ciência Hoje

Recursos marinhos não renováveis: vão durar ...


A exploração da base das mais avançadas tecnologias, os minerais, deve considerar o propósito da prosperidade sem esquecer a necessidade de conservação ambiental, sobretudo no ambiente marinho


CRÉDITO: FOTO ADOBE STOCK




Estanho, titânio, cascalho, calcário, enxofre, carvão e petróleo são exemplos de minerais utilizados amplamente pela sociedade atual. Estão na base das mais avançadas tecnologias que facilitam nossas vidas, mas, cabe lembrar, são recursos não renováveis. Sua exploração segue desenfreada, inclusive no ambiente marinho.

O oceano tem diferentes ecossistemas, cada um deles com variados e abundantes recursos, e os minerais marcam forte presença. Nas águas mais rasas da zona costeira e da plataforma continental, os principais são o cascalho e a areia – esta é muito utilizada para produção de cimento ou vidro e aquele, útil na produção de cosméticos, fertilizantes e cimentos. Em regiões costeiras também há os ditos minerais pesados, como ilmenita, rutilo, zircão, monazita e magnetita, todos importantes para a produção de pigmentos e de ligas metálicas.

Há também os evaporitos, um tipo de rocha sedimentar formada em ambientes marinhos com pouca influência de sedimentos de origem continental. Entre os evaporitos estão a halita, utilizada como sal de cozinha e fonte de cloro e derivados; a silvita, principal fonte de potássio para a produção de fertilizantes e fogos de artifício; a gipsita, matéria-prima para a fabricação de gesso; além da calcita, da anidrita e da dolomita, presentes na fabricação de cal para argamassa. Outro tipo de rocha sedimentar formada no ambiente marinho em grandes profundidades (maiores que mil metros) é a fosforita, bastante usada na produção de fertilizantes.


Energia mineral

Formados ao longo de milhões de anos a partir da matéria orgânica de seres vivos, os depósitos de carvão mineral, gás natural e petróleo são importantes fontes de energia para a sociedade. O petróleo, além de ser a principal matriz energética na atualidade, também é usado na fabricação de tecidos, plásticos, detergentes, entre outros produtos.

Há ainda um composto energético marinho, talvez mais abundante do que todo o petróleo e o carvão: os hidratos de gás. São sólidos cristalinos semelhantes ao gelo, presentes em todas as margens oceânicas abaixo dos 500 metros de profundidade. Com uma estrutura que aprisiona gases, principalmente o metano, eles têm alto potencial energético a ser explorado.

Em diferentes profundidades do oceano, encontram-se também outros minerais: os nódulos polimetálicos, as crostas cobaltíferas e os sulfetos metálicos. Os nódulos, que contém ferro e manganês, estão localizados sobre o sedimento marinho entre 4 mil e 5 mil metros de profundidade. Os sulfetos metálicos, ricos em ferro e cobre, são encontrados em zonas relacionadas ao vulcanismo e à expansão das placas tectônicas, a aproximadamente 3 mil metros de profundidade. As crostas cobaltíferas, ricas em cobalto, são formadas sobre estruturas rochosas em regiões entre 400 metros e 4 mil metros de profundidade.

O olhar sobre esses minerais é estratégico, uma vez que são ricos em elementos usados na construção de painéis solares, celulares, lâmpadas, ligas metálicas, vidro, lentes dos óculos, cabos de transmissão de dados, entre outros.


Desafios complexos

A obtenção desses e de outros recursos minerais do oceano apresenta desafios ambientais e tecnológicos complexos, mas que certamente não são insuperáveis. Acontece que, se nesse movimento pela exploração, a ganância pelo lucro prescindir do bem maior que é o meio ambiente, pode-se considerar o comprometimento das gerações atuais e futuras.

A diversidade biológica também é enorme nos fundos marinhos — grande parte ainda desconhecida —, e pode ser afetada de forma irreversível se os cuidados necessários não forem tomados. A obtenção desses recursos deve considerar os grandes custos envolvidos e ser feita para gerar e compartilhar prosperidade, sem inviabilizar a natureza.

Há quem se pergunte como contribuir para que a exploração não ocorra desnecessariamente e de modo predatório. Já é de grande valia uma atitude individual que considere o consumo de forma consciente e, melhor ainda, seria se, coletivamente, houvesse mais pressão para que as empresas desenvolvam produtos com maior eficiência e durabilidade, demandando menos recursos e reciclando materiais.


Felipe Toledo
Instituto Oceanográfico
Universidade de São Paulo

Tássia Biazon
Cátedra UNESCO para Sustentabilidade do Oceano
Universidade de São Paulo

*A coluna Cultura Oceânica é uma parceria do Instituto Ciência Hoje com a Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano da Universidade de São Paulo.
Revista Ciência Hoje

TRADUÇÃO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO PARA A GESTÃO DA SAÚDE


Aproximar pesquisadores e gestores na definição de projetos de pesquisa e democratizar o processo de decisão são medidas que podem contribuir para melhorar a gestão de organizações de saúde

CRÉDITO: FOTO ADOBE STOCK





Gerir serviços de saúde requer, entre outras coisas, o acesso a informações válidas e confiáveis e a capacidade de análise crítica da realidade. Nesse sentido, o conhecimento científico, construído com base em processos rigorosos de validação, pode ajudar os gestores da saúde a desempenhar suas funções.

No entanto, há muitos fatores que dificultam a utilização do conhecimento para a gestão. Curiosamente, entre esses fatores situam-se características das organizações de saúde e das instituições científicas.

Começando pelas organizações de saúde, que obstáculos se interpõem ao uso do conhecimento?

As organizações de saúde têm objetivos múltiplos e, às vezes, contraditórios, que vão desde a promoção da saúde da comunidade até a qualificação de sua força de trabalho, passando pela prestação de cuidados aos doentes e pela aquisição de recursos suficientes para sua manutenção. Mobilizam as atenções de uma ampla gama de agentes com interesses diversos e, eventualmente, divergentes: usuários, profissionais, representantes comerciais, agentes políticos, operadores do direito, jornalistas etc. E dependem do trabalho de profissionais que dispõem de um elevado grau de autonomia. Essa autonomia é, por um lado, essencial para o bom desempenho da organização de saúde, mas, por outro, desafia os gestores, impondo limites estreitos à sua autoridade.

Objetivos múltiplos, agentes diversos e interesses divergentes em um contexto dominado por profissionais mais atentos à sua autonomia do que às regras institucionais levam ao desenvolvimento de distintas racionalidades no interior da organização. À racionalidade técnica, associada ao conhecimento científico, se opõe, notadamente, a racionalidade política, que se refere às relações de poder entre os diversos agentes.

Não apenas as organizações de saúde, mas também as instituições científicas criam obstáculos ao uso do conhecimento.

Nem sempre os pesquisadores dão atenção aos problemas de interesse da gestão. Nessa situação, o conhecimento necessário ao gestor pode não estar disponível. Outras vezes, o conhecimento existe, mas é inacessível ao gestor, dado que divulgado apenas em publicações herméticas. Muitos resultados de pesquisa, fruto de experimentos controlados, são inaplicáveis em situações reais. Acrescente-se que os mecanismos de avanço na carreira científica não valorizam especialmente a relevância social da pesquisa.

Frente a essas dificuldades, a tradução do conhecimento surge como conjunto de estratégias para ampliar o uso de resultados de pesquisa e fortalecer a racionalidade técnica da gestão. Em que consiste esse conjunto de estratégias?

Em geral, a tradução do conhecimento se refere ao processo de síntese, disseminação, intercâmbio e aplicação do conhecimento, por meio da interação entre pesquisadores e interessados nos resultados de pesquisa, conforme definição bastante difundida do Instituto Canadense de Pesquisa em Saúde.

Especificamente, a estratégia mais efetiva de tradução reside na aproximação entre o potencial usuário da pesquisa e o pesquisador. Para começar, os gestores devem participar da definição das prioridades de pesquisa. Em seguida, gestores e pesquisadores podem conceber colaborativamente os projetos de pesquisa, de modo que a pergunta de investigação seja formulada de acordo com a necessidade de conhecimento da gestão. Além disso, devem-se multiplicar os canais de comunicação capazes de levar os resultados das pesquisas ao seu potencial usuário.

Uma segunda estratégia refere-se à disponibilização, para os gestores especificamente, de sínteses de pesquisa com diretrizes práticas. Nessa linha, são interessantes os fóruns e simpósios que reúnem pesquisadores e usuários de pesquisa para debater evidências e sua aplicação.

Uma terceira estratégia é a divulgação ampla do conhecimento científico existente, recorrendo-se aos meios de comunicação de massa e às mídias sociais. O que chama a atenção do público em geral desperta a atenção do gestor.

Há que se reconhecer, contudo, que essas estratégias são insuficientes.

O fortalecimento da racionalidade técnica das organizações exige, além da disponibilização do conhecimento, a mudança das regras dos jogos de poder. Se prevalecem as disputas entre interesses particulares, os argumentos técnicos são manipulados. De fato, é o interesse público que pode valorizar a razão técnica na tomada de decisão. E, para que prevaleça o interesse público, é preciso democratizar a gestão, ampliando a participação de trabalhadores e usuários dos serviços de saúde nos processos de decisão.

Enfim, a tradução do conhecimento comporta estratégias de disseminação de resultados de pesquisa, mas deve, para ser efetiva, se associar a transformações que favoreçam o exercício democrático da cidadania no interior das organizações.



Luis Eugenio de Souza
Instituto de Saúde Coletiva,
Universidade Federal da Bahia
Revista Ciência Hoje

segunda-feira, 20 de junho de 2022

Biodiversidade de árvores tropicais é maior na América do Sul



Florestas úmidas do continente tem quatro vezes mais espécies arbóreas do que na África



Jabuticabeira…Bruno Karklis / Wikimedia Commons

AAmérica do Sul é o continente com mais espécies de árvores conhecidas, cerca de 40% do total do mundo. Boa parte da riqueza em termos de biodiversidade arbórea se concentra em áreas tropicais. Em terras quentes há mais disponibilidade de água e as estações climáticas são pouco definidas, condições mais propícias para o florescimento de novas formas de vida vegetal do que nos ambientes temperados ou frios. Um estudo publicado em março no periódico científico PNAS indica que as florestas úmidas sul-americanas, como a Amazônia e a Mata Atlântica, têm quase quatro vezes mais espécies de árvores do que as matas africanas similares. Com menos intensidade, esse padrão se repete nas formações vegetais com disponibilidade de água mais limitada: biomas da América do Sul, como o Cerrado, abrigam o dobro de espécies arbóreas do que as savanas africanas.

Os pesquisadores não sabem porque a África tem menos espécies de árvores que a América do Sul, cujo território equivale a 59% daquele continente. Entre os possíveis fatores que podem explicar o fenômeno estariam a grande aridez e a redução da área florestal na África, além de uma maior fragmentação de sua cobertura vegetal em razão dos ciclos de glaciação ao longo de sua história geológica. Na América do Sul, a existência de uma maior disponibilidade hídrica e de ambientes naturais mais variados pode ter favorecido o surgimento de mais espécies.

Segundo o trabalho na PNAS, cerca de 50% da maior diversidade de espécies arbóreas tropicais na América do Sul pode ser debitada na conta do excepcional desenvolvimento de apenas oito ou nove grandes famílias de árvores. Nesse grupo, quatro famílias megadiversas se destacam: Fabaceae, as populares leguminosas, como o feijão, a lentilha e a ervilha e até o pau-brasil; Lauraceae, que incluem o abacateiro, a caneleira e o loureiro; Myrtaceae, com muitas espécies frutíferas, como jambeira, pitangueira, goiabeira e jabuticabeira; e Melastomataceae, que reúne espécies com papel de destaque em áreas sob restauro ambiental.

Esse número reduzido de grupos botânicos congrega muitas formas de vida vegetal em ambos os continentes, mas aqui a variedade de plantas tropicais é muito maior: 2.837 espécies na América do Sul ante 657 na África. “A maior parte das espécies dessas quatro famílias é de biomas quentes e úmidos, como a Amazônia e a Mata Atlântica, mas algumas também ocorrem em áreas mais secas”, comenta o biólogo brasileiro Pedro Luiz Silva de Miranda, principal autor do estudo, que atualmente faz estágio de pós-doutorado na Universidade de Liège, na Bélgica. Colegas de outras universidades da Europa e do Brasil também assinam o artigo.

… e Pau-brasil, duas espécies típicas da América do SulMiguel Boyayan / Revista Pesquisa FAPESP

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores consultaram vários bancos de dados internacionais que listam as espécies de árvores tropicais presentes na América do Sul e na África. Eles analisaram a composição de espécies encontradas em 1.444 áreas florestais (722 em cada continente) de biomas úmidos e secos, mas sempre quentes. Nesta margem do Atlântico, contaram 152 famílias e 8.842 espécies de árvores. Na outra, 131 famílias e 3.048 espécies. As famílias presentes nos dois continentes são 99 e abrangem 95% das espécies mapeadas na América do Sul e 97% da África. As famílias encontradas apenas em um dos continentes respondem por somente 5% das espécies de árvores sul-americanas e 3% das africanas.

Em linhas gerais, a flora de cada continente se organiza em torno dos mesmos grupos de espécies arbóreas. Tanto na América do Sul como na África, um número pequeno de famílias botânicas abrange boa parte das espécies de árvores locais. Na América do Sul, o papel daquelas quatro famílias megadiversas em termos de espécies é ainda mais preponderante. “Esse resultado intrigante passa uma importante mensagem para os pesquisadores da biodiversidade: dissecar os processos evolutivos dessas famílias-chave pode ser um caminho efetivo para desvendar os mecanismos por trás da formação e manutenção dos padrões de diversidade de plantas em savanas e florestas tropicais”, afirma o ecólogo Danilo Neves, da UFMG, que não participou do trabalho.

É comum os botânicos pensarem que ambos os continentes têm floras similares por terem formado uma massa continental contígua e única na parte oeste do antigo supercontinente austral Gondwana entre 550 milhões e 130 milhões de anos atrás. Esse longo período de história geológica partilhada teria levado à homogeneização das espécies vegetais antes da abertura do Atlântico Sul e a consequente separação da África da América do Sul.

Mas a análise dos dados de ocorrência de espécies arbóreas feita pelo novo estudo sugere que a realidade pode ter sido diferente. “Constatamos que a maior parte das famílias botânicas partilhadas pelos dois continentes surgiu quando ambos já estavam separados e isolados, depois da grande extinção de espécies ocorrida no final do período Cretáceo, há 65 milhões de anos”, comenta Miranda. “Portanto, as similaridades observadas estão ligadas, provavelmente, à dispersão de plantas da África para a América do Sul e vice-versa por meio de rotas que cruzaram o Atlântico.”

Artigo científico
MIRANDA, P. L. S. et al. Dissecting the difference in tree species richness between Africa and South America. PNAS. v. 19, n. 14. 29 mar. 2022.
Revista FAPESP

Floresta submarina



Recifes da foz do Amazonas podem ser maiores, mais profundos e complexos do que o previsto

Esponjas-do-mar e algas a 90 metros de profundidade, na área norte dos recifes da Amazônia


Levantamentos submarinos indicaram que os recifes na plataforma continental em frente à foz do rio Amazonas podem ser muito maiores, mais profundos e ricos em espécies de organismos aquáticos do que o previsto por meio das primeiras medições, realizadas em 2012 e em 2014 por sonar e dragas que varrem o fundo do leito marinho. Os recifes estão a 110 quilômetros (km) da costa e se estendem do Amapá até o Maranhão. Ali a água barrenta do Amazonas encontra a do Atlântico e a maré sobe de 6 a 8 metros (m) por dia. Como o próprio Amazonas – o maior rio do mundo, com margens de 50 km de largura, que despeja no mar cerca de 200 toneladas de água e 14 toneladas de sedimentos por segundo –, os recifes estão se revelando monumentais.

A área dos recifes pode ser seis vezes maior que os inicialmente estimados 9,5 mil quilômetros quadrados (km2), podendo chegar a até 56 mil km2, de acordo com as expedições realizadas em janeiro e fevereiro de 2017 e abril e maio de 2018 com o navio Esperanza, da organização não governamental Greenpeace, com pesquisadores das universidades da Paraíba, do Pará, do Rio de Janeiro e de São Paulo. Se confirmada, a área poderá ser maior que a do estado do Espírito Santo (46 mil km2).

Em setembro de 2017, com o Alucia, do Instituto Oceanográfico Woods Hole, dos Estados Unidos, um grupo de pesquisadores da Rede Abrolhos (abrolhos.org) percorreu a região e verificou que a profundidade dos recifes pode chegar a 350 m, quase três vezes mais que a inicialmente estimada. “Confirmamos que a paisagem é bastante fragmentada e descontínua, como outros recifes de bordas de plataforma continental”, diz o biólogo Rodrigo Moura, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador da viagem com o Alucia e da Rede Abrolhos.





As duas equipes reconhecem que se trata de uma área rica e complexa. “A diversidade de ambientes equivale à de florestas, com uma grande quantidade de espécies em uma área ampla”, observou o biólogo Ronaldo Francini Filho, professor da Universidade Federal da Paraíba e principal autor do artigo publicado em abril de 2018 na revista científica Frontiers in Marine Science com os resultados das viagens com o Esperanza. Segundo ele, “cada área está em diferentes estágios de desenvolvimento”, ora mais jovens, ora mais maduras, formando ou ocupando clareiras.

As formações se diferenciam na direção norte-sul. Segundo Moura, os recifes do litoral do Amapá são mais antigos (cerca de 14 mil anos), pararam de crescer e são constituídos principalmente por moluscos e outros invertebrados, mas não por corais. Os do Maranhão são mais jovens, ainda estão em crescimento e são formados por corais e algas calcárias. O biólogo Gilberto Amado, pesquisador do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, com outros especialistas da Rede Abrolhos, participou da viagem com o Alucia e verificou que a estrutura e a composição dos bancos de algas calcárias chamados rodolitos se torna mais complexa no sentido norte-sul, como descrito em um artigo de julho de 2018 na Journal of South American Earth Sciences.

“A maioria dos recifes de corais é de águas quentes, rasas e limpas, com muita luz e poucos nutrientes”, diz o oceanógrafo Nils Asp, professor da Universidade Federal do Pará, que participou de uma das viagens com o Esperanza. “Ali, na foz do Amazonas, é o contrário. Os sedimentos carregados pelo rio deixam a água turva, mas trazem muitos nutrientes, compensando a escassez de luz.” Outra peculiaridade é a variação de acidez, da salinidade e da turbidez da água, como resultado do encontro do rio com o oceano.

No fundo da plataforma em frente à foz do maior rio do mundo estendem-se recifes e rodolitos com centenas de quilômetros de extensão. Sobre essa superfície, grandes esponjas amarelas, vermelhas, negras e brancas dominam a paisagem. “Por causa do volume de nutrientes, é um ambiente ideal para esponjas, que são organismos filtradores”, comenta Moura. Por enquanto, os pesquisadores identificaram cerca de 70 espécies de peixes, incluindo algumas raras no litoral brasileiro, como o pargo, de até 1 m de comprimento, e o mero, que pode chegar a 3 m. Até agora, as expedições registraram também cerca de 80 espécies de esponjas e 40 de corais, muitas delas semelhantes às encontradas nos recifes dos arquipélagos de Fernando de Noronha e de Abrolhos.


O volume de nutrientes da foz do Amazonas é um ambiente ideal para as esponjas coloridas, que dominam a paisagem

Uma equipe da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), coordenada pela engenheira de pesca Sigrid Neumann Leitão, identificou comunidades complexas de organismos que flutuam na água, o chamado zooplâncton. Os pesquisadores contabilizaram 197 espécies de zooplâncton, predominando os crustáceos milimétricos parecidos com insetos, os copépodes, com 92 espécies. Como detalhado em um artigo de março de 2018 na Frontier in Microbiology pelo grupo de Pernambuco, a densidade variou de 2,6 milhões de indivíduos por metro cúbico (m3) nas áreas mais próximas da foz a 107 indivíduos por m3 nas mais distantes, em razão do volume de sedimentos.

Nos recifes vivem duas espécies de peixes azulados conhecidos como donzela (Chromis spp.) e comuns no mar do Caribe, a cerca de 2 mil km de distância. Essa e outras indicações reforçam a hipótese de que os recifes poderiam funcionar como um corredor – e não como uma barreira, como também se cogitava – entre o mar do norte da América do Sul e o litoral ao sul do Maranhão. “Desde a década de 1970 se pensava que peixes e outros organismos poderiam passar de pouco em pouco pelo fundo da foz e poderia haver intercâmbio genético entre organismos do Caribe e do litoral ao sul da foz do Amazonas”, diz o biólogo Sergio Floeter, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coordenador da Rede Nacional de Pesquisa em Biodiversidade Marinha (Sisbiota-Mar). “Agora temos mais evidências dessa conexão.”

Escarpas no fundo da foz
No assoalho marinho, há escarpas, semelhantes a falésias, com quilômetros de extensão e até 70 m de altura. “Acreditava-se que nessa parte da plataforma continental a areia e a lama, acumuladas ao longo de 10 milhões de anos, já teriam coberto todo o fundo”, diz Asp. Segundo ele, os degraus poderiam ser consequência da erosão causada pela água do mar há 18 mil anos, quando o nível do oceano estava cerca de 120 m abaixo do atual. As escarpas, portanto, marcariam o limite do nível do Atlântico no último período glacial, quando grandes áreas do planeta estavam cobertas por gelo, ou expressariam mudanças no curso do rio Amazonas, cuja água poderia ter escavado as rochas. Ou ainda, como uma terceira hipótese, os degraus resultariam do peso dos sedimentos. Nesse caso, teria ocorrido uma espécie de efeito gangorra: o rebaixamento de trechos da foz do Amazonas teria levantado outras áreas, como o leste da ilha de Marajó.


“Os recifes do Amazonas são um ambiente único, que ainda está sendo descoberto. Ninguém imaginava que pudesse ser tão grande”, diz a bióloga Helena Spiritus, do Greenpeace. Essa área, enorme e rica, está sendo estudada somente agora porque, até a metade da década de 1970, os cientistas tinham como certo que o volume de areia e lama despejada pelo rio no mar impediria a penetração de luz e a formação de qualquer tipo de ambiente. Aos poucos, as evidências diluíram o pressuposto.

Há informações escassas sobre a foz do Amazonas desde os anos 1950. Na década de 1960, o oceanógrafo John Milliman, de Woods Hole, e o geólogo Henyo Barreto, da Petrobras, identificaram uma estrutura rochosa rica em carbonatos na região. Em 1977, dois biólogos do Museu de História Natural dos Estados Unidos, Bruce Collette e Klaus Rützler, apresentaram uma lista de 45 espécies de peixes e 35 de esponjas típicas de recifes, coletados ao largo da boca do rio.

Em julho de 1998, Moura, Francini e o biólogo Ivan Sazima, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), seguiram além do parcel de Manuel Luís, no Maranhão, até então o banco de corais mais ao norte do Brasil, entraram em águas ainda mais setentrionais da costa brasileira e encontraram seis espécies de corais que não haviam sido relatadas nessa parte do litoral. “Os pescadores falavam que ao norte do parcel havia muito recife”, lembra Francini. A pesca de pargo e da lagosta na região também indicava que o fundo deveria ser sólido; não apenas lama, mas as dificuldades logísticas e financeiras dificultaram a organização de expedições. Até que em 2012 uma equipe coordenada por Moura, da UFRJ, percorreu a área a bordo do navio Atlantis, do Woods Hole.

A inquietação convive com o deslumbramento das descobertas porque a foz do Amazonas tem sido visada para a exploração de petróleo e gás natural. Em 2013, em uma licitação internacional, o governo federal ofereceu 125 áreas, das quais 39 foram adquiridas por empresas nacionais e multinacionais. No final de maio, ao voltar da segunda expedição à foz do Amazonas, Francini enviou um ofício à Procuradoria Geral da União, com fotos submarinas dos recifes, requisitando o bloqueio do pedido de licenciamento ambiental feito por uma empresa petrolífera interessada em explorar uma área da região.

Artigos científicos
MOURA, R. L. et al. An extensive reef system at the Amazon River mouth. Science Advances. v. 22, n. 2, e1501252, abr. 2016.
FRANCINI-FILHO, R. B. et al. Perspectives on the Great Amazon Reef: Extension, Biodiversity, and Threats. Frontiers in Marine Science. v. 5, p. 1-5, abr. 2018.
COLLETTE, B. B., and RUETZLER, K. Reef fishes over sponge bottoms off the mouth of the Amazon River. Proceedings of the 3rd International Coral Reef Symposium. v. 3, p. 305-310, mai. 1977.
NEUMANN-LEITÃO, S. et al. Zooplankton From a Reef System Under the Influence of the Amazon River Plume. Frontiers in Microbiology. v. 9, p. 1-15, mar. 2018.
MOURA, R. L. de et al. Unexpected richness of reef corals near the southern Amazon River mouth. Coral Reefs. v. 18, n. 2, p. 170, jul. 1999.
VALE, N. F. et al. Structure and composition of rhodoliths from the Amazon River mouth, Brazil. Journal of South American Earth Sciences. v. 84, p. 149-159, jul. 2018.
CORDEIRO, R.T.S. et al. Mesophotic coral ecosystems occur offshore and north of the Amazon River. Bulletin of Marine Science. v. 91, n. 4, p. 491-510, out. 2015.
MILLIMAN, J. D. et al. Quaternary sedimentation on the Amazon continental margin: A model. Geological Society of America Bulletin. v. 86, p. 610-614, 1975.
Revista FAPESP

Revelações de um arquipélago submerso



Praias, rios e manguezais cobriam cadeia montanhosa que estava acima do nível do mar há 40 milhões de anos
Peixes de mar profundo do gênero Allocyttus e corais negros dos gêneros Stichopathes (no alto) e Bathypathes (à esq.) na região central do platô da Elevação do Rio Grande



Até afundar no oceano Atlântico, há cerca de 40 milhões de anos, a Elevação do Rio Grande, a maior cadeia montanhosa submersa da margem continental brasileira, deve ter sido um arquipélago com acidentes geográficos como os encontrados hoje ao longo do litoral. Em uma expedição com o navio de pesquisa Alpha Crucis em janeiro e fevereiro de 2018, uma equipe do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) mapeou os topos aplainados da elevação e identificou terraços marinhos dispostos em degraus, com canais fluviais, dunas, cavernas e resquícios de manguezais. As dragas trouxeram à tona amostras de rochas vulcânicas e corais e esponjas que cresciam nas paredes de uma fenda que corta o centro das três partes da elevação. Os resultados da viagem foram detalhados em um artigo publicado em maio na revista científica Frontiers in Marine Science.

Situada a 1.300 quilômetros (km) de Porto Alegre, com cerca de 150 mil km2, o equivalente a três vezes a área do estado do Rio de Janeiro, e profundidades que variam de 700 a 2 mil metros (m), a Elevação do Rio Grande tem sido mais estudada nos últimos anos por causa de seu valor econômico. Em 2015, a Autoridade Internacional do Fundo Marinho (ISA) concedeu à Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), empresa pública vinculada ao Ministério de Minas e Energia, o direito de investigar por 15 anos as possibilidades de exploração econômica das crostas de ferro e manganês das rochas da elevação, ricas em cobalto, níquel, molibdênio, nióbio, platina, titânio, telúrio e outros elementos químicos. Em um levantamento preliminar, apresentado em um congresso de 2015 na Flórida, Estados Unidos, a CPRM relatou a identificação de 9.729 km2 com alta reflectância (reflexo da radiação), indicando a provável ocorrência de crostas de ferro e manganês. Em dezembro de 2018, o governo brasileiro solicitou à Organização das Nações Unidas a ampliação da plataforma continental para além das 200 milhas marítimas (370 km) para incluir a elevação.

O alto da montanha: Os degraus dos terraços marinhos (à esq.) poderiam resultar da erosão costeira e o cânion (à dir.) de antigos rios, no topo do Rio Grande, entre 600 e 800 metros de profundidadeRaylla Souza Silva/IO-USP

“Precisávamos de dados técnicos para consolidar a reivindicação brasileira”, diz o geólogo Roberto Ventura Santos, ex-diretor da CPRM e professor da Universidade de Brasília (UnB). Por sua vez, pesquisadores de instituições públicas de pesqui-sa do Brasil e de outros países, como o Serviço Geológico dos Estados Unidos e a Universidade de Kingston, do Reino Unido, promoveram expedições com o propósito de conhecer a região. Como resultado, a história dessa região submersa está sendo pouco a pouco recuperada. O que hoje é uma cadeia de montanhas sob o mar deve ter sido parte do supercontinente Gondwana. Em consequência de processos tectônicos e do calor do interior da terra que subia para onde hoje está o arquipélago de Tristão da Cunha, quase no meio do Atlântico, Gondwana começou a se quebrar entre 146 milhões e 100 milhões de anos atrás, formando as atuais América do Sul e África.

Com base na análise das fraturas do assoalho oceânico e dos movimentos das placas tectônicas, a geofísica Michelle Graça, da CPRM, em um estudo realizado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e na Universidade de Liverpool, Inglaterra, concluiu que até cerca de 80 milhões de anos atrás a Elevação do Rio Grande deveria estar unida – ou ao menos próxima – à cadeia Walvis, um conjunto de montanhas com 3 mil km de extensão a 600 km da Namíbia, na África. Os movimentos das placas tectônicas e os jatos de magma do interior da Terra separaram as duas elevações e deram a elas suas atuais feições, a Walvis em formato de cadeia montanhosa e a Rio Grande como um platô, com topo achatado, como detalhado em um artigo publicado em março na Marine and Petroleum Geology.

Anêmona do gênero Paraphelliactis, do platô da elevaçãoPaulo Vinicus Ferraz Corrêa/IO-USP

“As duas elevações estavam separadas há 50 milhões de anos”, observa Graça. Segundo ela, a Elevação do Rio Grande parou de se formar e, segundo coletas recentes, abriga blocos de rochas com idades de cerca de 83 milhões e 47 milhões de anos. Em contrapartida, a Walvis continua se formando como resultado da subida de magma, com blocos de rochas com 1 milhão a 30 milhões de anos na região mais próxima de Tristão da Cunha e de até 114 milhões de anos na costa da Namíbia.

De acordo com análises do grupo de Santos, publicadas em maio na revista Terra Nova, a expulsão de lava mais recente da elevação deve ter ocorrido entre 44 milhões e 40 milhões de anos, quando a cadeia montanhosa ainda estava acima do nível do mar. Nessa época, começou a submergir “provavelmente em consequência do peso de um vulcão e da lava e da movimentação de placas tectônicas que fizeram a crosta afundar”, pondera o geólogo Luigi Jovane, do IO-USP e coordenador da expedição com o Alpha Crucis à região, em colaboração com britânicos e norte-americanos. “Mas ainda vimos muito pouco”, aflige-se. A expedição da USP examinou apenas a parte mais rasa de um dos três blocos rochosos da Elevação do Rio Grande.

Curiosamente, a área que o governo brasileiro reivindica é formada por antigos blocos do atual continente africano, de acordo com os estudos mais recentes. “As rochas da Elevação do Rio Grande pertenceram ao lado africano do Gondwana”, afirma Graça. Santos, da UnB, chegou à mesma conclusão: “A composição e a idade das rochas da Elevação do Rio Grande que analisamos são mais próximas das do continente africano”. A ideia de que essa cadeia de montanhas poderia fazer parte da África emergiu em 2011, quando geólogos da CPRM coletaram ali amostras de granito e gnaisse com até 2,2 bilhões de anos, mais antigas que as rochas do assoalho marinho, que chegam a no máximo 240 milhões de anos. A descoberta mudou o olhar sobre essa região, até então vista como resultado da formação do assoalho oceânico e de erupções vulcânicas.


Ambiente frágil
Dois anos depois, por meio de um minissubmarino de pesquisa de águas profundas, pesquisadores brasileiros e japoneses colheram outras amostras de rochas continentais, cuja análise reforçou a hipótese de que essa região do Atlântico Sul poderia de fato ser um pedaço de continente que teria submergido durante a separação da América do Sul e da África. Segundo Santos, as duas elevações podem ser os pedaços que faltavam para completar o quebra-cabeça da junção entre a América do Sul e da África. Enquanto o litoral do nordeste brasileiro encaixa-se bem com o oeste da África, o sudeste e o sul não casam com o sul do continente africano.

“É um ecossistema peculiar”, comenta o biólogo Paulo Sumida, do IO-USP, que participou da expedição à região. Sua equipe encontrou ali uma das primeiras ocorrências no Atlântico Sul da associação simbiótica entre a esponja Sarostegia oculata e a anêmona Thoracactis topsenti, formando ramificações semelhantes às de corais. O biólogo Paulo Corrêa, também do IO, está descrevendo os padrões de biodiversidade da região, com prováveis espécies novas. Trata-se também de um ambiente frágil, “de renovação muito lenta”, observa Sumida.

Estrela-do-mar da família Solasteridae, capturada na margem de um cânionVinicus Ferraz Corrêa /IO-USP

Bactérias capazes de produzir oxigênio a partir de amônia e de sulfato parecem ser as principais fontes de energia para os organismos da Elevação do Rio Grande, de acordo com a bióloga do IO-USP Vivian Pellizari. “As crostas de ferro e manganês sobre as rochas abrigam comunidades microbianas próprias e uma diversidade biológica menor que a dos sedimentos próximos”, diz ela, com base em um trabalho da oceanógrafa e doutoranda do IO Natascha Bergo sobre a origem das crostas.

Os pesquisadores estão inquietos com os possíveis impactos da exploração econômica, embora ainda não existam tecnologias para extrair minérios do fundo do mar. “Muitos organismos que estão lá refletem a vida nos oceanos há milhões de anos, quando não havia oxigênio na atmosfera”, diz o biólogo Frederico Brandini, também do IO, que observou que as águas do alto da Elevação do Rio Grande são pobres em nutrientes. Sumida acrescenta: “Qualquer intervenção pode facilmente levar os organismos à extinção”.

Projeto
Marine ferromanganese deposits: A major resource of E-tech elements (nº 14/50820-7); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Frederico Pereira Brandini (USP); Investimento R$ 8.823.844,62.

Artigos científicos
JOVANE, L. et al. Multidisciplinary Scientific Cruise to the Rio Grande Rise. Frontiers in Marine Science. v. 6, a252, p. 1-7. 24 mai. 2019.
SANTOS, R. V. et al. Dating Gondwanan continental crust at the Rio Grande Rise, South Atlantic. Terra Nova. On-line. 2 mai. 2019.
Revista FAPESP

De Tonga a São Paulo



Pluma da grande erupção vulcânica que ocorreu em janeiro na ilha do Pacífico é observada 27 quilômetros acima da capital paulista


A pluma atmosférica liberada pela erupção do vulcão de Tonga vista da Estação Espacial Internacional

Nasa Earth ObservatoryMarcos Pivetta



À1h56 da madrugada de 26 de janeiro, o radar meteorológico instalado no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) registrou uma concentração de aerossóis, finas partículas em suspensão, cerca de 27 quilômetros (km) acima da cidade de São Paulo. A ocorrência tinha forma similar à de uma linha contínua que riscava a parte de cima da imagem que representava a área de céu observada. Tratava-se de um evento bastante raro, já dentro dos domínios da estratosfera, a segunda camada da atmosfera terrestre, logo após a troposfera, que se inicia entre 16 e 18 km de altitude na capital paulista e vai até 50 km.

Em noites sem chuva e com pouca névoa, como era aquela do verão paulistano, o radar costuma flagrar dois tipos de manchas horizontais no céu. A mais comum, e mais grossa, situa-se entre 3 e 4 km de altitude e representa o acúmulo da poluição atmosférica produzida por carros, indústrias e demais atividades da metrópole. A outra, menos densa e nem sempre presente, forma-se por volta dos 10 km de altitude e indica a existência de nuvens do tipo cirrus, constituídas por vapor-d’água supersaturado e cristais microscópicos de gelo. A única explicação plausível para um registro tão chamativo de aerossóis acima dos 20 km de altitude naquela madrugada era de que as cinzas de uma grande erupção vulcânica recente tinham alcançado a estratosfera.

“A última vez que tínhamos visto algo parecido foi em 2015, quando o vulcão chileno Calbuco entrou em atividade. Mas sua pluma de aerossóis atingiu no máximo 17 km de altitude”, conta o físico Eduardo Landulfo, coordenador do Laboratório de Aplicações Ambientais de Laser do Ipen, que gerencia o uso do radar. “Não esperávamos que o radar tivesse capacidade técnica para registrar aerossóis até quase 30 km de altitude.” Landulfo é um dos principais pesquisadores de um projeto financiado pela FAPESP que estuda a qualidade do ar na Região Metropolitana de São Paulo.


A erupção do vulcão de TongaCSU / CIRA e JAXA / JMA

A inusual concentração de partículas suspensas observada pelo radar era resultado da grande erupção de 15 de janeiro do vulcão submerso encravado na ilhota de Hunga Tonga-Hunga Haʻapai, situada 65 quilômetros ao norte da principal ilha do arquipélago de Tonga, no sul do Pacífico. A atividade da caldeira foi tão intensa que o território de Hunga Tonga-Hunga Haʻapai se partiu em dois. Logo após o cataclismo, pesquisadores de países do hemisfério Sul, como Austrália e Nova Zelândia, começaram a acompanhar a pluma por meio de radares, satélites e outros instrumentos.

A forte explosão vulcânica em Tonga provocou um tsunami com ondas de até 15 metros de altura que atingiu as ilhas do arquipélago, onde vivem 100 mil habitantes. Pelo menos seis pessoas morreram e milhares foram desabrigadas. O barulho da erupção foi ouvido a quase 2 mil quilômetros de distância, na Nova Zelândia. Uma gigantesca pluma de cinzas decorrentes da atividade vulcânica, que se prolongou por 11 horas, cobriu Tonga. Ela é formada basicamente por gases à base de enxofre, vapor-d’água e dióxido de carbono.

Em meados de fevereiro, pesquisadores da Nasa, agência espacial norte-americana, fizeram uma análise preliminar de dados de dois satélites meteorológicos geoestacionários, o Goes-17 e o Himawari-8, e concluíram que a pluma vulcânica do Hunga Tonga-Hunga Haʻapai (o vulcão é chamado com o nome da ilhota) atingiu a maior altitude já registrada por esse tipo de fenômeno. Trinta minutos após a explosão da caldeira, essa mistura de gás, vapor e cinzas expelida pelo monte submerso no Pacífico Sul chegou a 58 km de altitude. A pluma penetrou na mesosfera, a terceira camada da atmosfera, que se estende aproximadamente entre 50 e 100 km de altitude. “A intensidade desse evento excede em muito a de qualquer nuvem de tempestade que já estudei”, comentou o cientista do clima Kristopher Bedka, do Centro de Pesquisa Langley da Nasa, em comunicado à imprensa. O recorde anterior pertencia à pluma da erupção do vulcão Pinatubo, nas Filipinas, em 1991, que tinha alcançado 35 km de altitude.


Satélite captou a evolução da erupção submarina e a liberação da pluma vulcânicaNasa Earth Observatory

Erupções vulcânicas tão potentes a ponto de conseguir impulsionar seu rastro de fumaça até a estratosfera podem alterar temporariamente o clima global, mais especificamente reduzir a temperatura média do planeta por meses. Os aerossóis bloqueiam a chegada à Terra de parte da luz solar e esfriam o ambiente (ver Pesquisa FAPESP nº 308). Daí o interesse que esses eventos extremos provocam em pesquisadores das ciências atmosféricas, além, claro, dos próprios geólogos e vulcanólogos. “Os aerossóis do Pinatubo resfriaram a temperatura do planeta em cerca de 0,6 °C por quase dois anos”, diz a física Márcia Akemi Yamasoe, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP). “Mas ainda é cedo para prevermos se a erupção de Tonga vai ter algum impacto semelhante no clima global.”

Diferentemente do que ocorre na troposfera, a primeira camada da atmosfera, não há nuvens de chuva na estratosfera ou na mesosfera. Essa característica dificulta e torna mais lenta a dispersão dos poluentes nas altas camadas da atmosfera, como ocorreu até agora com a pluma do vulcão de Tonga. “Os aerossóis podem ficar circulando por meses e até anos em torno do globo terrestre”, diz Landulfo.

O radar meteorológico do Ipen emprega a tecnologia de LiDAR, um método de sensoriamento remoto que usa o laser para medir a localização de objetos em relação à superfície terrestre. Como a velocidade da luz é conhecida (cerca de 300 mil km por segundo), o tempo necessário para que um feixe de laser seja emitido, refletido por uma camada de aerossóis e volte para sua fonte fornece a distância exata dessa nuvem de partículas em suspensão.


Radar meteorológico do Ipen mostra a pluma vulcânica da erupção do vulcão de Tonga 27 km de altitude sobre São Paulo (linha esverdeada no alto da imagem)Fábio Juliano da Silva Lopes / Ipen

O equipamento do Ipen é programado para registrar especificamente a presença de aerossóis que variam de poucos nanômetros a alguns micrômetros, como poluição urbana, fumaça de queimadas, vapor-d´água e grãos de poeira. Ele é prioritariamente usado para estudar a qualidade do ar e o clima na região metropolitana da capital paulista e faz parte da Latin American LiDAR Network (Lalinet).

“Desde que identificamos a pluma da erupção do vulcão de Tonga pela primeira vez, temos seguido sua movimentação com o radar sempre que as condições de observação noturna são boas”, diz o físico Fábio Juliano da Silva Lopes, que faz estágio de pós-doutorado no grupo de Landulfo no Ipen. Em certos dias, os pesquisadores do instituto viram que a pluma, na verdade, divide-se em três segmentos situados em altitudes diferentes, por volta dos 22, 25 e 27 km.

Dados preliminares de registros internacionais indicam que a erupção do monte submarino de Tonga atingiu provavelmente o nível 5 do Índice de Explosividade Vulcânica (VEI), uma escala logarítmica que vai de 0 a 8, do nível mais fraco ao mais forte. O número reflete uma classificação relativa da potência desse tipo de evento, similar à fornecida pela mais conhecida escala Richter, que dimensiona a magnitude de terremotos. Desde a erupção de 1991 do Pinatubo, que chegou ao nível 6 no VEI, não havia registro de uma explosão vulcânica tão potente, como a ocorrida no início do ano nos arredores do arquipélago do Pacífico Sul.


O arquipélago de Tonga fica no Pacífico Sul (ver globo). A erupção fez submergir quase toda a ilhota de Hunga Tonga-Hunga Ha‘apai, da qual restaram duas pequenas pontas em lados opostosNasa Earth Observatory

Vulcões em águas profundas raramente provocam grandes erupções que conseguem vencer a resistência do mar que os cobre. Normalmente, a presença do oceano represa substancialmente sua força explosiva. “Mas a erupção de Tonga foi tão intensa que compensou o fato de ter ocorrido debaixo d’água. É a primeira vez que um evento tão específico como esse do Pacífico Sul é observado por satélites, radares de LiDAR e outros instrumentos de sensoriamento remoto, todos desenvolvidos na segunda metade do século XX”, diz o físico cubano Juan Carlos Antuña-Marrero, da Universidade de Valladolid, na Espanha, especialista no estudo de aerossóis, em entrevista a Pesquisa FAPESP.

A base da ilhota de Hunga Tonga-Hunga Haʻapai se situa a 2 mil metros de profundidade, no assoalho do oceano, e faz parte do arco de Tonga-Kermadec, sujeito a terremotos e formado por uma cadeia de vulcões submarinos. Mas a boca do vulcão que entrou em atividade intensa em 15 de janeiro se encontrava apenas entre algumas dezenas e 250 metros debaixo d’água. Ou seja, raso o suficiente para que o oceano não suprimisse toda a força da erupção, mas profundo o bastante para que o magma expelido deparasse com um ingrediente explosivo. A lava aquece rapidamente a água que se transforma em vapor, gás que se expande de forma acelerada. Essa peculiaridade talvez explique a altura elevada que a pluma da erupção atingiu.

Apesar de não ter sido tão potente quanto a erupção do Pinatubo, a explosão do vulcão de Tonga tem produzido dados surpreendentes em menos de um mês de estudos. Nas horas seguintes ao evento no Pacífico, o satélite Aqua, da Nasa, observou a produção de ondas de choque, círculos concêntricos, que percorreram várias vezes a atmosfera de todo o globo terrestre. As ondas se iniciavam na superfície do oceano e atingiam até a ionosfera, a mais de 100 km de altitude.

Nas próximas semanas, Landulfo, Antuña-Marrero e outros pesquisadores do Brasil e do exterior devem realizar estudos conjuntos para tentar entender as características da pluma do vulcão de Tonga e seus possíveis impactos climáticos. O pesquisador do Ipen está em negociações com colegas da Nasa para soltar balões meteorológicos que podem chegar até a altura da pluma para realizar medições in loco. Isso já foi feito nas ilhas Reunião, no oceano Índico, de onde também se avista o rastro de fumaça da erupção de Tonga na troposfera. Até o fechamento desta reportagem, o radar do Ipen ainda registrava a pluma vulcânica cerca de 30 km acima da cidade de São Paulo.

Projeto
Área metropolitana de São Paulo: Abordagem integrada mudanças climáticas e qualidade do ar, Metroclima Masp (nº 16/18438-0); Modalidade Projeto Temático; Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG); Pesquisadora responsável Maria de Fátima Andrade (USP); Investimento R$ 5.763.389,75.
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