sábado, 15 de outubro de 2016

Violência urbana na América Central provoca onda de migração em massa




Alana Gandra - Repórter da Agência Brasil

A violência urbana em Honduras, Guatemala e El Salvador, tanto por parte de gangues armadas como de forças de segurança pública, está provocando uma onda de migração em massa, segundo relatório divulgado hoje (14) pela organização não governamental (ONG) Anistia Internacional sobre refugiados na América Central. “[É] um deslocamento que sai da escala individual e vira, realmente, um fluxo migratório”, disse a assessora de direitos humanos da ONG, Marina Motta.

Segundo Marina, as pessoas desses três países não aguentam mais o ambiente de ameaça, extorsão, violência, seja ela sexual ou por gênero, por exemplo, e são obrigadas a sair em busca de sobrevivência em nações mais ricas. O que ocorre, segundo Marina, é que no México e Estados Unidos, onde as populações dessas nações veem possibilidades de se inserir no mercado de trabalho, os refugiados estão sofrendo deportações ilegais. "Não estão sendo reconhecidos como solicitantes de refúgio. A possibilidade de buscar refúgio nesses países está sendo negada a eles. Isso é muito grave”. Essa prática, diz, fere a regra de ouro da Convenção do Refugiado, que é o princípio de não devolução.

Negligência

Esses refugiados são obrigados, então, a retornar a seus países de origem, cujos governos fazem parte desse ambiente de violência, de negligência e também não se responsabilizam pela proteção dessas pessoas, chamadas retornadas, que acabam sujeitas às mesmas condições das quais estavam fugindo e, “possivelmente, ainda mais estigmatizadas”, segundo Marina. O relatório cita o caso do motorista de ônibus de Honduras, Saul, de 35 anos, que fugiu para o México em novembro do ano passado, após sofrer um ataque de gangues que atuam sobre o setor de transportes e, ao ter o pedido de asilo negado, foi morto no seu país de origem, menos de três semanas depois de ser deportado em julho de 2016.

Agências da Organização das Nações Unidas (ONU) e outros organismos internacionais estão dando apoio financeiro a esses três países da região do Triângulo Norte da América Central para que invistam em prevenção e redução da violência, estratégias de desenvolvimento local e melhoria das condições de vida. Este ano, os Estados Unidos anunciaram que, a partir de 2017, vão aportar US$ 750 milhões a esse programa de cooperação internacional para o Plano da Aliança para a Prosperidade, com objetivo de apoiar pessoas deportadas cuja vida está em perigo.

A grande questão, diz Marina Motta, é que os governos não divulgam como vão utilizar esse dinheiro. “A gente está muito preocupado com a possibilidade desse dinheiro ou sumir ou não ser implementado em programas que, de fato, melhorem as condições de vida dessas pessoas”. Ela diz que há um histórico de desvio de recursos que fez com que projetos similares anteriores fracassassem. A Anistia Internacional defende que haja transparência no uso desse dinheiro e que ele seja direcionado para políticas baseadas em direitos humanos, em segurança, desenvolvimento, prevenção da violência e não simplesmente como um pacote de medidas de tolerância zero.

Contribuição do Brasil

Embora o Brasil não seja a opção de país mais rico em termos de oportunidades para esses migrantes, Marina diz que ele pode contribuir de forma emergencial para dar abrigo, tendo em vista o difícil acesso para mercados como México e Estados Unidos. Hondurenhos, guatemaltecos e salvadorenhos deportados acabam indo para países vizinhos, como Panamá, que tem 4 milhões de habitantes e abriga 3.400 refugiados; Costa Rica, cuja população oscila em torno de 5 milhões de habitantes e abriga 3.600 refugiados; Belize e Nicarágua. São todos países de renda média baixa.

Por isso, a Anistia Internacional acredita que o Brasil, como potência regional e com um histórico de receber imigrantes, deve se propor a resolver esse problema e receber mais refugiados do Triângulo Norte da América Central. O Brasil tem, no momento, 9 mil refugiados, disse a assessora de Direitos Humanos. “Isso é muito pouco”. Apesar de o Brasil apresentar taxa atual de desemprego de 11%, Marina diz que a situação é mais grave em países menores, como a Costa Rica, por exemplo, onde o nível de desempregados atinge 17%, ou o Panamá, com 14%.

Marina diz que isso não significa que o Brasil assuma o papel de liderança na recepção dessas pessoas de uma forma irresponsável. Ela diz que existe a possibilidade de o Brasil ter apoio financeiro internacional para poder receber esses refugiados, criando, ao mesmo tempo, políticas públicas para a integração responsável dessas pessoas. Segundo ela, todos os países do mundo estão fazendo esforço para receber essa população em situação emergencial. “Nós temos mais de 20 milhões de pessoas buscando refúgio”.

A assessora disse que o papel do Brasil para contribuir de forma positiva é duplo: de um lado, facilitar que essas pessoas venham para o país, por meio da criação de programa de vistos humanitários, ou da extensão do programa de reassentamento solidário, que o Brasil já oferece para a população da Colômbia; a outra por uma via mais política. Essa alternativa prevê que o governo e a sociedade civil brasileiros pressionem os governos de Honduras, Guatemala e El Salvador a garantirem soluções para esses problemas e proteção dessas pessoas para que elas não precisem migrar.

Periculosidade


A ONU já classificou El Salvador como um dos mais perigosos países do mundo fora de uma zona de guerra, com registro de mais de 108 homicídios por 100 mil habitantes em 2015, nível maior que a guerra na Síria, que a guerra no Iraque. Em Honduras, esse índice foi 63,75 assassinatos e, na Guatemala, de 34,99 homicídios por 100 mil habitantes. No Brasil, números recentes do Mapa da Violência 2016, referentes a 2014, revelam que a taxa de homicídios por 100 mil habitantes foi 30,3.

O secretário-geral da Anistia Internacional, Salil Shetty, está hoje em Honduras em reunião com o presidente Juan Orlando Hernández, para entregar o relatório e cobrar um posicionamento oficial daquele governo. Marina informou que o objetivo da ONG é encaminhar o documento aos presidentes dos três países analisados. Ele será levado também para os governos da região e do mundo todo, exigindo investigação do México e Estados Unidos sobre as deportações ilegais. A Anistia Internacional Brasil vai procurar ainda o governo do presidente Michel Temer para ver como ele pode promover um papel mais “assertivo e mais positivo do Brasil em meio a essa crise”.
Agência Brasil

Países chegam a acordo para limitar gases do efeito estufa


Quase 200 países chegaram a um acordo para limitar o uso de hidrofluorcarbonetos (HFCs), gases que estão entre os principais causadores do efeito estufa. As informações sobre o acerto firmado hoje (15) são da agência Ansa.

O pacto foi assinado em Kigali, capital de Ruanda, e representa o primeiro sinal da comunidade internacional de que tentará cumprir os objetivos do Acordo de Paris. Segundo o que foi acertado, será definido um teto para as emissões de HFCs, que serão reduzidas gradualmente pelos países desenvolvidos, incluindo os Estados Unidos, a partir de 2019.

Já as nações em desenvolvimento, como a China, maior poluidora do planeta, começarão a diminuir suas emissões a partir de 2024. Além disso, um pequeno grupo de países, entre eles Índia e Paquistão, pressionou para iniciar as reduções em 2028, alegando que suas economias precisam de mais tempo para crescer.

Os hidrofluorcarbonetos são gases usados em aparelhos de ar condicionado e refrigeradores e presentes em aerossóis.
Agência Brasil

92% da população respira ar impuro, aponta OMS


Poluição: 92% da população global respiram ar inadequado, alerta OMS



Paula Laboissière – Repórter da Agência Brasil

A OMS alerta que as principais fontes de poluição do ar incluem modelos ineficientes de transporteAgência Brasil/Arquivo

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou hoje (27) que 92% da população global vivem atualmente em áreas onde os níveis de qualidade do ar ultrapassam os limites mínimos estabelecidos pela entidade.

Os dados integram o mais completo relatório global já divulgado pela organização sobre zonas de perigo para poluição do ar, com base em informações de medições por satélite, modelos de transporte aéreo e monitores de estação terrestre de mais de 3 mil localidades rurais e urbanas.

Poluição atmosférica e saúde

A estimativa é que cerca de 3 milhões de mortes ao ano estejam ligadas à exposição à poluição externa do ar. A poluição interna do ar, entretanto, aparenta ser igualmente perigosa já que, em 2012, em torno de 6,5 milhões de mortes estavam associadas à poluição interna e externa juntas.

De acordo com a OMS, quase 90% das mortes relacionadas à poluição do ar são registradas em países de baixa e média renda, sendo que quase dois em cada três óbitos foram contabilizados no sudeste da Ásia e em regiões ocidentais do Pacífico.

Ainda segundo o relatório, 92% das mortes são provocadas por doenças não comunicáveis, sobretudo doenças cardiovasculares, derrame, doença obstrutiva pulmonar crônica e câncer de pulmão. A poluição do ar também aumenta os riscos de infecções respiratórias graves.

“A poluição do ar continua prejudicando a saúde das populações mais vulneráveis – mulheres, crianças e adultos de mais idade”, disse a diretora-geral adjunta da organização, Flavia Bustreo. “Para que as pessoas sejam saudáveis, elas precisam respirar ar limpo do primeiro ao último suspiro”, completou.

Fontes de poluição
A OMS alerta que as principais fontes de poluição do ar incluem modelos ineficientes de transporte; combustível doméstico e queima de resíduos; usinas de energia movidas a carvão; e atividades industriais em geral.

“Para enfrentar a poluição do ar, é preciso agir o mais rápido possível”, defendeu a diretora do Departamento de Saúde Pública e Determinantes Ambientais e Sociais de Saúde da OMS, Maria Neira.

“As soluções existem por meio do transporte sustentável nas cidades, da gestão de resíduos sólidos, do acesso a combustíveis domésticos limpos e fogões, bem como de energias renováveis e da redução de emissões industriais”, concluiu Maria.
Agência Brasil

Mar Mediterrâneo abriga 1,4 toneladas de resíduos plásticos



Pesquisadores alertam que em menos de 100 anos os resíduos passarão a fazer parte do ecossistema marinho
São jogados por ano milhões de toneladas de resíduos plásticos no mar.

Um problema que só vem crescendo no mundo todo e a alta quantidade de lixo jogado no mar. Milhões de toneladas de resíduos plásticos chegam aos mares e oceanos todos os anos.

De acordo com um estudo publicado pela revista “Environmental Research”, a superfície do Mar Mediterrâneo, acima de tudo as zonas litorâneas, contém cerca de 1.455 toneladas de resíduos plásticos, afetando não só a vida marinha, mas também a saúde e a economia. Os autores da revista ainda advertem que em menos 100 anos esses resíduos passarão a fazer parte do ecossistema marinho.

Os resultados conseguidos pela equipe de cientistas liderada pelo Conselho Superior de Pesquisas Cientificas (CSIC) no marco do projeto de pesquisa NIXE III, informam que 97% dos lixos retirados do mar eram plásticos.

Para obter esses resultados os pesquisadores realizaram algumas viagens em 2011 e 2013 pelo Mediterrâneo, repetindo o percurso feito por Luis Salvador da Áustria há 100 anos, com o objetivo de comparar resultados. O primeiro percurso realizado aconteceu desde as ilhas Baleares até o mar Adriático, enquanto a segundo foi desde as Baleares ao mar Jônico.

Os cientistas analisaram 70 amostras da superfície marinha, chegando a um resultado alarmante de cerca de 147,5 mil partículas de plástico por quilômetro quadrado. Isso daria um número equivalente a quase 1.455 toneladas de plástico em toda a extensão do Mediterrâneo, ressaltou Luis F. Ruiz-Orelhudo, pesquisador do CSIC ao portal Terra.

Apesar de o tamanho dos resíduos plásticos localizados serem variados, nas amostras analisadas foram encontrados microplásticos de menos de 5 milímetros. Já as partículas maiores mediam por volta de 1 milímetro.

Ruiz-Orelhudo explicou: “Os plásticos sofrem um processo de fragmentação quando se encontram em mares e, quanto menor é seu tamanho, aumentam os organismos para os quais está disponível a partícula e, portanto, sua repercussão na cadeia alimentar”. Para ele é imprescindível acompanhar a poluição por plásticos dos mares, saber onde estão localizadas as zonas de acumulação, mesmo com as correntes no Mediterrâneo, e indicar novas informações aos modelos de distribuição.
Pensamento  Verde

Embrapa cria gibi para explicar a relação entre consumo de carne e o efeito estufa



A ideia do material interativo é esclarecer dúvidas e apontar o que, de fato, são verdades sobre a produção e consumo de carne bovina 10 de outubro de 2016



Material é destinado principalmente ao público que varia entre oito e 14 anos.

Não é novidade para ninguém que a educação é a chave para o futuro da sociedade. Através dela, é possível conscientizar jovens e crianças sobre ideais importantes para si mesmos e, principalmente, para o planeta. Com isso, os conceitos sustentáveis adquirem cada vez mais um papel fundamental na fase adolescente da vida, uma das responsáveis por transformar o homem e sua relação com o meio ambiente.

A Embrapa Gado de Corte, em parceria com a APNSP (Associação Sul-Mato-Grossense dos Produtos de Novilho Precoce), lançou recentemente um gibi para jovens e crianças que aborda temas importantes e polêmicos. Na primeira edição, o gibi da série “Mitos e Verdades Sobre a Carne” fala da importância do consumo de carne, explorando tabus sobre o assunto de um jeito interativo para seus leitores.

Em entrevista para o programa de rádio Brasil Rural, a pesquisadora da Embrapa Gado de Corte, Fabiana Alves, falou sobre a importância da novidade lançada para o setor pecuário, que, hoje, é um dos principais alvos de crítica a respeito de seu desempenho quanto à emissão de gases de efeito estufa.

De acordo com a especialista, o relacionamento entre o consumo de carne bovina e as questões ambientais é potencializada por pessoas, muitas vezes, sem conhecimento da causa correta sobre o assunto. Fabiana enfatiza que diversas atividades presentes no cotidiano das pessoas contribuem de uma forma muito mais agressiva para a emissão de gases e, mesmo assim, não recebem a mesma atenção como a produção de carne vermelha.

O objetivo da iniciativa é esclarecer dúvidas e derrubar mitos existente sobre o setor, direcionando um conteúdo informativo para adolescentes e crianças entre oito e 14 anos e que aborda, com base cientificamente comprovada, fatos e mentiras sustentadas sobre o consumo de carne bovina.

“Hoje a gente pode falar que já existem sistema de produção, como por exemplo, sistema de produção e Integração LPF (lavoura pecuária e floresta), no qual nós temos um saldo de carbono positivo. Ou seja, as árvores e uma boa pastagem conseguem mitigar e até sobrar carbono no sistema. E isso quer dizer que nós podemos produzir bois e carnes, e, mesmo assim, preservar o meio ambiente”, garante Fabiana.

A pesquisadora cita o exemplo da utilização de carros e não reciclagem como situações em que as pessoas não se “incomodam” tanto quanto o alimento. Nas próximas edições da série, Fabiana conta que outros temas responsáveis por intensos debates serão focados no gibi, como a importância do consumo de carne e a importância do consumo da água.
Pensamento  Verde

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quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Informalidade: a ilegalidade dos pobres e a flexibilização dos ricos

Rosana Pinheiro-Machado
Nós naturalizamos uma lógica insana que trata a informalidade dos pobres como crime e a dos ricos como flexibilização



Rovena Rosa/Agência Brasil/Fotos Públicas 


Manifestantes e trabalhadores informais correm durante dispersão de protesto contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo, em janeiro de 2016

Durante os protestos do domingo 18 em São Paulo, uma ambulante que vendia bebidas em um isopor foi brutalmente reprimida por dois policias militares. Ela foi atirada e imobilizada no chão enquanto gritava para que a deixassem em paz. Eu assisti essa cena na televisão de um mercadinho, quando uma senhora muito simpática soltou um comentário: "bando de marginal".

Tanto a mulher apanhando quanto a mulher assistindo recompõem fragmentos de uma cultura mais ampla. São atos banais e cotidianos. A ambulante sendo violada de seus direitos, nesse sentido, só ganha visibilidade e comoção porque se entrecruza com os protestos “Fora Temer”, a violência policial e o grito pela extinção da Polícia Militar.

Longe das manifestações, a invisibilidade, a naturalização e a institucionalização da violência simbólica e física que os trabalhadores de rua recebem diariamente mantêm-se como um dos maiores males do país.

E isso ocorre por uma razão muito simples: ao tacharmos de “marginais” aqueles que querem trabalhar, estamos colaborando para a sua marginalização. Ou muito pior: estamos legitimando a violência policial daqueles que aprendemos a achar que são mais merecedores de cacetes que nós.


É preciso urgentemente reascender o tema da economia informal no debate público, com menos rancor e mais embasamento. A informalidade urbana não é praticada por “vagabundos e desocupados que incomodam as ruas e ganham dinheiro fácil” – para citar alguns dos clichês.

Ela é antes um problema de todos nós porque nenhuma discussão sobre desenvolvimento pode ser feita sem que mudemos a nossa forma de pensar sobre ela.

Nós naturalizamos uma lógica insana – tremendamente burra e autodestrutiva – que trata a informalidade dos pobres como crime e a dos ricos como flexibilização. Tem algo muito errado em uma sociedade que ignora que uma ambulante apanhe em nome da legalidade, mas também faz vista grossa aos sonegadores que vestiram verde amarelo pelo fim da corrupção.

A legalidade é revestida de diferentes pesos jogados sobre diferentes relações de poder.

Aqueles que precisam de incentivo para crescer e se formalizar são humilhados e criminalizados cotidianamente. Aqueles que, por outro lado, já acumularam diversos capitais para além do econômico – incluindo prestígio e boas relações sociais – são vistos como vítimas de um sistema tributário injusto.

Ou seja, nós temos um aparato social, econômico e cultural que torna o trabalho dependente de uma classe restrita que faz de tudo para reproduzir, por gerações e gerações, a sua fortuna e o seu monopólio.

Aqueles que, por baixo, querem entrar na esfera produtiva são literalmente postos para correr. Enquanto isso, no andar de cima, busca-se mais flexibilização, terceirização e aumento da carga-horária de trabalho.

Ora, está tudo errado nesta lógica de classificar diferentemente a informalidade de acordo com a classe social. A régua da legalidade, que idealmente deveria ser aplicada a todos de forma indiscriminada, na prática só vale para a base da pirâmide. Quando foi que nós vimos gangsteres da política e do mercado nacional sendo chutados como vira-latas pela polícia?

Por outro lado, por que estamos tão acostumados a ver os camelôs correndo da fiscalização – e até achamos graça da cena?

Uma informalidade é considerada limpa, justa e legítima; a outra, suja, injusta e perigosa.

Mas colocando na escala da justiça social, essas duas manifestações de informalidade são iguais? É claro que não. O Brasil é um país construído sobre feridas profundas de desigualdade social e racial e, portanto, uma mulher da periferia que vende de bebidas nas ruas não compete no mercado com os privilégios de quem sonega milhões. Há diferenças em todas as escalas de discussão.

Sim, eu defendo dois pesos e duas medidas aqui. É preciso taxar e fiscalizar as grandes fortunas do Brasil, de um lado. De outro, temos o desafio mais difícil: reconstruir um sistema burocrático, tributário e, principalmente, social e simbólico que seja mais aberto e amigável aos trabalhadores informais urbanos de baixa renda.

No meio disso tudo tem o pequeno empreendedor, que tenta pagar todos os impostos e se sente injustiçado pela competição do ambulante. Quando esse comerciante, dono da padaria ou do mercadinho se queixa, alegando que ele faz um esforço brutal para manter funcionários, ele tem razão. O que nós precisamos, portanto, é mudar o entendimento de onde se situa o injusto.

A criminalização do trabalho informal 
 
 
Camelôs da região do Brás, em São Paulo, protestam contra a morte do trabalhador Carlos Braga por um policial militar, em 2014

Historicamente, desde o século XIX, a sociedade brasileira tende a marginalizar e criminalizar a parte de baixo da sociedade, associando o trabalho de rua à vadiagem, vagabundagem e bandidagem.

Nessa lógica, esse é o país que não deu certo. Mas isso não passa de uma construção histórica, moldada por interesses particulares e, portanto, passível de mudança.

Todo mundo que conhece a realidade da economia informal urbana de perto, sabe que, com raras exceções, ninguém gosta de correr da polícia, não ter regulamentação e apanhar sol, chuva, vendo, calor e frio. É uma questão identitária, de reconhecimento social.

Não é à toa que muitos dos camelôs com quem eu interagia por muitos anos, emolduravam a autorização municipal e exibiam-na em suas bancas. Eles acreditavam no valor de seu trabalho, dos bens que levaram à população mais carente. Colocavam perfume nos produtos e neles próprios: “é para que os clientes entendam que somos limpos” – dizia uma amiga camelô.

Mas, reproduzindo a mesma crítica que eles sofriam dos comerciantes do varejo, eles próprios também criticavam o ambulante irregular, que não precisava pagar aluguel de banca no camelódromo. Em certa medida, todo mundo se acha honesto e acha que o sistema é desleal.

E é.

Portanto, temos um problema de foco de atenção. A crítica deve recair sobre aqueles que, tendo todas as condições e privilégios, ainda sim desviam milhões por meio de sonegações de impostos, retirada de direitos trabalhistas e licitações fraudulentas.

O meu ponto é que nós precisamos valorizar a força produtiva popular, nossa classe trabalhadora. Isso só vai ocorrer se nós pararmos para escutá-la e, assim, retirar diversas camadas que a demonizaram ao longo da história.

De um lado, urge que o sistema burocrático e tributário seja mais flexível com os ambulantes e pequenos comerciantes. São todos empresários à sua moda, fazendo a roda da economia girar.

É bem verdade que eu posso aqui ser facilmente acusada de “liberal”. Mas minha perspectiva é outra: eu concordo com Akhil Gupta (no livro Red Tape) que considera a burocracia uma forma de violência estrutural para com os mais pobres, uma máquina de matar e deixar morrer. É simplesmente uma questão de equação e justiça social.

Da mesma forma, é perfeitamente possível ter uma polícia mais tolerante e preventiva. Uma polícia que informe, dialogue e que não “esculache” – para usar a expressão de Lenin Pires, antropólogo que estuda economia informal.

De outro lado, na busca de um sistema mais equilibrado, precisamos avançar na discussão do que interessa: na taxação dos ricos e na fiscalização de suas fortunas.

Nós vivemos num mundo que – como recentemente analisou Keith Hart, que cunhou o conceito de setor informal nos anos 1970 – a informalidade tomou conta do mundo no século 21 e se legitima sob o guarda chuva da flexibilização do trabalho e do capital.

Mas essa legitimação da informalidade não vale para todos. Só para os ricos.

Eu ainda tenho clara em minha memória a cena do camelô Carlos Braga, que morreu nas ruas de São Paulo em 2014 com um tiro na cabeça de um policial militar. Sangue frio. Não houve confronto. Ele apenas tentava defender o seu colega.

Diversos vídeos mostram claramente que ele morreu gritando “deixem ele trabalhar”. Os policias foram absolvidos e o caso nunca virou notícia de grande repercussão. Afinal, é apenas um marginal morto. Quiçá, um bandido a menos nas nossas costas.

Tudo é mais fácil quando temos um inimigo, uma história pronta na cabeça que nos autorize a acreditar na safadeza alheia. Tudo é mais complicado, mas infinitamente mais recompensador, quando optamos pelo caminho mais difícil, da escuta e da compreensão histórica.

Desenvolvimento só existe quando as pessoas trabalham. Desenvolvimento só será viabilizado por meio do entendimento de que os criminosos não são aqueles que vendem “dez pilha a um real”, mas os que, de terno e gravata, assinam contratos obscuros e fraudam licitações.

Formalizar, incluir, legitimar o trabalho daqueles que querem trabalhar é uma tarefa urgente e necessária, mas que está ainda muito longe de nossos horizontes, de nossa cultura legal e de nosso julgamento de sofá.

Não há desenvolvimento social, e nunca haverá, enquanto tratarmos a nossa classe trabalhadora– aquela mesma que segura o país do colapso durante as crises econômicas – como o nossa principal inimiga. Nossos inimigos são outros. E eles estão no poder.
Revista Carta Capital

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Notícias Geografia Hoje


Premiê britânica cede a pressão e anuncia debates antes de saída da UE


DIOGO BERCITO
DE MADRI

Theresa May, premiê britânica, anunciou nesta quarta-feira (12) que haverá discussão no Parlamento antes de o Reino Unido dar início formal a sua saída da União Europeia.

Não há detalhes de como será o debate, e parlamentares por ora não terão direito a voto para decidir a estratégia do chamado "brexit", nome que se dá a esse processo.

Associated Press


A premiê britânica, Theresa May, responde a perguntas de parlamentares sobre 'brexit'


Mas o anúncio já é, em si, um indício de que May se dobrou à pressão do Partido Trabalhista e a membros de sua própria sigla, o Partido Conservador, que exigem maior transparência em uma decisão que terá tamanho impacto no futuro do país.

O Reino Unido decidiu, na votação de 23 de junho, deixar a União Europeia. A saída, sem precedentes, tem criado temor nos mercados.

O "brexit" só será iniciado quando o governo acionar o Artigo 50 do Tratado de Lisboa. A partir desse momento, as negociações devem durar em torno de dois anos. May já afirmou ter planos de dar início ao processo até o final de março de 2017.

Não está claro até agora, porém, como será a saída. Questões fundamentais, como o futuro dos migrantes e dos acordos de comércio, permanecem sem resposta.

Ademais, há desafios vindos de todas as partes do país, incluindo grupos de cidadãos que exigem transferir a decisão final ao Parlamento, em lugar do governo.

PRESSÃO

May se nega, por ora, a permitir que o Parlamento vote a saída do Reino Unido. A decisão, diz, é prerrogativa do governo. Mas ela estará sob maior pressão se a estratégia do "brexit" for de fato debatida pelos legisladores.

O cenário até então previso era apresentar um plano já consolidado, em discussões a portas fechadas.

May tem insistido em que "brexit significa brexit", no que já virou seu bordão, sem definir porém concretamente como será realizada a saída.

A situação é agravada pelo fato de que o voto popular pelo "brexit", em junho, não incluía um modelo específico, e sim apenas a ruptura com a União Europeia. Não há, assim, um ponto de partida.

O Partido Trabalhista apresentou ao governo uma lista de 170 perguntas sobre a saída do Reino Unido. Segundo o diário britânico "Guardian", as dúvidas vão desde a permanência no mercado comum até o impacto no sistema de saúde.

É importante, para a oposição, que haja clareza. Parlamentares afirmaram na quarta-feira, afinal, que a falta de informações tem assombrado os mercados, causando dano à economia.

A libra, moeda britânica, por exemplo, desvalorizou-se 18% em relação ao dólar desde o referendo de junho. 
Folha de São Paulo

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