quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Tempestades a ameaça que vem do céu
A elevação da temperatura média global deverá aumentar a ocorrência de tempestades severas no mundo ao longo deste século, causando perdas humanas e materiais significativas. Grandes cidades provavelmente sofrerão as consequências mais pesadas dessa mudança

Por Eduardo Araia

Mauricio Lima/AFP
Nuvens de tempestade se acumulam na região do aeroporto de Congonhas, em São Paulo. As grandes cidades sofrerão mais com esse fenômeno climático no século 21.

As nuvens escuras se acumulam, o vento passa a soprar mais forte e a chuva enfim desaba, grossa, acompanhada de relâmpagos e trovões: eis a síntese de um temporal daqueles que nós, habitantes dos trópicos, estamos acostumados a ver. Mas as tempestades do século 21 parecem estar vindo em novas versões, atualizadas, aprimoradas – e muito mais perigosas. Que o digam cariocas e paulistanos, por exemplo. A região metropolitana do Rio de Janeiro entrou em colapso em abril, com 14 horas sucessivas de chuva que resultaram em mais de 230 mortes e cerca de 11 mil desabrigados. Choveu praticamente todo dia no verão deste ano em São Paulo, e o saldo da temporada foi de 18 mortes (ante apenas 4 no ano passado na mesma estação), mais de 2.500 pessoas desabrigadas e enormes transtornos para a cidade.
Os temporais entram na categoria de eventos extremos previstos como uma das consequências do aquecimento global. De acordo com um estudo da Universidade de Purdue (Estados Unidos) divulgado no fim de 2008, as elevações de temperatura derivadas das mudanças climáticas já são suficientemente significativas para provocar um aumento no número de tempestades severas (caracterizadas por chuvas pesadas, inundações repentinas, ventos destruidores, relâmpagos, queda de granizo e eventual formação de tornados). A pesquisa mostrou ainda que, por volta do final deste século, o número de dias favoráveis à ocorrência de tempestades severas poderá mais que dobrar em determinadas localidades com grande concentração populacional, nas quais se incluem metrópoles como Nova York e Atlanta. Tal incremento ocorreria justamente nas temporadas típicas de tempestades, em vez dos meses mais secos, e elevaria os riscos para a vida e as propriedades dos habitantes dessas regiões.
É um problema e tanto, principalmente se considerarmos que, a qualquer momento, 2 mil tempestades com trovoadas se desenvolvem no mundo, segundo o Laboratório Nacional de Tempestades Severas (NSSL, na sigla em inglês), órgão ligado à Administração Nacional Oceanográfica e Atmosférica (NOAA) – a agência do Departamento de Comércio dos Estados Unidos voltada para meteorologia, oceanos, atmosfera e clima. Pelo levantamento do NSSL, as tempestades severas respondem anualmente por cerca de US$ 2 bilhões em danos materiais e mais de 100 mortes apenas nos EUA.

TEMPESTADES SEVERAS AUMENTAM COM CLIMA ALTERADO


Imaginechina/AFP
Avenida de Beijing começa a alagar, na maior tempestade de 2009 registrada na capital chinesa. A impermeabilização do solo das grandes cidades faz com que ele absorva mais calor na comparação com a zona rural.

A formação de um temporal não é difícil. As nuvens de tempestade surgem à medida que a umidade evapora do solo e segue rumo à atmosfera. Conforme atinge altitudes mais elevadas, o ar se resfria rapidamente. Uma frente fria (a fronteira que marca o encontro de uma massa de ar frio com o ar circundante) ou uma sucessão de colinas ajudam a empurrar o ar quente e úmido para cima, onde a temperatura está mais baixa. O ar úmido se resfria e condensa o vapor d’água em pequenas partículas na parte da nuvem denominada núcleo de condensação (fragmentos de matéria sólida que retêm água, como poeira e fumaça). Conforme mais vapor d’água se transforma em líquido e mais ar úmido se aquece e se movimenta para cima na atmosfera, gotas d’água maiores e mais pesadas se formam, criando-se assim as condições paEsse fenômeno natural ganhou novos contornos com a participação humana. Um deles são as cidades, onde asfalto e concreto absorvem mais calor comparado ao que ocorre na zona rural e os edifícios impedem o fluxo livre do ar. A poluição e até eventos localizados de duração relativamente curta, como os congestionamentos de trânsito, também apresentam impactos nesse setor.

Sul mais úmido, Nordeste mais seco

No Brasil, as tempestades da era do aquecimento global vão castigar sobretudo a Região Sul, onde o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) constatou que, nos últimos 100 anos, houve maior número de dias com alta umidade do ar e dias chuvosos, afirma o meteorologista José Fernando Pesquero, do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/Inpe). Muitos gaúchos, catarinenses e paranaenses, habituados a conviver com inundações nos últimos anos, certamente dão razão a ele. Por outro lado, a área central do Nordeste e a parte norte do Sudeste tenderão a enfrentar cada vez mais a seca. “São Paulo e Rio estão em uma área de transição entre dois extremos, o que mostra que sobre essas cidades há grande variação entre períodos muito secos e outros muito chuvosos”, ressalta Pesquero. O meteorologista é cauteloso ao falar de uma relação próxima entre fatos isolados como tempestades e o cenário de aquecimento global. “Precisamos analisar uma área maior por um longo período, de no mínimo 30 anos”, avalia. De qualquer modo, ele observa que a temperatura do planeta já está quase 0,8ºC acima do normal, o que aumenta em cerca de 5% a taxa de umidade habitual na atmosfera. O resultado disso, afirma Pesquero, é um incremento significativo de precipitações onde existem precipitações e secas onde já se registra ausência de chuvas.


Hemis.fr/AFP
O mar de edifícios que domina a paisagem de metrópoles como São Paulo impede o fluxo livre do ar.

Os efeitos das cidades sobre o clima foram objeto de um amplo estudo ainda nos anos 1970: o Metropolitan Meteorological Experiment (Metromex), que durante seis anos acompanhou a atmosfera durante o verão sobre a área metropolitana de Saint Louis, no Estado de Illinois (EUA). Os pesquisadores concluíram que o ambiente urbano causou um aumento de 45% nas trovoadas e de 83% em raios, afora um incremento de chuvas entre 5% e 25% com o vento próximo da cidade e soprando em sua direção. Os dados coletados mostraram que houve ainda mais dias com granizo e maior intensidade de queda dessas pedras.

De acordo com o hidrometeorologista Alexandros Ntelekos, que avalia riscos de catástrofes para a corretora de seguros Willis Analytics, de Londres, são três as principais maneiras pelas quais as cidades modificam a dinâmica dos temporais:

1 ILHA DE CALOR URBANA – O concreto e o asfalto que recobrem as vias urbanas se aquecem mais rapidamente durante o dia na comparação com florestas e pastagens. Além disso, o consumo de energia também libera calor. Ntelekos ressalta que o resultado é uma diferença de temperatura no solo de até 3ºC na comparação com a zona rural circundante (mas em São Paulo esse intervalo já chegou a 10ºC, observa o meteorologista do Inpe José Fernando Pesquero). Como as temperaturas nas camadas mais altas da atmosfera não são afetadas, o ar dessa ilha de calor, mais dinâmico, subirá numa corrente ascendente até encontrar um volume de ar que esteja com a mesma intensidade. Está, assim, preparada uma tempestade. “Massas de ar que se aproximam serão aquecidas e erguidas quando chegarem perto da cidade; o ar ficará saturado e você poderá ter mais chuva”, afirma Ntelekos.

2 EDIFÍCIOS E INFRAESTRUTURA – Ao chegar à cidade, o vento é obstruído no nível do solo pelas construções humanas. Enquanto seu avanço é retardado, mais ar continua a chegar, o que acaba por formar uma “represa” de ar. Isso faz com que uma parcela desse ar suba ao longo da obstrução. Se ele estiver suficientemente úmido e ocorrer condensação, as condições para um temporal estarão formadas.

Ntelekos analisou os dados de uma tempestade severa sobre Baltimore (EUA), em 2004, que foi recordista em termos de chuva e raios observados. Pelos cálculos do hidrometeorologista, a cidade recebeu então cerca de 30% mais chuva do que teria ocorrido se não houvesse prédios ali.

3 POLUIÇÃO – Esse fator ainda não é suficientemente compreendido, mas Ntelekos e outros cientistas, como Daniel Rosenfeld, da Universidade Hebraica de Jerusalém, já notaram que ele tanto amplifica como evita as tempestades. Concentrações maiores de partículas poluentes levam à formação de um número maior de gotículas d’água menores, as quais precisam de mais tempo para se agrupar em gotas de chuva. Isso atrasa o início das precipitações, mas também pode prolongar a duração da tempestade. Segundo Rosenfeld, em certos casos a duração mais longa favorece o transporte de mais água em estado líquido para a parte superior da nuvem, onde ela se congela, liberando calor e, posteriormente, fortalecendo a tempestade.

Campeão mundial de raios
É um título que não merece comemoração: o Brasil ocupa a liderança mundial na incidência de raios. Em uma década apenas, foram cerca de 57 milhões de descargas, responsáveis por 1.321 mortes, de acordo com o Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Os pesquisadores do Inpe notaram que o número de raios tende a aumentar por aqui e iniciaram um estudo, a ser concluído em 2013, para investigar a relação entre o incremento dessas descargas elétricas e o aquecimento global. A hipótese inicial é de que a elevação de um grau centígrado na temperatura acarreta um incremento de 10% a 20% na incidência de raios. As informações coletadas serão analisadas pelo Inpe e por quatro instituições norte-americanas: a Nasa, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) e a Universidade do Arizona.


A POLUIÇÃO TANTO PODE AUMENTAR AS TEMPESTADES COMO EVITÁ-LAS


Antonio Scorza/AFP
Raio corta o céu do Rio de Janeiro durante tempestade no verão deste ano. Em nenhum outro país caem tantos raios como no Brasil.

Temporais vespertinos em Nova York foram analisados por Ntelekos e confirmaram as características da influência da poluição. “[...] vimos casos em que tivemos incremento de 30% a 40% na precipitação devido a níveis de poluição aumentados quando as condições atmosféricas foram favoráveis”, disse ele. “Mas, se algum ingrediente para uma tempestade está escasso, então a poluição enfraquece a tempestade e suprime a chuva.”

As cidades são a parte mais visível da influência humana sobre os temporais, mas ela não se restringe a isso. As mudanças climáticas devem aumentar a força das tempestades onde quer que elas ocorram em terra, afirma o modelador de clima (pesquisador que produz previsões baseadas em medições históricas) Tony Del Genio, do Goddard Institute for Space Studies da Nasa, em Nova York. Para ele, como as temperaturas na superfície dos mares e na atmosfera acima deles vão subir a uma taxa parecida, os temporais nessas regiões não deverão ser mais fortes. Já a superfície da terra se aquecerá mais rapidamente do que a dos oceanos, aumentando a diferença de temperatura entre a terra e a atmosfera, e isso favorecerá a ocorrência de tempestades severas. Mas não em todas as terras emersas: muitos locais poderão ficar mais secos, com pouca ou nenhuma umidade, o que não oferecerá condições para a formação de temporais.

“Não pensamos necessariamente que haverá mais tempestades em um clima mais quente”, diz Del Genio. “[Mas] quando o ar úmido enfim chegar vindo de algum outro local, as coisas estarão realmente preparadas para explodir.” Segundo ele, as regiões mais afetadas incluem a Bacia Amazônica, a América Central, os EUA, o sudeste da Ásia, a África Central e o norte da Austrália.

De qualquer modo, as áreas urbanizadas deverão mesmo estar na linha de frente das tempestades do século 21. E os presentes e futuros responsáveis pelas cidades terão de mostrar se sabem trabalhar em meio a essas condições adversas ou se são especializados apenas em subterfúgios e desculpas esfarrapadas.

Jupiterimages/AFP
A habitual poluição do ar em Los Angeles, nos Estados Unidos, é fator importante em termos da ocorrência de tempestades em sua área.

Mauricio Lima/AFP

O poder poluidor dos aeroportos
A interrupção de voos causada pela nuvem de cinzas oriunda do vulcão islandês Eyjafjallajokull, em abril, mostrou pela primeira vez que os aeroportos são, isoladamente, fatores relevantes de poluição. Sem decolagens e aterrissagens, os níveis de dois importantes poluentes – o dióxido de nitrogênio e o grupo de óxidos de nitrogênio – registrados nos aeroportos de Heathrow e Gatwick, em Londres, caíram a quase zero.

Sea Shepherd Conservation Societ/AFP
Baleias: derrota japonesa
As baleeiras japonesas voltaram em abril de sua viagem de cinco meses às águas antárticas com 507 baleias, pouco mais de 50% das 935 previstas de início. Os japoneses, que caçam esses mamíferos com fins “científicos” (mas consideram sua carne parte da dieta nacional), culparam a organização ambientalista Sea Shepherd pelo fraco desempenho. As ações antipesca da ONG teriam tirado 31 dias de trabalho dos baleeiros.
Shutterstock

Investir para preservar a Amazônia
Sete organizações não governamentais da área socioambiental e a Vale lançaram oficialmente em maio o Fundo Vale, uma ação pioneira com foco inicial em programas de combate ao desmatamento e à degradação florestal e incentivo ao desenvolvimento socioeconômico na Amazônia. Ativo desde 2009, o projeto já dispõe de R$ 51 milhões para investir até 2013; do total, R$ 7 milhões foram destinados a oito projetos criados por essas onGs. o fundo pretende atuar também em outros países, sempre em temas relevantes de sustentabilidade.



Shutterstock Mar de lixo no Atlântico
Tal como o Oceano Pacífico, o Atlântico também tem uma área repleta de resíduos plásticos. Ela se espalha por milhares de quilômetros quadrados entre as Bermudas e o Arquipélago dos Açores, 2 mil quilômetros a oeste de Portugal. A localização da “sopa de plástico” foi documentada por dois grupos de cientistas que viajaram pela região.
Hotel movido a pedaladas
Desde abril, os hóspedes do hotel Crowne Plaza Copenhagen Towers, na capital dinamarquesa, são convidados a passar algum tempo em seu ginásio pedalando bicicletas geradoras de eletricidade. Os iPhones montados nos guidões das bicicletas monitoram a energia produzida, que ajuda a abastecer o hotel. Quem gera pelo menos 10 watts/hora (por volta de seis minutos de pedalada) recebe uma refeição grátis.

Empresas + verdes

+ A Café do Ponto é a primeira rede de cafeterias do País a neutralizar suas emissões de CO2. A produção prevista do gás nos próximos dois anos nas atividades ligadas a ela resultou no plantio de cerca de 7 mil mudas em Serra Negra (SP). A empresa lançou ainda um café “sustentável”, o blend Safra Social.
+ A MCE lançou, na parada de manutenção da Refinaria do Planalto Paulista (Replan), da Petrobras, o projeto Carbono Zero, que a torna a primeira empresa de engenharia industrial do País a neutralizar o CO2 emitido em sua atividade. Um parque estadual em Embu-Guaçu (SP) está recebendo 3.318 mudas para compensar a liberação de 286 toneladas de CO2.
+ O Banco Cruzeiro do Sul e o Corinthians se uniram no projeto Jogando pelo Meio Ambiente, dedicado a difundir a educação ambiental e a mobilização social a partir dos funcionários e clientes do banco e dos torcedores e sócios do clube. Cada jogo do time principal resultará no plantio de cem árvores, assim como cada gol marcado.
Divulgação
+ O Instituto Walmart lançou em abril a Escola Social do Varejo em São Paulo, Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Ceará. O programa busca dar formação profissionalizante com foco no varejo, em 18 meses, a mais de mil jovens de baixo poder aquisitivo.

> Os parques do Pantanal Mato-grossense (MT) e da Chapada dos Veadeiros (Go) são os primeiros a serem apresentados em versão Bluray Disc no País, dentro do projeto Parques nacionais do Brasil. o produto, criado pela Fundação Fórmula Cultural e à venda na Livraria Cultura, apresenta cenas da fauna e da flora locais captadas com impecável tecnologia digital. o projeto pode ser conhecido no portal www.nationalpark.org.br
> As dimensões socioeconômicas, ambientais, territoriais e institucionais que afetam a governança da água em quatro países latino-americanos (Brasil, Bolívia, Chile e Colômbia) e três europeus (França, Grã-Bretanha e holanda) são dissecadas nos três volumes do livro Governança da Água na América Latina e Europa (Annablume Editora). organizada por Pedro Roberto jacobi e Paulo de Almeida Sinisgalli, a obra, parte do projeto GovAgua, busca facilitar a formulação de políticas para as negociações entre os atores envolvidos na questão.

Revista Planeta

Islândia Terra em transe
Vulcões, geleiras, gêiseres, rios de água fervente, lagos termais, sol à meia-noite e baleias nadando defronte à cidade. Estamos na Islândia

Texto e fotos: Johnny Mazzilli, de Reikjavik, Islândia


Próximo ao centro da capital, o Sólfar, uma escultura estilizada das primeiras embarcações vikings usadas pelos habitantes da Islândia, fotografada às 23h30, durante o Midnight Sun, o sol da meia-noite.

Um dos países que eu mais queria conhecer era a Islândia. Desde menino, abria enciclopédias antigas e velhos mapas surrados – tudo que eu dispunha àquela época para sonhar – e meu olhar ia direto para aquela ilha isolada na vastidão do Atlântico Norte. A enciclopédia Conhecer dava conta de que lá vivia um povo meio esquimó, pescadores e caçadores de baleias, e eu ficava imaginando. Muitos anos depois, em minhas idas à Escandinávia, a Islândia foi ficando mais próxima, até que em minha última viagem a Noruega inclui o país em meu roteiro.

No século 7, monges irlandeses em busca de isolamento empreendiam excursões esporádicas às Ilhas Faroe. Vez por outra se aventuravam mais ao norte, em uma ilha remota e desabitada à qual chamavam Thule. Em meados do século 9, o viking Naddoddur perdeu-se na viagem da Noruega para as Ilhas Faroe e atingiu a costa da Islândia. É considerado o primeiro viking a desembarcar na ilha. A chegada dos nórdicos, povo rude e politeísta, acabou com a tranquilidade dos irlandeses, que se retiraram em fuga.

Gardar Svavarsson, viking de origem sueca, realizou a primeira circunavegação em Thule, constatou tratar-se de uma ilha e rebatizou-a de Gardarshólmi (Ilha de Gardar). Flóki Vilgerdarson, o terceiro viking a aportar propositadamente naquelas paragens, após um rigorosíssimo inverno transcorrido em meio a terríveis dificuldades, rebatizou-a de Island, nome que perdura até hoje.

Abaixo, Gulfoss, a maior cachoeira da Islândia. Na página ao lado, acima, momento inicial da erupção do Geysir, quando a bolha de ar surge e expele água fervente. Abaixo, Geysir, o mais famoso gêiser da Islândia, que entra em erupção regularmente a cada cinco minutos.

Em 870, teve início a colonização com Ingólfur Arnarsson, o primeiro habitante permanente da Islândia. Ele abandonou a Noruega, sua pátria, após uma grave disputa feudal, e a única coisa que se sabe sobre ele é que seu filho foi um grande líder tribal e fundou o primeiro Parlamento islandês. Quando Arnarsson e seus companheiros se aproximaram da baía onde mais de sete séculos depois seria fundada a cidade de Reykjavik, avistaram fumarolas originadas nos numerosos gêiseres e batizaram aquele lugar de baía enfumaçada (reik = baía e avik = fumaça).

O complexo e áspero idioma islandês originou- se da língua dos vikings, conhecida na Escan dinávia como old norwegian, ou norueguês antigo. Na Noruega, Dinamarca e Suécia, o old norwegian evoluiu e deu origem ao sueco, ao dinamarquês e ao norueguês, idiomas muito semelhantes entre si. Em virtude do isolamento geográfico e cultural, porém, o islandês manteve- se próximo da língua ancestral dos vikings. O resultado é que os escandinavos não entendem nada do islandês.

Glauber Rocha que me dê licença, mas é a Islândia a verdadeira terra em transe, um caldeirão em ebulição de atividade geotérmica e vulcânica. Há 10 mil anos, as geleiras cobriam 100% do país. Hoje, cobrem 10% – o que não é pouco. Sua maior geleira, o Vatnajökull (vatna = água, jökull = geleira), é maior que a soma das três maiores geleiras da Europa continental.


Numerosos vulcões, geleiras, gêiseres e rios de água fervente formam uma paisagem exótica, com vastos campos de lava cobertos de musgo verde-pálido e pontilhados de pedregulhos do tamanho de caminhões. De tempos em tempos, violentas erupções modificam a geografia inóspita do interior do país. Apenas 2% da ilha tem cobertura vegetal e a paisagem é predominantemente marrom.

Mais da metade dessas erupções acontece embaixo dos glaciares, ocasionando um fenômeno chamadojokulhlaup – enormes fluxos de água causados pelo súbito e intenso derretimento glacial, que podem aflorar em minutos ou horas após o início da erupção e provocar alagamentos devastadores. Por essa razão, as áreas em volta dos vulcões são desabitadas.

Isso não é tudo: outro fenômeno tão bizarro como mortífero às vezes se origina desse cenário dantesco. Quando uma erupção irrompe por baixo de uma gigantesca geleira, o magma a 1.200ºC se choca com o gelo e lança para o ar enormes nuvens de vapor e minúsculas partículas incandescentes. São essas cinzas que, expelidas pelo vulcão Eyjafjallajoekull, têm causado o fechamento do espaço aéreo de vários países europeus, pelo risco que representam para a aviação.

Além disso, a combinação da nuvem de vapor com as partículas gera uma carga estática intensa, que mais de uma vez desencadeou sequências de raios. Em 1918, durante uma erupção do Katla, o segundo maior vulcão da Islândia, centenas de cabeças de gado que pastavam fora do alcance dos dejetos do vulcão morreram eletrocutadas. Aliás, os vulcões da Islândia, tais como o Hekla e o Katla, são sempre batizados com nomes femininos porque, segundo os islandeses, explodem sem motivo e sem avisar.


Os gêiseres, de todas as feições e tamanhos, são uma intrigante marca registrada do país. Crateras com vários metros de diâmetro onde borbulha uma água cinzenta, fendas estreitas de onde saem jatos sibilantes de vapor quentíssimo, enormes buracos no solo que expelem lama fervente e ruídos sinistros. Névoas formadas pelos vapores de várias fumarolas e o onipresente cheiro de enxofre completam o cenário surreal.

A água quente jorra com fartura do subsolo e é inteligentemente usada pelos islandeses para esquentar a água fria. Mais do que isso, toda a energia elétrica consumida no país é produzida em usinas termoelétricas movidas a água quente. Há estações de prontidão abastecidas com petróleo, prontas para entrar em ação em caso de uma eventual pane termoelétrica, o que até hoje não aconteceu. Dessa forma, mais de 95% da energia gerada ali é limpa e renovável.

As águas termais têm também uma importante função social na Islândia. No Brasil, as pessoas vão ao clube ou à praia quando o clima está bom, mas os islandeses vão aos banhos termais principalmente quando o clima está ruim, e nos banhos as pessoas constroem suas relações.


Na página ao lado, vapores e fumaças carregados de enxofre na região de gêiseres, o sol da meia-noite e os atarracados cavalos islandeses. Abaixo, Blue Lagoon, famosa por suas propriedades terapêuticas.

Renato Grunenfelder é um suíço de 43 anos que há 20 vive na Islândia. Ele me leva para uma caminhada a 20 quilômetros de Reykjavik. Subimos um morro pardacento com vegetação rasteira. Aqui e ali, pequenas colunas de vapor denunciam gêiseres espalhados pelas encostas. Após quatro quilômetros, chegamos ao fundo do vale, depois de termos passado por dezenas de gêiseres de diferentes aspectos. Lá existe um grande buraco com mais de dois metros de diâmetro, em cujo interior pula uma lama cremosa e azulada tal como um enorme tacho de polenta fervente. Ainda longe da beirada, o terreno cede facilmente debaixo de meus pés. Decido retroceder.

Saímos dali e voltamos um pouco vale abaixo, até um ponto onde dois riachos se juntam: um, de água fria, o outro, de água quentíssima. Daí foi só escolher a temperatura da água entrando em um ponto do rio mais próximo ou distante da união dos riachos. À meia-noite, estávamos tranquilamente sentados em uma pedra dentro do rio, com a água quente até o pescoço, observando o sol pálido que se recusava a se pôr.

O Blue Lagoon, ou Lagoa Azul, a 55 quilômetros de Reykjavik, próximo de Keflavik, é o mais expressivo cartão-postal da Islândia. Suas águas cálidas são de uma incomum tonalidade azul-clara, formadas por uma mistura de água doce e salgada. A argila branquíssima do fundo é composta por uma sílica muito fina. O local já foi eleito, por suas reconhecidas propriedades terapêuticas e cosméticas, o melhor banho termal do mundo.

Os islandeses vão aos banhos termais principalmente quando o clima está ruim, e ali constroem suas relações



Mesmo com a crise, foi preservada a excelente qualidade de vida do povo islandês. No inverno, a superfície congelada do lago no centro de Reykjavic serve de pista de patinação. Mulheres com bebês são uma simbologia constante em estátuas e pinturas. Ao lado, pubs e cafés no centro estão cheios de turistas.

A Islândia tem vastas regiões desabitadas e uma população pequena, que vive principalmente nas áreas costeiras. Não há cidades no interior do país, onde há poucas e precárias estradas de terra e nenhuma infraestrutura. Os islandeses têm várias histórias sobre os “heróis do interior”, pessoas que, por terem cometido algum crime ou sofrido perseguições no passado, fugiram para esses lugares e neles sobreviveram durante anos, escondendo-se em cavernas e vivendo como nômades.

Dos 350 mil habitantes do país, 200 mil vivem na pequena capital, Reykjavik. Apesar de sua localização geográfica, próxima à Groenlândia e limítrofe ao Círculo Polar Ártico, os invernos são relativamente amenos na Islândia se comparados a outros lugares na mesma latitude, em virtude do calor trazido pela Corrente do Golfo à ilha. De junho a agosto, verão no Hemisfério Norte, é a época do Midnight Sun, o sol da meia-noite, quando há luz 24 horas por dia. O astro se aproxima do horizonte e, em vez de se pôr, volta a se erguer no céu. Há crepúsculo, porém não há noite. A temperatura é agradavelmente amena e a ilha recebe grande quantidade de turistas.

Há muita coisa interessante para ver e fazer. No centro de Reykjavik, lojas, pubs e restaurantes estão cheios de turistas, atraídos pela grande desvalorização da coroa islandesa, a krona. A gastronomia é criativa e exuberante, baseada principalmente em pescados, frutos do mar e aves marinhas. A Baía de Husavik, defronte à cidade, é um santuário de baleias, facilmente avistadas em saídas de barco do cais central.


Os cavalos são parte da paisagem islandesa. Pequenos e atarracados, eles são mais ou menos como eram os equinos da Europa continental por volta do século 11. Cavalgar é um esporte nacional, assim como o golfe, outra paixão no país. Há campos muito bem cuidados espalhados por toda a Islândia.









No centro de Reykjavik, lojas, pubs e restaurantes estão cheios de turistas, atraídos pela desvalorização da coroa islandesa

Uma ótima sugestão é o Golden Circle, passeio que visita duas áreas interessantes, Geysir e Gulfoss, a pouco menos de 100 quilômetros de Reykjavik. O Geysir é um gêiser que estoura regularmente a cada 5 minutos e lança água fervente a mais de 20 metros de altura. O belíssimo Gulfoss é a maior queda d’água do país. Há caminhadas em glaciares, safáris de aves marinhas, passeios de snowmobile (uma espécie de jetski para neve) e visitas a fazendolas bucólicas com seus telhados recobertos de grama verdinha.


Como Reykjavik é uma cidade pequena, as empresas que levam os turistas passam de hotel em hotel, coletam as pessoas, levam-nas para os passeios e as devolvem a seus respectivos hotéis na volta, tudo muito pontual e organizado. Basta ligar e solicitar o passeio. Na hora combinada, uma van vem buscá-lo.


A crise mundial afetou dramaticamente a economia islandesa, cujos principais rendimentos advêm da pesca e de indústrias de softwares e biotecnologia. Com forte endividamento em diversas moedas estrangeiras, o país foi arrastado para a moratória da noite para o dia. O desemprego saltou de 8% para 19% e a Islândia passou a depender de ajuda econômica exterior.


De um dos países mais prósperos da Europa antes da crise, a Islândia hoje tem quase todos os seus bancos quebrados e muita gente se mantém em dois empregos, hábito anterior à crise. Para o turismo, se antes ela era um país caro, hoje os preços estão muito mais acessíveis, embora não tenham se tornado baratos.


Serviço
Como chegar: a Iceland Air voa a partir de várias capitais europeias –www.icelandair.com
Onde ficar: a rede Foss Hotels tem dez hotéis espalhados pelo país –www.fosshotel.is
Passeios a cavalo: Ishestar – www.ishestar.is
Safári de baleias: Elding – www.elding.is
Gêiseres, Gulfoss e Blue Lagoon: Reykjavik Excursions – www.re.is
Turismo geral no país: GJ Travel – www.gjtravel.is
Quem leva: a Latitudes tem saídas personalizadas para a Islândia –www.latitudes.com.br
Site oficial de turismo na Islândia: www.goiceland.org

Revista Planeta

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O apartheid não morreu

O apartheid não morreu
Aqui a discriminação é a lei. Numa África do Sul onde racismo é crime, um povoado se mantém 100% branco e vive como se fosse um país independente. Bem-vindo (ou não) a Orânia
por Felipe Lessa, de Orânia, África do Sul
Quase todos os carros são brancos em Orânia. Já entre os motoristas não existe quase. São todos brancos mesmo. É um povoado de 700 pessoas fundado por brancos e que só aceita moradores brancos. "Viemos atrás do sonho de ter uma comunidade livre e segura. A África do Sul já foi um país de primeiro mundo há algumas décadas, mas infelizmente não podemos mais dizer isso", diz Andries van der Berg, um oraniano de 24 anos.

Andries tem saudade de um tempo que nunca viveu para valer. Tinha só 4 anos de idade quando o apartheid acabou, em 1990. Nos 42 anos que a política de segregação durou, a elite de origem europeia era privilegiada em todas as esferas: tinha os melhores empregos e vivia em bairros nobres com serviços públicos comparáveis aos dos países ricos. Do outro lado dessa muralha invisível estavam 96% da população: negros e mestiços amontoados em periferias ocupando subempregos. Não ser racista era contra a lei, inclusive: o Estado proibia casamentos entre brancos e negros.

Em Orânia os muros também são invisíveis. Não há cancela com seguranças impedindo negros de entrar. Também nem seria permitido. A Constituição sul-africana mais recente, de 1993, transformou o racismo em crime. Se é assim, então, como Orânia é possível? Porque juridicamente esse povoado não é uma cidade. Mas uma empresa. O lugar em si está subordinado a um município de verdade, Hopetown. Não tem prefeito próprio. Mas tem presidente. E os moradores são os acionistas. Ao comprar uma casa lá, você vira sócio. Como qualquer empresa tem liberdade para recusar sócios, Orânia fica com autonomia para decidir quem pode e quem não pode viver lá, como se fosse um governo de verdade.

Isso foi possível porque os fundadores do lugar compraram uma vila operária abandonada no subúrbio de Hopetown - em 1990, logo que o apartheid acabou e Nelson Mandela saiu da prisão. A empreitada custou o equivalente a R$ 1,1 milhão em dinheiro de hoje. Mas isso só valeu pelo terreno, praticamente: eram 240 casas parcialmente destruídas, sem água, luz ou esgoto. "Começamos do nada", diz, orgulhoso, John Strydom, um dos diretores do povoado-empresa.

Empresa não. País. Eles se sentem mais oranianos do que sul-africanos. Como qualquer nação, buscam depender o mínimo possível do exterior. E ter o máximo de autossuficiência econômica. De fato, a maior parte dos serviços e dos alimentos é produzida na própria cidade. Mesmo sem ter nem 15 ruas, Orânia possui bandeira e uma moeda própria: o ora, que vale o mesmo que o rand sul-africano.

É um sistema financeiro engenhoso: você pega seus rands e troca numa casa de câmbio. Ela deixa o dinheiro aplicado. Os rands não são mais seus, a troca já foi feita. Mas você pode sacar os juros depois. Além disso, vários comerciantes dão um desconto de 5% a quem pagar com o ora. É a colaboração deles para criar uma identidade nacional. E para fortalecer a economia local também. Com a moeda local, oraniano gasta com oraniano, não com sul-africano.

"Nosso objetivo é manter o dinheiro dentro da cidade e, com isso, criar empregos", diz Frans de Klerk, o CEO. Não dá para dizer que não deu certo. Em quase 20 anos de existência, foram construídas 3 igrejas, duas escolas, dois museus e uma estação de rádio. E a maior parte dos oranianos tem negócios próprios no povoado, não precisa sair de lá para ganhar a vida.

Mas, cá entre nós, têm de contar com uma mãozinha dos sul-africanos. O posto de gasolina de Orânia, por exemplo, depende dos motoristas negros para sobreviver. Como ele é o único num raio de 15 quilômetros, os habitantes das redondezas abastecem por lá também. Para ter uma ideia, a SUPER viu durante 1h30 só 4 carros com brancos contra 13 com negros. "Sempre passo por aqui e nunca me trataram mal, mas também nunca abriram um sorriso. Lógico, eu estou gastando meu dinheiro no posto. Mas não gosto deste lugar. Nem um pouco", diz a comerciante negra Corina Mathlante.

O isolamento parece não ter fim. Enquanto o país está fervendo por causa da Copa do Mundo, que começa em 11 de junho, o clima em Orânia está frio, até gelado. Sabe como seria se o Brasil sediasse o próximo mundial de curling? É mais ou menos assim que está o clima do povo de Orânia para a copa. "Acho que algumas pessoas vão assistir os jogos pela televisão...", desconversa John Strydom. O negócio ali é atletismo e rúgbi, o esporte tradicional da elite branca.

Tribo de holandeses

O racismo dos oranianos não se limita a um brancos x negros. A questão étnica ali é mais profunda. Tanto que não é qualquer tipo de branco que vive por lá: somente africâneres, os descendentes dos holandeses que iniciaram a colonização do país no século 17 ("orânia" vem de orange, a cor-símbolo da Holanda). Se você for um branco sul-africano descendente de ingleses, que também dominaram a região, não entra.

O fato é que os africâneres dominaram politicamente e culturalmente o país na época do apartheid, mas perderam parte desse poder com a democratização, em 1994. O idioma africâner, um dialeto que veio do holandês dos anos 1600, fazia parte das matérias obrigatórias nas escolas e era número 1 nas universidades. Com a democratização, o inglês tem se tornado dominante no ensino, constituindo também uma segunda língua universal - pela qual as dezenas de etnias negras do país podem se comunicar. "Fomos marginalizados", reclama (em inglês) Carel Boshoff, um dos fundadores de Orânia.

Faz muito mais tempo que os africâneres se sentem marginalizados. Começou quando os ingleses invadiram a praia deles na Áfica do Sul, atrás das jazidas de diamante e de ouro, em 1877.

Os súditos da rainha Vitória expulsaram os colonos descendentes dos holandeses à bala. Aí os africâneres reagiram e pegaram suas terras de volta depois de uma batalha sangrenta. Após muita negociação, um acordo de paz acabou assinado. Pois bem, esse foi só o primeiro episódio. Na virada para o século 20 começaria outra guerra pelo ouro. E os ingleses, com um exército bem superior, massacrariam os africâneres, mandando milhares deles para férias forçadas em campos de concentração.

Se museus existem para relembrar o passado, o de Orânia faz isso com maestria: a maior parte do acervo é composto de carabinas, revólveres e espingardas. São 43. Fora a réplica de cera representando o sofrimento das mulheres nos campos de prisioneiros.

Independência. Ou morte?

Mesmo com uma história de tanta tensão, a relação com o governo é surpreendentemente boa. Prova disso é a visita feita pelo então presidente Nelson Mandela, em 1994, como um gesto de reconciliação entre negros e africâneres. O atual chefe de Estado, Jacob Zuma, também demonstrou interesse em conhecer o povoado. Uma amostra de simpatia, mas também da total falta de receio do governo sul-africano com esses loirinhos que brincam de Banco Imobiliário em seu bairro.

Mas isso não impede Orânia de pensar grande. "Vejo um futuro promissor. Somos uma alternativa para os africâneres e continuaremos crescendo." Crescendo até declarar independência? "Não. Não pretendemos nos tornar uma nação. Mas, se a relação com a África do Sul ficar ruim, será a nossa única opção. Para nos sentirmos seguros, precisamos sentir que pertencemos a algum lugar", diz Boshoff. Mas talvez exista um jeito melhor de saber sobre o futuro de Orânia do que perguntar para os líderes: dar uma volta na piscina pública de lá. É o ponto de encontro dos adolescentes, cheio de casais namorando, moleques fazendo brincadeiras... Lá de trás vem uma garota usando um daqueles óculos tipo persiana, cheia de pose. Na mão um aparelhinho tocando Single Ladies, da Beyoncé. Shantal Williams, 16, não tem nada do jeitão tradicionalista-rural dos africâneres. A menina quer se formar em música - em outra cidade, claro. "Até gosto de morar aqui, mas prefiro lugares de cultura mista, sabe? A gente pode trocar talentos com pessoas diferentes... Aqui é tudo muito igual."

Nome Oficial - Orânia
Localização - África do Sul, a 650 km de Johannesburgo
População - 700
"Independência" (ano da fundação) - 1991
Atividade econômica - Agricultura de azeitonas, pêssegos e figos.
Forma de governo - Empresarial.
Etnia - Africâner.

Para saber mais
The Afrikaners: Biography of a People
Hermann Giliomee , University of Virginia Press, 2003.

Revista Superinteressante

As chaves para entender as mudanças climáticas

A ciência já dispõe de meios para analisar o clima de eras passadas e como a natureza e o homem interferiram nesses padrões. Esse conhecimento vai ser crucial num período de graves alterações climáticas no planeta
A história da raça humana deve muito às variações climáticas no passado. O conhecimento sobre o clima daquelas épocas é decisivo para entendermos como nos tornamos aquilo que somos. E não há dúvida de que nosso futuro será fortemente influenciado pelo clima.

Os cientistas que pesquisam o Sistema Terra têm noção da sua complexidade e dos seus constantes reajustes. Atualmente, pela primeira vez uma espécie - o Homo sapiens - tornou-se o principal agente de transformação desse sistema e dos padrões climáticos. Hoje entendemos melhor como essas transformações ocorrem, em escalas relevantes para as regiões e sociedades onde vivemos. Para isso, é preciso perceber a diferença entre a variabilidade natural e a antrópica, aquela relacionada à influência humana - uma diferença que, com o tempo, vai se tornar cada vez mais indistinta.

As questões apresentadas a seguir ilustram a contribuição das Ciências da Terra para o melhor conhecimento das mudanças climáticas.

O que se sabe dos padrões das alterações climáticas registradas ao longo dos últimos quatro ciclos glaciais?
Durante os 4,6 bilhões de anos da Terra, ocorreram diversos episódios de resfriamento e aquecimento climático. Desde a década de 1960 foi possível identificar vários avanços glaciais apenas nos últimos 2 milhões de anos. A mais recente era glacial (cujo apogeu foi há somente 21 mil anos), uma das mais intensas, cobriu de gelo as montanhas e vastas áreas do norte da Europa e da América do Norte.

Avanços recentes na leitura e na datação de registros obtidos nos oceanos, nas camadas de gelo polares e em formações de poeira e de fósseis na China Central revelam que os principais eventos climáticos afetaram toda a Terra ao mesmo tempo. A melhor explicação para isso são as variações da órbita terrestre em torno do Sol.

A atenção dos cientistas voltou-se recentemente para as causas do aumento e da redução da camada de gelo e para a descoberta de que houve muitos eventos rápidos e intensos (em escalas temporais de cem a mil anos). Esses eventos não podem estar ligados às variações orbitais, mas a outros processos do Sistema Terra.

Novos esforços têm sido direcionados para pesquisar as relações entre esses fenômenos. Por exemplo, como eventos que começam no Atlântico Norte parecem ter efeitos na Ásia Oriental? Como as mudanças em um sistema podem alterar a dinâmica de outros?

Cada glaciação está associada a um nível do mar muito inferior ao observado atualmente. Em alguns casos, vastas plataformas continentais ficaram expostas, tornando-se rotas de migração para plantas, animais e pessoas e obstruindo o fluxo d'água entre os oceanos Índico e Pacífico. Essas terras também contribuíram para o aumento da produção (natural) de gases causadores do efeito estufa. A interpretação dos vestígios arqueológicos e da disseminação da cultura humana deve levar em conta a história das variações do nível do mar.

Reconhecer os padrões comuns às glaciações mais recentes é essencial para compreendermos o funcionamento dos sistemas climáticos numa escala ampla e o desenvolvimento e a difusão das sociedades humanas.

Qual tem sido a variabilidade climática nos últimos mil anos?
Os climas variam em termos de temperatura, precipitação e freqüência de eventos extremos, como secas, tempestades e inundações. Esses fatores controlam a produtividade dos sistemas naturais e agrícolas, a freqüência dos incêndios florestais, a qualidade da água e os danos em bens e infra- estrutura.

Somos o principal agente de mudança dos padrões do clima

Uma observação cuidadosa dos registros climáticos a longo prazo é importante para as sociedades modernas porque fornece uma base para o conhecimento de tendências recentes e suas causas potenciais. O início do período Holoceno (há cerca de 10 mil anos) foi marcado por uma influência antrópica restrita nos sistemas climáticos. Foi também nesse período que se iniciou a agricultura. Há cerca de 5 mil ou 6 mil anos, os sistemas agrícolas difundiram-se pelo leste e oeste da Eurásia, e há 3 mil anos, vastas áreas do mundo já eram cultivadas. Os registros geológicos mostram que essas mudanças foram acompanhadas por desflorestamentos, incêndios, taxas de erosão maiores e pequenas obras de engenharia destinadas a reter ou tirar água em excesso dos solos.
A influência do homem sobre o clima tem favorecido a ocorrência de eventos extremos, como inundações (acima) e secas. Esses fatores controlam a produtividade dos sistemas agrícolas e a qualidade da água, e seu desequilíbrio pode levar a fome e a sede a comunidades inteiras (direita).
NESSA ÉPOCA, o homem se tornara uma forte influência nos processos da natureza em escalas regionais, embora não chegasse a interferir nas variações climáticas. A expansão da agricultura de várzea no Holoceno médio pode ter contribuído para a emissão de metano (gás-estufa), um pontochave para a influência humana na química atmosférica, mudando sua temperatura e capacidade de retenção de água.

Informações detalhadas desse passado recente podem ser obtidas pela análise de anéis de crescimento de árvores antigas, das camadas de gelo polares e de sedimentos em lagos. Todos esses registros permitem reconstituições precisas de mudanças climáticas.

As melhores reconstituições são as da temperatura média dos últimos mil anos nas zonas de latitude média a alta do Hemisfério Norte. Esses registros mostram temperaturas relativamente amenas durante o fim do século 11 e no século 12, bem como no início e no fim do século 14. Mas as temperaturas médias foram mais baixas que as atuais entre os séculos 14 e 19. Essas fases são conhecidas como o Período Medieval Quente e a Pequena Idade do Gelo. A história mostra que essas anomalias tiveram conseqüências expressivas nas sociedades. Nos períodos mais quentes, o cultivo do trigo ocorria mais ao norte, enquanto a produção de vinho acontecia o mais cedo possível. Na Pequena Idade do Gelo, os níveis de doença e a decadência agrícola em áreas marginais foram significativos. Em muitos casos, as diferenças de temperatura não excediam 0,2º C a 1º C em comparação com as verificadas no início do século 20. Essas pequenas variações e suas conseqüências deveriam ser uma evidência para quem acredita que a variação entre 1º C e 5º C prevista para os próximos 50 a 100 anos não trará alterações significativas.
O que causou essas mudanças? Alguns sugerem que a variação da energia solar está na base de certas tendências a longo prazo, mas o aquecimento recente não tem precedentes. Muitas dessas fontes têm mostrado que o clima caminha numa direção nunca vista nos últimos 10 mil anos. Alterações na energia emitida pelo Sol, na quantidade de cinzas e gases vulcânicos na atmosfera, assim como mudanças nas correntes oceânicas, têm sido invocadas para explicar algumas das tendências verificadas nesse período, mas nenhuma delas justifica as repentinas alterações nos últimos 50 anos. Acredita-se agora que os desflorestamentos, as edificações e as emissões de gases causados pelos humanos influenciam fortemente o aquecimento global.

Apesar disso, precisamos compreender a importância relativa do homem em face das influências naturais nos sistemas climáticos, a fim de perceber a origem das mudanças. A pesquisa sobre essas variações naturais, como o El Niño, deve ter prioridade máxima, pois ajudará a revelar os mecanismos que estão na base da ocorrência das mudanças climáticas, em escalas temporais relevantes para as sociedades humanas.

No passado, que impactos as mudanças climáticas tiveram nas sociedades?
Muitas civilizações desapareceram devido a uma variedade de razões, incluindo o clima. A seca pode ter sido a responsável pelo colapso da cultura harappa no noroeste da Índia, dos maias na América Central e dos hohokam no Arizona.

Em outros lugares, os problemas surgiram devido ao excesso de água. O fluxo máximo do rio Yang-Tsé, por exemplo, ocorre quando o escoamento proveniente do planalto tibetano coincide com as chuvas associadas às monções de verão. De vez em quando (com a periodicidade de alguns anos), ocorrem graves inundações que, embora depositem sedimentos ricos em nutrientes, causam perdas de vidas e afetam colheitas e propriedades.

A organização dos dados essenciais sobre as mudanças ambientais e a história das sociedades dará base a discussões sobre as novas tecnologias, as novas nações, e poderá ajudar na compreensão de alguns dos desentendimentos existentes entre povos no Oriente Médio, na África Oriental e em outros locais.
A emissão de gases-estufa, produzidos pela queima de combustíveis fósseis (acima), influencia fortemente o aquecimento global, alterando as condições de vida de hábitats como a Antártica (esquerda).
UM ANO INTERNACIONAL DEDICADO AO PLANETA
A União Internacional das Ciências Geológicas (IUGS), que representa cerca de 250 mil geocientistas de 117 países, proclamou um Ano Internacional do Planeta Terra 2007-2009 com o subtítulo "Ciências da Terra para a Sociedade". Os propósitos salientam a relação entre a humanidade e o planeta, e demonstram quanto os geocientistas são importantes na criação de um futuro equilibrado e sustentável. Proclamado através da ONU, o Ano Internacional foi considerado atividade central pela Divisão das Ciências da Terra da Unesco. Ele também é apoiado por organizações congêneres da IUGS, como a União Internacional de Geodesia e Geofísica (IUGG) e a União Geográfica Internacional (IGU), além do Conselho Internacional para a Ciência (ICSU).
Segundo as diretrizes da ONU para a proclamação de anos internacionais, os assuntos elegíveis devem corresponder a uma "preocupação prioritária de direitos políticos, sociais, econômicos, culturais, humanitários ou humanos", envolvendo "todos os países (ou a maioria deles), independentemente do sistema econômico e social", e deve "contribuir para o desenvolvimento da cooperação internacional na resolução de problemas globais", dando especial atenção aos temas que afetam os países em desenvolvimento.

Qual é o papel das atividades humanas no clima?
Sabemos que a atividade humana originou mudanças na química atmosférica e na cobertura vegetal, causando uma séria degradação da biodiversidade. Além disso, têm sido produzidos milhares de novas substâncias químicas sintéticas, cujo efeito na biosfera não é totalmente conhecido. Muitos sistemas lacustres, por exemplo, tornaram-se ácidos como conseqüência direta das emissões de gases industriais ao longo dos últimos 150 anos. A mudança dos ciclos biogeoquímicos origina reações complexas nos elementos- chave dos sistemas climáticos e, conseqüentemente, nas atividades econômicas e na qualidade da água e dos alimentos.

Uma das formas de monitorar a mudança do clima induzida pelo homem é estimar as emissões de gases-estufa resultantes da atividade humana. Conseguimos estimar esses valores, mas não conseguimos identificar os locais afetados por essas emissões. Estarão os gases concentrados nos solos e integrados na cobertura florestal? Terão os oceanos absorvido a maioria deles? Ou estarão todos esses fatores (ou ainda outros) envolvidos?

A contribuição relativa para o clima das mudanças na cobertura vegetal e na química da atmosfera ainda é pouco estudada. A pesquisa nessa área deve priorizar o estudo de processos biológicos, de ciência do solo e oceanográficos.

Qual é o papel dos modelos de previsão climática e como avaliar seu sucesso?
Os modelos de simulação parecem ser o caminho a seguir para a previsão climática. Eles usam equações matemáticas para descrever o mundo físico e as reações dinâmicas entre oceanos, atmosfera e a cobertura vegetal. Os resultados desses modelos estão condicionados pelo nosso conhecimento sobre os sistemas da Terra, pela capacidade de representação da realidade, pelas operações matemáticas e pela capacidade de informática necessária para os cálculos. Atualmente, utilizam-se mais de 25 modelos de simulação global, os quais geram freqüentemente resultados que variam em grau menor ou maior. Isso reflete as dificuldades de integrar os elementos físicos de modo significativo e a vulnerabilidade de muitos elementos do sistema quando pequenas alterações podem ser muito ampliadas, como demonstra o registro geológico.

Nos últimos tempos, foram desenvolvidos sistemas integrados que associam modelos climáticos, econômicos, demográficos, de emissão de poluentes, agrícolas e de ecossistemas. Os melhores sistemas permitem interações entre os módulos, de modo que mudanças numa parte do sistema podem obter reações dinâmicas dos outros subsistemas.

É preciso criar um sistema independente de avaliação que identifique os melhores modelos e as soluções para aprimorá-los. As prioridades na pesquisa devem incluir a coleta de melhores dados e com maior cobertura geográfica.

Os geocientistas têm um currículo notável no estudo de climas do passado e dos sistemas da Terra, e, muitas vezes, das relações entre ambos. Parte de seu programa de pesquisa pode se concentrar na identificação de como vários cenários, dos quais depende a sobrevivência das pessoas, irão repercutir nesses sistemas. Uma boa liderança levará a decisões fundamentadas e a um planejamento prudente.

Autores: John Dodson (University of Western Australia), com Keith Alverson (IGBP PAGES), Yuan Daoxian (Karst Dynamics Laboratory, Guilin, Chinese Academy of Geological Sciences), Jens Wiegand (University of Würzburg), Wyss Yim (University of Hong Kong), Ted Nield (Geological Society of London).

PARA SABER MAIS
Site: www.yearofplanetearth.org

Revista Planeta

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

ONU lança década de combate à desertificação em evento no Brasil

20.08.2010

Großansicht des Bildes mit der Bildunterschrift: Avanço rápido das zonas secas é preocupante

Apesar de toda a informação disponível, governos ainda não conseguem lidar com o avanço das áreas secas. Evento no Brasil discute a problemática e marca o início da Década das Nações Unidas Contra a Desertificação.

Toda a informação disponível na atualidade sobre o processo de desertificação não deixa dúvida: nas últimas décadas, o avanço das pesquisas permitiu um melhor conhecimento da problemática, de suas causas e impactos. Mas ainda falta muito para que todos esses dados se transformem em práticas, se traduzam em técnicas efetivas para amenizar a situação de mais 2 bilhões de pessoas que moram em áreas secas.

Esse foi o ponto de debate da 2º Conferência Internacional: Clima, Sustentabilidade e Desenvolvimento em Regiões Semiáridas (Icid), que encerrou o ciclo de discussão nesta sexta-feira (20/09), em Fortaleza. Acabado o evento, agora tem início a Década das Nações Unidas para os Desertos e Luta Contra a Desertificação 2010/2020.

O avanço da área seca é preocupante em mais de 100 países do globo. A desertificação é um risco presente em 33% da superfície da Terra, em zonas áridas e semiáridas. "É preciso pisar no acelerador. E as recomendações que saem daqui aumentam a pressão sobre os tomadores de decisão", disse à Deutsche Welle Egon Krakhecke, secretário de Extrativismo e Desenvolvimento Rural Sustentável do ministério brasileiro do Meio Ambiente.

Receita do ICID

Estudos produzidos por pesquisadores do mundo todo sugerem uma mudança de cenário nada animadora. Se as previsões de aquecimento do planeta em 2 graus se confirmarem, um terço da comida disponível nos dias de hoje não existirá mais.

Segundo dados das Nações Unidas, 12 milhões de hectares por ano se transformam em desertos ao redor do mundo. O problema é causado pela degradação contínua do solo, devido às mudanças climáticas, à exploração agrícola desenfreada e à má gestão dos recursos hídricos.

No Brasil, o desmatamento é o principal fator do avanço das zonas secas. Mesmo a caatinga, bioma exclusivamente brasileiro, já teve quase metade de sua cobertura vegetal desmatada, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente.

Bildunterschrift: Großansicht des Bildes mit der Bildunterschrift: Desertificação ameaça mais de 2 bilhões de pessoas

Egon Krakhecke, no entanto, ressalta que o país avançou no controle do desmatamento e no sistema de monitoramento. Segundo dados oficiais, a área de floresta amazônica desmatada em 2004 era de 27 mil quilômetros quadrados, em 2009 caiu para 7,4 mil quilômetros quadrados. Ainda assim, o desmatamento e a queimada são as maiores fontes brasileiras de emissão de dióxido de carbono, o que coloca o país na quinta posição no ranking mundial.

"O Brasil está fazendo a sua parte para combater o problema, em relação aos compromissos assumidos em Copenhague. Mas esperamos mais dos países ricos", afirmou Krakhecke.

Cenário brasileiro e cooperação

A região semiárida do território brasileiro ocupa os estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia, além do Vale do Jequitinhonha, no Norte de Minas Gerais, e parte da região norte do Espírito Santo. É nesse solo que as secas vitimam milhares de pessoas.

O regime de chuvas é irregular, de 400 a 800 milímetros anuais. Os longos períodos de estiagem, que ocorrem de forma cíclica, trazem sérios danos sociais para a população e afetam de forma drástica a economia local.

Apesar de a região semiárida brasileira contar atualmente com mais indústrias, sua economia depende bastante da pecuária extensiva e da agricultura de baixo rendimento. Algumas medidas de convívio com o clima foram implantadas na região, como a instalação de 300 mil cisternas. A água da chuva é acumulada nesses reservatórios e ajuda as famílias a enfrentar até 9 meses de seca.

O programa pode ser exportado para Níger, país africano que tem 77% do território desertificado. O Brasil também coopera com Moçambique em ações de abastecimento de água para a população que vive no campo.

O governo brasileiro anunciou a liberação de 12 milhões de reais em pesquisas para o desenvolvimento da região semiárida. Os projetos devem focar tecnologias para a recuperação de áreas degradadas, além de técnicas do uso sustentável dos seus recursos naturais.

Autora: Nádia Pontes
Revisão: Marcio Damasceno


DW-WORD.DE DEUTSCHE WELLE

Missão de combate acaba, mas norte-americanos continuam no Iraque

31.08.2010

Großansicht des Bildes mit der Bildunterschrift: Tropas norte-americanas encerram presença no IraqueSete anos depois da invasão, tropas dos EUA deixam o campo de batalha no Iraque e passam a exercer papel de apoio às forças nacionais. Estados Unidos falam em longa cooperação, e há quem duvide de uma retirada total.

Pouco depois de assumir a presidência dos Estados Unidos, Barack Obama prometeu acabar com a guerra no Iraque "de forma responsável". Um ano e meio depois, a última tropa norte-americana de combate deixou o país asiático nesta terça-feira (31/08).

Segundo os cálculos do governo de Washington, mais de 90 mil soldados se retiraram do Iraque nos últimos 18 meses. Os 50 mil restantes saem do campo de batalha e passam a dar assistência às forças de segurança iraquiana.

Em seu depoimento sobre o assunto, publicado no site da Casa Branca, Obama afirma que "continuará construindo uma forte parceria com o povo iraquiano, com aumento de compromisso civil e esforço diplomático".

O vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, viajou ao Iraque para participar da cerimônia da troca de comando. Em companhia do presidente iraquiano, Jalal Talabani, do primeiro-ministro, Nouri al-Maliki, e também do presidente do Supremo Conselho Muçulmano, Ammar al-Hakim, Biden também deve opinar sobre as negociações da formação do novo governo no país do Oriente Médio.

Bildunterschrift: Estátua de Saddam Hussein destruída em 2003
Diplomacia e outros interesses

As tropas de combate saem, mas a presença norte-americana poderá ser notada na enorme embaixada em Bagdá, em diversas missões e bases no país, onde os EUA continuarão prestando assistência à tecnologia armamentista, e a força aérea iraquiana, que continuará sendo montada. O Iraque vai abrigar também um escritório de cooperação em questões de segurança entre os dois países, e continuará tendo milhares de agentes de segurança norte-americanos.

"Eu não acho que os americanos sairão 100% do Iraque. Mais de 4 mil soldados morreram. E bilhões foram gastos. Essa região continua sendo importante para os interesses dos EUA. Eu não acredito que os americanos se retirarão da região depois de tantos esforços. Eu acho que eles ficarão aqui de algum jeito, e que exercerão influência", opina Azzad Othman, professor da Universidade de Erbil, na região curda do norte do Iraque, única do país que goza de estabilidade e certo progresso econômico.

A retirada total das tropas norte-americanas deve ocorrer até o fim do próximo ano – quando os 50 mil soldados que agora passam a "força de apoio" deixarão de fato o país. Ali Dabbagh, porta-voz do governo iraquiano, reforça a ideia de cooperação a longo prazo.

"Queremos uma parceria estratégica com os Estados Unidos. Assinamos 11 contratos com empresas estrangeiras de petróleo, apenas uma delas é dos Estados Unidos. Ninguém pode nos impor regras, sejam os Estados Unidos ou os países da região", declarou Dabbagh sobre o futuro da relação bilateral.

Segurança interna

Os iraquianos assistem à movimentação no país com temor de que os atentados dos radicais se intensifiquem. Os ataques quase que diários na capital, Bagdá, contra diversas instituições, deixam a impressão de que os terroristas podem agir a qualquer momento, e em qualquer lugar.

Os radicais também exploram o fato de que, seis meses depois das eleições iraquianas, o país ainda não conseguiu formar um governo. O vice-primeiro-ministro, Azad Barwari, adverte para tempos difíceis: "A questão da liderança política, dos recursos naturais e da disputa territorial só pode ser resolvida de forma democrática, respeitando a Constituição e com aceitação mútua. Se não conseguimos resolver todas as essas questões até 2011, nosso futuro estará em xeque."

Bildunterschrift: Atentado em Bagdá: iraquianos temem aumento da violência

A versão norte-americana

O "assunto político" Iraque merece uma seção exclusiva – e uma das mais longas – no site do governo dos Estados Unidos. E para os cidadãos norte-americanos que não sabem muito sobre o distante país do Oriente Médio, há informações sobre a geografia, história e governo iraquiano.

Definido como um país rico em petróleo e gás natural, em 2008 o Iraque faturou 58 bilhões de dólares com suas exportações – 84% correspondem a petróleo, sendo os Estados Unidos o principal mercado.

Na longa descrição sobre os fatos históricos do Iraque, a atuação norte-americana é citada com ênfase num episódio de 1991. Naquele ano, uma aliança de países liderada pelos Estados Unidos – em nome das Nações Unidas – expulsou soldados iraquianos do Kuwait, após a invasão de agosto de 1990.

O Conselho de Segurança da ONU exigiu então que o governo de Saddam Hussein entregasse suas armas de destruição de massa que, segundo acusam os norte-americanos, foram usadas para reprimir movimentos curdos no país depois da guerra contra o Irã (1980-1988).

E foi nessas circunstâncias que começou a ocupação: "Depois que o Iraque falhou em cooperar com as inspeções da ONU, as forças lideradas pelos Estados Unidos invadiram o país em março de 2003, depuseram o ditador Saddam Hussein (executado em 30 de dezembro de 2006 pelo governo do Iraque), conta o site, que acrescenta a seguir: "O objetivo da política dos Estados Unidos é um Iraque soberano, estável e autônomo."

Autores: Nádia Pontes / Ulrich Leidholdt
Revisão: Roselaine Wandscheer

DW-WORD.DE DEUTSCHE WELLE

Aquecimento global ajuda petroleiro russo a reabrir rota no Ártico

27/08/2010
IGNACIO ORTEGA
DA EFE, EM MOSCOU

A redução da camada de gelo que cobre o oceano Glacial Ártico devido ao aquecimento global permitiu que um petroleiro russo reabrisse a rota marítima ártica, alternativa ao canal de Suez e até agora fechada ao tráfego comercial.

O petroleiro Báltika zarpou do porto de Murmansk (mar de Bárents) em 14 de agosto, e depois de uma semana e meia de travessia já se encontra em águas do mar de Chukotka, região onde se encontra o estreito de Bering, que separa os oceanos Ártico e Pacífico.

SXC

Aquecimento global ajuda petroleiro russo em rota ártica

No começo da próxima semana, o navio chegará às águas do Pacífico, onde já não necessitará seguir a trilha produzida pos três quebra-gelos nucleares que o acompanham durante vários milhares de quilômetros.

Os quebra-gelos Rossia, Taymir e 50 Let Pobedy acompanharam o petroleiro durante mais da metade de sua viagem, ainda que na última fase o primeiro deles foi capaz de abrir sozinho a trilha no gelo.

O Báltika é um petroleiro com 44 metros de largura máxima, e por isso, nas zonas onde a camada de gelo é mais grossa é necessária a escolta de três quebra-gelos, o que não será o caso de outros navios de menor tamanho.

O petroleiro russo, que leva 72 mil toneladas de gás condensado à China, percorreu em 11 dias a distância que separa Murmansk da localidade de Pevek, no mar de Chukotka. Lá a tripulação obteve provisões de água potável e descansou durante três dias.

Segundo o especialista do Instituto de Geografia da Academia de Ciências da Rússia, Ivan Lavrentiev, a espessura do gelo diminuiu com o aquecimento global, o que ajudou a abrir o caminho de volta.

Com este trajeto, a Rússia pretendeu mostrar que a rota marítima ártica é segura e viável economicamente, a tempo de enviar uma mensagem para os navegantes de outros países --Estados Unidos, Canadá ou Dinamarca-- que têm pretensões territoriais na região.

A Rússia prevê apresentar em 2013 na Organização das Nações Unidas (ONU) uma reclamação territorial sobre a área.

Folha de São Paulo

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