quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Notícias Geografia Hoje


Petrobras anuncia jazida de petróleo e gás na Amazônia
Rio de Janeiro, 3 fev (EFE).- A Petrobras anunciou nesta sexta-feira a descoberta de uma jazida de petróleo e gás natural na Bacia do Solimões, na região amazônica.

Segundo um comunicado da empresa, a reserva de hidrocarbonetos foi descoberta durante a perfuração do poço conhecido como Leste do Igarapé Chibata, no município de Coari, a 25 quilômetros da província petrolífera de Urucu e com uma profundidade final de 3.295 metros.

Os testes indicaram uma capacidade diária de produção de 1.400 barris de boa qualidade e 45 mil metros cúbicos de gás, precisou a Petrobras.

A companhia indicou que, se existir 'viabilidade econômica' para a exploração a partir das descobertas nessa zona, será 'criado um novo polo produtor de petróleo e gás natural na Bacia do Solimões'.
Revista Veja

Recifes de corais

Oceanos mais quentes estimulam o crescimento de algumas espécies
David Biello
©Rich Carey/shutterstock

Uma das maiores tragédias naturais dos últimos anos é a deterioração da Grande Barreira de Corais da Austrália, uma enorme estrutura de corais na costa leste do continente, que abriga uma profusão de vida selvagem. Além da poluição e da pesca excessiva, a maior estrutura natural do mundo sofre com a elevação da temperatura dos oceanos. Entretanto, talvez menos conhecidos e afastados da costa oeste australiana, existem alguns recifes enormes no sudeste do Oceano Índico. Corais maciços do gênero Porites afloram à superfície e uma nova pesquisa publicada na Science sugere que os corais localizados em águas mais frias, mais distantes ao sul, se desenvolvem melhor, graças ao aquecimento da temperatura do oceano.

“Onde vemos maior aquecimento, há uma resposta acentuada”, avalia o biólogo marinho Timothy Cooper, do Australian Institute of Marine Science. “Até o momento, são as mudanças de temperatura que produzem impacto dominante no crescimento dos corais, como evidenciado pelas crescentes taxas de calcificação em nossos locais mais ao sul.”

As descobertas sugerem que as mudanças de temperatura desempenham um papel maior no destino de corais, pelo menos a curto prazo, do que qualquer acidificação do oceano, onde a água do mar absorve níveis crescentes de dióxido de carbono da atmosfera, tornando-a mais ácida.

Corais, pólipos microscópicos, formam recifes extraindo o cálcio dos arredores e o usam para criar minúsculas conchas-casas para si, que podem se acumular ao longo dos séculos em estruturas maciças. Este processo, conhecido como calcificação, é sensível à temperatura e à acidez, que podem dificultar o crescimento. Além disso, os próprios corais são sensíveis à temperatura, e as demasiado elevadas podem levar a eventos de branqueamento que podem matar um recife.

Cooper e seus colegas perfuraram recifes de Porites em seis locais, abrangendo cerca de 1.000 km de norte a sul da costa oeste da Austrália. Eles extraíram 27 amostras de núcleos. Cada um revelou um registro da densidade anual das casas à base de cálcio do coral Porites. Comparando a velocidade anual de calcificação do coral com a densidade média de 1900 a 2010, Cooper e seus colegas revelaram quando e onde ocorreu alguma alteração anormal. Então, pesquisadores compararam esse registro com os dados mensais de temperatura no mar, para tentar entender se ela levou a um impacto e, em caso afirmativo, qual foi.

Os estudiosos descobriram que os Porites no extremo sul da costa oeste da Austrália produziram casas cada vez mais espessas nas últimas décadas, conforme as água mais frias do oceano se aqueceram. Mais ao norte, o inverso é verdadeiro: Porites em águas já quentes, subtropicais e tropicais, sofrem quando o oceano se aquece demais. “Onde houve pouco aquecimento, houve pouca mudança na calcificação”, relata Cooper. “Até agora, são as mudanças de temperatura que produzem impacto dominante no crescimento dos corais, como evidenciado pelas crescentes taxas de calcificação em nossas localidades mais ao sul.” Os núcleos sugerem que a acidificação crescente do oceano provocou, até agora, menos impacto sobre corais que a temperatura. No final, no entanto, espera-se que a acidificação acabe prejudicando o crescimento de corais, não importando a temperatura da água. “A acidificação dos oceanos será cada vez mais um fator limitante para o crescimento dos recifes tropicais”, lamenta Cooper.

Porém, pode existir uma falha neste estudo: os registros mensais de temperatura usados. Os corais reagem à temperatura na escala de dias ou semanas, daí os eventos de branqueamento na Grande Barreira de Corais ou em outras partes do mundo, que podem “retardar o crescimento da colônia por anos”, alerta o biólogo marinho John Bruno, da University of North Carolina, em Chapel Hill, que também estuda corais, mas que não se envolveu nesta pesquisa. “Infelizmente, essa informação [sobre temperatura] não existe.” Dados muito específicos sobre mudanças locais de temperatura seriam necessários para entender melhor como a temperatura, o aumento da acidez e o crescimento de corais interagem, embora esteja cada vez mais claro que impactos de oceanos mais quentes determinarão o futuro dos corais.

Também está claro que tanto os impactos do aumento das emissões humanas de CO2, aquecimento global, quanto a acidificação dos oceanos, estão dificultando a vida os recifes, incluindo o declínio rápido de crescimento do Porites na Grande Barreira de Corais. E não existe solução fácil: o trabalho de Bruno mostra que mesmo reservas marinhas protegidas, essencialmente parques marinhos, não conseguem proteger os recifes de problemas globais como mudanças climáticas. Como Cooper acrescenta: “Alterações como esta, com quantidade relativamente modesta de aquecimento global até agora (em comparação com o que está previsto para as próximas décadas), é motivo de preocupação.”
Scientific American Brasil

Não existe planeta como o nosso

Plantas são responsáveis pelas geleiras e rios que criaram a paisagem característica da Terra
Mark Fischetti
©Mikhail Markovskiy/Shutterstock

Os astrônomos estão descobrindo muitos exoplanetas que orbitam estrelas como o Sol, incrementando substancialmente as chances de encontrarmos um mundo semelhante. Mas se isso acontecer, a chance de a superfície desse planeta ter um aspecto semelhante à do nosso é muito pequena, graças a um “culpado” improvável: as plantas.

Todos nós sabemos como a paisagem da Terra emergiu, certo? Oceanos e massas de terra se formaram, montanhas ergueram-se e a precipitação pluviométrica varreu sua superfície; rios desgastaram as rochas nuas, criando o solo, e as plantas se enraizaram. Bem, uma nova pesquisa indica que a última fase desse roteiro não está correta. Plantas vasculares — aquelas com estruturas como xilema e floema, que podem conduzir água, entre outras substâncias — são o que criou os rios e lamaçais que construíram os solos que produziram florestas e terras cultiváveis.

A evidência de que as plantas vasculares foram uma das principais forças que moldaram a superfície da Terra é apresentada em uma edição especial da Nature Geoscience, publicada on-line. No artigo, Timothy Lenton, um cientista especializado em sistemas da Terra na Universidade de Exeter, na Inglaterra, apresenta dados do registro biogeoquímico mostrando que a evolução de plantas vasculares em torno de 450 milhões de anos atrás é o que realmente começou a absorver dióxido de carbono da atmosfera, mais do que os organismos nos oceanos. Em consequência, as temperaturas da Terra caíram, iniciando um ciclo de glaciação e derretimento generalizados que, ao longo de outros milhões de anos, provocaram uma abrasão substancial na superfície da Terra.

Talvez ainda mais surpreendente, plantas vasculares formaram os tipos de rios vemos hoje ao nosso redor, segundo outro artigo, de Martin Gibling, da Universidade Dalhousie, em Nova Scotia, e Neil Davies, da Universidade de Ghent, na Bélgica, que analisaram a deposição de sedimentos remontando a centenas de milhões de anos. Antes da era das plantas, a água lavava as massas terrestres da Terra em amplas extensões, sem cursos definidos. Somente quando suficiente vegetação cresceu, a ponto de desagregar as rochas em minerais e lama, e então manter essa lama fixa em seu local, é que se formaram as margens dos rios, que começaram a canalizar a água. Essa canalização resultou em inundações periódicas que depositaram sedimentos sobre grandes áreas, criando solos ricos. O solo, por sua vez, permitiu que árvores se enraizassem. Seus detritos lenhosos tombaram nos rios, criando “engarrafamentos” dessas substâncias que rapidamente criaram novos canais e causaram ainda mais enchentes, estabelecendo um ciclo realimentador que terminou por dar sustentação a florestas e planícies férteis.

"As rochas sedimentares, antes das plantas, quase não continham lama", explica Gibling, professor de ciências da Terra na Dalhousie. "Depois que as plantas se desenvolveram, o conteúdo de lama aumentou enormemente. Paisagens lamacentas expandiram-se bastante. Foi criado um novo tipo de ecoespaço antes inexistente.”

Isso nos leva às consequências cósmicas. "As plantas não são passageiros passivos no sistema da superfície do planeta", diz Gibling. "Elas criam o sistema da superfície. Organismos moldam o ambiente: a atmosfera, as paisagens, os oceanos, todos se desenvolveram com incrível complexidade depois que a vida vegetal se desenvolveu." Assim, conforme dizem os editores da Nature Geoscience em editorial para sua edição especial, mesmo que haja alguns planetas que possam suportar placas tectônicas, água corrente e os ciclos químicos que são essenciais à vida como a conhecemos, parece improvável que qualquer um desses planetas seja parecido com a Terra. Porque mesmo que plantas brotem, elas evoluirão de forma diversa, moldando uma superfície distinta sobre o orbe que denominam lar.
Scientific American Brasil

Notícias Geografia Hoje

Davos ocupada
Os gritos do movimento Occupy Wall Street ecoam durante encontro do clube dos 1% mais ricos na Suíça e a busca de soluções para a crise internacional domina os debates
Mariana Queiroz Barboza

PROTESTO
O movimento “Occupy” fez-se ouvir no Fórum Econômico Mundial


Neste ano, não vamos deixar que eles excluam a gente, os 99%”, afirmaram os ativistas do Occupy WEF (sigla em inglês para Fórum Econômico Mundial), braço do grupo que acampou em Wall Street e levou o movimento contra a desigualdade social a outros países no ano passado. Desta vez, o acampamento foi formado por iglus erguidos sobre mais de um metro de camada de neve em um estacionamento próximo à estação ferroviária de Davos, na Suíça, onde os principais líderes globais se reúnem anualmente para discutir os rumos da economia. Curiosamente, o tema escolhido para este ano, A Grande Transformação: Desenvolver Novos Modelos, mostra que alternativas são necessárias para impulsionar o desenvolvimento econômico. Em outras palavras, os poderosos querem saber como crescer com criação de empregos e distribuição de renda. Ou seja, os reclamos do movimento que surgiu em Wall Street ecoaram durante as reuniões em Davos. Para o presidente-executivo e fundador do evento, Klaus Schwab, “o capitalismo, na sua atual forma, já não se encaixa no mundo que nos cerca”. Notório por seu pessimismo, o economista Nouriel Roubini resumiu o espírito do encontro de 2012, marcado pelas maiores nevascas em 42 anos: “O que nos conecta no mundo hoje em dia é a insegurança econômica e financeira, o aumento da desigualdade, os desafios impostos pela pobreza e os efeitos do desemprego na crise.”

No mesmo tom, a chanceler alemã, Angela Merkel, abriu o fórum na tarde da quarta-feira 25 pedindo reformas estruturais e mais integração no bloco europeu. Classificando-se como realista, disse que as lições da crise de 2008 ainda não foram aprendidas e negou colocar mais dinheiro no fundo de resgate permanente da zona do euro, o que, segundo ela, sobrecarregaria a Alemanha. “O que nós não queremos é prometer algo que não possamos cumprir.” Apesar de o pessimismo prevalecer na maioria dos discursos, certo alento pôde ser verificado durante os debates sobre os países emergentes. Estes devem apresentar o maior crescimento do ano: 5,4%, segundo o Fundo Monetário Internacional. Já a China, que, pela primeira vez em 30 anos, não enviou autoridades do alto escalão por causa das festividades do Ano-Novo chinês, foi alvo de incertezas quanto à desaceleração de sua economia, mas lembrada como via alternativa por seu “capitalismo de Estado”. “Temos agora dois tipos de capitalismo competindo um com o outro. Há o ‘laissez-faire’ (liberalismo) e o capitalismo de Estado, que tem criado mais empregos do que o Ocidente”, disse David Rubenstein, do fundo de investimentos Carlyle. O problema, segundo ele, é que esse modelo não criaria empregos com remuneração e benefícios iguais aos que os ocidentais estão acostumados.

As economias latinas também foram destaque, fruto do que os empresários classificaram como “resultados de décadas de austeridade e reformas”, que possibilitaram a restruturação da dívida, a solidez do sistema financeiro, o desenvolvimento do mercado doméstico e a atração de novos investimentos para a região. Guillermo Ortiz, ex-presidente do Banco do México, falou em “década da América Latina”. “Nunca estivemos tão preparados para seguir adiante”, afirmou. Embora tenha invertido os papéis nos últimos anos e abandonado a imagem de sinônimo de instabilidade, o continente não deixou de ser lembrado por seus problemas com corrupção e má distribuição de renda. “O crescimento da desigualdade é um dos maiores riscos à prosperidade e segurança”, disse o economista-chefe da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, Pier Carlo Padoan. “O principal desafio dos governos hoje é implementar reformas que tragam o caminho do crescimento de volta, coloque o povo para trabalhar e reduza esse imenso abismo entre ricos e pobres.”

A capacidade de geração de empregos também foi bastante discutida no contexto da crise do capitalismo. O descontentamento com a falta de postos de trabalho está espelhada nos protestos dos jovens, especialmente afetados pela situação econômica desfavorável nos países desenvolvidos. Foi lembrado, durante os debates, que o desemprego serviu de motivação, entre outras, para as recentes tensões no norte da África.

Por conta disso, o executivo-chefe do banco americano Citigroup, Vikram Pandit, ressaltou o planejamento de, nos próximos dez anos, a América Latina criar 40 milhões de novos empregos e os Estados Unidos 20 milhões. Nessa linha, a Bloomberg New Energy Finance (BNEF) lançou no Fórum Econômico Mundial um relatório intitulado “Rumo
a uma economia de etanol de próxima geração”. O documento estima as perspectivas socioeconômicas da implantação de biocombustíveis avançados em oito das maiores regiões agrícolas no mundo. São elas: Argentina, Austrália, Brasil, China, Estados Unidos, Índia, México e União Europeia. A avaliação é que os biocombustíveis avançados possam criar até 2,9 milhões de empregos na China, 1,4 milhão nos Estados Unidos e cerca de um milhão de novos postos de trabalho no Brasil.


Revista ISTOÉ

Notícias Geografia Hoje

Bonitinho, mas predador
Atirado por acidente na Costa Leste dos EUA, o peixe-leão desceu o Atlântico, deixou um rastro de destruição no Caribe, está perto do Brasil e ameaça a população nacional de lagostas
Wilson Aquino


Um peixe fofinho, de cerca de 30 centímetros, que encanta os aquaristas por causa de suas listras coloridas e barbatanas, é apontado pela comunidade científica como o novo terror dos mares. Desde que foi atirado acidentalmente no Oceano Atlântico, na Costa Leste dos Estados Unidos, o peixe-leão-vermelho, contrariando as expectativas dos biólogos, disseminou-se pela América Central e já chegou à América do Sul, deixando um rastro de devastação que, temem os cientistas, pode causar grave desequilíbrio ecológico. Seu apetite voraz o leva a consumir todo tipo de peixe e organismo marinho que caiba na boca – seu estômago pode se expandir em até 30 vezes, ou seja, comporta muitos camarões, siris e filhotes de lagosta, as vítimas preferidas. E o pior é que o peixinho está cada vez mais perto do Brasil. Foi avistado na costa da Venezuela, a cerca de 1.500 quilômetros do Amapá.

Nativo das águas quentes dos recifes de corais dos oceanos Índico e Pacífico, ele se adaptou bem à temperatura do Atlântico, onde não para de se multiplicar. “Como não tem predador natural, exatamente por ser exótico, a população dele cresce muito rápido”, explica o professor do departamento de biologia marinha da Universidade Federal Fluminense (UFF) Abílio Soares Gomes.

O peixe-leão-vermelho também não tem presa específica para devorar. “Nos Estados Unidos, constataram que apenas um peixe-leão pode arrasar um hectare de corais em uma semana”, alerta a diretora-executiva do Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental, Sílvia Ziller. O peixe-leão-vermelho também ameaça o ser humano, já que seus espinhos venenosos causam dor intensa. “Os pescadores do Amapá estão sob risco”, adverte Sílvia.

Revista ISTOÉ

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Notícias Geografia Hoje

Observatório identifica galáxia parecida com a Via Láctea
Denominada NGC 6744, formação fica a cerca de 30 milhões de anos-luz de distância da Terra, na Constelação Pavão
Do Portal Terra

O Observatório Europeu do Sul (ESO, na sigla em inglês) divulgou nesta quarta-feira (1º) a imagem de uma galáxia parecida com a Via Láctea. Os astrônomos utilizaram o telescópio MPG (de 2,2 m) para localizar a NGC 6744, que fica cerca de 30 milhões de anos-luz de distância na Constelação Pavão.

A galáxia possui uma forma com braços espirais em torno de um denso e alongado núcleo e um disco de poeira. A grande diferença entre a Via Láctea e a NGC 6744 é o tamanho. Enquanto a primeira tem 100 mil anos-luz de diâmetro, a outra tem quase duas vezes este tamanho.

A NGC 6744 é uma das maiores galáxias espirais próximas da Via Láctea e possui um brilho de cerca de 60 sóis - sendo que pode ser identificada com um pequeno telescópio. A imagem foi obtida através de quatro filtros diferentes que mostraram as luzes azul, amarela-esverdeada, vermelha e o brilho do gás hidrogênio.

Revista ISTOÉ

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Notícias Geografia Hoje

A China vai à Lua
Motivados pelo crescimento econômico e com um empurrão involuntário dos Estados Unidos, os chineses desenvolvem tecnologias em tempo recorde e avançam a passos largos para se tornar os donos do espaço
André Julião



PARA O ALTO
Foguete sobe com a sonda Chang’e, parte do projeto chinês de conquista da Lua


Num futuro não muito distante, ao apontar seus telescópios para a Lua, os astrônomos vão encontrar uma bandeira vermelha fincada ali. Esse é o objetivo final de um documento divulgado pelo governo chinês no fim do ano passado. Na comunidade científica, ninguém duvida que marcas de botas asiáticas vão fazer companhia às americanas em solo lunar. Nos últimos anos, o país tem aproveitado seu desenfreado crescimento econômico para dar vários saltos em tecnologia aeroespacial. E até agora tudo tem saído de acordo com o planejado. Apesar de investir na exploração do espaço desde os anos 1950, só em 2003 a China deu o primeiro grande passo simbólico, quando pôs um taikonauta – designação dos astronautas do país – na órbita da Terra. Desde estão, os avanços são cada vez mais rápidos, com a primeira caminhada espacial em 2008 e o lançamento de sondas lunares que poderão proporcionar, em 2020, o pouso no satélite natural de uma missão não tripulada chinesa.

O documento do governo não estipula um prazo, mas os cientistas chineses estimam que, até 2025, um conterrâneo passeie pela Lua. É um ato que vai mostrar ao mundo quem é o novo dono do espaço. Nos anos 1960 e 1970, os Estados Unidos já mandaram missões tripuladas à Lua, mas não têm condições de repetir a façanha tão cedo. Até porque, desde a aposentadoria dos ônibus espaciais em julho de 2011, estão a pé. Os russos, que nunca pisaram em nosso satélite, demonstram ter fôlego para chegar, no máximo, até a Estação Espacial Internacional, que fica a 400 quilômetros da Terra. A Lua está a uma distância superior a 356.000 quilômetros.

O medo que a concorrência tem dos asiáticos é antiga. Nos anos 1950, o chinês Qian Xuesen era um dos mais respeitados cientistas aeroespaciais trabalhando nos EUA. Chegou a ser um dos fundadores do Jet Propulsion Laboratory, até hoje um dos centros de pesquisa mais importantes da Nasa, a agência espacial americana. O país vivia o macartismo, período de intensa paranoia em torno de uma nunca concretizada “invasão comunista”. Xuesen foi demitido e voltou para a China, onde desenvolveu os primeiros foguetes do país. Daí por diante, os chineses aprenderam rápido.

Nos anos 1990, adquiriram conhecimento em tecnologia aeroespacial graças a acordos comerciais com companhias dos EUA, particularmente quando satélites americanos foram lançados da China em foguetes baratos. Mas o maior impulso veio quando os EUA vetaram a participação chinesa no consórcio de 15 países da Estação Espacial Internacional, estrutura que começou a ser montada em 1998. Em vez de desistir dos seus planos espaciais, os chineses resolveram criar sua própria estação, que já tem um módulo em órbita e deve estar funcionando plenamente em 2016. “Não estou convencido se o que aprenderam naquele momento fez uma grande diferença, mas a verdade e que eles estão fazendo muitos progressos por conta própria”, disse à ISTOÉ Jonathan McDowell, astrônomo do Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics, especialista em programas espaciais.

Os chineses têm muito mais a ganhar com seu programa espacial do que simplesmente ter a bandeira vermelha fincada na Lua. A corrida ao espaço entre Estados Unidos e União Soviética promoveu um avanço tecnológico sem precedentes na história da humanidade. Muitas das tecnologias que usamos até hoje são frutos dessa disputa. Isso acontece porque, para garantir o sucesso de missões tão ousadas, é necessário produzir componentes eletrônicos extremamente confiáveis e precisos. No caso chinês, a aventura espacial pode melhorar a qualidade de todos os seus produtos. E aí o país chegará mais perto de consolidar sua supremacia. Assim na Terra como no céu.

Revista ISTOÉ

Procuram-se mulheres

Num mundo com 7 bilhões de habitantes faltam mulheres em alguns países. Na Ásia, a maternidade já é problema. Em 2025, faltarão esposas na China. Talvez os chineses venham procurá-las no Brasil.

Maíra Lie Chao



Atualmente, 1.370.536.875 pessoas vivem na China, incluindo Hong Kong, Macau e Taiwan. Embora 1 bilhão pareça um número gigantesco, o país começa a se preocupar. Na última década, a população cresceu 5,8%, índice baixo comparado aos outros anos. De acordo com o Bureau Nacional de Estatística da República da China, a população também envelheceu, pois a proporção de jovens abaixo dos 14 anos caiu para 16% em relação ao total de pessoas, ao passo que a proporção de idosos de mais de 60 anos aumentou 3%. A taxa de fecundidade está entre 1,7 e 1,8 filho por mulher - quando 2,1 é o mínimo para recompor a população.

Já em 2025, o crescimento populacional chinês começará a ser negativo, segundo as Nações Unidas. "A China é muito grande e há muitos anos vem mantendo a política do filho único, uma legislação que obriga os casais a ter apenas um filho. Além disso, por razões culturais, os filhos homens são preferidos. Resultado: o país será prejudicado em termos de reprodução da população devido à falta de meninas", afirma Margareth Arilha, pesquisadora de saúde reprodutiva do Núcleo de Estudos de População da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Em boa parte da Ásia, as meninas são vistas como membros que não trazem benefícios à família, do ponto de vista econômico, social e cultural. É o homem que dá procedência à linhagem do nome, assume a chefia da casa e é responsável pelos mais velhos. Embora a desproporção entre nascimentos de homens e mulheres chineses tenha diminuído, ela continua alta: para cada grupo de 100 mulheres, há 105,2 homens. Tanto na China quanto em outros países asiáticos, como a Índia, há muitos casos de aborto e de assassinato de bebês do sexo feminino.

"Os abortos seletivos foram adotados por 'grupos pioneiros', mais ricos, que tinham acesso a tecnologias como ultrassonografia, como solução para reduzir o número de crianças e maximizar a probabilidade de ter pelo menos um filho homem", explica Christophe Z. Guilmoto, no artigo "The Sex Transition in Asia", publicado pelo Centre Population et Développement da Université Paris Descartes, na França.



Europeias individualistas
O casamento ainda é o modo mais popular de criar filhos na Ásia e no mundo, por enquanto. Apenas 2% dos nascimentos acontecem fora do matrimônio no Japão. Já em países europeus, como a Suécia, 55% dos bebês são de mulheres não casadas. Na Islândia, a percentagem atinge 66%. Atualmente, há 83 países com taxas de fecundidade abaixo do nível de reposição. Os casos mais graves são Bósnia, Malta, Hong Kong, Portugal, Áustria, Cingapura, Romênia, Coreia do Sul, Polônia, Ucrânia, China e Japão.



Indonésia: casamento? Sim, por favor.
Como é previsível, onde a desproporção entre o número de homens e o de mulheres é alta, em algum momento, faltarão esposas. Outro fenômeno é o casamento tardio, recorrente na Ásia Oriental. Apesar de ser uma tradição cultural forte, muitas mulheres não têm pressa em se casar e algumas não fazem mais tanta questão de se unir a homens da mesma nacionalidade.

Segundo o Instituto de Pesquisa da Ásia, em Hong Kong e nas cidades mais ricas do Japão e da Coreia do Sul, a idade média do casamento varia entre 29 e 30 anos para mulheres e 31 e 33 anos para os homens. Já no Ocidente, a média abaixa para 26 anos para mulheres e 28 para homens. É cada vez mais comum a jovem asiática optar por não se casar. Vinte por cento dos japoneses entre 20 e 27 anos afirmam que não sabem se querem a união. Dos jovens norte-americanos dessa mesma faixa etária, apenas 5% não desejam o matrimônio e outros 5% não se decidiram.

Um dos fatores decisivos da opção pela vida solteira é que os jovens orientais não veem vantagens no casamento, uma vez que muitos dos casados estão insatisfeitos. Pesquisas do East-West Center (EUA) revelam que os casais norte-americanos apresentam maior satisfação com o matrimônio do que japoneses e sul-coreanos. Acredita-se que isso se justifica pelo fato de os ocidentais terem uma visão pragmática do divórcio: eles se separam com facilidade se são infelizes no casamento.

O número de divórcios subiu nos países da Ásia, mas esse é mais um motivo para os jovens não casarem. Um em cada cinco casamentos no Japão, na Coreia do Sul e na China termina em separação. "Nessas sociedades, o risco de divórcio pode dar mais motivação às mulheres solteiras a investir em boa educação e na carreira em vez de se casar cedo", afirma o estudo do East- West Center. Outra diferença marcante é que, entre os asiáticos, quase não há união sem casamento civil ou religioso. No Japão, apenas 5% das mulheres entre 25 e 29 anos e 8% das com 30 a 34 anos moraram com seus companheiros.

Maridos machistas
Educação, carreira e custo de vida alto são fatores que contribuem para a inserção e permanência da mulher no mercado de trabalho. Na volátil situação econômica atual, elas desempenham papel importante no sustento da casa. Apesar de o homem ganhar mais, algumas despesas já são responsabilidade delas. Nesse cenário, também precisam cuidar da casa, dos filhos e dos idosos - o que as feministas denunciavam como "dupla jornada de trabalho".

Os maridos asiáticos ajudam menos as mulheres do que os americanos. Não por acaso, com todas as tarefas extras, elas preferem não casar. No Japão e na Coreia do Sul, o processo seletivo para instituições de ensino é competitivo desde os primeiros anos. Boas escolas e notas no currículo escolar garantem boas universidades e um futuro promissor. Além disso, as sociedades valorizam o ensino rigoroso e disciplinado. Compete às mães o papel de ajudar os filhos com a lição de casa e, muitas vezes, de pagar cursinhos, que podem ser mais caros do que o colégio.

De acordo com o relatório do East- West Center, a mudança do papel e do comportamento da mulher tem implicações nas áreas de saúde, planejamento familiar, trabalho e sistemas de suporte para os mais velhos. O casamento tardio é um dos fatores da baixa taxa de natalidade no Japão, na Coreia do Sul, em Taiwan e em Cingapura. Os governos asiáticos agora precisam investir em políticas públicas para facilitar a maternidade.

As controvérsias da desigualdade entre gêneros, entretanto, permanecem. Em alguns países asiáticos os homens preferem mulheres que tenham menor grau de instrução que eles. Em Cingapura, o número de mulheres solteiras graduadas é enorme. Um terço das mulheres de 30 a 34 anos que frequentaram universidades não casam.


Japão: casamento? Não, obrigado.
Brasileiras disponíveis
O Brasil, felizmente, ainda não corre o mesmo risco da Ásia. Há mais mulheres que homens, precisamente 96,9 homens para 100 mulheres. Essa proporção tende a se manter nos próximos 90 anos. Segundo as Nações Unidas, o crescimento da população brasileira só deverá ser negativo a partir de 2035. Mesmo assim, não há o que temer, pois pela projeção, a taxa de fecundidade tende a subir de 1,8 filhos por mulher, em 2010, para 1,96, em 2100.

Os pesquisadores Paula Ribeiro, da Universidade Federal de Minas Gerais, e Joseph Earl Potter, da Universidade do Texas, em Austin, nos Estados Unidos, argumentam, na Revista Brasileira de Estatística e População, que o Brasil se diferencia dos demais países com taxa de fecundidade abaixo dos 2,1 filhos do nível de reposição. Enquanto que os europeus têm filhos cada vez mais tarde, aqui, a fecundidade entre adolescentes ainda é alta.

Os autores chamam a atenção para a taxa de fecundidade declinante dos últimos anos, em especial entre a população mais pobre. "O fato de estar caindo tão drasticamente entre as mulheres pobres e pouco escolarizadas sugere que os fatores socioeconômicos não são suficientes para entender a fecundidade abaixo do nível de reposição do Brasil", escrevem os pesquisadores.

Paula e Potter sugerem que os ideais femininos e instituições como a igreja e a mídia contribuíram para o padrão de reprodução. A questão de se manter virgem até o casamento já perdeu a força e as jovens iniciam sua vida sexual cada vez mais cedo. Elas encaram a separação com mais naturalidade, caso o marido seja violento, por exemplo. Apesar dessa nova perspectiva, muitas frequentam a igreja e tentam por em prática os valores religiosos, mantendo resquícios da cultura passada.

Mesmo com muitas mães adolescentes, a fecundidade brasileira está mudando. Segundo o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a maternidade entre jovens de 15 a 19 anos e de 20 a 24 anos caiu, respectivamente, de 18,8% e 29,3%, em 2000, para 17,7% e 27%. Já a fecundidade entre mulheres acima dos 30 anos subiu de 27,6% para 31,3%.

O Brasil está se aproximando do padrão reprodutivo dos países desenvolvidos. As jovens atuais, ao contrário das mulheres da geração anterior, já não almejam muitos filhos. As brasileiras urbanizadas preferem ter um ou dois para lhes garantir mais oportunidades na vida. O aumento da fecundidade acima de 30 anos pode ser evidência de que, como as europeias, elas estão adiando a maternidade em prol da carreira.

Fonte: Asia Research Institute; Ebenstein and Sharygin (2009). The Consequence of the 'Missing girls' of China

Revista Planeta

Índios obesos

Males da civilização moderna, o diabetes e a obesidade atingem os índios, geneticamente propensos a reter gordura. A adoção da dieta dos brancos e a sedução do consumo estão levando os povos mais aculturados ao sedentarismo.
Inês Castilho Fotos: Hélio Mello e Roberto Guglielmo

Metade dos xavantes das áreas indígenas Sangradouro e São Marcos (MS) apresentam obesidade.


Os xavantes se autodenominam A’wuê, A’wuê uptabi – “gente, gente verdadeira”. Fortes, troncudos, com os cabelos vermelhos pintados de urucum, têm uma fama de guerreiros que amedrontou os homens brancos desde as primeiras tentativas de contato, no século 18. Hoje, porém, estão submetidos. Não pela contaminação proposital por tuberculose ou sarampo, tiro ou envenenamento, como no passado, mas pelo açúcar, o arroz branco e os alimentos industrializados que alteraram decisivamente seus hábitos e os induzem à obesidade e ao diabetes, doenças da civilização ocidental.

O mais conhecido, o xavante Mário Juruna, morreu em 2002, aos 60 anos, depois de permanecer cinco anos em cadeira de rodas em decorrência de complicações crônicas do diabetes. Primeiro e único deputado federal indígena eleito do país (1983-1987), Juruna ficou conhecido nos anos 70 por andar com um gravador na mão registrando as promessas dos políticos no regime militar. Em 1980 representou os índios brasileiros no quarto Tribunal Bertrand Russell, na Holanda.

Entre os brasileiros, o diabetes está se tornando epidemia, incluída pela ONU na lista das doenças crônicas não transmissíveis. Entre os índios, geneticamente mais vulneráveis, está virando praga. Dos 935 xavantes acima de 18 anos dos territórios de Sangradouro e São Marcos, no leste de Mato Grosso, 33% das mulheres e 15% dos homens têm diabetes mellitus tipo 2 e 34,2% encontram-se pré-diabéticos. A obesidade, que favorece o aparecimento da doença, atinge 51,1% das mulheres e 46% dos homens. Somados aos que estão com sobrepeso, passam de 80%. Os dados são de um estudo realizado em 2010 e 2011 pelos professores João Paulo Botelho Vieira-Filho e Regina Moisés, da Escola Paulista de Medicina (Unifesp), e Laércio Franco e Amaury Dal Fabbro, da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto.

Vieira-Filho pesquisa a saúde dos índios brasileiros há mais de 40 anos. Em 1977 encontrou as primeiras evidências de diabetes, entre os caripunas e os palicures do Amapá, já com casos de amputação decorrentes do agravamento da doença. Entre os xavantes de Sangradouro, as primeiras glicemias com valores suspeitos foram colhidas em 1983. “Com o projeto arroz mecanizado da Funai, os índios passaram a ingerir arroz branco, com açúcar, até pela manhã. Progressivamente abandonaram as roças de feijão, cará, abóbora, mandioca, macaxeira, amendoim e produtos da floresta e do Cerrado. Devido às criticas dos civilizados incultos, deixaram de comer gafanhotos e formigas, outrora muito apreciados, que contribuíam com proteínas animais”, diz o professor.“Nos anos 70, eles eram delgados e mantinham intensa atividade física. Agora, as mulheres, sobretudo, estão obesas e com diabetes.”





As imagens de 1955, feitas pelo fotógrafo Roberto Guglielmo, mostram xavantes magros e esguios.



Alimentos industrializados
Em 1984, o médico encontrou casos de diabetes entre os bororos de Meruri, em Mato Grosso. Em 1987, colheu glicemias alteradas entre os xicrins do Rio Cateté e os paracanãs do Rio Bom Jardim, no sudeste do Pará. No mesmo ano, verificou casos suspeitos de diabetes entre os gaviões parcategês, também do Pará. “A política desenvolvimentista do Estado levou para o interior do território indígena estradas de rodagem, como a estrada de ferro Carajás, da Vale do Rio Doce, e linhas de eletricidade da Eletronorte. Com o dinheiro das indenizações, que os xicrins e os gaviões ainda recebem, deleles passaram a comprar alimentos industrializados. Mas o desastre, lá, não é tão grande como entre os xavantes. Os xicrins são hoje 1.200, com 16 diabéticos. Entre os xavantes, metade da população adulta já é ou vai tornar-se diabética. Ali, o mal progrediu muito rápido”, diz o professor Vieira-Filho.

Também os jovens estão sendo afetados. “A prevalência alta já atinge indivíduos na fase produtiva da vida. Se nada for feito, esses garotos pré-diabéticos têm alta chance de desenvolver a doença em idade precoce e, ao longo da vida, apresentar complicações crônicas que, além de incapacitantes, são causa de morbidade e mortalidade”, diz a professora Regina Moisés, especialista em genética do diabetes. Nos territórios de Sangradouro e São Marcos já podem ser encontrados índios com problemas oftalmológicos, que sofreram amputação do pé ou que fazem hemodiálise em decorrência do mal.



A mudança para a dieta dos brancos altera os hábitos e induz a obesidade.
Políticas de Sedentarização


Para o antropólogo Carlos Fausto, professor do Museu Nacional (UFRJ), o que aconteceu nos últimos anos nas sociedades indígenas no Brasil, “e que já havia ocorrido com outras populações autóctones no resto do mundo”, é um processo de sedentarização ligado à infraestrutura criada pelo Estado para atender essas populações – luz elétrica, gás, água encanada, escola, posto de saúde e tecnologias de locomoção. “Há apenas uma geração, os índios caminhavam até suas roças, remavam para pescar e andavam quilômetros para ir a uma festa em outra aldeia. Hoje, andam de barco a motor, de carro e, às vezes, de moto – como nós, que pegamos elevador, em vez de subir escada”, considera.

Some-se a isso a transição alimentar e um aparato fisiológico mais sensível ao consumo do açúcar, “e provavelmente do sal”. Considerem- se ainda os benefícios que, nos últimos anos, os índios passaram a receber do Estado: Bolsa Família, auxílio maternidade e aposentadoria rural. “Esses recursos são usados para a compra de alimentos baratos, de má qualidade. Trata-se de um aporte de comida industrializada que cresce nos períodos de escassez de caça ou pesca, justamente quando ocorria o emagrecimento.” Por outro lado, o dinheiro franqueia aos índios o acesso a bens, o que torna mais tolerável a assimetria com os brancos. “A aposentadoria, por exemplo, deu aos velhos mais respeitabilidade diante dos jovens, que ficaram ‘metidos’ porque conhecem a língua portuguesa e transitam melhor no mundo dos brancos.”

Carlos Fausto considera que esses fatores induzem uma transição nutricional rápida e criam um paradoxo: se, por um lado, as políticas sociais do governo são positivas, por outro contribuem para tornar a população sedentária, obesa, diabética e hipertensa. “O Ministério da Saúde deveria criar políticas públicas de esclarecimento e educação alimentar, em vez de se limitar às políticas curativas. Mas o poder público não tem interesse nisso e não é capaz de uma ação inteligente. Os riscos vão aumentar, sobretudo porque muitas terras indígenas no Brasil Central, no Nordeste e no Sul não são significativamente grandes para alimentar populações em crescimento.”

“O sexo feminino é o mais afetado”, confirma a pesquisadora. “As mulheres xavantes têm muitos filhos. Faz parte da cultura. Começam por volta dos 14 anos, e as sucessivas gravidezes são acompanhadas pela obesidade. Com o sedentarismo, acabam desenvolvendo o diabetes”, explica.

O I Inquérito Nacional de Saúde e Nutrição dos Povos Indígenas, realizado em 2009 e 2010 com a participação de várias instituições, aponta na mesma direção. Baseado em amostra representativa da totalidade das mulheres indígenas de 14 a 49 anos, nas quatro macrorregiões (Norte, Centro-Oeste, Nordeste e Sul-Sudeste), o estudo envolveu 113 aldeias de diversas etnias e revelou a ocorrência de obesidade, hipertensão arterial e diabetes mellitus em todas as regiões. Conduzido pela Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (Abrasco), foi coordenado pelos pesquisadores Carlos Coimbra Jr., Ricardo Ventura dos Santos e Andrey Cardoso, da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, do Rio de Janeiro; e Bernardo Horta, da Universidade Federal de Pelotas.

“Os dados refletem uma mudança no perfil epidemiológico dos povos indígenas brasileiros, em que as doenças crônicas não transmissíveis começam a assumir um papel expressivo”, diz o epidemiologista Andrey Cardoso. “Em particular no Centro-Oeste e no Sul e Sudeste, sobrepeso e obesidade já se colocam como uma questão de saúde importante para as mulheres indígenas, atingindo mais de 50% delas, assim como a hipertensão arterial, que atinge mais de 15%.”


O professor João Botelho Vieira-Filho (de óculos), da Escola Paulista de Medicina, lidera o estudo sobre obesidade indígena entre os xavantes.


Genética vulnerável
Na base disso tudo está o fato de que a população nativa americana é geneticamente suscetível à obesidade. Estudo realizado por pesquisadores das Américas do Norte, Central e do Sul, entre eles os professores João Paulo Botelho Vieira-Filho e Regina Moisés, verificou a existência de uma variante no gene ABCA1, exclusiva dos ameríndios, associada com dislipidemia (gordura no sangue), obesidade e diabetes.

“Essa variante genética, decorrente de seleção natural ocorrida durante milênios, é favorável à acumulação de energia para períodos de fome e para procriação”, explica o professor Vieira-Filho. Trata-se da genética poupadora de energia descrita pelo geneticista James Neel (1915-2000). “Eles ganhavam peso normal com hidratos de carbono complexo – batata, feijão, mandioca, cará, abóbora. Com o hidrato de carbono simples, do arroz branco, e o açúcar cristalizado, engordam em excesso.”

São muitos os custos decorrentes da difusão da doença. “Treinamos um agente de saúde indígena para aplicar a insulina no Centro de Diabetes da Unifesp, mas há problemas no envio e na conservação da insulina, assim como no descarte adequado das seringas”, explica o professor Laércio Joel Franco. “Também a aplicação regular do medicamento nos doentes nem sempre é possível, pois eles às vezes passam dias fora, caçando ou viajando.”



1977 Nesse ano foram encontradas as primeiras evidências de diabetes, entre os caripunas e os palicures do Amapá

33% DAS MULHERES XAVANTES acima dos 18 anos, das áreas indígenas Sangradouro e São Marcos (MS), têm diabetes

51% DAS MULHERES E 46% DOS HOMENS de Sangradouro e São Marcos são obesos.

Aos 60 anos MORREU O LÍDER XAVANTE MÁRIO JURUNA , em 2002, em decorrência de complicações do diabetes

113 aldeias pesquisadas pelo INQUÉRITO NACIONAL DE SAÚDE E NUTRIÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS mostram ocorrência de obesidade em varias regiões do país



A boa notícia é que o diabetes pode ser prevenido. “Há estudos mostrando que, se o indivíduo mudar o estilo de vida, aumentando a atividade física e adotando dieta adequada, ele previne ou retarda o aparecimento da doença. Mais efetiva que a medicação, a mudança do estilo de vida pode reduzir em 60% a ocorrência da enfermidade”, afirma a professora Regina.

As minorias étnicas devem receber orientação dietética diferenciada. “Assim como os índios desenvolvem obesidade e diabetes com o açúcar, os negros desenvolvem hipertensão arterial com o sal, pois foram selecionados a reter sal diante do calor da África”, explica Vieira-Filho. “Somos todos iguais nos direitos políticos, mas não na genética.”

Revista Planeta

Mares barulhentos

Cientistas suspeitam que atividades humanas contribuem para elevar os níveis de ruído nos oceanos, afetando a saúde e o comportamento da vida marinha. A Unesco e pesquisadores internacionais vão investigar o tema no Experimento Oceano Silencioso Internacional, que deverá durar dez anos.

Wendy Watson-Wright *

A mudança climática global pode ter alterado ambientes invisíveis no último século. A “paisagem sonora” submarina ou o ruído ambiental dos oceanos vem aumentando há décadas, em razão da presença humana nos mares. A exploração industrial crescente dos oceanos introduziu fontes de som submarinas, tais como sonares militares, armas de ar comprimido para exploração de petróleo e gás, fixação de estacas, meios de transporte e navegação de recreio.

Em particular, ao longo das últimas décadas, a contribuição dos navios comerciais para o ruído ambiente cresceu 12 decibéis – um aumento significativo acima do estado natural em alguns locais. Ruídos antrópicos associados a essas atividades e à industrialização têm aumentado em todo o espectro de som submarino, sobretudo na faixa de frequência baixa (<500Hz). Além disso, no oceano as ondas sonoras podem se propagar por centenas de quilômetros.

Estamos apenas começando a entender a grande variedade de sons do oceano e do papel do som na vida e no comportamento dos animais marinhos. Muitos dependem da acústica para perceber o ambiente, para comunicar-se e procurar alimento. Os sons de baixa frequência são muito importantes para várias espécies marinhas, como baleias e golfinhos, e é exatamente essa faixa a que está experimentando o maior aumento de ruídos originários de seres humanos.

As respostas dos animais às mudanças nos sons de fundo, ou até mesmo a fontes de ruído locais, podem ser de difícil observação para os cientistas. Encalhes de peixes ligados a exercícios com sonares militares são a evidência mais facilmente observada de uma resposta comportamental ao estresse do som.

Além disso, suspeita-se da existência de uma síndrome de diminuição da capacidade de desempenhar funções normais em muitas espécies da fauna marinha. Por exemplo, descobriu-se que, na presença de um alto ruído de fundo, diversas espécies de baleias “levantam a voz” ou mudam seus chamados a fim de comunicar-se, ou ainda param de vocalizar todas juntas.

Nosso conhecimento da maneira como a maioria dos organismos marinhos sente e responde comportamentalmente a estímulos sonoros é muito limitado. Precisamos iluminar os tipos de respostas dados por organismos individuais a ruídos diferentes, sobretudo em espécies que já foram identificadas como ameaçadas de extinção.


No experimento que estamos preparando, a ideia de “oceano silencioso” implica comparar as mudanças comportamentais quando o nível de som de fundo muda, seja manipulando diretamente o ruído ambiental, seja realizando estudos do tipo “antes e depois” em locais onde a acústica do oceano muda, tais como antes e durante a construção de projetos marinhos ou quando o tráfego de embarcações pode ser redirecionado de uma área para outra.

O Experimento Oceano Silencioso Internacional (IQOE, na sigla em inglês), que a Unesco promove com pesquisadores de diversos países, é coordenado pelo Comitê Científico de Pesquisa Oceânica e pela Parceria para Observação dos Oceanos do Globo, da qual a Comissão Oceanográfica Intergovernamental da Unesco (IOC, na sigla em inglês) é membro. Por meio do Sistema Global de Observação dos Oceanos, o IOC está envolvido na avaliação da possibilidade de observações sistemáticas globais da “paisagem sonora” do oceano.

Com duração prevista de dez anos, o Experimento visa engajar de forma colaborativa a comunidade oceanográfica mundial, combinando os conhecimentos de oceanógrafos físicos, especialistas em acústica, biólogos comportamentais, modeladores de ecossistema e biólogos populacionais. Os objetivos são quantificar a paisagem sonora do oceano em escala global, determinar os limiares de mudança de comportamento de várias espécies e examinar a relação funcional entre o som e a viabilidade de organismos marinhos fundamentais, em nível individual, no nível das espécies e do ecossistema.

O IOC está desenvolvendo um plano científico para a experiência. Um fórum organizado em Paris, em setembro, permitiu identificar lacunas de informação e recolher contribuições da comunidade científica sobre as pesquisas, as observações e a modelagem de atividades que devem ser incluídas na pesquisa.

A ideia é fazer o IOC facilitar a cooperação internacional e, se necessário, a intergovernamental para resolver esse problema em escala global e integrar medições acústicas contínuas e sustentáveis à nossa compreensão da atividade humana e da mudança climática global.

* Wendy Watson-Wright é secretária-executiva da Comissão Oceanográfica Intergovernamental da Unesco (IOC, na sigla em inglês).
Revista Planeta

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Madagascar: ver para crer

Na costa oriental da África, Madagascar é uma ilha com fartura de recursos ecológicos singulares, mas seus habitantes estão entre os mais pobres do planeta. Ainda se queimam florestas lá, embora se aspire ao renascimento ambiental. Somente a natureza não se contradiz - majestosa e indiferente.
Heitor e Silvia Reali


Paisagem insólita: o baobá Adansonia madagascariensis, o maior da África, chega a atingir 40 metros de altura.



Com vastos 587 mil km² sob o Trópico de Capricórnio, pouco maior que Minas Gerais, Madagascar, quando vista do alto, se assemelha a um barco vagando na costa sudeste da África. Quarta maior ilha do mundo, depois da Groenlândia, da Nova Guiné e do Bornéu, o país é uma arca de Noé à deriva há 160 milhões de anos, quando se separou do supercontinente Gondwana. Nesse território atravessado por um maciço montanhoso antigo, 85% das plantas e dos animais seguiram evolução autônoma e diversa do resto do planeta.



A geografia isolada da ilha oferece uma síntese das mais belas paisagens da Terra. Em poucas horas, passa-se do deserto saariano às montanhas cobertas de florestas subtropicais; dos terraços com plantações de arroz, no estilo indonésio, às extensas planícies com baobás e palmeiras; e dos maciços semelhantes à Chapada Diamantina a praias com recifes e água cristalina, como as da Polinésia.

Os primeiros pesquisadores naturalistas dos séculos 18 e 19 julgavam estar diante do paraíso. "É em Madagascar que posso anunciar aos naturalistas que existe a verdadeira terra prometida a eles; as formas mais insólitas e mais maravilhosas se encontram a cada passo", escreveu em 1771 o botânico francês Joseph- Philibert Commerson. De fato, das 12 mil espécies vegetais existentes na ilha, 9,5 mil são endêmicas, isto é, só crescem ali. Para se ter uma ideia da megadiversidade do país, comparável à da Amazônia, enquanto em todo o continente africano só existe uma espécie de baobá, em Madagascar há sete, entre as quais a singular Adansonia madagascariensis, que atinge 40 metros de altura. Da seiva, retira-se um óleo especial; do tronco, madeira para construção das pirogas (espécie de canoas compridas); e da cortiça, um composto medicinal para combater a epilepsia. O baobá é árvore sagrada para os nativos da ilha, os malgaxes, e ao seu redor se realizam rituais de fertilidade, fartura e prosperidade.

A ilha é o paraíso dos naturalistas: das mais de 12 mil espécies vegetais existentes, 9,5 mil são endêmicas, ou seja, só dão lá

Nas savanas, crescem as pequenas árvores-garrafa, ou pé-de-elefante, e os espinhosos pachypodiuns, que parecem cactos suculentos. Nos bosques espinhosos, surgem a Didieracées trolli e a Ravenala madagascariensis, a palmeirados-viajantes, símbolo do país, com folhas que se abrem como um enorme leque e um caule que sempre tem água acumulada. Também se encontra ali a mais famosa orquídea malgaxe, a Angrecum sesquipedale, fecundada por uma borboleta que desenrola uma língua de 30 centímetros de comprimento para poder beber o néctar acumulado no fundo alongado da flor. Como o visitante é um inseto noturno, a orquídea se veste de branco luminoso para guiar a borboleta na escuridão da floresta. Coisa de desenho animado.





"Tena tsarabê" (muito bonito)
Quando o assunto é geologia, Madagascar desafia a compreensão dos cientistas. Ninguém consegue imaginar como essa ilha pode ser um museu de mineralogia, rica ao mesmo tempo em prata, ouro, níquel, cromo, titânio, monazita, hematita, grafite, mica, quartzo e mais gemas semipreciosas, como topázio, água-marinha, rubi, safira, ametista, amazonita, jaspe, ônix, celestite (de um suave azul), zircônia, turmalinas em tons diversos e cristais.

Nesse cenário singular, que os malgaxes classificam de tena tsarabê ("muito bonito"), cujos segredos as ciências tentam decifrar, a zoologia reforça o ambiente de fábula com os lêmures. Esses animais característicos da fauna da ilha se situam mais próximos ao homem do que o macaco na cadeia evolutiva. O nome lêmure, segundo a crença dos antigos romanos, evoca o espectro dos mortos que voltavam para assombrar os vivos. Os bichos foram assim denominados em virtude dos hábitos noturnos e da aparência espectral dos seus olhos esbugalhados.



Acima, desmatamento em Manantenina, um camaleão da ilha e o extinto pássaro dodô.



Há 30 espécies de lêmure na ilha. O maior e mais elegante é o indri, com seu impressionante grito quase humano. Ele alcança a altura de uma criança de 5 anos; todo coberto de pelo branco e negro, é capaz de executar saltos com impulso de até 10 metros de distância, com uma coreografia próxima à de um bailado. O gracioso sifaka tem penugem branca e máscara negra sobre o nariz. Destacam-se ainda o catta, com longa cauda anelada branca e preta, e os encantadores e pequenos lêmures noturnos, só vistos à luz de lanterna - verdadeiros gnomos da floresta.

Outro animal que faz Madagascar ser reconhecida pela sua megadiversidade especial é o camaleão. Trinta espécies já foram catalogadas, entre elas o Parson, o maior do mundo, com 65 cm de comprimento, e o Brookesia peyrierasi, o menor vertebrado do planeta, com 2 cm. Todos têm em comum a aparência de monstros pré-históricos.

Nessa terra de fauna anômala, chama a atenção a grande variedade de sapos, borboletas e morcegos. Entre estes últimos, os maiores são as raposas- voadoras, que fascinam os zoólogos e parecem guarda-chuvas negros pendurados nas árvores. Há 400 anos, também vivia na ilha o pássaro-elefante, o Aepyornis, uma espécie de avestruz de três metros de altura. Seus ovos, com circunferência de 50 centímetros e peso de 10 quilos, ainda podem ser encontrados nas areias do litoral e são vendidos a colecionadores.

"Tompoko" (quais as novidades?)
Uma viagem a Madagascar não pode ser curta. É necessário algum tempo para assimilar uma cultura tão diversa. Segundo o geógrafo Jared Diamond, os antepassados malgaxes são provenientes da atual China e, antes da África, colonizaram Java e Indonésia. Parte dessa onda migratória resultou nos polinésios, que povoaram as ilhas distantes do leste do Pacífico e do Oceano Índico, chegando, pelo oeste, a Madagascar e Comores, entre os anos 300 e 800 de nossa era. Esse movimento populacional, chamado de expansão austronésia, foi um dos maiores deslocamentos humanos dos últimos 6 mil anos.

Ex-colônia portuguesa e depois francesa, a República Malgaxe nasceu em 1960, passou por diversos golpes de Estado e ditaduras, foi um regime marxista de 1975 a 1993 e hoje é uma república presidencialista. Desde a adoção da Constituição de 1992, pode-se dizer que os ventos da democracia começaram a soprar a favor do desenvolvimento da ilha, principalmente no que se refere ao turismo. O atual presidente é o empresário e ex-disc-jóquei Andry Rajoelina, de apenas 37 anos, ex-prefeito da capital, Antananarivo, posto no poder por um golpe militar em 2009.



A reserva de Ankarana
A natureza de Madagascar se reflete na alegria e na hospitalidade de seus habitantes, mas destoa da pobreza degradante da imensa maioria da população. É aí que reside o calcanhar vulnerável do país. Dos 20 milhões de malgaxes, divididos em 18 etnias (50% seguindo a religião cristã), quase 80% vivem na linha da miséria, com renda mensal de US$ 50 ou menos. No Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Organização das Nações Unidas, que mede riqueza, educação, natalidade e esperança de vida, entre 169 países Madagascar está no modestíssimo 135º lugar.

Tal como na Amazônia brasileira, os malgaxes queimam florestas para abrir caminho à agricultura, usando a técnica do tavy, parecida com a coivara dos índios brasileiros: aproveitam a fertilidade superficial das cinzas, cultivam a terra por um ou dois anos, abandonam a lavoura que vira pasto e vão queimar florestas mais adiante para expandir as culturas. Muitas espécies já desapareceram da ilha, entre elas o famoso e pacífico pássaro dodô, extinto no século 19.

Durante décadas, as vilas malgaxes que ficam ao lado do Maciço de Isalo, no sul da ilha, mantiveram pouco contato com o mundo exterior. Marginalizados pela falta de infraestrutura e pela deficiência dos governos, os aldeões até recentemente foram pouco visitados por turistas. Todos seguem um mesmo padrão de pobreza rústica: casas em adobe, ruas de terra com carroças puxadas por zebus, um ou dois bares, um armazém e mais nada. O comércio é feito diretamente na rua.

Entre os 169 países incluídos no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, Madagascar ocupa o modesto 135º lugar



O mercado de Zoma, na capital
O que se vende? Legumes, frutas, cestas, chapéus (cada etnia usa um modelo próprio) e tecidos estampados em cores vistosas para os lambas, os saris utilizados por homens e mulheres. A vida nesses povoados ganha alegria quando acontecem as festas "dança do pilão" ou da fecundidade. A principal delas é a famadiahana, festa do retorno dos mortos, quando se realiza a exumação dos ossos.

Contudo, à margem do panorama social desalentador, há um sopro de boas notícias - tompoko (quais as novidades?), como dizem os malgaxes. O crédito é do governo de Andry Rajoelina, que está construindo novas estradas e incentivando a iniciativa privada e estrangeira a levantar hotéis e promover o turismo, riqueza inexplorada da ilha.

Rajoelina autorizou a formação de parcerias de organizações não governamentais com o objetivo de comprar terras para o estabelecimento de reservas biológicas e naturais. Nos últimos dois anos, houve redução no desmatamento, a vegetação começou a se recuperar e, mais importante, houve uma acentuada diminuição da pobreza. Sem visitar a ilha não é possível ter ideia da riqueza e da biodiversidade do planeta. É preciso conhecer e salvar o legado de Madagascar.
Revista Planeta

Israel - Terra de leite, mel e petróleo

Israel possui uma das maiores reservas de xisto betuminoso da Terra, e a quantidade de petróleo extraível do querogênio existente nessas rochas praticamente rivaliza com a da Arábia Saudita. O país pode conquistar a independência energética e mudar o xadrez político do Oriente Médio. Mas o custo ambiental é alto.

Eduardo Araia

Uma piada popular entre os israelenses começa com a pergunta: por que Moisés demorou 40 anos para levar os judeus do Egito a Israel? Resposta: porque estava procurando o único lugar no Oriente Médio que não tinha petróleo nem gás. Pela via cômica revela-se uma das grandes vulnerabilidades de Israel, país com recursos energéticos nulos, enquanto a maioria das nações que o cercam nadam em petróleo. A dependência externa em relação ao combustível fóssil (praticamente 100%) e ao gás natural (70%), em meio a vizinhos no mínimo pouco dispostos a ajudá-lo, constitui há décadas um obstáculo logístico para lá de complicado. Esse quadro pode mudar radicalmente.

A sorte da bíblica "terra que mana leite e mel" no setor de hidrocarbonetos começou a virar em 2009, ano da descoberta de um grande campo de gás natural na costa do Mediterrâneo, denominado Tamar, com reservas estimadas em 240 bilhões de metros cúbicos. No ano seguinte veio uma nova surpresa agradável: outro campo no litoral, Leviathan, com reservas em torno de 450 bilhões de m³. Com entrada em operação comercial prevista respectivamente para 2012 e 2015, Tamar e Leviathan devem suprir todas as necessidades de gás de Israel por 50 anos.

Na verdade, as boas notícias estavam só começando. Enquanto as sondagens eram feitas, a empresa Israel Energy Initiatives (IEI), subsidiária da companhia de telecomunicações norte-americana IDT, aprofundava suas pesquisas sobre outra possibilidade: xisto betuminoso. No início da década de 1980, um estudo do Serviço Geológico de Israel havia assinalado que o país pode conter um dos maiores depósitos do mundo de xisto, com boas quantidades de querogênio, um complexo orgânico que contém petróleo.


Uma das perfurações da empresa Israel National Oil, em Arad, na região do Mar Morto.


A IEI começou em 2009 a fazer perfurações numa área de 238 km² que obteve em licenciamento e, por enquanto, os resultados que obteve batem com "as mais altas expectativas" da empresa. As avaliações reforçam projeções de geólogos da IEI de que os depósitos de xisto betuminoso de Israel podem colocar o país numa posição proeminente entre os grandes produtores de petróleo do mundo.

"Numa estimativa conservadora, cerca de 250 bilhões de barris de petróleo estão contidos no xisto israelense - provavelmente o segundo ou terceiro maior depósito de todo o mundo", afirma o físico Harold Vinegar, cientista-chefe da IEI. "A Arábia Saudita (maior produtora global de petróleo) possui reservas de 260 bilhões de barris. Poucas pessoas perceberam que a indústria petrolífera aqui tem um tremendo potencial."

Vinegar merece ser levado a sério. Ex-funcionário da gigante anglo-holandesa Shell, onde trabalhou por 30 anos e foi cientista-chefe, participou ativamente da pesquisa da empresa com xisto betuminoso no supercampo da Bacia de Piceance, no Colorado (Estados Unidos). Ali se estima haver cerca de 800 bilhões de barris de petróleo recuperável, a uma profundidade média de 300 metros. A Shell ainda não extraiu petróleo do xisto do Colorado em bases comerciais, sobretudo por um problema ambiental - o principal aquífero da região de Piceance passa através do depósito de xisto. Mas foi ali que Vinegar desenvolveu uma técnica para baratear o custo da operação que está prestes a ser posta em prática (ver quadro a seguir).

Como tirar óleo de pedra

Extrair petróleo de xisto betuminoso é uma atividade cara e poluente. O método tradicional é o da mineração a céu aberto, cuja viabilidade econômica aumenta se a rocha estiver próxima da superfície. O xisto retirado é então aquecido entre 450°C e 500°C, para que o querogênio nele contido se converta em petróleo leve, de boa qualidade. O custo final do barril obtido por esse processo varia entre US$ 70 e US$ 100 - muito alto, numa época em que o preço do barril em Nova York ronda US$ 85.

Harold Vinegar afirma ter uma alternativa mais vantajosa, que desenvolveu para a Shell dos Estados Unidos. Ela envolve aquecedores horizontais que, colocados nos veios, trabalham a altas temperaturas, sem variações, durante meses. Com o calor liberado, as rochas circundantes levam três anos para transformar querogênio em petróleo, que pode ser bombeado para a superfície.

No projeto da IEI, os aquecedores seriam inicialmente alimentados por eletricidade obtida a partir do gás, abundante e barato nessas áreas, além de emitir quantidades relativamente baixas de gás carbônico. Depois, os aparelhos seriam substituídos por barras de sal fundido, igualmente caloríficas, uma tecnologia mais eficiente já empregada no subsolo de fábricas de produtos químicos e usinas de energia solar. Vinegar calcula que o barril de petróleo extraído dessa forma poderia custar até US$ 35.

Depois de se aposentar na Shell em 2008, Vinegar e sua mulher decidiram se mudar para Israel, onde ele pretendia lecionar. Mas o geólogo-chefe da IEI, Yuval Bartov, que o conhecia dos tempos do Colorado, tinha outros planos. Bartov convenceu o presidente da IDT, Howard Jonas, de que Vinegar era essencial para o projeto do xisto israelense e não demorou para o físico se juntar ao grupo.

Bartov e Vinegar concentram esforços numa área central de Israel, Adullam, onde o Serviço Geológico já havia identificado um veio de xisto betuminoso na década de 1980. Como a camada de rochas estava a cerca de 300 metros de profundidade, não interessou, na época. Vinegar e Bartov, porém, haviam trabalhado com essa mesma profundidade no Colorado e não a consideravam um obstáculo intransponível.

Os bons resultados das pesquisas têm mobilizado muita gente. Por um lado, a IDT, controladora da IEI, viu o preço de suas ações - que haviam baixado a US$ 0,66 na crise de 2008 - subir estratosfericamente para US$ 30 em meados deste ano. A companhia tem atraído investidores pesos-pesados, como o dono da News Corp., Rupert Murdoch, o financista britânico Jacob Rothschild, o ex-vice-presidente norte-americano Dick Cheney e o bilionário administrador de fundos Michael Steinhardt - que, aliás, é o atual presidente da IEI.


Riqueza súbita

A dependência externa israelense de petróleo e gás contrasta com a fartura dos seus vizinhos (apresentada em reservas comprovadas). Mas se forem considerados o petróleo contido no xisto betuminoso e as descobertas de gás no litoral, o país passa a figurar entre os gigantes da região.

Do outro lado, habitantes da região e ecologistas já começaram a se movimentar para dificultar ao máximo o que consideram um crime ambiental. Adullam é conhecida pelas terras férteis e uma de suas partes, o Vale de Elah (onde, segundo a Bíblia, Davi matou Golias com uma pedrada), é chamada de "Vale do Napa israelense", pelos vinhos ali produzidos. Os agricultores estão compreensivelmente preocupados com as potenciais mudanças no ecossistema deflagradas pelas operações da IEI. Um dos principais aquíferos de Israel passa 200 metros abaixo do depósito de xisto. O principal temor é que o processo de extração acabe por contaminá-lo. Bartov e Vinegar juram que não: para eles, a camada de rochas que separa as duas ocorrências é impermeável e impedirá infiltrações. Mas essa argumentação ainda é vista com muita desconfiança. A água vale tanto ou mais que petróleo em Israel.


John Brown, da Zion Oil, procura poços inspirado pela Bíblia. Até agora, sem sucesso.
"Eles estão planejando uma indústria petrolífera experimental, suja e perigosa", diz a ecologista Orit Skutelsky, da Sociedade de Proteção da Natureza de Israel. "O país não é o lugar para esse tipo de indústria, especialmente esta parte dele." Chagit Tishler, professora que mora numa cooperativa próxima de Elah, compartilha dessa visão: "Há muitas incertezas e incógnitas. Eles (o pessoal da IEI) não estão sendo completamente honestos conosco. Não queremos ser cobaias." No Canadá, a exploração do xisto betuminoso gera muitas críticas e protestos.

Vários grupos ecologistas impetraram na Justiça ações contra o prosseguimento dos trabalhos da IEI, por enquanto sem resultados palpáveis. A Suprema Corte israelense decidiu que só examinará o caso a partir de abril de 2012. Com isso, a IEI poderá iniciar ainda este ano uma nova etapa dos trabalhos: a perfuração de três poços com três metros de espaço entre eles e o aquecimento das rochas durante 270 dias, como amostra do processo in loco que resultaria na extração de 2 mil barris de petróleo por dia.

A sequência do caminho, porém, não deverá ser nada fácil: a empresa terá de obter do Ministério do Interior uma licença de permissão de uso da terra, a qual será ou não aprovada a partir da avaliação do ministro e de um comitê de planejamento, integrado por representantes do Ministério de Proteção do Meio Ambiente e de comunidades locais. Bartov prevê dificuldades: "Achamos que o ministro do Meio Ambiente não quer que esse projeto aconteça", confessa. Sua esperança é que as razões geopolíticas - e a promessa de reduzir as emissões de gases de efeito estufa na exploração do xisto - vençam a resistência. "A independência energética de Israel se tornará algo muito importante para o Estado", diz Michael Steinhardt. Nos próximos meses Israel deverá decidir qual caminho seguir nessa encruzilhada.

Tentativas frustradas

Na década de 1930, geólogos britânicos procuraram petróleo infrutiferamente nas terras que viriam a constituir o Estado judeu na década seguinte. A busca parecia perto do fim em 1955, quando uma equipe norte-americana e israelense encontrou óleo de boa qualidade no campo de Heletz-Kokhav. Mas logo a boa-nova deu lugar à desilusão: nenhum outro campo foi descoberto e a produção de Heletz-Kokhav esgotou- se ao atingir 17,5 milhões de barris (cerca de três dias de produção da Arábia Saudita
). Entre 1960 e 1985, a Israel National Oil perfurou 500 poços no país. Nenhum foi bem-sucedido. Depois de virar motivo de piada, a empresa interrompeu as perfurações em 1986.

A saída de cena foi a deixa para amadores movidos por motivos religiosos. O evangélico norte-americano Jim Spillman publicou um livro em 1981, The Great Treasure Hunt (A Grande Caçada ao Tesouro), no qual vê em versos do Velho Testamento indícios da presença do líquido precioso na região. A obra estimulou um conterrâneo, John Brown, executivo de uma indústria de ferramentas, a constituir a empresa Zion Oil and Gas para se dedicar à busca, que adquiriu direitos de perfuração no norte de Israel. Mas tampouco obteve sucesso.
Revista Planeta

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A geografia do carnaval carioca

Estudo relaciona o surgimento das escolas de samba à urbanização da cidade
Catarina Chagas

Não é só em fevereiro que a Sapucaí atrai atenções: o geógrafo Marcelo Pereira Matos, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), respira carnaval o ano inteiro. Há cinco anos, ele estuda as relações entre o desenvolvimento urbano do Rio de Janeiro e a proliferação das escolas de samba. Para isso, determinou três períodos distintos da história dos desfiles: 1932-1942, 1943-1983 e 1984-2001.



Carnaval popular na avenida Rio Branco, em 1969 (fotos: Arquivo Nacional)


Quando as escolas começaram a surgir, eram atrações secundárias em relação às grandes manifestações do carnaval da época . Cerca de 100 integrantes desfilavam na Praça Onze, numa passarela formada entre arquibancadas desmontáveis. O primeiro desfile formal, em 1932, foi realizado com o patrocínio do Jornal Mundo Sportivo . A prefeitura oficializou o evento em 1935.

Durante o período inicial das apresentações, grande parte da população de baixa renda morava na área central do Rio e as escolas, como a Deixa-Falar (a primeira da cidade), se concentravam sobretudo no núcleo metropolitano. O contexto político do Estado Novo influenciou decisivamente as agremiações, que eram obrigadas a apresentar em seus enredos temas nacionalistas e sofriam forte repressão policial.


No início do século, havia, além das escolas de samba, desfilavam também as chamadas grandes sociedades. Essas associações de elite se apresentavam em carros puxados por burros. A foto acima retrata a Sociedade Pierrot da Caverna

A partir de 1943, o desenvolvimento levou à reestruturação do centro e provocou alterações fundamentais na estrutura urbana. As obras forçaram sucessivas mudanças na localização da folia, que passou pelas avenidas Rio Branco e Presidente Antônio Carlos antes de se instalar definitivamente na avenida Marquês de Sapucaí, em 1978.


O segundo período da história das escolas de samba -- considerado seu auge -- foi marcado pelo surgimento de novas agremiações. Apesar da estagnação da área central do Rio como local de moradia, a cidade cresceu muito na periferia e as escolas acompanharam a expansão rumo às zonas Norte e Oeste, direcionada pelo traçado das linhas de trem.

Segundo Matos, o sentimento de comunidade, mais forte na periferia, é fundamental tanto para a criação de uma escola de samba quanto para sua sobrevivência. "Analisando o próprio nome das escolas, podemos observar a referência espacial e a ideologia da união de uma comunidade", explica. O pesquisador reuniu mais de 70 nomes que comprovam essa afirmativa, entre eles agremiações famosas como Unidos da Tijuca ou Acadêmicos do Salgueiro.

Com a inauguração do Sambódromo, em 1984, o desfile passou a obedecer a regras externas (como as exigências feitas pelas emissoras de TV), tornou-se palco da promoção de artistas famosos e minimizou a importância das próprias comunidades.

Apesar disso, comunidades de áreas recentemente ocupadas e novas favelas se organizaram em novas agremiações, como a Renascer de Jacarepaguá. Cresceu também a quantidade de escolas na periferia e em outros municípios da região metropolitana. A distribuição das escolas estendeu-se, enfim, por todos os espaços do Rio de Janeiro. "Afinal, a estrutura urbana constitui, ao mesmo tempo, o território das políticas urbanas e o território das práticas sociais e manifestações culturais", conclui Matos.

História do Carnaval
Até o início do século 20, o carnaval tinha outra cara. Sua primeira manifestação veio com os portugueses no século 17: o entrudo. Essa brincadeira democrática entre escravos e senhores durou três séculos, até que atos de violência levaram à proibição do festejo. Mais tarde, a festa foi retomada com a apresentação dos ranchos (formados pelos baianos que vinham morar na cidade), corsos (desfiles de carros enfeitados) e grandes sociedades (associações de elite que desfilavam em carros alegóricos com mensagens políticas). Nesse contexto, surgiram as escolas de samba, a partir da década de 1930.
Revista Ciência Hoje

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